Empreendedorismo, arte e ativismo: narrativas de resistência de mulheres periféricas no primeiro podcast original A Catraia
Os 3 episódios do programa mergulham nas experiências de mulheres periféricas na capital acreana, explorando como o ativismo, a arte e o empreendedorismo social se entrelaçam como formas concretas de existir e transformar a realidade.
Produção explora como mulheres de Rio Branco constroem caminhos de autonomia e dignidade, utilizando o empreendedorismo e a arte para resistir à exclusão
Por: Victor Manoel
A realidade social e econômica apresenta desafios únicos em Rio Branco, especialmente para grupos minorizados que enfrentam barreiras estruturais no acesso a direitos básicos, inclusive no mercado formal. Nesse contexto, o empreendedorismo surge não apenas como um meio de subsistência, mas como uma poderosa ferramenta de resistência, emancipação política e busca por autonomia e dignidade.
É essa força e criatividade que impulsionam o podcast “Trabalhar e Resistir”, projeto do curso de Jornalismo da Ufac, realizado no âmbito do jornal laboratório A Catraia, que busca ouvir essas narrativas de luta e superação. Os 3 episódios do programa mergulham nas experiências de mulheres periféricas na capital acreana, explorando como o ativismo, a arte e o empreendedorismo social se entrelaçam como formas concretas de existir e transformar a realidade.
Uma das vozes do podcast é da Luar Maria, atriz e estudante, que compartilha a dura realidade enfrentada pela população trans no Acre. Ela aponta a falta de seriedade e compreensão por parte de algumas gestões públicas em relação às necessidades dessa população e destaca a precariedade do acesso à saúde e a ligação entre empregabilidade e saúde. Luar ressalta que a luta por direitos e a busca por meios de subsistência andam juntas. Para ela, falta “seriedade no sentido de realmente tocar o que o recorte das secretarias está faltando”, e é preciso acreditar que essas políticas são cruciais para entender e avançar.
O podcast também apresenta Vands, artivista e empreendedora de ilustrações da periferia. Ela vê sua arte não apenas como expressão, mas como uma ferramenta de ativismo e uma forma de gerar renda, conectando seu trabalho a questões de justiça social, ambiental e direitos humanos. Transformar sua arte em empreendimento foi um passo natural, mas cheio de desafios práticos no contexto periférico. Vands define seu “artivismo” como a união da arte com o ativismo e considera “resistência”, pois fala de questões importantes e é criada “em um contexto em que (…) o capitalismo incentiva muito a gente a consumir sem pensar”.
Para oferecer um panorama mais amplo, o podcast incluiu a perspectiva institucional com Julci Ferreira, analista do Sebrae Acre e gestora de projetos como o Plural, focado em grupos sub-representados e pessoas em situação de vulnerabilidade. Julci explica a abordagem do Sebrae para o empreendedorismo inclusivo, buscando integrar esses grupos e dar a eles “luz e autoridade para se verem como empreendedores”. Ela afirma que “a ideia do Sebrae não é número, não é abrir CNPJ. A ideia do Sebrae é cada vez mais desenvolver ideias de negócio”.
Você sabia que absorventes são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS)? Criado pelo governo federal, o Programa Dignidade Menstrual é uma política pública voltada ao enfrentamento da pobreza menstrual no Brasil, garantindo a distribuição gratuita de absorventes e promovendo ações de orientação sobre saúde menstrual.
Apesar da iniciativa, a falta de informação ainda é um dos principais obstáculos para que o programa chegue a quem mais precisa. “Muita gente ainda não sabe que tem direito ao benefício”, afirma Jeane Moura, coordenadora da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Bom Jesus, em Rio Branco, ao comentar as dificuldades enfrentadas por pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade social.
Esse desconhecimento se insere em um contexto mais amplo de desigualdade. Pesquisa realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o UNICEF, revela que uma em cada quatro meninas brasileiras deixa de frequentar a escola durante o período menstrual por falta de absorventes e de condições adequadas de higiene. O levantamento também aponta que cerca de 4 milhões de estudantes vivem em situação de privação de higiene menstrual nas escolas.
O cenário evidencia a pobreza menstrual como um problema estrutural que afeta diretamente a permanência escolar, a saúde e a dignidade de mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade. Como forma de enfrentamento, o governo federal instituiu o Programa Dignidade Menstrual, que assegura a distribuição gratuita de absorventes por meio do SUS e da rede da Farmácia Popular.
