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Corriqueiras

Onde estão os políticos negros no Acre?

Análise dos políticos autodeclarados negros em Rio Branco nas eleições desta década

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Por Beatriz Mendonça e Victor Manoel

Desde a promulgação da Constituição de 1988, o Brasil vive um regime democrático representativo. Isso significa que o povo escolhe seus representantes por meio do voto, e estes, por sua vez, são responsáveis por tomar decisões em nome da população. Partindo desse princípio, seria esperado que os políticos eleitos refletissem, em alguma medida, a composição social do país, incluindo fatores como raça e cor. 

No entanto, ao observarmos o cenário político do Acre, especialmente em sua capital, Rio Branco, percebemos que essa representatividade ainda está longe de se concretizar. A pergunta que se impõe é: onde estão os políticos negros do Acre? Essa promessa da democracia ainda está distante da vivência de grande parte da população negra. A ex-secretária municipal de Igualdade Racial de Rio Branco, Lúcia Ribeiro, comenta:

“Infelizmente, mesmo com a existência de uma lei eleitoral que estabelece cotas, ainda enfrentamos muitos obstáculos. A chamada política de cotas determina que nenhum sexo pode compor mais de 70% ou menos de 30% das candidaturas. Essa regra ficou conhecida como “cota feminina”, mas, na verdade, ela se refere à proporcionalidade de gênero nas candidaturas — não necessariamente à garantia de eleitas […] Esse é um dos pontos que considero fundamentais para entendermos por que não temos uma representatividade que reflita a composição da sociedade”, cita.

Coronel Ulysses do União Brasil. Foto: Reprodução

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 73,5% da população acreana se declara parda e 6,8% se declara preta. Juntos, pretos e pardos — a população negra, conforme classificação do IBGE — somam 80,3% dos habitantes do estado. No entanto, essa maioria demográfica não se reflete nas urnas nem nas composições das casas legislativas da capital.

Segundo Lucia Ribeiro, o Tribunal Superior Eleitoral começou a registrar a autodeclaração de candidatos e candidatas a partir de 2014. Naquele ano, foram identificadas 281 pessoas autodeclaradas negras. Em 2018, esse número subiu para 305. Já em 2022, tivemos 376 candidatos e candidatas que se autodeclararam pardos, e 315 que se autodeclararam pretos. Destes, 61 foram eleitos.

“Outro fator importante é que muitas dessas pessoas não fazem parte de famílias tradicionais da política. Um exemplo é a deputada Jéssica Sales, que vem de uma família política: a mãe é deputada estadual, o pai já foi deputado e prefeito de Cruzeiro do Sul. Essa trajetória familiar contribui para a inserção dela na política. E, por fim, há a questão da identificação social entre o candidato e o eleitor. Quando não há essa conexão, a campanha perde força e visibilidade”, questiona a especialista.

Caminho sem volta 

Nas eleições para a Câmara de Vereadores de Rio Branco, apenas um vereador autodeclarado preto foi eleito nas duas últimas disputas: João Paulo Silva (PODE), em 2024. Já no cenário estadual e federal, a presença de pretos também é mínima. Em 2022, apenas um deputado federal preto foi eleito (Coronel Ulysses, do União Brasil) e apenas um deputado estadual (Edvaldo Magalhães, do PCdoB), pegando como base, os dados dos votos apenas da capital acreana. Isso demonstra uma sub-representação evidente, especialmente dos pretos, mesmo entre os grupos que se autodeclaram negros.

João Paulo Silva do PODE. Foto: Reprodução

Ribeiro reforça a gravidade da invisibilidade política da população preta, especialmente das mulheres:

“Infelizmente, as pessoas ainda não fazem a associação direta do voto com a identidade do candidato. Raramente alguém diz: ‘Vou votar nesse candidato porque ele é preto, pardo ou negro e vai defender essa causa no parlamento’, ou ‘Vou votar nessa mulher porque, como mulher, ela vai representar os interesses das mulheres na sociedade”, reflete.

