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Marcas Que Nunca Vão Passar

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Por Renato Menezes

(Alerta de gatilho: este texto aborda abuso sexual)

Era 30 de abril de 2011, às 17h48, quando a vida de Ariane* virou de cabeça para baixo, de uma forma que ela jamais imaginou que aconteceria em toda a sua existência. Acompanhada de sua filha mais velha, Sofia*, então com 6 anos de idade, ela chegou à Delegacia Especializada em Crimes Contra à Mulher, localizada no 2º distrito de Rio Branco (AC), para fazer uma denúncia. “Ele mexeu com a minha filha”, disse aos prantos para o delegado que a recebeu, acusando o padrasto da menina como o principal responsável.

Ariane conheceu seu cônjuge em meados de 2006 e engataram um relacionamento. No final do ano, ela descobriu que estava grávida de sua segunda filha, Luana*, que acabou nascendo um dia antes de seu aniversário de 22 anos. A mais nova integrante da família fez com que ela fosse morar com ele na casa da sogra, acompanhada da filha mais velha, Sofia, fruto de um relacionamento com seu primo, que acabou não prosperando.

Depois de um tempo, cansada de passar por humilhações e enfrentar maus olhares da sogra, os quatro resolveram morar de aluguel em um quarteirão localizado em um bairro vizinho. Lá, eles viviam uma vida humilde, mas aparentemente harmoniosa. Bom, pelo menos até o momento em que o então marido começou a humilhar e a bater em Ariane pelo menor “motivo” que fosse, desde ciúmes banais até à janta não feita. Eram socos, tapas na cara e até cárcere privado por alguns dias ela enfrentou, proibindo-a de ir à casa dos pais. Entre idas-e-voltas que, tristemente, costumam ser comuns em relacionamentos abusivos, eles ficaram sem condições de custear o aluguel e passaram a morar em um pequeno apartamento nos fundos da casa dos pais de Ariane.

Passado um tempo, ela arrumou um emprego em uma loja de presentes e decoração, onde às vezes trabalhava até mais que o permitido por lei, porque acreditava que, fazendo isso, dificilmente perderia o trabalho que necessitava tanto. A vida passou a ser muito corrida, era das 13h às 22h trabalhando, enquanto achava que as filhas estavam sendo bem cuidadas pelo padrasto e pai. 

No entanto, depois que Ariane passou a ficar mais tempo fora de casa, começou a perceber que estava acontecendo algo de estranho com a filha mais velha. Achando que era coisa de criança, acabou acreditando ser um comportamento típico para a idade de Sofia. Só que em meados de dezembro de 2010, ao chegar do trabalho, viu que a situação estava além do tolerável. “Quando eu cheguei do trabalho, tarde da noite, ela estava deitada na cama, sozinha, coberta e assim que ela ouviu minha voz, me abraçou profundamente. E eu não entendia o porquê daquilo”, falou.

E esse estranhamento não foi percebido apenas por Ariane. A avó de Sofia também começou a ficar com “uma pulga atrás da orelha”, pois era acostumada a ver a neta brincando com as outras crianças e, de repente, tinha perdido o ânimo. “Eu falava pra ela: minha filha, o que é que tá acontecendo? Por que você não quer ir brincar com os meninos? E ela só falava que não queria”, disse a avó, que disse nunca ter desconfiado de absolutamente nada, mesmo achando estranho.

No dia 30 de abril de 2011, Sofia reclamou de dor ao fazer xixi. Por conta disso, urinou na roupa duas vezes. “Coração de mãe sente muito. Eu senti que tinha alguma coisa de errado, minha mãe me falando que estava achando estranho o jeito dela, às vezes chorando pelos cantos. Mas eu não sabia, não sabia mesmo. Eu perguntava o que estava acontecendo e ela não me falava, só chorava. Ela só dizia ‘mãe, minha baratinha tá doendo’. Quando eu tirei a roupa dela para ver, (a vagina) estava cheia de bolha e eu achei que era algo relacionado ao xixi”.

