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Muito além dos números: o luto na pandemia

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Por Marcus V. Almeida e Pâmela Celina

O que fazer quando um país normaliza mais de 500 mil mortes por uma doença que já possui vacina? Desde março de 2020, lidamos com a morte e o luto de uma maneira macabra. Choramos por conhecidos, parentes ou famosos, mas ignoramos milhares de anônimos que morrem diariamente. O processo de nos despedir de quem amamos foi reduzido ao mínimo devido aos protocolos de contenção de contaminação e a ideia de morte e luto passou por uma transformação.

O processo de luto para quem perdeu um ente querido envolve diversas etapas que ajudam na forma de lidar com a morte. Pode parecer simples, mas esse processo é bastante complexo e proporciona diversos estudos acadêmicos e científicos que apontam os impactos psicológicos nas pessoas que não puderam se despedir de acordo com seus costumes.

A Covid-19 eliminou o ritual de despedida que existe na cultura brasileira, com velório, cortejo e enterro. Desta forma, as pessoas ficam com a sensação que “não se despediram como deveriam” e perderam também o apoio mais próximo de parentes e amigos. Com o distanciamento social, as famílias e equipes de saúde passaram a vivenciar a morte com mais impacto.

O avanço da pandemia, com situações de muitos casos de infecção e óbito em familiares e amigos, gera uma sequência de lutos e maiores dificuldades de superação, fazendo até mesmo aqueles que não tiveram perdas de pessoas próximas vivenciarem sentimento de instabilidade social e sofrimento.

Temos que lembrar que a experiência de uma pessoa não serve para todas, cada um vivencia o luto de uma forma diferente e existem variadas formas de superar. O luto envolve etapas que podem gerar sentimentos de mudança da forma de viver ou a busca de motivação para continuar.

Fases do processo de luto. Produção: Pâmela Celina

Para entender melhor como a pandemia da Covid-19 transformou a essencial vivência do luto, conversamos com a psicóloga Khauana Leite, que explicou um pouco sobre as principais mudanças que aconteceram na forma de lidar com a perda. Formada pela Universidade Federal do Acre (Ufac), ela faz mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano de 2020, ela atuou como voluntária no atendimento de pacientes encaminhados pelo TeleCovid e também no Acolha um profissional de saúde, projeto direcionado ao atendimento psicológico emergencial de profissionais que atuam na linha de frente contra a Covid-19 em Rio Branco.

O que é o luto?

Khauana: O luto é um processo emocional natural vivenciado a partir de uma experiência de perda/rompimento de vínculo (que não se restringe ao falecimento de uma pessoa, mas também ao fim de relacionamentos afetivos, perda de animais de estimação ou a perda de emprego, por exemplo). A partir da perda ocorre o “fim” da forma estabelecida cotidiana de viver e surge a necessidade de uma nova significação para a própria vida de quem está vivendo o luto. Esse processo ocorre conforme o tempo e a cultura em que cada pessoa está inserida. É comum que aconteça em países latino-americanos um ritual de despedida, como o velório e o enterro, para que as pessoas que possuem vínculo com a/o falecida/o possam usufruir de uma rede de apoio e também seguir para fases de aceitação e rearranjo da vida sem a presença física daquela pessoa que se foi. 

Como o processo de luto acontece?

Khauana: Bom, é importante frisar que o luto, assim como as demais experiências que compõem a existência humana, não deve ser generalizado. Apesar de ter teorias que descrevem as fases do luto, elas não seguem uma cronologia e cada pessoa vivencia de maneira única. O processo de luto interrompe o fluxo cotidiano e também exige que novas experiências sejam construídas por aqueles que permaneceram. 

Uma autora que geralmente tomo como base para compreender e atender pessoas enlutadas é a Elisabeth Kübler-Ross (psiquiatra suíço-americana). Ela descreve o luto em cinco estágios: isolamento e negação da perda; raiva quando se percebe que não é mais possível negar; barganha, estágio de promessas divinas para permanência do ente que está em fase terminal ou crença de um possível retorno; depressão, rebaixamento do humor, é marcado por solidão e saudade; e por último, o estágio de aceitação da perda e reorganização da vida sem a pessoa querida.

Como a pandemia transformou esse processo?

