Por Fernanda Maia, Gabriel Vitorino, Jhenyfer de Souza
“Eu vou concordar com o que Machado de Assis fala: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” A frase escrita pelo escritor no século XIX ressoa hoje na voz de Mariany Santana, natural do Piauí, que aos 23 anos decidiu fazer laqueadura e escolheu romper de vez com a possibilidade de ser mãe.
Marieny enxerga a ausência de filhos não como uma falta, mas sim uma escolha de quais batalhas deseja enfrentar na sua vida. E esse pensamento não é isolado, assim como ela, cada vez mais mulheres questionam o destino que lhes foi imposto culturalmente por gerações: a maternidade.
O desejo de se opor à maternidade era um tabu, mas hoje ganha corpo em estatísticas e debates, que são explicados por dados que apontam não só para o medo da instabilidade econômica que dificulta a criação de filhos mas também para uma geração que, pela primeira vez, sente mais liberdade em reivindicar o direito de dizer, sem culpa, “não quero ser mãe”.
Além disso, dados mostram o crescimento do movimento de mulheres que pensam da mesma forma. Pesquisas do Censo 2022 (IBGE) mostraram que o percentual de mulheres com 50 a 59 anos que não tiveram filhos subiu para 16,1%, em comparação com os anos 2000 que era de apenas 10,0%. Além disso, a pesquisa demonstra que em 2010, o maior índice de fecundidade era visto no grupo de 20 a 24 anos. Já em 2022, esse pico se deslocou para a faixa de 25 a 29 anos. Esse envelhecimento é causado pela redução na fecundidade entre as mulheres mais jovens.
A PNAD 2019 revelou que 10% das mulheres em idade reprodutiva declararam não desejar filhos, isso coincide com a queda expressiva na taxa de fecundidade que era de 6,3 filhos por mulher em 1960 e chegou a 1,6 em 2022, abaixo do nível de reposição populacional (2,1).
Maternidade é escolha
Na sociedade existe há alguns séculos a necessidade de impor aos gêneros seus respectivos papeis, muito influenciados pela herança de uma cultura machista que restringia as mulheres à procriação e cuidados com o lar. Hoje notamos certas mudanças nesse contexto, mulheres estão conquistando cada vez mais os seus espaços fora do âmbito familiar e possuem reflexão cada vez maior sobre suas aptidões e desejos.
A maternidade foi muitas vezes associada a estereótipos que reduziram a mulher a papéis naturais de fragilidade e dedicação exclusiva ao cuidado com os outros. Essa visão ficou enraizada nas estruturas sociais, com as mulheres vistas como cuidadoras, responsáveis pelo lar, pela gestação e pela criação dos filhos, o que reforçava que a realização da mulher estava necessariamente ligada à maternidade.
Essa associação entre mulher e maternidade está cada vez mais distante da realidade atual da mulher, que muitas vezes visa liberdade e independência feminina. Hoje, algumas mulheres buscam autonomia, crescimento pessoal, profissional , e desafiam as funções que as definiram apenas com base em papéis reprodutivos. Para algumas mulheres a maternidade não é mais vista como um destino inevitável, mas sim uma escolha.
Pâmela Freitas palestrando sobre representações de mulheres e desconstruindo estereótipos. Foto: Arquivo Pessoal
A frase “não quero ser mãe” pode parecer simples, mas carrega um peso social imenso para quem decide dizê-la em voz alta, especialmente quando se é uma mulher jovem. Essa afirmação pode taxar a mulher que prefere não ser mãe como egoísta e colocando-a quase como vilã.
Escolha Definitiva
Em posicionamento público, por meio de suas redes sociais, Mariany Santana relatou como a decisão definitiva encerrou de uma vez por todas a possibilidade de ter filhos. O vídeo sobre sua experiência em fazer a laqueadura aos 23 anos viralizou e atingiu milhares de pessoas que se identificaram, discordaram ou se surpreenderam com sua posição convicta.
“Essa decisão de não ter filhos, ela não veio do dia para noite. Foi bem pensada. Começou com um sentimento de enxergar que a maternidade não era de fato para mim. A maternidade existe muito sacrifício, muda totalmente a dinâmica do casal, muda totalmente a mulher e é como se fosse um emprego vitalício. Então, eu vi que isso não era para mim”, contou Mariany.