Naquele exato momento, ela arrumou a filha e foi até à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Tucumã. No entanto, a UPA estava sem Pediatra, o que a fez ser transferida para o Pronto Socorro de Rio Branco às 12h46, de acordo com o prontuário clínico. Ao relatar o que tinha visto na vagina da filha, até então sem entender nada, logo foi encaminhada para a ala de emergência pediátrica, onde uma equipe de profissionais lhe fez uma enxurrada de perguntas. “No decorrer disso tudo, eles deduziram que era Herpes genital, uma infecção sexualmente transmissível”. Naquele momento, todas as peças do quebra-cabeça tinham se encaixado e a ficha estava começando a cair. O comportamento estranho da filha, a raiva que ela tinha do padrasto, os abraços de medo… Então, ela perguntou para a filha se alguém tinha acariciado as partes íntimas dela.

Com base nos questionamentos feitos a Ariane, a equipe pediátrica colocou a criança como suspeita de ter sido abusada sexualmente pelo padrasto há alguns meses, solicitou exame de sorologia para Herpes, atendimento com assistente social e encaminharam-nas imediatamente à Delegacia da Mulher, onde registraram a denúncia. A partir do depoimento de Sofia, que falou que ele chegou a colocar o dedo em suas partes íntimas umas três vezes, mostrou filmes pornográficos e as partes íntimas dele para ela, solicitaram exames de conjunção carnal, bem como testes laboratoriais de HIV/Aids, Hepatites A, B e C e outros.

“Esse dia foi um dia de inferno na minha vida”, disse Ariane.

Diante de toda aquela situação que enfrentava junto com a filha, ela se viu em um poço de tristeza, ódio e impotência, tanto por ter confiado demais no ex-cônjuge, como por não ter protegido sua filha como gostaria. Ariane trabalhava demais para colocar o sustento na mesa. Era uma rotina intensa ganhando pouco, saindo ao meio-dia e voltando às 22h e achando que as filhas estavam sendo bem cuidadas. “Eu nunca me senti tão suja na vida. Quando eu me vi dentro de toda essa situação eu pensei em tanta besteira…”

Em meio às idas à assistente social, psicóloga, maternidade e laboratórios, o único exame que deu positivo foi para Herpes. “Graças a Deus, ele não chegou a introduzir nada na minha filha, não chegou a tirar a virgindade dela, mas para a Justiça, aquilo (o exame) não era prova concreta de que a minha filha tinha sido molestada”. 

De acordo com o relatório sentencial, Ariane chegou a contar em um dos depoimentos à Justiça que havia aparecido umas marcas semelhantes às da vagina na bochecha de Sofia aos seis meses de idade, o que acabou tendo grande influência nos autos judiciais. Contudo, ela afirmou para o processo e para essa entrevista que aquilo tinha sido uma reação alérgica desencadeada a partir de um beijo que a avó paterna tinha dado nela. “Onde ela beijou, ficou a marca do batom ‘meio vinho’ que ela usava, e foi onde deu uma alergia, devido à pele de recém-nascido ser muito sensível. Na época eu levei a Sofia no hospital, não me falaram nada de Herpes. Eu não tinha por quê inventar uma coisa dessas agora”.

Ariane disse que o acusado não fez exame para Herpes e que não acredita que a filha contraiu o vírus antes dos abusos, porque as bolhas foram notadas depois que Sofia mudou o comportamento e passou a ficar mais retraída. “Minha filha era uma criança, ela não ia contar uma história horrível dessas do nada, ninguém da minha família nunca passou por isso”. De acordo com ela, o réu não chegou a fazer o exame justamente porque colocaram em alto grau de relevância o ocorrido com a menina aos seis meses.

A sentença foi dada no dia 17 de outubro de 2013 e inocentou o ex-marido, embasada no argumento de que a palavra da vítima, apesar de sempre se sobressair à do réu, não era clara o bastante. A pouca idade de Sofia na época justificava o nervosismo da vítima no depoimento judicial. O advogado do acusado também alegou que a criança podia ter contraído Herpes na escola, que é uma doença muito comum e de fácil transmissão.