Distribuição nas farmácias credenciadas. Foto: EBC
Como acessar os absorventes gratuitos
O acesso aos absorventes não é automático, mas o processo é simples. Podem solicitar o benefício pessoas que menstruam com idade entre 10 e 49 anos, que tenham renda familiar mensal de até R$218 por pessoa e estejam inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).
A solicitação pode ser feita pelo aplicativo Meu SUS Digital ou diretamente em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), alternativa importante para quem não tem acesso à internet ou enfrenta dificuldades no uso de aplicativos.
Após a autorização, é possível retirar até 40 absorventes por vez em farmácias credenciadas ao Programa Farmácia Popular, mediante apresentação de documento oficial com foto e CPF. Não é necessária receita médica nem qualquer tipo de pagamento. A autorização tem validade de 180 dias.
Em Rio Branco, as UBS também funcionam como pontos de apoio para facilitar o acesso ao programa. “Quando a pessoa não consegue utilizar o aplicativo, a UBS emite a autorização”, explica Jeane Moura. Segundo ela, agentes comunitários de saúde atuam na divulgação do benefício durante visitas domiciliares, orientando a população sobre quem tem direito e como acessar o programa.
Onde retirar os absorventes
No Acre, 17 farmácias localizadas em 11 municípios estão credenciadas para a distribuição gratuita de absorventes. Em Rio Branco, há unidades em diferentes regiões da cidade, o que amplia o acesso ao benefício.
Farmácias credenciadas no Acre:
Acrelândia – Farmácia do Trabalhador de Acrelândia LTDA (Centro)
Cruzeiro do Sul – H.R Lima (Centro)
Cruzeiro do Sul – Empreendimentos Pague Menos S/A (Baixa)
Epitaciolândia – Maria da Silva Freitas (Centro)
Feijó – R V N Felício – ME (Centro)
Plácido de Castro – Sérgio Carlos Vieira – EPP (Centro)
Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Centro)
Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Bosque)
Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Estação Experimental)
Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Cadeia Velha)
Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Seis de Agosto)
Rodrigues Alves – Drogaria Minha Saúde LTDA
Sena Madureira – E.J da Silva de Araújo LTDA (Centro)
Sena Madureira – J Cruz LTDA (Centro)
Senador Guiomard – Aurélio Alves de Lima – ME (Cohab)
Tarauacá – Valdicélio Lima da Silva LTDA (Centro)
Apesar da estrutura disponível, profissionais da atenção básica reforçam que a falta de informação ainda é o principal entrave para que o Programa Dignidade Menstrual alcance plenamente seu público-alvo, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade menstrual.
A trajetória e os desafios culturais e linguísticos de um estudante venezuelano no Acre
Acadêmico da Ufac, Osthin enfrenta o desafio de transitar entre o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês no ambiente acadêmico e profissional
Com uma trajetória marcada por travessias, fronteiras e barreiras linguísticas, o jovem venezuelano Osthin Querales fez do Acre o seu lar e espaço de aprendizado. Acadêmico de Letras-Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac), ele encara com bom humor o desafio de equilibrar o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês do ambiente profissional.
A vinda para o Brasil, há seis anos, foi um susto. Osthin estudava inglês na Venezuela quando sua mãe anunciou a mudança radical: “Agora bora estudar português”, recorda, rindo. A decisão de vir para o estado foi motivada pelo apoio de um familiar que já estava estabilizado e que relatou oportunidades locais de trabalho e estudo, diante da crise enfrentada pela Venezuela.
Chegada ao Brasil
Com o isolamento social causado pela pandemia da covid-19, ele cursou todo o 3º ano do ensino médio em Ensino a Distância (EAD). Embora tenha tido contato com o português, as interações eram limitadas, o que exigiu criatividade no processo de aprendizagem. Osthin passou a aproveitar situações do cotidiano como forma de estudo.
“Eu ia ao supermercado e aproveitava para ver o nome das coisas. Achava que sabão e sabonete eram a mesma coisa, mas não”, explica.
Além disso, ele conta que também assistia jogos de futebol com narradores brasileiros e “lives” de pessoas jogando videogame, como forma de praticar o estudo.