Mariany testemunhou em sua própria família os sacrifícios da maternidade e decidiu que não queria seguir o caminho da criação dos filhos e optou pela cirurgia de laqueadura com o objetivo de realizar um método definitivo.
Ela buscou um método com 100% de garantia e optou por remover as trompas, ao invés dos métodos anticoncepcionais tradicionais. “Viver numa família grande, observar os sacrifícios, saber que eu estava criando uma criança para o mundo e que talvez essa criança não seguisse os os meus passos, não seguisse os meus conselhos, eu não teria controle sobre ele, sobre o que viveríamos, sobre os perigos ao qual ele poderia se expor, tudo isso me fez optar por não ser mãe.”
Apesar de sua decisão ter sido recebida com mensagens de apoio da grande parte de seus familiares, Mariany conta que ao publicar em suas redes sociais sofreu julgamentos e até ataques online por suas opiniões: “É um hate desmedido, é desproporcional, eles se lamentam e dizem que eu sou egoísta.”
Sem medo de se arrepender, Mariany segue firme em sua decisão. “Eu prefiro me arrepender por não não ter um filho do que ter um filho e me arrepender, eu tinha conhecimento sobre todos os métodos, sobre falhas, eu me mantive virgem para fazer a cirurgia, eu realmente estava firme.”
As Motivações
Os motivos por trás dessa escolha são diversos, e entre eles se encaixam questões econômicas, pois para a classe média, criar um filho até os 18 anos no Brasil custa em média R$ 1,4 milhão, segundo cálculos do IPC/FGV de 2023. As mulheres também estão cada vez mais valorizando o direito de decidir priorizar as suas vidas pessoais ou suas carreiras profissionais e ter autonomia sobre o seu corpo sem se dedicar às renúncias que vêm junto com a maternidade. Uma pesquisa do LinkedIn em 2023 sobre carreira e maternidade mostrou que aproximadamente 68% das mulheres sem filhos enxergam a maternidade como um obstáculo profissional.
Pâmela Freitas na Ufac dialogando sobre jornalismo, filosofia, ciência e tecnologia. Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista acreana Pâmela Freitas, 30 anos, desde cedo também não se via como mãe e buscou conhecimento sobre as questões sociais e trabalhos que envolvem a maternidade como um todo, principalmente para as mulheres.
A jornalista entende que ter filhos gera uma carga muito maior para a mãe. “Mesmo quando ela é casada e o pai é presente, a carga sempre é maior para a mulher, como basicamente tudo na vida. Então, eu acredito que, principalmente por esse motivo, por esse excesso de trabalho, por mais essa demanda, eu nunca tive vontade”, comentou Pâmela.
A decisão de não ter filhos também esbarra em políticas públicas que ainda tratam a maternidade como uma inevitabilidade. Métodos permanentes de contracepção, como a laqueadura, seguem cercados de exigências e burocracias, especialmente para mulheres jovens.
“Eu acredito que essa informação não chega de forma equivalente para todo mundo, e isso é um problema, porque faz com que muitas mulheres acabem engravidando por não saber como se prevenir ou por não ter acesso à cirurgia de laqueadura, por exemplo”, desabafou Pâmela.
No caso de Pamela, a decisão de não ser mãe não surgiu de um trauma ou evento isolado, mas de uma consciência desenvolvida ao longo da vida. Desde a juventude, Pâmela nunca se enxergou em narrativas tradicionais de casamento, filhos e rotina doméstica, enquanto muitas mulheres são ensinadas a sonhar com um berço no quarto e uma criança nos braços, ela sempre sonhou com estudos, idiomas, profissão e liberdade de escolhas.
“Eu quero ser professora universitária, eu queria trabalhar como jornalista, como assessora de imprensa para pegar bagagem, para levar para sala de aula quando eu me tornar uma professora. Eu gosto de estudar, estudar idiomas como um agregador pessoal e profissional. Então, meus planos de vida estão sempre voando”, destacou Pâmela.
Por onde passa, ela evita dar margem a julgamentos. “As pessoas que mais importam para mim são as que eu falo abertamente sobre isso. Outras pessoas eu comento sobre, mas nunca dou abertura para elas me criticarem.” Ainda assim, ela reconhece que o julgamento existe, não direcionado a si, mas presente na sociedade.
