No Acre, 104 crianças e adolescentes vivem atualmente em situação de acolhimento institucional ou familiar. Desses, 21 estão aptos para adoção, enquanto 18 estão em processo. Entre 2019 e 2025, 145 adoções foram efetivadas no estado. Em contrapartida, 626 crianças e adolescentes foram reintegrados às suas famílias desde 2019, uma prioridade prevista na legislação. Hoje, há 65 pretendentes habilitados à adoção no estado, sendo a maioria residente em Rio Branco.
Os dados mais recentes também revelam um cenário ainda marcado por lacunas e pouca visibilidade: apenas dois casais homossexuais constam oficialmente como pretendentes à adoção no estado. O número pode não refletir a realidade, já que 57 dos cadastros não informam orientação sexual, um dado que ainda enfrenta subnotificação e o silêncio motivado por receios sociais ou institucionais.
Apesar disso, o Acre possui um dos processos mais ágeis do país: o tempo médio entre o pedido e a sentença de adoção é de 5 meses, inferior à maioria dos estados brasileiros. Isso é possível graças à integração do estado ao Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), criado em 2019 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com o objetivo de unificar informações sobre crianças acolhidas e pretendentes à adoção. A ferramenta digital também permite maior controle de prazos e mais transparência em cada etapa do processo.
Em meio a esse cenário, casais homoafetivos como Breno Geovane Azevedo Caetano e Rosicley Souza da Silva representam um movimento crescente e necessário: o de famílias diversas que buscam oferecer afeto, segurança e estrutura a crianças em situação de vulnerabilidade e que, por vezes, precisam também enfrentar estigmas e barreiras sociais.
As etapas da adoção
Breno e Rosicley estão há quase oito meses na fila de adoção e contam como têm vivido esse processo.A decisão de adotar veio antes do início dos trâmites legais. “Então, fomos buscar o Juizado da Infância e Juventude para saber quais eram os procedimentos e a documentação necessária”, conta Breno. O casal, ambos com formação de mestrado, relata que desde o início foi bem orientado e acolhido pelas instituições envolvidas.
O processo de habilitação seguiu com certa rapidez: em apenas dois meses, Breno e Rosicley concluíram todas as etapas exigidas para entrar no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). Fizeram um curso online obrigatório, entrevistas com psicóloga e pedagoga do Juizado e uma visita técnica ao lar do casal. “Achamos que foi bastante célere. Esperávamos de três a quatro meses para todo esse trâmite”, comentam.
No entanto, mesmo após a habilitação, o casal ainda aguarda na fila de adoção, sem previsão definida para a chegada da criança. “Estamos no SNA desde o início de dezembro e já se passaram quase oito meses. A fila anda, mas de forma muito irregular. Às vezes avança, às vezes quase não se movimenta”, explica Rosicley.
Eles optaram por adotar um menino de até 4 anos e meio, considerando crianças de cinco estados brasileiros onde possuem rede de apoio familiar. Ainda assim, avaliam ampliar o cadastro para todo o território nacional, embora isso exija planejamento financeiro, já que os custos são arcados integralmente pelos adotantes.
Sobre a experiência enquanto casal homoafetivo, o relato é positivo: não houve preconceito institucional. “Na verdade, foram bastante acolhedores”, afirmam. “O que mais nos animou foi o acolhimento das nossas famílias e amigos com o fato de querermos adotar.”
A principal preocupação agora é com o futuro. “Nos inquieta pensar em como nosso filho será tratado por uma sociedade ainda machista e paternalista”, reflete Breno. Ainda assim, eles seguem esperançosos: “O processo até aqui tem sido justo, dentro do que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.”
Visão de quem venceu a burocracia
Maria Silva e Lucia Souza são um casal homoafetivo que, em meio ao início da pandemia de Covid-19, em 2020, realizou um sonho: adotaram uma criança após três anos de um processo marcado por burocracias e desafios. Apesar das dificuldades enfrentadas, elas destacam que a experiência foi marcada por respeito e acolhimento, especialmente no Acre.
“Sempre fomos tratadas com respeito e igualdade. A demora em si é no sistema de adoção. Por isso, muitas crianças crescem e só vão pra adoção de fato já grandes, porque é um processo lento, burocrático”, afirmou Maria Silva.