Ingresso na Ufac e confusões linguísticas memoráveis
Após concluir o ensino médio, embora inicialmente estivesse interessado em desenho gráfico e tecnologia, a ausência dessas opções na universidade levou Osthin a optar pelo curso de inglês, área que dialogava com sua formação anterior e com a necessidade de adaptação linguística no Brasil.
Ele relata que o maior avanço no domínio do português ocorreu após o ingresso na faculdade. “Eu aprendi português, me comuniquei com todo mundo, consegui desenvolver e pegar um pouco mais de confiança.”
A proximidade entre português e espanhol, apesar de facilitar o aprendizado, também gerou situações curiosas. Durante o primeiro almoço no restaurante universitário da Ufac, Osthin se confundiu ao relatar o cardápio.
“Eu fui almoçar no restaurante universitário e minha colega me perguntou o que tinha sido o almoço. Aí eu falei: arroz, frango, feijão e salada de cachaça”, conta, rindo.
“As duas palavras são tão diferentes, tipo, não sei porque eu lembrei de cachaça, eu nem sabia o que era isso”.
Outro episódio envolveu o uso dos diminutivos. Ao comentar fotos do bebê de uma colega, tentou ser carinhoso:
“Que fofinho o bebê, com sua calcinha, a camisinha”.
Ele acreditava que o sufixo “-inha” servia para qualquer peça de roupa pequena. “Não me matem. Não pensem coisas erradas”, pediu, envergonhado, ao descobrir o significado real das palavras.
Osthin Querales, estudante venezuelano de Letras-Inglês na Ufac, constrói sua trajetória acadêmica entre línguas, culturas e fronteiras. Foto: Wellington Vidal
Choques culturais e linguísticos
A adaptação também passou por choques culturais, como descobrir que brasileiros comem pizza com garfo e faca ou compreender expressões regionais como “dar um balão” e “vai cair um pau d’água”.
Quando questionado sobre qual língua considera mais fácil de aprender além da língua materna, Osthin responde sem hesitar: “Ah, gente, isso é muito fácil. O português de fato porque parece bastante com espanhol, não é igual, mas parece”.
Ele observa, no entanto, que essa proximidade também gera desafios, já que as semelhanças entre as línguas podem provocar confusão. Diferenças gramaticais e estruturais exigem atenção constante durante o processo de aprendizagem.
Trajetória como professor
A trajetória acadêmica de Osthin ganhou um novo capítulo no Centro de Idiomas da Ufac, onde, sob orientação da coordenadora Raquel Ishii, passou a ministrar cursos de inglês e espanhol. No início, o processo exigiu grande esforço cognitivo, já que precisava transitar entre três línguas para explicar os conteúdos aos alunos. Nas situações mais complexas, contou com o apoio da monitora Nicole, que auxiliava na mediação da comunicação.
Centro de Idiomas da Ufac, espaço de aprendizagem, troca cultural e formação linguística. Foto: Asscom/Ufac
Com o tempo, a experiência fortaleceu sua autonomia e consolidou o ensino como parte de sua identidade. Para Osthin, aprender um idioma vai além da gramática e envolve compreender histórias e culturas. Ele se inspira em um ditado popular das escolas venezuelanas: “no hay preguntas bobas sino bobos que no preguntan”, que significa “Não existem perguntas estúpidas, apenas pessoas estúpidas que não as fazem”.
Atualmente cursando o 8º período da Licenciatura em Letras-Inglês na Ufac, Osthin reconhece que o processo de adaptação foi desafiador, mas valoriza o acolhimento recebido:
“Obviamente que a gente teve nossas dificuldades, como tudo, nada é perfeito. Nossos momentos de saudades lá na Venezuela, saudades da família, do lar. Mas claramente eu valorizo tudo que eu venho conseguindo, as pessoas que eu venho conhecendo, o tratamento que as pessoas têm comigo e pra minha família”.
Ao citar o artista Bad Bunny, ele compartilha um lema pessoal: “Onde quer que você esteja, se você mudou de país, de grupo, de estado, de cidade, onde seja que você for, lembre-se sempre de onde você veio. Lembre-se sempre de onde veio os seus princípios, mas sempre seja grato onde você está”.
Orgulhoso, reforça sua identidade: “Eu sou venezuelano e sempre eu digo nas minhas apresentações, mas também eu sempre digo que sou muito grato pelas pessoas aqui que eu vim conhecendo, pelas pessoas brasileiras, por Rio Branco, pelo Acre”.
Para Osthin, a língua não é uma barreira, mas uma ponte, uma travessia possível, desde que exista disposição para se comunicar.
