O que fazer quando um país normaliza mais de 500 mil mortes por uma doença que já possui vacina? Desde março de 2020, lidamos com a morte e o luto de uma maneira macabra. Choramos por conhecidos, parentes ou famosos, mas ignoramos milhares de anônimos que morrem diariamente. O processo de nos despedir de quem amamos foi reduzido ao mínimo devido aos protocolos de contenção de contaminação e a ideia de morte e luto passou por uma transformação.
O processo de luto para quem perdeu um ente querido envolve diversas etapas que ajudam na forma de lidar com a morte. Pode parecer simples, mas esse processo é bastante complexo e proporciona diversos estudos acadêmicos e científicos que apontam os impactos psicológicos nas pessoas que não puderam se despedir de acordo com seus costumes.
A Covid-19 eliminou o ritual de despedida que existe na cultura brasileira, com velório, cortejo e enterro. Desta forma, as pessoas ficam com a sensação que “não se despediram como deveriam” e perderam também o apoio mais próximo de parentes e amigos. Com o distanciamento social, as famílias e equipes de saúde passaram a vivenciar a morte com mais impacto.
O avanço da pandemia, com situações de muitos casos de infecção e óbito em familiares e amigos, gera uma sequência de lutos e maiores dificuldades de superação, fazendo até mesmo aqueles que não tiveram perdas de pessoas próximas vivenciarem sentimento de instabilidade social e sofrimento.
Temos que lembrar que a experiência de uma pessoa não serve para todas, cada um vivencia o luto de uma forma diferente e existem variadas formas de superar. O luto envolve etapas que podem gerar sentimentos de mudança da forma de viver ou a busca de motivação para continuar.
Fases do processo de luto. Produção: Pâmela Celina
Para entender melhor como a pandemia da Covid-19 transformou a essencial vivência do luto, conversamos com a psicóloga Khauana Leite, que explicou um pouco sobre as principais mudanças que aconteceram na forma de lidar com a perda. Formada pela Universidade Federal do Acre (Ufac), ela faz mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano de 2020, ela atuou como voluntária no atendimento de pacientes encaminhados pelo TeleCovid e também no Acolha um profissional de saúde, projeto direcionado ao atendimento psicológico emergencial de profissionais que atuam na linha de frente contra a Covid-19 em Rio Branco.
O que é o luto?
Khauana: O luto é um processo emocional natural vivenciado a partir de uma experiência de perda/rompimento de vínculo (que não se restringe ao falecimento de uma pessoa, mas também ao fim de relacionamentos afetivos, perda de animais de estimação ou a perda de emprego, por exemplo). A partir da perda ocorre o “fim” da forma estabelecida cotidiana de viver e surge a necessidade de uma nova significação para a própria vida de quem está vivendo o luto. Esse processo ocorre conforme o tempo e a cultura em que cada pessoa está inserida. É comum que aconteça em países latino-americanos um ritual de despedida, como o velório e o enterro, para que as pessoas que possuem vínculo com a/o falecida/o possam usufruir de uma rede de apoio e também seguir para fases de aceitação e rearranjo da vida sem a presença física daquela pessoa que se foi.
Como o processo de luto acontece?
Khauana: Bom, é importante frisar que o luto, assim como as demais experiências que compõem a existência humana, não deve ser generalizado. Apesar de ter teorias que descrevem as fases do luto, elas não seguem uma cronologia e cada pessoa vivencia de maneira única. O processo de luto interrompe o fluxo cotidiano e também exige que novas experiências sejam construídas por aqueles que permaneceram.
Uma autora que geralmente tomo como base para compreender e atender pessoas enlutadas é a Elisabeth Kübler-Ross (psiquiatra suíço-americana). Ela descreve o luto em cinco estágios: isolamento e negação da perda; raiva quando se percebe que não é mais possível negar; barganha, estágio de promessas divinas para permanência do ente que está em fase terminal ou crença de um possível retorno; depressão, rebaixamento do humor, é marcado por solidão e saudade; e por último, o estágio de aceitação da perda e reorganização da vida sem a pessoa querida.
Como a pandemia transformou esse processo?
Khauana: A pandemia por Covid-19 quebrou o ritual de despedida extremamente importante para a vivência do luto. Já existem estudos que descrevem que essa ruptura contribui para impactos psicológicos naqueles que ficaram, ao passo que não puderam se despedir dos seus entes.
