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Transporte público de Rio Branco está “uma década atrasado”, afirma sindicato da categoria

Diante do aumento de casos de ônibus quebrados em 2025, sindicato relata frota insuficiente e defende ampliação para ao menos 140 veículos

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Por Vanessa Sousa

Os frequentes registros de ônibus quebrados em vias de Rio Branco ao longo de 2025 reacenderam o debate sobre a precariedade do transporte público na capital acreana. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo de Passageiros de Rio Branco (Sinttpac), as falhas mecânicas são reflexo de problemas estruturais antigos e da falta de investimento adequado na frota.

Panes no meio do trajeto, atrasos constantes e longas esperas nas paradas fazem parte da rotina de quem depende do serviço. Ônibus parados em avenidas e rodovias têm causado transtornos no trânsito e aumentado a sensação de insegurança entre passageiros e motoristas.

Ônibus perde eixo traseiro na Via Chico Mendes em novembro de 2025. Foto: arquivo pessoal

Para Mauricélio Freire, diretor financeiro do Sinttpac, a situação evidencia o desgaste do sistema. “Hoje o transporte público no Acre está praticamente uma década atrasado. Muitas linhas operam com veículos quebrados, e os horários não são cumpridos, obrigando a população a buscar transporte alternativo”, afirma.

Contrato e operação

Desde fevereiro de 2022, a empresa Ricco é a única responsável pela operação do transporte coletivo em Rio Branco. Atualmente, a concessionária opera 42 linhas com 92 ônibus em circulação. O contrato, que deveria ter sido encerrado em julho de 2022, acabou sendo prorrogado.

Em novembro de 2025, a Prefeitura de Rio Branco informou, por meio de coletiva de imprensa, que está adotando medidas para modernizar o sistema de transporte coletivo, com a atualização do Marco Regulatório, lei responsável pela abertura de um novo processo licitatório. Segundo o vice-prefeito, Alysson Bestene, a gestão iniciou melhorias na frota.

“Conseguimos colocar novos ônibus em circulação, inclusive os articulados, que há anos não rodavam na cidade”, afirma. O novo marco foi protocolado na Câmara Municipal de Rio Branco, e, segundo Bestene, tem o objetivo de oferecer um serviço de melhor qualidade à população.

Impacto na rotina dos usuários

As falhas constantes afetam diretamente a rotina de quem utiliza o transporte público. Em alguns episódios recentes, passageiros precisaram descer antes do destino final por conta de panes mecânicas em vias de grande circulação.

“Tive compromissos prejudicados várias vezes por causa dos atrasos ou de ônibus quebrados. A gente nunca sabe ao certo que horas o ônibus vai passar”, relata Rafael Soares, usuário semanal do transporte coletivo na capital.

Segundo ele, a imprevisibilidade tem afastado passageiros do sistema. “Na maioria das vezes, compensa mais pagar mais caro e usar transporte por aplicativo do que perder tempo com o ônibus”, diz.

Frota insuficiente e manutenção precária

De acordo com o sindicato, o número de ônibus em circulação é insuficiente para atender a demanda da cidade de forma regular e segura. Mauricélio Freire explica que, para o porte de Rio Branco, o ideal seria uma frota de aproximadamente 140 veículos, sendo cerca de 120 em operação diária e 20 de reserva para manutenção e substituições emergenciais.

“Se tivesse uma frota nova, com veículos de reserva e totalmente qualificados, incluindo pneus em bom estado e toda a estrutura em condições adequadas, seria possível ter uma frota compatível com a demanda de uma cidade como Rio Branco. Infelizmente, isso não acontece. A manutenção precária, resultado das condições do contrato emergencial, impede que o sistema funcione de forma segura e eficiente”, avalia.

Enquanto soluções estruturais não são adotadas, o transporte público de Rio Branco segue marcado por incertezas, falhas recorrentes e dificuldades que impactam diretamente a rotina de milhares de usuários. Para o sindicato, sem investimentos na frota, manutenção adequada e revisão do modelo de operação, os problemas tendem a se repetir ao longo do ano. “Para melhorar, é necessária uma licitação responsável. Muitas promessas foram feitas, mas a situação continua crítica, e sem medidas estruturais o sistema tende a piorar”, finaliza o diretor.

Redação

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Quem ajuda quando o rio transborda?

