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Muito além dos números: o luto na pandemia

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Por Marcus V. Almeida e Pâmela Celina

O que fazer quando um país normaliza mais de 500 mil mortes por uma doença que já possui vacina? Desde março de 2020, lidamos com a morte e o luto de uma maneira macabra. Choramos por conhecidos, parentes ou famosos, mas ignoramos milhares de anônimos que morrem diariamente. O processo de nos despedir de quem amamos foi reduzido ao mínimo devido aos protocolos de contenção de contaminação e a ideia de morte e luto passou por uma transformação.

O processo de luto para quem perdeu um ente querido envolve diversas etapas que ajudam na forma de lidar com a morte. Pode parecer simples, mas esse processo é bastante complexo e proporciona diversos estudos acadêmicos e científicos que apontam os impactos psicológicos nas pessoas que não puderam se despedir de acordo com seus costumes.

A Covid-19 eliminou o ritual de despedida que existe na cultura brasileira, com velório, cortejo e enterro. Desta forma, as pessoas ficam com a sensação que “não se despediram como deveriam” e perderam também o apoio mais próximo de parentes e amigos. Com o distanciamento social, as famílias e equipes de saúde passaram a vivenciar a morte com mais impacto.

O avanço da pandemia, com situações de muitos casos de infecção e óbito em familiares e amigos, gera uma sequência de lutos e maiores dificuldades de superação, fazendo até mesmo aqueles que não tiveram perdas de pessoas próximas vivenciarem sentimento de instabilidade social e sofrimento.

Temos que lembrar que a experiência de uma pessoa não serve para todas, cada um vivencia o luto de uma forma diferente e existem variadas formas de superar. O luto envolve etapas que podem gerar sentimentos de mudança da forma de viver ou a busca de motivação para continuar.

Fases do processo de luto. Produção: Pâmela Celina

Para entender melhor como a pandemia da Covid-19 transformou a essencial vivência do luto, conversamos com a psicóloga Khauana Leite, que explicou um pouco sobre as principais mudanças que aconteceram na forma de lidar com a perda. Formada pela Universidade Federal do Acre (Ufac), ela faz mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano de 2020, ela atuou como voluntária no atendimento de pacientes encaminhados pelo TeleCovid e também no Acolha um profissional de saúde, projeto direcionado ao atendimento psicológico emergencial de profissionais que atuam na linha de frente contra a Covid-19 em Rio Branco.

O que é o luto?

Khauana: O luto é um processo emocional natural vivenciado a partir de uma experiência de perda/rompimento de vínculo (que não se restringe ao falecimento de uma pessoa, mas também ao fim de relacionamentos afetivos, perda de animais de estimação ou a perda de emprego, por exemplo). A partir da perda ocorre o “fim” da forma estabelecida cotidiana de viver e surge a necessidade de uma nova significação para a própria vida de quem está vivendo o luto. Esse processo ocorre conforme o tempo e a cultura em que cada pessoa está inserida. É comum que aconteça em países latino-americanos um ritual de despedida, como o velório e o enterro, para que as pessoas que possuem vínculo com a/o falecida/o possam usufruir de uma rede de apoio e também seguir para fases de aceitação e rearranjo da vida sem a presença física daquela pessoa que se foi. 

Como o processo de luto acontece?

Khauana: Bom, é importante frisar que o luto, assim como as demais experiências que compõem a existência humana, não deve ser generalizado. Apesar de ter teorias que descrevem as fases do luto, elas não seguem uma cronologia e cada pessoa vivencia de maneira única. O processo de luto interrompe o fluxo cotidiano e também exige que novas experiências sejam construídas por aqueles que permaneceram. 

Uma autora que geralmente tomo como base para compreender e atender pessoas enlutadas é a Elisabeth Kübler-Ross (psiquiatra suíço-americana). Ela descreve o luto em cinco estágios: isolamento e negação da perda; raiva quando se percebe que não é mais possível negar; barganha, estágio de promessas divinas para permanência do ente que está em fase terminal ou crença de um possível retorno; depressão, rebaixamento do humor, é marcado por solidão e saudade; e por último, o estágio de aceitação da perda e reorganização da vida sem a pessoa querida.

Como a pandemia transformou esse processo?

Khauana: A pandemia por Covid-19 quebrou o ritual de despedida extremamente importante para a vivência do luto. Já existem estudos que descrevem que essa ruptura contribui para impactos psicológicos naqueles que ficaram, ao passo que não puderam se despedir dos seus entes. 

