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Racismo e preconceito em uma história de superação

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Maria Santiago. Licenciada em Ciências Sociais pela UNIR,  Coordenadora Estadual de Formação do Movimento Negro Unificado – MNU e Educadora Popular (Foto: Marcos Jorge Dias)

“Olha, esta negrinha, esta negrinha é mulher de Francesco. Ela é brasiliana e casou com meu filho”.

Com essas palavras  Maria Santiago (60 anos)  foi apresentada pela sogra italiana, aos familiares do marido.

Para quem nunca sentiu na pele a dor do preconceito racial, a ausência de direitos e a mercantilização de seu corpo e acha que o preconceito e o racismo  são questões de um passado remoto, a história de uma mulher acreana, negra, vem nos mostrar que os resquícios da escravidão continuam presentes nos dias atuais.

Nascida no Seringal ôco do mundo, KM 86 da Br 364, sentido Rio Branco-Porto Velho, a história de Santi (assim chamada pelos amigos) em princípio não difere muito da história das meninas nascidas nas brenhas das matas dos seringais acreanos. 

Independente da cor da pele, desde cedo elas são condicionadas a ajudar a mãe nos afazeres domésticos, algumas nem chegam a puberdade (entre os 8 e 13 anos de idade) e são “negociadas” com algum amigo ou conhecido do pai, sob o argumento de que já é hora de ter uma marido que a sustente. Santi queria fugir  dessa pré-destinação histórica. Queria estudar!  Mas no ôco do mundo não tinha escola. Então, por várias vezes tentou sair do Seringal para estudar na cidade, Rio Branco.

Santiago começa sua história contando que certa vez (durante as campanhas eleitorais), um homem de nome Manoel passou por lá e pediu ao pai dela que permitisse trazê-la para trabalhar como empregada doméstica na  casa dele  e que assim (ela) poderia estudar, pois havia uma escola próxima.

Maria Santiago:  – “Era uma casa na Rua 6 de Agosto e, realmente, havia uma escola próxima. Mas, depois de uns seis meses trabalhando em troca de comida e moradia a família não me matriculou na escola. Um dia, enquanto eu varria o quintal  vi passar na frente da casa uma pessoa conhecida e pedi para comunicar a minha mãe que eu estava querendo ir para casa.

MJ: –  Nesse ponto,  a sua história me lembra o tráfico de escravos africanos trazidos para o Brasil no ínicio do Seculo XVI.  Um sistema desumano que fez das pessoas negras a mercadoria que serviu de base à economia brasileira por mais de 300 anos.

Três dias depois a mãe chegou para levá-la. Contudo,  a dona da casa, além de reclamar muito, alegou não ter com o que pagar. Então,  encheu uma sacola com roupas usadas  e entregou à mãe, como forma de pagamento. Voltando ao seringal Santiago não desistiu de seus sonhos.

Maria Santiago:“A segunda vez que tentei vir estudar na cidade, fui trabalhar na casa de duas irmãs, médicas,  que moravam na Avenida Getúlio Vargas. E lá foi a mesmo coisa: trabalhei por meses e nunca recebei 1 centavo. E eu não me dava conta por que essas coisas aconteciam com a gente.”

MJ: –  Essa é uma situação que segundo a pesquisadora Raísa Alves da Silva Almeida(2021), “a Lei  Áurea apenas mascarou a ausência de justiça social, pois não reparou às agressões sofridas, não garantiu direitos básico nem condições mínimas de sobrevivência às pessoas escravizadas” (Fonte: https://portal.unit.br)

Maria Santiago: – Mais uma vez retornei  ao Seringal. Naquele tempo a BR 364 já tinha sido aberta no trecho Rio Branco-Porto Velho e a Igreja católica estava chegando com as Comunidades Eclesiais de base, os CEB’s.

