Nos últimos anos, a crescente conscientização sobre a importância da sustentabilidade tem impulsionado mudanças significativas em diversos setores da sociedade. Entre essas mudanças, a reciclagem e a redução do lixo têm se destacado como estratégias fundamentais para a preservação do meio ambiente.
Nesta reportagem, traremos exemplos de empresas que aderem a políticas de gestão de resíduos e que priorizam a reciclagem e a reutilização de materiais.
A reciclagem é um processo que transforma resíduos descartados em novos produtos, reduzindo a necessidade de matéria-prima virgem e minimizando a quantidade de resíduos enviados para aterros sanitários. Ela desempenha um papel crucial na redução da exploração dos recursos naturais e na diminuição da poluição ambiental. Além disso, a reciclagem contribui para a economia ao criar empregos e impulsionar a indústria de reciclagem.
A reciclagem ganha destaque como uma abordagem sustentável para lidar com a crescente quantidade de resíduos gerados pela sociedade moderna. Segundo dados publicados pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) em 2020, a quantidade de Resíduos Sólidos gerados no Brasil aumentou de 66,7 milhões de toneladas em 2010 para 79,1 milhões em 2019, representando uma diferença de 12,4 milhões de toneladas. O mesmo estudo diz ainda que cada brasileiro produz, em média, 379,2 kg de lixo por ano, o que corresponde a mais de 1 kg por dia.
No Acre destacam-se empresas que trabalham com separação de lixo e logística reversa.
Projeto Catar
Separação de lixo no Projeto Catar. Fonte: Facebook do Projeto catar.
Desde sua criação em 2005, o Projeto CATAR vem se destacando como uma iniciativa que une forças entre catadores de lixo e a Prefeitura de Rio Branco em prol de um objetivo comum: promover a reciclagem e transformar resíduos em oportunidades. Com o apoio de aproximadamente trinta catadores, esse projeto simples, mas altamente eficaz, tem feito a diferença na cidade, gerando benefícios tanto para o meio ambiente quanto para a vida das pessoas envolvidas.
O catar funciona de forma cooperativa. Os catadores são peças-chave no processo, coletando materiais recicláveis, tanto de residências como de calçadas, pontos públicos e instituições da região. Em seguida, esses materiais são entregues ao projeto, que os prensa e os encaminhados para empresas que utilizam esse material.
Além de contribuir para a limpeza e o cuidado com o meio ambiente, o Projeto CATAR também desempenha um papel fundamental na melhoria das condições de vida dos catadores envolvidos. Ao fornecer uma fonte de renda digna e sustentável, o projeto oferece uma nova perspectiva de vida para esses profissionais, reconhecendo seu papel essencial na construção de uma cidade mais sustentável e consciente.
Há mais de 30 anos, Seu Raimundo Francisco Figueiredo da Silva, carinhosamente conhecido como Risadinha, dedica-se a uma nobre missão: a coleta de materiais recicláveis. Sua incansável jornada em prol da sustentabilidade ambiental tem sido um exemplo inspirador para muitos.
Seu Raimundo F. F. da Silva. Por: Dayanna Lopes
Atualmente, Risadinha concentra seus esforços na coleta de plástico, ferro e alumínio. Todos esses materiais são armazenados em sua casa e recolhidos pelo projeto Catar. Ele explica que o ferro que coleta é utilizado na confecção de camburões, e para isso, ele recolhe diversos tipos de objetos em ferro, desde fogões velhos até peças desgastadas. Todo o ferro coletado por ele é encaminhado para outros estados, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde é reciclado e reintroduzido na cadeia produtiva.
No que diz respeito ao plástico, Risadinha concentra-se principalmente em coletar garrafas pets e embalagens de produtos de limpeza. Ele ressalta que esse material é destinado a se transformar em caixas d’água, mas, lamentavelmente, não recebe o tratamento adequado em Rio Branco. O projeto Catar é responsável por triturar esse material e enviar para outros estados, onde são devidamente processados e reciclados.
Plástico coletado nas ruas. Por: Dayanna Lopes.
Ecoponto – Tucumã
Ecopondo Tucumã. Por: Dayanna Lopes.
O Ecoponto Tucumã foi inaugurado no dia 06 de outubro de 2017 pela prefeitura municipal de Rio Branco, pelo prefeito Marcos Alexandre, com o objetivo de haver um local adequado para descarte de matérias reaproveitáveis. De acordo com o projeto, deveriam ser construídos mais 14 ecopontos após esse.
Há três anos e seis meses, Éliton dos Santos Freire dedica-se ao trabalho no Ecoponto Tucumã. Nesse local, diversos materiais são recebidos diariamente e posteriormente separados pela equipe da Secretaria de Serviços Urbanos (SEMSUR) e encaminhados para cooperativas como o Projeto Catar, aterro de inertes ou para a Unidade de Tratamento de Resíduos Sólidos (UTRE). Éliton explica que o ecoponto possui uma logística reversa, responsável por separar os materiais e enviá-los para os destinos adequados.