Para o casal, os maiores desafios não vieram do Judiciário ou das instituições, mas de estigmas sociais profundamente enraizados na sociedade brasileira sobre o que significa adotar.
“Na sociedade, em geral, predomina um preconceito em relação à adoção. Ouvimos diversas vezes: Vocês não podem ter filhos biológicos, por isso adotaram? Então, acham que adoção significa caridade ou impossibilidade de gerar filhos biológicos, e não é, eu sempre quis adotar, mesmo podendo gerar”, explica Maria.
Embora reconheçam a existência de preconceitos em relação à adoção e à parentalidade homoafetiva, Maria e Lúcia se dizem positivamente surpresas com a recepção no estado. “No Acre nos surpreendemos o quanto fomos abraçadas quando adotamos. Porém, o que sempre nos incomodou foi enxergarem como se estivéssemos fazendo uma caridade com nosso filho. Talvez aí esteja o ponto, trazer que adoção não é ajuda, é uma outra escolha e opção de exercer a maternidade”, destacou.
Por outro lado, Maria Silva alertou para a importância de discutir o assunto na sociedade, trazer pautas na imprensa e desmistificar os estereótipos sobre o assunto. Adoção principalmente no Acre é comunicado como algo triste, traumático, e não é, é amor puro. Nosso filho trouxe vida para as nossas vidas, e escolheria adotá-lo novamente, nunca passou pela nossa cabeça substituir a adoção por fertilização”, pontuou.
O que diz a Lei
A adoção por casais homoafetivos no Brasil é um direito plenamente garantido por lei, segundo explica a advogada Mariana Castro de Souza, especialista em Direito de Família e Sucessões. De acordo com a jurista, a legislação e a jurisprudência não fazem distinção entre casais homoafetivos e heterossexuais nos processos de adoção.
“Com base no princípio da igualdade todos são iguais perante a lei, sem distinção. Portanto, a legislação brasileira e a jurisprudência consolidada tratam casais homoafetivos da mesma forma que casais heterossexuais nos processos de adoção. Não existe qualquer distinção em lei que impossibilite ou limite a adoção por casais homoafetivos”, afirma.
Mariana Castro- Foto: cedida
Para iniciar o processo de adoção, os requisitos são os mesmos para todos os adotantes, independentemente de sua orientação sexual. Segundo a advogada, “os adotantes precisam ter, no mínimo, 18 anos completos, e deve haver a diferença mínima de 16 anos entre os adotantes e o adotado; os adotantes precisam ter capacidade civil plena e idoneidade moral; se a adoção for conjunta, os adotantes devem ser casados ou conviventes em união estável.”
Mariana Castro. Foto: Cedida
O reconhecimento da união homoafetiva como entidade familiar foi consolidado pelo Supremo Tribunal Federal em 2011, o que abriu caminho para uma série de direitos, incluindo o da adoção. Embora não trate especificamente de adoção, o julgamento é considerado um marco, pois garante os mesmos direitos e deveres das uniões heterossexuais. “A partir disso, todos os direitos familiares, inclusive a adoção por casais homoafetivos, passaram a ser assegurados”, detalha.
O procedimento judicial é o mesmo para todos. “O casal homoafetivo deve se habilitar junto à Vara da Infância e Juventude, após isso é realizada uma avaliação interdisciplinar com psicólogos e assistentes sociais, para verificar se o casal possui capacidade de exercer a parentalidade, e o casal também deve participar de cursos preparatórios”, explica a advogada.
Se aprovado, o casal entra no Cadastro Nacional de Adoção. A seguir, começa a etapa de aproximação com a criança ou adolescente, seguida da fase de convivência. Somente após esse processo é que a ação de adoção é formalizada.
Mariana Castro esclarece que o casamento ou união estável é obrigatório para adoção conjunta. “Independentemente de serem heterossexuais ou homoafetivos, se o intuito for a adoção conjunta é necessário que os adotantes sejam casados ou mantenham união estável, para comprovar a estabilidade da família.”