Com casas alagadas e comunidades isoladas no Acre, redes de doação e solidariedade assumem a linha de frente da resposta às enchentes

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Com ruas alagadas, moradores usam barcos para levar cestas básicas. Foto: Juan Diaz

Como era o mundo há 50 anos atrás? No Brasil, a primeira versão da telenovela Roque Santeiro foi censurada, levando à criação de outro clássico, escrito por Janete Clair, Pecado Capital; em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar. No Acre, Chico Mendes fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, com Wilson Pinheiro. Lá pelas bandas do sul, no Paraná, acontecia a “Geada Negra”, uma tragédia climática que dizimou cafezais congelados por uma nevasca. 

Voltando para as terras acreanas, em 1975, foi a primeira vez que uma enchente foi registrada em dezembro, em Rio Branco. A segunda, foi em 2025. O rio atingiu a marca de 15,41 metros, em 29 de dezembro de 2025, alcançando a cota de transbordamento de 14 metros, após chuvas seguidas. Nesse cenário, a solidariedade se mostra uma infraestrutura de solução decisiva. Warlle Almeida, professor e cozinheiro, relata que:

“Deveria existir mais assistência, vigilância e controle de bairros, famílias e comunidades que são afetadas pelas cheias dos rios, igarapés e chuvas intensas. As autoridades deveriam mapear essas localidades e, como há pessoas que não têm para onde ir, reservar um fundo financeiro de emergência para dar assistência em casos extremos como as chuvas e alagações”.

Calamidade afeta, principalmente, bairros mais pobres do Acre. Foto: Juan Diaz

Almeida é voluntário do projeto União Solidária, desde 2020. Ele prepara marmitas, embala e entrega durante as ações do coletivo. O grupo tem atuação tanto em momentos de crise, quanto em datas comemorativas, como Dia das Mães, dos Pais e das Crianças. A “União” realiza campanhas de arrecadação e doação através do perfil na rede social do projeto e nas redes de cada voluntário, além de atuar nos territórios.

Nesse cenário desafiador, como pontuou Almeida, coletivos de base consolidam a ajuda a estas famílias atingidas. Redes como a “União” e o Grupo Social pela Vida (GS) expõem os desafios desta empreitada. Mel Silva, neuropsicopedagoga e presidente do “GS”, revela que assim que começam os transtornos, eles são contatados pelos líderes de cada grupo social, instaurando um processo de organização interna para atendê-los.

“As necessidades mais urgentes são, quase sempre, água potável e alimentação, especialmente refeições prontas. Isso acontece porque muitas famílias precisam elevar ou retirar seus móveis, ficam sem energia elétrica e, consequentemente, sem condições de cozinhar. As doações geralmente vêm de pessoas de fora das comunidades atingidas, incluindo voluntários, familiares, amigos e parceiros”, disse.

A água sobe

A maior cota geral da história do rio foi de 18,40 metros em 4 de março de 2015, afetando mais de 102 mil pessoas. Antes disso, o recorde era de 14,30 m, em 14 de março de 1997, que levou 18 anos para ser superado. Em 3 de abril de 2023, o corpo hídrico atingiu 17,72 m, demorando oito anos para se aproximar da marca de 2015. Já em 2024, a nova marca foi atingida em apenas 11 meses depois.

Solidariedade arrecada mantimentos necessários para a população atingida. Foto: União Solidária

“A maior cheia”, “a maior temperatura”, “o menor nível do rio”, “a menor umidade do ar” fizeram parte do vocabulário dos acreanos nos últimos anos. Em 4 de março de 2024, a segunda maior enchente da história de Rio Branco, capital, foi registrada. O rio Acre atingiu 17,75 metros. Este foi o maior desastre ambiental do Estado, por conta do número de cidades e pessoas atingidas, segundo o governo do Estado.

Na cheia de 2023, Edilson Santana, motorista de aplicativo e morador do bairro Travessa Beira Rio conta que perdeu utensílios como geladeira, armário de cozinha, guarda-roupa, estoque de ração dos cachorros, incluindo a morte dos animais de quintal, como aves e na sua horta

“A enchente de 2023 foi muito rápida. Acordei às cinco da manhã para ir ao banheiro e olhei para o rio; ele estava cheio, mas a água ainda não tinha chegado à minha casa. Voltei a dormir e, quando acordei por volta das 6 horas, a água já estava na minha cozinha, atingindo a metade da geladeira (a minha cozinha é mais baixa que o restante da casa, em média 8 centímetros). A água também já cobria quase metade do meu carro. Foi horrível.”