Khauana: A pandemia por Covid-19 quebrou o ritual de despedida extremamente importante para a vivência do luto. Já existem estudos que descrevem que essa ruptura contribui para impactos psicológicos naqueles que ficaram, ao passo que não puderam se despedir dos seus entes. 

Em função das medidas de distanciamento social as pessoas que estão hospitalizadas mantêm o contato com os familiares apenas pelo celular, após a entrada no ambiente hospitalar não há mais contato presencial com o ente. Esse processo afeta diretamente pacientes hospitalizados, os familiares e a equipe de saúde que se depara com a iminência da morte de forma potencializada. Dentro de todo esse cenário fica muito difícil realizar rituais funerários de despedida em consonância com a cultura e religião das pessoas envolvidas, dificultando a experiência do luto. 

Além disso, há situações em que famílias apresentam múltiplos casos de infecção e óbito, mobilizando uma sequência de lutos, trazendo ainda mais desafios para se adaptar e lidar com as perdas. E todo esse cenário crônico de enlutamento não acontece apenas com familiares e equipe de saúde, mas na sociedade como um todo, mesmo pessoas que não tiveram perdas concretas, amigas/os ou familiares, podem viver o sofrimento e ter um sentimento de instabilidade social.   

Quais seriam as consequências e  impactos da pandemia nesse processo? 

Khauana: A pandemia de Covid-19 implica diretamente na experiência do luto, principalmente no antecipatório, ou seja, na preparação emocional diante da iminência da perda. Este é afetado nesse período, pois em alguns casos o quadro clínico da/o paciente pode agravar rapidamente e ela/e vir a óbito. Além disso, o local e as condições em que a pessoa morre também oferecem implicações para esse processo, ao passo que se o ente estiver isolado haverá impossibilidade da despedida, o que contribui para vivência de um luto complicado. 

As pesquisas têm apontado que há frequência do sentimento de culpa, familiares e amigas/os podem acreditar e sentir que foram os responsáveis por infectar a pessoa falecida. Nesse sentido, o que se sabe cientificamente até o momento, a partir das pesquisas realizadas, é que os impactos psicológicos podem variar entre ansiedade, síndromes de pânico, luto antecipatório afetado e o desenvolvimento de um luto complicado devido à impossibilidade de um ritual de despedida. 

Cuidados funerários

Além dos números de mortes ou da descrição técnico-científica da doença, informações que recebemos diariamente desde o início da pandemia, é interessante conhecer melhor quem está tendo que lidar diretamente com os que tiveram uma perda por essa doença. Para isso, buscamos entender como a pandemia afetou o ambiente e a rotina de quem trabalha em uma funerária.

Nonata Viana começou a trabalhar em funerárias por necessidade, mas atualmente não trocaria de emprego por nada. “Hoje em dia, se por um acaso eu tiver que sair da funerária, eu vou procurar outra funerária, porque eu amo o que faço”. Por trabalhar na preparação dos corpos para o velório, Nonata sempre manipulou produtos químicos, o que tornou o uso de EPIs rotina diária no ambiente de trabalho, mesmo antes da pandemia. Mas isso não significa que não houve alterações nos cuidados. “Depois dessa pandemia, claro que a gente se equipa melhor. Além de usar máscara, luva, avental, touca e bota, a gente tem que colocar o macacão e aquela outra máscara mais avançada”, conta.

Nonata usa equipamentos mais avançados para se proteger. Foto: Arquivo Pessoal.

Ela relata que a principal mudança na rotina de trabalho ocorreu quando começaram os enterros em que a causa da morte foi por complicações da Covid-19. “Quando na declaração vem escrito Covid-19, a gente não pode mexer no corpo. Ele sai do hospital direto para o cemitério”. Segundo ela, os familiares contestam a ausência de velório. Quando isso ocorre, a funerária entra em contato com a vigilância sanitária para conversar e depois explica aos familiares os motivos da proibição desses atos para as vítimas da Covid-19.

O contato com as famílias é delicado, pois o abalo da perda influencia o modo como vão lidar e a forma com que se dirigem a eles. O convívio tão próximo com a morte permite que se pense mais antes de falar com quem perdeu um ente querido. Nonata ressalta que, dependendo do que é dito, às vezes podem acontecer interpretações equivocadas.

Mesmo com todos os cuidados e o uso de EPIs não isentaram Nonata de pegar a Covid-19 e, infelizmente, perder entes queridos para essa doença. Ela relata que houve casos de Covid na funerária, incluído ela mesma, e casos de colegas de trabalho em outras empresas que chegaram a óbito devido a complicações da doença.

