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Quando o rio dita o ritmo da economia
Com a cheia, a economia apresenta alto rendimento, por outro lado, a seca reduz o fluxo, limita oportunidades e afeta quem vive do rio
Publicado há
5 meses atrásem
por
Redação
Por José Henrique e Miguel Feitosa
Para muitos empreendedores, o Rio Acre é mais do que paisagem: é fonte de renda, trabalho e sobrevivência. No entanto, entre dois extremos a cheia e a seca o comportamento do rio impõe desafios constantes a quem depende do comércio às suas margens. Em Rio Branco, o nível das águas influencia diretamente o fluxo de pessoas, o funcionamento de negócios e a estabilidade financeira de famílias inteiras.
O mesmo rio que, em determinados períodos, garante sustento, em outros expõe desigualdades. Durante a cheia, o aumento do nível das águas intensifica a movimentação no Calçadão da Gameleira, ponto turístico às margens do Rio Acre, atraindo visitantes e fortalecendo o comércio local. Em contrapartida, esse mesmo avanço do rio provoca alagamentos em áreas vulneráveis da cidade, obrigando famílias a deixarem suas casas e buscarem abrigo temporário no Parque de Exposições Wildy Viana das Neves, Loteamento Santa Helena.
Segundo Júlia Alves, 55 anos, vendedora de bananas salgadas e doces credenciada pela Prefeitura de Rio Branco, a cheia do Rio Acre representa tanto oportunidade quanto desafio. Ela explica que o aumento do nível das águas atrai mais pessoas ao Calçadão da Gameleira, o que impulsiona as vendas e garante seu sustento.

Júlia Alves, vendedora local, vê na cheia do Rio Acre sustento e desafio. Foto: Miguel Feitosa
“Quando o nível do rio aumenta, a gente consegue vender mais. Mas também fico triste, porque esse mesmo rio, tão bonito, acaba destruindo ao mesmo tempo em que sustenta”, relata.
Embora não esteja presente diariamente no Calçadão, Júlia atua de forma estratégica, aproveitando os períodos de maior movimento. Já nos momentos de seca ou menor fluxo de visitantes, ela se desloca para outros pontos da cidade, adaptando-se às variações impostas pelo comportamento do rio.
O trabalho da vendedora evidencia como a economia local é diretamente influenciada pela geografia da cidade. O Calçadão da Gameleira funciona como ponto de encontro cultural e comercial, onde moradores, turistas e empreendedores compartilham o mesmo espaço, conectados pelo Rio Acre.
Bar do Zé do Branco: cinco décadas à beira do rio
Fundado há cerca de 50 anos, o Bar do Zé do Branco, localizado no bairro da Base, carrega uma história profundamente ligada ao Rio Acre. O empreendimento surgiu na década de 1970, período em que o rio ainda funcionava como importante via de transporte e circulação.
O fundador, José Antônio Vera, hoje com 69 anos, conhecido como Zé do Branco, relembra que o bar nasceu junto à empresa familiar Irmãos Lameira, voltada ao transporte.