Utensílios e eletrodomésticos precisam ser retirados, caso o contrário, se perdem. Foto: Juan Diaz

Em dezembro de 2025, o acumulado de chuvas chegou a 483 milímetros, volume 97% superior à média esperada para o período, de 265 milímetros. E, como aponta o coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão, os mais afetados são, justamente, famílias em condição de vulnerabilidade, o que significa muitas vezes, aquelas que moram em áreas de risco por falta de opção e por terem menor poder aquisitivo:

“Nós temos as mudanças climáticas, que eu prefiro chamar de emergências climáticas […] Desde 2021 temos inundações todos os anos, sendo que em 2025 ocorreram duas. Por que isso se torna frequente? Mudanças climáticas, ação do homem e ciclo da natureza. Eu diria que esses são os três fatores primordiais”, destaca Falcão.

Na manhã de terça-feira, 13, data em que esta matéria está sendo produzida, o manancial da capital atingiu 13,27 metros, mantendo-se estável nesse patamar até o meio-dia. Entretanto, a capital está novamente em estado de alerta, estando a apenas 23 centímetros da Cota de Alerta oficial (13,50m) e a menos de um metro de um novo transbordamento. 

“Quando ocorrem catástrofes, como chuvas e enchentes intensas, agimos mediante a urgência, pois as comunidades são cadastradas no nosso sistema. Quando chegam casos isolados, mandamos equipes a vários locais. Depois da arrecadação, separamos os itens e montamos kits (quando são roupas, sapatos, produtos de limpeza e higiene). No caso de alimentos, utilizamos para o preparo das marmitas. Quando são doados sacolões, verificamos as famílias mais necessitadas e as entregamos. Após todo preparo e montagem, saímos em equipes”, acrescenta Almeida.

O estado sofre

Este tipo de ajuda é necessária em todo o território acreano, já que a análise dos dados revela um efeito dominó em todo o sistema hidrográfico do estado, afetando as bacias do Purus, Juruá e Tarauacá. Em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, o Rio Juruá registrou uma oscilação mista. Boletins subsequentes indicaram o início de uma vazante, afastando-o da cota de alerta.

Apesar da trégua momentânea, a região do Juruá mantém um histórico de vulnerabilidade, tendo enfrentado cheias severas que exigiram campanhas de arrecadação específicas para a região, dada a sua distância da capital.

“Falando de classe social, essas pessoas [em situação de vulnerabilidade] são as primeiras a sofrer. Já em termos de faixa etária, o impacto é igual: tanto crianças quanto adultos e idosos sofrem com a mesma intensidade, desde que pertencem a essas categorias sociais menos favorecidas”, diz o tenente-coronel.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão”.

Em Tarauacá, durante eventos recentes associados a esta temporada de chuvas, cerca de 90% do município chegou a ficar submerso em momentos de pico, afetando direta e indiretamente até 28 mil pessoas. Em Feijó, a situação é agravada pelo isolamento das terras indígenas e ribeirinhas, onde as águas destruíram roçados de subsistência, criando uma crise de segurança alimentar.

Já Assis Brasil, em 2021, é palco de uma crise migratória agravada pela enchente com imigrantes na fronteira com o Peru sendo retidos por dias. A campanha “SOS Acre” direcionou parte de seus esforços especificamente para este grupo, fornecendo ajuda humanitária a haitianos, venezuelanos e outras nacionalidades que se viram duplamente desamparados: sem pátria e sem chão, literalmente. Santana reflete que quando se é vítima das enchentes, para além do prejuízo material, “a dignidade desaparece” e a população local “fica vulnerável a tudo.”

“Agilidade nas ajudas, a maioria das ajudas demoram bastante e a enchente destrói tudo numa velocidade grande para quem mora próximo às margens”, pontua o motorista de aplicativo sobre os desafios que aparecem para quem é vítima dos desastres climáticos.

E não foram só os animais de Edilson Santana que precisaram de auxílio. No transbordo de 2024, o Ministério Público do Acre (MPAC) também emitiu recomendações expressas para o resgate e cuidado de animais domésticos. Em resposta, a Prefeitura de Rio Branco construiu 17 boxes adicionais no Parque de Exposições e espaços específicos para animais nas escolas-abrigo. Estima-se que quase 600 cães e gatos tenham sido abrigados.

