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Festa de Ibejí, erê ou Cosme e Damião: quem tem medo de criança?

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Tenda de umbanda Luz da Vida celebra festa de São Cosme e Damião em evento aberto a visitantes

Luana Dourado

“Defuma, defuma a dor nessa casa de nosso Senhor e leva para as ondas do mar, o mal que aqui possa estar”. Essa é a letra que acompanha o atabaque tocado pelos ogãs (responsáveis por tocar o instrumento para manter a vibração durante as giras), marcando o início da festa de Cosme e Damião na tenda de umbanda Luz da Vida. O espaço está localizado depois da segunda ponte na estrada do Quixadá, em Rio Branco, e celebrou na última sexta-feira de setembro a energia das crianças.

Os consulentes, ou seja, os visitantes da tenda, são recebidos com cachorro quente e guaraná, exatamente como em um aniversário de criança. A decoração do local também é a mesma do aniversário de criança. Há balões coloridos e faixas, enfeites de doces e sacolinhas com guloseimas que são entregues pelos filhos da casa acompanhados de um caloroso “feliz Cosme e Damião”. 

Há ainda um espaço dedicado para oferendas a Ibejí, Ibejada, erê, crianças ou curumim. Os consulentes podem deixar suas oferendas e acender velas para essa energia. As cores das velas? Azul, rosa e branco. As oferendas? Aquilo que qualquer criança gosta, doces! 

Espaço destinado para oferendas à Ibejada. | Foto: Luana Dourado

Mas afinal, é erê, Ibejí, criança ou curumim?

A mãe de santo Marajoana de Xangô explica as diferenças e semelhanças entre os nomes: “Cosme e Damião são os santos sincronizados católicos que vieram fazer caridade para as crianças que não tinham condições de ter atendimento na saúde. Por isso, eles se formaram médicos e realizaram diversas ações sociais. Se tornaram o mártir de Cosme e Damião. Ibejí é o orixá. Dentro de uma comunidade na África não era permitido ter filhos gêmeos e todas as pessoas que tinham gêmeos precisavam matar um dos filhos. Era a cultura desses povos. Uma das mães que teve gêmeos decidiu não deixar que matassem seus filhos com a energia do orixá. Ele ficou conhecido como Orixá Gêmeos, Ibejí, aquele que cuida da criança. Aquele que cuida do relacionamento da criança interior, do espírito da criança”, explica. 

Quanto ao nome erê, a mãe de santo explica que faz parte da iniciação de um filho de santo no candomblé. “A umbanda é o que eu pratico e ela se apropria também das outras (candomblé, catolicismo), chamamos de colcha de retalhos. Não temos muito esse conceito definido do nome, porque é uma forma de linguagem, depende de como cada um conhece e como cada um vem com a cabeça. Então para gente tanto faz, o erê, como o curumim, como criança, Ibejada ou Ibejí. Para nós, a energia da criança vem de um ser encantado como um símbolo misterioso, que cuida da nossa criança interior”. 

Preparação para a festa

Decoração sendo preparada para festa. | Foto: cedida.

O mês de setembro é destinado para a energia de cura das crianças. A data da celebração de Cosme e Damião é dia 27 de setembro. Na tenda de umbanda Luz da Vida a celebração aconteceu no dia 30, por ser uma sexta-feira, dia em que acontecem os atendimentos da casa. 

A preparação para a festa, no entanto, começa meses antes, de acordo com Sarah Rodrigues, filha de santo da casa. “Alguns meses antes a mãe separa os irmãos em grupos e vai delegando as tarefas. Esse ano eu fiquei com as sacolinhas e foi maravilhoso”, conta. 

Durante o mês a energia de Ibejí é trabalhada na casa e com os consulentes. “Trazemos esse sentimento de buscar curar com as crianças que são a manifestação divina do mundo encantado. O mundo encantado não é aquele que a gente tem no imaginário, mas o mundo que busca curar a nós mesmos. Há essa ritualística de preparar o mês, de buscar trazer essa energia, a leveza e a limpeza”, conta a mãe de santo. 

Sarah conta que foi uma surpresa descobrir que seu orixá é Ibejí. “Quando eu era mais nova, com uns 13 anos, frequentei um terreiro e quando fui apresentada a eles eu gostei muito. Eles trazem muita diversão e leveza. Foi uma surpresa o fato do meu orixá ser Ibejí e agora estou aprofundando mais e estudando sobre eles, sobre a energia que é de muito acolhimento”, conta. 