 Aí tinha o Padre José… foi quando conheci o Nilson Mourão, o João Maia, o Abrahim Farhat, qua andavam por ali fazendo reunião para organizar a Confederação dos Trabalhadores em Agricultura – CONTAG e fazendo o enfrentamento aos chamados paulistas que estavam chegando para ocupar os seringais e transformar em fazenda. Foi nesse tempo,  também, que conheci a irmã Fábia, uma pessoa muito atuante, muito ativa e em quem eu me inspirei. Eu queria ser igual a ela”.

Através da irmã Fábia eu vim morar na casa das irmãs, na casa madre Elisa, que é ali no segundo distrito, no Colégio Imacualada Conceição. Eu morei três anos e sete meses com elas. Ai eu entrei no convento, semi-analfabeta, porque eu tinha estuda muito pouco (uns seis meses) numa escolinha que tinha sido aberta lá (no seringal)  mas tive de sair por conta da idade que não permitia mais.

Na casa das irmãs eu conclui a 5ª série no Colégio Imaculada e depois eu fui fazer o supletivo, que na época era transmitido pelo rádio. Depois fui fazer educação integrada, que eram os programas que tinha. Foi onde eu realmente fui aprender a ler. Esse período em que eu morei com as iramãs foi um período muito bacana, eu aprendi muitas coisas. Depois eu saí e entrei no Movimento Sindical Rural aqui. Isso foi mais ou menos em 1985, 86.

Mais uma mudança, novos desafios.

Com os olhos enevoados pelas lembranças, Santiago segue narrando sua trajetória de vida.

Em 1988, vai morar na cidade de Ji-Paraná no estado de Rondônia e lá chegando entra “de cabeça” no Movimento sindical e no Movimento Negro, passando também pelo Movimento de mulheres.

Em dezembro de 1989, já estava na direção Nacional da  Central Única dos Trabalhadores – CUT, onde assumiu a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras rurais. Nesse trabalho ficou por mais de sete anos e foi onde teve a oportunidade de discutir e realizar várias pautas de suma importância: primeiro o reconhecimento do trabalho rural feminino enquanto profissão; salário maternidade; documentação; o direito à terra e a aposentadoria. Até então,  a mulher trabalhadora rural não tinha direito a aposentadoria. Quando o marido morria elas recebiam uma ajuda que se chamava “fundo rural”.  Maria Santiago: – Foi um período de muita luta, muitas ações. A gente fazia várias caravanas de todos os Estados para as mulheres irem para Brasília e ficávamos acampadas lá no Estádio Mané Garrincha, às vezes uma, duas semanas e até mais, para reivindicar nossos direitos. Hoje, olhando para trás eu vejo o tanto que conquistamos. Além do que já falei, as trabalhadoras rurais hoje tem direito à terra, a financiamentos,

O racismo familiar estrutural

MJ: – Nessa sua trajetória, em quais momentos você sentiu na pele o preconceito, o racismo e recorreu ao Estado ou a alguma instituição de defesa de Direitos Humanos?

Maria Santiago: – Eu não tinha consciência que esses problemas que eu enfrentei estavam vinculados a uma prática de racismo. Hoje eu tenho. Hoje eu percebo de longe quando vejo uma menina ou qualquer pessoa  que esteja em situação degradante de trabalho, eu percebo, que tem a questão da exploração e que ela vem sempre casada com a prática do racismo.

E essas coisas, a gente só vai percebendo  quando você vai tomando consciência de quem você é nessa sociedade. Foi a partir daí que eu  tomei consciência de que eu era uma pessoa negra, uma mulher negra, uma menina que veio de família pobre,  com muitas dificuldades e aí foi quando eu comecei a perceber.

