Travessias
Os lobos estão dentro de casa
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2 anos atrásem
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Redação
A juventude brasileira, em especial a amazônida, está vulnerável à violência sexual; educação pode ser uma opção para protegê-las
Por William Liberato
Quem não conhece o lobo mau? Horror das histórias infantis. Criatura astuta e traiçoeira, faz sempre maldades contra nossos queridos heróis. Atazanou os pobres porquinhos que buscavam descansar ou a esperta e brincalhona Chapeuzinho Vermelho, devorada após ser enganada pelo lobo vestido de vovó. O personagem aterrorizante dos contos de fadas parece não estar só nas páginas dos livros, mas também na vida real.
Tanto a história dos Três Porquinhos quanto a da Chapeuzinho, o enredo, mesmo que diferente, traz características comuns. Os heróis tinham missões, como construir um lar ou deixar doces para sua avó, e ambos sofreram nas mãos, no caso, nas garras do lobo mau. O fim vocês já conhecem, é um final feliz.
Diferente dos contos europeus que escutam e leem nas escolas, a juventude brasileira precisa conviver com seus horrores diariamente e, em muitos momentos, em silêncio. Não há casa de tijolos ou caçador para salvá-los. Estão vulneráveis a violência sexual, como aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023. Em 2022, mais de 73 mil casos de estupro foram notificados, desses, mais de 56 mil casos eram somente de vulneráveis, vítimas menores de 14 anos ou que apresentavam alguma deficiência ou enfermidade e não poderiam consentir o ato sexual. O cenário é ainda mais preocupante quando observado a idade das vítimas, 61,4% de todos os estupros cometidos no Brasil foram contra menores de 13 anos.
A situação é crítica também na Amazônia Legal, com quatro dos seus nove estados na lista dos mais altos índices de estupro de vulnerável por 100 mil/habitantes. São eles: Roraima (87,1), Amapá (64,5), Tocantins (56,2) e Acre (67,1). A juventude amazônida corre perigo, em especial a acreana, que de 2021 para 2022 registrou um aumento de 22,3% no número de casos.
Quem são os lobos da vida real?
Os abusadores sexuais não são psicopatas, tarados que encontramos na rua, são pessoas comuns, de todos os níveis socioeconômicos e religiões. Predominantemente homens, heterossexuais, possuidor de alguma posição de autoridade ou poder perante um, ou mais, menores e na maior parcela das vezes convive com a criança ou o adolescente no dia a dia. Segundo o Anuário de segurança pública, 71,5% dos crimes sexuais cometidos contra vulneráveis é por algum familiar.
E não caia no mito que os perigos estão, exclusivamente, nas ruas. A residência continua sendo o local mais perigoso para nossa juventude, pois é onde ocorre 72,5% dos casos. Os autores na maioria das vezes são: pais ou padrastos, 44,4%; tios, 7,7%; avós, 7,4%; primos, 3,8%; irmãos, 3,4%; e por outros familiares, 4,8%. A violência sexual extrafamiliar, a cometida por desconhecidos, representa 12,8% dos crimes, número elevado, mas significativamente inferior aos ocorridos no seio familiar.
Outro dado importante de evidenciar são os horários do crime, há uma preponderância de estupros diurnos quando a vítima é menor de 13 anos, 65% dos casos que envolvem essa faixa etária foram cometidos entre 06h e 18h, enquanto maiores de 14 anos são abusadas predominantemente no período noturno, 53,3%.
Na região amazônica, em especial, o estado do Acre, a situação alerta para mais um risco, os cônjuges e namorados. Um estudo, de pesquisadores do Centro universitário Uninorte e da Universidade Federal do Acre (Ufac), apontou que em 2019, 53,5% das mulheres violentadas no Acre, na faixa etária de 10 a 19 anos, foram abusadas por seus namorados, 29%; e por seus cônjuges, 24,5%. Os dados ajudam a ilustrar a situação das crianças e jovens do Acre e da Amazônia, que sofrem com o casamento infantil. Atitude absurda e incompreensível, mas uma realidade no Brasil, 4º lugar no ranking de casamentos infantis no mundo.

Perfil das Vítimas
Volto à literatura para pensar o perfil de crianças e adolescentes abusadas, Chapeuzinho Vermelho, a garota devorada do conto medieval, poderia compor esse cenário trágico. Meninas como ela, menores de 13 anos, são as principais vítimas de violência sexual. Em 2022, 86% de todos os estupros de vulneráveis ocorridos no Brasil foi contra jovens do sexo feminino. A maioria negra (56,2%) e com 10 a 13 anos (58%). Esse é o retrato de nossas meninas.
