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Quem ajuda quando o rio transborda?

Com casas alagadas e comunidades isoladas no Acre, redes de doação e solidariedade assumem a linha de frente da resposta às enchentes

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Como era o mundo há 50 anos atrás? No Brasil, a primeira versão da telenovela Roque Santeiro foi censurada, levando à criação de outro clássico, escrito por Janete Clair, Pecado Capital; em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar. No Acre, Chico Mendes fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, com Wilson Pinheiro. Lá pelas bandas do sul, no Paraná, acontecia a “Geada Negra”, uma tragédia climática que dizimou cafezais congelados por uma nevasca. 

Voltando para as terras acreanas, em 1975, foi a primeira vez que uma enchente foi registrada em dezembro, em Rio Branco. A segunda, foi em 2025. O rio atingiu a marca de 15,41 metros, em 29 de dezembro de 2025, alcançando a cota de transbordamento de 14 metros, após chuvas seguidas. Nesse cenário, a solidariedade se mostra uma infraestrutura de solução decisiva. Warlle Almeida, professor e cozinheiro, relata que:

“Deveria existir mais assistência, vigilância e controle de bairros, famílias e comunidades que são afetadas pelas cheias dos rios, igarapés e chuvas intensas. As autoridades deveriam mapear essas localidades e, como há pessoas que não têm para onde ir, reservar um fundo financeiro de emergência para dar assistência em casos extremos como as chuvas e alagações”.

Calamidade afeta, principalmente, bairros mais pobres do Acre. Foto: Juan Diaz

Almeida é voluntário do projeto União Solidária, desde 2020. Ele prepara marmitas, embala e entrega durante as ações do coletivo. O grupo tem atuação tanto em momentos de crise, quanto em datas comemorativas, como Dia das Mães, dos Pais e das Crianças. A “União” realiza campanhas de arrecadação e doação através do perfil na rede social do projeto e nas redes de cada voluntário, além de atuar nos territórios.

Nesse cenário desafiador, como pontuou Almeida, coletivos de base consolidam a ajuda a estas famílias atingidas. Redes como a “União” e o Grupo Social pela Vida (GS) expõem os desafios desta empreitada. Mel Silva, neuropsicopedagoga e presidente do “GS”, revela que assim que começam os transtornos, eles são contatados pelos líderes de cada grupo social, instaurando um processo de organização interna para atendê-los.

“As necessidades mais urgentes são, quase sempre, água potável e alimentação, especialmente refeições prontas. Isso acontece porque muitas famílias precisam elevar ou retirar seus móveis, ficam sem energia elétrica e, consequentemente, sem condições de cozinhar. As doações geralmente vêm de pessoas de fora das comunidades atingidas, incluindo voluntários, familiares, amigos e parceiros”, disse.

A água sobe

A maior cota geral da história do rio foi de 18,40 metros em 4 de março de 2015, afetando mais de 102 mil pessoas. Antes disso, o recorde era de 14,30 m, em 14 de março de 1997, que levou 18 anos para ser superado. Em 3 de abril de 2023, o corpo hídrico atingiu 17,72 m, demorando oito anos para se aproximar da marca de 2015. Já em 2024, a nova marca foi atingida em apenas 11 meses depois.

Solidariedade arrecada mantimentos necessários para a população atingida. Foto: União Solidária

“A maior cheia”, “a maior temperatura”, “o menor nível do rio”, “a menor umidade do ar” fizeram parte do vocabulário dos acreanos nos últimos anos. Em 4 de março de 2024, a segunda maior enchente da história de Rio Branco, capital, foi registrada. O rio Acre atingiu 17,75 metros. Este foi o maior desastre ambiental do Estado, por conta do número de cidades e pessoas atingidas, segundo o governo do Estado.