 “Lidar com a perda é bem complicado. É difícil você ver um colega de trabalho morrer por essa doença, uma coisa que você está lidando ali. Você tá convivendo com isso e, mesmo preparada, com os equipamentos de proteção, você está correndo risco, não é? Então, a gente fica bem apreensivo, com medo. Mas é o nosso trabalho e temos que ter fé”, fala. A pandemia potencializou um medo generalizado: perder aqueles que amamos.

A conversa com Nonata mostra que lidar diretamente com a morte requer dedicação e uma coragem que muitos não têm.  As falas demonstram que seu trabalho é mais do que somente lidar com corpos sem vida.

Sobre a Covid-19

A Covid-19 é uma infecção respiratória causada pelo SARS-CoV-2, da família dos coronavírus, cujo primeiro caso foi relatado no final de 2019. A doença é transmitida pelo ar, atingindo as vias respiratórias e podendo afetar diversos sistemas do corpo. Com alta transmissibilidade e de distribuição global, a enfermidade tem deixado muitas sequelas físicas e psicológicas em todos. 

Principais cuidados contra a Covid-19. Produção: Pâmela Celina

Até o final de julho de 2021, no Acre foram registrados mais de 87 mil casos de infecções, dos quais aproximadamente 1800 chegaram a óbitos por complicações de Covid-19. Com o avanço das vacinações no Estado (pouco mais de 40% da população recebeu a primeira dose), diversos mutirões estão sendo feitos para acelerar o processo de imunização (atinge atualmente cerca de 14% da população com doses completas). Vale ressaltar que mesmo após ser vacinado é possível transmitir a doença a outras pessoas. Por isso, a recomendação é manter o uso de máscaras faciais, o distanciamento social e a higienização frequente das mãos. São muitos esforços e profissionais empenhados em trazer esperanças e diminuir os óbitos por Covid-19 na população acreana.

Redação

Especiais

Amor pelo crochê: estudante acreana conquista próprio negócio e garante permanência na universidade

Ao apostar em uma arte milenar que se tornou tendência de moda no Brasil, Kawanny Santos encontrou uma nova fonte de renda

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Por Felipe Souza

Arte milenar de origem incerta, o crochê atravessou séculos, culturas e continentes até se consolidar como uma das principais tendências da moda em 2025. A técnica artesanal carrega histórias, tradições e conhecimentos transmitidos de geração em geração, tornando-se um verdadeiro patrimônio da moda brasileira e da identidade cultural do país.

Embora não haja consenso sobre o surgimento do crochê, historiadores apontam que a prática acompanha a humanidade há milhares de anos. Uma das teorias mais aceitas indica que a técnica, em formato semelhante ao conhecido atualmente, teve origem na Arábia, no Oriente Médio, por volta do século XVI, espalhando-se pelo mundo por meio das rotas comerciais do Mediterrâneo até alcançar diferentes povos e culturas.

No Acre, essa arte manual tem ganhado um significado ainda mais especial. O crochê se tornou uma importante fonte de renda para centenas de mulheres que encontraram no artesanato uma oportunidade de empreender e conquistar independência financeira.

Entre elas está Kawanny Santos, de 20 anos. Apaixonada pelo crochê desde a infância, a jovem transformou a habilidade aprendida ainda na adolescência em um negócio próprio. Hoje, a produção e venda das peças artesanais ajudam a custear seus estudos e representam uma ferramenta importante para a realização do sonho de concluir uma graduação.

Kawanny Santos transformou paixão pelo crochê em renda própria. Foto: cedida

Estudante de Psicologia na Universidade Federal do Acre (Ufac), Kawanny explica que, na infância, observava a mãe, artista, fazer crochê, costurar e pintar. Durante a pandemia de Covid-19, a então adolescente decidiu se arriscar e aprender a técnica, dando os primeiros passos no artesanato.

“Era só um hobby, mas ele se misturou à vontade que eu tinha de produzir roupas. Desde criança, eu desenhava. Imaginava que iria aprender a costurar, mas acabei aprendendo crochê e comecei a desenhar e produzir minhas próprias peças. Foi uma mistura de tudo. Tinha 14 anos quando comecei”, contou.