Em situações de separação, a guarda segue os mesmos parâmetros aplicáveis aos casais heterossexuais. “No Brasil, a regra é a guarda compartilhada, que significa que, mesmo após a separação, ambos os pais continuam responsáveis pela tomada de decisões importantes para a vida dos filhos e dividem responsabilidades parentais, ainda que o filho resida com apenas um deles”, afirma. A guarda unilateral só é aplicada em casos de risco ou acordo entre os genitores.
Quanto ao registro da criança, também não há qualquer obstáculo legal. Quando o casal homoafetivo adota conjuntamente, a certidão de nascimento é emitida com o nome dos dois pais ou das duas mães “Uma curiosidade é que atualmente nos documentos de identificação no Brasil a expressão utilizada é ‘filiação’, em substituição aos termos ‘pai’ e ‘mãe’, justamente para evitar qualquer tipo de discriminação, e para garantir a inclusão das diversas formações familiares, especialmente das famílias homoafetivas”, detalhou a advogada.
Barreiras enfrentadas
O país deu passos importantes nessa pauta, segundo Germano Marino, chefe do Departamento de Promoção dos Direitos Humanos e da Divisão de Promoção dos Direitos das Pessoas LGBTI+ da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do Acre (SEASDH). “O Brasil avançou. Nos últimos anos, aumentou o número de adoções e o CNJ publicou a Resolução 532/2023 para coibir discriminação nos tribunais”, explica.
Germano Marino. Foto: Cedida
No entanto, mesmo com esse respaldo jurídico, o preconceito institucional ainda se impõe como uma barreira significativa. “Apesar do respaldo legal, casais LGBTQIA+ ainda enfrentam preconceito de profissionais do Judiciário, burocracia excessiva, interpretações diferentes entre comarcas e resistência em cartórios para registro de dupla parentalidade”, afirma Marino.
Ele ressalta que o preconceito muitas vezes se manifesta de forma sutil, mas prejudicial ao andamento do processo, através de decisões enviesadas, atrasos injustificados no processo, julgamentos morais por parte de assistentes sociais e juízes oufalta de capacitação de servidores. “Muitas instituições ainda operam com base em modelos heteronormativos de família”, pontuou o ativista.
O cenário no Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Rio Branco reforça uma triste realidade: muitas pessoas dão preferência à adoção de filhotes para serem seus novos pets, enquanto cães e gatos adultos enfrentam longos períodos de espera em canis e gatis. Além da questão afetiva, a adoção desses animais também pode ser considerada uma decisão que auxilia na saúde pública e no manejo populacional desses animais no ambiente urbano.
Nesse contexto, foram instituídos os CCZs, com o objetivo de focar na vigilância epidemiológica e no controle de doenças que podem ser transmitidas por animais ao ser humano, como raiva e leishmaniose, além de casos em que os animais apresentam risco aos tutores ou agressividade. Mas, apesar de sua função inicial, essas unidades se tornam lares temporários e, por muitas vezes, permanentes para diversos animais.
Cães e gatos adultos aguardam por uma nova chance de recomeço nos canis e gatis do Centro de Controle de Zoonoses de Rio Branco. Foto: Rhawan Vital
De acordo com o agente de Vigilância em Zoonoses, Joel Pereira, do Centro de Zoonoses de Rio Branco, a busca por outra condição de vida para os animais é um objetivo a ser atingido, seja em um lar ou um ambiente adequado, para que recebam o devido carinho. Os animais adultos, quando acolhidos, também proporcionam uma experiência única para o tutor. Além disso, a quebra do ciclo de abandono passa, obrigatoriamente, pela educação da sociedade e pelo reconhecimento do animal a ser adotado. Escolher um animal adulto é priorizar a consciência ao invés de uma fase momentânea com um pet.
Dessa forma, a cultura da adoção é um indicativo de maturidade social. Ao escolher adotar, as pessoas deixam de ser apenas espectadores do problema do abandono para se envolver de forma ativa na solução. “Ter um bicho de estimação é bom, porque você tem companhia sempre. Também te faz ter um senso de responsabilidade que não tinha antes. Pra mim, é uma companhia que nunca incomoda”, afirma Álvaro Bagnara, tutor dos gatos Cheddar e Grafite.
