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Travessias

“Abandonei tudo para cuidar de pessoas”: conheça a história do acreano que doou a vida para ajudar o próximo

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Por Amanda Silva e Francisca Samiele

Edivaldo de Freitas Paes dedicou sua vida ao próximo. Professor de geografia e ex-policial militar, trocou a estabilidade da carreira pelo compromisso de ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade. A jornada começou em 1994 quando decidiu visitar a família da esposa na Reserva Extrativista Chico Mendes. Lá, viu  pessoas desamparadas, sofrendo sem assistência médica e ficou comovido e se dispôs a socorrê-las.

O primeiro resgate foi de um senhor com pneumonia grave. Após três horas de caminhadas conseguiu buscá-lo e carregá-lo em uma rede até um barco que o levou ao hospital. Foi então que percebeu que não poderia mais ignorar a necessidade ao seu redor, saía dos plantões de 24 horas direto para o seringal aplicar medicação nos doentes, só avisava a família por telefone que iria na reserva extrativista.

 “Eu pegava o ônibus e descia no Araxá, andava três horas a pé, 45 minutos de barco e mais uma hora e meia a pé para chegar até a localidade”, recorda. Foi então que Edivaldo decidiu: “quer saber de uma coisa, eu vou sair da polícia e vou cuidar dessas pessoas” e, desde então, nunca mais parou.

Com recursos próprios, transportou doentes, prestou socorro, atendeu vítimas de acidentes e doenças graves, realizou até partos, tudo para garantir atendimento médico a quem precisava. Mais tarde, deixou a Polícia Militar para se dedicar integralmente a essa missão. Falou com o comandante que como muitos outros o chamou de louco pela decisão.

Após solicitar a baixa na PM, mesmo com a esposa resistente no início se mudou  para a Reserva Chico Mendes, após dois anos foi encontrado pela polícia por ser considerado desertor, foi então que descobriu que “engavetaram” seu pedido de baixa, mas após provar que cumpriu com os protocolos foi liberado.

Edivaldo Paes viu a necessidade e começou dar aulas no seringal. Em uma casa de farinha, durante o dia ensinava crianças e jovens e durante a noite alfabetizava os pais dos alunos. Logo conseguiu parcerias e ajudou a criar escolas e postos de saúde nas comunidades, tudo o que estava ao alcance ele fez.

Foto: Nathacha Albuquerque/g1 Acre

Seu Edivaldo se viu obrigado a voltar para Rio Branco pensando num futuro melhor para os filhos, ele conta que em torno de três meses do retorno começaram a procurá-lo. “Chegou o primeiro seringueiro, com a roupa em uma estopa nas costas e me disse: ‘professor, estou morrendo’. E já o levei ao pronto-socorro”, conta.

Quando se deu conta, estava com 30 pessoas na própria casa. Foi então que o filantropo fundou a Casa de Apoio a Saúde do Seringueiro, para dar suporte aos trabalhadores da borracha, mas já acolheu centenas de pessoas de todos os lugares, incluindo indígenas, idosos abandonados e doentes graves, sua casa se tornou abrigo para famílias, inclusive nos tempos de enchentes. “Quantas vezes eu ia do bairro Taquari até a fundação com os meus pacientes a pé porque nós não tínhamos passagem”, relata.

O cuidador deixou a vida de lado para cuidar do próximo. “Abandonei tudo para cuidar de pessoas que nunca tinha visto na vida”, mas diz não se arrepender do que fez: “Não me arrependo de tudo que deixei. Hoje, já era para eu ser tenente-coronel da PM aposentado, nunca pensei em voltar[…]. Meu lugar é onde está a pessoa passando necessidade para eu poder levar o conforto”.

Por várias vezes, Edivaldo Paes se emociona ao relembrar toda a trajetória que construiu. “As pessoas que eu mais cuido são pessoas que ninguém quer”, diz. Ele cuida de José da Silva, de 71 anos, há quase duas décadas. José é uma pessoa com deficiência abandonado pela família e depende totalmente de cuidados, não fala e nem anda. Ele atende pessoas com todos os tipos de doenças que buscam tratamento e não tem onde ficar.