Zé do Branco, fundador do bar que há 50 anos acompanha o ritmo do Acre. Foto: José Henrique
“Na época, a gente tinha uma empresa de transporte, com cobrador, motorista e fiscal. Aí resolvemos lançar um bar na frente da empresa, e deu certo”, conta.
Ao longo das décadas, Zé acompanhou as transformações do território e do próprio rio, que deixou de ser apenas estrada para se tornar também símbolo turístico. Sua trajetória representa uma geração que aprendeu a trabalhar respeitando o ritmo das águas, adaptando-se às cheias e às secas.
Para ele, embora a cheia contribua significativamente para o aumento das vendas, impulsionada pela atratividade do Rio Acre cheio e por suas belezas naturais, o período de alerta da cota de transbordo gera insegurança. O empreendedor vive em estado de atenção, sem saber até que ponto as águas serão um benefício, já que, a qualquer momento, o nível do rio pode subir e causar a perda de mercadorias.
“A gente ganha mais movimento quando o rio tá cheio, mas também fica com medo. Qualquer subida de repente pode levar tudo”, relata.
Restaurante Flutuante Malveira: empreender sobre as águas
Assim como o Bar do Zé do Branco, o Restaurante Flutuante Malveira tem sua história diretamente vinculada ao Rio Acre. Instalado às margens do rio, o empreendimento nasceu de uma relação familiar com a água, marcada pelo trabalho e pela memória.
De acordo com Carla Malveira, de 19 anos, filha do proprietário, o nome do restaurante faz referência ao sobrenome da família, herdado do avô, José Malveira. Antes da construção do flutuante, a família mantinha a embarcação Comandante Malveira, utilizada no Rio Acre.
Construído como espaço de lazer familiar, o local começou a receber amigos e conhecidos, transformando-se gradualmente em empreendimento comercial. Há cerca de três anos instalado na atual localização, o restaurante vive uma rotina totalmente condicionada às variações do nível do rio.
Durante a cheia, o Rio Acre atua como fator de atração, facilitando o acesso, valorizando a paisagem e ampliando o fluxo de visitantes. Segundo Carla Malveira, é nesse período que o restaurante registra maior movimento.

Do barco ao flutuante, a família Malveira construiu seu negócio no Rio Acre. Foto: José Henrique
“Quando o rio está cheio, o acesso fica melhor e as pessoas vêm pela paisagem e pelo clima do lugar. Já na seca é mais difícil chegar até aqui, o movimento cai bastante e isso afeta diretamente o nosso faturamento”, relata.
Seca também impõe desafios
Se a cheia impulsiona o turismo e o comércio, a seca representa o outro lado da dinâmica do Rio Acre. Com o nível do rio mais baixo, o fluxo de visitantes diminui e o acesso aos flutuantes se torna mais difícil, já que a escada de entrada aumenta conforme a água recua. Negócios que dependem da paisagem e da navegação enfrentam retração e precisam se adaptar para manter o funcionamento.
A alternância entre períodos de cheia e seca tem se tornado mais frequente, exigindo ajustes constantes de quem vive e empreende às margens do rio.
Turismo e políticas de incentivo
A movimentação gerada pelo rio reforça a importância de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo e à economia criativa. Segundo o secretário de Estado de Empreendedorismo e Turismo, Marcelo Messias, o Rio Acre é um importante vetor econômico para a capital.

Secretário de Turismo e Empreendedorismo, Marcelo Messias, na GCF Task Force, realizada em 2025, em Rio Branco. Foto: Bruno Moraes/Sete
“No período de cheia, o Rio Acre atrai moradores e turistas para a região da Gameleira, fortalecendo o comércio local e o empreendedorismo. Restaurantes, lanchonetes, a Casa do Artesanato e outros espaços são diretamente beneficiados por essa movimentação, que alia geração de renda, cultura e lazer”, destaca.
Entre a cheia que movimenta o comércio e a seca que impõe limites, o Rio Acre segue determinando o ritmo da economia local. Para empreendedores como Júlia, Zé do Branco e a família Malveira, viver do rio é conviver diariamente com oportunidades e incertezas, em um território onde a água não apenas desenha a paisagem, mas molda modos de vida, trabalho e resistência.
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Especiais
Amor pelo crochê: estudante acreana conquista próprio negócio e garante permanência na universidade
Ao apostar em uma arte milenar que se tornou tendência de moda no Brasil, Kawanny Santos encontrou uma nova fonte de renda
Publicado há
6 dias atrásem
2 de junho de 2026por
Redação
Por Felipe Souza
Arte milenar de origem incerta, o crochê atravessou séculos, culturas e continentes até se consolidar como uma das principais tendências da moda em 2025. A técnica artesanal carrega histórias, tradições e conhecimentos transmitidos de geração em geração, tornando-se um verdadeiro patrimônio da moda brasileira e da identidade cultural do país.
Embora não haja consenso sobre o surgimento do crochê, historiadores apontam que a prática acompanha a humanidade há milhares de anos. Uma das teorias mais aceitas indica que a técnica, em formato semelhante ao conhecido atualmente, teve origem na Arábia, no Oriente Médio, por volta do século XVI, espalhando-se pelo mundo por meio das rotas comerciais do Mediterrâneo até alcançar diferentes povos e culturas.
No Acre, essa arte manual tem ganhado um significado ainda mais especial. O crochê se tornou uma importante fonte de renda para centenas de mulheres que encontraram no artesanato uma oportunidade de empreender e conquistar independência financeira.
Entre elas está Kawanny Santos, de 20 anos. Apaixonada pelo crochê desde a infância, a jovem transformou a habilidade aprendida ainda na adolescência em um negócio próprio. Hoje, a produção e venda das peças artesanais ajudam a custear seus estudos e representam uma ferramenta importante para a realização do sonho de concluir uma graduação.