Na cheia de 2023, Edilson Santana, motorista de aplicativo e morador do bairro Travessa Beira Rio conta que perdeu utensílios como geladeira, armário de cozinha, guarda-roupa, estoque de ração dos cachorros, incluindo a morte dos animais de quintal, como aves e na sua horta

“A enchente de 2023 foi muito rápida. Acordei às cinco da manhã para ir ao banheiro e olhei para o rio; ele estava cheio, mas a água ainda não tinha chegado à minha casa. Voltei a dormir e, quando acordei por volta das 6 horas, a água já estava na minha cozinha, atingindo a metade da geladeira (a minha cozinha é mais baixa que o restante da casa, em média 8 centímetros). A água também já cobria quase metade do meu carro. Foi horrível.”

Utensílios e eletrodomésticos precisam ser retirados, caso o contrário, se perdem. Foto: Juan Diaz

Em dezembro de 2025, o acumulado de chuvas chegou a 483 milímetros, volume 97% superior à média esperada para o período, de 265 milímetros. E, como aponta o coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão, os mais afetados são, justamente, famílias em condição de vulnerabilidade, o que significa muitas vezes, aquelas que moram em áreas de risco por falta de opção e por terem menor poder aquisitivo:

“Nós temos as mudanças climáticas, que eu prefiro chamar de emergências climáticas […] Desde 2021 temos inundações todos os anos, sendo que em 2025 ocorreram duas. Por que isso se torna frequente? Mudanças climáticas, ação do homem e ciclo da natureza. Eu diria que esses são os três fatores primordiais”, destaca Falcão.

Na manhã de terça-feira, 13, data em que esta matéria está sendo produzida, o manancial da capital atingiu 13,27 metros, mantendo-se estável nesse patamar até o meio-dia. Entretanto, a capital está novamente em estado de alerta, estando a apenas 23 centímetros da Cota de Alerta oficial (13,50m) e a menos de um metro de um novo transbordamento. 

“Quando ocorrem catástrofes, como chuvas e enchentes intensas, agimos mediante a urgência, pois as comunidades são cadastradas no nosso sistema. Quando chegam casos isolados, mandamos equipes a vários locais. Depois da arrecadação, separamos os itens e montamos kits (quando são roupas, sapatos, produtos de limpeza e higiene). No caso de alimentos, utilizamos para o preparo das marmitas. Quando são doados sacolões, verificamos as famílias mais necessitadas e as entregamos. Após todo preparo e montagem, saímos em equipes”, acrescenta Almeida.

O estado sofre

Este tipo de ajuda é necessária em todo o território acreano, já que a análise dos dados revela um efeito dominó em todo o sistema hidrográfico do estado, afetando as bacias do Purus, Juruá e Tarauacá. Em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, o Rio Juruá registrou uma oscilação mista. Boletins subsequentes indicaram o início de uma vazante, afastando-o da cota de alerta.

Apesar da trégua momentânea, a região do Juruá mantém um histórico de vulnerabilidade, tendo enfrentado cheias severas que exigiram campanhas de arrecadação específicas para a região, dada a sua distância da capital.

“Falando de classe social, essas pessoas [em situação de vulnerabilidade] são as primeiras a sofrer. Já em termos de faixa etária, o impacto é igual: tanto crianças quanto adultos e idosos sofrem com a mesma intensidade, desde que pertencem a essas categorias sociais menos favorecidas”, diz o tenente-coronel.

Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão’.

Em Tarauacá, durante eventos recentes associados a esta temporada de chuvas, cerca de 90% do município chegou a ficar submerso em momentos de pico, afetando direta e indiretamente até 28 mil pessoas. Em Feijó, a situação é agravada pelo isolamento das terras indígenas e ribeirinhas, onde as águas destruíram roçados de subsistência, criando uma crise de segurança alimentar.

Já Assis Brasil, em 2021, é palco de uma crise migratória agravada pela enchente com imigrantes na fronteira com o Peru sendo retidos por dias. A campanha “SOS Acre” direcionou parte de seus esforços especificamente para este grupo, fornecendo ajuda humanitária a haitianos, venezuelanos e outras nacionalidades que se viram duplamente desamparados: sem pátria e sem chão, literalmente. Santana reflete que quando se é vítima das enchentes, para além do prejuízo material, “a dignidade desaparece” e a população local “fica vulnerável a tudo.”