Devido às dificuldades financeiras para manter a instituição funcionando, Edivaldo se reinventou. Produz artesanato com pneus, fabrica móveis, dá aulas de artesanato e vende salgados, faz de tudo um pouco. “Costumam dizer que sou bombril, mil e uma utilidades”, brinca. A esposa sempre esteve ao lado cuidando dos acolhidos e, durante anos, enfrentaram muitas dificuldades, cozinhando até mesmo em fogão a lenha quando o gás acabava.

Durante um tempo a Casa do Seringueiro funcionou em um terreno cedido onde foi construída parte da estrutura para abrigar os pacientes, mas precisaram deixar o local quando o antigo dono reivindicou o espaço de volta, mesmo prometendo nunca os despejar enquanto a instituição existisse. Agora, seu Edivaldo busca recursos para recomeçar e faz um pedido de socorro, ele quer construir pelo menos dois quartos para receber pacientes, pois onde está não tem estrutura para receber ninguém. “É um terreno que temos, mas vou doar para a casa”.

Edivaldo Freitas se orgulha de cuidar das pessoas. “Valeu todo o esforço e sacrifício que fiz durante minha vida toda vendo que eles estão bem […] Deus dá o frio de acordo com o cobertor. Se Ele vê que eu não aguento, não me dá esse frio. Quando eu morrer, com certeza para um lugar ruim eu não vou”.

O benfeitor encerra com um conselho: “se você mudar um pouquinho a história de alguém, você está ajudando a melhorar o mundo, não importa o que seja”.  Ele complementa com uma história “Um dia houve um incêndio na floresta, todos os animais corriam com medo do fogo. O beija-flor ia à água, pegava um pouquinho com o bico e jogava no fogo […] Sou aquele beija-flor, sei que eu não vou apagar os problemas do mundo, mas cada problema que vier e eu puder ajudar, é como aquela gotinha d’água que o beija-flor está jogando no fogo”.

Caso você tenha interesse em ajudar seu Edivaldo Freire Paes a reconstruir a Casa do Seringueiro, entre em contato pelo número (68) 9 9606-7461.

Casa de apoio a saúde do seringueiros – vídeo

Redação

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A trajetória e os desafios culturais e linguísticos de um estudante venezuelano no Acre

Acadêmico da Ufac, Osthin enfrenta o desafio de transitar entre o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês no ambiente acadêmico e profissional

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Por Victor Hugo Santos e Wellington Vidal

Com uma trajetória marcada por travessias, fronteiras e barreiras linguísticas, o jovem venezuelano Osthin Querales fez do Acre o seu lar e espaço de aprendizado. Acadêmico de Letras-Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac), ele encara com bom humor o desafio de equilibrar o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês do ambiente profissional.

A vinda para o Brasil, há seis anos, foi um susto. Osthin estudava inglês na Venezuela quando sua mãe anunciou a mudança radical: “Agora bora estudar português”, recorda, rindo. A decisão de vir para o estado foi motivada pelo apoio de um familiar que já estava estabilizado e que relatou oportunidades locais de trabalho e estudo, diante da crise enfrentada pela Venezuela.

Chegada ao Brasil

Com o isolamento social causado pela pandemia da covid-19, ele cursou todo o 3º ano do ensino médio em Ensino a Distância (EAD). Embora tenha tido contato com o português, as interações eram limitadas, o que exigiu criatividade no processo de aprendizagem. Osthin passou a aproveitar situações do cotidiano como forma de estudo.

“Eu ia ao supermercado e aproveitava para ver o nome das coisas. Achava que sabão e sabonete eram a mesma coisa, mas não”, explica.

Além disso, ele conta que também assistia jogos de futebol com narradores brasileiros e “lives” de pessoas jogando videogame, como forma de praticar o estudo.