Em função das medidas de distanciamento social as pessoas que estão hospitalizadas mantêm o contato com os familiares apenas pelo celular, após a entrada no ambiente hospitalar não há mais contato presencial com o ente. Esse processo afeta diretamente pacientes hospitalizados, os familiares e a equipe de saúde que se depara com a iminência da morte de forma potencializada. Dentro de todo esse cenário fica muito difícil realizar rituais funerários de despedida em consonância com a cultura e religião das pessoas envolvidas, dificultando a experiência do luto.
Além disso, há situações em que famílias apresentam múltiplos casos de infecção e óbito, mobilizando uma sequência de lutos, trazendo ainda mais desafios para se adaptar e lidar com as perdas. E todo esse cenário crônico de enlutamento não acontece apenas com familiares e equipe de saúde, mas na sociedade como um todo, mesmo pessoas que não tiveram perdas concretas, amigas/os ou familiares, podem viver o sofrimento e ter um sentimento de instabilidade social.
Quais seriam as consequências e impactos da pandemia nesse processo?
Khauana: A pandemia de Covid-19 implica diretamente na experiência do luto, principalmente no antecipatório, ou seja, na preparação emocional diante da iminência da perda. Este é afetado nesse período, pois em alguns casos o quadro clínico da/o paciente pode agravar rapidamente e ela/e vir a óbito. Além disso, o local e as condições em que a pessoa morre também oferecem implicações para esse processo, ao passo que se o ente estiver isolado haverá impossibilidade da despedida, o que contribui para vivência de um luto complicado.
As pesquisas têm apontado que há frequência do sentimento de culpa, familiares e amigas/os podem acreditar e sentir que foram os responsáveis por infectar a pessoa falecida. Nesse sentido, o que se sabe cientificamente até o momento, a partir das pesquisas realizadas, é que os impactos psicológicos podem variar entre ansiedade, síndromes de pânico, luto antecipatório afetado e o desenvolvimento de um luto complicado devido à impossibilidade de um ritual de despedida.
Cuidados funerários
Além dos números de mortes ou da descrição técnico-científica da doença, informações que recebemos diariamente desde o início da pandemia, é interessante conhecer melhor quem está tendo que lidar diretamente com os que tiveram uma perda por essa doença. Para isso, buscamos entender como a pandemia afetou o ambiente e a rotina de quem trabalha em uma funerária.
Nonata Viana começou a trabalhar em funerárias por necessidade, mas atualmente não trocaria de emprego por nada. “Hoje em dia, se por um acaso eu tiver que sair da funerária, eu vou procurar outra funerária, porque eu amo o que faço”. Por trabalhar na preparação dos corpos para o velório, Nonata sempre manipulou produtos químicos, o que tornou o uso de EPIs rotina diária no ambiente de trabalho, mesmo antes da pandemia. Mas isso não significa que não houve alterações nos cuidados. “Depois dessa pandemia, claro que a gente se equipa melhor. Além de usar máscara, luva, avental, touca e bota, a gente tem que colocar o macacão e aquela outra máscara mais avançada”, conta.
Nonata usa equipamentos mais avançados para se proteger. Foto: Arquivo Pessoal.
Ela relata que a principal mudança na rotina de trabalho ocorreu quando começaram os enterros em que a causa da morte foi por complicações da Covid-19. “Quando na declaração vem escrito Covid-19, a gente não pode mexer no corpo. Ele sai do hospital direto para o cemitério”. Segundo ela, os familiares contestam a ausência de velório. Quando isso ocorre, a funerária entra em contato com a vigilância sanitária para conversar e depois explica aos familiares os motivos da proibição desses atos para as vítimas da Covid-19.
O contato com as famílias é delicado, pois o abalo da perda influencia o modo como vão lidar e a forma com que se dirigem a eles. O convívio tão próximo com a morte permite que se pense mais antes de falar com quem perdeu um ente querido. Nonata ressalta que, dependendo do que é dito, às vezes podem acontecer interpretações equivocadas.
Mesmo com todos os cuidados e o uso de EPIs não isentaram Nonata de pegar a Covid-19 e, infelizmente, perder entes queridos para essa doença. Ela relata que houve casos de Covid na funerária, incluído ela mesma, e casos de colegas de trabalho em outras empresas que chegaram a óbito devido a complicações da doença.
“Lidar com a perda é bem complicado. É difícil você ver um colega de trabalho morrer por essa doença, uma coisa que você está lidando ali. Você tá convivendo com isso e, mesmo preparada, com os equipamentos de proteção, você está correndo risco, não é? Então, a gente fica bem apreensivo, com medo. Mas é o nosso trabalho e temos que ter fé”, fala. A pandemia potencializou um medo generalizado: perder aqueles que amamos.