Estudante de Psicologia na Universidade Federal do Acre (Ufac), Kawanny explica que, na infância, observava a mãe, artista, fazer crochê, costurar e pintar. Durante a pandemia de Covid-19, a então adolescente decidiu se arriscar e aprender a técnica, dando os primeiros passos no artesanato.
“Era só um hobby, mas ele se misturou à vontade que eu tinha de produzir roupas. Desde criança, eu desenhava. Imaginava que iria aprender a costurar, mas acabei aprendendo crochê e comecei a desenhar e produzir minhas próprias peças. Foi uma mistura de tudo. Tinha 14 anos quando comecei”, contou.
Vestidos, biquínis, blusas, tops e croppeds estão entre as peças confeccionadas por Kawanny em sua marca, a Cacau Crochê. Cada criação é produzida de forma artesanal e personalizada, com modelos desenvolvidos sob encomenda e adaptados às preferências e estilo de cada cliente. Para a empreendedora, o objetivo é oferecer peças únicas.

“Depende do que a cliente me pede. Isso é algo muito legal, porque, na minha loja, normalmente desenvolvo as peças junto com a cliente. Ela me envia várias referências e, juntas, vamos criando algo único”, afirmou.
Empreender e estudar
Conciliar trabalho e estudos faz parte da rotina de milhares de mulheres brasileiras que buscam na educação uma oportunidade de transformar suas vidas. Diante dos desafios financeiros e da necessidade de custear despesas pessoais, muitas estudantes encontram no empreendedorismo uma alternativa para garantir renda sem abrir mão da formação acadêmica.
Kawanny Santos é uma delas. A estudante precisou transformar o que antes era apenas um hobby em uma fonte de renda. Como o curso de Psicologia na Ufac é ofertado em período integral, a jovem encontrou no crochê uma forma de garantir sua permanência na universidade e arcar com os custos da graduação.
“Minha faculdade é integral e estou naquela fase em que tudo está ficando mais complexo. O crochê, para mim, é uma fonte de renda. As vendas praticamente têm me sustentado durante a faculdade, porque eu não recebo bolsa de incentivo”, salientou.

Kawanny revela ainda que as dificuldades financeiras e a carga intensa do curso já a fizeram cogitar interromper a formação para trabalhar. “Quando comecei a fazer crochê, era apenas um dinheiro extra, mas hoje ele é o que me permite permanecer na faculdade. É a minha autonomia financeira até que eu possa me formar.”
“Atualmente, com o crochê, consigo pagar o restaurante universitário, o ônibus, os livros e outras despesas.”
Conforme enfatiza, ela aproveita cada momento livre para produzir suas peças. Entre uma aula e outra, durante os trajetos de ônibus e até no horário de almoço, o crochê está presente em sua rotina diária, dividindo espaço com as demandas da graduação.

