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Quem cuida de quem cuida? 

A realidade invisível dos cuidadores de idosos no Acre

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Por Raquel de Paula, Elis Caetano e Tales Gabriel

O envelhecimento da população já é uma realidade que impacta a rotina das famílias e a estrutura social brasileira. No Acre, segundo dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE, entre 2010 e 2022 o número de pessoas com 65 anos ou mais no estado cresceu 64,9%, passando de 31.706 (4,3% da população) para 52.297 idosos, que hoje representam 6,3% dos acreanos. 

No mesmo período, a proporção de crianças até 14 anos recuou de 33,7% para 26,6%,com isso, o índice de envelhecimento, que mede o número de idosos para cada 100 crianças, chegou a 23,8 em 2022, quase o dobro do registrado em 2010.

Esse crescimento no número de idosos, embora menos acelerado que em outras regiões do país, indica um aumento na demanda por cuidados e uma redução no número de jovens disponíveis para desempenhar essa função, o que amplia a sobrecarga de quem exerce essa atividade.

Nesse cenário, está a história de Juliette Silva, cuidadora formada em um curso de três meses, que deixou Rio Branco há dois anos e se mudou para Goiânia em busca de melhores condições de trabalho. 

“A minha rotina diária como cuidadora hoje é uma carga horária 12/36 diurno, trabalho autônomo para uma agência de cuidadores aqui em Goiânia. Vim em busca de ganhar um valor melhor, pois em Rio Branco a profissão é mais desvalorizada”, afirma. 

Suas atividades diárias incluem administrar medicações via oral, dar banho, cuidar da higiene, trocar fraldas, fornecer alimentação e garantir o banho de sol. Mesmo com formação técnica, ela avalia que “mudaria nossa vida a valorização do nosso trabalho. Que pudéssemos ter nossos direitos trabalhistas reconhecidos como profissionais que somos. Infelizmente, nossa profissão é registrada em carteira como uma função doméstica. Isso é muito injusto.”

Juliette considera o cuidado com idosos uma missão, mas destaca o custo emocional envolvido, que afeta diretamente a saúde física e mental de quem cuida. “Nossa profissão é linda, vai além de uma profissão. Eu costumo dizer que é uma missão. Mas, infelizmente, existem muitos cuidadores que são explorados por famílias, que desviam as funções e sobrecarregam o cuidador, pedindo para fazer outras tarefas além de cuidar do idoso.”.

O relato de Juliette reflete a rotina de muitos cuidadores, marcada por jornadas extensas, múltiplas responsabilidades, baixa segurança trabalhista e vulnerabilidade emocional. Grande parte atua como autônomo ou é formalmente enquadrada como empregado doméstico, o que reduz direitos como jornada regulamentada, descanso remunerado, FGTS e contribuição para aposentadoria.

Embora o Estatuto da Pessoa Idosa estabeleça direitos como assistência à saúde e à dignidade, o cuidador, figura essencial nesse processo, ainda carece de políticas públicas específicas. O Ministério da Saúde oferece cursos e capacitações por meio da UNA-SUS, mas a abrangência dessas ações para cuidadores familiares ou autônomos, especialmente no interior do Acre, é limitada.

Sobrecarga

A ausência de uma rede de apoio estruturada tem reflexos diretos na saúde física e emocional de quem cuida. A psicóloga e psicanalista Sara Saraiva destaca que os impactos sobre a saúde mental dos cuidadores já estão implícitos na própria pergunta que norteia este trabalho: “Quem cuida de quem cuida?”. Segundo ela, é comum que esses profissionais, e também familiares que assumem a função, acabem esquecendo de cuidar de si mesmos.

“Surge aquela sensação de: Se eu não fizer, quem vai fazer? Mas também é preciso pensar: E quem faz por mim?”, afirma.