A festa

Momentos antes do início da festa, a energia na tenda de umbanda Luz da Vida é semelhante à das crianças que aguardam os parabéns para comer o primeiro pedaço de bolo em um aniversário. A mãe de santo Marajoana de Xangô cumprimenta a todos os presentes ao microfone, convida os visitantes a participarem do banho de bênçãos feito pelas entidades. “Fiquem à vontade, a casa é de vocês”, declara no microfone e em seguida os ogãs começam a tocar o atabaque que dita o ritmo da festa a noite inteira. 

Uma fila se forma para a defumação, ato que marca o início da festa. Antes da defumação ser concluída com todos os filhos de santo e com todos os visitantes, é possível ver a chegada das primeiras entidades. Os gritos, risadas e trejeitos lembram crianças. É impossível não se contagiar com a energia juvenil, inocente e leve que as crianças trazem consigo. 

Enquanto os ogãs tocam e cantam os pontos de umbanda, é possível ver novas entidades de crianças chegando nos filhos de santo. Todas são recebidas com muito entusiasmo por aquelas que chegaram primeiro. Após alguns pontos cantados, as entidades se espalham pela roda formada por filhos de santo não incorporados e por consulentes. 

Não demora muito para que as crianças encontrem a mesa de doces. Os gritos de alegria preenchem a noite e quase ficam mais altos que o toque dos ogãs. Além de se lambuzarem com os mais diversos bolos, pudins, brigadeiros, algodões doces, as crianças começam a passar esses doces no rosto dos consulentes. 

É então que começa o banho de bênçãos, com guaraná. Algo que a princípio pode assustar, como explica o filósofo Renis Ramos: “Essa questão de demonizar as crianças é por puro preconceito, por pura intolerância. Por questões completamente errôneas e ignorantes das demais pessoas. É um problema porque mostra o sucesso da colonização com essa questão mais embranquecida na história. Todos os símbolos de potência da nossa transformação tanto espiritual quanto humana foram corrompidos ao ponto que você olha para isso e sente medo”, explica.

Sobre o racismo religioso, o babalorixá e doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo Sidnei Nogueira explica, no livro Intolerância Religiosa, que “Há um padrão de poder perpetrado pelo projeto de dominação europeu-ocidental que opera na produção contínua de violência, destruição, desvio e subalternidade sobre outros princípios explicativos de ordenação/compreensão de mundo, dos seres e suas formas de saber. Trata-se da colonialidade do poder. A colonialidade do poder hierarquiza, classifica, oculta, segrega, silencia e apaga tudo que for do outro ou tudo que oferecer perigo à manutenção de um status quo, garantindo a perpetuação da estrutura social de dominação, protegendo seus privilégios e os de sua descendência e cristalizando as estruturas do poder oligárquico.”  É por conta desse padrão de poder que as religiões de matriz africana são alvo de racismo, tidas como algo que se deve temer.

A festa segue ao longo da noite com as crianças derramando guaraná nos consulentes e filhos de santo que desejam receber as bênçãos. O som de gritos e risos embala a festa junto com os pontos cantados pelos ogãs. Os visitantes que não desejam participar do banho, observam de longe e as entidades respeitam e apenas oferecem doces. 

Essa foi a primeira festa de Cosme e Damião que Guilherme Limes visitou, ele já havia ido à tenda outras vezes. “Me senti totalmente aliviado de tudo que estava me desconcentrando muito espiritualmente. Hoje foi um alívio espiritual, pessoal, psicológico também, para mim foi maravilhoso”, contou coberto de bolo e molhado de guaraná. 

“O guaraná é como um banho de descarrego, ou um banho de bênção, é o elemento deles. Às vezes, as pessoas buscam um banho energizante ou de descarrego mesmo com ervas. O elemento das crianças, por onde elas trabalham a energia, é o guaraná e o doce”, explica a mãe de santo. 

Durante a festa é notável como as crianças trazem a sensação de liberdade dos visitantes, adultos, a voltarem a ser crianças. “Essa foi minha primeira vez em um terreiro. Eu não quero mais ir embora. Estou me sentindo uma criança novamente e sinto que ninguém aqui me julga”, contou a estudante Giovanna Silva. 