Vestidos, biquínis, blusas, tops e croppeds estão entre as peças confeccionadas por Kawanny em sua marca, a Cacau Crochê. Cada criação é produzida de forma artesanal e personalizada, com modelos desenvolvidos sob encomenda e adaptados às preferências e estilo de cada cliente. Para a empreendedora, o objetivo é oferecer peças únicas.

Na loja Cacau Crochê, Kawanny produz peças diversas. Foto: cedida

“Depende do que a cliente me pede. Isso é algo muito legal, porque, na minha loja, normalmente desenvolvo as peças junto com a cliente. Ela me envia várias referências e, juntas, vamos criando algo único”, afirmou.

Empreender e estudar

Conciliar trabalho e estudos faz parte da rotina de milhares de mulheres brasileiras que buscam na educação uma oportunidade de transformar suas vidas. Diante dos desafios financeiros e da necessidade de custear despesas pessoais, muitas estudantes encontram no empreendedorismo uma alternativa para garantir renda sem abrir mão da formação acadêmica.

Kawanny Santos é uma delas. A estudante precisou transformar o que antes era apenas um hobby em uma fonte de renda. Como o curso de Psicologia na Ufac é ofertado em período integral, a jovem encontrou no crochê uma forma de garantir sua permanência na universidade e arcar com os custos da graduação.

“Minha faculdade é integral e estou naquela fase em que tudo está ficando mais complexo. O crochê, para mim, é uma fonte de renda. As vendas praticamente têm me sustentado durante a faculdade, porque eu não recebo bolsa de incentivo”, salientou.

Peças são vendidas principalmente para outras estudantes da Ufac. Foto: cedida

Kawanny revela ainda que as dificuldades financeiras e a carga intensa do curso já a fizeram cogitar interromper a formação para trabalhar. “Quando comecei a fazer crochê, era apenas um dinheiro extra, mas hoje ele é o que me permite permanecer na faculdade. É a minha autonomia financeira até que eu possa me formar.”

Conforme enfatiza, ela aproveita cada momento livre para produzir suas peças. Entre uma aula e outra, durante os trajetos de ônibus e até no horário de almoço, o crochê está presente em sua rotina diária, dividindo espaço com as demandas da graduação.

Todas as peças produzidas por Kawanny são feitas sob medida. Foto: cedida

Artesanato como refúgio

A relação entre arte e saúde mental ganhou destaque no Brasil graças ao trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira. Reconhecida por revolucionar o tratamento psiquiátrico no país, ela rompeu com práticas consideradas agressivas à época e passou a utilizar atividades artísticas como forma de expressão e cuidado dos pacientes.

Por ser da área da psicologia, Kawanny Santos enxerga essa conexão entre arte e saúde mental também em sua própria trajetória. Entre linhas, agulhas e pontos, a artesã encontrou uma forma de aliviar a ansiedade, organizar os pensamentos e lidar com os desafios do dia a dia, transformando o artesanato em um verdadeiro refúgio emocional.

Estudante de Psicologia, Kawanny destaca importância do crochê para sua caminhada acadêmica. Foto: cedida

“O crochê é algo que realmente acalma. É uma terapia. Mesmo que não me proporcionasse retorno financeiro, ele traz diversos outros benefícios, estimula a criatividade e faz a mente trabalhar. Como futura psicóloga, reconheço a importância da arte e gostaria de ensinar outras pessoas a trabalhar com isso”, ponderou.

Kawanny também ressaltou que, mesmo após concluir a graduação, pretende continuar se dedicando à produção de peças em crochê. “Acredito que estará presente na minha vida para sempre. Provavelmente será algo desafiador, mas, se eu puder, vou continuar e tentar conciliar as duas atividades.”

Fazer arte com as mãos é um dos refúgios da estudante. Foto: cedida

Mulheres que fortalecem mulheres

No universo do empreendedorismo feminino, o apoio entre mulheres tem se consolidado como uma ferramenta essencial para o fortalecimento de negócios e para a superação de desafios comuns enfrentados pelas empreendedoras. Essa união se manifesta de diferentes formas, seja por meio da indicação de serviços, da divulgação de produtos e da troca de conhecimentos.

Porém, a decisão de consumir produtos e contratar serviços de outras mulheres também desempenha um papel fundamental no apoio a esses negócios. Cada compra representa um incentivo direto para que possam ampliar suas atividades e gerar renda.

