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Há 20 anos contando histórias, A Catraia inicia nova fase celebrando o passado e mirando no futuro
Em 2025, mais uma turma de acadêmicos se torna “catraieira” e assume a produção para contar novas histórias.
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1 ano atrásem
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Redação
Ex-estudantes, professores e pessoas impactadas pela história do site falam sobre a importância do projeto para a universidade e comunidade externa. Foto: A Catraia
Por Victor Manoel*
Com um balanço da gestão do reitor da Universidade Federal do Acre (Ufac) Jonas Filho na capa, A Catraia publicava sua primeira edição em 2004. Criado como um projeto para aproximar o ambiente de uma redação da Universidade, o jornal passou por diversas fases, logotipos, greves, uma pandemia e colaborações ao longo dos anos. Em 2025, mais uma turma de acadêmicos se torna “catraieira” e assume a produção para contar novas histórias.
Em sua primeira fase, o jornal era publicado uma vez por ano, pois a disciplina de Jornal Laboratório – que à época se chamava Produção e Veiculação em Jornalismo Gráfico -, ocorria anualmente. Dificuldades para produzir duas edições por semestre levaram a reformulações ao longo dos anos. Com a reestruturação do curso, foi criado a disciplina de Jornal Laboratório 2 para dar continuidade ao trabalho. No entanto, durante a pandemia, o impresso deu lugar ao formato digital.
O modelo online possibilitou uma publicação mais ágil, tornando os textos acessíveis em menos tempo. Os acadêmicos passaram a ver seus nomes publicados com mais rapidez, compartilhar suas produções com a família e acompanhar o próprio desenvolvimento do produto final com maior facilidade.

A editora-chefe do site de notícias A Gazeta.Net, Gisele Almeida, relembra a influência do A Catraia em todo o mercado de comunicação do estado:
“Eu acredito que ele tem um potencial muito grande para ir além. Então, é muito importante para nós, como jornalistas, acadêmicos e profissionais da comunicação, termos esse contato, produzirmos matérias e vivenciarmos essa experiência dentro de A Catraia. Isso é essencial para ganharmos mais experiência e vivenciarmos a prática, porque, muitas vezes, acontece de estarmos no curso e sentirmos falta dessa vivência. Ele nos aproxima disso, nos coloca em contato com a produção de matérias, a publicação e a presença nas redes sociais”, conta.
Além de aprimorar a construção do texto, a prática tornou a escrita mais objetiva e direta, segundo a entrevistada. Ao lidar com fontes que utilizam linguagem técnica, foi essencial contextualizar e simplificar a informação para garantir uma leitura acessível. Ela também destaca a importância do contato com as fontes, do discernimento sobre o momento adequado para usá-las e da diferenciação entre “pauta fria” e “pauta quente”.
“Ele nos aproxima disso, nos coloca em contato com a produção de matérias, a publicação e a presença nas redes sociais”
Gisele almeida
“Por exemplo, algumas pautas que colocamos em A Catraia precisavam ser publicadas logo, porque no dia seguinte já perderiam relevância”, explica Almeida.
A nascente
A professora de Jornalismo Juliana Lofego ressalta que as primeiras edições enfrentaram diversos desafios. Questões técnicas eram mais complexas, já que não havia câmeras digitais, e os recursos disponíveis eram limitados. Com o tempo, os aplicativos evoluíram, mas, no início, a produção era “muito mais artesanal”, afirma.
“Os primeiros jornais foram feitos, literalmente, na marra. Ainda assim, a primeira turma conseguiu produzir, e a tradição era que cada turma lançasse dois jornais a cada semestre. Sempre foi muito desafiador produzir o jornal, pois não há uma verba específica nem condições ideais para sua realização […] O objetivo sempre foi permitir que os alunos participassem ativamente da montagem do jornal, pensando na linha editorial, nas pautas, na fotografia, nos títulos e nos próprios textos”, declara a docente.