Presente de criança

É certo que há um aviso passado quase que silenciosamente para aqueles que nunca visitaram uma gira – ritual que acontece nas casas e terreiros de umbanda – de criança ou uma festa de Cosme e Damião. “Cuidado com os presentes de criança”, ou até mesmo “Se falar que tem um presente para você, não aceita”. 

A história de que a Ibejada sempre presenteia com filhos é popular e chegou até Giovanna: “Eu estava com um pouco de receio. Uma amiga me disse para não aceitar presente algum, mas depois de chegar aqui percebi que não precisava sentir medo”. A  mãe de santo Marajoana de Xangô explica a origem dessa história: “as mulheres com endometriose ou com síndrome do ovário policístico pediam às crianças para engravidar e recebiam isso como um milagre. É certo que aquilo que uma criança faz ninguém consegue desfazer. Mas o milagre não necessariamente precisa ser um filho. Aquilo que é pedido com fé e se houver o merecimento eles de certo vão atender”, explica.

O caminho contra a intolerância religiosa 

Mãe de santo Marajoana de Xangô no início da festa cumprimentando os visitantes. | Foto: Luana Dourado

No livro Intolerância Religiosa, Sidnei Nogueira expõe os  objetivos do racismo religioso: “O racismo religioso quer matar existência, eliminar crenças, apagar memórias, silenciar origens… Aceitar a crença do outro, a cultura e a episteme de quem a sociedade branca escravizou é assumir o erro e reconhecer a humanidade daquele que esta mesma sociedade desumanizou e matou”. 

Um grande passo para isso, é a desmistificação do imaginário popular acerca das religiões de matriz africana. “Ainda existe infelizmente o preconceito, mas graças a Deus de pouquinho em pouquinho, passo a passo vamos conseguindo desmistificar. Vamos criando e abrindo, firmando o chamado de ponte. Aquele que nos visita uma vez, vê que não é da forma que pensava. Assim vamos conseguindo desmistificar, e aí uma pessoa traz outra, que já vem com um olhar mais tranquilo porque já ouviu do primeiro”, conta a mãe de santo Marajoana de Xangô, que sempre abre a tenda de umbanda Luz da Vida às sextas-feiras para atendimento a consulentes sem cobrar pelos trabalhos.

Redação

Especiais

Amor pelo crochê: estudante acreana conquista próprio negócio e garante permanência na universidade

Ao apostar em uma arte milenar que se tornou tendência de moda no Brasil, Kawanny Santos encontrou uma nova fonte de renda

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Por Felipe Souza

Arte milenar de origem incerta, o crochê atravessou séculos, culturas e continentes até se consolidar como uma das principais tendências da moda em 2025. A técnica artesanal carrega histórias, tradições e conhecimentos transmitidos de geração em geração, tornando-se um verdadeiro patrimônio da moda brasileira e da identidade cultural do país.

Embora não haja consenso sobre o surgimento do crochê, historiadores apontam que a prática acompanha a humanidade há milhares de anos. Uma das teorias mais aceitas indica que a técnica, em formato semelhante ao conhecido atualmente, teve origem na Arábia, no Oriente Médio, por volta do século XVI, espalhando-se pelo mundo por meio das rotas comerciais do Mediterrâneo até alcançar diferentes povos e culturas.

No Acre, essa arte manual tem ganhado um significado ainda mais especial. O crochê se tornou uma importante fonte de renda para centenas de mulheres que encontraram no artesanato uma oportunidade de empreender e conquistar independência financeira.

Entre elas está Kawanny Santos, de 20 anos. Apaixonada pelo crochê desde a infância, a jovem transformou a habilidade aprendida ainda na adolescência em um negócio próprio. Hoje, a produção e venda das peças artesanais ajudam a custear seus estudos e representam uma ferramenta importante para a realização do sonho de concluir uma graduação.

Kawanny Santos transformou paixão pelo crochê em renda própria. Foto: cedida

Estudante de Psicologia na Universidade Federal do Acre (Ufac), Kawanny explica que, na infância, observava a mãe, artista, fazer crochê, costurar e pintar. Durante a pandemia de Covid-19, a então adolescente decidiu se arriscar e aprender a técnica, dando os primeiros passos no artesanato.

“Era só um hobby, mas ele se misturou à vontade que eu tinha de produzir roupas. Desde criança, eu desenhava. Imaginava que iria aprender a costurar, mas acabei aprendendo crochê e comecei a desenhar e produzir minhas próprias peças. Foi uma mistura de tudo. Tinha 14 anos quando comecei”, contou.