A jornalista Emilly Souza está entre as consumidoras que fazem questão de apoiar o empreendedorismo feito por mãos femininas, priorizando peças e criações desenvolvidas por mulheres. Apaixonada por moda e sempre atenta às tendências, ela destaca que valoriza a exclusividade e a identidade presentes em produtos feitos à mão.

“É único. Então, valorizo essa exclusividade de algo pensado para você e feito sob medida, além da qualidade e da dedicação das artesãs ao manusearem e produzirem uma peça linda”, afirmou a jornalista.

Emilly Souza tende a preferir sempre comprar de artesãs mulheres e locais. Foto: cedida

Emilly salienta ainda que admira o artesanato desde a infância, já que o crochê sempre esteve presente em sua vida por influência da tia, que produzia peças decorativas, como conjuntos para banheiro e tapetes para a casa.

“Nos meus 15 anos, ela me deu um tapete bem grande, com vários tons de rosa e roxo, que tenho até hoje. Como sempre achei o crochê muito bonito e delicado, adoro usar roupas e acessórios feitos com esse material. Considero um diferencial de estilo nos looks”, contou Emilly.

A jornalista complementa afirmando que faz questão de valorizar o trabalho e a dedicação dessas artesãs, pois reconhece o cuidado empregado em cada peça e a durabilidade dos produtos feitos à mãos.

Durante um mochilão pela Tailândia, em 2025, Emilly priorizou peças mais leves e confortáveis devido ao clima quente do país. Para compor os looks da viagem, ela apostou não apenas em roupas de crochê, mas também em acessórios que fizeram a diferença nas produções.

“Eu precisava levar poucas peças de roupa e pensei no crochê como um elemento que faria total diferença em um look mais básico. Os acessórios seriam o destaque e, além disso, combinam super com o clima de verão, por serem mais frescos”, frisou.

Para sua viagem à Tailândia, a jornalista optou levra peças de crochê produzidas no Acre. Foto: cedida

Empreendedorismo feminino do Acre

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que, no Acre, o número de mulheres à frente de negócios corresponde a cerca de 25% do total de empreendedores, uma das maiores proporções da Região Norte. O dado demonstra que, cada vez mais, elas têm buscado no próprio negócio uma forma de gerar renda e realizar sonhos.

Segundo Kethleen Diniz, gestora do programa Sebrae Delas, muitas começaram empreender por necessidade, mas hoje também enxergam como oportunidade de crescimento e protagonismo, principalmente nas áreas de beleza, alimentação, artesanato, moda e serviços digitais.

“Cada mulher que empreende gera renda em casa e fortalece não só a própria família, mas também movimenta a economia local e inspira outras mulheres. O Sebrae acompanha esse cenário de perto e entende que apoiar essas empreendedoras é investir no futuro”, declarou a gestora.

Progama Sebrae Delas fortalece o empreendedorismo feminino. Foto: cedida

O perfil das mulheres que empreendem no Acre é bastante diverso. De acordo com o Sebrae, há uma presença cada vez mais forte de empreendedoras que ingressam no mercado com uma visão inovadora, atentas às novas tendências e às oportunidades oferecidas pelo ambiente digital.

“O crescimento entre as jovens é cada vez mais visível. Muitas já começam cedo, usando as redes sociais, criando marcas próprias e transformando hobbies e talentos em fonte de renda. É um movimento que mostra mais protagonismo, criatividade e confiança das mulheres no ambiente de negócios”, ressaltou Kethleen.

“É só acreditar que dá certo”

Assim como milhares de estudantes da Universidade Federal do Acre, Kawanny Santos precisou se reinventar para garantir sua permanência no ensino superior. Diante dos desafios e da rotina intensa da graduação, a jovem transformou uma paixão em fonte de renda capaz de sustentar seus estudos.

Empreendedora deixa recado para jovens que pensam em abrir o própio negócio. Foto: cedida

Hoje, ao olhar para a própria trajetória, ela acredita que o empreendedorismo pode abrir caminhos para outras mulheres e deixa uma mensagem de incentivo para aquelas que sonham em iniciar o próprio negócio, mas ainda não encontraram coragem para dar o primeiro passo.