Realidade sem filtro
Há uma romantização da maternidade, que ignora as renúncias que ela impõe, filhos são sim, fonte de amor, mas também exigem tempo, dinheiro, disposição emocional e física, recursos esses que muitas mulheres hoje em dia preferem direcionar a si mesmas, aos seus projetos de vida, ou mesmo à liberdade de viver sem grandes vínculos familiares. Pâmela compreende isso com clareza, para ela ter filhos nunca fez parte de um ideal de realização.
Mulheres que não querem ser mães. Foto: Arquivo pessoal
Mais do que não desejar a maternidade, Pâmela e Mariany também rejeitam a experiência da gestação como os impactos causados no corpo, o risco à saúde que surge e as cobranças sociais que se impõem às mães desde o pré-natal até a vida adulta da criança.“Eu não queria ter que sofrer durante a maternidade, sentir enjoo, correr risco de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, eu não queria ter que parir”, disse Mariany. “Eu não quero a gestação, sabe? Aquelas mudanças no corpo, aquela transformação que passa no corpo da mulher quando ela engravida”, endossa Pâmela.
É nesse ponto que a sociedade frequentemente desumaniza a mulher que escolhe não ser mãe, quando a define como “incompleta” ou “egoísta”, mesmo quando a escolha está baseada em racionalidade, planejamento e autoconhecimento. Para muitas, inclusive, a cobrança de uma herança biológica torna-se um peso, outras querem deixar seu legado em suas ações, em suas profissões, nos vínculos afetivos que constroem voluntariamente, e não na continuidade de um sobrenome.
“Eu acredito que nós podemos ser o melhor que podemos para as pessoas que amamos. Essa é a marca que eu quero deixar”, relatou Mariany.
Além da questão da informação e do acesso aos métodos contraceptivos que aparecem com força nos relatos, as entrevistadas destacam o quanto a desigualdade pode impactar diretamente sobre a vida de mulheres que, como elas, não querem filhos.
Pâmela também reflete sobre outras desigualdades que atravessam esse debate: enquanto mulheres cis hétero são pressionadas a serem mães, casais homoafetivos enfrentam preconceito ao desejarem a parentalidade. “Quando você é uma pessoa LGBT e decide que quer adotar um filho, a sociedade tem uma reação oposta, eles acreditam que você não poderia fazer isso. Totalmente preconceituoso”.
Enquanto o debate sobre o tema cresce na sociedade, especialmente nas redes sociais e nas universidades, mulheres como Mariany e Pamela seguem abrindo caminhos para que a maternidade deixe de ser um destino automático e passe a ser, de fato, uma escolha. Mais do que rejeitar a maternidade, a escolha de mulheres é sobre liberdade. Sobre poder dizer “não” a um modelo pronto, e sim a uma vida construída com consciência e autonomia. Em suas palavras, ecoam não só as experiências, mas os pensamentos de uma geração que ousa fazer perguntas onde antes só havia respostas prontas.
Ao completar 21 anos de existência, A Catraia entra em um ano especial, que retoma a própria história por meio de relato da ex-integrante. A proposta é revisitar memórias, experiências acadêmicas e trajetórias profissionais que começaram ainda na graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Mais do que relembrar capas ou reportagens antigas, a equipe da A Catraia conversou com Adrielle Farias sobre o período em que era estudante e os primeiros passos na profissão. Adrielle que atuou como editora-chefe do jornal em 2018, ano que define como um dos mais intensos da formação acadêmica.
Foto: Instagram @adriellefarias
Escolha profissional e descoberta no curso
A decisão de cursar Jornalismo não foi imediata. Ainda na escola, Adrielle dividia interesses entre áreas criativas como audiovisual, escrita e comunicação.
“A gente nunca entra na faculdade totalmente sem dúvida, né? Eu gostava de muitas coisas”, afirma Adrielle.
Sem conhecer profundamente o curso da Ufac, ela se inscreveu e, somente após o ingresso, passou a pesquisar sobre professores, disciplinas e possibilidades profissionais. A identificação com a área ocorreu já durante a graduação.
“Eu só entendi que era aquilo que eu queria quando comecei a estudar, ver as matérias. Eu ficava ansiosa para acompanhar a grade curricular”, conta a jornalista.