“Agilidade nas ajudas, a maioria das ajudas demoram bastante e a enchente destrói tudo numa velocidade grande para quem mora próximo às margens”, pontua o motorista de aplicativo sobre os desafios que aparecem para quem é vítima dos desastres climáticos.

E não foram só os animais de Edilson Santana que precisaram de auxílio. No transbordo de 2024, o Ministério Público do Acre (MPAC) também emitiu recomendações expressas para o resgate e cuidado de animais domésticos. Em resposta, a Prefeitura de Rio Branco construiu 17 boxes adicionais no Parque de Exposições e espaços específicos para animais nas escolas-abrigo. Estima-se que quase 600 cães e gatos tenham sido abrigados.

A desigualdade aparece

“Racismo ambiental” é um termo que pode englobar esta discussão. Cunhado por Benjamin Franklin Chaves, líder afro-americano de direitos civis, o conceito retrata esta diferença entre bairros de classe alta e os à margem do centro e o seu acesso a condições eficazes de moradia, saneamento básico e outros tipos de melhorias de infraestrutura. 

Historicamente, o mês de dezembro não costuma registrar cheias dessa magnitude. A cheia de dezembro desencadeou uma primeira onda de desabrigados e desalojados, sendo 758 pessoas, segundo boletim do governo estadual, até o momento de escrita deste texto. Foram mais de 20 mil pessoas atingidas e cinco municípios, inclusive Rio Branco, declararam situação de emergência. 

Entre os dias 9 e 11 de janeiro de 2026, a via fluvial recuou para patamares próximos a 10 metros. Contudo, chuvas torrenciais nas cabeceiras e na própria capital reverteram o cenário. No dia 12, a capital acreana registrou 84 milímetros de chuva, enquanto o município de Assis Brasil, na bacia superior, recebeu 124,8 milímetros em 24 horas. 

Com esse cenário de mais uma possível calamidade pública, os dois representantes das redes de solidariedade entrevistados contaram o diferencial entre os dois. O “União Solidária” prioriza, em sua atuação, agrupamentos mais isolados. Como povos ribeirinhos, que necessitam de um barco, de uma caminhonete ou veículo traçado para conseguir fazer a entrega dos alimentos. O atendimento dos dois coletivos também é esquematizado em etapas, sendo que a prioridade inicial é água e refeições prontas.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão’. Escutamos muito as pessoas falarem: ‘Ah, mas todo ano acontece isso com essas famílias?’. Sim, todo ano acontece, porque essas famílias continuam em áreas de risco. Em momento algum foram retiradas dessas áreas, então, sim, vai se repetir todos os anos”, reitera Robson Fadell, presidente e fundador da União Solidária.

A solidariedade se constrói

Fadell se descreve como nutricionista de formação e ativista social de coração e afirma que as enchentes “revelam” desigualdades que não acontecem apenas no período das chuvas. Ele fundou a ONG com outros colegas. Em 2021, numa alagação durante a pandemia, eles perceberam uma demanda grande por comida. Além de pessoas aglomeradas, com muitos casos de COVID-19 e sem isolamento. Dessa maneira, eles começaram a intervir com ações de saúde e entrega de refeições até formarem a organização.

“Muitas vezes, fala-se imediatamente em colchões e cestas básicas, mas o processo não começa assim. Quando a água começa a baixar, surgem novas necessidades, como produtos de limpeza para higienizar as casas e permitir o retorno das famílias. Só depois entram os móveis, as cestas básicas e outros itens essenciais”, enfatiza Mel Silva sobre a atuação da rede solidária que coordena.

O processo de decisão de para quem vai cada doação ocorre de acordo com a necessidade de cada região, explica Silva. O “Grupo Social pela Vida” mantém contato constante com outros parceiros que atuam na linha de frente para garantir que os suportes sejam distribuídos de forma equilibrada e estratégica, evitando a concentração de ajuda em um único local e assegurando que ela chegue, de fato, a quem mais precisa.

Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias

O tenente-coronel, Falcão, acredita que faltam políticas públicas para que essas pessoas dependam menos de auxílio. Por conta disso, ele acredita que as redes de apoio comunitário são essenciais para garantir que essa assistência alcance esta parcela da população. A geografia acreana impõe desafios que moldam a natureza das doações e a forma como elas são distribuídas. A cultura de doação precisa ser, necessariamente, uma cultura de logística.

“Há uma grande quantidade de pessoas afetadas e valores irrisórios investidos; penso que, nesse cenário, as redes solidárias são muito favoráveis”, pensa Falcão. “Além disso, temos um povo voltado para a solidariedade: basta saber que alguém está sofrendo para que a ajuda apareça. Vejo, de uma forma geral, que no país todo, quando há desastre, existe uma rede comunitária.”

Falando sobre as autoridades, o Governo do Acre, lançou a campanha "Juntos Pelo Acre" em 2025, uma iniciativa que funciona como um guarda-chuva logístico, centralizando doações de grandes volumes e distribuindo-as para os municípios mais afetados. Já a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, além do resgate físico, atuam na distribuição das doações. A campanha "SOS Acre" arrecada, sobre a confiança pública no MPAC, volumes financeiros para a assistência destes moradores. 

Depois das enchentes, fica os desafios de limpeza e recuperação dos bairros atingidos pela cheia. Foto: Juan Diaz

Porém, para Falcão, é preciso trabalhar a prevenção, mitigação e a preparação. Ele cita o termo “adaptação climática”, que, conforme descrito por Anielise Campêlo, cientista ambiental e professora, ao Comitê Chico Mendes, em 2025, se trata de“repensar quais são as nossas principais matérias-primas para produzir aquilo que a gente consome”. No campo da infraestrutura urbana, seria construir novas formas de alicerces para as cidades, preparando-as para enchentes e secas severas.

“Em nossa cidade, percebemos que toda chuva acima de 50 milímetros causa alagamentos. As pessoas podem ser realocadas, mas, enquanto não mudam, precisam estar preparadas. A residência deve estar pronta para enfrentar esses alagamentos. Além disso, é necessário mudar a cultura, evitando o descarte inadequado de lixo e investindo em educação ambiental”, complementa Falcão.

O desafio se intensifica

Outro caso de doação institucional, a Associação dos Magistrados do Acre (ASMAC) e o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) promovem campanhas internas e externas, além de empresas e associações comerciais que desempenham um papel crucial, como a Fecomércio/AC que realizou uma doação de 130 toneladas de alimentos, convertidos em 9.000 sacolões. Entretanto, não é o bastante:

Essas famílias estão em vulnerabilidade social e precisando de apoio e política pública de janeiro a dezembro”, relembra Fadell. “Só que somente nesses 90 dias tudo toma uma proporção muito grande, torna-se calamidade pública e a mídia divulga; é quando as pessoas passam a enxergar essas famílias.”

Ajuda chega de canoa nos lugares mais distantes. Foto: União Solidária

Silva esclarece que os maiores desafios para a continuidade de projetos como estes estão na frequência de doações e na falta de recursos vindo de instituições da sociedade civil. Quando a enchente chega no auge, normalmente, se consegue um volume satisfatório de doações e voluntários, como reportado na matéria. Com o passar do tempo, porém, ambos diminuem. 

O gargalo está na ausência de recursos e apoio técnico contínuos, como espaços adequados para cozinhar, veículos para distribuição e canoas, entre outros. Fadell faz coro com Silva e Falcão e justifica que o ideal seria a criação de políticas públicas habitacionais e saneamento básico. O nutricionista também observa que o poder público enxerga essas situações com o intuito de gerar assistencialismo, “fazendo da tragédia alheia um palanque eleitoral”. 

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias […] No ano passado, por exemplo, conseguimos chegar a locais onde o Estado e a Prefeitura não alcançaram. Em algumas regiões, fomos o primeiro socorro recebido. Com o apoio da comunidade e das doações, realizamos um bom trabalho. No entanto, se tivéssemos suporte estrutural e financeiro do Estado, poderíamos fazer muito mais”, conta Mel Silva.