“Eu também já fui uma jovem que, no início da faculdade, pensou em trancar o curso. Empreender é muito incerto, mas, quando colocamos a nossa identidade no que fazemos, as coisas tendem a funcionar. Estamos em um momento em que as mulheres precisam ter autonomia financeira. É importante que nós, especialmente as mulheres LGBTQIAPN+, busquemos nossa independência e não fiquemos em situação de vulnerabilidade. É só acreditar que dá certo”, finalizou.

Redação

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ESTAMOS DE VOLTA

A Catraia celebra 21 anos e resgata memórias de ex-integrantes

O jornal A Catraia conversou com a ex-estudante de jornalismo, Adrielle Farias, que atua como repórter do jornal Estadão em São Paulo

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Por Danniely Avilis e Isabelle Magalhães 

Ao completar 21 anos de existência, A Catraia entra em um ano especial, que retoma a própria história por meio de relato da ex-integrante. A proposta é revisitar memórias, experiências acadêmicas e trajetórias profissionais que começaram ainda na graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Mais do que relembrar capas ou reportagens antigas, a equipe da A Catraia conversou com Adrielle Farias sobre o período em que era estudante e os primeiros passos na profissão. Adrielle que atuou como editora-chefe do jornal em 2018, ano que define como um dos mais intensos da formação acadêmica.

Foto: Instagram @adriellefarias

Escolha profissional e descoberta no curso

A decisão de cursar Jornalismo não foi imediata. Ainda na escola, Adrielle dividia interesses entre áreas criativas como audiovisual, escrita e comunicação.

“A gente nunca entra na faculdade totalmente sem dúvida, né? Eu gostava de muitas coisas”, afirma Adrielle.

Sem conhecer profundamente o curso da Ufac, ela se inscreveu e, somente após o ingresso, passou a pesquisar sobre professores, disciplinas e possibilidades profissionais. A identificação com a área ocorreu já durante a graduação.

“Eu só entendi que era aquilo que eu queria quando comecei a estudar, ver as matérias. Eu ficava ansiosa para acompanhar a grade curricular”, conta a jornalista.

“Meu pai sempre dizia que eu agarro o mundo com as pernas. Eu queria participar de tudo”, diz Adrielle Farias. Foto: cedida

Rotina intensa e desafios

Durante o curso, a participação nas disciplinas não foi suficiente. Adrielle também esteve envolvida em mostras acadêmicas, eventos e projetos extracurriculares, tendo A Catraia como principal espaço de atuação.

O fato de o curso ser noturno possibilitava trabalhar e estagiar durante o dia, realidade compartilhada por muitos estudantes. A conciliação das atividades, no entanto, trouxe desafios.

A sobrecarga resultou em ansiedade e na necessidade de aprender a administrar o tempo, habilidade que, segundo ela, não costuma aparecer formalmente na grade curricular. Ainda assim, considera que foi nesse período de intensidade que surgiram aprendizados decisivos.

Entre as experiências no jornal, uma reportagem sobre cinema ganhou destaque na trajetória profissional de Adrielle. O tema, que sempre esteve entre seus interesses pessoais, acabou influenciando também a escolha do Trabalho de Conclusão de Curso.

“Eu fui falar sobre cinema, que sempre foi algo de que eu gostei muito e ainda gosto. Inclusive, acho que isso acabou influenciando um pouco a escolha do meu TCC. Eu também usava isso como portfólio, para mostrar meu trabalho; quando me inscrevi para o treininho do Estadão, por exemplo, utilizei esse material como parte do portfólio”, conta a profissional.

Segundo ela, a experiência no jornal contribuiu para a conquista do atual emprego como repórter no Estadão.

Participação de Adrielle Faria no Intercom. Foto: cedida

Trabalho em equipe

Ao relembrar a atuação como editora-chefe, Adrielle destaca o papel do trabalho coletivo no exercício da profissão e orienta como dica para futuros jornalistas que ainda não atuam na profissão.

“O trabalho em equipe é essencial no jornalismo, porque ninguém faz um jornal sozinho. Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito, saber se comunicar e manter o diálogo, para que todos trabalhem pelo mesmo objetivo sem conflitos”, finaliza Adrielle.

“Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito”, afirma a profissional. Foto: cedida

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Rio cheio e políticas vazias

Mudanças climáticas, cheias históricas e a fragilidade das políticas públicas que agravam a situação do Rio Acre

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Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz

O Rio Acre, que nasce no Peru e atravessa municípios acreanos de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia, Xapuri, Rio Branco, Capixaba, Senador Guiomard e Porto Acre, é um dos principais responsáveis pelo abastecimento e pelo sustento de milhares de famílias no estado. No entanto, ao longo dos últimos anos, o manancial tem enfrentado transformações profundas, impulsionadas pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela fragilidade das políticas públicas ambientais.