Boiúna, Mboi-Una, Mãe-do-rio, Senhora-das-águas, Cobra Honorato, Norato ou simplesmente “cobra grande”. A criatura que atravessa as histórias amazônicas há séculos aparece sob diversos nomes, mas guarda uma narrativa comum: ligada às águas, ao mistério e a uma cidade. Em Rio Branco, ela ganha um endereço, sob a Igreja Imaculada Conceição, no bairro Quinze, próximo a Gameleira, e se estende não apenas como um mistério, mas como parte do imaginário entre os rio-branquenses.
A Cobra Grande
Nos salões profundos do rio Acre, especialmente no remanso formado pela curva acentuada onde hoje está a Gameleira, vive a Cobra Grande, um ser encantado que mistura natureza e espírito, como os mitos indígenas amazônicos costumam atribuir aos bichos da floresta, a cobra é uma entidade.
A moradora antiga da região do bairro Quinze, Josefa Cabral, de 73 anos, afirma que já viu a cobra grande. À noite, quando foi buscar sua sobrinha da aula Josefa conta que a cobra “esticava, esticava, porque era muito comprida” e era grossa e com “os olhos bem grandes”. Segundo ela, a cobra ficou no barranco da Gameleira, perto dos barcos. “A cobra é muito grande” e “ela mora debaixo da igreja, ali por baixo.”
Ilustração da lenda da Cobra Grande. Foto: reprodução
As histórias afirmam que a entrada da toca da cobra fica no próprio salão do rio e que ela vive embaixo da Igreja. Mas, mais do que um mito, o perigo de mergulhar naquele lugar é real. A região tem uma formação irregular, a superfície pode parecer calma, mas, no fundo, a correnteza forma redemoinhos, conhecidos como remansos, que podem ocasionar afogamentos. Nos rios do Amazonas e, especialmente, do Acre, os remansos são armadilhas naturais formadas nas profundidades dos grandes salões que impedem quem cair de conseguir sair.
O psicólogo Carlos Souza conta que seu amigo, que perdeu os familiares para a Cobra-Grande, possui tatuado no em seu ombro a cobra. “Eu tenho um amigo que o irmão dele pulou no rio, no local que ele morava, onde chama de Salão. E, esse irmão não voltou. Tentaram achar e não conseguiram. Dois anos depois o pai dele pulou no mesmo lugar e o pai dele também não voltou. Eles eram acostumados a ver o rebojo da cobra – remanso ocasionado pelo movimento da Cobra-Grande – e tudo.”
Lendas da Amazônia
Para o historiador Marcos Vinicius, a compreensão da história da Cobra-Grande na Amazônia passa pela subjetividade e pela espiritualidade dos povos originários. Ele destaca que a Cobra-Grande é comum em toda a Amazônia, podendo ser encontrados relatos parecidos em outras capitais como Belém e Manaus. Além disso, apesar da cobra ser semelhante ao animal comum da natureza, ela possui outras propriedades; poderes que vão muito além do que humanos e animais podem ter.
“Os povos indígenas da Amazônia tem uma relação muito diferente com a natureza, por princípio, todos os seres vivos da floresta são, em parte, encantados. Enfim, é uma série de encantes, como a gente chama por aqui.”
Porto da Gameleira: Rua 17 de Novembro – Rio Branco, AC [1949]. Foto: Reprodução/Acervo IBGE
Onde Rio Branco nasceu e a Imaculada Conceição
Essa mesma região onde mora a Cobra-Grande foi o berço urbano da cidade. A Gameleira marcou o ponto escolhido para a formação do Seringal Volta da Empresa, depois Vila Rio Branco e, por fim, cidade de Rio Branco, fundada em 28 de dezembro de 1882. Ali surgiram a primeira rua, os primeiros comércios, os combates da Revolução Acreana, a primeira construção religiosa da cidade, a capela de Imaculada Conceição. “Foi construída pelos próprios moradores, por quem estava ali na beira do rio. Não tinha prefeitura, não tinha padre fixo, não tinha nada estruturado. Era a própria comunidade que ergueu”, explica. Para o historiador, as construções da época serviam como um símbolo de resistência e presença: “Aquilo era um marco. Uma afirmação de que havia uma comunidade ali. Antes de virar cidade, já tinha gente dizendo: ‘tem vida aqui’.”