Outro ponto importante quando falamos em barreiras é a violência política e a violência de gênero. Essa violência ocorre tanto durante a campanha, no momento em que a candidatura é colocada, quanto durante a gestão de um mandato ou em cargos públicos.

Segundo pesquisas, na última eleição houve 542 casos de violência política e eleitoral, com 497 vítimas, incluindo tentativas de assassinato. Tivemos, por exemplo, o caso de uma vereadora no município de Bujari, que enfrentou intimidações e constrangimentos, uma situação bastante comum que desestimula muitas mulheres e pessoas negras a se colocarem como candidatas, reflete Ribeiro.

Quanto aos candidatos pardos, houve um crescimento nas eleições municipais. Em 2020, dos 17 vereadores eleitos, 9 eram pardos (52,94%); já em 2024, dos 21 eleitos, 14 se declararam pardos (66,67%). Ainda assim, esse percentual está abaixo da presença dos pardos na população geral. Para os cargos de deputado estadual em 2022, 58,33% dos eleitos foram pardos. Já para deputado federal, os pardos representam apenas 37,5% dos eleitos.

Edvaldo Magalhães, do PCdoB. Foto: Reprodução

“As pessoas eleitas que se autodeclararam negras não foram eleitas por serem negras. Primeiro, porque acredito que essas pessoas não se autodeclararam pretas ou pardas apenas para preencher cotas. Mas o ponto principal é que essas pessoas não se elegeram com base em uma consciência racial, em um letramento racial ou em um projeto de mandato voltado à promoção da igualdade racial e ao enfrentamento do racismo. Por que eu digo isso? Porque essas pessoas, em sua maioria, não exercem seus mandatos com foco nessa pauta”, descreve Ribeiro.

Necessidade de mudanças

Considerando todos os cargos legislativos citados (vereadores, deputados estaduais e federais) eleitos entre 2020 e 2024 em Rio Branco, a representação negra chega a cerca de 61,43% — número ainda inferior aos 80,3% da população. Além disso, dentro desse grupo, os pretos seguem sendo drasticamente minoria, evidenciando que a desigualdade é ainda mais acentuada dentro da própria população negra.

A proporção de votos válidos para candidatos pretos quase dobrou, de 4,8% em 2020 para 8,1% em 2024. Embora João Paulo Silva tenha sido eleito, o número é pouco comparado ao tamanho da demanda política. Para Lúcia Ribeiro, mudar esse cenário exige mais do que ajustes partidários. É preciso reconhecer a política como território histórico de exclusão e agir de forma estratégica e coletiva para inverter essa lógica.

A maioria das pessoas eleitas não têm uma preocupação maior com o empobrecimento da população negra, com essa situação de exclusão em que o racismo estrutural coloca a população negra: no subemprego, no desemprego, na economia informal. A maioria das mães negras está em programas de transferência de renda, cita a entrevistada.

Assembleia Legislativa do Acre (Aleac). Foto: Juan Diaz/ContilNet

A questão ambiental também. Quando há as alagações, a população negra mora próximo aos igarapés, às fontes d’água, aos cursos d’água e são as primeiras a serem alcançadas. São levadas para o Parque de Exposição. Durante esse momento de secura que estamos vivendo agora, a população negra é a que fica sem água, que não tem infraestrutura, que sofre os agravos das consequências dessas questões ambientais.

“Além disso, é necessário garantir a aplicação real do fundo partidário e dos tempos de televisão e rádio para as candidaturas negras. É fundamental que os partidos, sejam de direita, de esquerda ou de centro, comecem a se organizar e a tratar essa pauta com mais seriedade. Que não continuem descumprindo a lei e depois indo ao Congresso pedir anistia, como vimos acontecer agora, em 2025. Vários partidos, federações e coligações não cumpriram a cota estabelecida, e eles mesmos criaram uma lei para se anistiar do descumprimento de uma norma que eles próprios aprovaram”, finaliza.