Artesanato como refúgio
A relação entre arte e saúde mental ganhou destaque no Brasil graças ao trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira. Reconhecida por revolucionar o tratamento psiquiátrico no país, ela rompeu com práticas consideradas agressivas à época e passou a utilizar atividades artísticas como forma de expressão e cuidado dos pacientes.
Por ser da área da psicologia, Kawanny Santos enxerga essa conexão entre arte e saúde mental também em sua própria trajetória. Entre linhas, agulhas e pontos, a artesã encontrou uma forma de aliviar a ansiedade, organizar os pensamentos e lidar com os desafios do dia a dia, transformando o artesanato em um verdadeiro refúgio emocional.

“O crochê é algo que realmente acalma. É uma terapia. Mesmo que não me proporcionasse retorno financeiro, ele traz diversos outros benefícios, estimula a criatividade e faz a mente trabalhar. Como futura psicóloga, reconheço a importância da arte e gostaria de ensinar outras pessoas a trabalhar com isso”, ponderou.
Kawanny também ressaltou que, mesmo após concluir a graduação, pretende continuar se dedicando à produção de peças em crochê. “Acredito que estará presente na minha vida para sempre. Provavelmente será algo desafiador, mas, se eu puder, vou continuar e tentar conciliar as duas atividades.”

Mulheres que fortalecem mulheres
No universo do empreendedorismo feminino, o apoio entre mulheres tem se consolidado como uma ferramenta essencial para o fortalecimento de negócios e para a superação de desafios comuns enfrentados pelas empreendedoras. Essa união se manifesta de diferentes formas, seja por meio da indicação de serviços, da divulgação de produtos e da troca de conhecimentos.
Porém, a decisão de consumir produtos e contratar serviços de outras mulheres também desempenha um papel fundamental no apoio a esses negócios. Cada compra representa um incentivo direto para que possam ampliar suas atividades e gerar renda.
A jornalista Emilly Souza está entre as consumidoras que fazem questão de apoiar o empreendedorismo feito por mãos femininas, priorizando peças e criações desenvolvidas por mulheres. Apaixonada por moda e sempre atenta às tendências, ela destaca que valoriza a exclusividade e a identidade presentes em produtos feitos à mão.
“É único. Então, valorizo essa exclusividade de algo pensado para você e feito sob medida, além da qualidade e da dedicação das artesãs ao manusearem e produzirem uma peça linda”, afirmou a jornalista.

Emilly salienta ainda que admira o artesanato desde a infância, já que o crochê sempre esteve presente em sua vida por influência da tia, que produzia peças decorativas, como conjuntos para banheiro e tapetes para a casa.
“Nos meus 15 anos, ela me deu um tapete bem grande, com vários tons de rosa e roxo, que tenho até hoje. Como sempre achei o crochê muito bonito e delicado, adoro usar roupas e acessórios feitos com esse material. Considero um diferencial de estilo nos looks”, contou Emilly.
A jornalista complementa afirmando que faz questão de valorizar o trabalho e a dedicação dessas artesãs, pois reconhece o cuidado empregado em cada peça e a durabilidade dos produtos feitos à mãos.
“Ao comprar, sinto que estimulo a continuarem trabalhando com isso.”
Durante um mochilão pela Tailândia, em 2025, Emilly priorizou peças mais leves e confortáveis devido ao clima quente do país. Para compor os looks da viagem, ela apostou não apenas em roupas de crochê, mas também em acessórios que fizeram a diferença nas produções.
“Eu precisava levar poucas peças de roupa e pensei no crochê como um elemento que faria total diferença em um look mais básico. Os acessórios seriam o destaque e, além disso, combinam super com o clima de verão, por serem mais frescos”, frisou.

Empreendedorismo feminino do Acre
Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que, no Acre, o número de mulheres à frente de negócios corresponde a cerca de 25% do total de empreendedores, uma das maiores proporções da Região Norte. O dado demonstra que, cada vez mais, elas têm buscado no próprio negócio uma forma de gerar renda e realizar sonhos.
Segundo Kethleen Diniz, gestora do programa Sebrae Delas, muitas começaram empreender por necessidade, mas hoje também enxergam como oportunidade de crescimento e protagonismo, principalmente nas áreas de beleza, alimentação, artesanato, moda e serviços digitais.
“Cada mulher que empreende gera renda em casa e fortalece não só a própria família, mas também movimenta a economia local e inspira outras mulheres. O Sebrae acompanha esse cenário de perto e entende que apoiar essas empreendedoras é investir no futuro”, declarou a gestora.