Mesmo em menor número, vale salientar os estupros cometidos contra meninos. Eles representam 14% do número de casos. As vítimas do sexo masculino, diferentemente das meninas, são violentados numa faixa etária menor, entre 5 e 9 anos (43,4%).
Também destaco o perfil das vítimas acreanas. Em 2019, 55,2% de todos os estupros cometidos no estado foram contra meninas de 10 a 14 anos, assemelhando-se ao resto do país. Além disso, as menores do Acre são majoritariamente pardas (83,8%) e contam com o ensino fundamental completo (64%).
A situação, que é alarmante, poderia estar sendo combatida, porém, segundo a reportagem do site “Gênero e Número”, de 2022, o Acre conta somente com diretrizes para trabalhar, em sala de aula, à violência doméstica, tema sério e de necessária discussão. Mas, me parece pouco, para um estado com aumento expressivo no número de casos de abusos.
PL n.14/2023
Os deputados da Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), de maioria conservadora, fizeram um movimento histórico pela segurança de nossos jovens e adolescentes. Em 12 de abril de 2023, aprovaram o projeto de lei n.14/2023, que criava diretrizes para escolas estaduais atuarem na defesa dos menores, com ações e políticas de saúde sexual e reprodutiva. Mas, bastou a “canetada” da governadora em exercício, Mailza Assis (PP), para que a lei fosse engavetada. Uma política que poderia corroborar com ações já realizadas, foi vetada.
A vice-governadora demonstra que faz de tudo para não enfurecer seu eleitorado, de maioria evangélica. Uma personagem contraditória, mas habilidosa no jogo político. Uma semana depois do veto, realizou uma caminhada com centenas de pessoas nas ruas, com todas as pompas que o dinheiro público é capaz de pagar. Segundo a assessoria, o ato foi exclusivamente para promover a conscientização no Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Na oportunidade, houve muitos flashs e, infelizmente, poucas ações.
Enquanto isso, projetos são lançados, campanhas veiculadas, palestras ministradas, porém, nada de modo integrado e duradouro. Atualmente, no Acre, a Coordenadoria da Infância e Juventude (CIJ), do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), realiza ações e projetos para prevenir e coibir o abuso e à exploração sexual de menores. O mais duradouro deles é o Eca na Comunidade, criado em 2011, que está na décima edição, e promove debates divulgando informações para os jovens e suas famílias. Ação imprescindível, todavia, pouco para dimensão do problema.
Educação é parte da solução
A sexualidade faz parte de todo e qualquer indivíduo. Não falar ou evitar, não faz nossa juventude mais segura, mas, sim, desinformada. A educação sexual é sempre tratada com muito alvoroço. Tolice. Trabalhar esse tema nas escolas assegura o autoconhecimento de nossas crianças e adolescentes, e oferece a eles a capacidade de identificar e buscar apoio em qualquer situação vexatória ou abusiva.
Entretanto, a ignorância diante do tema e da errônea relação de sexualidade exclusivamente ao sexo, nutre parte dos educadores, pais, responsáveis e algumas instituições a terem uma visão deturpada do assunto, o que dificulta profundamente a promoção da educação integral da sexualidade.
Além disso, os números assustadores de violência sexual contra menores não parece mobilizar os governantes a executar reformas significativas nas diretrizes curriculares de seus estados, já que apenas três no Brasil orientam suas escolas a tratarem sobre sexualidade. Assim, resiste nas salas de aula, entre os alunos, dúvidas, questionamentos e aflições que não podem ser sanadas adequadamente. Levando-os a buscar informações em espaços inadequados e perigosos, principalmente em aplicativos e bate-papos.
O ambiente cibernético tem sido amplamente usado para praticar diversos tipos de delitos sexuais, como atentado violento ao pudor, coação sexual, chantagem, assédio, corrupção de menores e pornografia infantil. Crimes que não são novidade, mas que tomam nova dimensão com a popularização da internet e das redes sociais. Diante dessa realidade, de fácil acesso as redes e aplicativos por nossas crianças e adolescentes, políticas de conscientização se fazem urgente, para coibir o estupro também virtual.