De acordo com registros históricos da Diocese de Rio Branco, a estruturação religiosa da região teve um marco decisivo em 1920, com a criação da Prelazia de São Peregrino Laziosi. Desmembrada da Diocese de Manaus sob orientação do Papa, com a organização de Dom Próspero M. Bernardi e à Ordem dos Servos de Maria. O trabalho pastoral começou com o bispo e três religiosos, nas bacias dos rios Purus e Acre e as quatro paróquias já existentes desde 1910: São Sebastião de Xapuri, Imaculada Conceição de Nova Empreza (Rio Branco), Nossa Senhora da Conceição de Sena Madureira e São Sebastião de Vila Antimary.
A secretária da Paróquia Imaculada Conceição, Regina Monte afirma que a igreja foi originalmente construída como capela e com mais de cem anos, segundo texto de Dom Joaquim. Ela conta ter ouvido sobre a Cobra-Grande desde criança e que se trata de uma história antiga: “Essa lenda é do tempo que eu era criança. Eu já tenho uns 50 anos.” A versão que conhece diz que a cobra “mora embaixo da paróquia”, com a cabeça sob a igreja e o corpo se estendendo até a Gameleira. Para Regina, a história é conhecida entre os moradores da região, embora seja, diz ela, “uma lenda mesmo, né? Quem imagina um troço desse?”
Ser acreano
Na visão de Marcos o acreano tem perfil muito rico do “ser acreano”, misturando características psicológicas, históricas e culturais. Segundo ele, a identidade do povo é moldada por uma resistência “bem humorada” e uma conexão profunda com o ambiente ao seu redor.
“O acreano, culturalmente falando, tem uma característica bastante interessante. O acreano é irônico por natureza. Tudo aqui vira mangofa, vira piada. Enfim, mas essa ironia característica, ironia fina, não é só fazer graça. É uma maneira também de exercer a crítica política e social”, conta.
Essa relação com o místico é marcada por uma dualidade. Ele observa que, embora o povo local frequentemente utilize a ironia e o deboche ao narrar lendas de encantamento, esse comportamento não deve ser confundido com ceticismo. Pelo contrário: a ironia funciona como uma camada cultural que protege uma crença profunda, ainda muito viva e arraigada, especialmente nas comunidades do interior do estado. Para ele, o acreano “brinca” com a história da Cobra-Grande justamente por conviver com ela de forma tão próxima e verdadeira.
O imaginário coletivo
O psiquiatra suiço Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, apresenta o conceito de inconsciente coletivo, experiências transmitidas de geração para geração através da cultura. Esse inconsciente coletivo contém arquétipos, que são imagens, símbolos e padrões de comportamento que aparecem em mitos, sonhos, religiões, e até nas produções culturais modernas, os arquétipos não são aprendidos, são herdados.
Assim, Jung defendia que compreender o inconsciente coletivo é essencial para o processo da criação de uma identidade pessoal. O neuropsicólogo Carlos Souza, aponta que a Cobra-Grande têm um objetivo social, dar direcionamento para as pessoas que escutam, seja ter cautela ou se coragem.
A Cobra Grande faz parte do imaginário amazônico e vai sendo transmitida de geração em geração. “Então se for observar, você pega esse imaginário popular de toda a região amazônica, de todos os ribeirinhos, e isso vai para as escolas e vai tomando uma proporção inimaginável”, explica.
Paróquia Imaculada Conceição, bairro Quize – Segundo Distrito. Foto: Ranelly Pinheiro
O fio da meada
A preservação das narrativas amazônicas vai muito além do folclore. É manter o que Marcos Vinicius chama de “fio da meada”, o elemento que define a trajetória de uma sociedade forjada no isolamento da floresta. O historiador defende que o repertório cultural dos mais velhos é essencial para que as novas gerações não percam o sentido de pertencimento diante do fluxo constante das redes sociais.
Segundo ele, “essas histórias explicam quem nós somos, qual o caminho que nós passamos para chegar até aqui, e que nos diferencia de todo o resto” . É essa memória, afinal, que transforma um simples acidente geográfico ou uma árvore centenária em um poderoso marco de identidade.
Assim, perpetuar as lendas é um ato de resistência contra a homogeneização cultural. O professor pontua que o acreano precisa compreender sua própria geografia e seus símbolos, lembrando que o rio que corta a capital possui significados que não existem em outras regiões do Brasil.