Ingresso na Ufac e confusões linguísticas memoráveis

Após concluir o ensino médio, embora inicialmente estivesse interessado em desenho gráfico e tecnologia, a ausência dessas opções na universidade levou Osthin a optar pelo curso de inglês, área que dialogava com sua formação anterior e com a necessidade de adaptação linguística no Brasil.

Ele relata que o maior avanço no domínio do português ocorreu após o ingresso na faculdade. “Eu aprendi português, me comuniquei com todo mundo, consegui desenvolver e pegar um pouco mais de confiança.”

A proximidade entre português e espanhol, apesar de facilitar o aprendizado, também gerou situações curiosas. Durante o primeiro almoço no restaurante universitário da Ufac, Osthin se confundiu ao relatar o cardápio.

“Eu fui almoçar no restaurante universitário e minha colega me perguntou o que tinha sido o almoço. Aí eu falei: arroz, frango, feijão e salada de cachaça”, conta, rindo.

“As duas palavras são tão diferentes, tipo, não sei porque eu lembrei de cachaça, eu nem sabia o que era isso”.

Outro episódio envolveu o uso dos diminutivos. Ao comentar fotos do bebê de uma colega, tentou ser carinhoso:

“Que fofinho o bebê, com sua calcinha, a camisinha”.

Ele acreditava que o sufixo “-inha” servia para qualquer peça de roupa pequena. “Não me matem. Não pensem coisas erradas”, pediu, envergonhado, ao descobrir o significado real das palavras.

Osthin Querales, estudante venezuelano de Letras-Inglês na Ufac, constrói sua trajetória acadêmica entre línguas, culturas e fronteiras. Foto: Wellington Vidal

Choques culturais e linguísticos

A adaptação também passou por choques culturais, como descobrir que brasileiros comem pizza com garfo e faca ou compreender expressões regionais como “dar um balão” e “vai cair um pau d’água”.

Quando questionado sobre qual língua considera mais fácil de aprender além da língua materna, Osthin responde sem hesitar: “Ah, gente, isso é muito fácil. O português de fato porque parece bastante com espanhol, não é igual, mas parece”.

Ele observa, no entanto, que essa proximidade também gera desafios, já que as semelhanças entre as línguas podem provocar confusão. Diferenças gramaticais e estruturais exigem atenção constante durante o processo de aprendizagem.

Trajetória como professor

A trajetória acadêmica de Osthin ganhou um novo capítulo no Centro de Idiomas da Ufac, onde, sob orientação da coordenadora Raquel Ishii, passou a ministrar cursos de inglês e espanhol. No início, o processo exigiu grande esforço cognitivo, já que precisava transitar entre três línguas para explicar os conteúdos aos alunos. Nas situações mais complexas, contou com o apoio da monitora Nicole, que auxiliava na mediação da comunicação.

Centro de Idiomas da Ufac, espaço de aprendizagem, troca cultural e formação linguística. Foto: Asscom/Ufac

Com o tempo, a experiência fortaleceu sua autonomia e consolidou o ensino como parte de sua identidade. Para Osthin, aprender um idioma vai além da gramática e envolve compreender histórias e culturas. Ele se inspira em um ditado popular das escolas venezuelanas: “no hay preguntas bobas sino bobos que no preguntan”, que significa “Não existem perguntas estúpidas, apenas pessoas estúpidas que não as fazem”.

Atualmente cursando o 8º período da Licenciatura em Letras-Inglês na Ufac, Osthin reconhece que o processo de adaptação foi desafiador, mas valoriza o acolhimento recebido:

“Obviamente que a gente teve nossas dificuldades, como tudo, nada é perfeito. Nossos momentos de saudades lá na Venezuela, saudades da família, do lar. Mas claramente eu valorizo tudo que eu venho conseguindo, as pessoas que eu venho conhecendo, o tratamento que as pessoas têm comigo e pra minha família”.

Ao citar o artista Bad Bunny, ele compartilha um lema pessoal: “Onde quer que você esteja, se você mudou de país, de grupo, de estado, de cidade, onde seja que você for, lembre-se sempre de onde você veio. Lembre-se sempre de onde veio os seus princípios, mas sempre seja grato onde você está”.