Devido à pandemia de Covid-19 e à falta de recursos, o A Catraia migrou do impresso para o digital. Apesar dos desafios do ensino remoto e da limitação na troca de ideias entre professores e alunos, entre junho e dezembro de 2021 foram publicadas mais de 80 produções, entre matérias e perfis, elaboradas em duplas ou trios, lembra Maria Fernanda Arival, editora-chefe do site entre 2021 e 2022 e atualmente integrante da assessoria de comunicação da Secretária de Turismo e Empreendedorismo do Acre (Sete).
“Minha atuação como editora foi mais forte na primeira disciplina, quando recebia os textos dos meus colegas, revisava, discutia alterações com a professora, diagramava e postava no site. A oportunidade de participar de forma tão ativa nesse período do A Catraia foi, com certeza, muito proveitosa. Na época eu já tinha uma certa experiência com jornalismo digital pelo meu estágio em redação, mas consegui alinhar as duas práticas e aperfeiçoar cada vez mais meus conhecimentos nessa área tão importante no jornalismo do mundo atual”, revela sobre o período.
“O objetivo sempre foi permitir que os alunos participassem ativamente da montagem do jornal”
Juliana lofego
Com editorias comandadas por Guilherme Limes e Pamela Celina, Arival destaca a diversidade de pautas e perspectivas — inclusive, refletida no nome de uma das editorias do A Catraia. A professora Juliana Lofego também enfatiza a amplitude temática no universo “catraieiro”:
“Cada professor tem sua visão sobre a condução do projeto, mas a ideia original do Jornal Laboratório sempre foi fortalecer os estilos e as ideias dos alunos. Além da produção editorial, havia também um trabalho voltado ao layout do jornal, o que, em algumas edições, resultou na mudança da logomarca e das cores”, afirma.
Dos rios da sala de aula para o mar do mercado
“Eu digo que A Catraia foi um divisor de águas na minha carreira como jornalista, porque eu nunca tinha entrado em uma redação ou feito parte de nenhuma equipe nessa área do jornalismo. Sempre atuei com rádio e assessoria de comunicação, mas nunca havia trabalhado, de fato, em uma redação”, conta o editor-chefe do site de notícias ContilNet, Matheus Mello.
Ele entrou no veículo de comunicação que trabalha em 2022, e no A Catraia, Mello teve experiência com jornalismo online e impresso.
“Como já tinha essa experiência no digital de A Catraia, quando comecei no site, cheguei com uma noção clara do que era o jornalismo, do que era uma matéria, uma reportagem e, de fato, um portal de notícias. Por isso, digo que a experiência que tive em A Catraia foi essencial para moldar o profissional e o jornalista que sou hoje”, declara “Ter a oportunidade de viver essa experiência ainda na universidade nos ajuda muito quando entramos no mercado, porque já chegamos com outra mentalidade e com uma noção clara do que é um texto jornalístico e do que é uma reportagem”.