“Meu pai sempre dizia que eu agarro o mundo com as pernas. Eu queria participar de tudo”, diz Adrielle Farias. Foto: cedida
Rotina intensa e desafios
Durante o curso, a participação nas disciplinas não foi suficiente. Adrielle também esteve envolvida em mostras acadêmicas, eventos e projetos extracurriculares, tendo A Catraia como principal espaço de atuação.
O fato de o curso ser noturno possibilitava trabalhar e estagiar durante o dia, realidade compartilhada por muitos estudantes. A conciliação das atividades, no entanto, trouxe desafios.
A sobrecarga resultou em ansiedade e na necessidade de aprender a administrar o tempo, habilidade que, segundo ela, não costuma aparecer formalmente na grade curricular. Ainda assim, considera que foi nesse período de intensidade que surgiram aprendizados decisivos.
Entre as experiências no jornal, uma reportagem sobre cinema ganhou destaque na trajetória profissional de Adrielle. O tema, que sempre esteve entre seus interesses pessoais, acabou influenciando também a escolha do Trabalho de Conclusão de Curso.
“Eu fui falar sobre cinema, que sempre foi algo de que eu gostei muito e ainda gosto. Inclusive, acho que isso acabou influenciando um pouco a escolha do meu TCC. Eu também usava isso como portfólio, para mostrar meu trabalho; quando me inscrevi para o treininho do Estadão, por exemplo, utilizei esse material como parte do portfólio”, conta a profissional.
Segundo ela, a experiência no jornal contribuiu para a conquista do atual emprego como repórter no Estadão.
Participação de Adrielle Faria no Intercom. Foto: cedida
Trabalho em equipe
Ao relembrar a atuação como editora-chefe, Adrielle destaca o papel do trabalho coletivo no exercício da profissão e orienta como dica para futuros jornalistas que ainda não atuam na profissão.
“O trabalho em equipe é essencial no jornalismo, porque ninguém faz um jornal sozinho. Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito, saber se comunicar e manter o diálogo, para que todos trabalhem pelo mesmo objetivo sem conflitos”, finaliza Adrielle.
“Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito”, afirma a profissional. Foto: cedida
Independência financeira: um caminho de autonomia para mulheres
Empreendedorismo feminino cresce como alternativa para conciliar carreira, maternidade e autonomia financeira, apesar dos desafios e preconceitos enfrentados no caminho
Por Antônia Liz, Barbara Santos, Prisco Martins, Sarah Viviane e Yasmim Barros*
O despertador de Serlândia Marques toca todos os dias às 5h da manhã. Antes de o sol se firmar no céu acreano, ela já prepara o café do filho mais novo, separa o uniforme e o leva para a escola. Depois, segue para o shopping onde abre as portas de sua franquia de cosméticos pontualmente às 10h. “Venho todos os dias. Não deixo a empresa ausente”, afirma.
A rotina intensa é o retrato de uma nova realidade. Após 26 anos trabalhando sob o regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), Serlândia decidiu, em 2024, recalcular a rota. Mãe de Felipe, Lucas e Pedro, ela percebeu que o emprego formal lhe roubava algo que o dinheiro não comprava: tempo.
“A maternidade e a busca por estabilidade financeira foram os pontos principais para eu empreender. Fui CLT por 26 anos e não tinha tanto tempo para os meus filhos. No decorrer do tempo, fui sentindo que deveria estar mais presente nos momentos familiares. Foi uma necessidade”, relata.
O caso de Serlândia reflete uma tendência que vem ganhando força no Acre e no Brasil. Cada vez mais mulheres enxergam no empreendedorismo não apenas uma fonte de renda, mas uma ferramenta para conquistar autonomia financeira e, principalmente, flexibilidade para conciliar a carreira com a maternidade.
Foto: cedida
Rede de apoio
Para que a jornada fosse possível, a empreendedora fez questão de destacar um elemento fundamental: o suporte da família. “Sempre tive minha rede de apoio muito próxima. Meu pai e minha mãe sempre me ajudaram muito. Meus filhos ficavam na casa deles para eu poder trabalhar”, conta Serlândia.
Mas mesmo com planejamento, a vida de mãe e empreendedora reserva surpresas. “Já precisei remarcar reuniões e compromissos várias vezes. Às vezes meu filho ficava doente e eu tinha que levar ao médico. A gente se vira”, comenta
O preconceito velado: “Já fui subestimada”
Se os desafios logísticos já são grandes, Serlândia revela que precisa lidar também com barreiras comportamentais. A misoginia, infelizmente, ainda é uma realidade para muitas mulheres que ousam empreender.