O perfil das mulheres que empreendem no Acre é bastante diverso. De acordo com o Sebrae, há uma presença cada vez mais forte de empreendedoras que ingressam no mercado com uma visão inovadora, atentas às novas tendências e às oportunidades oferecidas pelo ambiente digital.
“O crescimento entre as jovens é cada vez mais visível. Muitas já começam cedo, usando as redes sociais, criando marcas próprias e transformando hobbies e talentos em fonte de renda. É um movimento que mostra mais protagonismo, criatividade e confiança das mulheres no ambiente de negócios”, ressaltou Kethleen.
“É só acreditar que dá certo”
Assim como milhares de estudantes da Universidade Federal do Acre, Kawanny Santos precisou se reinventar para garantir sua permanência no ensino superior. Diante dos desafios e da rotina intensa da graduação, a jovem transformou uma paixão em fonte de renda capaz de sustentar seus estudos.

Hoje, ao olhar para a própria trajetória, ela acredita que o empreendedorismo pode abrir caminhos para outras mulheres e deixa uma mensagem de incentivo para aquelas que sonham em iniciar o próprio negócio, mas ainda não encontraram coragem para dar o primeiro passo.
“Eu também já fui uma jovem que, no início da faculdade, pensou em trancar o curso. Empreender é muito incerto, mas, quando colocamos a nossa identidade no que fazemos, as coisas tendem a funcionar. Estamos em um momento em que as mulheres precisam ter autonomia financeira. É importante que nós, especialmente as mulheres LGBTQIAPN+, busquemos nossa independência e não fiquemos em situação de vulnerabilidade. É só acreditar que dá certo”, finalizou.
Especiais
Rio cheio e políticas vazias
Mudanças climáticas, cheias históricas e a fragilidade das políticas públicas que agravam a situação do Rio Acre
Publicado há
2 meses atrásem
2 de abril de 2026por
Redação
Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz
O Rio Acre, que nasce no Peru e atravessa municípios acreanos de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia, Xapuri, Rio Branco, Capixaba, Senador Guiomard e Porto Acre, é um dos principais responsáveis pelo abastecimento e pelo sustento de milhares de famílias no estado. No entanto, ao longo dos últimos anos, o manancial tem enfrentado transformações profundas, impulsionadas pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela fragilidade das políticas públicas ambientais.
Essas mudanças se refletem tanto nos períodos de cheia quanto nos de seca extrema, que têm se tornado cada vez mais frequentes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e bairros urbanos situados em áreas de risco da capital acreana
Segundo Victor Manoel, do Comitê Chico Mendes, Rio Branco possui um plano de contingência estruturado contra enchentes, algo inexistente até mesmo nas maiores capitais do país brasileiras. Ainda assim, o problema persiste.
“Rio Branco tem um plano de contingência contra enchentes. Esse estudo já foi feito. O que falta, na verdade, é prioridade. Falta uma leitura do material que já existe. A gente vive em um mandato político onde se prioriza muito mais a infraestrutura urbana”, avalia.
Manoel explica que, embora o poder público não tenha controle sobre o clima ou as chuvas, é responsável por não desenvolver ações que reduzem o impacto das cheias. “A prefeitura não controla a chuva nem as mudanças climáticas, mas é totalmente responsável por políticas públicas que mitiguem os impactos dessas mudanças na população e na própria máquina estatal”, completa.
Cheias atípicas e extremos cada vez mais frequentes
Em dezembro de 2025, o Rio Acre registrou uma cheia considerada atípica. De acordo com a Defesa Civil Municipal, foram acumulados 561,6 milímetros de chuva, o que representa 97% acima do esperado para todo o mês, um volume que não era observado havia pelo menos uma década.
O coordenador municipal da Defesa Civil, coronel Cláudio Falcão, explica que o comportamento do rio é marcado por variações extremas de vazão
“Quando o Rio Acre está abaixo de 11 metros, a vazão chega a cerca de 1 milhão e 100 mil litros de água por segundo. No outro extremo, essa vazão pode cair para cerca de 25 mil litros por segundo. A diferença é muito grande”, explica.