Assim… tem muitas coisas que quando a gente não percebe, não são tão doloridas. Mas quando a gente toma conhecimento, elas batem muito forte, como uma chicotada. Eu lembro que quando casei, meu ex-marido é um italiano e a família dele é toda do Sul. Então, a primeira vez que eu fui ao Sul foi em 1989. A gente casou em dezembro e em janeiro viajamos,  fomos lá para conhecer a família dele. Aí,  a mãe dele me apresentava  desse jeito: “Olha, esta negrinha, esta negrinha é mulher de Francesco. Ela é brasiliana e casou com meu filho”.Eu percebia que havia ali  preoconceito e racismo. Foi muito conflituoso e revoltante para mim ser apresentada para a família dessa forma.

Outra situação de preconceito foi relação aos colares que eu usava há época. Esses colares índígenas da nossa região. Eles tinham muito preconceito com os colares.  Havia uma cunhada dele que dizia que quando eu entrei na casa dela o meu  colar tinha  espatifado e as coisas tinham quebrado. E, isso nunca aconteceu. Ela me associava a uma macaumbeira, com as religiões de matriz africana e  porque eu usava meu cabelo com tranças rastafary. Foi um período muito difícil  para mim.

Mesmo depois que “a negrinha”, mulher de Francesco,  teve a oportunidade de viajar e conhecer a Itália (coisa que alguns deles nunca puderam fazer),  quando voltei, eu era maior motivo de orgulho da família, porque tinha conhecido a Itália. Com o tempo foram sumindo as palavras, mas a resistência e os preconceitos eu percebia que continuavam camuflados.

MJ: – Hoje,  enquanto Coordenadora Estadual de Formação do MNU e Educadora Popular, que transita nos chamados “espaços de poder” que são tipicamente masculinos, principalmnete na política, você sente que há resistência ao seu perfil ?

Maria Santiago: – Quanto a isso a gente tem duas questões muito bem definidas: Primeiro é questão de ser mulher e ocupar os espaços de poder. Isso é uma dificuldade para todas as mulheres. Agora, em se tratando da mulher negra isso é pior.

Por exemplo, eu que sempre estive na Política, as pessoas olham para mim e costumam dizer: “ah, ela sabe falar de política e tal”, mas nunca me vê como um profissional, como uma  socióloga, uma pessoa que tem capacidade de fazer várias outras coisas. É difícil ter de estar todo o tempo provando para as pessoas do que você é capaz.

Além de ser uma das grandes dificuldades, isso é colocado como um  diferencial para você estar ocupando esses espaços de poder.  As vezes o que te dá a possibilidade de ocupar um espaço de poder é um belo de um currículo e  de modo geral as pessoas não vêm isso e você acaba ficando sempre nos bastidores da política. Essa é a realidade dos espaços de poder.

Assim, para finalizar, não  posso deixa de fazer aqui uma referência a ativista pelos direitos dos negros e das mulheres, a americana Angela Davis:

 “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”

*A Lei Nº 1.390,  de 3 de julho de 1951, que leva o nome do seu autor (Deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco), é um marco na trajetória das lutas da população negra no enfrentamento ao racismo, à discriminação e na conquista de Direitos individuais e coletivos.(Fonte: https://www.gov.br/palmares)

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Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco

Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana

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Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães

O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.

Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.

A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.

Um bairro que aprendeu a conviver com o medo

O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.

Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.

Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.

A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.

“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.

Doze dias de busca, três meses de espera

O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.

“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.

O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis

Uma nova estrutura, a mesma memória

Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.

Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.

“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.

Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.

 “Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.

Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.

Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães

Tragédia marcou quem acompanhou de perto

O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.

“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.

Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.

“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.

Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.

“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.

Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.

Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.

No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis

Mais que uma travessia, um aviso

Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.

“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.

A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.

“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.

Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.

Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.

Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.

E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme

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Rotas

Com bolsa integral garantida, acreano aprovado em Princeton se prepara para deixar o Brasil em setembro

Dedicação aos estudos marca a trajetória do ex-aluno do Colégio de Aplicação que inicia graduação no exterior aos 17 anos

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Por Rian Pablo

Aos 17 anos, o acreano Diego Heitor da Silva Monteiro alcançou um feito histórico: foi aprovado na Princeton University (Universidade de Princeton), uma das instituições mais prestigiadas do mundo, localizada nos Estados Unidos. Ex-aluno do Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde concluiu o terceiro ano do ensino médio, Diego se prepara agora para iniciar uma nova fase da vida acadêmica fora do Brasil, com interesse na área de Psicologia.