Essa dedicação exclusiva, explica Saraiva, pode gerar estresse e um sentimento de culpa excessiva por não se permitir descansar, por sentir-se cansado ou, até mesmo, por não querer cuidar em determinados momentos.

“Muitos acabam se perdendo de si e passam a viver quase que integralmente a vida da pessoa assistida”, acrescenta.

De acordo com a psicanalista, essa sobrecarga emocional e física, quando acumulada, pode desencadear crises de estresse intenso, quadros de ansiedade e até depressão. Para ela, prevenir o adoecimento exige a atuação conjunta da família, da sociedade e do poder público.

“No caso de cuidadores familiares, é fundamental dividir tarefas e responsabilidades. Também é necessário oferecer suporte psicológico e acompanhamento dentro da rede pública de saúde. A prevenção começa com a conscientização: entender que, embora cuide do outro, essa pessoa também precisa de cuidado, acolhimento e de olhar para si, lembrando que sua vida não se resume àquele que ela assiste”, conclui.

Rede de apoio

Além de profissionais autônomos, o Acre também conta com iniciativas coletivas que tentam suprir a carência de apoio. É o caso do Anjos do Cuidado, grupo fundado por Benedita do Anjos Silva, que hoje reúne mais de 200 cuidadoras e técnicos. Ela conta que a ideia nasceu de forma espontânea e cresceu rapidamente.

“Eu criei esse grupo porque, depois que me formei como técnica, fui trabalhar em uma família e, com o tempo, as pessoas foram conhecendo meu trabalho e me chamando para cuidar de outros pacientes. Chegou um momento em que eu não conseguia dar conta sozinha, então comecei a convidar colegas”, explica. 

No início, era um grupo de WhatsApp com três ou quatro pessoas, atualmente são 232 profissionais prestando serviços em hospitais e domicílios. São atendidos pacientes que precisam de ajuda para se locomover, acompanhar consultas ou até viajar. “Tudo começou pequeno, mas virou uma rede de apoio muito importante”, afirma a técnica.

Para Benedita dos Anjos, um dos maiores desafios é a falta de planejamento das famílias.“Muitos só pensam em contratar um cuidador quando o idoso já está debilitado ou quando a família já está emocionalmente sobrecarregada. Se houvesse essa contratação preventiva, o cuidado seria melhor para todos”.

Apesar da rotina intensa e da pouca valorização profissional, cuidadores também precisam de atenção e cuidado, como mostram as iniciativas que apostam em solidariedade e compreensão.

Redação

SAÚDE

Você sabia que absorventes são gratuitos pelo SUS? Entenda como acessar o Programa Dignidade Menstrual

No Brasil, uma em cada quatro meninas deixa de ir à escola durante o período menstrual por falta de absorventes, segundo dados do UNFPA e do UNICEF

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Por Maria Lídia

Você sabia que absorventes são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS)? Criado pelo governo federal, o Programa Dignidade Menstrual é uma política pública voltada ao enfrentamento da pobreza menstrual no Brasil, garantindo a distribuição gratuita de absorventes e promovendo ações de orientação sobre saúde menstrual.

Apesar da iniciativa, a falta de informação ainda é um dos principais obstáculos para que o programa chegue a quem mais precisa. “Muita gente ainda não sabe que tem direito ao benefício”, afirma Jeane Moura, coordenadora da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Bom Jesus, em Rio Branco, ao comentar as dificuldades enfrentadas por pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade social.

Esse desconhecimento se insere em um contexto mais amplo de desigualdade. Pesquisa realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o UNICEF, revela que uma em cada quatro meninas brasileiras deixa de frequentar a escola durante o período menstrual por falta de absorventes e de condições adequadas de higiene. O levantamento também aponta que cerca de 4 milhões de estudantes vivem em situação de privação de higiene menstrual nas escolas.