Confira mais detalhes das estatísticas levantadas aqui.

Redação

AMOR EM QUATRO PATAS

A adoção de pets como equilíbrio entre responsabilidade afetiva e social

Com 65 animais disponíveis no Centro de Controle de Zoonozes de Rio Branco, busca por novos lares para cães e gatos adultos visa combater o abandono

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Por Lis Gabriela e Rhawan Vital

O cenário no Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Rio Branco reforça uma triste realidade: muitas pessoas dão preferência à adoção de filhotes para serem seus novos pets, enquanto cães e gatos adultos enfrentam longos períodos de espera em canis e gatis. Além da questão afetiva, a adoção desses animais também pode ser considerada uma decisão que auxilia na saúde pública e no manejo populacional desses animais no ambiente urbano.

Nesse contexto, foram instituídos os CCZs, com o objetivo de focar na vigilância epidemiológica e no controle de doenças que podem ser transmitidas por animais ao ser humano, como raiva e leishmaniose, além de casos em que os animais apresentam risco aos tutores ou agressividade. Mas, apesar de sua função inicial, essas unidades se tornam lares temporários e, por muitas vezes, permanentes para diversos animais.

Cães e gatos adultos aguardam por uma nova chance de recomeço nos canis e gatis do Centro de Controle de Zoonoses de Rio Branco. Foto: Rhawan Vital

De acordo com o agente de Vigilância em Zoonoses, Joel Pereira, do Centro de Zoonoses de Rio Branco, a busca por outra condição de vida para os animais é um objetivo a ser atingido, seja em um lar ou um ambiente adequado, para que recebam o devido carinho. Os animais adultos, quando acolhidos, também proporcionam uma experiência única para o tutor. Além disso, a quebra do ciclo de abandono passa, obrigatoriamente, pela educação da sociedade e pelo reconhecimento do animal a ser adotado. Escolher um animal adulto é priorizar a consciência ao invés de uma fase momentânea com um pet.

Dessa forma, a cultura da adoção é um indicativo de maturidade social. Ao escolher adotar, as pessoas deixam de ser apenas espectadores do problema do abandono para se envolver de forma ativa na solução. “Ter um bicho de estimação é bom, porque você tem companhia sempre. Também te faz ter um senso de responsabilidade que não tinha antes. Pra mim, é uma companhia que nunca incomoda”, afirma Álvaro Bagnara, tutor dos gatos Cheddar e Grafite.

Além da vigilância em saúde pública, o CCZ também se torna lar temporário e, muitas vezes, permanente, para animais vítimas do abandono. Foto: Rhawan Vital

Álvaro conta sobre seus gatos: Grafite foi adotada ainda filhote, então passou por uma fase de criação e ensinamentos, desde o onde se alimentar à caixa de areia. Já Cheddar chegou um pouco mais tarde na família, já adulto e após ser abandonado pelos antigos tutores, mas mesmo assim não deixou de entregar amor. Em relação à adaptação, o tutor dos felinos conta que o tempo bastou para que houvesse um entendimento de que compartilhavam o mesmo lugar.

“No começo a Grafite brincava muito de perturbar o Cheddar, que sempre foi muito quieto e na paz. Com o passar do tempo, apesar do Cheddar continuar no seu cantinho, a Grafite entendeu que eles moravam juntos. Ela não deixou de perturbá-lo, mas o Cheddar começou a revidar. Essa foi a diferença com o passar do tempo” conta Álvaro, de forma animada.

Adoção responsável

O CCZ de Rio Branco conta com 65 animais disponíveis para adoção, sendo eles cães e gatos, filhotes e adultos. Entre eles estão: 40 cães adultos, oito filhotes, 11 gatos adultos e seis filhotes. Os animais são vacinados e têm carteirinhas próprias, prontos para que seus tutores acompanhem e cuidem de maneira adequada, de acordo com datas e mutirões de vacinação disponíveis no futuro.