Lofego ressalta a conexão do jornal laboratório com os veículos de comunicação do estado. Para a professora, a experiência vai além do aprendizado sobre o layout digital de um portal de notícias, permitindo que os estudantes abordem temas frequentemente ausentes na mídia tradicional.
“A disciplina foi pensada para que os alunos colocassem a mão na massa e escrevessem com a liberdade que dificilmente terão no mercado, onde os jornais pertencem a empresas e têm seus próprios interesses. Na Ufac, sempre discutimos pautas, a pertinência dos temas e questões éticas, mas, em geral, os alunos têm bastante liberdade para desenvolver seus trabalhos”.
“A oportunidade de participar de forma tão ativa nesse período do A Catraia foi, com certeza, muito proveitosa”
Maria fernanda arival
Após deixar o barco, o que se leva dele
Gisele Almeida relembra como as reuniões de pauta foram essenciais para ela entender as dinâmicas de um espaço profissional:
“Outra coisa importante foi perceber o valor das reuniões de pauta. Entender que cada pessoa dentro do site tem sua função e que todas juntas formam um corpo de trabalho integrado foi essencial. Saber conversar e dialogar é fundamental. Mesmo sendo profissionais da comunicação, a importância do diálogo se torna ainda maior. Também aprendemos a ter cuidado ao escolher e montar a capa. Lembro que até analisamos edições impressas para decidir o que iria na capa e como organizaríamos as matérias. Como era um trabalho em equipe, trabalhamos a questão da hierarquia da informação para organizar tudo direitinho”, diz.
A Catraia produziu diversas matérias e denúncias que mobilizaram comunidade acadêmica e guardou memória de perfis emblemáticos da sociedade de Rio Branco. Para Maria Fernanda Arival existe uma em especial que a modificou como profissional:
“Minha amiga e colega de profissão, Camila Gomes, era minha dupla e decidimos escrever sobre o dono da loja Bazar Chefe. Não imaginávamos que aquela seria a última vez que alguém conseguiria registrá-lo em vida. Meses depois, o “seu Chefe”, como era chamado, faleceu, e todos os jornais usaram a foto da nossa produção para ilustrar as matérias que informavam seu falecimento”, relembra.
Matheus Mello encerra sua fala com uma reflexão sobre o papel do site no curso de Jornalismo, destacando como a experiência aprimora habilidades e discursos que os estudantes levam para diferentes áreas de suas vidas:
“A Catraia é o coração do nosso curso, porque todo bom profissional precisa passar por uma redação. Mesmo que depois siga para a TV, o rádio ou a assessoria, todo jornalista precisa ter essa vivência, pois a redação é a alma da profissão. O texto é a essência do nosso trabalho. Fico muito feliz por ter feito parte dessa história e por ter saído do curso com a certeza de que todo aluno é um antes e outro depois de passar por A Catraia”, conclui.
*Editor-chefe da edição 2025 do Jornal A Catraia
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Fluxo
Endurecimento migratório nos EUA levanta dúvidas entre torcedores que pensam em ir a Copa de 2026
Com orçamento bilionário para operações migratórias e expansão do ICE, Estados Unidos preparam o Mundial de 2026 em meio a um cenário de tensão
Publicado há
3 semanas atrásem
19 de março de 2026por
Redação
Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz
A Copa do Mundo FIFA de 2026 já pulsa no imaginário brasileiro. Segundo pesquisa da Ipsos, 71% dos torcedores do país pretendem assistir ao torneio. Ao mesmo tempo, o endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, um dos países-sede, levanta dúvidas entre viajantes sobre como será a entrada no país durante o evento.
Com um orçamento bilionário destinado ao reforço da fiscalização migratória nos próximos anos, o U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) tem ampliado operações em diferentes regiões do país. Para especialistas, o fortalecimento dessas estruturas pode tornar o processo de entrada mais rigoroso para estrangeiros.
O médico endocrinologista e viajante acreano Gil Lucena afirma que percebeu mudanças recentes no processo de imigração em viagens aos Estados Unidos.
“Agora é necessário passar por um agente da imigração que pode fazer alguns questionamentos”, relata.
Segundo ele, na viagem mais recente a Miami e Nova York, em novembro de 2025, o tempo de espera na imigração foi maior do que em visitas anteriores. Lucena também menciona que a obtenção de visto tem se tornado mais difícil para alguns estrangeiros e que negativas podem dificultar novas tentativas.
Apesar disso, ele afirma que as políticas migratórias, por si só, não o impedem de visitar o país. “Não vejo políticas imigratórias como empecilho para viajar aos Estados Unidos. Mas as tensões internacionais podem influenciar essa decisão”, conta.
Para o médico, o período da Copa deve combinar grande mobilização de torcedores com controles mais rígidos nas cidades-sede. “Imagino um mês de muita euforia local, mas também com controles migratórios mais demorados e segurança reforçada”, afirma.