Vestidos, biquínis, blusas, tops e croppeds estão entre as peças confeccionadas por Kawanny em sua marca, a Cacau Crochê. Cada criação é produzida de forma artesanal e personalizada, com modelos desenvolvidos sob encomenda e adaptados às preferências e estilo de cada cliente. Para a empreendedora, o objetivo é oferecer peças únicas.

Na loja Cacau Crochê, Kawanny produz peças diversas. Foto: cedida

“Depende do que a cliente me pede. Isso é algo muito legal, porque, na minha loja, normalmente desenvolvo as peças junto com a cliente. Ela me envia várias referências e, juntas, vamos criando algo único”, afirmou.

Empreender e estudar

Conciliar trabalho e estudos faz parte da rotina de milhares de mulheres brasileiras que buscam na educação uma oportunidade de transformar suas vidas. Diante dos desafios financeiros e da necessidade de custear despesas pessoais, muitas estudantes encontram no empreendedorismo uma alternativa para garantir renda sem abrir mão da formação acadêmica.

Kawanny Santos é uma delas. A estudante precisou transformar o que antes era apenas um hobby em uma fonte de renda. Como o curso de Psicologia na Ufac é ofertado em período integral, a jovem encontrou no crochê uma forma de garantir sua permanência na universidade e arcar com os custos da graduação.

“Minha faculdade é integral e estou naquela fase em que tudo está ficando mais complexo. O crochê, para mim, é uma fonte de renda. As vendas praticamente têm me sustentado durante a faculdade, porque eu não recebo bolsa de incentivo”, salientou.

Peças são vendidas principalmente para outras estudantes da Ufac. Foto: cedida

Kawanny revela ainda que as dificuldades financeiras e a carga intensa do curso já a fizeram cogitar interromper a formação para trabalhar. “Quando comecei a fazer crochê, era apenas um dinheiro extra, mas hoje ele é o que me permite permanecer na faculdade. É a minha autonomia financeira até que eu possa me formar.”

Conforme enfatiza, ela aproveita cada momento livre para produzir suas peças. Entre uma aula e outra, durante os trajetos de ônibus e até no horário de almoço, o crochê está presente em sua rotina diária, dividindo espaço com as demandas da graduação.

Todas as peças produzidas por Kawanny são feitas sob medida. Foto: cedida

Artesanato como refúgio

A relação entre arte e saúde mental ganhou destaque no Brasil graças ao trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira. Reconhecida por revolucionar o tratamento psiquiátrico no país, ela rompeu com práticas consideradas agressivas à época e passou a utilizar atividades artísticas como forma de expressão e cuidado dos pacientes.

Por ser da área da psicologia, Kawanny Santos enxerga essa conexão entre arte e saúde mental também em sua própria trajetória. Entre linhas, agulhas e pontos, a artesã encontrou uma forma de aliviar a ansiedade, organizar os pensamentos e lidar com os desafios do dia a dia, transformando o artesanato em um verdadeiro refúgio emocional.

Estudante de Psicologia, Kawanny destaca importância do crochê para sua caminhada acadêmica. Foto: cedida

“O crochê é algo que realmente acalma. É uma terapia. Mesmo que não me proporcionasse retorno financeiro, ele traz diversos outros benefícios, estimula a criatividade e faz a mente trabalhar. Como futura psicóloga, reconheço a importância da arte e gostaria de ensinar outras pessoas a trabalhar com isso”, ponderou.

Kawanny também ressaltou que, mesmo após concluir a graduação, pretende continuar se dedicando à produção de peças em crochê. “Acredito que estará presente na minha vida para sempre. Provavelmente será algo desafiador, mas, se eu puder, vou continuar e tentar conciliar as duas atividades.”

Fazer arte com as mãos é um dos refúgios da estudante. Foto: cedida

Mulheres que fortalecem mulheres

No universo do empreendedorismo feminino, o apoio entre mulheres tem se consolidado como uma ferramenta essencial para o fortalecimento de negócios e para a superação de desafios comuns enfrentados pelas empreendedoras. Essa união se manifesta de diferentes formas, seja por meio da indicação de serviços, da divulgação de produtos e da troca de conhecimentos.

Porém, a decisão de consumir produtos e contratar serviços de outras mulheres também desempenha um papel fundamental no apoio a esses negócios. Cada compra representa um incentivo direto para que possam ampliar suas atividades e gerar renda.