A decisão de estudar fora do país começou cedo na adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos, Diego sonhava em cursar parte de sua formação no exterior. A primeira tentativa foi por meio do programa United World Colleges (UWC), oportunidade que não se concretizou e trouxe frustração naquele momento. No entanto, a notícia ruim não o fez desistir, pelo contrário: serviu como combustível para continuar tentando.

A construção da aprovação

Durante o ensino médio, Diego acumulou experiências internacionais que fortaleceram seu percurso. Aos 16, foi selecionado para o programa Jovens Embaixadores, conquistando uma bolsa completa para os Estados Unidos. Também participou do Global Youth Sustainability Academy, na China, onde teve contato com diferentes cidades e culturas do país. Foi justamente durante essa experiência no país asiático que a ideia de estudar em Princeton se tornou uma certeza.

O processo de candidatura foi intenso e exigiu disciplina. Conciliando aulas em tempo integral, provas, projetos escolares e atividades extracurriculares, Diego precisou se preparar para o ACT (American College Testing), exame equivalente ao Exame Nacional do Ensino Medio (Enem) brasileiro.

“Era uma rotina muito cansativa e desgastante”, relembra.

Segundo ele, o processo seletivo de universidades como Princeton vai muito além das notas. São avaliados o histórico escolar, redações autobiográficas em inglês, premiações, experiências pessoais, domínio do idioma e desempenho em testes padronizados. Mesmo assim, as notas continuam sendo um critério rigoroso. Diego foi aprovado com média 9,7, acima do padrão exigido para estudantes brasileiros que ingressam em instituições norte-americanas de elite.

Durante o ensino médio no Acre, Diego conciliou uma rotina intensa de estudos e preparação para processos seletivos internacionais. Foto: reprodução.

Entre os diferenciais que acredita terem pesado a seu favor, está a aprovação no programa Tech Education Student Support (TESS), um dos mais concorridos programas de verão dos Estados Unidos, que aceita apenas cerca de 3% dos inscritos. Além disso, Diego destaca a força de sua história pessoal. Nos textos enviados à universidade, fez questão de ressaltar o orgulho de ser acreano, as dificuldades enfrentadas, a escassez de recursos e o fato de ter aprendido inglês de forma autodidata, por meio da internet, já que não tinha condições de pagar um curso.

A resposta da universidade chegou no dia 11 de dezembro, após Diego ter enviado sua candidatura em período antecipado, no dia 1º de novembro. Exausto após meses de preparação, ele não alimentava grandes expectativas. Ao abrir o e-mail de Princeton veio a surpresa. A aprovação, considerada inédita para um estudante acreano, provocou uma reação de incredulidade e emoção. O momento, registrado em vídeo, marcou a concretização de esforço e incertezas.

Além da vaga, Diego recebeu uma bolsa integral, que cobre todos os custos da graduação da alimentação aos materiais acadêmicos em um valor estimado em 97 mil dólares por ano (480 mil convertidos em reais). Para ele, a confirmação veio como um alívio e, ao mesmo tempo, como a prova de que todo o caminho percorrido havia valido a pena.

Diego Heitor da Silva Monteiro, de 17 anos, aprovado na Universidade de Princeton. Foto: arquivo pessoal

Expectativa antes da partida

Mesmo com a alegria, o sentimento está sendo assimilado aos poucos. A mudança para outro país, prevista para setembro, traz ansiedade. Muito ligado à família e aos amigos, Diego reconhece o desafio de passar quatro anos nos Estados Unidos, mas acredita que as experiências anteriores o prepararam para esse momento.