Orgulhoso, reforça sua identidade: “Eu sou venezuelano e sempre eu digo nas minhas apresentações, mas também eu sempre digo que sou muito grato pelas pessoas aqui que eu vim conhecendo, pelas pessoas brasileiras, por Rio Branco, pelo Acre”.

Para Osthin, a língua não é uma barreira, mas uma ponte, uma travessia possível, desde que exista disposição para se comunicar.

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Especiais

A Cobra Grande continua viva em Rio Branco

Uma das primeiras igrejas erguidas no Acre, a Imaculada Conceição guarda memórias do
ciclo da borracha e histórias que resistem ao tempo.

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Por Eleonor Rocha e Ranelly Pinheiro

Boiúna, Mboi-Una, Mãe-do-rio, Senhora-das-águas, Cobra Honorato, Norato ou simplesmente “cobra grande”. A criatura que atravessa as histórias amazônicas há séculos aparece sob diversos nomes, mas guarda uma narrativa comum: ligada às águas, ao mistério e a uma cidade. Em Rio Branco, ela ganha um endereço, sob a Igreja Imaculada Conceição, no bairro Quinze, próximo a Gameleira, e se estende não apenas como um mistério, mas como parte do imaginário entre os rio-branquenses.

A Cobra Grande

Nos salões profundos do rio Acre, especialmente no remanso formado pela curva acentuada onde hoje está a Gameleira, vive a Cobra Grande, um ser encantado que mistura natureza e espírito, como os mitos indígenas amazônicos costumam atribuir aos bichos da floresta, a cobra é uma entidade.

A moradora antiga da região do bairro Quinze, Josefa Cabral, de 73 anos, afirma que já viu a cobra grande. À noite, quando foi buscar sua sobrinha da aula Josefa conta que a cobra “esticava, esticava, porque era muito comprida” e era grossa e com “os olhos bem grandes”. Segundo ela, a cobra ficou no barranco da Gameleira, perto dos barcos. “A cobra é muito grande” e “ela mora debaixo da igreja, ali por baixo.”

Ilustração da lenda da Cobra Grande. Foto: reprodução

As histórias afirmam que a entrada da toca da cobra fica no próprio salão do rio e que ela vive embaixo da Igreja. Mas, mais do que um mito, o perigo de mergulhar naquele lugar é real. A região tem uma formação irregular, a superfície pode parecer calma, mas, no fundo, a correnteza forma redemoinhos, conhecidos como remansos, que podem ocasionar afogamentos. Nos rios do Amazonas e, especialmente, do Acre, os remansos são armadilhas naturais formadas nas profundidades dos grandes salões que impedem quem cair de conseguir sair.

O psicólogo Carlos Souza conta que seu amigo, que perdeu os familiares para a Cobra-Grande, possui tatuado no em seu ombro a cobra.  “Eu tenho um amigo que o irmão dele pulou no rio, no local que ele morava, onde chama de Salão. E, esse irmão não voltou. Tentaram achar e não conseguiram. Dois anos depois o pai dele pulou no mesmo lugar e o pai dele também não voltou. Eles eram acostumados a ver o rebojo da cobra  – remanso ocasionado pelo movimento da Cobra-Grande – e tudo.”

Lendas da Amazônia

Para o historiador Marcos Vinicius, a compreensão da história da Cobra-Grande na Amazônia passa pela subjetividade e pela espiritualidade dos povos originários. Ele destaca que a Cobra-Grande é comum em toda a Amazônia, podendo ser encontrados relatos parecidos em outras capitais como Belém e Manaus. Além disso, apesar da cobra ser semelhante ao animal comum da natureza, ela possui outras propriedades; poderes que vão muito além do que humanos e animais podem ter.

“Os povos indígenas da Amazônia tem uma relação muito diferente com a natureza, por princípio, todos os seres vivos da floresta são, em parte, encantados. Enfim, é uma série de encantes, como a gente chama por aqui.”