A jornalista Emilly Souza está entre as consumidoras que fazem questão de apoiar o empreendedorismo feito por mãos femininas, priorizando peças e criações desenvolvidas por mulheres. Apaixonada por moda e sempre atenta às tendências, ela destaca que valoriza a exclusividade e a identidade presentes em produtos feitos à mão.

“É único. Então, valorizo essa exclusividade de algo pensado para você e feito sob medida, além da qualidade e da dedicação das artesãs ao manusearem e produzirem uma peça linda”, afirmou a jornalista.

Emilly Souza tende a preferir sempre comprar de artesãs mulheres e locais. Foto: cedida

Emilly salienta ainda que admira o artesanato desde a infância, já que o crochê sempre esteve presente em sua vida por influência da tia, que produzia peças decorativas, como conjuntos para banheiro e tapetes para a casa.

“Nos meus 15 anos, ela me deu um tapete bem grande, com vários tons de rosa e roxo, que tenho até hoje. Como sempre achei o crochê muito bonito e delicado, adoro usar roupas e acessórios feitos com esse material. Considero um diferencial de estilo nos looks”, contou Emilly.

A jornalista complementa afirmando que faz questão de valorizar o trabalho e a dedicação dessas artesãs, pois reconhece o cuidado empregado em cada peça e a durabilidade dos produtos feitos à mãos.

Durante um mochilão pela Tailândia, em 2025, Emilly priorizou peças mais leves e confortáveis devido ao clima quente do país. Para compor os looks da viagem, ela apostou não apenas em roupas de crochê, mas também em acessórios que fizeram a diferença nas produções.

“Eu precisava levar poucas peças de roupa e pensei no crochê como um elemento que faria total diferença em um look mais básico. Os acessórios seriam o destaque e, além disso, combinam super com o clima de verão, por serem mais frescos”, frisou.

Para sua viagem à Tailândia, a jornalista optou levra peças de crochê produzidas no Acre. Foto: cedida

Empreendedorismo feminino do Acre

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que, no Acre, o número de mulheres à frente de negócios corresponde a cerca de 25% do total de empreendedores, uma das maiores proporções da Região Norte. O dado demonstra que, cada vez mais, elas têm buscado no próprio negócio uma forma de gerar renda e realizar sonhos.

Segundo Kethleen Diniz, gestora do programa Sebrae Delas, muitas começaram empreender por necessidade, mas hoje também enxergam como oportunidade de crescimento e protagonismo, principalmente nas áreas de beleza, alimentação, artesanato, moda e serviços digitais.

“Cada mulher que empreende gera renda em casa e fortalece não só a própria família, mas também movimenta a economia local e inspira outras mulheres. O Sebrae acompanha esse cenário de perto e entende que apoiar essas empreendedoras é investir no futuro”, declarou a gestora.

Progama Sebrae Delas fortalece o empreendedorismo feminino. Foto: cedida

O perfil das mulheres que empreendem no Acre é bastante diverso. De acordo com o Sebrae, há uma presença cada vez mais forte de empreendedoras que ingressam no mercado com uma visão inovadora, atentas às novas tendências e às oportunidades oferecidas pelo ambiente digital.

“O crescimento entre as jovens é cada vez mais visível. Muitas já começam cedo, usando as redes sociais, criando marcas próprias e transformando hobbies e talentos em fonte de renda. É um movimento que mostra mais protagonismo, criatividade e confiança das mulheres no ambiente de negócios”, ressaltou Kethleen.

“É só acreditar que dá certo”

Assim como milhares de estudantes da Universidade Federal do Acre, Kawanny Santos precisou se reinventar para garantir sua permanência no ensino superior. Diante dos desafios e da rotina intensa da graduação, a jovem transformou uma paixão em fonte de renda capaz de sustentar seus estudos.

Empreendedora deixa recado para jovens que pensam em abrir o própio negócio. Foto: cedida

Hoje, ao olhar para a própria trajetória, ela acredita que o empreendedorismo pode abrir caminhos para outras mulheres e deixa uma mensagem de incentivo para aquelas que sonham em iniciar o próprio negócio, mas ainda não encontraram coragem para dar o primeiro passo.