Essas mudanças se refletem tanto nos períodos de cheia quanto nos de seca extrema, que têm se tornado cada vez mais frequentes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e bairros urbanos situados em áreas de risco da capital acreana

Segundo Victor Manoel, do Comitê Chico Mendes, Rio Branco possui um plano de contingência estruturado contra enchentes, algo inexistente até mesmo nas maiores capitais do país brasileiras. Ainda assim, o problema persiste.

“Rio Branco tem um plano de contingência contra enchentes. Esse estudo já foi feito. O que falta, na verdade, é prioridade. Falta uma leitura do material que já existe. A gente vive em um mandato político onde se prioriza muito mais a infraestrutura urbana”, avalia.

Manoel explica que, embora o poder público não tenha controle sobre o clima ou as chuvas, é responsável por não desenvolver ações que reduzem o impacto das cheias. “A prefeitura não controla a chuva nem as mudanças climáticas, mas é totalmente responsável por políticas públicas que mitiguem os impactos dessas mudanças na população e na própria máquina estatal”, completa.

Cheias atípicas e extremos cada vez mais frequentes

Em dezembro de 2025, o Rio Acre registrou uma cheia considerada atípica. De acordo com a Defesa Civil Municipal, foram acumulados 561,6 milímetros de chuva, o que representa 97% acima do esperado para todo o mês, um volume que não era observado havia pelo menos uma década.

O coordenador municipal da Defesa Civil, coronel Cláudio Falcão, explica que o comportamento do rio é marcado por variações extremas de vazão

“Quando o Rio Acre está abaixo de 11 metros, a vazão chega a cerca de 1 milhão e 100 mil litros de água por segundo. No outro extremo, essa vazão pode cair para cerca de 25 mil litros por segundo. A diferença é muito grande”, explica.

Foto: cedida.

Segundo ele, parte desse comportamento se deve às características naturais do rio. “O Rio Acre é um rio novo, ainda em formação, e por isso muda o curso de vez em quando”, afirma.

Desmatamento e perda da mata ciliar agravam o problema

Além das características naturais, questões ambientais agravam a situação. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicado no site InfoAmazonia aponta que o Rio Acre perdeu cerca de 40% da sua mata ciliar ao longo de 55 anos, equivalente a aproximadamente 4,5 mil hectares de vegetação nativa degradada, de um total original estimado em 11,6 mil hectares.

A mata ciliar é fundamental para a regulação do rio por ajudar a conter a erosão das margens, reduz o assoreamento e permite que a água seja absorvida e liberada gradualmente.

“Ao longo do Rio Acre há muito assoreamento e desmatamento das margens. Com isso, o rio não consegue manter o nível da mesma maneira. Quando a água chega, chega de uma vez só”, explica o coronel Falcão.

Ele destaca o papel da floresta na regulação dos extremos hídrico: “A floresta segura a água no período de cheia e vai soltando aos poucos durante a seca. Além disso, evita o desbarrancamento e o aceleramento do rio. Se tivéssemos a floresta preservada ao longo do rio, não teríamos extremos tão intensos”, afirma

A vida em áreas vulneráveis: relatos de quem convive com o rio

No bairro Cidade Nova, em Rio Branco, as moradoras Vitória Yasmin, de 23 anos, e Alderina Costa, de 65, relatam as dificuldades enfrentadas durante os períodos de cheia do Rio Acre, fenômeno que se repete ano após ano e afeta diretamente a rotina de quem vive em áreas consideradas vulneráveis.

“Quando começa a encher, a gente já levanta tudo. A água é contaminada por causa do esgoto. Eu preciso ir para a casa da minha avó. Em 2015, a água chegou a subir pela parede”, conta Vitória.

Alderina relembra que, diante da recorrência das enchentes, a família precisou investir por conta própria para reduzir os riscos. Sem apoio financeiro do poder público, a solução encontrada foi adaptar a própria estrutura da casa.

“A água entrou bem aqui. Em 2015, na época, não tinha esse apartamento alto. Então a gente fez um segundo andar para ficar lá em cima quando alaga”, relata.