O cenário evidencia a pobreza menstrual como um problema estrutural que afeta diretamente a permanência escolar, a saúde e a dignidade de mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade. Como forma de enfrentamento, o governo federal instituiu o Programa Dignidade Menstrual, que assegura a distribuição gratuita de absorventes por meio do SUS e da rede da Farmácia Popular.

Distribuição nas farmácias credenciadas. Foto: EBC

Como acessar os absorventes gratuitos

O acesso aos absorventes não é automático, mas o processo é simples. Podem solicitar o benefício pessoas que menstruam com idade entre 10 e 49 anos, que tenham renda familiar mensal de até R$218 por pessoa e estejam inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).

A solicitação pode ser feita pelo aplicativo Meu SUS Digital ou diretamente em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), alternativa importante para quem não tem acesso à internet ou enfrenta dificuldades no uso de aplicativos.

Após a autorização, é possível retirar até 40 absorventes por vez em farmácias credenciadas ao Programa Farmácia Popular, mediante apresentação de documento oficial com foto e CPF. Não é necessária receita médica nem qualquer tipo de pagamento. A autorização tem validade de 180 dias.

Em Rio Branco, as UBS também funcionam como pontos de apoio para facilitar o acesso ao programa. “Quando a pessoa não consegue utilizar o aplicativo, a UBS emite a autorização”, explica Jeane Moura. Segundo ela, agentes comunitários de saúde atuam na divulgação do benefício durante visitas domiciliares, orientando a população sobre quem tem direito e como acessar o programa.

Onde retirar os absorventes

No Acre, 17 farmácias localizadas em 11 municípios estão credenciadas para a distribuição gratuita de absorventes. Em Rio Branco, há unidades em diferentes regiões da cidade, o que amplia o acesso ao benefício.

Farmácias credenciadas no Acre:

  • Acrelândia – Farmácia do Trabalhador de Acrelândia LTDA (Centro)
  • Cruzeiro do Sul – H.R Lima (Centro)
  • Cruzeiro do Sul – Empreendimentos Pague Menos S/A (Baixa)
  • Epitaciolândia – Maria da Silva Freitas (Centro)
  • Feijó – R V N Felício – ME (Centro)
  • Plácido de Castro – Sérgio Carlos Vieira – EPP (Centro)
  • Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Centro)
  • Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Bosque)
  • Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Estação Experimental)
  • Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Cadeia Velha)
  • Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Seis de Agosto)
  • Rodrigues Alves – Drogaria Minha Saúde LTDA
  • Sena Madureira – E.J da Silva de Araújo LTDA (Centro)
  • Sena Madureira – J Cruz LTDA (Centro)
  • Senador Guiomard – Aurélio Alves de Lima – ME (Cohab)
  • Tarauacá – Valdicélio Lima da Silva LTDA (Centro)

Apesar da estrutura disponível, profissionais da atenção básica reforçam que a falta de informação ainda é o principal entrave para que o Programa Dignidade Menstrual alcance plenamente seu público-alvo, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade menstrual.

Redação

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CONSCIENTIZAÇÃO

Com mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais, Janeiro Branco alerta para cuidado com a saúde emocional

Estigma e desinformação ainda afastam brasileiros da terapia, alertam especialistas

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Por Arielly Casas

O número de brasileiros afastados do trabalho por transtornos mentais tem crescido de forma acelerada nos últimos anos. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que, em 2014, cerca de 203 mil pessoas precisaram se afastar de suas atividades profissionais em razão de problemas relacionados à saúde mental no Brasil. Uma década depois, em 2024, último dado registrado, esse número ultrapassou 440 mil afastamentos, o maior já contabilizado. Para compreender os tabus em torno da busca por ajuda psicológica, especialistas apontam que a psicoterapia ainda é amplamente mal compreendida pela população. É a partir dessa premissa de conscientização que a campanha Janeiro Branco chega a mais uma edição, em 2026.