Precisamos agir. Apoiar a discussão e a implementação da educação sexual nas escolas é fortalecer que nossas crianças e adolescentes tenham a capacidade de identificar e comunicar qualquer violência sofrida. É sonhar para eles um final feliz como os dos contos de fadas.
Denuncie – disque 100 ou ligue 190
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Rotas
A trajetória e os desafios culturais e linguísticos de um estudante venezuelano no Acre
Acadêmico da Ufac, Osthin enfrenta o desafio de transitar entre o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês no ambiente acadêmico e profissional
Publicado há
2 dias atrásem
19 de janeiro de 2026por
Redação
Por Victor Hugo Santos e Wellington Vidal
Com uma trajetória marcada por travessias, fronteiras e barreiras linguísticas, o jovem venezuelano Osthin Querales fez do Acre o seu lar e espaço de aprendizado. Acadêmico de Letras-Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac), ele encara com bom humor o desafio de equilibrar o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês do ambiente profissional.
A vinda para o Brasil, há seis anos, foi um susto. Osthin estudava inglês na Venezuela quando sua mãe anunciou a mudança radical: “Agora bora estudar português”, recorda, rindo. A decisão de vir para o estado foi motivada pelo apoio de um familiar que já estava estabilizado e que relatou oportunidades locais de trabalho e estudo, diante da crise enfrentada pela Venezuela.
Chegada ao Brasil
Com o isolamento social causado pela pandemia da covid-19, ele cursou todo o 3º ano do ensino médio em Ensino a Distância (EAD). Embora tenha tido contato com o português, as interações eram limitadas, o que exigiu criatividade no processo de aprendizagem. Osthin passou a aproveitar situações do cotidiano como forma de estudo.
“Eu ia ao supermercado e aproveitava para ver o nome das coisas. Achava que sabão e sabonete eram a mesma coisa, mas não”, explica.
Além disso, ele conta que também assistia jogos de futebol com narradores brasileiros e “lives” de pessoas jogando videogame, como forma de praticar o estudo.
Ingresso na Ufac e confusões linguísticas memoráveis
Após concluir o ensino médio, embora inicialmente estivesse interessado em desenho gráfico e tecnologia, a ausência dessas opções na universidade levou Osthin a optar pelo curso de inglês, área que dialogava com sua formação anterior e com a necessidade de adaptação linguística no Brasil.
Ele relata que o maior avanço no domínio do português ocorreu após o ingresso na faculdade. “Eu aprendi português, me comuniquei com todo mundo, consegui desenvolver e pegar um pouco mais de confiança.”
A proximidade entre português e espanhol, apesar de facilitar o aprendizado, também gerou situações curiosas. Durante o primeiro almoço no restaurante universitário da Ufac, Osthin se confundiu ao relatar o cardápio.
“Eu fui almoçar no restaurante universitário e minha colega me perguntou o que tinha sido o almoço. Aí eu falei: arroz, frango, feijão e salada de cachaça”, conta, rindo.
“As duas palavras são tão diferentes, tipo, não sei porque eu lembrei de cachaça, eu nem sabia o que era isso”.
Outro episódio envolveu o uso dos diminutivos. Ao comentar fotos do bebê de uma colega, tentou ser carinhoso:
“Que fofinho o bebê, com sua calcinha, a camisinha”.
Ele acreditava que o sufixo “-inha” servia para qualquer peça de roupa pequena. “Não me matem. Não pensem coisas erradas”, pediu, envergonhado, ao descobrir o significado real das palavras.

Osthin Querales, estudante venezuelano de Letras-Inglês na Ufac, constrói sua trajetória acadêmica entre línguas, culturas e fronteiras. Foto: Wellington Vidal
Choques culturais e linguísticos
A adaptação também passou por choques culturais, como descobrir que brasileiros comem pizza com garfo e faca ou compreender expressões regionais como “dar um balão” e “vai cair um pau d’água”.
Quando questionado sobre qual língua considera mais fácil de aprender além da língua materna, Osthin responde sem hesitar: “Ah, gente, isso é muito fácil. O português de fato porque parece bastante com espanhol, não é igual, mas parece”.
Ele observa, no entanto, que essa proximidade também gera desafios, já que as semelhanças entre as línguas podem provocar confusão. Diferenças gramaticais e estruturais exigem atenção constante durante o processo de aprendizagem.