Segundo Alderina, a decisão de construir um segundo pavimento veio do desejo de permanecer no local onde sempre viveu. Para ela, sair da própria moradia e ser levada para abrigos distantes é uma alternativa que muitos moradores não querem enfrentar. Destaca, ainda, que não vê possibilidade de deixar a casa, pois não teria para onde ir: “Se eu pedir 100 mil, aqui na minha casa, eu não vendo. Entendeu? E se eu pedir menos de 50 mil, eu vou comprar outra onde?”, questiona.

Ela defende que o governo ofereça apoio financeiro para que as famílias possam adaptar suas casas com segurança, evitando o deslocamento forçado durante as cheias. Para Alderina, a permanência no território também representa dignidade, pertencimento e menor desgaste emocional.

As adaptações feitas pelas famílias evidenciam como a responsabilidade de lidar com os impactos das cheias acaba sendo transferida do poder público para os próprios moradores. Embora existam políticas públicas voltadas à prevenção de desastres, ainda há um hiato significativo entre o que está previsto no papel e o que, de fato, é executado.

Além disso, moradores que vivem em áreas de risco defendem que as soluções não se limitem apenas à retirada compulsória das famílias de suas casas. Para eles, é fundamental que haja diálogo, escuta e participação das comunidades diretamente afetadas, por meio de audiências públicas e espaços de debate que considerem suas realidades e necessidades. Essas populações não são culpadas pelos desastres recorrentes e precisam ser incluídas na construção das soluções.

As estratégias adotadas por famílias como a de Alderina revelam não apenas a precariedade das políticas habitacionais em áreas vulneráveis, mas também a criatividade, a resistência e a determinação de quem convive há décadas com o avanço das águas.

Diante da ausência de respostas efetivas, são os próprios moradores que buscam alternativas para proteger suas famílias e preservar o vínculo com o território onde construíram suas histórias.

Apesar do cenário preocupante, existem iniciativas públicas voltadas à prevenção e à recuperação ambiental. Em Rio Branco, foi instituído o Plano Municipal de Prevenção e Combate às Enchentes, que prevê ações como o mapeamento de áreas de risco, recuperação de áreas degradadas, melhorias na drenagem urbana e educação ambiental. No entanto, grande parte dessas medidas ainda depende de orçamento, continuidade administrativa e prioridade política.

No campo ambiental, o Governo do Acre e a Prefeitura de Rio Branco firmaram um acordo de cooperação técnica para fortalecer ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Em 2025, por exemplo, mais de 400 mudas de espécies nativas foram plantadas em áreas de preservação permanente às margens do Rio Acre, como tentativa de conter a erosão do solo.

O estado também conta com iniciativas como o Viveiro da Floresta, em Rio Branco, responsável pela produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares em diferentes regiões do Acre. Apesar disso, estudos científicos, avaliam que as ações ainda avançam em ritmo lento diante da dimensão do problema e da frequência cada vez maior das cheias.

Limites orçamentários e desafios estruturais

De acordo com o coronel Falcão, outro entrave importante é a limitação de recursos e a complexidade das soluções necessárias.

“Não existe solução simples. Algumas ações envolvem diplomacia entre países, porque o rio nasce no Peru, e outras dependem de recursos que a Defesa Civil não tem para atender todos os problemas ao mesmo tempo”, afirma.

Ele explica que mudanças estruturais no comportamento do rio demandam tempo. “Nada pode ser mudado em menos de 10 anos. Qualquer ação que a gente faça agora não muda o cenário do Rio Acre em curto prazo”, ressalta.

O futuro do Rio Acre

O coordenador da Defesa Civil alerta ainda para projeções preocupantes. Segundo ele, o climatólogo Carlos Nobre prevê um cenário crítico para o Rio Acre até 2032, caso o modelo atual de ocupação e degradação ambiental continue.

“A gente pode enfrentar uma seca tão severa que o rio pode praticamente parar de correr, como diziam nossos antepassados”, alerta.

O problema é recorrente, que se repete ano após ano, a situação do Rio Acre evidencia que, mais do que planos e ações emergenciais, são necessárias políticas públicas transparentes, contínuas e preventivas, capazes de articular preservação ambiental, planejamento urbano e proteção social. Sem isso, moradores continuarão convivendo com cheias, secas e a incerteza de um rio cada vez mais imprevisível.

Redação

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