71% dos torcedores brasileiros pretendem assistir ao torneio Imagem: Maria Eduarda Ruiz
Os números ajudam a dimensionar o contraste. Ao final de 2025, mais de 70 mil pessoas estavam sob custódia do U.S. Immigration and Customs Enforcement, um dos maiores patamares já registrados. Ao mesmo tempo, a FIFA recebeu mais de 500 milhões de
solicitações de ingressos para a Copa do Mundo FIFA de 2026 na fase inicial de sorteio, evidenciando a mobilização global em torno do torneio.
“Geografia do Medo” e o Inimigo Interno
Para compreender parte das preocupações relacionadas ao tema, o professor de Direito Internacional Daniel Zen, da Universidade Federal do Acre, aponta diferenças estruturais entre os sistemas de segurança pública do Brasil e dos Estados Unidos. Segundo ele, enquanto no Brasil as polícias seguem um padrão nacional, com divisões entre policiamento preventivo e investigativo, o modelo americano é mais descentralizado.
“Cada Estado tem autonomia para organizar suas forças policiais e não necessariamente precisa seguir o mesmo parâmetro de outros Estados. Diferentemente do Brasil, lá há uma distribuição de competências administrativas distinta”, explica.
Segundo Zen, esse modelo também pode abrir espaço para o uso político da segurança em determinados contextos. “Em alguns cenários constrói-se a ideia de um inimigo interno ou externo. Esse tipo de narrativa aparece com frequência em experiências de governos com tendências mais autoritárias”, afirma.
Na prática, segundo o professor, esse “inimigo” tende a ganhar rosto: imigrantes, especialmente latinos e negros, independentemente de sua situação legal.
O método dragnet e o risco da generalização
A professora de imigração, educação e política internacional da Harvard University, Gabrielle Oliveira, afirma que operações recentes do ICE têm adotado estratégias conhecidas como dragnet.
“Basicamente quer dizer que você leva todo mundo, que você não está só atrás das pessoas que são criminosos com condenações. O que a gente está vendo são carros com vidro arrombado, pessoas sendo presas na porta de casa… é usado muita violência”, relata.
Segundo ela, a abordagem amplia o risco de detenções temporárias até mesmo de pessoas com situação regular. “Mesmo se você tiver situação regular, até você provar, você já pode ter sido preso e detido. Eles só vão olhar e fazer perguntas depois que a pessoa é detida.”
Gabrielle aponta ainda que a intensificação das operações tem sido mais visível em alguns estados considerados politicamente progressistas.
“O governo quer mostrar serviço nas cidades e colocar mais medo como retaliação e punição”. O ambiente de incerteza, portanto, não distingue claramente o turista do residente, nem o regular do irregular.
Economia e medo nos bastidores
O clima de tensão migratória também pode ter reflexos indiretos em setores que tradicionalmente empregam trabalhadores imigrantes, como hotelaria, limpeza e construção civil.
A jornalista e mestre em Relações Interculturais Fabiana Santos, que vive em Maryland, relata que parte desses trabalhadores têm demonstrado receio de manter a rotina de trabalho.
“Há trabalhadores com medo de manter a rotina no emprego e uma parcela deles acabou largando o emprego.”
Segundo ela, muitos desses profissionais atuam como prestadores de serviço, como faxineiras, garçons, jardineiros e operários da construção civil. “Quando essa população começa a sair do mercado de trabalho, alguns serviços acabam sendo afetados”, observa.
Fabiana também questiona a percepção de que imigrantes em situação irregular não contribuem economicamente.
“Muitos utilizam o ITIN para pagar impostos mesmo sem ter número de seguridade social. Uma parte significativa dessa população paga tributos regularmente”, explica. O impacto, portanto, não é apenas social ou político, mas sim estrutural.
O “silêncio” das redações esportivas
Apesar da dimensão do tema, discussões sobre imigração e direitos civis ainda aparecem pouco na cobertura esportiva tradicional. A jornalista esportiva Cristina Dissat observa que grande parte das redações permanece focada em assuntos ligados ao campo.
“Entre os próprios jornalistas que cobrem esporte e futebol, essa abordagem ainda não tem feito parte das conversas do dia a dia. O foco é: quem foi convocado ou como conseguir credenciamento”, conta
Ela destaca que questionamentos mais políticos costumam partir de repórteres de outras editorias, que raramente protagonizam coletivas pré-Copa.
Dissat também relata mudança de comportamento entre torcedores. “Pelo que a gente tem escutado, várias pessoas desistiram. Pensam: ‘ah, não vou me aborrecer à toa, assisto pela televisão mesmo, a gente faz um churrasco’, relata.
A Copa do Mundo de 2026 será, antes de tudo, um evento de política externa, em que a bola pode ser apenas um detalhe sob a vigilância constante do governo norte-americano.
Especiais
Cidade do Povo: do refúgio das enchentes ao medo da violência
Criado para receber famílias retiradas de áreas de risco do Rio Acre, conjunto habitacional enfrenta altos índices de criminalidade e volta ao debate público após episódio recente
Publicado há
4 semanas atrásem
13 de março de 2026por
Redação
Por Diogo José e Vitória Messias
Após perder a casa onde morava com a mãe no bairro Taquari durante a grande enchente de 2015, M.J., que prefere não se identificar, encontrou na Cidade do Povo a oportunidade de recomeçar. Naquele ano, o Rio Acre atingiu a marca histórica de 18,40 metros, a maior registrada, segundo a Defesa Civil do Acre. A água cobriu completamente a residência da família, destruindo grande parte dos pertences.