Porto da Gameleira: Rua 17 de Novembro – Rio Branco, AC [1949]. Foto: Reprodução/Acervo IBGE

Onde Rio Branco nasceu e a Imaculada Conceição

Essa mesma região onde mora a Cobra-Grande foi o berço urbano da cidade. A Gameleira marcou o ponto escolhido para a formação do Seringal Volta da Empresa, depois Vila Rio Branco e, por fim, cidade de Rio Branco, fundada em 28 de dezembro de 1882. Ali surgiram a primeira rua, os primeiros comércios, os combates da Revolução Acreana, a primeira construção religiosa da cidade, a capela de Imaculada Conceição. “Foi construída pelos próprios moradores, por quem estava ali na beira do rio. Não tinha prefeitura, não tinha padre fixo, não tinha nada estruturado. Era a própria comunidade que ergueu”, explica. Para o historiador, as construções da época serviam como um símbolo de resistência e presença: “Aquilo era um marco. Uma afirmação de que havia uma comunidade ali. Antes de virar cidade, já tinha gente dizendo: ‘tem vida aqui’.”

De acordo com registros históricos da Diocese de Rio Branco, a estruturação religiosa da região teve um marco decisivo em 1920, com a criação da Prelazia de São Peregrino Laziosi. Desmembrada da Diocese de Manaus sob orientação do Papa, com a organização de Dom Próspero M. Bernardi e à Ordem dos Servos de Maria. O trabalho pastoral começou com o bispo e três religiosos, nas bacias dos rios Purus e Acre e as quatro paróquias já existentes desde 1910: São Sebastião de Xapuri, Imaculada Conceição de Nova Empreza (Rio Branco), Nossa Senhora da Conceição de Sena Madureira e São Sebastião de Vila Antimary.

A secretária da Paróquia Imaculada Conceição, Regina Monte afirma que a igreja foi originalmente construída como capela e com mais de cem anos, segundo texto de Dom Joaquim. Ela conta ter ouvido sobre a Cobra-Grande desde criança e que se trata de uma história antiga: “Essa lenda é do tempo que eu era criança. Eu já tenho uns 50 anos.” A versão que conhece diz que a cobra “mora embaixo da paróquia”, com a cabeça sob a igreja e o corpo se estendendo até a Gameleira. Para Regina, a história é conhecida entre os moradores da região, embora seja, diz ela, “uma lenda mesmo, né? Quem imagina um troço desse?”

Ser acreano

Na visão de Marcos o acreano tem perfil muito rico do “ser acreano”, misturando características psicológicas, históricas e culturais. Segundo ele, a identidade do povo é moldada por uma resistência “bem humorada” e uma conexão profunda com o ambiente ao seu redor.

“O acreano, culturalmente falando, tem uma característica bastante interessante. O acreano é irônico por natureza. Tudo aqui vira mangofa, vira piada. Enfim, mas essa ironia característica, ironia fina, não é só fazer graça. É uma maneira também de exercer a crítica política e social”, conta.

Essa relação com o místico é marcada por uma dualidade. Ele observa que, embora o povo local frequentemente utilize a ironia e o deboche ao narrar lendas de encantamento, esse comportamento não deve ser confundido com ceticismo. Pelo contrário: a ironia funciona como uma camada cultural que protege uma crença profunda, ainda muito viva e arraigada, especialmente nas comunidades do interior do estado. Para ele, o acreano “brinca” com a história da Cobra-Grande justamente por conviver com ela de forma tão próxima e verdadeira.

O imaginário coletivo

O psiquiatra suiço Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, apresenta o conceito de inconsciente coletivo, experiências transmitidas de geração para geração através da cultura. Esse inconsciente coletivo contém arquétipos, que são imagens, símbolos e padrões de comportamento que aparecem em mitos, sonhos, religiões, e até nas produções culturais modernas, os arquétipos não são aprendidos, são herdados.

Assim, Jung defendia que compreender o inconsciente coletivo é essencial para o processo da criação de uma identidade pessoal. O neuropsicólogo Carlos Souza, aponta que a Cobra-Grande têm um objetivo social, dar direcionamento para as pessoas que escutam, seja ter cautela ou se coragem.

