Boiúna, Mboi-Una, Mãe-do-rio, Senhora-das-águas, Cobra Honorato, Norato ou simplesmente “cobra grande”. A criatura que atravessa as histórias amazônicas há séculos aparece sob diversos nomes, mas guarda uma narrativa comum: ligada às águas, ao mistério e a uma cidade. Em Rio Branco, ela ganha um endereço, sob a Igreja Imaculada Conceição, no bairro Quinze, próximo a Gameleira, e se estende não apenas como um mistério, mas como parte do imaginário entre os rio-branquenses.
A Cobra Grande
Nos salões profundos do rio Acre, especialmente no remanso formado pela curva acentuada onde hoje está a Gameleira, vive a Cobra Grande, um ser encantado que mistura natureza e espírito, como os mitos indígenas amazônicos costumam atribuir aos bichos da floresta, a cobra é uma entidade.
A moradora antiga da região do bairro Quinze, Josefa Cabral, de 73 anos, afirma que já viu a cobra grande. À noite, quando foi buscar sua sobrinha da aula Josefa conta que a cobra “esticava, esticava, porque era muito comprida” e era grossa e com “os olhos bem grandes”. Segundo ela, a cobra ficou no barranco da Gameleira, perto dos barcos. “A cobra é muito grande” e “ela mora debaixo da igreja, ali por baixo.”
Ilustração da lenda da Cobra Grande. Foto: reprodução
As histórias afirmam que a entrada da toca da cobra fica no próprio salão do rio e que ela vive embaixo da Igreja. Mas, mais do que um mito, o perigo de mergulhar naquele lugar é real. A região tem uma formação irregular, a superfície pode parecer calma, mas, no fundo, a correnteza forma redemoinhos, conhecidos como remansos, que podem ocasionar afogamentos. Nos rios do Amazonas e, especialmente, do Acre, os remansos são armadilhas naturais formadas nas profundidades dos grandes salões que impedem quem cair de conseguir sair.
O psicólogo Carlos Souza conta que seu amigo, que perdeu os familiares para a Cobra-Grande, possui tatuado no em seu ombro a cobra. “Eu tenho um amigo que o irmão dele pulou no rio, no local que ele morava, onde chama de Salão. E, esse irmão não voltou. Tentaram achar e não conseguiram. Dois anos depois o pai dele pulou no mesmo lugar e o pai dele também não voltou. Eles eram acostumados a ver o rebojo da cobra – remanso ocasionado pelo movimento da Cobra-Grande – e tudo.”
Lendas da Amazônia
Para o historiador Marcos Vinicius, a compreensão da história da Cobra-Grande na Amazônia passa pela subjetividade e pela espiritualidade dos povos originários. Ele destaca que a Cobra-Grande é comum em toda a Amazônia, podendo ser encontrados relatos parecidos em outras capitais como Belém e Manaus. Além disso, apesar da cobra ser semelhante ao animal comum da natureza, ela possui outras propriedades; poderes que vão muito além do que humanos e animais podem ter.
“Os povos indígenas da Amazônia tem uma relação muito diferente com a natureza, por princípio, todos os seres vivos da floresta são, em parte, encantados. Enfim, é uma série de encantes, como a gente chama por aqui.”
Porto da Gameleira: Rua 17 de Novembro – Rio Branco, AC [1949]. Foto: Reprodução/Acervo IBGE
Onde Rio Branco nasceu e a Imaculada Conceição
Essa mesma região onde mora a Cobra-Grande foi o berço urbano da cidade. A Gameleira marcou o ponto escolhido para a formação do Seringal Volta da Empresa, depois Vila Rio Branco e, por fim, cidade de Rio Branco, fundada em 28 de dezembro de 1882. Ali surgiram a primeira rua, os primeiros comércios, os combates da Revolução Acreana, a primeira construção religiosa da cidade, a capela de Imaculada Conceição. “Foi construída pelos próprios moradores, por quem estava ali na beira do rio. Não tinha prefeitura, não tinha padre fixo, não tinha nada estruturado. Era a própria comunidade que ergueu”, explica. Para o historiador, as construções da época serviam como um símbolo de resistência e presença: “Aquilo era um marco. Uma afirmação de que havia uma comunidade ali. Antes de virar cidade, já tinha gente dizendo: ‘tem vida aqui’.”