A conversa com Nonata mostra que lidar diretamente com a morte requer dedicação e uma coragem que muitos não têm. As falas demonstram que seu trabalho é mais do que somente lidar com corpos sem vida.
Sobre a Covid-19
A Covid-19 é uma infecção respiratória causada pelo SARS-CoV-2, da família dos coronavírus, cujo primeiro caso foi relatado no final de 2019. A doença é transmitida pelo ar, atingindo as vias respiratórias e podendo afetar diversos sistemas do corpo. Com alta transmissibilidade e de distribuição global, a enfermidade tem deixado muitas sequelas físicas e psicológicas em todos.
Principais cuidados contra a Covid-19. Produção: Pâmela Celina
Até o final de julho de 2021, no Acre foram registrados mais de 87 mil casos de infecções, dos quais aproximadamente 1800 chegaram a óbitos por complicações de Covid-19. Com o avanço das vacinações no Estado (pouco mais de 40% da população recebeu a primeira dose), diversos mutirões estão sendo feitos para acelerar o processo de imunização (atinge atualmente cerca de 14% da população com doses completas). Vale ressaltar que mesmo após ser vacinado é possível transmitir a doença a outras pessoas. Por isso, a recomendação é manter o uso de máscaras faciais, o distanciamento social e a higienização frequente das mãos. São muitos esforços e profissionais empenhados em trazer esperanças e diminuir os óbitos por Covid-19 na população acreana.
Equoterapia auxilia no tratamento de crianças com autismo
Projeto amplia acesso à equoterapia em Rio Branco e oferece tratamento gratuito a centenas de famílias, promovendo inclusão e avanços no desenvolvimento de crianças com autismo e outras condições
Por Geovana Brana, Eloísa Alves, Miguel Câmara, Thiago Câmara e Micael Lima*
A equoterapia é um método terapêutico que utiliza o cavalo como instrumento principal, melhorando o equilíbrio e o desenvolvimento cognitivo e emocional. A prática é conhecida no Brasil pela Associação Nacional de Equoterapia e pode contribuir para o tratamento de pessoas com diferentes condições de saúde, incluindo o autismo. Em Rio Branco, onde a oferta do tratamento pela rede pública é limitada, o projeto Lado a Lado, criado em 2017, surge como alternativa para famílias que não conseguem arcar com os custos na rede privada, promovendo inclusão e desenvolvimento terapêutico.
O Lado a Lado surgiu a partir de um contato com a realidade enfrentada por famílias atípicas no Acre. Segundo o deputado estadual Emerson Jarude, idealizador da iniciativa, o seu envolvimento com a pauta começou em 2017, após receber uma mensagem de uma mãe relatando a ausência de sinalização adequada para o atendimento prioritário em Rio Branco.
De acordo com a atual gestora do projeto, Natacha Bonan, as famílias interessadas em iniciar a equoterapia devem, obrigatoriamente, passar por um processo de triagem. A avaliação é realizada por profissionais especializados (psicóloga e fisioterapeuta) que coletam informações junto aos responsáveis e o próprio praticante.
As sessões acontecem uma vez por semana e duram em média 30 minutos, e o acompanhamento é feito de forma individualizada, incluindo registros e relatórios técnicos mensais elaborados pelas profissionais responsáveis. Atualmente, cerca de 550 praticantes de diferentes faixas etárias são atendidos pelo serviço de equoterapia. Segundo Natacha, a maior parte das famílias chegam ao projeto por meio da divulgação institucional das ações do mandato e também pela atuação do projeto Eu Acredito, responsável pela condução das atividades.
Para muitas famílias, a proposta tem feito a diferença no desenvolvimento das crianças. Marcela Rodrigues, uma mãe beneficiada pelo projeto, resumiu a importância da iniciativa: “Embora eu seja nova no grupo, estou achando de suma importância. Seria difícil pagar pela terapia, muitas famílias não têm condições”.
Os resultados também são percebidos no dia a dia das famílias atendidas. A mãe de um dos participantes destacou os benefícios da equoterapia para o filho: “Só tenho a agradecer. É a terapia que ele mais gosta de fazer, e ele melhorou muito, está mais calmo, tanto na escola quanto em casa”.
*Matéria escrita sob orientação do professor Wagner Costa e da monitora Ranelly Pinheiro, para a disciplina de Fundamentos do Jornalismo.