A desigualdade aparece

“Racismo ambiental” é um termo que pode englobar esta discussão. Cunhado por Benjamin Franklin Chaves, líder afro-americano de direitos civis, o conceito retrata esta diferença entre bairros de classe alta e os à margem do centro e o seu acesso a condições eficazes de moradia, saneamento básico e outros tipos de melhorias de infraestrutura. 

Historicamente, o mês de dezembro não costuma registrar cheias dessa magnitude. A cheia de dezembro desencadeou uma primeira onda de desabrigados e desalojados, sendo 758 pessoas, segundo boletim do governo estadual, até o momento de escrita deste texto. Foram mais de 20 mil pessoas atingidas e cinco municípios, inclusive Rio Branco, declararam situação de emergência. 

Entre os dias 9 e 11 de janeiro de 2026, a via fluvial recuou para patamares próximos a 10 metros. Contudo, chuvas torrenciais nas cabeceiras e na própria capital reverteram o cenário. No dia 12, a capital acreana registrou 84 milímetros de chuva, enquanto o município de Assis Brasil, na bacia superior, recebeu 124,8 milímetros em 24 horas. 

Com esse cenário de mais uma possível calamidade pública, os dois representantes das redes de solidariedade entrevistados contaram o diferencial entre os dois. O “União Solidária” prioriza, em sua atuação, agrupamentos mais isolados. Como povos ribeirinhos, que necessitam de um barco, de uma caminhonete ou veículo traçado para conseguir fazer a entrega dos alimentos. O atendimento dos dois coletivos também é esquematizado em etapas, sendo que a prioridade inicial é água e refeições prontas.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão’. Escutamos muito as pessoas falarem: ‘Ah, mas todo ano acontece isso com essas famílias?’. Sim, todo ano acontece, porque essas famílias continuam em áreas de risco. Em momento algum foram retiradas dessas áreas, então, sim, vai se repetir todos os anos”, reitera Robson Fadell, presidente e fundador da União Solidária.

A solidariedade se constrói

Fadell se descreve como nutricionista de formação e ativista social de coração e afirma que as enchentes “revelam” desigualdades que não acontecem apenas no período das chuvas. Ele fundou a ONG com outros colegas. Em 2021, numa alagação durante a pandemia, eles perceberam uma demanda grande por comida. Além de pessoas aglomeradas, com muitos casos de COVID-19 e sem isolamento. Dessa maneira, eles começaram a intervir com ações de saúde e entrega de refeições até formarem a organização.

“Muitas vezes, fala-se imediatamente em colchões e cestas básicas, mas o processo não começa assim. Quando a água começa a baixar, surgem novas necessidades, como produtos de limpeza para higienizar as casas e permitir o retorno das famílias. Só depois entram os móveis, as cestas básicas e outros itens essenciais”, enfatiza Mel Silva sobre a atuação da rede solidária que coordena.

O processo de decisão de para quem vai cada doação ocorre de acordo com a necessidade de cada região, explica Silva. O “Grupo Social pela Vida” mantém contato constante com outros parceiros que atuam na linha de frente para garantir que os suportes sejam distribuídos de forma equilibrada e estratégica, evitando a concentração de ajuda em um único local e assegurando que ela chegue, de fato, a quem mais precisa.

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias”.

O tenente-coronel, Falcão, acredita que faltam políticas públicas para que essas pessoas dependam menos de auxílio. Por conta disso, ele acredita que as redes de apoio comunitário são essenciais para garantir que essa assistência alcance esta parcela da população. A geografia acreana impõe desafios que moldam a natureza das doações e a forma como elas são distribuídas. A cultura de doação precisa ser, necessariamente, uma cultura de logística.

“Há uma grande quantidade de pessoas afetadas e valores irrisórios investidos; penso que, nesse cenário, as redes solidárias são muito favoráveis”, pensa Falcão. “Além disso, temos um povo voltado para a solidariedade: basta saber que alguém está sofrendo para que a ajuda apareça. Vejo, de uma forma geral, que no país todo, quando há desastre, existe uma rede comunitária.”