De acordo com registros históricos da Diocese de Rio Branco, a estruturação religiosa da região teve um marco decisivo em 1920, com a criação da Prelazia de São Peregrino Laziosi. Desmembrada da Diocese de Manaus sob orientação do Papa, com a organização de Dom Próspero M. Bernardi e à Ordem dos Servos de Maria. O trabalho pastoral começou com o bispo e três religiosos, nas bacias dos rios Purus e Acre e as quatro paróquias já existentes desde 1910: São Sebastião de Xapuri, Imaculada Conceição de Nova Empreza (Rio Branco), Nossa Senhora da Conceição de Sena Madureira e São Sebastião de Vila Antimary.
A secretária da Paróquia Imaculada Conceição, Regina Monte afirma que a igreja foi originalmente construída como capela e com mais de cem anos, segundo texto de Dom Joaquim. Ela conta ter ouvido sobre a Cobra-Grande desde criança e que se trata de uma história antiga: “Essa lenda é do tempo que eu era criança. Eu já tenho uns 50 anos.” A versão que conhece diz que a cobra “mora embaixo da paróquia”, com a cabeça sob a igreja e o corpo se estendendo até a Gameleira. Para Regina, a história é conhecida entre os moradores da região, embora seja, diz ela, “uma lenda mesmo, né? Quem imagina um troço desse?”
Ser acreano
Na visão de Marcos o acreano tem perfil muito rico do “ser acreano”, misturando características psicológicas, históricas e culturais. Segundo ele, a identidade do povo é moldada por uma resistência “bem humorada” e uma conexão profunda com o ambiente ao seu redor.
“O acreano, culturalmente falando, tem uma característica bastante interessante. O acreano é irônico por natureza. Tudo aqui vira mangofa, vira piada. Enfim, mas essa ironia característica, ironia fina, não é só fazer graça. É uma maneira também de exercer a crítica política e social”, conta.
Essa relação com o místico é marcada por uma dualidade. Ele observa que, embora o povo local frequentemente utilize a ironia e o deboche ao narrar lendas de encantamento, esse comportamento não deve ser confundido com ceticismo. Pelo contrário: a ironia funciona como uma camada cultural que protege uma crença profunda, ainda muito viva e arraigada, especialmente nas comunidades do interior do estado. Para ele, o acreano “brinca” com a história da Cobra-Grande justamente por conviver com ela de forma tão próxima e verdadeira.
O imaginário coletivo
O psiquiatra suiço Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, apresenta o conceito de inconsciente coletivo, experiências transmitidas de geração para geração através da cultura. Esse inconsciente coletivo contém arquétipos, que são imagens, símbolos e padrões de comportamento que aparecem em mitos, sonhos, religiões, e até nas produções culturais modernas, os arquétipos não são aprendidos, são herdados.
Assim, Jung defendia que compreender o inconsciente coletivo é essencial para o processo da criação de uma identidade pessoal. O neuropsicólogo Carlos Souza, aponta que a Cobra-Grande têm um objetivo social, dar direcionamento para as pessoas que escutam, seja ter cautela ou se coragem.
A Cobra Grande faz parte do imaginário amazônico e vai sendo transmitida de geração em geração. “Então se for observar, você pega esse imaginário popular de toda a região amazônica, de todos os ribeirinhos, e isso vai para as escolas e vai tomando uma proporção inimaginável”, explica.
Paróquia Imaculada Conceição, bairro Quize – Segundo Distrito. Foto: Ranelly Pinheiro
O fio da meada
A preservação das narrativas amazônicas vai muito além do folclore. É manter o que Marcos Vinicius chama de “fio da meada”, o elemento que define a trajetória de uma sociedade forjada no isolamento da floresta. O historiador defende que o repertório cultural dos mais velhos é essencial para que as novas gerações não percam o sentido de pertencimento diante do fluxo constante das redes sociais.
Segundo ele, “essas histórias explicam quem nós somos, qual o caminho que nós passamos para chegar até aqui, e que nos diferencia de todo o resto” . É essa memória, afinal, que transforma um simples acidente geográfico ou uma árvore centenária em um poderoso marco de identidade.