Em função das medidas de distanciamento social as pessoas que estão hospitalizadas mantêm o contato com os familiares apenas pelo celular, após a entrada no ambiente hospitalar não há mais contato presencial com o ente. Esse processo afeta diretamente pacientes hospitalizados, os familiares e a equipe de saúde que se depara com a iminência da morte de forma potencializada. Dentro de todo esse cenário fica muito difícil realizar rituais funerários de despedida em consonância com a cultura e religião das pessoas envolvidas, dificultando a experiência do luto. 

Além disso, há situações em que famílias apresentam múltiplos casos de infecção e óbito, mobilizando uma sequência de lutos, trazendo ainda mais desafios para se adaptar e lidar com as perdas. E todo esse cenário crônico de enlutamento não acontece apenas com familiares e equipe de saúde, mas na sociedade como um todo, mesmo pessoas que não tiveram perdas concretas, amigas/os ou familiares, podem viver o sofrimento e ter um sentimento de instabilidade social.   

Quais seriam as consequências e  impactos da pandemia nesse processo? 

Khauana: A pandemia de Covid-19 implica diretamente na experiência do luto, principalmente no antecipatório, ou seja, na preparação emocional diante da iminência da perda. Este é afetado nesse período, pois em alguns casos o quadro clínico da/o paciente pode agravar rapidamente e ela/e vir a óbito. Além disso, o local e as condições em que a pessoa morre também oferecem implicações para esse processo, ao passo que se o ente estiver isolado haverá impossibilidade da despedida, o que contribui para vivência de um luto complicado. 

As pesquisas têm apontado que há frequência do sentimento de culpa, familiares e amigas/os podem acreditar e sentir que foram os responsáveis por infectar a pessoa falecida. Nesse sentido, o que se sabe cientificamente até o momento, a partir das pesquisas realizadas, é que os impactos psicológicos podem variar entre ansiedade, síndromes de pânico, luto antecipatório afetado e o desenvolvimento de um luto complicado devido à impossibilidade de um ritual de despedida. 

Cuidados funerários

Além dos números de mortes ou da descrição técnico-científica da doença, informações que recebemos diariamente desde o início da pandemia, é interessante conhecer melhor quem está tendo que lidar diretamente com os que tiveram uma perda por essa doença. Para isso, buscamos entender como a pandemia afetou o ambiente e a rotina de quem trabalha em uma funerária.

Nonata Viana começou a trabalhar em funerárias por necessidade, mas atualmente não trocaria de emprego por nada. “Hoje em dia, se por um acaso eu tiver que sair da funerária, eu vou procurar outra funerária, porque eu amo o que faço”. Por trabalhar na preparação dos corpos para o velório, Nonata sempre manipulou produtos químicos, o que tornou o uso de EPIs rotina diária no ambiente de trabalho, mesmo antes da pandemia. Mas isso não significa que não houve alterações nos cuidados. “Depois dessa pandemia, claro que a gente se equipa melhor. Além de usar máscara, luva, avental, touca e bota, a gente tem que colocar o macacão e aquela outra máscara mais avançada”, conta.

Nonata usa equipamentos mais avançados para se proteger. Foto: Arquivo Pessoal.

Ela relata que a principal mudança na rotina de trabalho ocorreu quando começaram os enterros em que a causa da morte foi por complicações da Covid-19. “Quando na declaração vem escrito Covid-19, a gente não pode mexer no corpo. Ele sai do hospital direto para o cemitério”. Segundo ela, os familiares contestam a ausência de velório. Quando isso ocorre, a funerária entra em contato com a vigilância sanitária para conversar e depois explica aos familiares os motivos da proibição desses atos para as vítimas da Covid-19.

O contato com as famílias é delicado, pois o abalo da perda influencia o modo como vão lidar e a forma com que se dirigem a eles. O convívio tão próximo com a morte permite que se pense mais antes de falar com quem perdeu um ente querido. Nonata ressalta que, dependendo do que é dito, às vezes podem acontecer interpretações equivocadas.

Mesmo com todos os cuidados e o uso de EPIs não isentaram Nonata de pegar a Covid-19 e, infelizmente, perder entes queridos para essa doença. Ela relata que houve casos de Covid na funerária, incluído ela mesma, e casos de colegas de trabalho em outras empresas que chegaram a óbito devido a complicações da doença.

 “Lidar com a perda é bem complicado. É difícil você ver um colega de trabalho morrer por essa doença, uma coisa que você está lidando ali. Você tá convivendo com isso e, mesmo preparada, com os equipamentos de proteção, você está correndo risco, não é? Então, a gente fica bem apreensivo, com medo. Mas é o nosso trabalho e temos que ter fé”, fala. A pandemia potencializou um medo generalizado: perder aqueles que amamos.

A conversa com Nonata mostra que lidar diretamente com a morte requer dedicação e uma coragem que muitos não têm.  As falas demonstram que seu trabalho é mais do que somente lidar com corpos sem vida.