A Cobra Grande faz parte do imaginário amazônico e vai sendo transmitida de geração em geração. “Então se for observar, você pega esse imaginário popular de toda a região amazônica, de todos os ribeirinhos, e isso vai para as escolas e vai tomando uma proporção inimaginável”, explica.

Paróquia Imaculada Conceição, bairro Quize – Segundo Distrito. Foto: Ranelly Pinheiro

O fio da meada

A preservação das narrativas amazônicas vai muito além do folclore. É manter o que Marcos Vinicius chama de “fio da meada”, o elemento que define a trajetória de uma sociedade forjada no isolamento da floresta. O historiador defende que o repertório cultural dos mais velhos é essencial para que as novas gerações não percam o sentido de pertencimento diante do fluxo constante das redes sociais.

Segundo ele, “essas histórias explicam quem nós somos, qual o caminho que nós passamos para chegar até aqui, e que nos diferencia de todo o resto” . É essa memória, afinal, que transforma um simples acidente geográfico ou uma árvore centenária em um poderoso marco de identidade.

Assim, perpetuar as lendas é um ato de resistência contra a homogeneização cultural. O professor pontua que o acreano precisa compreender sua própria geografia e seus símbolos, lembrando que o rio que corta a capital possui significados que não existem em outras regiões do Brasil.

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Travessias

Excomungado: quando a música acontece apesar de tudo

Em uma cidade onde a cultura muitas vezes é negligenciada, a Excomungado surgiu. Uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Formada por Carlos “Carlinhos” Hofre, Ícaro Moreira, Roberto “Bala” Padula e Lucas Alefe, a banda é mais do que um grupo de músicos, é um coletivo de amigos que transformou a paixão pela música em um projeto autoral, cheio de personalidade e força. De shows por diversão até planos ambiciosos para o futuro, a Excomungado traz consigo a prova de que o que falta na cultura do Acre é investimento.

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Por Gabriel Vitorino e Fernanda Maia

Em uma cidade onde a cultura muitas vezes é negligenciada, a Excomungado surgiu. Uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Formada por Carlos “Carlinhos” Hofre, Ícaro Moreira, Roberto “Bala” Padula e Lucas Alefe, a banda é mais do que um grupo de músicos, é um coletivo de amigos que transformou a paixão pela música em um projeto autoral, cheio de personalidade e força. De shows por diversão até planos ambiciosos para o futuro, a Excomungado traz consigo a prova de que o que falta na cultura do Acre é investimento.

A história da Excomungado começa com as trajetórias individuais de seus integrantes que, desde cedo, estiveram imersos no mundo da música. Carlinhos, o compositor e vocalista, começou a tocar violão aos 8 anos, aprendendo com o avô. Sua paixão pela música só cresceu após aulas com o renomado Geraldo Aquino, popularmente conhecido como Mestre Geraldinho, que ele descreve como um “gênio do violão”. Apesar de sua timidez em assumir o papel de frontman, Carlinhos é a alma criativa da banda, responsável pelas letras e melodias que definem o som da Excomungado.

Excomungado é uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Foto: Pan de Almeida

Já Ícaro, o baixista da banda, começou no violão aos 13 anos, aprendendo com o ex-cunhado, que é formado em música. Mais tarde, migrou para o baixo e conheceu o resto dos integrantes, assim acabou entrando para a Excomungado. Além da banda principal, Ícaro participa de vários projetos paralelos, incluindo covers de Radiohead, com a banda Superflat, e Terno Rei em um projeto entre amigos programado para ocorrer no dia 18 de abril, às 21h, no Studio Beer.

Bala, o baterista, cresceu em meio ao som de instrumentos. Filho de músico, ele começou a tocar bateria quase que por acidente, quando sobrou o instrumento após um ensaio da banda do pai, ele e os amigos decidiram tocar e, de acordo com ele, “a bateria foi o que sobrou”, disse rindo. Desde então, já passou por mais de 15 bandas, incluindo a Nickles, onde toca baixo. Sua experiência no cenário musical em Rio Branco e na música em si agregam muito ao desenvolvimento da Excomungado no cenário.