Assim, perpetuar as lendas é um ato de resistência contra a homogeneização cultural. O professor pontua que o acreano precisa compreender sua própria geografia e seus símbolos, lembrando que o rio que corta a capital possui significados que não existem em outras regiões do Brasil.
O Rio Acre, que nasce no Peru e atravessa municípios acreanos de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia, Xapuri, Rio Branco, Capixaba, Senador Guiomard e Porto Acre, é um dos principais responsáveis pelo abastecimento e pelo sustento de milhares de famílias no estado. No entanto, ao longo dos últimos anos, o manancial tem enfrentado transformações profundas, impulsionadas pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela fragilidade das políticas públicas ambientais.
Essas mudanças se refletem tanto nos períodos de cheia quanto nos de seca extrema, que têm se tornado cada vez mais frequentes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e bairros urbanos situados em áreas de risco da capital acreana
Segundo Victor Manoel, do Comitê Chico Mendes, Rio Branco possui um plano de contingência estruturado contra enchentes, algo inexistente até mesmo nas maiores capitais do país brasileiras. Ainda assim, o problema persiste.
“Rio Branco tem um plano de contingência contra enchentes. Esse estudo já foi feito. O que falta, na verdade, é prioridade. Falta uma leitura do material que já existe. A gente vive em um mandato político onde se prioriza muito mais a infraestrutura urbana”, avalia.
Manoel explica que, embora o poder público não tenha controle sobre o clima ou as chuvas, é responsável por não desenvolver ações que reduzem o impacto das cheias. “A prefeitura não controla a chuva nem as mudanças climáticas, mas é totalmente responsável por políticas públicas que mitiguem os impactos dessas mudanças na população e na própria máquina estatal”, completa.
Cheias atípicas e extremos cada vez mais frequentes
Em dezembro de 2025, o Rio Acre registrou uma cheia considerada atípica. De acordo com a Defesa Civil Municipal, foram acumulados 561,6 milímetros de chuva, o que representa 97% acima do esperado para todo o mês, um volume que não era observado havia pelo menos uma década.
O coordenador municipal da Defesa Civil, coronel Cláudio Falcão, explica que o comportamento do rio é marcado por variações extremas de vazão
“Quando o Rio Acre está abaixo de 11 metros, a vazão chega a cerca de 1 milhão e 100 mil litros de água por segundo. No outro extremo, essa vazão pode cair para cerca de 25 mil litros por segundo. A diferença é muito grande”, explica.
Foto: cedida.
Segundo ele, parte desse comportamento se deve às características naturais do rio. “O Rio Acre é um rio novo, ainda em formação, e por isso muda o curso de vez em quando”, afirma.
Desmatamento e perda da mata ciliar agravam o problema
Além das características naturais, questões ambientais agravam a situação. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicado no site InfoAmazonia aponta que o Rio Acre perdeu cerca de 40% da sua mata ciliar ao longo de 55 anos, equivalente a aproximadamente 4,5 mil hectares de vegetação nativa degradada, de um total original estimado em 11,6 mil hectares.
A mata ciliar é fundamental para a regulação do rio por ajudar a conter a erosão das margens, reduz o assoreamento e permite que a água seja absorvida e liberada gradualmente.
“Ao longo do Rio Acre há muito assoreamento e desmatamento das margens. Com isso, o rio não consegue manter o nível da mesma maneira. Quando a água chega, chega de uma vez só”, explica o coronel Falcão.
Ele destaca o papel da floresta na regulação dos extremos hídrico: “A floresta segura a água no período de cheia e vai soltando aos poucos durante a seca. Além disso, evita o desbarrancamento e o aceleramento do rio. Se tivéssemos a floresta preservada ao longo do rio, não teríamos extremos tão intensos”, afirma
A vida em áreas vulneráveis: relatos de quem convive com o rio
No bairro Cidade Nova, em Rio Branco, as moradoras Vitória Yasmin, de 23 anos, e Alderina Costa, de 65, relatam as dificuldades enfrentadas durante os períodos de cheia do Rio Acre, fenômeno que se repete ano após ano e afeta diretamente a rotina de quem vive em áreas consideradas vulneráveis.