Almeida denuncia que nos últimos dois anos, houve uma grande queda nas doações. Outras organizações, como a Cozinha Solidária Marielle Franco, registraram estas dificuldades. Com apoio do governo estadual, federal e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Cozinha entregou quase 10 mil marmitas e água mineral para atingidos pela cheia do Rio Acre, em 2024. Além dos alimentos, o Movimento por Uma Universidade Popular (MUP) fez entrega de roupas.

Acre é palco de enchentes recorrentes, apesar de ter um plano de contingência escrito. Foto: Juan Diaz

“Asolução seria a criação de políticas públicas específicas e definitivas, e não ações paliativas a cada alagação. Já vamos para a sexta alagação trabalhando com essas famílias; acompanhamos algumas há 5 ou 6 anos e as vemos perdendo tudo. Tem relato de uma senhora que disse: ‘Meu filho, termino de pagar um guarda-roupa em 12 parcelas e a água leva’. É muito triste”, finaliza Fadell.

O futuro flui

Dados apontam para cheias nos próximos meses de 2026, segundo o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco. Para além de cuidados emergenciais, os entrevistados contam que o que falta é um plano de longo prazo para o enfrentamento destes cenários. Algo que, como avalia Warlle Almeida, é um limite para redes de solidariedade como a “União Solidária”, pois doação comunitária não substitui política pública..

Contudo, este caminho já pode estar pavimentado, pois em 2023, Rio Branco foi uma das primeiras capitais do Norte do Brasil a montar um Plano de Contingência para Inundações, a qual você pode ler aquiPara os entrevistados e, segundo diversos relatos de moradores afetados nas redes sociais, talvez o que falte seja justamente seguí-lo.

NOVOS HÁBITOS

Corridas de rua consolidam nova cultura esportiva em Rio Branco; veja como iniciar na prática

Crescimento dos eventos e dos grupos de corrida fortalece hábitos saudáveis, amplia a ocupação dos espaços urbanos e aproxima a população do esporte

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Por Ana Cristina e Joyce Beatriz

As corridas de rua deixaram de ser eventos pontuais e passaram a integrar o cotidiano de Rio Branco, impulsionando mudanças no estilo de vida da população e consolidando uma nova cultura esportiva na capital acreana. O que antes era uma prática restrita a pequenos grupos hoje se transforma em um fenômeno popular, acessível e cada vez mais presente nas ruas e espaços públicos da cidade.

Ao longo de 2025, o calendário esportivo foi ampliado com eventos marcantes como a Corrida do Fogo, a Corrida Nacional do Sesi, o Circuito Sunset Run, além da tradicional Corrida do Servidor Público e de diversas iniciativas com caráter social e beneficente. A diversidade de eventos acompanha a ampliação do perfil dos participantes, reunindo corredores iniciantes, atletas amadores e pessoas que encontram na corrida o primeiro contato com a atividade física regular.

Para a organizadora de corridas Fran Nobre, a corrida de rua em Rio Branco se consolida como um fenômeno popular e inclusivo. “A corrida deixou de ser uma prática restrita e se tornou um fenômeno acessível a todos, com diversidade de gênero, faixa etária, nível socioeconômico e diferentes motivações”, avalia. Segundo ela, esse movimento reflete a preferência por atividades físicas simples, de baixo custo e realizadas ao ar livre, além da busca por mais qualidade de vida.

Fran Nobre, organizadora de corridas. Foto: arquivo pessoal.

Um dos principais reflexos desse avanço é a expansão dos grupos de corrida. Assessorias esportivas e coletivos informais ocupam com frequência ruas, parques e áreas públicas, especialmente no início da manhã e à noite. Esses grupos funcionam como portas de entrada para novos corredores, oferecendo orientação, apoio coletivo e incentivo à regularidade nos treinos.