Sobre a Covid-19

A Covid-19 é uma infecção respiratória causada pelo SARS-CoV-2, da família dos coronavírus, cujo primeiro caso foi relatado no final de 2019. A doença é transmitida pelo ar, atingindo as vias respiratórias e podendo afetar diversos sistemas do corpo. Com alta transmissibilidade e de distribuição global, a enfermidade tem deixado muitas sequelas físicas e psicológicas em todos. 

Principais cuidados contra a Covid-19. Produção: Pâmela Celina

Até o final de julho de 2021, no Acre foram registrados mais de 87 mil casos de infecções, dos quais aproximadamente 1800 chegaram a óbitos por complicações de Covid-19. Com o avanço das vacinações no Estado (pouco mais de 40% da população recebeu a primeira dose), diversos mutirões estão sendo feitos para acelerar o processo de imunização (atinge atualmente cerca de 14% da população com doses completas). Vale ressaltar que mesmo após ser vacinado é possível transmitir a doença a outras pessoas. Por isso, a recomendação é manter o uso de máscaras faciais, o distanciamento social e a higienização frequente das mãos. São muitos esforços e profissionais empenhados em trazer esperanças e diminuir os óbitos por Covid-19 na população acreana.

Redação

Margens

Chuva de obras públicas em Rio Branco amplia necessidade de fiscalização rigorosa

Empreendedores relatam prejuízos e mudanças na rotina causadas pela execução simultânea de obras públicas

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Por Ana Luiza Pedroza e Julie Siqueira

Nos últimos meses, Rio Branco registrou aumento no número de obras públicas simultâneas, provocando mudanças na mobilidade urbana e na rotina da população. Nesse cenário, a fiscalização técnica deve ser um dos principais instrumentos de acompanhamento dessas obras.

De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Mobilidade Urbana (Seinfra), atualmente cerca de 50 a 100 obras públicas estão em execução, incluindo serviços de pavimentação, construção de UBSs, praças, quadras e obras viárias. Conforme a pasta, cada obra conta com fiscais oficialmente nomeados, responsáveis pelo acompanhamento da execução, medições dos serviços e verificação dos materiais utilizados.

Segundo a Seinfra, toda obra, antes de iniciar a fase de execução, já possui um fiscal oficialmente nomeado e publicado no Diário Oficial do Estado (DOE). Esse profissional acompanha de forma diária e presencial os canteiros (áreas onde as construções estão sendo executadas), exige o cumprimento do projeto e verifica se corresponde ao que foi licitado.

Entre as principais fases da fiscalização estão a conferência das metragens realizadas e a verificação da qualidade de produtos como cimento, tintas e demais materiais estruturais. Caso seja identificada qualquer irregularidade causada por desvios do que consta no projeto principal, a empresa contratada é obrigada a refazer o serviço sem custos adicionais para a Prefeitura.

Nesse cenário de aumento das construções civis, há uma maior necessidade de controle técnico durante as etapas de execução. A engenheira civil Carolina Galvão, que atua na Associação dos Municípios do Acre (AMAC), explica que o planejamento e a fiscalização são fatores determinantes para a qualidade e a segurança das obras públicas.

Carolina também ressalta que, segundo dados do Tribunal de Contas da União (TCU), falhas no planejamento e projetos deficientes estão entre as principais causas de paralisações e atrasos em obras públicas. “Quando uma obra é paralisada, o prejuízo maior é da população, que deixa de receber o benefício final, que é o equipamento público em funcionamento”, completa.

Esses casos também podem ser observados nas obras da capital. Dados públicos encontrados no portal da transparência da Prefeitura indicam que o serviço de urbanização da Poligonal Baixada I, que abrange o bairro Bahia Velha, é a intervenção que permanece há mais tempo paralisada nos últimos três anos. Embora o contrato preveja execução entre setembro de 2020 e junho de 2026, a obra acumula 1.823 dias de paralisação e registra um percentual de execução de apenas 14,88%, evidenciando como atrasos prolongados podem comprometer a entrega de serviços públicos e ampliar as consequências sobre as comunidades atendidas.

Mesmo com procedimentos que garantem a efetivação das construções, a população rio-branquense tem vivido os efeitos gerados pelas obras simultâneas, principalmente nas áreas próximas aos canteiros. Moradores e empreendedores relatam grandes mudanças durante o período de execução, além de prejuízos causados pelos atrasos.

É o caso da empresária Elen Farias, proprietária de uma clínica automotiva e borracharia localizada nas proximidades da obra do complexo viário da Avenida Ceará.

Clínica Automotiva e Borracharia, Av. Getúlio Vargas. Foto: Ana Luiza Pedoza.