“As pessoas às vezes acham que não somos capazes de conciliar. Ter filhos requer muito tempo e atenção. Mas sempre me dediquei, me superei e fui presente tanto na empresa quanto na vida dos meus filhos”, destaca.
Ela confirma que já enfrentou situações de desconfiança ao longo da trajetória. “Sim, já fui subestimada e desacreditada. Mas a gente aprende a lidar, a não abaixar a cabeça e a seguir em frente.”
Hoje, aos 52 anos, Serlândia olha para trás com orgulho e para frente com esperança. A decisão de trocar a estabilidade da carteira assinada (CLT) pelo risco de investir no próprio negócio trouxe resultados que vão além do financeiro, mais autonomia, presença na vida dos filhos e a satisfação de construir algo próprio.
“Eu não trocaria essa experiência por nada. Ver meus filhos crescerem sabendo que a fiz o melhor pra oferecer uma qualidade de vida e conforto , não tem preço. A gente se supera todo dia. É difícil? É. Mas é recompensador”, afirma.
Sonho em realidade
Se para muitas mulheres o empreendedorismo surge como alternativa para aumentar a renda e conciliar com a maternidade, para outras ele se concretiza a partir de condições mais favoráveis. É o caso de Aline Mirella, proprietária de uma papelaria , que transformou um sonho antigo em realidade.
Diferente do que muitas vezes se imagina, Aline não precisou escolher entre a maternidade e a carreira. Ela tinha o desejo de empreender adormecido e decidiu o momento certo para tirar do papel um projeto cultivado desde a infância.
“A Vontade de empreender é algo que eu sempre desejei desde da minha infância, sempre busquei a independência financeira e a possibilidade de ter mais flexibilidade de horário e qualidade de vida”
Quando decidiu empreender foi com o objetivo de aumentar a renda. Naquele momento os filhos já estavam maiores e não dependiam tanto dela. Hoje eles também fazem parte do negócio, ajudam na loja e trabalham junto com a mãe. “Acabou virando algo que envolve toda a família. Meu marido e meus filhos sempre estiveram presentes e contribuíram para que tudo funcionasse”, complementa.
Foto: cedida
União e no apoio coletivo
Muitas mulheres empreendedoras encontram na união e no apoio coletivo uma forma de fortalecer seus negócios. É o que acontece no coletivo de mulheres “Elas Fazem Acontecer”. A coordenadora do coletivo, Teomayra Cristina, explica que o grupo surgiu justamente com o objetivo de criar oportunidades e fortalecer o trabalho das mulheres empreendedoras.
Segundo ela, o coletivo vai além da realização de feiras e eventos. A proposta também envolve a capacitação e o fortalecimento das empreendedoras. “A gente organiza eventos, busca parcerias e oferece cursos para ajudar as empreendedoras a melhorar o atendimento e a apresentação dos produtos. Também temos consciência da importância da autonomia e da independência financeira para nós, mulheres”
Outro ponto que ela destaca é a importância da educação financeira para quem decide abrir um negócio. “Temos parceria com o Sebrae, por meio do programa Ser Mulher, que oferece cursos profissionalizantes. Isso ajuda muito na hora da precificação, porque muitas mulheres entram no empreendedorismo sem saber como definir corretamente o preço dos produtos”
Apesar dos desafios, a coordenadora acredita que o primeiro passo para quem deseja empreender é ter iniciativa. “Se a mulher esperar se organizar totalmente financeiramente, talvez nunca comece. Muitas vezes é preciso ter coragem, dar o primeiro passo e buscar alternativas para fazer o negócio acontecer”, diz.
Segundo Teomayra, o coletivo reúne mulheres de diferentes perfis e realidades. “Não existe um perfil único. É um espaço muito diverso, com mulheres mais jovens e também aquelas que já estão próximas da aposentadoria, todas buscando algo em comum: independência e estabilidade financeira ”, conclui.
*Matéria escrita sob orientação do professor Wagner Costa e da monitora Ranelly Pinheiro, para a disciplina de Fundamentos do Jornalismo.