Para quem começa, a corrida representa mais do que um desafio físico. Muitos relatam melhorias na saúde, na disciplina diária e no bem-estar emocional, além da criação de vínculos sociais que ajudam na permanência na prática.

É o caso de Pedro Henrique Azevedo, que encontrou na corrida uma mudança significativa de rotina. “Eu tinha uma vida sedentária, estava acima do peso e lidava com ansiedade. A corrida melhorou minha saúde física e emocional e trouxe disciplina para o meu dia a dia”, relata. Segundo ele, a participação em grupos foi fundamental para manter a motivação.

Fotos disponibilizadas pela Organizadora de corrida Fran Nobre, do grupo de corrida Longão Elite.

O organizador de corridas Jefferson Pereira destaca que os impactos vão além da saúde. “A corrida movimenta treinadores, assessorias esportivas, lojas de equipamentos, empresas de eventos e profissionais da área da saúde. Isso cria uma cadeia que fortalece a economia local”, afirma.

Ele ressalta que esse impacto pode ser ampliado com mais apoio do poder público, investimentos em infraestrutura esportiva e uma organização federativa mais estruturada para o atletismo no estado.

Ao transformar estilos de vida, fortalecer laços comunitários e promover saúde e bem-estar, as corridas de rua deixam um legado duradouro em Rio Branco e reforçam o esporte como ferramenta de inclusão e qualidade de vida.

Quem deseja iniciar na corrida de rua pode começar de forma simples:

            • Procure grupos de corrida: assessorias esportivas e coletivos informais divulgam treinos em redes sociais como Instagram e WhatsApp.

            • Escolha locais seguros: espaços como o Parque do Tucumã e áreas urbanas com boa iluminação são os mais utilizados.

            • Comece aos poucos: alternar caminhada e corrida ajuda na adaptação do corpo.

            • Use equipamentos básicos: um tênis adequado já é suficiente para iniciar.

            • Busque orientação profissional, especialmente em caso de problemas de saúde.

A prática em grupo facilita a adaptação, aumenta a motivação e contribui para a permanência na atividade.

Indicação A Catraia: https://chat.whatsapp.com/Fi5AE5zmFhj01DLZONBZjb

Redação

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CONSCIENTIZAÇÃO

Com mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais, Janeiro Branco alerta para cuidado com a saúde emocional

Estigma e desinformação ainda afastam brasileiros da terapia, alertam especialistas

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Por Arielly Casas

O número de brasileiros afastados do trabalho por transtornos mentais tem crescido de forma acelerada nos últimos anos. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que, em 2014, cerca de 203 mil pessoas precisaram se afastar de suas atividades profissionais em razão de problemas relacionados à saúde mental no Brasil. Uma década depois, em 2024, último dado registrado, esse número ultrapassou 440 mil afastamentos, o maior já contabilizado. Para compreender os tabus em torno da busca por ajuda psicológica, especialistas apontam que a psicoterapia ainda é amplamente mal compreendida pela população. É a partir dessa premissa de conscientização que a campanha Janeiro Branco chega a mais uma edição, em 2026.

O psicólogo Francisco Souza afirma que essa resistência está ligada à forma distorcida como a psicoterapia foi apresentada ao longo do tempo. Segundo ele, quando o processo terapêutico é confundido com conselhos simples ou autoajuda, muitas pessoas acreditam que já sabem do que se trata e passam a desacreditar no acompanhamento psicológico. “Quando essa experiência não gera mudanças reais, surge a ideia de que a terapia não funciona”, resume.

Francisco Souza, psicólogo. Foto: Arquivo Pessoal.

De acordo com o profissional, a campanha Janeiro Branco busca justamente romper esse estigma ao incentivar a reflexão sobre como as emoções impactam os relacionamentos, a rotina de trabalho e a qualidade de vida, além de estimular a busca por apoio psicológico como forma de cuidado e prevenção.

Francisco Souza destaca ainda que a terapia é uma ferramenta fundamental para o autoconhecimento e para o enfrentamento de desafios emocionais, ao permitir que a pessoa compreenda melhor a si mesma e promova mudanças necessárias para uma vida mais equilibrada, contribuindo diretamente para a saúde mental e o bem-estar.