Segundo ela, houve uma redução significativa no movimento do estabelecimento desde o início da intervenção. “O movimento caiu em torno de 50%, ou até mais. As pessoas evitam passar por aqui por conta do trânsito. Automaticamente, a oficina acaba ficando invisível”, relata.

Ainda de acordo com a empresária, moradores e empreendedores da região participaram de reuniões com o poder público e advogados para tratar de compensações relacionadas às áreas afetadas pela obra. Segundo Elen, os valores foram definidos conforme a extensão dos terrenos atingidos, mas o auxílio recebido não tem sido suficiente para compensar os custos mantidos durante o período de execução.

“Nós recebemos um valor bem inferior ao que gastamos, e eles alegam que é porque o que eles quebram, eles constroem novamente”, completa. A expectativa da empresária é que o cumprimento dos prazos seja prioridade, podendo, assim, haver uma chance de resgatar o movimento inicial de seu negócio.

Os dados técnicos e os relatos indicam a importância do acompanhamento das obras para o cumprimento de prazos, normas técnicas e para a redução dos impactos nas áreas diretamente afetadas. Com essas movimentações, é importante que a população também busque uma participação mais ativa, acompanhando informações e acionando os canais oficiais sempre que necessário.

A Seinfra informa que a população pode acompanhar o andamento das obras por meio do portal da Prefeitura, na seção “De Olho na Obra”, onde estão disponíveis dados sobre cronogramas, empresas responsáveis e fiscais designados. A secretaria orienta ainda que denúncias e reclamações sejam encaminhadas diretamente ao órgão.

Redação

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Especiais

Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco

Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana

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Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães

O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.

Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.

A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.

Um bairro que aprendeu a conviver com o medo

O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.

Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.

Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.

A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.

“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.

Doze dias de busca, três meses de espera

O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.

“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.

O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis

Uma nova estrutura, a mesma memória

Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.

Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.

“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.

Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.

 “Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.

Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.

Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães

Tragédia marcou quem acompanhou de perto

O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.

“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.

Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.

“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.

Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.

“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.

Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.

Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.

No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis

Mais que uma travessia, um aviso

Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.

“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.

A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.

“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.

Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.

Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.

Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.

E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme

Redação

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RESENHA CRÍTICA

“Noite Acreana Volume 3” reafirma força da música autoral no Acre

Projeto idealizado pela banda Maya retornou em 2026 com identidade consolidada e diálogo entre tradição e contemporaneidade

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Por Ádrya Miranda

O show “A Noite Acreana Volume 3” marcou o retorno do projeto em 2026, em apresentação realizada no dia 16 de janeiro, no Studio Beer. Idealizada pela banda Maya, a iniciativa se reafirma como um espaço de valorização da música autoral no Acre. Ao acompanhar o evento, ficou evidente a proposta de romper com a lógica de shows apenas com covers, abrindo palco para produções próprias e experimentações sonoras.

Nesta edição, além do show principal da banda Maya, o evento contou com apresentações de Carol Freitas e Diego Arantes, ampliando o diálogo entre diferentes expressões da cena musical local. O line-up reuniu artistas que compartilham processos criativos e referências estéticas parecidas, o que contribuiu diretamente para a construção de uma identidade própria do projeto.

A cantora Karol Freitas foi responsável pela abertura do show. Foto: Ádrya Miranda

No palco, a banda Maya se apresentou acompanhada por Isabel Darah, Kauê Canedo e Saulo Olímpio, formação que mostrou uma sintonia entre eles. A interação entre os integrantes trouxe uma performance segura e envolvente.

Como espectadora, percebi uma sintonia entre os músicos, com arranjos que transitam por gêneros como hip-hop, rock, maracatu e guitarrada, revelando maturidade artística e domínio de linguagem.

Maya dourado durante show. Foto: Ádrya Miranda

Um dos pontos fortes da Noite Acreana foi a forma como as referências contemporâneas se uniram com os elementos da cultura regional. A mistura de ritmos aparece de maneira orgânica, resultando em uma sonoridade que dialoga com o território acreano sem recorrer a estereótipos. Essa escolha, a meu ver, aumentou o alcance do projeto e reforçou o seu potencial de circulação para além do cenário local, algo que veio desde sua primeira edição, realizada em São Paulo.

Divulgação do evento. Fonte: redes sociais

Durante o show, o público teve contato com composições autorais e com a música inédita “Saltenha de Jambú”, apresentada como um indicativo dos próximos passos da banda. A proposta do evento foi algo entre o espaço de experiências musicais e a construção de caminhos futuros. 

Ao final, a Noite Acreana se consolidou como uma iniciativa relevante dentro da cena cultural acreana. Mais do que um evento musical, o projeto funcionou como uma plataforma de visão e fortalecimento da produção autoral local, apontando para a continuidade e expansão da música independente no estado.

Redação

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