Para o futuro, ele espera explorar diferentes áreas do conhecimento, confirmar se a Psicologia será mesmo o caminho escolhido e, principalmente, conhecer pessoas de diversas partes do mundo. “Sempre gostei de estudar e aprender um pouco de tudo”, afirma.

A mensagem que Diego deixa para outros jovens que sonham em trilhar o mesmo caminho é clara: arriscar-se. “Nunca perder uma oportunidade de tentar. Tudo o que vivi desde novo foi necessário para chegar até aqui. No final, você não perde nada só ganha e soma na sua vida”.

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Quando o rio dita o ritmo da economia

Com a cheia, a economia apresenta alto rendimento, por outro lado, a seca reduz o fluxo, limita oportunidades e afeta quem vive do rio

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Por José Henrique e Miguel Feitosa

Para muitos empreendedores, o Rio Acre é mais do que paisagem: é fonte de renda, trabalho e sobrevivência. No entanto, entre dois extremos a cheia e a seca o comportamento do rio impõe desafios constantes a quem depende do comércio às suas margens. Em Rio Branco, o nível das águas influencia diretamente o fluxo de pessoas, o funcionamento de negócios e a estabilidade financeira de famílias inteiras.

O mesmo rio que, em determinados períodos, garante sustento, em outros expõe desigualdades. Durante a cheia, o aumento do nível das águas intensifica a movimentação no Calçadão da Gameleira, ponto turístico às margens do Rio Acre, atraindo visitantes e fortalecendo o comércio local. Em contrapartida, esse mesmo avanço do rio provoca alagamentos em áreas vulneráveis da cidade, obrigando famílias a deixarem suas casas e buscarem abrigo temporário no Parque de Exposições Wildy Viana das Neves, Loteamento Santa Helena.

Segundo Júlia Alves, 55 anos, vendedora de bananas salgadas e doces credenciada pela Prefeitura de Rio Branco, a cheia do Rio Acre representa tanto oportunidade quanto desafio. Ela explica que o aumento do nível das águas atrai mais pessoas ao Calçadão da Gameleira, o que impulsiona as vendas e garante seu sustento.

Júlia Alves, vendedora local, vê na cheia do Rio Acre sustento e desafio. Foto: Miguel Feitosa

“Quando o nível do rio aumenta, a gente consegue vender mais. Mas também fico triste, porque esse mesmo rio, tão bonito, acaba destruindo ao mesmo tempo em que sustenta”, relata.

Embora não esteja presente diariamente no Calçadão, Júlia atua de forma estratégica, aproveitando os períodos de maior movimento. Já nos momentos de seca ou menor fluxo de visitantes, ela se desloca para outros pontos da cidade, adaptando-se às variações impostas pelo comportamento do rio.

O trabalho da vendedora evidencia como a economia local é diretamente influenciada pela geografia da cidade. O Calçadão da Gameleira funciona como ponto de encontro cultural e comercial, onde moradores, turistas e empreendedores compartilham o mesmo espaço, conectados pelo Rio Acre.

Bar do Zé do Branco: cinco décadas à beira do rio

Fundado há cerca de 50 anos, o Bar do Zé do Branco, localizado no bairro da Base, carrega uma história profundamente ligada ao Rio Acre. O empreendimento surgiu na década de 1970, período em que o rio ainda funcionava como importante via de transporte e circulação.

O fundador, José Antônio Vera, hoje com 69 anos, conhecido como Zé do Branco, relembra que o bar nasceu junto à empresa familiar Irmãos Lameira, voltada ao transporte.

Zé do Branco, fundador do bar que há 50 anos acompanha o ritmo do Acre. Foto: José Henrique

“Na época, a gente tinha uma empresa de transporte, com cobrador, motorista e fiscal. Aí resolvemos lançar um bar na frente da empresa, e deu certo”, conta.