Falando sobre as autoridades, o Governo do Acre, lançou a campanha "Juntos Pelo Acre" em 2025, uma iniciativa que funciona como um guarda-chuva logístico, centralizando doações de grandes volumes e distribuindo-as para os municípios mais afetados. Já a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, além do resgate físico, atuam na distribuição das doações. A campanha "SOS Acre" arrecada, sobre a confiança pública no MPAC, volumes financeiros para a assistência destes moradores. 

Depois das enchentes, fica os desafios de limpeza e recuperação dos bairros atingidos pela cheia. Foto: Juan Diaz

Porém, para Falcão, é preciso trabalhar a prevenção, mitigação e a preparação. Ele cita o termo “adaptação climática”, que, conforme descrito por Anielise Campêlo, cientista ambiental e professora, ao Comitê Chico Mendes, em 2025, se trata de“repensar quais são as nossas principais matérias-primas para produzir aquilo que a gente consome”. No campo da infraestrutura urbana, seria construir novas formas de alicerces para as cidades, preparando-as para enchentes e secas severas.

“Em nossa cidade, percebemos que toda chuva acima de 50 milímetros causa alagamentos. As pessoas podem ser realocadas, mas, enquanto não mudam, precisam estar preparadas. A residência deve estar pronta para enfrentar esses alagamentos. Além disso, é necessário mudar a cultura, evitando o descarte inadequado de lixo e investindo em educação ambiental”, complementa Falcão.

O desafio se intensifica

Outro caso de doação institucional, a Associação dos Magistrados do Acre (ASMAC) e o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) promovem campanhas internas e externas, além de empresas e associações comerciais que desempenham um papel crucial, como a Fecomércio/AC que realizou uma doação de 130 toneladas de alimentos, convertidos em 9.000 sacolões. Entretanto, não é o bastante:

Essas famílias estão em vulnerabilidade social e precisando de apoio e política pública de janeiro a dezembro”, relembra Fadell. “Só que somente nesses 90 dias tudo toma uma proporção muito grande, torna-se calamidade pública e a mídia divulga; é quando as pessoas passam a enxergar essas famílias.”

Ajuda chega de canoa nos lugares mais distantes. Foto: União Solidária

Silva esclarece que os maiores desafios para a continuidade de projetos como estes estão na frequência de doações e na falta de recursos vindo de instituições da sociedade civil. Quando a enchente chega no auge, normalmente, se consegue um volume satisfatório de doações e voluntários, como reportado na matéria. Com o passar do tempo, porém, ambos diminuem. 

O gargalo está na ausência de recursos e apoio técnico contínuos, como espaços adequados para cozinhar, veículos para distribuição e canoas, entre outros. Fadell faz coro com Silva e Falcão e justifica que o ideal seria a criação de políticas públicas habitacionais e saneamento básico. O nutricionista também observa que o poder público enxerga essas situações com o intuito de gerar assistencialismo, “fazendo da tragédia alheia um palanque eleitoral”. 

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias […] No ano passado, por exemplo, conseguimos chegar a locais onde o Estado e a Prefeitura não alcançaram. Em algumas regiões, fomos o primeiro socorro recebido. Com o apoio da comunidade e das doações, realizamos um bom trabalho. No entanto, se tivéssemos suporte estrutural e financeiro do Estado, poderíamos fazer muito mais”, conta Mel Silva.

Almeida denuncia que nos últimos dois anos, houve uma grande queda nas doações. Outras organizações, como a Cozinha Solidária Marielle Franco, registraram estas dificuldades. Com apoio do governo estadual, federal e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Cozinha entregou quase 10 mil marmitas e água mineral para atingidos pela cheia do Rio Acre, em 2024. Além dos alimentos, o Movimento por Uma Universidade Popular (MUP) fez entrega de roupas.

Acre é palco de enchentes recorrentes, apesar de ter um plano de contingência escrito. Foto: Juan Diaz

“Asolução seria a criação de políticas públicas específicas e definitivas, e não ações paliativas a cada alagação. Já vamos para a sexta alagação trabalhando com essas famílias; acompanhamos algumas há 5 ou 6 anos e as vemos perdendo tudo. Tem relato de uma senhora que disse: ‘Meu filho, termino de pagar um guarda-roupa em 12 parcelas e a água leva’. É muito triste”, finaliza Fadell.