“Eu também já fui uma jovem que, no início da faculdade, pensou em trancar o curso. Empreender é muito incerto, mas, quando colocamos a nossa identidade no que fazemos, as coisas tendem a funcionar. Estamos em um momento em que as mulheres precisam ter autonomia financeira. É importante que nós, especialmente as mulheres LGBTQIAPN+, busquemos nossa independência e não fiquemos em situação de vulnerabilidade. É só acreditar que dá certo”, finalizou.

Redação

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ESTAMOS DE VOLTA

A Catraia celebra 21 anos e resgata memórias de ex-integrantes

O jornal A Catraia conversou com a ex-estudante de jornalismo, Adrielle Farias, que atua como repórter do jornal Estadão em São Paulo

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Por Danniely Avilis e Isabelle Magalhães 

Ao completar 21 anos de existência, A Catraia entra em um ano especial, que retoma a própria história por meio de relato da ex-integrante. A proposta é revisitar memórias, experiências acadêmicas e trajetórias profissionais que começaram ainda na graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Mais do que relembrar capas ou reportagens antigas, a equipe da A Catraia conversou com Adrielle Farias sobre o período em que era estudante e os primeiros passos na profissão. Adrielle que atuou como editora-chefe do jornal em 2018, ano que define como um dos mais intensos da formação acadêmica.

Foto: Instagram @adriellefarias

Escolha profissional e descoberta no curso

A decisão de cursar Jornalismo não foi imediata. Ainda na escola, Adrielle dividia interesses entre áreas criativas como audiovisual, escrita e comunicação.

“A gente nunca entra na faculdade totalmente sem dúvida, né? Eu gostava de muitas coisas”, afirma Adrielle.

Sem conhecer profundamente o curso da Ufac, ela se inscreveu e, somente após o ingresso, passou a pesquisar sobre professores, disciplinas e possibilidades profissionais. A identificação com a área ocorreu já durante a graduação.

“Eu só entendi que era aquilo que eu queria quando comecei a estudar, ver as matérias. Eu ficava ansiosa para acompanhar a grade curricular”, conta a jornalista.

“Meu pai sempre dizia que eu agarro o mundo com as pernas. Eu queria participar de tudo”, diz Adrielle Farias. Foto: cedida

Rotina intensa e desafios

Durante o curso, a participação nas disciplinas não foi suficiente. Adrielle também esteve envolvida em mostras acadêmicas, eventos e projetos extracurriculares, tendo A Catraia como principal espaço de atuação.

O fato de o curso ser noturno possibilitava trabalhar e estagiar durante o dia, realidade compartilhada por muitos estudantes. A conciliação das atividades, no entanto, trouxe desafios.

A sobrecarga resultou em ansiedade e na necessidade de aprender a administrar o tempo, habilidade que, segundo ela, não costuma aparecer formalmente na grade curricular. Ainda assim, considera que foi nesse período de intensidade que surgiram aprendizados decisivos.

Entre as experiências no jornal, uma reportagem sobre cinema ganhou destaque na trajetória profissional de Adrielle. O tema, que sempre esteve entre seus interesses pessoais, acabou influenciando também a escolha do Trabalho de Conclusão de Curso.

“Eu fui falar sobre cinema, que sempre foi algo de que eu gostei muito e ainda gosto. Inclusive, acho que isso acabou influenciando um pouco a escolha do meu TCC. Eu também usava isso como portfólio, para mostrar meu trabalho; quando me inscrevi para o treininho do Estadão, por exemplo, utilizei esse material como parte do portfólio”, conta a profissional.

Segundo ela, a experiência no jornal contribuiu para a conquista do atual emprego como repórter no Estadão.

Participação de Adrielle Faria no Intercom. Foto: cedida

Trabalho em equipe

Ao relembrar a atuação como editora-chefe, Adrielle destaca o papel do trabalho coletivo no exercício da profissão e orienta como dica para futuros jornalistas que ainda não atuam na profissão.

“O trabalho em equipe é essencial no jornalismo, porque ninguém faz um jornal sozinho. Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito, saber se comunicar e manter o diálogo, para que todos trabalhem pelo mesmo objetivo sem conflitos”, finaliza Adrielle.

“Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito”, afirma a profissional. Foto: cedida

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Especiais

Rio cheio e políticas vazias

Mudanças climáticas, cheias históricas e a fragilidade das políticas públicas que agravam a situação do Rio Acre

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Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz

O Rio Acre, que nasce no Peru e atravessa municípios acreanos de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia, Xapuri, Rio Branco, Capixaba, Senador Guiomard e Porto Acre, é um dos principais responsáveis pelo abastecimento e pelo sustento de milhares de famílias no estado. No entanto, ao longo dos últimos anos, o manancial tem enfrentado transformações profundas, impulsionadas pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela fragilidade das políticas públicas ambientais.

Essas mudanças se refletem tanto nos períodos de cheia quanto nos de seca extrema, que têm se tornado cada vez mais frequentes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e bairros urbanos situados em áreas de risco da capital acreana

Segundo Victor Manoel, do Comitê Chico Mendes, Rio Branco possui um plano de contingência estruturado contra enchentes, algo inexistente até mesmo nas maiores capitais do país brasileiras. Ainda assim, o problema persiste.

“Rio Branco tem um plano de contingência contra enchentes. Esse estudo já foi feito. O que falta, na verdade, é prioridade. Falta uma leitura do material que já existe. A gente vive em um mandato político onde se prioriza muito mais a infraestrutura urbana”, avalia.

Manoel explica que, embora o poder público não tenha controle sobre o clima ou as chuvas, é responsável por não desenvolver ações que reduzem o impacto das cheias. “A prefeitura não controla a chuva nem as mudanças climáticas, mas é totalmente responsável por políticas públicas que mitiguem os impactos dessas mudanças na população e na própria máquina estatal”, completa.

Cheias atípicas e extremos cada vez mais frequentes

Em dezembro de 2025, o Rio Acre registrou uma cheia considerada atípica. De acordo com a Defesa Civil Municipal, foram acumulados 561,6 milímetros de chuva, o que representa 97% acima do esperado para todo o mês, um volume que não era observado havia pelo menos uma década.

O coordenador municipal da Defesa Civil, coronel Cláudio Falcão, explica que o comportamento do rio é marcado por variações extremas de vazão

“Quando o Rio Acre está abaixo de 11 metros, a vazão chega a cerca de 1 milhão e 100 mil litros de água por segundo. No outro extremo, essa vazão pode cair para cerca de 25 mil litros por segundo. A diferença é muito grande”, explica.

Foto: cedida.

Segundo ele, parte desse comportamento se deve às características naturais do rio. “O Rio Acre é um rio novo, ainda em formação, e por isso muda o curso de vez em quando”, afirma.

Desmatamento e perda da mata ciliar agravam o problema

Além das características naturais, questões ambientais agravam a situação. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicado no site InfoAmazonia aponta que o Rio Acre perdeu cerca de 40% da sua mata ciliar ao longo de 55 anos, equivalente a aproximadamente 4,5 mil hectares de vegetação nativa degradada, de um total original estimado em 11,6 mil hectares.

A mata ciliar é fundamental para a regulação do rio por ajudar a conter a erosão das margens, reduz o assoreamento e permite que a água seja absorvida e liberada gradualmente.

“Ao longo do Rio Acre há muito assoreamento e desmatamento das margens. Com isso, o rio não consegue manter o nível da mesma maneira. Quando a água chega, chega de uma vez só”, explica o coronel Falcão.

Ele destaca o papel da floresta na regulação dos extremos hídrico: “A floresta segura a água no período de cheia e vai soltando aos poucos durante a seca. Além disso, evita o desbarrancamento e o aceleramento do rio. Se tivéssemos a floresta preservada ao longo do rio, não teríamos extremos tão intensos”, afirma

A vida em áreas vulneráveis: relatos de quem convive com o rio

No bairro Cidade Nova, em Rio Branco, as moradoras Vitória Yasmin, de 23 anos, e Alderina Costa, de 65, relatam as dificuldades enfrentadas durante os períodos de cheia do Rio Acre, fenômeno que se repete ano após ano e afeta diretamente a rotina de quem vive em áreas consideradas vulneráveis.

“Quando começa a encher, a gente já levanta tudo. A água é contaminada por causa do esgoto. Eu preciso ir para a casa da minha avó. Em 2015, a água chegou a subir pela parede”, conta Vitória.

Alderina relembra que, diante da recorrência das enchentes, a família precisou investir por conta própria para reduzir os riscos. Sem apoio financeiro do poder público, a solução encontrada foi adaptar a própria estrutura da casa.

“A água entrou bem aqui. Em 2015, na época, não tinha esse apartamento alto. Então a gente fez um segundo andar para ficar lá em cima quando alaga”, relata.