O psicólogo Francisco Souza afirma que essa resistência está ligada à forma distorcida como a psicoterapia foi apresentada ao longo do tempo. Segundo ele, quando o processo terapêutico é confundido com conselhos simples ou autoajuda, muitas pessoas acreditam que já sabem do que se trata e passam a desacreditar no acompanhamento psicológico. “Quando essa experiência não gera mudanças reais, surge a ideia de que a terapia não funciona”, resume.

Francisco Souza, psicólogo. Foto: Arquivo Pessoal.

De acordo com o profissional, a campanha Janeiro Branco busca justamente romper esse estigma ao incentivar a reflexão sobre como as emoções impactam os relacionamentos, a rotina de trabalho e a qualidade de vida, além de estimular a busca por apoio psicológico como forma de cuidado e prevenção.

Francisco Souza destaca ainda que a terapia é uma ferramenta fundamental para o autoconhecimento e para o enfrentamento de desafios emocionais, ao permitir que a pessoa compreenda melhor a si mesma e promova mudanças necessárias para uma vida mais equilibrada, contribuindo diretamente para a saúde mental e o bem-estar.

A paciente Yasmine Albuquerque relata que a terapia foi fundamental para compreender melhor os próprios sentimentos e lidar com dificuldades emocionais. Segundo ela, o acompanhamento psicológico contribuiu para um processo contínuo de autoconhecimento e mudança de perspectiva sobre si mesma.

Para Yasmine, ainda existe resistência em buscar ajuda por medo de julgamento. “Reconhecer a necessidade de apoio é um passo importante no cuidado com a saúde mental. A terapia mudou muito a minha vida”, resume.

Atendimentos acessíveis

Para quem deseja iniciar a terapia, existem alternativas mais acessíveis, especialmente para pessoas de baixa renda. Plataformas como a PsyMeet Terapia oferecem atendimento psicológico online com profissionais de todo o Brasil, com sessões de 30 minutos ao custo de R$ 30, ampliando o acesso ao cuidado emocional para quem não consegue arcar com valores da rede privada.

No Acre, a Universidade Federal do Acre (Ufac) também disponibiliza atendimento psicológico por meio do Serviço Escola de Psicologia (Serpsi), onde alunos do curso realizam atendimentos supervisionados por professores. O serviço é voltado tanto para estudantes da universidade quanto para a comunidade em geral, funcionando como uma alternativa gratuita ou de baixo custo para quem busca acompanhamento psicológico.

Horários de funcionamento do Serviço Escola de Psicologia (Serpsi). Imagem: Serviço Escola de Psicologia da Ufac.

Terapia infantil

Além do público adulto, o Janeiro Branco também chama atenção para a importância da terapia infantil. O acompanhamento psicológico desde a infância é considerado essencial para o desenvolvimento emocional saudável. A psicóloga infantil Raquel Marques reforça que observar e acolher as crianças desde cedo contribui para a formação de adultos mais equilibrados emocionalmente.

“A terapia infantil auxilia na identificação de dificuldades emocionais e comportamentais, fortalece a autoestima e ajuda as crianças a compreenderem e expressarem melhor seus sentimentos”, relata

O Janeiro Branco reforça que o cuidado com a saúde mental deve estar presente em todas as fases da vida. Com informação, acesso à terapia e construção de ambientes mais acolhedores, o bem-estar emocional se torna um passo fundamental no presente e para a construção do futuro.

Canais de ajuda

Para quem precisa de apoio em saúde mental, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que acolhem pessoas em sofrimento psíquico e oferecem acompanhamento psicológico, psiquiátrico e atividades terapêuticas. Além disso, a Atenção Básica, nas Unidades de Saúde, pode orientar e encaminhar para serviços especializados. Em situações de crise emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza atendimento 24 horas pelo telefone 188, chat ou e-mail, oferecendo escuta e apoio emocional de forma gratuita e sigilosa.