“Quando começa a encher, a gente já levanta tudo. A água é contaminada por causa do esgoto. Eu preciso ir para a casa da minha avó. Em 2015, a água chegou a subir pela parede”, conta Vitória.
Alderina relembra que, diante da recorrência das enchentes, a família precisou investir por conta própria para reduzir os riscos. Sem apoio financeiro do poder público, a solução encontrada foi adaptar a própria estrutura da casa.
“A água entrou bem aqui. Em 2015, na época, não tinha esse apartamento alto. Então a gente fez um segundo andar para ficar lá em cima quando alaga”, relata.
Segundo Alderina, a decisão de construir um segundo pavimento veio do desejo de permanecer no local onde sempre viveu. Para ela, sair da própria moradia e ser levada para abrigos distantes é uma alternativa que muitos moradores não querem enfrentar. Destaca, ainda, que não vê possibilidade de deixar a casa, pois não teria para onde ir: “Se eu pedir 100 mil, aqui na minha casa, eu não vendo. Entendeu? E se eu pedir menos de 50 mil, eu vou comprar outra onde?”, questiona.
Ela defende que o governo ofereça apoio financeiro para que as famílias possam adaptar suas casas com segurança, evitando o deslocamento forçado durante as cheias. Para Alderina, a permanência no território também representa dignidade, pertencimento e menor desgaste emocional.
As adaptações feitas pelas famílias evidenciam como a responsabilidade de lidar com os impactos das cheias acaba sendo transferida do poder público para os próprios moradores. Embora existam políticas públicas voltadas à prevenção de desastres, ainda há um hiato significativo entre o que está previsto no papel e o que, de fato, é executado.
Além disso, moradores que vivem em áreas de risco defendem que as soluções não se limitem apenas à retirada compulsória das famílias de suas casas. Para eles, é fundamental que haja diálogo, escuta e participação das comunidades diretamente afetadas, por meio de audiências públicas e espaços de debate que considerem suas realidades e necessidades. Essas populações não são culpadas pelos desastres recorrentes e precisam ser incluídas na construção das soluções.
As estratégias adotadas por famílias como a de Alderina revelam não apenas a precariedade das políticas habitacionais em áreas vulneráveis, mas também a criatividade, a resistência e a determinação de quem convive há décadas com o avanço das águas.
Diante da ausência de respostas efetivas, são os próprios moradores que buscam alternativas para proteger suas famílias e preservar o vínculo com o território onde construíram suas histórias.
Apesar do cenário preocupante, existem iniciativas públicas voltadas à prevenção e à recuperação ambiental. Em Rio Branco, foi instituído o Plano Municipal de Prevenção e Combate às Enchentes, que prevê ações como o mapeamento de áreas de risco, recuperação de áreas degradadas, melhorias na drenagem urbana e educação ambiental. No entanto, grande parte dessas medidas ainda depende de orçamento, continuidade administrativa e prioridade política.
No campo ambiental, o Governo do Acre e a Prefeitura de Rio Branco firmaram um acordo de cooperação técnica para fortalecer ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Em 2025, por exemplo, mais de 400 mudas de espécies nativas foram plantadas em áreas de preservação permanente às margens do Rio Acre, como tentativa de conter a erosão do solo.
O estado também conta com iniciativas como o Viveiro da Floresta, em Rio Branco, responsável pela produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares em diferentes regiões do Acre. Apesar disso, estudos científicos, avaliam que as ações ainda avançam em ritmo lento diante da dimensão do problema e da frequência cada vez maior das cheias.
Limites orçamentários e desafios estruturais
De acordo com o coronel Falcão, outro entrave importante é a limitação de recursos e a complexidade das soluções necessárias.
“Não existe solução simples. Algumas ações envolvem diplomacia entre países, porque o rio nasce no Peru, e outras dependem de recursos que a Defesa Civil não tem para atender todos os problemas ao mesmo tempo”, afirma.
Ele explica que mudanças estruturais no comportamento do rio demandam tempo. “Nada pode ser mudado em menos de 10 anos. Qualquer ação que a gente faça agora não muda o cenário do Rio Acre em curto prazo”, ressalta.