Foto: cedida.
Segundo ele, parte desse comportamento se deve às características naturais do rio. “O Rio Acre é um rio novo, ainda em formação, e por isso muda o curso de vez em quando”, afirma.
Desmatamento e perda da mata ciliar agravam o problema
Além das características naturais, questões ambientais agravam a situação. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicado no site InfoAmazonia aponta que o Rio Acre perdeu cerca de 40% da sua mata ciliar ao longo de 55 anos, equivalente a aproximadamente 4,5 mil hectares de vegetação nativa degradada, de um total original estimado em 11,6 mil hectares.
A mata ciliar é fundamental para a regulação do rio por ajudar a conter a erosão das margens, reduz o assoreamento e permite que a água seja absorvida e liberada gradualmente.
“Ao longo do Rio Acre há muito assoreamento e desmatamento das margens. Com isso, o rio não consegue manter o nível da mesma maneira. Quando a água chega, chega de uma vez só”, explica o coronel Falcão.
Ele destaca o papel da floresta na regulação dos extremos hídrico: “A floresta segura a água no período de cheia e vai soltando aos poucos durante a seca. Além disso, evita o desbarrancamento e o aceleramento do rio. Se tivéssemos a floresta preservada ao longo do rio, não teríamos extremos tão intensos”, afirma
A vida em áreas vulneráveis: relatos de quem convive com o rio
No bairro Cidade Nova, em Rio Branco, as moradoras Vitória Yasmin, de 23 anos, e Alderina Costa, de 65, relatam as dificuldades enfrentadas durante os períodos de cheia do Rio Acre, fenômeno que se repete ano após ano e afeta diretamente a rotina de quem vive em áreas consideradas vulneráveis.
“Quando começa a encher, a gente já levanta tudo. A água é contaminada por causa do esgoto. Eu preciso ir para a casa da minha avó. Em 2015, a água chegou a subir pela parede”, conta Vitória.
Alderina relembra que, diante da recorrência das enchentes, a família precisou investir por conta própria para reduzir os riscos. Sem apoio financeiro do poder público, a solução encontrada foi adaptar a própria estrutura da casa.
“A água entrou bem aqui. Em 2015, na época, não tinha esse apartamento alto. Então a gente fez um segundo andar para ficar lá em cima quando alaga”, relata.
Segundo Alderina, a decisão de construir um segundo pavimento veio do desejo de permanecer no local onde sempre viveu. Para ela, sair da própria moradia e ser levada para abrigos distantes é uma alternativa que muitos moradores não querem enfrentar. Destaca, ainda, que não vê possibilidade de deixar a casa, pois não teria para onde ir: “Se eu pedir 100 mil, aqui na minha casa, eu não vendo. Entendeu? E se eu pedir menos de 50 mil, eu vou comprar outra onde?”, questiona.
Ela defende que o governo ofereça apoio financeiro para que as famílias possam adaptar suas casas com segurança, evitando o deslocamento forçado durante as cheias. Para Alderina, a permanência no território também representa dignidade, pertencimento e menor desgaste emocional.
As adaptações feitas pelas famílias evidenciam como a responsabilidade de lidar com os impactos das cheias acaba sendo transferida do poder público para os próprios moradores. Embora existam políticas públicas voltadas à prevenção de desastres, ainda há um hiato significativo entre o que está previsto no papel e o que, de fato, é executado.
Além disso, moradores que vivem em áreas de risco defendem que as soluções não se limitem apenas à retirada compulsória das famílias de suas casas. Para eles, é fundamental que haja diálogo, escuta e participação das comunidades diretamente afetadas, por meio de audiências públicas e espaços de debate que considerem suas realidades e necessidades. Essas populações não são culpadas pelos desastres recorrentes e precisam ser incluídas na construção das soluções.
As estratégias adotadas por famílias como a de Alderina revelam não apenas a precariedade das políticas habitacionais em áreas vulneráveis, mas também a criatividade, a resistência e a determinação de quem convive há décadas com o avanço das águas.
Diante da ausência de respostas efetivas, são os próprios moradores que buscam alternativas para proteger suas famílias e preservar o vínculo com o território onde construíram suas histórias.
Apesar do cenário preocupante, existem iniciativas públicas voltadas à prevenção e à recuperação ambiental. Em Rio Branco, foi instituído o Plano Municipal de Prevenção e Combate às Enchentes, que prevê ações como o mapeamento de áreas de risco, recuperação de áreas degradadas, melhorias na drenagem urbana e educação ambiental. No entanto, grande parte dessas medidas ainda depende de orçamento, continuidade administrativa e prioridade política.
No campo ambiental, o Governo do Acre e a Prefeitura de Rio Branco firmaram um acordo de cooperação técnica para fortalecer ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Em 2025, por exemplo, mais de 400 mudas de espécies nativas foram plantadas em áreas de preservação permanente às margens do Rio Acre, como tentativa de conter a erosão do solo.
O estado também conta com iniciativas como o Viveiro da Floresta, em Rio Branco, responsável pela produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares em diferentes regiões do Acre. Apesar disso, estudos científicos, avaliam que as ações ainda avançam em ritmo lento diante da dimensão do problema e da frequência cada vez maior das cheias.
Limites orçamentários e desafios estruturais
De acordo com o coronel Falcão, outro entrave importante é a limitação de recursos e a complexidade das soluções necessárias.
“Não existe solução simples. Algumas ações envolvem diplomacia entre países, porque o rio nasce no Peru, e outras dependem de recursos que a Defesa Civil não tem para atender todos os problemas ao mesmo tempo”, afirma.
Ele explica que mudanças estruturais no comportamento do rio demandam tempo. “Nada pode ser mudado em menos de 10 anos. Qualquer ação que a gente faça agora não muda o cenário do Rio Acre em curto prazo”, ressalta.
O futuro do Rio Acre
O coordenador da Defesa Civil alerta ainda para projeções preocupantes. Segundo ele, o climatólogo Carlos Nobre prevê um cenário crítico para o Rio Acre até 2032, caso o modelo atual de ocupação e degradação ambiental continue.
“A gente pode enfrentar uma seca tão severa que o rio pode praticamente parar de correr, como diziam nossos antepassados”, alerta.
O problema é recorrente, que se repete ano após ano, a situação do Rio Acre evidencia que, mais do que planos e ações emergenciais, são necessárias políticas públicas transparentes, contínuas e preventivas, capazes de articular preservação ambiental, planejamento urbano e proteção social. Sem isso, moradores continuarão convivendo com cheias, secas e a incerteza de um rio cada vez mais imprevisível.
Especiais
O rio sob seus pés: as pontes que conectam história, comércio e vida em Rio Branco
Ponte Metálica e Passarela Joaquim Falcão Macedo integram Primeiro e Segundo Distritos de Rio Branco e facilitam o trânsito de carros e pedestres na região
Publicado há
2 meses atrásem
1 de abril de 2026por
Redação
Por Lis Gabriela e Rhawan Vital
Onde centenas de pés passam, pneus deixam borracha no asfalto e bicicletas atravessam em meio aos pedestres, comerciantes contam sobre a importância e de duas das pontes mais famosas do estado.
Em destaque pela influência, tanto histórica como atual, a Passarela e a Ponte Metálica (também conhecidas, respectivamente, como Passarela Joaquim Falcão Macedo e Ponte Juscelino Kubitschek), são referências quando se trata da história e da identidade acreanas.
Passos sobre o Metal
A Ponte Juscelino Kubitschek, popularmente conhecida como “Ponte Metálica”, pode ser considerada um símbolo de resistência. Inaugurada na década de 60, é uma das principais formas de ligação entre o Primeiro e o Segundo Distrito da capital acreana. Sua construção foi um marco na engenharia para a época, em uma resposta direta ao isolamento do Segundo Distrito em relação ao centro administrativo e comercial de Rio Branco.
Antes dela, a travessia era feita, na maioria das vezes, por catraias, que limitavam o fluxo de mercadorias e pessoas. Dessa forma, a estrutura montada com treliças de aço não apenas facilitou o transporte de veículos, mas integrou definitivamente as duas margens da capital. Batizada em homenagem ao presidente do Brasil entre 1956 e 1961, a ponte tornou-se o principal corredor logístico da cidade por décadas, e resiste ao tempo e a inúmeras cheias históricas do Rio Acre, que testaram sua robustez ao longo de mais de 60 anos.