A adoção responsável transforma realidades: para quem adota, nasce um vínculo; para quem é adotado, surge a oportunidade de um lar. Foto: Rhawan Vital

A adoção pode ser feita de segunda a sexta-feira, entre as 7h e as 17h, e necessita que o interessado tenha mais de 18 anos, apresente o documento oficial e assine o termo de adoção responsável, documento que valida a adoção e a responsabilidade do novo dono do pet.

Ao retirar um animal adulto de um centro, o cidadão contribui diretamente para a redução da superlotação (tanto das ruas, quanto dos abrigos e CCZs) e permite que o Estado e outros profissionais da área veterinária direcionam recursos para outras frentes de saúde e bem-estar animal. É importante ressaltar que a adoção é um ato de responsabilidade civil, e não deve ser confundida apenas com uma boa ação.

Redação

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ESTAMOS DE VOLTA

Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com Rio Acre no centro das histórias

O jornal-laboratório da Ufac chega à 21ª edição com proposta editorial e visual renovadas, mantendo as matérias cotidianas e adotando o Rio Acre como fio condutor das pautas especiais

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Por Diogo José 

A sociedade nasce da água, escorre, se junta e ganha forma. É por essas águas, que carregam histórias e sonhos, que a catraia transporta vozes, perguntas e sentidos. Com essa premissa, o jornal-laboratório A Catraia, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac), chega à sua 21ª edição, em 2026, marcando o retorno de um dos principais espaços de prática jornalística e formação de profissionais, agora com uma proposta editorial e visual renovadas.

Além das notícias cotidianas, chamadas de corriqueiras, a edição deste ano traz matérias especiais inspiradas no Rio Acre, elemento central da formação histórica, social, cultural e econômica do estado. O rio funciona como eixo temático que atravessa diferentes editorias, conectando pautas de política, cultura, meio ambiente, economia, esporte e sociedade, sem perder o compromisso com a notícia, a crítica e a escuta.

O Rio reúne atividades em seu entorno, como na imagem, onde um grupo se reúne para praticar capoeira. Foto: Wellington Vidal.

Presente há mais de duas décadas na disciplina de Jornal Laboratório, o jornal A Catraia acompanhou gerações de estudantes e funciona como um espaço fundamental de formação profissional. É ali que muitos alunos têm o primeiro contato direto com a rotina do jornalismo, vivenciando processos de apuração, entrevistas, produção de texto, edição e trabalho em equipe, experiências que, para parte da turma, ainda não haviam ocorrido no mercado profissional.

Para a professora da disciplina e coordenadora do jornal, Giselle Lucena, o retorno do projeto movimenta todo o curso. Segundo ela, o Jornal Laboratório concentra expectativas tanto de professores quanto de estudantes, justamente por refletir o percurso formativo vivido ao longo da graduação. 

“Tudo aquilo que os alunos aprenderam até aqui aparece nesse momento. O produto desenvolvido na disciplina acaba sendo um espelho do curso, com seus acertos, desafios e possibilidades”, afirma.

Giselle Lucena, professora da disciplina e coordenadora do jornal A Catraia. Foto: Arquivo pessoal.

Ela destaca que o espaço vai além da simulação do mercado. “Ao mesmo tempo em que buscamos reproduzir a dinâmica do mercado, o Jornal Laboratório também é um lugar de liberdade criativa. É o momento de experimentar formatos, propor outras narrativas e pensar novos modelos de jornalismo, algo que muitas vezes não foi possível em outras disciplinas”, completa.

A experiência prática também é percebida pelos estudantes envolvidos na produção. Para Wellington Vidal, repórter do A Catraia e, nesta edição, gestor de redes sociais, o jornal representa uma oportunidade de crescimento profissional e inovação. 