“Como não tinham provas mais firmes de que ele havia introduzido alguma coisa na vagina da minha filha, eles acabaram arquivando o caso. O que eles queriam era um exame carnal, algo mais concreto. E a gente não tinha mais nada o que fazer porque ela foi ouvida, e eles talvez pensaram que era coisa de criança, algo do tipo. Isso me revolta muito até hoje, porque ele ficou como o inocente na história”, desabafou Ariane. Ela acredita que o estupro propriamente dito não aconteceu porque moravam, praticamente, na mesma casa de seus pais, e corria o risco de Sofia fazer algum escândalo e todo mundo acabar escutando.

Ariane tem certeza que de inocente ele não tem nada. Primeiro, porque ela jamais vai duvidar da palavra da filha frente a um homem que já bateu, xingou e a maltratou em diversas ocasiões. Segundo, porque ele fugiu para a casa da mãe assim que soube que elas tinham ido ao hospital por tal motivo.

“Quando eu acompanhei a Ariane na UPA e depois, no Pronto Socorro, os médicos que viram a situação não deixaram a gente sair de lá até que chegasse a assistência social, porque já imaginavam o que era. Se eu não me engano, minha outra irmã, na tentativa de não piorar a situação mais do que já tava, ligou escondida para ele e disse para ele sumir de lá (apartamento onde moravam nos fundos da casa dos pais de Ariane), pois se essa história chegasse primeiro nos ouvidos do meu pai, ele seria capaz de matá-lo com o terçado que tinha”, disse a irmã de Ariane, complementando que hoje enxerga a ligação como um livramento de Deus, pois tinha certeza que iria acontecer uma tragédia muito maior, com gente morta e presa. “Meu pai é um homem trabalhador, muito simples e batalhador desde sempre. Ele não merecia sujar as mãos dele com o sangue de um *&%$# (palavrão)”.

O acusado, após a sentença, ainda passou os anos subsequentes perseguindo e rodeando a família, inclusive gerando vários processos: pedido de guarda da filha biológica, baixa no valor da pensão, acusação de calúnia e difamação por parte do pai de Ariane, que acabou se alterando em várias discussões e xingou-o de palavras de baixo calão ao vê-lo parado em frente à sua residência.

“A gente tinha uma medida protetiva que impedia  ele de circular por perto da nossa casa. Mesmo assim desrespeitava, porque queria ver a filha nos dias que não eram os dele, mas eu não deixava de jeito nenhum. Ele até hoje nunca pagou pensão para a Luana, mesmo eu tendo ido na justiça diversas vezes. Parece que ele tinha prazer de desestabilizar a gente”, irrita-se Ariane.  

Ao relembrar toda a situação caótica, Ariane diz que se revolta até hoje com o arquivamento do processo, pois ficou parecendo que ela e a filha estavam mentindo. 

Ela contou que é impossível esquecer o que ela e as filhas passaram com tão pouca idade. “Em uma das inúmeras discussões, tempos depois da sentença, ele olhou para mim e esbravejou, com um ódio enorme, que eu nunca mais ia ser feliz na minha vida. Claro que eu não internalizo isso, mas às vezes quando eu estou muito triste, fico realmente pensativa se ele jogou alguma praga em mim”.

Atualmente, ela continua com a guarda de suas duas meninas em sua casa própria e disse que desde meados de 2019 ele não procurou mais pela filha biológica. “E eu espero que continue assim pro resto da vida. Graças a Deus minha filha não sente nenhum pingo de falta dele e não faz mais questão de manter o mínimo de contato”. Hoje, Luana tem 13 anos.

Sobre Sofia, que está com 17 anos, Ariane disse que hoje ela é bem mais aberta para falar sobre as coisas, mas que ainda tem prejuízos psicológicos e gatilhos pessoais disso tudo. “Hoje ela é uma pessoa totalmente diferente, mas claro que com algumas sequelas. Quando ela fica muito calada, eu já fico muito preocupada e já sento para conversar… são marcas que eu sei que nunca vão passar”.

Se você conhece ou sabe de alguma criança ou adolescente que está enfrentando situações de abuso ou exploração sexual, não hesite em denunciar ligando para o 180. A ligação é gratuita, anônima, sigilosa e você pode contribuir para que estas vítimas sejam assistidas e os envolvidos, devidamente responsabilizados.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas

Obs.: O nome da pessoa que foi acusada não é citado pois a lei o julgou como inocente e o processo foi arquivado por falta de provas contundentes. 

Redação

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Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco

Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana

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Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães

O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.

Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.

A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.

Um bairro que aprendeu a conviver com o medo

O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.

Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.

Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.

A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.

“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.

Doze dias de busca, três meses de espera

O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.

“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.

O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis

Uma nova estrutura, a mesma memória

Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.

Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.

“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.

Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.

 “Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.

Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.

Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães

Tragédia marcou quem acompanhou de perto

O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.

“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.

Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.

“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.

Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.

“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.

Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.

Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.

No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis

Mais que uma travessia, um aviso

Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.

“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.

A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.

“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.

Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.

Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.

Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.

E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme

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Rotas

Com bolsa integral garantida, acreano aprovado em Princeton se prepara para deixar o Brasil em setembro

Dedicação aos estudos marca a trajetória do ex-aluno do Colégio de Aplicação que inicia graduação no exterior aos 17 anos

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Por Rian Pablo

Aos 17 anos, o acreano Diego Heitor da Silva Monteiro alcançou um feito histórico: foi aprovado na Princeton University (Universidade de Princeton), uma das instituições mais prestigiadas do mundo, localizada nos Estados Unidos. Ex-aluno do Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde concluiu o terceiro ano do ensino médio, Diego se prepara agora para iniciar uma nova fase da vida acadêmica fora do Brasil, com interesse na área de Psicologia.

A decisão de estudar fora do país começou cedo na adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos, Diego sonhava em cursar parte de sua formação no exterior. A primeira tentativa foi por meio do programa United World Colleges (UWC), oportunidade que não se concretizou e trouxe frustração naquele momento. No entanto, a notícia ruim não o fez desistir, pelo contrário: serviu como combustível para continuar tentando.

A construção da aprovação

Durante o ensino médio, Diego acumulou experiências internacionais que fortaleceram seu percurso. Aos 16, foi selecionado para o programa Jovens Embaixadores, conquistando uma bolsa completa para os Estados Unidos. Também participou do Global Youth Sustainability Academy, na China, onde teve contato com diferentes cidades e culturas do país. Foi justamente durante essa experiência no país asiático que a ideia de estudar em Princeton se tornou uma certeza.

O processo de candidatura foi intenso e exigiu disciplina. Conciliando aulas em tempo integral, provas, projetos escolares e atividades extracurriculares, Diego precisou se preparar para o ACT (American College Testing), exame equivalente ao Exame Nacional do Ensino Medio (Enem) brasileiro.

“Era uma rotina muito cansativa e desgastante”, relembra.

Segundo ele, o processo seletivo de universidades como Princeton vai muito além das notas. São avaliados o histórico escolar, redações autobiográficas em inglês, premiações, experiências pessoais, domínio do idioma e desempenho em testes padronizados. Mesmo assim, as notas continuam sendo um critério rigoroso. Diego foi aprovado com média 9,7, acima do padrão exigido para estudantes brasileiros que ingressam em instituições norte-americanas de elite.

Durante o ensino médio no Acre, Diego conciliou uma rotina intensa de estudos e preparação para processos seletivos internacionais. Foto: reprodução.

Entre os diferenciais que acredita terem pesado a seu favor, está a aprovação no programa Tech Education Student Support (TESS), um dos mais concorridos programas de verão dos Estados Unidos, que aceita apenas cerca de 3% dos inscritos. Além disso, Diego destaca a força de sua história pessoal. Nos textos enviados à universidade, fez questão de ressaltar o orgulho de ser acreano, as dificuldades enfrentadas, a escassez de recursos e o fato de ter aprendido inglês de forma autodidata, por meio da internet, já que não tinha condições de pagar um curso.

A resposta da universidade chegou no dia 11 de dezembro, após Diego ter enviado sua candidatura em período antecipado, no dia 1º de novembro. Exausto após meses de preparação, ele não alimentava grandes expectativas. Ao abrir o e-mail de Princeton veio a surpresa. A aprovação, considerada inédita para um estudante acreano, provocou uma reação de incredulidade e emoção. O momento, registrado em vídeo, marcou a concretização de esforço e incertezas.

Além da vaga, Diego recebeu uma bolsa integral, que cobre todos os custos da graduação da alimentação aos materiais acadêmicos em um valor estimado em 97 mil dólares por ano (480 mil convertidos em reais). Para ele, a confirmação veio como um alívio e, ao mesmo tempo, como a prova de que todo o caminho percorrido havia valido a pena.