Trajetória como professor
A trajetória acadêmica de Osthin ganhou um novo capítulo no Centro de Idiomas da Ufac, onde, sob orientação da coordenadora Raquel Ishii, passou a ministrar cursos de inglês e espanhol. No início, o processo exigiu grande esforço cognitivo, já que precisava transitar entre três línguas para explicar os conteúdos aos alunos. Nas situações mais complexas, contou com o apoio da monitora Nicole, que auxiliava na mediação da comunicação.

Centro de Idiomas da Ufac, espaço de aprendizagem, troca cultural e formação linguística. Foto: Asscom/Ufac
Com o tempo, a experiência fortaleceu sua autonomia e consolidou o ensino como parte de sua identidade. Para Osthin, aprender um idioma vai além da gramática e envolve compreender histórias e culturas. Ele se inspira em um ditado popular das escolas venezuelanas: “no hay preguntas bobas sino bobos que no preguntan”, que significa “Não existem perguntas estúpidas, apenas pessoas estúpidas que não as fazem”.
Atualmente cursando o 8º período da Licenciatura em Letras-Inglês na Ufac, Osthin reconhece que o processo de adaptação foi desafiador, mas valoriza o acolhimento recebido:
“Obviamente que a gente teve nossas dificuldades, como tudo, nada é perfeito. Nossos momentos de saudades lá na Venezuela, saudades da família, do lar. Mas claramente eu valorizo tudo que eu venho conseguindo, as pessoas que eu venho conhecendo, o tratamento que as pessoas têm comigo e pra minha família”.
Ao citar o artista Bad Bunny, ele compartilha um lema pessoal: “Onde quer que você esteja, se você mudou de país, de grupo, de estado, de cidade, onde seja que você for, lembre-se sempre de onde você veio. Lembre-se sempre de onde veio os seus princípios, mas sempre seja grato onde você está”.
Orgulhoso, reforça sua identidade: “Eu sou venezuelano e sempre eu digo nas minhas apresentações, mas também eu sempre digo que sou muito grato pelas pessoas aqui que eu vim conhecendo, pelas pessoas brasileiras, por Rio Branco, pelo Acre”.
Para Osthin, a língua não é uma barreira, mas uma ponte, uma travessia possível, desde que exista disposição para se comunicar.
Especiais
A Cobra Grande continua viva em Rio Branco
Uma das primeiras igrejas erguidas no Acre, a Imaculada Conceição guarda memórias do
ciclo da borracha e histórias que resistem ao tempo.
Publicado há
4 dias atrásem
16 de janeiro de 2026por
acatraia
Por Eleonor Rocha e Ranelly Pinheiro
Boiúna, Mboi-Una, Mãe-do-rio, Senhora-das-águas, Cobra Honorato, Norato ou simplesmente “cobra grande”. A criatura que atravessa as histórias amazônicas há séculos aparece sob diversos nomes, mas guarda uma narrativa comum: ligada às águas, ao mistério e a uma cidade. Em Rio Branco, ela ganha um endereço, sob a Igreja Imaculada Conceição, no bairro Quinze, próximo a Gameleira, e se estende não apenas como um mistério, mas como parte do imaginário entre os rio-branquenses.
A Cobra Grande
Nos salões profundos do rio Acre, especialmente no remanso formado pela curva acentuada onde hoje está a Gameleira, vive a Cobra Grande, um ser encantado que mistura natureza e espírito, como os mitos indígenas amazônicos costumam atribuir aos bichos da floresta, a cobra é uma entidade.
A moradora antiga da região do bairro Quinze, Josefa Cabral, de 73 anos, afirma que já viu a cobra grande. À noite, quando foi buscar sua sobrinha da aula Josefa conta que a cobra “esticava, esticava, porque era muito comprida” e era grossa e com “os olhos bem grandes”. Segundo ela, a cobra ficou no barranco da Gameleira, perto dos barcos. “A cobra é muito grande” e “ela mora debaixo da igreja, ali por baixo.”

Ilustração da lenda da Cobra Grande. Foto: reprodução
As histórias afirmam que a entrada da toca da cobra fica no próprio salão do rio e que ela vive embaixo da Igreja. Mas, mais do que um mito, o perigo de mergulhar naquele lugar é real. A região tem uma formação irregular, a superfície pode parecer calma, mas, no fundo, a correnteza forma redemoinhos, conhecidos como remansos, que podem ocasionar afogamentos. Nos rios do Amazonas e, especialmente, do Acre, os remansos são armadilhas naturais formadas nas profundidades dos grandes salões que impedem quem cair de conseguir sair.