O futuro do Rio Acre
O coordenador da Defesa Civil alerta ainda para projeções preocupantes. Segundo ele, o climatólogo Carlos Nobre prevê um cenário crítico para o Rio Acre até 2032, caso o modelo atual de ocupação e degradação ambiental continue.
“A gente pode enfrentar uma seca tão severa que o rio pode praticamente parar de correr, como diziam nossos antepassados”, alerta.
O problema é recorrente, que se repete ano após ano, a situação do Rio Acre evidencia que, mais do que planos e ações emergenciais, são necessárias políticas públicas transparentes, contínuas e preventivas, capazes de articular preservação ambiental, planejamento urbano e proteção social. Sem isso, moradores continuarão convivendo com cheias, secas e a incerteza de um rio cada vez mais imprevisível.
O rio sob seus pés: as pontes que conectam história, comércio e vida em Rio Branco
Ponte Metálica e Passarela Joaquim Falcão Macedo integram Primeiro e Segundo Distritos de Rio Branco e facilitam o trânsito de carros e pedestres na região
Onde centenas de pés passam, pneus deixam borracha no asfalto e bicicletas atravessam em meio aos pedestres, comerciantes contam sobre a importância e de duas das pontes mais famosas do estado.
Em destaque pela influência, tanto histórica como atual, a Passarela e a Ponte Metálica (também conhecidas, respectivamente, como Passarela Joaquim Falcão Macedo e Ponte Juscelino Kubitschek), são referências quando se trata da história e da identidade acreanas.
Passos sobre o Metal
A Ponte Juscelino Kubitschek, popularmente conhecida como “Ponte Metálica”, pode ser considerada um símbolo de resistência. Inaugurada na década de 60, é uma das principais formas de ligação entre o Primeiro e o Segundo Distrito da capital acreana. Sua construção foi um marco na engenharia para a época, em uma resposta direta ao isolamento do Segundo Distrito em relação ao centro administrativo e comercial de Rio Branco.
Antes dela, a travessia era feita, na maioria das vezes, por catraias, que limitavam o fluxo de mercadorias e pessoas. Dessa forma, a estrutura montada com treliças de aço não apenas facilitou o transporte de veículos, mas integrou definitivamente as duas margens da capital. Batizada em homenagem ao presidente do Brasil entre 1956 e 1961, a ponte tornou-se o principal corredor logístico da cidade por décadas, e resiste ao tempo e a inúmeras cheias históricas do Rio Acre, que testaram sua robustez ao longo de mais de 60 anos.
Ponte Juscelino Kubitschek. Foto: Rhawan Vital
Quem atravessa do Primeiro ao Segundo distrito, avista o imponente “Ponto Certo Agropecuária”, loja de agronegócio que há mais de dez anos dispõe de sementes, ferramentas, grãos e alimentos de diversos tipos, até maquinário pesado. Pedro Fernandes, de 30 anos, trabalha lá há dez meses e, pelo lugar estratégico em que a loja se coloca, sabe que a importância da ponte reflete no sucesso do estabelecimento e que, por ser logo em frente à uma das saídas, se coloca como uma opção mais fácil para quem procura esse tipo de mercado.
“A ponte, tanto para veículos, para pedestres e para o comércio, é muito importante. Quando a ponte fica interditada, atrapalha muito, mas o fluxo de pessoas aumentou nesse espaço depois da interdição da passarela”, diz Pedro
Cultura e Identidade sobre as águas
A passarela Joaquim Falcão Macedo, uma das primeiras na Região Norte a ser projetada exclusivamente para pedestres e ciclistas, convida a outro ritmo e se torna um local de passeios e encontros. Inaugurada em 2006, é uma ponte estaiada, ou seja, uma ponte de cabos. Com cerca de 200 metros de extensão, busca amenizar o conflito entre o tráfego pesado de carros e pedestres, e possibilitar ao cidadão o prazer de contemplar o rio.
Porém, desde 2024, a Passarela está interditada e, por ser parte do espaço, o Mercado Velho também é afetado pela reforma, com tapumes de metal espalhados pela praça que chamam mais atenção do que o próprio rio.