Diego Heitor da Silva Monteiro, de 17 anos, aprovado na Universidade de Princeton. Foto: arquivo pessoal

Expectativa antes da partida

Mesmo com a alegria, o sentimento está sendo assimilado aos poucos. A mudança para outro país, prevista para setembro, traz ansiedade. Muito ligado à família e aos amigos, Diego reconhece o desafio de passar quatro anos nos Estados Unidos, mas acredita que as experiências anteriores o prepararam para esse momento.

Para o futuro, ele espera explorar diferentes áreas do conhecimento, confirmar se a Psicologia será mesmo o caminho escolhido e, principalmente, conhecer pessoas de diversas partes do mundo. “Sempre gostei de estudar e aprender um pouco de tudo”, afirma.

A mensagem que Diego deixa para outros jovens que sonham em trilhar o mesmo caminho é clara: arriscar-se. “Nunca perder uma oportunidade de tentar. Tudo o que vivi desde novo foi necessário para chegar até aqui. No final, você não perde nada só ganha e soma na sua vida”.

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Especiais

Quando o rio dita o ritmo da economia

Com a cheia, a economia apresenta alto rendimento, por outro lado, a seca reduz o fluxo, limita oportunidades e afeta quem vive do rio

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Por José Henrique e Miguel Feitosa

Para muitos empreendedores, o Rio Acre é mais do que paisagem: é fonte de renda, trabalho e sobrevivência. No entanto, entre dois extremos a cheia e a seca o comportamento do rio impõe desafios constantes a quem depende do comércio às suas margens. Em Rio Branco, o nível das águas influencia diretamente o fluxo de pessoas, o funcionamento de negócios e a estabilidade financeira de famílias inteiras.

O mesmo rio que, em determinados períodos, garante sustento, em outros expõe desigualdades. Durante a cheia, o aumento do nível das águas intensifica a movimentação no Calçadão da Gameleira, ponto turístico às margens do Rio Acre, atraindo visitantes e fortalecendo o comércio local. Em contrapartida, esse mesmo avanço do rio provoca alagamentos em áreas vulneráveis da cidade, obrigando famílias a deixarem suas casas e buscarem abrigo temporário no Parque de Exposições Wildy Viana das Neves, Loteamento Santa Helena.

Segundo Júlia Alves, 55 anos, vendedora de bananas salgadas e doces credenciada pela Prefeitura de Rio Branco, a cheia do Rio Acre representa tanto oportunidade quanto desafio. Ela explica que o aumento do nível das águas atrai mais pessoas ao Calçadão da Gameleira, o que impulsiona as vendas e garante seu sustento.

Júlia Alves, vendedora local, vê na cheia do Rio Acre sustento e desafio. Foto: Miguel Feitosa

“Quando o nível do rio aumenta, a gente consegue vender mais. Mas também fico triste, porque esse mesmo rio, tão bonito, acaba destruindo ao mesmo tempo em que sustenta”, relata.

Embora não esteja presente diariamente no Calçadão, Júlia atua de forma estratégica, aproveitando os períodos de maior movimento. Já nos momentos de seca ou menor fluxo de visitantes, ela se desloca para outros pontos da cidade, adaptando-se às variações impostas pelo comportamento do rio.

O trabalho da vendedora evidencia como a economia local é diretamente influenciada pela geografia da cidade. O Calçadão da Gameleira funciona como ponto de encontro cultural e comercial, onde moradores, turistas e empreendedores compartilham o mesmo espaço, conectados pelo Rio Acre.

Bar do Zé do Branco: cinco décadas à beira do rio

Fundado há cerca de 50 anos, o Bar do Zé do Branco, localizado no bairro da Base, carrega uma história profundamente ligada ao Rio Acre. O empreendimento surgiu na década de 1970, período em que o rio ainda funcionava como importante via de transporte e circulação.

O fundador, José Antônio Vera, hoje com 69 anos, conhecido como Zé do Branco, relembra que o bar nasceu junto à empresa familiar Irmãos Lameira, voltada ao transporte.