Além da vigilância em saúde pública, o CCZ também se torna lar temporário e, muitas vezes, permanente, para animais vítimas do abandono. Foto: Rhawan Vital
Álvaro conta sobre seus gatos: Grafite foi adotada ainda filhote, então passou por uma fase de criação e ensinamentos, desde o onde se alimentar à caixa de areia. Já Cheddar chegou um pouco mais tarde na família, já adulto e após ser abandonado pelos antigos tutores, mas mesmo assim não deixou de entregar amor. Em relação à adaptação, o tutor dos felinos conta que o tempo bastou para que houvesse um entendimento de que compartilhavam o mesmo lugar.
“No começo a Grafite brincava muito de perturbar o Cheddar, que sempre foi muito quieto e na paz. Com o passar do tempo, apesar do Cheddar continuar no seu cantinho, a Grafite entendeu que eles moravam juntos. Ela não deixou de perturbá-lo, mas o Cheddar começou a revidar. Essa foi a diferença com o passar do tempo” conta Álvaro, de forma animada.
Adoção responsável
O CCZ de Rio Branco conta com 65 animais disponíveis para adoção, sendo eles cães e gatos, filhotes e adultos. Entre eles estão: 40 cães adultos, oito filhotes, 11 gatos adultos e seis filhotes. Os animais são vacinados e têm carteirinhas próprias, prontos para que seus tutores acompanhem e cuidem de maneira adequada, de acordo com datas e mutirões de vacinação disponíveis no futuro.
A adoção responsável transforma realidades: para quem adota, nasce um vínculo; para quem é adotado, surge a oportunidade de um lar. Foto: Rhawan Vital
A adoção pode ser feita de segunda a sexta-feira, entre as 7h e as 17h, e necessita que o interessado tenha mais de 18 anos, apresente o documento oficial e assine o termo de adoção responsável, documento que valida a adoção e a responsabilidade do novo dono do pet.
Ao retirar um animal adulto de um centro, o cidadão contribui diretamente para a redução da superlotação (tanto das ruas, quanto dos abrigos e CCZs) e permite que o Estado e outros profissionais da área veterinária direcionam recursos para outras frentes de saúde e bem-estar animal. É importante ressaltar que a adoção é um ato de responsabilidade civil, e não deve ser confundida apenas com uma boa ação.
Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com Rio Acre no centro das histórias
O jornal-laboratório da Ufac chega à 21ª edição com proposta editorial e visual renovadas, mantendo as matérias cotidianas e adotando o Rio Acre como fio condutor das pautas especiais
A sociedade nasce da água, escorre, se junta e ganha forma. É por essas águas, que carregam histórias e sonhos, que a catraia transporta vozes, perguntas e sentidos. Com essa premissa, o jornal-laboratório A Catraia, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac), chega à sua 21ª edição, em 2026, marcando o retorno de um dos principais espaços de prática jornalística e formação de profissionais, agora com uma proposta editorial e visual renovadas.
Além das notícias cotidianas, chamadas de corriqueiras, a edição deste ano traz matérias especiais inspiradas no Rio Acre, elemento central da formação histórica, social, cultural e econômica do estado. O rio funciona como eixo temático que atravessa diferentes editorias, conectando pautas de política, cultura, meio ambiente, economia, esporte e sociedade, sem perder o compromisso com a notícia, a crítica e a escuta.
O Rio reúne atividades em seu entorno, como na imagem, onde um grupo se reúne para praticar capoeira. Foto: Wellington Vidal.
Presente há mais de duas décadas na disciplina de Jornal Laboratório, o jornal A Catraia acompanhou gerações de estudantes e funciona como um espaço fundamental de formação profissional. É ali que muitos alunos têm o primeiro contato direto com a rotina do jornalismo, vivenciando processos de apuração, entrevistas, produção de texto, edição e trabalho em equipe, experiências que, para parte da turma, ainda não haviam ocorrido no mercado profissional.
Para a professora da disciplina e coordenadora do jornal, Giselle Lucena, o retorno do projeto movimenta todo o curso. Segundo ela, o Jornal Laboratório concentra expectativas tanto de professores quanto de estudantes, justamente por refletir o percurso formativo vivido ao longo da graduação.
“Tudo aquilo que os alunos aprenderam até aqui aparece nesse momento. O produto desenvolvido na disciplina acaba sendo um espelho do curso, com seus acertos, desafios e possibilidades”, afirma.