O futuro flui

Dados apontam para cheias nos próximos meses de 2026, segundo o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco. Para além de cuidados emergenciais, os entrevistados contam que o que falta é um plano de longo prazo para o enfrentamento destes cenários. Algo que, como avalia Warlle Almeida, é um limite para redes de solidariedade como a “União Solidária”, pois doação comunitária não substitui política pública..

Contudo, este caminho já pode estar pavimentado, pois em 2023, Rio Branco foi uma das primeiras capitais do Norte do Brasil a montar um Plano de Contingência para Inundações, a qual você pode ler aquiPara os entrevistados e, segundo diversos relatos de moradores afetados nas redes sociais, talvez o que falte seja justamente seguí-lo.

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De volta à cadeira da escola

Educação de Jovens e Adultos ajuda a transformar cenário da educação e reduzir o analfabetismo funcional no Acre. Foto: Sandro Giron

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Por Paula Amanda e Thaynar Moura

Você já deve ter se deparado com um comentário nas redes sociais que achou estar fora de contexto. O que parece ser apenas uma questão de interpretação, na verdade pode revelar um problema mais profundo: o analfabetismo funcional. 

O analfabetismo funcional se refere a pessoas que, embora consigam ler e escrever de forma básica, têm dificuldades de interpretar ou compreender textos ou resolver situações cotidianas. Essa condição afeta o desenvolvimento pessoal, social e profissional de 1 a cada 3 brasileiros entre 15 e 64 anos.

Dados apresentados pelo Departamento da Educação de Jovens e Adultos do Acre (EJA) mostram que, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, o índice de pessoas analfabetas no estado é 12,1%. 

O recorte utilizado é de pessoas com mais de 15 anos, isto é, quem não foi alfabetizado ou quem não concluiu este processo. Neste contexto, quase 50% dessa população teve o primeiro contato com a escola, mas desistiu, não concluindo o ensino infantil e fundamental.

O chefe do EJA, Jessé Dantas, explica que o maior índice se concentra na zona rural, especialmente entre a população ribeirinha, e que os desafios estão em fazer com que esses jovens e adultos apliquem o aprendizado em situações do dia a dia. 

“Na EJA a gente procura colocar o que eles estão aprendendo em atividades práticas, situações rotineiras. Coisas que são necessárias para que eles compreendam o mundo em que vivem. Por exemplo, ler uma notícia e conseguir compreender qual o tema central, o que está se discutindo”, frisou. 

Jessé Dantas destaca os desafios de fazer educação para jovens e adultos no Acre. Foto: Paula Amanda

Dona Eliete Cruz é uma dessas pessoas que se superou e voltou a sonhar depois da alfabetização. Aos 74 anos ela decidiu mudar sua vida e buscar a escolarização, pois o seu grande sonho é fazer uma faculdade. 

“Tenho irmãos e sobrinhos que são professores e eles me incentivaram muito, e eu me dediquei, fiz as provas e passei. Agora estou fazendo o pré-enem e quero muito fazer o Enem e cursar artes cênicas”, contou.  

Aos 74 anos, Eliete Cruz agora sonha em fazer Artes Cênicas. Foto: arquivo pessoal

No Brasil mais da metade dos analfabetos têm mais de 60 anos

Dados levantados pelo IBGE mostram que em 2024 existiam 5,1 milhões de analfabetos com 60 anos ou mais no país. Isso corresponde à 14,9% do total dos idosos no Brasil e mais da metade da totalidade de analfabetos.

Já entre os mais jovens, os percentuais diminuem progressivamente: 9,1% entre pessoas com 40 anos ou mais, 6,3% entre aquelas com 25 anos ou mais e 5,3% na população com 15 anos ou mais.

Confira as taxas de analfabetismo por estado do Brasil:

  • Alagoas – 14,3%
  • Piauí – 13,8%
  • Paraíba – 12,8%
  • Ceará – 11,7%
  • Maranhão – 11,4%
  • Sergipe – 10,8%
  • Rio Grande do Norte – 10,4%
  • Pernambuco – 10,1%
  • Bahia – 9,7%
  •  Acre – 9,3%
  • Rondônia – 5,1%
  • Tocantins – 6,6%
  • Pará – 6,5%
  • Amapá – 5,4%
  • Amazonas – 4,9%
  • Minas Gerais – 4,4%
  • Roraima – 4%
  • Espírito Santo – 3,9%
  • Mato Grosso – 3,8% 
  • Mato Grosso do Sul – 3,7%
  • Goiás – 3,6%
  • Paraná – 3,5%
  • Rio Grande do Sul – 2,4%
  • São Paulo – 2,3%
  • Rio de Janeiro – 2%
  • Santa Catarina – 1,9%
  • Distrito Federal – 1,8%

O Acre registrou, em 2022, a maior taxa de analfabetismo da região Norte entre pessoas de 15 anos ou mais: 12,1% ou seja 73.835 pessoas que não sabem ler nem escrever.