A paciente Yasmine Albuquerque relata que a terapia foi fundamental para compreender melhor os próprios sentimentos e lidar com dificuldades emocionais. Segundo ela, o acompanhamento psicológico contribuiu para um processo contínuo de autoconhecimento e mudança de perspectiva sobre si mesma.

Para Yasmine, ainda existe resistência em buscar ajuda por medo de julgamento. “Reconhecer a necessidade de apoio é um passo importante no cuidado com a saúde mental. A terapia mudou muito a minha vida”, resume.

Atendimentos acessíveis

Para quem deseja iniciar a terapia, existem alternativas mais acessíveis, especialmente para pessoas de baixa renda. Plataformas como a PsyMeet Terapia oferecem atendimento psicológico online com profissionais de todo o Brasil, com sessões de 30 minutos ao custo de R$ 30, ampliando o acesso ao cuidado emocional para quem não consegue arcar com valores da rede privada.

No Acre, a Universidade Federal do Acre (Ufac) também disponibiliza atendimento psicológico por meio do Serviço Escola de Psicologia (Serpsi), onde alunos do curso realizam atendimentos supervisionados por professores. O serviço é voltado tanto para estudantes da universidade quanto para a comunidade em geral, funcionando como uma alternativa gratuita ou de baixo custo para quem busca acompanhamento psicológico.

Horários de funcionamento do Serviço Escola de Psicologia (Serpsi). Imagem: Serviço Escola de Psicologia da Ufac.

Terapia infantil

Além do público adulto, o Janeiro Branco também chama atenção para a importância da terapia infantil. O acompanhamento psicológico desde a infância é considerado essencial para o desenvolvimento emocional saudável. A psicóloga infantil Raquel Marques reforça que observar e acolher as crianças desde cedo contribui para a formação de adultos mais equilibrados emocionalmente.

“A terapia infantil auxilia na identificação de dificuldades emocionais e comportamentais, fortalece a autoestima e ajuda as crianças a compreenderem e expressarem melhor seus sentimentos”, relata

O Janeiro Branco reforça que o cuidado com a saúde mental deve estar presente em todas as fases da vida. Com informação, acesso à terapia e construção de ambientes mais acolhedores, o bem-estar emocional se torna um passo fundamental no presente e para a construção do futuro.

Canais de ajuda

Para quem precisa de apoio em saúde mental, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que acolhem pessoas em sofrimento psíquico e oferecem acompanhamento psicológico, psiquiátrico e atividades terapêuticas. Além disso, a Atenção Básica, nas Unidades de Saúde, pode orientar e encaminhar para serviços especializados. Em situações de crise emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza atendimento 24 horas pelo telefone 188, chat ou e-mail, oferecendo escuta e apoio emocional de forma gratuita e sigilosa.

Redação

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ESTAMOS DE VOLTA

Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com o Rio Acre no centro das histórias

O jornal-laboratório da Ufac chega à 21ª edição com proposta editorial e visual renovadas, mantendo as matérias cotidianas e adotando o Rio Acre como fio condutor das pautas especiais

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Por Diogo José 

A sociedade nasce da água, escorre, se junta e ganha forma. É por essas águas, que carregam histórias e sonhos, que a catraia transporta vozes, perguntas e sentidos. Com essa premissa, o jornal-laboratório A Catraia, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac), chega à sua 21ª edição, em 2026, marcando o retorno de um dos principais espaços de prática jornalística e formação de profissionais, agora com uma proposta editorial e visual renovadas.

Além das notícias cotidianas, chamadas de corriqueiras, a edição deste ano traz matérias especiais inspiradas no Rio Acre, elemento central da formação histórica, social, cultural e econômica do estado. O rio funciona como eixo temático que atravessa diferentes editorias, conectando pautas de política, cultura, meio ambiente, economia, esporte e sociedade, sem perder o compromisso com a notícia, a crítica e a escuta.