O psicólogo Carlos Souza conta que seu amigo, que perdeu os familiares para a Cobra-Grande, possui tatuado no em seu ombro a cobra. “Eu tenho um amigo que o irmão dele pulou no rio, no local que ele morava, onde chama de Salão. E, esse irmão não voltou. Tentaram achar e não conseguiram. Dois anos depois o pai dele pulou no mesmo lugar e o pai dele também não voltou. Eles eram acostumados a ver o rebojo da cobra – remanso ocasionado pelo movimento da Cobra-Grande – e tudo.”
Lendas da Amazônia
Para o historiador Marcos Vinicius, a compreensão da história da Cobra-Grande na Amazônia passa pela subjetividade e pela espiritualidade dos povos originários. Ele destaca que a Cobra-Grande é comum em toda a Amazônia, podendo ser encontrados relatos parecidos em outras capitais como Belém e Manaus. Além disso, apesar da cobra ser semelhante ao animal comum da natureza, ela possui outras propriedades; poderes que vão muito além do que humanos e animais podem ter.
“Os povos indígenas da Amazônia tem uma relação muito diferente com a natureza, por princípio, todos os seres vivos da floresta são, em parte, encantados. Enfim, é uma série de encantes, como a gente chama por aqui.”

Porto da Gameleira: Rua 17 de Novembro – Rio Branco, AC [1949]. Foto: Reprodução/Acervo IBGE
Onde Rio Branco nasceu e a Imaculada Conceição
Essa mesma região onde mora a Cobra-Grande foi o berço urbano da cidade. A Gameleira marcou o ponto escolhido para a formação do Seringal Volta da Empresa, depois Vila Rio Branco e, por fim, cidade de Rio Branco, fundada em 28 de dezembro de 1882. Ali surgiram a primeira rua, os primeiros comércios, os combates da Revolução Acreana, a primeira construção religiosa da cidade, a capela de Imaculada Conceição. “Foi construída pelos próprios moradores, por quem estava ali na beira do rio. Não tinha prefeitura, não tinha padre fixo, não tinha nada estruturado. Era a própria comunidade que ergueu”, explica. Para o historiador, as construções da época serviam como um símbolo de resistência e presença: “Aquilo era um marco. Uma afirmação de que havia uma comunidade ali. Antes de virar cidade, já tinha gente dizendo: ‘tem vida aqui’.”
De acordo com registros históricos da Diocese de Rio Branco, a estruturação religiosa da região teve um marco decisivo em 1920, com a criação da Prelazia de São Peregrino Laziosi. Desmembrada da Diocese de Manaus sob orientação do Papa, com a organização de Dom Próspero M. Bernardi e à Ordem dos Servos de Maria. O trabalho pastoral começou com o bispo e três religiosos, nas bacias dos rios Purus e Acre e as quatro paróquias já existentes desde 1910: São Sebastião de Xapuri, Imaculada Conceição de Nova Empreza (Rio Branco), Nossa Senhora da Conceição de Sena Madureira e São Sebastião de Vila Antimary.
A secretária da Paróquia Imaculada Conceição, Regina Monte afirma que a igreja foi originalmente construída como capela e com mais de cem anos, segundo texto de Dom Joaquim. Ela conta ter ouvido sobre a Cobra-Grande desde criança e que se trata de uma história antiga: “Essa lenda é do tempo que eu era criança. Eu já tenho uns 50 anos.” A versão que conhece diz que a cobra “mora embaixo da paróquia”, com a cabeça sob a igreja e o corpo se estendendo até a Gameleira. Para Regina, a história é conhecida entre os moradores da região, embora seja, diz ela, “uma lenda mesmo, né? Quem imagina um troço desse?”
Ser acreano
Na visão de Marcos o acreano tem perfil muito rico do “ser acreano”, misturando características psicológicas, históricas e culturais. Segundo ele, a identidade do povo é moldada por uma resistência “bem humorada” e uma conexão profunda com o ambiente ao seu redor.
“O acreano, culturalmente falando, tem uma característica bastante interessante. O acreano é irônico por natureza. Tudo aqui vira mangofa, vira piada. Enfim, mas essa ironia característica, ironia fina, não é só fazer graça. É uma maneira também de exercer a crítica política e social”, conta.