Animais abandonados durante a inundação do Rio Acre. Foto: Fernanda Evelyn
Por Arielly Casas e Rian Pablo
A cheia mais recente do Rio Acre mobilizou equipes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e voluntários em uma operação de resgate de animais em áreas alagadas de Rio Branco. Durante a subida do nível do rio, cães e gatos são retirados de casas inundadas ou encontrados abandonados em bairros atingidos pela enchente. Segundo dados da Defesa Civil de Rio Branco, nesta cheia foram resgatados em média 500 animais, entre aqueles retirados junto com famílias e os encontrados sozinhos nas áreas atingidas.
Rio Acre em época de alagamento. Foto: Pedro Devani
Os animais resgatados são levados, em grande parte, para espaços adaptados nos abrigos montados para famílias desalojadas, como no Parque de Exposições. No local, os tutores podem manter contato com os pets enquanto aguardam o retorno às casas.
De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, coronel Cláudio Falcão, o resgate de animais passou a ser incorporado às operações de salvamento ao longo dos últimos anos.
“Nós entendemos que os animais fazem parte da família. Por isso, quando realizamos a retirada das pessoas das áreas alagadas, também buscamos garantir que os pets sejam levados com segurança”, afirma.
Coronel Falcão destaca a importância do resgate animal. Foto: Retirada do Instagram do Coronel
Operação inclui retirada de animais em áreas alagadas
Durante as ações de retirada de moradores, as equipes utilizam barcos para acessar ruas completamente alagadas. Nessas situações, os animais são retirados junto com os tutores e encaminhados para os abrigos temporários.
Segundo a Defesa Civil, atualmente existem inúmeros abrigos temporários preparados para receber famílias atingidas pela cheia, alguns deles com espaços separados para os animais.
Em muitos casos, no entanto, as equipes também encontram cães e gatos que ficaram para trás nas residências.
Voluntários atuam no resgate de animais abandonados
Além das equipes oficiais, organizações de proteção animal também atuam no resgate durante o período de cheia. Integrantes da ONG Amor Animal realizam buscas principalmente por animais que ficaram nas ruas ou foram deixados nas casas após a retirada dos moradores.
A voluntária Fernanda Evelyn afirma que o trabalho ocorre principalmente em locais onde as equipes públicas não conseguem chegar com frequência.
Fernanda do Projeto Amor Animal. Foto: arquivo pessoal
“Nosso foco é procurar animais que ficaram sozinhos ou presos nas casas. Muitos acabam sendo encontrados em telhados, cercas ou em áreas ainda parcialmente secas”, explica.
Os animais resgatados pelos voluntários são encaminhados para lares temporários ou para abrigos mantidos por organizações da sociedade civil.
Falta de abrigo permanente é desafio durante enchentes
Um dos principais desafios enfrentados pelas organizações é a falta de um abrigo público permanente voltado exclusivamente para animais resgatados em situações de emergência.
Atualmente, segundo voluntários, o acolhimento depende principalmente de estruturas improvisadas e da disponibilidade de protetores independentes.
Para Fernanda Evelyn, a criação de um espaço específico ajudaria a ampliar a capacidade de atendimento durante as cheias. “A demanda aumenta muito nesse período. Um abrigo estruturado facilitaria o cuidado e o acompanhamento dos animais resgatados”, afirma.
A cheia do Rio Acre ocorre anualmente durante o período de inverno amazônico e costuma provocar alagamentos em bairros localizados às margens do rio. Nessas situações, o resgate de animais se tornou uma frente adicional das operações de emergência na capital acreana.
Entretenimento nas enchentes: a linha tênue entre o perigo e o lazer
Enquanto o Corpo de Bombeiros alerta para os perigos de balseiros e correntezas, a carência de opções de entretenimento em Rio Branco empurra a população para as águas perigosas da cheia
Quando o nível do Rio Acre sobe, não é apenas a água que transborda. Durante o inverno amazônico, a cheia expõe contradições antigas de Rio Branco: a convivência cotidiana com o risco, a escassez de espaços públicos de lazer e a naturalização de situações que colocam vidas em perigo.
Na região da Gameleira, as margens do rio se transformam em ponto de encontro. Famílias observam a correnteza, jovens pulam da ponte, e motos aquáticas disputam espaço em um ambiente instável. Mesmo em um período reconhecidamente perigoso, o rio assume o papel de área de lazer improvisada. A cheia do Rio Acre é um evento recorrente que provoca riscos, prejuízos e demanda ações constantes de emergência.
Quando o rio vira alternativa de lazer
Para quem frequenta a Gameleira nesse período, a escolha expõe a falta de opções seguras de lazer e entretenimento na cidade. Renard Matos, morador de Rio Branco, afirma que a ausência de espaços adequados acaba levando parte da população para a beira do rio. “A falta de entretenimento na cidade e de pontos turísticos acessíveis para levar a família, acaba fazendo com que as pessoas venham para cá”, afirma.