Ponte Juscelino Kubitschek. Foto: Rhawan Vital
Quem atravessa do Primeiro ao Segundo distrito, avista o imponente “Ponto Certo Agropecuária”, loja de agronegócio que há mais de dez anos dispõe de sementes, ferramentas, grãos e alimentos de diversos tipos, até maquinário pesado. Pedro Fernandes, de 30 anos, trabalha lá há dez meses e, pelo lugar estratégico em que a loja se coloca, sabe que a importância da ponte reflete no sucesso do estabelecimento e que, por ser logo em frente à uma das saídas, se coloca como uma opção mais fácil para quem procura esse tipo de mercado.
“A ponte, tanto para veículos, para pedestres e para o comércio, é muito importante. Quando a ponte fica interditada, atrapalha muito, mas o fluxo de pessoas aumentou nesse espaço depois da interdição da passarela”, diz Pedro
Cultura e Identidade sobre as águas
A passarela Joaquim Falcão Macedo, uma das primeiras na Região Norte a ser projetada exclusivamente para pedestres e ciclistas, convida a outro ritmo e se torna um local de passeios e encontros. Inaugurada em 2006, é uma ponte estaiada, ou seja, uma ponte de cabos. Com cerca de 200 metros de extensão, busca amenizar o conflito entre o tráfego pesado de carros e pedestres, e possibilitar ao cidadão o prazer de contemplar o rio.