Redação

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Nascente

As dores silenciosas das mulheres com endometriose

Para a Sociedade Brasileira de Endometriose, o diagnóstico da doença ainda é um desafio. Foto: Reprodução

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Por Beatriz Mendonça

Um momento significativo para todas as meninas é o dia do seu primeiro período menstrual. É o marco da mudança de fases, da infância para adolescência, e, por isso, se torna uma memória que permanece na mente por muitos e muitos anos. Naturalmente, não é algo fácil, sair da inocência infantil para a intensidade dos anos de adolescência, com muitos questionamentos e hormônios à flor da pele. 

Mas para algumas mulheres, esse é o início de uma vida com dores e sintomas que afetam suas vidas negativamente. Esse é o caso de Vanderleia Dias e Tácita Muniz, ambas diagnosticadas com endometriose e que começaram a sentir os sintomas, principalmente as dores de cólicas intensas, desde os primeiros ciclos menstruais.

“Além de fluxo intenso, os primeiros dias eram de muita dor, inchaço, enjoo, dor nas pernas e, mais nova, muitos desmaios por conta da queda de pressão”, relata Tácita Muniz.

Jornalista acreana Tácita Muniz, integrante da equipe da Agência de Notícias do Acre. Foto: Wendell Silva

Nascida em Cruzeiro do Sul, Tácita Muniz é jornalista e foi diagnosticada com endometriose aos 24 anos, após seus sintomas ficarem mais graves:

“Chegou ao ponto de ir várias vezes ao pronto atendimento e tomar Tramal na veia pra tentar aliviar. Isso começou a afetar diretamente meu trabalho e minha vida pessoal”, conta.

O caminho até o diagnóstico foi longo e teve início quando a jornalista fazia uma reportagem sobre mulheres que sonhavam em engravidar. Ela identificou seus sintomas com os de uma das mulheres, que tinha o diagnóstico de endometriose.

A partir daí, Tácita enfrentou um desafio comum entre as mulheres que compartilham a condição, o de conseguir o diagnóstico.

“Fiz todo exame que você imaginar e não dava nada. Endoscopia, de sangue, raio-X, e ainda ouvia algumas vezes que era muito estranho eu relatar uma dor tão forte e não aparecer nada nos exames”, relembra.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endometriose, ainda é um desafio o diagnóstico da doença, estudos revelam que há uma grande demora entre o início dos sintomas e o resultado oficial. 

Tradicionalmente, em textos ou livros, é considerado que a investigação é feita através de cirurgia e biópsia para o estudo do caso. Porém, atualmente, com o histórico ginecológico e análise dos sintomas é possível saber se a pessoa possui a doença ou não. Exames de imagem, como ressonância magnética, também podem auxiliar nesse processo.

Um ambulatório especializado em endometriose foi inaugurado em abril de 2025, na Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre). Foto: Gleison Luz/Fundhacre

Afinal, o que é endometriose?

No filme “Endometriose, a minha dor não é normal”, da diretora Marcia Paraiso, os médicos Claudio Crispi e Kárin Rossi explicam que é necessário entender a endometriose como uma doença inflamatória. Ela ocorre devido ao crescimento do tecido do endométrio – camada interna da cavidade uterina – crescer fora do útero, e afetar outros órgãos como ovários, tubas, intestino, bexiga, rins e entre outros.

“Fora do seu habitat natural, ele é um corpo estranho, e o seu organismo então passa a brigar com ele, ele não pode estar ali. E esta briga dos nossos anticorpos com esse corpo estranho passa a dar uma reação inflamatória”, explica Claudio Crispi.

Segundo o Ministério da Saúde, ainda não são compreendidas as causas da endometriose, mas as hipóteses levantam fatores genéticos, hormonais e imunológicos. Já os principais sintomas da doença são cólicas menstruais intensas, bem como dor crônica na pelve, dores durante a relação sexual e problemas intestinais e urinários.