“A passarela é muito importante. Vejo por aí jovens escrevendo, professoras que trazem alunos para conhecer e contemplar a região. É uma passagem livre. Ela atrai vida para nossas praças, para a encosta do rio. Agora nós não temos mais isso. Não pode ficar assim.” relata Francisco Marufo Lessa, dono da loja Ervas do Lessa há 40 anos.
Francisco Marufo Lessa, dono da loja Ervas. Foto: Rhawan Vital
Para além da sua importância comercial e social, uma ponte também compõe histórias individuais ao fazer parte do dia a dia de quem depende delas para locomoção. Maria Bárbara, de 18 anos, voluntária em uma associação que cuida de crianças (ASBVIN), fala que a ponte é justamente algo que facilita e oferece maior comodidade para o seu trajeto de casa para o trabalho. “Uma ponte facilita muito a vida. É, literalmente, cortar um caminho. Ajuda muito depois de um dia cansativo, já que não preciso mais andar tanto”, diz a voluntária.
Essas pontes apontam para um conjunto arquitetônico que compõe a história de Rio Branco e sua caminhada para uma capital cada vez mais moderna, que utiliza a engenharia para encurtar distâncias e criar espaços de convivência. Apesar disso, elas ainda carecem de segurança e maior comodidade para os transeuntes que podem ficar à mercê de assaltos, chuvas e sol. Seus vãos não sustentam apenas o peso de quem passa, mas sustentam a história de um povo que aprendeu a construir caminhos sobre os desafios vividos na Amazônia.
Casa do Rio consolida proposta de gastronomia e música às margens do Rio Acre
Gastronomia regional, música ao vivo e vista privilegiada transformam a beira do Rio Acre em um dos principais pontos de encontro e lazer de Rio Branco
Entre a calmaria das águas do Rio Acre e o som que toma conta do fim de tarde, a Casa do Rio se firmou como um dos espaços de lazer e gastronomia de Rio Branco. De frente para um dos principais marcos naturais da capital, o gastrobar reúne culinária regional, música ao vivo e vista para o rio em um mesmo cenário.
Localizado no bairro da Base, o estabelecimento oferece programação musical e eventos temáticos voltados ao público que busca gastronomia regional e entretenimento. No cardápio, há destaque para pratos com peixes de rio, opções com tucupi e receitas inspiradas na culinária acreana.
O quibe de arroz e o quibe macaxeira estão entre os itens mais vendidos, considerado o prato mais procurado pelos clientes. Já entre os pratos principais, um dos destaques é o tambaqui mergulhado. Os preços variam a partir de R$34,00 variando conforme o prato.
Caldinho de feijão. Foto: arquivo pessoal
Inaugurado em 2019, o espaço nasceu da proposta de reunir gastronomia e música em um ponto tradicional da cidade. Nascida e criada no bairro da Base, a proprietária Izabel Dantas idealizou o empreendimento inspirado na história da comunidade onde cresceu.
“Nasci e me criei no bairro da Base. Sempre tive o sonho de fazer algo que ficasse na história do meu bairro. A Casa do Rio também trouxe visibilidade para a comunidade”, afirma.
Além da gastronomia, a programação musical é uma das principais atrações da casa. O espaço recebe apresentações frequentes de artistas locais, que recebem cachê pelas apresentações, incentivando a presença de músicos da cidade na programação do estabelecimento.
Segundo a proprietária, o público que frequenta o espaço é majoritariamente das classes A e B, e o movimento semanal costuma variar entre 100 e 1.500 pessoas, dependendo da programação e do período.
A localização às margens do Rio Acre também influencia a rotina do estabelecimento. Durante o período de cheias, comuns na região, quando o rio transborda, o funcionamento da casa precisa ser suspenso temporariamente.
Feijoada. Foto: arquivo pessoal
Atualmente, a Casa do Rio funciona às quartas e quintas-feiras a partir das 16h. De sexta a domingo, o espaço abre às 11h e mantém programação ao longo do dia e da noite, especialmente nos fins de semana, quando o movimento é mais intenso.
Com a proposta de unir gastronomia, música e a paisagem do Rio Acre, a Casa do Rio transformou a beira do rio em ponto de encontro para moradores e visitantes da capital.