Lixo e entulhos acumulados no bairro Taquari após a enchente de 2015 em Rio Branco. Foto: Aline Nascimento.
Sem reposição dos bens perdidos, a família foi incluída no cadastro de programas habitacionais do governo, assim como outros moradores das áreas atingidas pela cheia. No entanto, passados 11 anos da inauguração do bairro, M.J. afirma que parte dos residentes da Cidade do Povo convivem atualmente com outro tipo de preocupação: a segurança.
“Existem regras aqui dentro: se você não mexer com ninguém, ninguém mexe com você. Acaba que temos que aprender a lidar com isso no dia a dia, com essa insegurança”, afirma.
O que para muitas famílias que vivem em áreas consideradas de risco parecia representar um novo começo, com o passar dos anos passou a ser visto por parte da população como última alternativa. M.J. afirma que, apesar de morar no bairro e não ter planos de sair, a Cidade do Povo ainda enfrenta desafios relacionados também à infraestrutura e à localização.
“Apesar de ter saído do Taquari por conta da cheia, ainda assim tem vezes que chove muito aqui e também alaga. Sem contar a distância. Aqui é muito longe de tudo, principalmente se não tiver transporte”, relata.

Vista aérea do bairro Cidade do Povo, em Rio Branco. Imagem: Google Earth.
Dados do Ministério Público do Acre (MPAC), divulgados no último Anuário de Indicadores de Violência, mostram que a Cidade do Povo aparece entre os bairros com maior incidência de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) em Rio Branco entre os anos de 2021 e 2024.
Segundo o levantamento, em 2021 foram registrados cinco casos no bairro, o que corresponde a 8,6% do total de ocorrências. Em 2022, o número se manteve em cinco registros, representando 11,9%. Já em 2023 houve aumento significativo, com 13 casos, correspondendo a 21% das ocorrências. Em 2024, o número caiu para seis casos, equivalente a 12% do total.

Dados: MPAC. Gráfico: IA Google Gemini
Um caso recente de violência reforçou a preocupação de moradores com a segurança no bairro. Na noite da última quinta-feira, 12, dois trabalhadores da construção civil foram sequestrados e executados em uma área de mata próxima à rua Geraldo Leite, no bairro Cidade do Povo.

Remoção dos corpos das vítimas pelo Instituto Médico Legal (IML), após o crime registrado nesta quinta-feira, 12. Imagem: TV Gazeta
O crime repercutiu nas redes sociais e gerou comoção entre moradores e internautas. Em uma publicação sobre o caso no Instagram do portal de notícias ContilNet, diversos comentários expressaram indignação e preocupação com a situação de segurança na região. Entre as manifestações, internautas criticaram a falta de políticas públicas eficazes para enfrentar a criminalidade.
Comentários como “Esse povoado deveria ser extinto”, “E o governo construindo casa num lugar desse”, “Cidade do Povo foi criada para isolar a criminalidade, no entanto a segurança pública não deu conta” e “Daqui a pouco ninguém nem vai querer entrar nesse bairro” ilustram a percepção de parte da população diante da violência registrada na região. O episódio reforça o debate sobre os desafios enfrentados pela Cidade do Povo.

Comentários de internautas na publicação da notícia nas redes sociais. Imagem: Instagram/ContilNet.
Um bairro que nasceu da esperança
Planejada inicialmente com o lema “um recomeço com dignidade”, o bairro Cidade do Povo foi criado em 2014 por meio do programa Pró-Moradia do Governo Federal brasileiro, que busca financiar projetos habitacionais voltados para famílias de baixa renda e garantir melhor qualidade de vida a moradores de áreas de risco, principalmente aqueles afetados pelas enchentes que atingem a capital acreana. Com mais de 4 mil casas, a Cidade do Povo abriga atualmente mais de 15 mil moradores.