O Rio reúne atividades em seu entorno, como na imagem, onde um grupo se reúne para praticar capoeira. Foto: Wellington Vidal.

Presente há mais de duas décadas na disciplina de Jornal Laboratório, o jornal A Catraia acompanhou gerações de estudantes e funciona como um espaço fundamental de formação profissional. É ali que muitos alunos têm o primeiro contato direto com a rotina do jornalismo, vivenciando processos de apuração, entrevistas, produção de texto, edição e trabalho em equipe, experiências que, para parte da turma, ainda não haviam ocorrido no mercado profissional.

Para a professora da disciplina e coordenadora do jornal, Giselle Lucena, o retorno do projeto movimenta todo o curso. Segundo ela, o Jornal Laboratório concentra expectativas tanto de professores quanto de estudantes, justamente por refletir o percurso formativo vivido ao longo da graduação. 

“Tudo aquilo que os alunos aprenderam até aqui aparece nesse momento. O produto desenvolvido na disciplina acaba sendo um espelho do curso, com seus acertos, desafios e possibilidades”, afirma.

Giselle Lucena, professora da disciplina e coordenadora do jornal A Catraia. Foto: Arquivo pessoal.

Ela destaca que o espaço vai além da simulação do mercado. “Ao mesmo tempo em que buscamos reproduzir a dinâmica do mercado, o Jornal Laboratório também é um lugar de liberdade criativa. É o momento de experimentar formatos, propor outras narrativas e pensar novos modelos de jornalismo, algo que muitas vezes não foi possível em outras disciplinas”, completa.

A experiência prática também é percebida pelos estudantes envolvidos na produção. Para Wellington Vidal, repórter do A Catraia e, nesta edição, gestor de redes sociais, o jornal representa uma oportunidade de crescimento profissional e inovação. 

“Contar histórias de pessoas e lugares do nosso estado, sobretudo com o tema rio como eixo, que é algo que vivenciamos de perto todos os anos, é um desafio que torna-se enriquecedor no meu processo de formação e abrange ainda mais a diversificação da escrita”, afirma.

Wellington Vidal, repórter e gestor de redes sociais da 21ª edição do jornal A Catraia. Foto: Arquivo Pessoal.

Ele ressalta o investimento nas plataformas digitais. “A rede social é o elo que liga tudo, por meio dela a equipe está buscando inovar com produções de vídeos e web reportagens, além de trazer uma nova identidade visual pro jornal”, completa.

Essa renovação também se reflete na repaginação do site e na nova logo do jornal. A identidade visual aposta em traços mais crus, referências amazônicas e uma estética de caráter mais vanguardista, que dialoga diretamente com o território, o rio e a proposta editorial da edição. A mudança marca uma nova fase do jornal, sem romper com sua história.

Identidade visual da edição de 2026 do jornal A Catraia. Imagem: Diogo José.

Nesta edição, a proposta editorial também se materializa na organização das editorias, que passam a dialogar diretamente com o eixo do rio e seus significados:

Rio Acre como pauta

O doutor em Ciência Ambiental e professor do curso de Jornalismo da Ufac, Maurício Bittencourt, reforça que a escolha do Rio Acre como eixo central amplia o papel do jornalismo. Para ele, o rio é essencial para a identidade acreana e para a vida cotidiana da população. “O Rio Acre é fundamental para o transporte, a produção agrícola e o abastecimento de água. Milhares de pessoas dependem diretamente dele”, explica.

Segundo o professor, o jornalismo pode contribuir para uma cobertura que vá além dos períodos de cheia ou seca. “É preciso debater a preservação das nascentes, das matas ciliares e a responsabilidade das cidades em não poluir um manancial que abastece a população. O Rio Acre também é um rio internacional, o que amplia ainda mais os temas possíveis de abordagem, como fronteiras, entre outros”, destaca.

Assim, em 2026, A Catraia volta a navegar, levando informação à sociedade acreana, formando novos profissionais e acompanhando o fluxo do Rio Acre, como sempre foi: em movimento!

Redação

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