“Contar histórias de pessoas e lugares do nosso estado, sobretudo com o tema rio como eixo, que é algo que vivenciamos de perto todos os anos, é um desafio que torna-se enriquecedor no meu processo de formação e abrange ainda mais a diversificação da escrita”, afirma.

Wellington Vidal, repórter e gestor de redes sociais da 21ª edição do jornal A Catraia. Foto: Arquivo Pessoal.

Ele ressalta o investimento nas plataformas digitais. “A rede social é o elo que liga tudo, por meio dela a equipe está buscando inovar com produções de vídeos e web reportagens, além de trazer uma nova identidade visual pro jornal”, completa.

Essa renovação também se reflete na repaginação do site e na nova logo do jornal. A identidade visual aposta em traços mais crus, referências amazônicas e uma estética de caráter mais vanguardista, que dialoga diretamente com o território, o rio e a proposta editorial da edição. A mudança marca uma nova fase do jornal, sem romper com sua história.

Identidade visual da edição de 2026 do jornal A Catraia. Imagem: Diogo José.

Nesta edição, a proposta editorial também se materializa na organização das editorias, que passam a dialogar diretamente com o eixo do rio e seus significados:

Rio Acre como pauta

O doutor em Ciência Ambiental e professor do curso de Jornalismo da Ufac, Maurício Bittencourt, reforça que a escolha do Rio Acre como eixo central amplia o papel do jornalismo. Para ele, o rio é essencial para a identidade acreana e para a vida cotidiana da população. “O Rio Acre é fundamental para o transporte, a produção agrícola e o abastecimento de água. Milhares de pessoas dependem diretamente dele”, explica.

Segundo o professor, o jornalismo pode contribuir para uma cobertura que vá além dos períodos de cheia ou seca. “É preciso debater a preservação das nascentes, das matas ciliares e a responsabilidade das cidades em não poluir um manancial que abastece a população. O Rio Acre também é um rio internacional, o que amplia ainda mais os temas possíveis de abordagem, como fronteiras, entre outros”, destaca.

Assim, em 2026, A Catraia volta a navegar, levando informação à sociedade acreana, formando novos profissionais e acompanhando o fluxo do Rio Acre, como sempre foi: em movimento!

Redação

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Corriqueiras

O futuro da escrita na era digital

Entre teclados e telas, especialistas destacam que a escrita à mão ainda fortalece memória, criatividade e identidade cultural. Foto: Gabriela Queiroz

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Por Maria Niélia Magalhães, Sérgio Corrêia e Gabriela Queiroz

Das cartas que cruzaram continentes aos aplicativos de mensagens instantâneas, a transição da escrita manual para a digital reflete mais do que uma evolução tecnológica — revela uma transformação profunda em como nos comunicamos, aprendemos e até mesmo como processamos informações. Enquanto especialistas debatem os impactos cognitivos e culturais dessa mudança, neurologistas, educadores e alunos avaliam os prós e contras de cada meio.

“Quando o aluno escreve à mão, ele pensa melhor no que está registrando, organiza o que é mais importante”, afirma a professora Cyndi de Oliveira Moura, 29 anos, formada em Letras pela Universidade Federal do Acre – Ufac e docente de Língua Portuguesa no ensino fundamental. Ela observa no dia a dia os efeitos da escrita manual: “alunos que anotam no caderno conseguem relembrar mais facilmente aquilo que foi explicado em sala.”

Ela destaca que a caligrafia também está ligada à criatividade, pois exige atenção e paciência. Mas nota que os estudantes atuais enfrentam dificuldades: “Eles são impacientes e querem escrever tão rápido quanto pensam. A escrita exige paciência e reflexão, mas o uso excessivo das telas acelera demais o pensamento.”

Apesar disso, a professora não vê a tecnologia como inimiga, e sim como ferramenta que precisa ser equilibrada com a escrita manual: “Os recursos digitais ampliam possibilidades, mas sem criticidade se limitam a cópias rápidas e informações superficiais. O ideal é equilibrar os dois mundos: o papel ajuda a refletir, enquanto a tecnologia prepara para o século XXI.”