Por fim, Lucas, o guitarrista, começou na bateria aos 9 anos, mas foi com a guitarra do pai que ele realmente se encontrou. Autodidata, aprendeu a tocar sozinho, desenvolvendo um estilo único que hoje é uma das marcas da banda. Sua abordagem livre e cheia de personalidade traz uma sonoridade autêntica para a Excomungado.

 O Nascimento da Excomungado

A banda surgiu em 2019, em meio do caos da pandemia, quando Carlinhos, então com 14 anos, decidiu transformar suas composições em um projeto coletivo. Ele convidou Lucas, que já tocava na banda Selfless, focada em músicas do rock grunge, e juntos formaram a primeira formação da Excomungado, com Pedro na bateria, Mika no baixo e Isa no vocal. O primeiro show foi em um sarau na Ufac, um evento de artes cênicas, onde tocaram ao lado de outros artistas locais.

Banda Excomungado está presente nas noites de Rio Branco. Foto: Pan de Almeida

Desde então, a Excomungado cresceu e se consolidou como uma das principais atrações do cenário underground de Rio Branco. O nome da banda, que surgiu como uma brincadeira, ganhou significado ao longo do tempo, representando a resistência e a autenticidade de um grupo que não se encaixa nos moldes tradicionais da música no Acre. 

A Excomungado é um reflexo da realidade da cena musical de Rio Branco, onde os desafios são muitos, mas a paixão pela música é maior ainda. A falta de investimento em cultura, a escassez de espaços para shows e a dificuldade em conseguir editais são obstáculos constantes. “Aqui em Rio Branco, as bandas não têm investimento, nem lugar para tocar”, desabafam todos os membros, tanto como banda, quanto como músicos em busca de um espaço.

Apesar das limitações, a banda não se deixa abater. Eles já gravaram várias músicas em casa, usando equipamentos simples e muita criatividade. “A gente gravou no quintal, com uma pedaleira, um PC de 4 GB de RAM e microfones baratos”, conta Ícaro. A falta de recursos não impede a qualidade, as músicas da Excomungado são autênticas e cheias de personalidade, mostrando que a música autoral acontece independente das condições precárias.

A Excomungado não quer ficar restrita às garagens de Rio Branco. O principal objetivo da banda é conseguir um edital para gravar um álbum autoral, reunindo músicas antigas e novas. Eles já têm o projeto na cabeça, mas falta o recurso financeiro para colocá-lo em prática. “O objetivo é gravar, viajar e divulgar nosso trabalho”, diz Bala.

A Banda não quer ficar restrita às garagens de Rio Branco. Foto: Pan de Almeida

Em 2024, a banda lançou seu penúltimo single até o momento. A música “Bon Appétit” saiu no dia 10 de fevereiro e hoje já tem mais de 10 mil reproduções no spotify, chegando a ser citada na quinta posição da lista de “melhores músicas de 2024” de um comentarista do sudeste asiático que diz estar ansioso para os futuros lançamentos da Excomungado.

Com músicas produzidas por D.Silvestre, produtor de Rondônia que segue em ascensão na cena musical brasileira ganhando destaque principalmente pelo funk, a Excomungado busca criar algo único dentro da música, juntando suas referências que vão do rock clássico ao funk ao brega, eles alcançam um público grande contando com mais de 4 mil ouvintes anuais no spotify, cerca 17 mil streams em suas músicas com ouvintes distribuídos pelo mundo todo, da França a Indonésia.

A Excomungado é hoje uma promessa. Com o trabalho que realizam, eles mostram que a música autoral pode florescer, mesmo em condições adversas. Com talento, criatividade e muita paixão, Carlinhos, Ícaro, Bala e Lucas transformam desafios em música, provando que o rock de Rio Branco tem voz, força e futuro.

Redação

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