Ao longo das décadas, Zé acompanhou as transformações do território e do próprio rio, que deixou de ser apenas estrada para se tornar também símbolo turístico. Sua trajetória representa uma geração que aprendeu a trabalhar respeitando o ritmo das águas, adaptando-se às cheias e às secas.

Para ele, embora a cheia contribua significativamente para o aumento das vendas, impulsionada pela atratividade do Rio Acre cheio e por suas belezas naturais, o período de alerta da cota de transbordo gera insegurança. O empreendedor vive em estado de atenção, sem saber até que ponto as águas serão um benefício, já que, a qualquer momento, o nível do rio pode subir e causar a perda de mercadorias.

“A gente ganha mais movimento quando o rio tá cheio, mas também fica com medo. Qualquer subida de repente pode levar tudo”, relata.

Restaurante Flutuante Malveira: empreender sobre as águas

Assim como o Bar do Zé do Branco, o Restaurante Flutuante Malveira tem sua história diretamente vinculada ao Rio Acre. Instalado às margens do rio, o empreendimento nasceu de uma relação familiar com a água, marcada pelo trabalho e pela memória.

De acordo com Carla Malveira, de 19 anos, filha do proprietário, o nome do restaurante faz referência ao sobrenome da família, herdado do avô, José Malveira. Antes da construção do flutuante, a família mantinha a embarcação Comandante Malveira, utilizada no Rio Acre.

Construído como espaço de lazer familiar, o local começou a receber amigos e conhecidos, transformando-se gradualmente em empreendimento comercial. Há cerca de três anos instalado na atual localização, o restaurante vive uma rotina totalmente condicionada às variações do nível do rio.

Durante a cheia, o Rio Acre atua como fator de atração, facilitando o acesso, valorizando a paisagem e ampliando o fluxo de visitantes.  Segundo Carla Malveira, é nesse período que o restaurante registra maior movimento.

Do barco ao flutuante, a família Malveira construiu seu negócio no Rio Acre. Foto: José Henrique

“Quando o rio está cheio, o acesso fica melhor e as pessoas vêm pela paisagem e pelo clima do lugar. Já na seca é mais difícil chegar até aqui, o movimento cai bastante e isso afeta diretamente o nosso faturamento”, relata.

Seca também impõe desafios

Se a cheia impulsiona o turismo e o comércio, a seca representa o outro lado da dinâmica do Rio Acre. Com o nível do rio mais baixo, o fluxo de visitantes diminui e o acesso aos flutuantes se torna mais difícil, já que a escada de entrada aumenta conforme a água recua. Negócios que dependem da paisagem e da navegação enfrentam retração e precisam se adaptar para manter o funcionamento.

A alternância entre períodos de cheia e seca tem se tornado mais frequente, exigindo ajustes constantes de quem vive e empreende às margens do rio.

Turismo e políticas de incentivo

A movimentação gerada pelo rio reforça a importância de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo e à economia criativa. Segundo o secretário de Estado de Empreendedorismo e Turismo, Marcelo Messias, o Rio Acre é um importante vetor econômico para a capital.

Secretário de Turismo e Empreendedorismo, Marcelo Messias, na GCF Task Force, realizada em 2025, em Rio Branco. Foto: Bruno Moraes/Sete

“No período de cheia, o Rio Acre atrai moradores e turistas para a região da Gameleira, fortalecendo o comércio local e o empreendedorismo. Restaurantes, lanchonetes, a Casa do Artesanato e outros espaços são diretamente beneficiados por essa movimentação, que alia geração de renda, cultura e lazer”, destaca.

Entre a cheia que movimenta o comércio e a seca que impõe limites, o Rio Acre segue determinando o ritmo da economia local. Para empreendedores como Júlia, Zé do Branco e a família Malveira, viver do rio é conviver diariamente com oportunidades e incertezas, em um território onde a água não apenas desenha a paisagem, mas molda modos de vida, trabalho e resistência.

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