O tratamento é feito de acordo com fatores como a gravidade de sintomas, idade, extensão e localização da doença e entre outros. Dentre as opções estão o uso de anticoncepcionais, medicamentos para alívio dos sintomas, implante do DIU hormonal e, em alguns casos, procedimento cirúrgico.  Mesmo com a perspectiva de melhora, o tratamento também é um processo desafiador.

“Tive muitos efeitos colaterais. Desde o aumento de peso, miopia pelo uso excessivo do hormônio, perda de cálcio e eu fiquei muito inchada. Muito mesmo”, conta Tácita.

Além do seu acompanhamento com o médico ginecologista, ela defende que é um tratamento que necessita ser feito com uma equipe multidisciplinar, como psicólogos e nutricionistas.

Endometriose atinge diversas mulheres brasileiras. Foto: Reprodução/Internet

“Eu passei por muitas fases. O sobrepeso, e eu ter que me reconhecer em outro corpo, por questões estéticas e também funcionais. É uma doença que só quem convive sabe. Então, é difícil você explicar o motivo de não estar bem. E os acompanhamentos médicos, dietas, são cansativos”, completa.

O suporte no tratamento

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endometriose, 1 em cada 10 mulheres sofrem com endometriose no Brasil. Os números do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam que de 2022 para 2024, houve um aumento de 76,24% no número de atendimentos de atenção primária relacionados ao diagnóstico de endometriose, contabilizando 145.744 atendimentos em 2024. Isso mostra um avanço recente no diagnóstico da doença, principalmente através da rede pública.

Vanderleia Dias, de 32 anos, relata como começou a ter sintomas muito cedo, com um fluxo menstrual muito intenso e as dores de cólicas intensas. Apesar dos anos com os sintomas, ela só veio ter o diagnóstico dois anos atrás.

“Como a maioria dos brasileiros, a gente vai seguindo a vida de acordo com o fluxo da correria da vida, vai levando. Quando sente aquilo no mês, diz ‘eu vou me consultar’, vou atrás, mas isso acaba nunca acontecendo”, comenta.

Mesmo com o diagnóstico, Vanderleia ainda não iniciou o tratamento, principalmente pelo valor elevado, em torno de 5 a 6 mil reais por ano.

Um dos principais incentivadores da criação do ambulatório, o secretário de Saúde, Pedro Pascoal, reforçou a importância desse avanço. Foto: Gleison Luz/Fundhacre

No Acre, um ambulatório especializado em endometriose foi inaugurado em abril de 2025, na Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre). A iniciativa partiu da médica especializada Fernanda Bardi, que também coordena o ambulatório, frente às queixas observadas pelas pacientes diagnosticadas com a doença. A proposta recebeu prontamente apoio da gestão do hospital e da Secretaria de Saúde do Estado (Sesacre), e em poucas semanas o projeto foi efetivado.

Conforme orientações da Sesacre, para ter acesso ao serviço é necessário o encaminhamento obtido em uma unidade básica de saúde (UBS), que avalia os sinais e sintomas da endometriose e direciona a paciente para o tratamento na Fundação Hospitalar. Nos 5 meses de funcionamento desde a inauguração, mais de 100 pessoas foram atendidas pelo serviço.

“Esse número mostra a importância desse espaço, que garante diagnóstico e tratamento adequado para mulheres que, muitas vezes, sofrem em silêncio com dores intensas. Nosso compromisso é ampliar cada vez mais esse cuidado, oferecendo acolhimento e qualidade de vida às pacientes”, declara Soron Steiner, presidente da Fundhacre.

Sobre a implantação do ambulatório, Vanderleia e Tácita concordam: é um grande avanço.

“Eu achei fundamental. Além de toda a dificuldade, é um tratamento bem caro, porque os exames, medicamentos, enfim, tudo, é bem caro. Além disso, amplia o debate sobre a doença e faz com que mais pessoas conheçam e consigam identificar os sintomas”, afirma a jornalista. 

Redação

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