Passarela Joaquim Falcão Macedo. Foto: Rhawan Vital
Porém, desde 2024, a Passarela está interditada e, por ser parte do espaço, o Mercado Velho também é afetado pela reforma, com tapumes de metal espalhados pela praça que chamam mais atenção do que o próprio rio.
“A passarela é muito importante. Vejo por aí jovens escrevendo, professoras que trazem alunos para conhecer e contemplar a região. É uma passagem livre. Ela atrai vida para nossas praças, para a encosta do rio. Agora nós não temos mais isso. Não pode ficar assim.” relata Francisco Marufo Lessa, dono da loja Ervas do Lessa há 40 anos.

Francisco Marufo Lessa, dono da loja Ervas. Foto: Rhawan Vital
Para além da sua importância comercial e social, uma ponte também compõe histórias individuais ao fazer parte do dia a dia de quem depende delas para locomoção. Maria Bárbara, de 18 anos, voluntária em uma associação que cuida de crianças (ASBVIN), fala que a ponte é justamente algo que facilita e oferece maior comodidade para o seu trajeto de casa para o trabalho. “Uma ponte facilita muito a vida. É, literalmente, cortar um caminho. Ajuda muito depois de um dia cansativo, já que não preciso mais andar tanto”, diz a voluntária.
Essas pontes apontam para um conjunto arquitetônico que compõe a história de Rio Branco e sua caminhada para uma capital cada vez mais moderna, que utiliza a engenharia para encurtar distâncias e criar espaços de convivência. Apesar disso, elas ainda carecem de segurança e maior comodidade para os transeuntes que podem ficar à mercê de assaltos, chuvas e sol. Seus vãos não sustentam apenas o peso de quem passa, mas sustentam a história de um povo que aprendeu a construir caminhos sobre os desafios vividos na Amazônia.
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