Essa relação com o místico é marcada por uma dualidade. Ele observa que, embora o povo local frequentemente utilize a ironia e o deboche ao narrar lendas de encantamento, esse comportamento não deve ser confundido com ceticismo. Pelo contrário: a ironia funciona como uma camada cultural que protege uma crença profunda, ainda muito viva e arraigada, especialmente nas comunidades do interior do estado. Para ele, o acreano “brinca” com a história da Cobra-Grande justamente por conviver com ela de forma tão próxima e verdadeira.
O imaginário coletivo
O psiquiatra suiço Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, apresenta o conceito de inconsciente coletivo, experiências transmitidas de geração para geração através da cultura. Esse inconsciente coletivo contém arquétipos, que são imagens, símbolos e padrões de comportamento que aparecem em mitos, sonhos, religiões, e até nas produções culturais modernas, os arquétipos não são aprendidos, são herdados.
Assim, Jung defendia que compreender o inconsciente coletivo é essencial para o processo da criação de uma identidade pessoal. O neuropsicólogo Carlos Souza, aponta que a Cobra-Grande têm um objetivo social, dar direcionamento para as pessoas que escutam, seja ter cautela ou se coragem.
A Cobra Grande faz parte do imaginário amazônico e vai sendo transmitida de geração em geração. “Então se for observar, você pega esse imaginário popular de toda a região amazônica, de todos os ribeirinhos, e isso vai para as escolas e vai tomando uma proporção inimaginável”, explica.

Paróquia Imaculada Conceição, bairro Quize – Segundo Distrito. Foto: Ranelly Pinheiro
O fio da meada
A preservação das narrativas amazônicas vai muito além do folclore. É manter o que Marcos Vinicius chama de “fio da meada”, o elemento que define a trajetória de uma sociedade forjada no isolamento da floresta. O historiador defende que o repertório cultural dos mais velhos é essencial para que as novas gerações não percam o sentido de pertencimento diante do fluxo constante das redes sociais.
Segundo ele, “essas histórias explicam quem nós somos, qual o caminho que nós passamos para chegar até aqui, e que nos diferencia de todo o resto” . É essa memória, afinal, que transforma um simples acidente geográfico ou uma árvore centenária em um poderoso marco de identidade.
Assim, perpetuar as lendas é um ato de resistência contra a homogeneização cultural. O professor pontua que o acreano precisa compreender sua própria geografia e seus símbolos, lembrando que o rio que corta a capital possui significados que não existem em outras regiões do Brasil.
Travessias
Excomungado: quando a música acontece apesar de tudo
Em uma cidade onde a cultura muitas vezes é negligenciada, a Excomungado surgiu. Uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Formada por Carlos “Carlinhos” Hofre, Ícaro Moreira, Roberto “Bala” Padula e Lucas Alefe, a banda é mais do que um grupo de músicos, é um coletivo de amigos que transformou a paixão pela música em um projeto autoral, cheio de personalidade e força. De shows por diversão até planos ambiciosos para o futuro, a Excomungado traz consigo a prova de que o que falta na cultura do Acre é investimento.
Publicado há
10 meses atrásem
1 de abril de 2025por
Redação
Por Gabriel Vitorino e Fernanda Maia
Em uma cidade onde a cultura muitas vezes é negligenciada, a Excomungado surgiu. Uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Formada por Carlos “Carlinhos” Hofre, Ícaro Moreira, Roberto “Bala” Padula e Lucas Alefe, a banda é mais do que um grupo de músicos, é um coletivo de amigos que transformou a paixão pela música em um projeto autoral, cheio de personalidade e força. De shows por diversão até planos ambiciosos para o futuro, a Excomungado traz consigo a prova de que o que falta na cultura do Acre é investimento.
A história da Excomungado começa com as trajetórias individuais de seus integrantes que, desde cedo, estiveram imersos no mundo da música. Carlinhos, o compositor e vocalista, começou a tocar violão aos 8 anos, aprendendo com o avô. Sua paixão pela música só cresceu após aulas com o renomado Geraldo Aquino, popularmente conhecido como Mestre Geraldinho, que ele descreve como um “gênio do violão”. Apesar de sua timidez em assumir o papel de frontman, Carlinhos é a alma criativa da banda, responsável pelas letras e melodias que definem o som da Excomungado.