Casas da Cidade do Povo, entregues em 2014. Foto: Secretaria de Habitação do Acre (Sehab)
Apesar disso, o cenário revela uma realidade mais complexa, o que tem influenciado também a adesão dessas famílias vulneráveis ao programa. Fazendo com que algumas pessoas prefiram permanecer em áreas consideradas de risco.
Kessya Patrícia, que vive no bairro Cadeia Velha há 21 anos, não pensa em deixar a região, apesar das cheias recorrentes. “O bairro é atingido pela enchente, e durante a cheia a gente precisa sair de casa. Nossa casa só foi invadida pela água uma vez, mas a rua alaga e fica impossível sair para trabalhar ou estudar”, explica.
Para ela, apesar de ter direito ao benefício, a permanência no bairro, além de ter relação direta com a família, que vive próxima a casa, é um local bem localizado e seguro. “Mesmo com os riscos, nosso bairro é bem assistido e tem seus prós e contras”, conclui.
Reassentamento habitacional
As pessoas atingidas pelas enchentes estão entre os principais públicos da política chamada de reassentamento habitacional. Segundo o coordenador de Gestão de Riscos e Desastres da Defesa Civil do Acre, Pedro Henrique Corrêa, retirar famílias de áreas vulneráveis é uma estratégia importante dentro das ações de adaptação às mudanças climáticas.
“Quando falamos de reassentamento habitacional como política de adaptação a enchentes como as do Rio Acre, uma das medidas é exatamente remover o risco, ou seja, retirar as pessoas de áreas vulneráveis. No entanto, essa medida sozinha não é suficiente como política de adaptação climática, porque existem muitas outras variáveis envolvidas”, afirma.
Ele também aponta que há relação entre o aumento desses episódios e as mudanças climáticas, que têm intensificado fenômenos naturais extremos. “As mudanças climáticas têm feito com que os fenômenos sejam cada vez maiores e mais prejudiciais. Desde 2019, todos os anos, Rio Branco tem registrado uma ou mais enchentes. Em 2025, por exemplo, tivemos três transbordamentos do rio”, explica.

Enchente do Rio Acre em 2026. Foto: Dayane Leite
Outro ponto destacado é que áreas consideradas seguras atualmente podem se tornar vulneráveis no futuro, dependendo das transformações ambientais ou urbanas. Segundo ele, há um plano governamental integrado para retirar populações dessas áreas mais vulneráveis.
“Existe um planejamento envolvendo governo federal, estadual e municipal por meio de projetos habitacionais. Nessas iniciativas, as populações que vivem em áreas vulneráveis costumam ter prioridade”, acrescenta.
Espaços de vulnerabilidade
Para o cientista social e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Euclides, o fenômeno envolvendo projetos habitacionais e criminalidade não é exclusivo do local, muito menos do Acre. “O aumento da criminalidade está ligado a transformações sociais, econômicas e tecnológicas que o estado não acompanhou. É um fenômeno complexo, que se reproduz por décadas, e envolve desde políticas equivocadas de segurança pública até o crescimento das organizações criminosas”, explica.
Segundo ele, a forma como bairros planejados como a Cidade do Povo foram ocupados, afastados de centros urbanos, com infraestrutura inicial custosa e serviços públicos pouco mantidos, contribui para criar “espaços de vulnerabilidade”, onde jovens e famílias muitas vezes encontram poucas oportunidades de educação, emprego e lazer. É nesse vazio que grupos organizados se instalam, controlando territórios e impondo medo.
“Não se trata apenas de criminalidade. É a sociedade que, por desigualdade e abandono, oferece terreno fértil para essas atividades. O crime organizado preenche lacunas que o estado deixou, do acesso à justiça à presença da polícia, passando por educação e assistência social”, acrescenta Euclides.
Para ele, políticas públicas que priorizem a manutenção de serviços, o engajamento comunitário e a integração urbana poderiam reduzir esses riscos. “Investir apenas em repressão é combater o efeito, não a causa. É preciso desenvolver projetos que envolvam a comunidade, escolas, saúde, segurança e o próprio espaço público. Um bairro planejado que não garante cidadania, acaba virando território de disputa”, resume.
A busca por segurança
Diante desse cenário, órgãos de segurança pública têm buscado ampliar estratégias de combate à atuação de organizações criminosas no estado. Uma das iniciativas recentes é a criação de um canal específico para recebimento de denúncias da população.
O canal Investigador Cidadão foi lançado pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) em 2025, voltado ao enfrentamento de organizações criminosas que atuam no estado. A ferramenta permite que moradores enviem informações anônimas que possam auxiliar investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ou por outros órgãos de segurança pública.