Foto: Gabriela Queiroz

O advento da tecnologia digital transformou profundamente a maneira como registramos e comunicamos ideias. Se por um lado a digitação se tornou predominante pela sua praticidade e velocidade, por outro, a escrita manual resiste como prática fundamental – não por nostalgia, mas por seu impacto comprovado na cognição e no desenvolvimento cerebral. 

A voz do estudante

Para Letícia Kelly, aluna do 2º ano do ensino médio de uma escola pública em Rio Branco, a escrita à mão continua sendo indispensável no seu processo de aprendizagem. “Eu prefiro escrever no caderno, porque fazer anotações melhora minha memória. Quando escrevo no celular, não consigo guardar tanto na mente”, afirma.

Elaborar pequenos textos e mapas mentais no papel facilita a memorização de detalhes importantes, segundo Kelly. “Infelizmente, as pessoas estão abandonando a escrita à mão, e isso é muito ruim, pois terão uma memória mais curta. Eu não consigo parar de escrever à mão, porque me ajuda a memorizar as coisas”, completa a estudante.

Atividade da aluna do 2º ano do Ensino Médio, Letícia Kelly. Foto: Maria Niélia

Não se trata de idealizar o passado ou desconsiderar os avanços tecnológicos. Afinal, todos nós aproveitamos a agilidade das mensagens instantâneas para nos conectar com quem está longe. No entanto, especialistas alertam: a caligrafia ativa regiões do cérebro relacionadas à memória e à criatividade de um modo que o teclado não consegue replicar.

Cenário Internacional

Pesquisas recentes confirmam que a escrita manual continua exercendo um papel fundamental no aprendizado. Um estudo norueguês, citado pela DW Brasil na reportagem Escrever à mão ajuda no aprendizado, aponta estudo, mostrou que escrever manualmente aumenta a atividade cerebral justamente nas regiões ligadas à memória e ao processamento motor e visual, favorecendo uma compreensão mais profunda e duradoura do conteúdo. 

Já a BBC Brasil, em Como escrita à mão beneficia o cérebro e ganha nova chance em escolas, destaca a visão da neurocientista Claudia Aguirre, que afirma que escrever em cursivo, especialmente em comparação com digitar, ativa caminhos neurais específicos que otimizam o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem.

A Finlândia, país reconhecido por seu sistema educacional inovador, retirou a caligrafia do currículo obrigatório em 2016, priorizando o ensino de digitação (The Guardian, 2015). Nos Estados Unidos, discussões semelhantes ganharam força nos últimos anos. Essas mudanças, no entanto, não ocorrem sem controvérsias.

À medida que escolas e estudantes se adaptam às demandas de um mundo digital, pesquisadores seguem investigando como equilibrar tradição e inovação. Por um lado, alguns educadores defendem a adaptação aos novos tempos, por outro, especialistas em neurociência e desenvolvimento cognitivo alertam para as perdas associadas à diminuição da escrita manual.

O melhor de ambos

Enquanto isso, a ciência segue confirmando: escrever à mão é muito mais que um gesto cultural – é uma ferramenta poderosa para moldar o cérebro e expandir as fronteiras do pensamento. A pergunta que permanece não é apenas sobre qual método de escrita é mais eficiente, mas como podemos integrar o melhor de ambos para promover uma aprendizagem mais rica e significativa. 

Não se trata, portanto, de uma disputa entre o antigo e o moderno, mas de reconhecer que ambas as formas de escrita — a manual e a digital — podem coexistir e se complementar. Como bem ilustram a professora Cyndi e a estudante Letícia, escrever à mão continua a ser um exercício de paciência, reflexão capaz de transformar informação em conhecimento.

No fim, o que importa é lembrar: escrever não é apenas registrar palavras — é processar ideias, construir sentidos e, acima de tudo, permanecer humano em um mundo em constante transformação.

Redação

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