Giselle Lucena, professora da disciplina e coordenadora do jornal A Catraia. Foto: Arquivo pessoal.
Ela destaca que o espaço vai além da simulação do mercado. “Ao mesmo tempo em que buscamos reproduzir a dinâmica do mercado, o Jornal Laboratório também é um lugar de liberdade criativa. É o momento de experimentar formatos, propor outras narrativas e pensar novos modelos de jornalismo, algo que muitas vezes não foi possível em outras disciplinas”, completa.
A experiência prática também é percebida pelos estudantes envolvidos na produção. Para Wellington Vidal, repórter do A Catraia e, nesta edição, gestor de redes sociais, o jornal representa uma oportunidade de crescimento profissional e inovação.
“Contar histórias de pessoas e lugares do nosso estado, sobretudo com o tema rio como eixo, que é algo que vivenciamos de perto todos os anos, é um desafio que torna-se enriquecedor no meu processo de formação e abrange ainda mais a diversificação da escrita”, afirma.
Wellington Vidal, repórter e gestor de redes sociais da 21ª edição do jornal A Catraia. Foto: Arquivo Pessoal.
Ele ressalta o investimento nas plataformas digitais. “A rede social é o elo que liga tudo, por meio dela a equipe está buscando inovar com produções de vídeos e web reportagens, além de trazer uma nova identidade visual pro jornal”, completa.
Essa renovação também se reflete na repaginação do site e na nova logo do jornal. A identidade visual aposta em traços mais crus, referências amazônicas e uma estética de caráter mais vanguardista, que dialoga diretamente com o território, o rio e a proposta editorial da edição. A mudança marca uma nova fase do jornal, sem romper com sua história.
Identidade visual da edição de 2026 do jornal A Catraia. Imagem: Diogo José.
Nesta edição, a proposta editorial também se materializa na organização das editorias, que passam a dialogar diretamente com o eixo do rio e seus significados:
O doutor em Ciência Ambiental e professor do curso de Jornalismo da Ufac, Maurício Bittencourt, reforça que a escolha do Rio Acre como eixo central amplia o papel do jornalismo. Para ele, o rio é essencial para a identidade acreana e para a vida cotidiana da população. “O Rio Acre é fundamental para o transporte, a produção agrícola e o abastecimento de água. Milhares de pessoas dependem diretamente dele”, explica.
Segundo o professor, o jornalismo pode contribuir para uma cobertura que vá além dos períodos de cheia ou seca. “É preciso debater a preservação das nascentes, das matas ciliares e a responsabilidade das cidades em não poluir um manancial que abastece a população. O Rio Acre também é um rio internacional, o que amplia ainda mais os temas possíveis de abordagem, como fronteiras, entre outros”, destaca.
Assim, em 2026, A Catraia volta a navegar, levando informação à sociedade acreana, formando novos profissionais e acompanhando o fluxo do Rio Acre, como sempre foi: em movimento!
Por Maria Niélia Magalhães, Sérgio Corrêia e Gabriela Queiroz
Das cartas que cruzaram continentes aos aplicativos de mensagens instantâneas, a transição da escrita manual para a digital reflete mais do que uma evolução tecnológica — revela uma transformação profunda em como nos comunicamos, aprendemos e até mesmo como processamos informações. Enquanto especialistas debatem os impactos cognitivos e culturais dessa mudança, neurologistas, educadores e alunos avaliam os prós e contras de cada meio.
“Quando o aluno escreve à mão, ele pensa melhor no que está registrando, organiza o que é mais importante”, afirma a professora Cyndi de Oliveira Moura, 29 anos, formada em Letras pela Universidade Federal do Acre – Ufac e docente de Língua Portuguesa no ensino fundamental. Ela observa no dia a dia os efeitos da escrita manual: “alunos que anotam no caderno conseguem relembrar mais facilmente aquilo que foi explicado em sala.”
Ela destaca que a caligrafia também está ligada à criatividade, pois exige atenção e paciência. Mas nota que os estudantes atuais enfrentam dificuldades: “Eles são impacientes e querem escrever tão rápido quanto pensam. A escrita exige paciência e reflexão, mas o uso excessivo das telas acelera demais o pensamento.”