Embora a taxa de analfabetismo funcional tenha caído no ano de 2024, registrando cerca de 64,8 mil pessoas, equivalente a 9,3% da população, o Acre ainda lidera a maior taxa de analfabetos da região Norte, o que evidencia que saber ler e escrever formalmente não é o mesmo que interpretar e aplicar no dia a dia.

Redação

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Mulheres que fazem acontecer: a força do trabalho manual no empreendedorismo acreano

Elas não apenas produzem: elas plantam, moldam, carregam, vendem e resistem. Em um cenário onde empreender não é só uma escolha, mas uma forma de sobrevivência, mulheres do Acre estão transformando o que têm — terra, cimento, fruta, memória — em renda, autonomia e permanência. Muitas fazem isso com as próprias mãos. Outras, com apoio da família. Mas todas compartilham algo em comum: a decisão de permanecer criando.

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Por Thaynar Moura

Elas não apenas produzem: elas plantam, moldam, carregam, vendem e resistem. Em um cenário onde empreender não é só uma escolha, mas uma forma de sobrevivência, mulheres do Acre estão transformando o que têm — terra, cimento, fruta, memória — em renda, autonomia e permanência. Muitas fazem isso com as próprias mãos. Outras, com apoio da família. Mas todas compartilham algo em comum: a decisão de permanecer criando.

Da colheita ao pote: Lucilene e a trajetória de um doce feito com raízes

Foto: Thaynar Moura

Lucilene Nonata, de 58 anos, vive com o marido em um sítio no interior do Acre. Foi ali que, há cerca de duas décadas, ela decidiu começar a fazer doces com frutas do próprio quintal. “Meus filhos estavam entrando na adolescência e eu queria fazer algo meu, que também ajudasse na renda da casa”, conta.

A escolha pelo doce não foi aleatória: os pais de Lucilene já faziam compotas com frutas temporãs, e o marido, cearense, também gostava de preparar receitas simples. “Foi natural. Começamos com o que a gente tinha: cupuaçu, mamão, banana. O leite vinha do vizinho.”

Foto: Arquivo pessoal  
Foto: Arquivo pessoal

Hoje, mesmo com o pomar envelhecido e parte da matéria-prima comprada de produtores vizinhos, o processo segue artesanal. Tudo é feito por Lucilene e o esposo, desde a limpeza até o ponto do doce. A venda acontece em feiras e comércios locais, e o contato com o público é parte do valor do produto. “As pessoas perguntam se é a gente mesmo que faz. Criamos laços. Muitos viram amigos.”

A formalização veio com apoio do Sebrae, que orientou desde o registro como MEI até a criação dos rótulos e da tabela nutricional. “O Sebrae foi nosso primeiro e melhor parceiro. Nos abriu portas e deu acesso a linhas de crédito, cursos e assistência técnica”, relata.

Foto: Thaynar Moura

Apesar dos avanços, o desafio é constante: o alto custo dos insumos e a concorrência com produtos industrializados. “É difícil competir. Nosso estado não é rico. Mas a gente vai atravessar essa fase também”, afirma Lucilene. E para outras mulheres que pensam em empreender, ela é direta: “Somos guerreiras. Se cada dia traz um leão, que venham os leões.”

Concreto, família e criação: a arte que resiste com Elizabete e Maria Eliane

Elizabete Monteiro tem 25 anos e voltou ao Acre em 2025, depois de concluir a graduação em Curitiba. Junto com a mãe, Maria Eliane, de 61, criou o negócio “Arte em Concreto”, voltado à produção manual de peças decorativas feitas a partir de cimento, areia, pedrita e moldes reaproveitados.

Foto: Arquivo Pessoal

“O gosto pelo artesanal sempre veio da minha mãe. Quando ela ia passar um tempo comigo, ficava procurando o que fazer com as mãos”, lembra Elizabete. A dupla começou estudando técnicas no YouTube e fazendo testes em casa, até descobrir formas de agregar valor às peças — como a inclusão de plantas e o uso criativo do concreto na decoração.