Já Ícaro, o baixista da banda, começou no violão aos 13 anos, aprendendo com o ex-cunhado, que é formado em música. Mais tarde, migrou para o baixo e conheceu o resto dos integrantes, assim acabou entrando para a Excomungado. Além da banda principal, Ícaro participa de vários projetos paralelos, incluindo covers de Radiohead, com a banda Superflat, e Terno Rei em um projeto entre amigos programado para ocorrer no dia 18 de abril, às 21h, no Studio Beer.
Bala, o baterista, cresceu em meio ao som de instrumentos. Filho de músico, ele começou a tocar bateria quase que por acidente, quando sobrou o instrumento após um ensaio da banda do pai, ele e os amigos decidiram tocar e, de acordo com ele, “a bateria foi o que sobrou”, disse rindo. Desde então, já passou por mais de 15 bandas, incluindo a Nickles, onde toca baixo. Sua experiência no cenário musical em Rio Branco e na música em si agregam muito ao desenvolvimento da Excomungado no cenário.
Por fim, Lucas, o guitarrista, começou na bateria aos 9 anos, mas foi com a guitarra do pai que ele realmente se encontrou. Autodidata, aprendeu a tocar sozinho, desenvolvendo um estilo único que hoje é uma das marcas da banda. Sua abordagem livre e cheia de personalidade traz uma sonoridade autêntica para a Excomungado.
O Nascimento da Excomungado
A banda surgiu em 2019, em meio do caos da pandemia, quando Carlinhos, então com 14 anos, decidiu transformar suas composições em um projeto coletivo. Ele convidou Lucas, que já tocava na banda Selfless, focada em músicas do rock grunge, e juntos formaram a primeira formação da Excomungado, com Pedro na bateria, Mika no baixo e Isa no vocal. O primeiro show foi em um sarau na Ufac, um evento de artes cênicas, onde tocaram ao lado de outros artistas locais.

Desde então, a Excomungado cresceu e se consolidou como uma das principais atrações do cenário underground de Rio Branco. O nome da banda, que surgiu como uma brincadeira, ganhou significado ao longo do tempo, representando a resistência e a autenticidade de um grupo que não se encaixa nos moldes tradicionais da música no Acre.
A Excomungado é um reflexo da realidade da cena musical de Rio Branco, onde os desafios são muitos, mas a paixão pela música é maior ainda. A falta de investimento em cultura, a escassez de espaços para shows e a dificuldade em conseguir editais são obstáculos constantes. “Aqui em Rio Branco, as bandas não têm investimento, nem lugar para tocar”, desabafam todos os membros, tanto como banda, quanto como músicos em busca de um espaço.
Apesar das limitações, a banda não se deixa abater. Eles já gravaram várias músicas em casa, usando equipamentos simples e muita criatividade. “A gente gravou no quintal, com uma pedaleira, um PC de 4 GB de RAM e microfones baratos”, conta Ícaro. A falta de recursos não impede a qualidade, as músicas da Excomungado são autênticas e cheias de personalidade, mostrando que a música autoral acontece independente das condições precárias.
A Excomungado não quer ficar restrita às garagens de Rio Branco. O principal objetivo da banda é conseguir um edital para gravar um álbum autoral, reunindo músicas antigas e novas. Eles já têm o projeto na cabeça, mas falta o recurso financeiro para colocá-lo em prática. “O objetivo é gravar, viajar e divulgar nosso trabalho”, diz Bala.

Em 2024, a banda lançou seu penúltimo single até o momento. A música “Bon Appétit” saiu no dia 10 de fevereiro e hoje já tem mais de 10 mil reproduções no spotify, chegando a ser citada na quinta posição da lista de “melhores músicas de 2024” de um comentarista do sudeste asiático que diz estar ansioso para os futuros lançamentos da Excomungado.
Com músicas produzidas por D.Silvestre, produtor de Rondônia que segue em ascensão na cena musical brasileira ganhando destaque principalmente pelo funk, a Excomungado busca criar algo único dentro da música, juntando suas referências que vão do rock clássico ao funk ao brega, eles alcançam um público grande contando com mais de 4 mil ouvintes anuais no spotify, cerca 17 mil streams em suas músicas com ouvintes distribuídos pelo mundo todo, da França a Indonésia.
A Excomungado é hoje uma promessa. Com o trabalho que realizam, eles mostram que a música autoral pode florescer, mesmo em condições adversas. Com talento, criatividade e muita paixão, Carlinhos, Ícaro, Bala e Lucas transformam desafios em música, provando que o rock de Rio Branco tem voz, força e futuro.
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