Segundo Alderina, a decisão de construir um segundo pavimento veio do desejo de permanecer no local onde sempre viveu. Para ela, sair da própria moradia e ser levada para abrigos distantes é uma alternativa que muitos moradores não querem enfrentar. Destaca, ainda, que não vê possibilidade de deixar a casa, pois não teria para onde ir: “Se eu pedir 100 mil, aqui na minha casa, eu não vendo. Entendeu? E se eu pedir menos de 50 mil, eu vou comprar outra onde?”, questiona.

Ela defende que o governo ofereça apoio financeiro para que as famílias possam adaptar suas casas com segurança, evitando o deslocamento forçado durante as cheias. Para Alderina, a permanência no território também representa dignidade, pertencimento e menor desgaste emocional.

As adaptações feitas pelas famílias evidenciam como a responsabilidade de lidar com os impactos das cheias acaba sendo transferida do poder público para os próprios moradores. Embora existam políticas públicas voltadas à prevenção de desastres, ainda há um hiato significativo entre o que está previsto no papel e o que, de fato, é executado.

Além disso, moradores que vivem em áreas de risco defendem que as soluções não se limitem apenas à retirada compulsória das famílias de suas casas. Para eles, é fundamental que haja diálogo, escuta e participação das comunidades diretamente afetadas, por meio de audiências públicas e espaços de debate que considerem suas realidades e necessidades. Essas populações não são culpadas pelos desastres recorrentes e precisam ser incluídas na construção das soluções.

As estratégias adotadas por famílias como a de Alderina revelam não apenas a precariedade das políticas habitacionais em áreas vulneráveis, mas também a criatividade, a resistência e a determinação de quem convive há décadas com o avanço das águas.

Diante da ausência de respostas efetivas, são os próprios moradores que buscam alternativas para proteger suas famílias e preservar o vínculo com o território onde construíram suas histórias.

Apesar do cenário preocupante, existem iniciativas públicas voltadas à prevenção e à recuperação ambiental. Em Rio Branco, foi instituído o Plano Municipal de Prevenção e Combate às Enchentes, que prevê ações como o mapeamento de áreas de risco, recuperação de áreas degradadas, melhorias na drenagem urbana e educação ambiental. No entanto, grande parte dessas medidas ainda depende de orçamento, continuidade administrativa e prioridade política.

No campo ambiental, o Governo do Acre e a Prefeitura de Rio Branco firmaram um acordo de cooperação técnica para fortalecer ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Em 2025, por exemplo, mais de 400 mudas de espécies nativas foram plantadas em áreas de preservação permanente às margens do Rio Acre, como tentativa de conter a erosão do solo.

O estado também conta com iniciativas como o Viveiro da Floresta, em Rio Branco, responsável pela produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares em diferentes regiões do Acre. Apesar disso, estudos científicos, avaliam que as ações ainda avançam em ritmo lento diante da dimensão do problema e da frequência cada vez maior das cheias.

Limites orçamentários e desafios estruturais

De acordo com o coronel Falcão, outro entrave importante é a limitação de recursos e a complexidade das soluções necessárias.

“Não existe solução simples. Algumas ações envolvem diplomacia entre países, porque o rio nasce no Peru, e outras dependem de recursos que a Defesa Civil não tem para atender todos os problemas ao mesmo tempo”, afirma.

Ele explica que mudanças estruturais no comportamento do rio demandam tempo. “Nada pode ser mudado em menos de 10 anos. Qualquer ação que a gente faça agora não muda o cenário do Rio Acre em curto prazo”, ressalta.

O futuro do Rio Acre

O coordenador da Defesa Civil alerta ainda para projeções preocupantes. Segundo ele, o climatólogo Carlos Nobre prevê um cenário crítico para o Rio Acre até 2032, caso o modelo atual de ocupação e degradação ambiental continue.

“A gente pode enfrentar uma seca tão severa que o rio pode praticamente parar de correr, como diziam nossos antepassados”, alerta.

O problema é recorrente, que se repete ano após ano, a situação do Rio Acre evidencia que, mais do que planos e ações emergenciais, são necessárias políticas públicas transparentes, contínuas e preventivas, capazes de articular preservação ambiental, planejamento urbano e proteção social. Sem isso, moradores continuarão convivendo com cheias, secas e a incerteza de um rio cada vez mais imprevisível.

Redação

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