O trabalho é familiar. Elizabete e a mãe cuidam da produção. O pai ajuda nas feiras. A irmã apoia na divulgação digital. “É algo muito em família, e cada um colabora do seu jeito”, afirma.

Entre os maiores desafios, Elizabete destaca o início do processo. “É preciso vencer o medo de começar. Mostrar o que você faz e lidar com o marketing exige constância.”Atualmente, participa da associação “Elas Fazem Acontecer”, formada por mulheres empreendedoras que organizam feiras e dão suporte às expositoras. “Faz diferença. A gente se sente parte de algo.”

Foto: Arquivo pessoal

A empresa começou a vender peças há cerca de um mês, e uma das metas de Elizabete é investir mais na divulgação pelo Instagram. “Hoje, se você quer saber de algo de uma loja, já vai direto no Instagram. Quero turbinar as postagens.”

Para ela, o mercado de decoração artesanal está crescendo. “As pessoas querem peças com identidade, que sejam únicas.” E para outras mulheres que sonham empreender: “Persistam. Se você ama o que faz, o retorno vem. Mas é preciso estar atenta às novidades e criar com propósito.”

Arte, dedicação e persistência: de uma conversa entre amigas ao ateliê em casa – o sonho de Adriana 

Adriana Balica, 32 anos, é proprietária da FazerArt Personalizados, um ateliê montado na própria casa, onde ela cuida de tudo: do atendimento à criação das artes e à embalagem personalizada. “A FazerArt nasceu numa conversa entre amigas, juntando minha paixão pelo trabalho manual. Hoje, faço tudo sozinha,” conta.

Para Adriana, empreender é uma jornada que exige atenção constante. “Empreender é uma tarefa extremamente difícil, pois temos que dominar um pouquinho de cada coisa e estar sempre atenta a todos os detalhes. Há dias e dias, há altos e baixos, assim como a nossa vida”, reflete.

Foto: Thaynar Moura

Assim como as outras mulheres desta reportagem, Balica destaca o apoio do Sebrae. “O Sebrae sempre esteve de portas abertas pra ajudar, tirar dúvidas, oferecer cursos, palestras e concursos. Sempre que posso, participo.”

E sobre tecnologia? Ela brinca: “Não uso nenhuma tecnologia avançada, eu acho, kkk.”

Para quem pensa em empreender, Adriana tem um conselho: “Lute! Lute pelos seus sonhos. Deus não coloca sonho no nosso coração que a gente não possa alcançar. É difícil, cansativo, cheio de desafios, mas vale a pena! ”

Onde termina o produto, começa a história

Fonte: DataSebrae (Relatórios trimestrais de Empreendedorismo Feminino, 2022–2024)

As histórias de Lucilene, Elizabete e Adriana, não são exceções. Elas representam milhares de mulheres no Brasil e no Acre que vivem daquilo que fazem, cultivam ou aprendem. Os dados mais recentes reforçam o que as histórias contam: empreender, para muitas mulheres, é uma decisão moldada pela necessidade, mas sustentada pela criatividade e pelo trabalho diário.  Que trabalham com o corpo, com a memória e com o tempo.

No Acre, o número de mulheres à frente de negócios oscilou nos últimos três anos. Segundo dados do DataSebrae, em 2022, eram 23.564 empreendedoras no estado. Em 2023, esse número caiu para 20.453, representando 23,7% do total de donos de negócios. No entanto, em 2024, houve uma leve recuperação: 21.350 mulheres atuavam como donas de negócio no estado no 4º trimestre, o que representa  25,1% dos empreendedores locais.

Fonte: DataSebrae – Relatórios trimestrais 2023–2024 

Esse avanço percentual, frente aos 23,7% registrados no ano anterior, revela uma retomada gradual da presença feminina no mercado.

Em números nacionais, 42% dos empregadores ou trabalhadoras por conta própria no Brasil são mulheres — um universo de 10,4 milhões de empreendedoras que movimentam a economia com pequenos negócios, muitas vezes construídos no quintal, na sala de casa ou em uma feira.

O aumento na participação percentual indica que as mulheres seguem ocupando espaço, criando soluções e sustentando seus negócios com o que têm – seja terra, concreto ou papel.

Redação

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