Mesmo em meio aos impactos da cheia, o rio também desperta curiosidade e fascínio. A força da água, o grande volume e os balseiros descendo pela correnteza chamam a atenção de quem passa pela Gameleira. Muitas pessoas se aproximam apenas para observar o movimento das águas. A paisagem transformada pela cheia cria um cenário que mistura risco e beleza natural, convidando moradores a contemplar de perto um fenômeno que, embora recorrente, nunca se repete da mesma forma.
Apesar disso, segundo o Major Osimar de Souza Farias, assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros (CBMAC), o volume elevado de água esconde armadilhas invisíveis. “Nessa época do ano, o risco aumenta devido às fortes correntezas e ao incremento de balseiros”, explica. Os balseiros, grandes troncos de árvores arrastados pela força da correnteza, tornam-se projéteis perigosos para quem decide se aventurar nas águas ou navegar sem as devidas precauções.
Foto: reprodução
Mesmo cientes dos riscos, muitos frequentadores continuam ocupando a área. Renard Matos afirma que o perigo é percebido, mas nem sempre suficiente para afastar as pessoas. “A todo tempo corremos risco, como afogamento, que é bem comum nessa época, e desmoronamento de terra na beira do rio pra quem fica só olhando”, relata.
A naturalização do perigo
A presença constante de pessoas à beira do Rio Acre durante o período de cheia também funciona como um fator de incentivo para novos frequentadores. O aumento do movimento cria uma sensação de normalidade e de segurança compartilhada, mesmo em um período reconhecidamente perigoso.
Para Renard Matos, que costuma frequentar a Gameleira, esse cenário se intensifica principalmente aos fins de semana. Segundo ele, observar outras pessoas aproveitando o rio acaba estimulando quem está por perto. “Quando a gente vê outras pessoas se divertindo, pulando da ponte metálica para nadar no rio, muita gente acaba se sentindo mais segura e resolve fazer o mesmo”, afirma.
O Corpo de Bombeiros Militar do Acre afirma que desenvolve ações contínuas de conscientização voltadas ao uso seguro dos rios, especialmente durante o período de cheia. As campanhas têm como objetivo orientar a população sobre os riscos e incentivar a adoção de procedimentos de segurança tanto para a navegação quanto para atividades de lazer.
“A corporação realiza constantemente orientações e campanhas para que, através da conscientização, haja uma maior aderência quanto à adoção dos procedimentos de segurança e à utilização dos nossos rios, tanto para navegação quanto para lazer”, informou Major Farias
Esse cenário revela um contraste entre os alertas das autoridades e o comportamento observado nas margens do rio. Mesmo com orientações e campanhas de prevenção, muitas pessoas continuam utilizando o local como espaço de diversão durante a cheia. A permanência desse hábito indica que os avisos sobre os riscos nem sempre são suficientes para afastar frequentadores, especialmente em um contexto em que a cidade oferece poucas atividades de recreação.
Por que não há proibição formal do uso do rio
Apesar dos alertas emitidos anualmente durante o período de cheia, não há uma proibição formal para o uso recreativo do Rio Acre. Segundo o Major Osimar de Souza Farias, assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC), a medida é difícil de ser aplicada porque o rio cumpre uma função essencial de deslocamento.
“O rio é um meio de ir e vir, um meio de locomoção. As pessoas continuam utilizando embarcações, os ribeirinhos precisam se deslocar, e há também o uso de barcos e motos aquáticas”, explica. De acordo com ele, a circulação de embarcações é regulamentada pela Marinha do Brasil, responsável pela habilitação dos condutores, o que limita a possibilidade de uma interdição ampla do rio.
A situação evidencia um impasse entre a função do rio como via de circulação e a necessidade de proteção da vida. Sem restrições claras, a responsabilidade pela decisão de permanecer ou não no local recai sobre os frequentadores, muitos deles atraídos pela falta de opções acessíveis de lazer na cidade. O risco, embora amplamente divulgado, passa a ser compartilhado e diluído na percepção coletiva.
Foto: Dell Pinheiro
O resultado é um cenário recorrente: um rio monitorado, reconhecido como perigoso, mas socialmente aceito como alternativa de lazer improvisado. A cheia, nesse contexto, expõe não apenas os limites da atuação institucional, mas também a ausência de políticas públicas capazes de oferecer à população opções seguras de convivência e lazer fora das águas.