Zé do Branco, fundador do bar que há 50 anos acompanha o ritmo do Acre. Foto: José Henrique

“Na época, a gente tinha uma empresa de transporte, com cobrador, motorista e fiscal. Aí resolvemos lançar um bar na frente da empresa, e deu certo”, conta.

Ao longo das décadas, Zé acompanhou as transformações do território e do próprio rio, que deixou de ser apenas estrada para se tornar também símbolo turístico. Sua trajetória representa uma geração que aprendeu a trabalhar respeitando o ritmo das águas, adaptando-se às cheias e às secas.

Para ele, embora a cheia contribua significativamente para o aumento das vendas, impulsionada pela atratividade do Rio Acre cheio e por suas belezas naturais, o período de alerta da cota de transbordo gera insegurança. O empreendedor vive em estado de atenção, sem saber até que ponto as águas serão um benefício, já que, a qualquer momento, o nível do rio pode subir e causar a perda de mercadorias.

“A gente ganha mais movimento quando o rio tá cheio, mas também fica com medo. Qualquer subida de repente pode levar tudo”, relata.

Restaurante Flutuante Malveira: empreender sobre as águas

Assim como o Bar do Zé do Branco, o Restaurante Flutuante Malveira tem sua história diretamente vinculada ao Rio Acre. Instalado às margens do rio, o empreendimento nasceu de uma relação familiar com a água, marcada pelo trabalho e pela memória.

De acordo com Carla Malveira, de 19 anos, filha do proprietário, o nome do restaurante faz referência ao sobrenome da família, herdado do avô, José Malveira. Antes da construção do flutuante, a família mantinha a embarcação Comandante Malveira, utilizada no Rio Acre.

Construído como espaço de lazer familiar, o local começou a receber amigos e conhecidos, transformando-se gradualmente em empreendimento comercial. Há cerca de três anos instalado na atual localização, o restaurante vive uma rotina totalmente condicionada às variações do nível do rio.

Durante a cheia, o Rio Acre atua como fator de atração, facilitando o acesso, valorizando a paisagem e ampliando o fluxo de visitantes.  Segundo Carla Malveira, é nesse período que o restaurante registra maior movimento.

Do barco ao flutuante, a família Malveira construiu seu negócio no Rio Acre. Foto: José Henrique

“Quando o rio está cheio, o acesso fica melhor e as pessoas vêm pela paisagem e pelo clima do lugar. Já na seca é mais difícil chegar até aqui, o movimento cai bastante e isso afeta diretamente o nosso faturamento”, relata.

Seca também impõe desafios

Se a cheia impulsiona o turismo e o comércio, a seca representa o outro lado da dinâmica do Rio Acre. Com o nível do rio mais baixo, o fluxo de visitantes diminui e o acesso aos flutuantes se torna mais difícil, já que a escada de entrada aumenta conforme a água recua. Negócios que dependem da paisagem e da navegação enfrentam retração e precisam se adaptar para manter o funcionamento.

A alternância entre períodos de cheia e seca tem se tornado mais frequente, exigindo ajustes constantes de quem vive e empreende às margens do rio.

Turismo e políticas de incentivo

A movimentação gerada pelo rio reforça a importância de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo e à economia criativa. Segundo o secretário de Estado de Empreendedorismo e Turismo, Marcelo Messias, o Rio Acre é um importante vetor econômico para a capital.

Secretário de Turismo e Empreendedorismo, Marcelo Messias, na GCF Task Force, realizada em 2025, em Rio Branco. Foto: Bruno Moraes/Sete

“No período de cheia, o Rio Acre atrai moradores e turistas para a região da Gameleira, fortalecendo o comércio local e o empreendedorismo. Restaurantes, lanchonetes, a Casa do Artesanato e outros espaços são diretamente beneficiados por essa movimentação, que alia geração de renda, cultura e lazer”, destaca.

Entre a cheia que movimenta o comércio e a seca que impõe limites, o Rio Acre segue determinando o ritmo da economia local. Para empreendedores como Júlia, Zé do Branco e a família Malveira, viver do rio é conviver diariamente com oportunidades e incertezas, em um território onde a água não apenas desenha a paisagem, mas molda modos de vida, trabalho e resistência.

Redação

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