Canal Investigador Cidadão permite o envio de denúncias anônimas para auxiliar investigações contra o crime organizado no Acre. Imagem: MPAC
Por meio do canal, é possível encaminhar textos, vídeos e áudios, além de realizar denúncias de forma anônima pelo WhatsApp, (68) 99993-2414. Segundo o site do MPAC, o objetivo da iniciativa é incentivar a participação da população no combate ao crime organizado e ampliar a rede de informações que auxiliam as investigações.
Entre os tipos de denúncias que podem ser feitas estão a identificação de membros de organizações criminosas, informações sobre lideranças e hierarquias dentro das facções, além da localização de foragidos da Justiça.
O canal também recebe relatos sobre torturas aplicadas por integrantes de grupos criminosos, bem como denúncias de crimes como homicídios, tráfico de drogas, sequestros, roubos e extorsão de comerciantes.
Casas erguidas, esperança em construção
Entre enchentes que forçam partidas, políticas públicas que tentam oferecer novos caminhos e desafios que persistem no cotidiano, a história da Cidade do Povo revela uma realidade marcada por contradições: o bairro que nasceu como símbolo de recomeço também convive com dificuldades estruturais, distância e preocupações com a segurança.
Ainda assim, para muitas famílias que perderam tudo nas águas do Rio Acre, o lugar representou a possibilidade concreta de reconstruir a vida pouco a pouco. M.J., que viu a antiga casa desaparecer sob a cheia de 2015, reafirma que permanecer ali é também um exercício de esperança.
“A gente perdeu muita coisa naquela enchente, mas aqui pelo menos tivemos a chance de começar de novo. A esperança da gente é que, com o tempo, o bairro também melhore e vire de verdade o lugar seguro que prometeram pra gente”.
Assim como o rio que um dia levou sua casa, a esperança também segue correndo em meio a insegurança da Cidade do Povo.
*A equipe do A Catraia entrou em contato com o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) para saber como o órgão avalia os índices de violência registrados na Cidade do Povo. No entanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.
Margens
Entrega voluntária de bebês para adoção garante sigilo, proteção e direitos às mulheres
Procedimento previsto em lei assegura acompanhamento psicossocial e não configura abandono
Publicado há
1 mês atrásem
25 de fevereiro de 2026por
Redação
Por Bruna Feitosa
Entre o silêncio, o medo do julgamento social e a falta de informação, muitas mulheres ainda desconhecem que entregar um filho para adoção não é crime, abandono ou negligência. No Acre, a entrega voluntária é um direito garantido por lei, mas que segue cercado por estigmas, desinformação e barreiras de acesso aos serviços públicos.
Prevista na legislação brasileira, através do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a entrega voluntária pode ser manifestada durante a gestação ou após o parto, ainda na maternidade. A solicitação pode ser feita em unidades de saúde ou em órgãos como o Conselho Tutelar, a Defensoria Pública, o Ministério Público e diretamente na Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC). Na prática, porém, o caminho até esses espaços nem sempre é claro para mulheres em situação de vulnerabilidade social, emocional ou econômica.

A entrega voluntária é um direito garantido por lei (Estatuto da Criança e do Adolescente e Lei 13.509/2017). Imagem: Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
No Acre, apenas sete casos de entrega voluntária foram registrados, segundo dados do Juízo da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Rio Branco, vinculada ao TJAC. O número levanta questionamentos: trata-se de um índice baixo ou apenas um reflexo da falta de informação e de políticas públicas que garantam orientação adequada?
Para a juíza Isabelle Sacramento, integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC, o procedimento tem impacto direto na redução do tempo de acolhimento institucional. “Esse procedimento assegura maior celeridade e evita que a criança permaneça por longo período em acolhimento institucional enquanto tramita uma ação de destituição do poder familiar”, afirma.

Isabelle Sacramento, juíza e integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC. Foto: Tribunal de Justiça do Acre
Como funciona o procedimento
Após a manifestação de interesse, a mulher é encaminhada obrigatoriamente à Justiça da Infância e da Juventude, onde passa a ser acompanhada por uma equipe técnica formada por profissionais da Psicologia e do Serviço Social. O atendimento deve ocorrer de forma sigilosa e sem constrangimentos, conforme determina o Marco Legal da Primeira Infância.
Após a formalização do pedido, ocorre uma audiência em que a mulher confirma sua decisão perante o juiz. Mesmo depois dessa etapa, a legislação prevê um prazo de até dez dias para eventual desistência. Durante esse período, o recém-nascido permanece acolhido institucionalmente.
Confirmada a decisão, a criança é encaminhada a pretendentes previamente habilitados no Sistema Nacional de Adoção, respeitando a ordem do cadastro e os critérios legais. Todo o procedimento é conduzido sob sigilo, preservando a identidade da mãe e da criança.
A juíza aponta que o receio de julgamento moral ainda é um dos principais fatores que afastam mulheres desse direito, porém ressalta a importância da ação. “Mais do que um ato jurídico, a entrega voluntária representa uma escolha amparada pela lei que busca assegurar à criança à convivência familiar e à mulher o respeito à sua autonomia”, finaliza.
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