Os brechós fazem parte do cenário de consumo em Rio Branco, oferecendo roupas seminovas por preços mais baixos. A combinação entre economia e reaproveitamento de peças tem atraído moradores da capital acreana e impulsionado o empreendedorismo feminino. Esses espaços também se tornaram uma fonte de renda para muitas mulheres.
A empreendedora Brenda Vidal, de 32 anos, é a criadora do Brechic, brechó online que surgiu em 2020, no início da pandemia. A ideia nasceu quando ela estava em casa, com várias roupas paradas no armário e sem perspectiva de uso. Foi então que decidiu criar um perfil no Instagram para vender as peças.
“O Brêchic nasceu bem no começo da pandemia. Eu estava em casa, com várias roupas paradas no armário e praticamente zero chances de usar qualquer uma delas. Para ocupar a mente, resolvi criar um Instagram para vender essas peças.”
Vestido da marca Triton. Foto: cedida
Segundo Brenda, um dos diferenciais do negócio foi a forma como construiu a relação com as clientes. “Acho que o diferencial foi humanizar a página. Sempre mostrei a vida real, sem filtro perfeito, sem personagem. Queria que fosse um espaço onde as pessoas se sentissem acolhidas, como se estivessem conversando com uma amiga, mas sem perder o foco na moda consciente”.
Além do reaproveitamento de roupas, o preço das peças também chama a atenção dos consumidores. Segundo Brenda Vidal, um vestido da marca Triton, que pode custar cerca de R$398,00 em lojas ou plataformas online, foi vendido no Brechic por R$80,00. Já uma camisa da Damyller, que em média custa R$150,00 nas lojas, foi comercializada no brechó por apenas R$25,00.
Hoje, o Brechic funciona exclusivamente pelas redes sociais, por meio do perfil @brechic.ac, onde as peças são divulgadas e as vendas realizadas.
Além das iniciativas individuais, há brecholeiras que também se organizam por meio do Encontro das Brecholeiras. A idealizadora do projeto, Gélly Café, explica que a iniciativa surgiu inspirada em movimentos de moda sustentável dos quais participou quando morou em Brasília. Ao retornar para Rio Branco, percebeu que poderia transformar a experiência em um projeto coletivo, incentivando mulheres a empreender com peças que já tinham no guarda-roupa.
Imagem cedida pela entrevistada
Ao longo de quatro anos, o grupo acompanhou um crescimento significativo dos brechós no Acre, especialmente após a criação do Encontro. A proposta vai além da comercialização de roupas e inclui mentoria e fortalecimento coletivo.
“Muitas mulheres começaram apenas desapegando peças pessoais e hoje já têm fornecedores, estruturaram uma dinâmica comercial própria e atuam também no online, utilizando estratégias de comunicação e posicionamento”, destaca Gélly Café.
“No brechó, as pessoas conseguem se vestir bem, com qualidade e pagando pouco. A moda se torna acessível, inclusive para famílias que muitas vezes não conseguem comprar roupas em lojas convencionais”, afirma.
Imagem cedida pela entrevistada
Além da economia para os consumidores, o reaproveitamento de roupas também contribui para reduzir o descarte de peças que ainda estão em bom estado.
Para muitas mulheres, o brechó representa geração de renda, autonomia financeira e fortalecimento pessoal. O Encontro das Brecholeiras também promove uma rede de apoio e colaboração entre as participantes.
As agendas e informações sobre os eventos são divulgadas no Instagram, por meio do perfil @encontrodasbrecholeiras, onde também são divulgadas as próximas edições realizadas na cidade.
Entre os diferentes públicos atendidos pelos brechós, também há iniciativas voltadas para roupas e itens infantis. Como as crianças crescem rapidamente, muitas peças são usadas por pouco tempo, o que torna o reaproveitamento mais comum. Por isso, os brechós acabam sendo uma alternativa para pais e responsáveis venderem roupas que já não servem mais e, ao mesmo tempo, permitem que outras famílias encontrem peças infantis em bom estado por preços mais acessíveis.
A presença dos brechós em Rio Branco mostra diferentes formas de consumo e geração de renda na cidade. Mais do que uma opção econômica, esses espaços incentivam o consumo consciente, fortalecem o empreendedorismo feminino e permitem que consumidores tenham acesso a peças de marcas conhecidas e em bom estado por preços mais acessíveis.