Apesar disso, a professora não vê a tecnologia como inimiga, e sim como ferramenta que precisa ser equilibrada com a escrita manual: “Os recursos digitais ampliam possibilidades, mas sem criticidade se limitam a cópias rápidas e informações superficiais. O ideal é equilibrar os dois mundos: o papel ajuda a refletir, enquanto a tecnologia prepara para o século XXI.”
Foto: Gabriela Queiroz
O advento da tecnologia digital transformou profundamente a maneira como registramos e comunicamos ideias. Se por um lado a digitação se tornou predominante pela sua praticidade e velocidade, por outro, a escrita manual resiste como prática fundamental – não por nostalgia, mas por seu impacto comprovado na cognição e no desenvolvimento cerebral.
A voz do estudante
Para Letícia Kelly, aluna do 2º ano do ensino médio de uma escola pública em Rio Branco, a escrita à mão continua sendo indispensável no seu processo de aprendizagem. “Eu prefiro escrever no caderno, porque fazer anotações melhora minha memória. Quando escrevo no celular, não consigo guardar tanto na mente”, afirma.
Elaborar pequenos textos e mapas mentais no papel facilita a memorização de detalhes importantes, segundo Kelly. “Infelizmente, as pessoas estão abandonando a escrita à mão, e isso é muito ruim, pois terão uma memória mais curta. Eu não consigo parar de escrever à mão, porque me ajuda a memorizar as coisas”, completa a estudante.
Atividade da aluna do 2º ano do Ensino Médio, Letícia Kelly. Foto: Maria Niélia
Não se trata de idealizar o passado ou desconsiderar os avanços tecnológicos. Afinal, todos nós aproveitamos a agilidade das mensagens instantâneas para nos conectar com quem está longe. No entanto, especialistas alertam: a caligrafia ativa regiões do cérebro relacionadas à memória e à criatividade de um modo que o teclado não consegue replicar.
Cenário Internacional
Pesquisas recentes confirmam que a escrita manual continua exercendo um papel fundamental no aprendizado. Um estudo norueguês, citado pela DW Brasil na reportagemEscrever à mão ajuda no aprendizado, aponta estudo, mostrou que escrever manualmente aumenta a atividade cerebral justamente nas regiões ligadas à memória e ao processamento motor e visual, favorecendo uma compreensão mais profunda e duradoura do conteúdo.
Já a BBC Brasil, emComo escrita à mão beneficia o cérebro e ganha nova chance em escolas, destaca a visão da neurocientista Claudia Aguirre, que afirma que escrever em cursivo, especialmente em comparação com digitar, ativa caminhos neurais específicos que otimizam o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem.
A Finlândia, país reconhecido por seu sistema educacional inovador, retirou a caligrafia do currículo obrigatório em 2016, priorizando o ensino de digitação (The Guardian, 2015). Nos Estados Unidos, discussões semelhantes ganharam força nos últimos anos. Essas mudanças, no entanto, não ocorrem sem controvérsias.
À medida que escolas e estudantes se adaptam às demandas de um mundo digital, pesquisadores seguem investigando como equilibrar tradição e inovação. Por um lado, alguns educadores defendem a adaptação aos novos tempos, por outro, especialistas em neurociência e desenvolvimento cognitivo alertam para as perdas associadas à diminuição da escrita manual.
O melhor de ambos
Enquanto isso, a ciência segue confirmando: escrever à mão é muito mais que um gesto cultural – é uma ferramenta poderosa para moldar o cérebro e expandir as fronteiras do pensamento. A pergunta que permanece não é apenas sobre qual método de escrita é mais eficiente, mas como podemos integrar o melhor de ambos para promover uma aprendizagem mais rica e significativa.
Não se trata, portanto, de uma disputa entre o antigo e o moderno, mas de reconhecer que ambas as formas de escrita — a manual e a digital — podem coexistir e se complementar. Como bem ilustram a professora Cyndi e a estudante Letícia, escrever à mão continua a ser um exercício de paciência, reflexão capaz de transformar informação em conhecimento.
No fim, o que importa é lembrar: escrever não é apenas registrar palavras — é processar ideias, construir sentidos e, acima de tudo, permanecer humano em um mundo em constante transformação.