Éliton dos Santos Freire. Por: Dayanna Lopes.
No Ecoponto Tucumã, são aceitos todos os tipos de materiais recicláveis, exceto resíduos remanescentes, como lixo hospitalar, agentes químicos e restos de comida. Materiais como plástico, ferro, vidro, papel, madeira, lâmpadas, galhadas, pneus, entulhos, eletrônicos, pilhas e baterias são separados cuidadosamente e encaminhados a destinação adequada de cada material reciclável.
Uma das principais preocupações do ecoponto é o descarte correto dos materiais. Éliton destaca que esses materiais podem ser reutilizados de várias maneiras, os pneus por exemplo, podem ser utilizados como matéria na fabricação de asfalto e grama sintética. Os materiais como papel e garrafas pet, podem ser triturados para que possam ser reaproveitados de forma sustentável. Outros materiais, como o alumínio, precisam ser derretidos para dar origem a novos produtos.
Esses materiais coletados aqui podem ter destinos diferentes, no lugar de poluir o planeta durante muitos anos, as garrafas PET podem ser transformadas em vassouras e cortinas, enquanto os pneus podem ser usados para produzir lixeiras e até mesmo canteiros de hortas. O Ecoponto Tucumã demonstra o potencial criativo e sustentável dos materiais recicláveis.
No entanto, a realidade do Estado do Acre é desafiadora em relação à logística reversa. A redução de pontos de coleta adequada é um problema enfrentado pela região. De acordo com o projeto inicial, deveriam ter sido construídos quinze ecopontos, mas foi implementado apenas o Ecoponto Tucumã que está em funcionamento. Isso resulta em uma sobrecarga no local, pois toda a demanda da região está concentrada ali.
Devido à falta de infraestrutura local, a maioria dos materiais coletados no Ecoponto Tucumã são encaminhados a cooperativas, onde são separados e processados para posterior envio a outros Estados, para serem utilizados como matéria-prima. Infelizmente, não existe uma empresa local capaz de lidar com esse tipo de material, o que demonstra uma necessidade urgente de investimentos e parcerias no setor de reciclagem na região.
Além dos materiais recicláveis, o ecoponto também recebe entulhos, como capas de telhas e restos de obras. Esse tipo de resíduo é destinado a aterros, onde são utilizados como barreiras no solo, garantidos para a preservação ambiental.
Éliton enfatiza a importância de receber papel no Ecoponto Tucumã, pois muitas pessoas têm dificuldade em descartá-lo corretamente, acabando por queimá-lo ou descartá-lo de forma inadequada. O ecoponto oferece uma solução, recebendo papel e encaminhando-o diretamente para o setor de reciclagem especializado nesse material.
No entanto, devido às restrições de espaço, o Ecoponto Tucumã precisa controlar a quantidade de lixo recebido. Éliton ressalta que existem limites de caixas e, às vezes, não é possível receber grandes recursos de entulho de uma única pessoa. Para atender a demanda de forma mais eficiente, seria necessário implementar os outros 14 ecopontos planejados inicialmente, distribuindo-os estrategicamente pela cidade.
O Ecoponto Tucumã desempenha um papel fundamental na promoção da sustentabilidade e da conscientização ambiental na região. Éliton e sua equipe trabalham arduamente para garantir que os materiais recicláveis sejam direcionados para o processamento e a reciclagem. No entanto, é evidente que mais investimentos e parcerias são necessários para melhorar a infraestrutura de reciclagem e ampliar a logística reversa no Estado do Acre. Com mais recursos e apoio, a região poderá avançar em direção a uma economia circular, onde o desperdício é reduzido e os materiais recicláveis são valorizados e reinseridos na cadeia produtiva.
RECICLAGEM E EDUCAÇÃO – CENTRO EDUCACIONAL BALÕES ENCANTADOS
Um novo olhar para a educação sustentável e criativa.
Muitas vezes uma garrafa plástica, uma caixa de papelão ou papéis usados são materiais vistos como sem utilidades e diariamente são descartados como lixo. Mas eles podem ter um destino diferente. Uma mente criativa e consciente, aliada a uma boa vontade de fazer a diferença, é capaz de transformar esses itens inutilizados em objetos incríveis que podem mudar a forma como as pessoas veem o lixo e incentivar uma visão mais responsável e consciente sobre o consumo e a reutilização de materiais. Quando essas atitudes começam já na escola, acabam transformando pequenos seres humanos em adultos conscientes e responsáveis, mudando assim, o futuro de muitas crianças.
Um exemplo dessa ação na iniciativa privada é na instituição Balões Encantados, uma escola que atua em Rio Branco há mais de 10 anos. Com turmas desde o berçário até o fundamental 1, os alunos são ensinados desde pequenos a respeitarem o meio ambiente com atitudes que vão desde plantar uma árvore até reaproveitar materiais que seriam descartados.
Campanha de reciclagem na escola durante a semana do Meio Ambiente. Por: Ana Michele
Além de incentivar as crianças a trabalharem com esses materiais, a própria equipe de professores e coordenação utilizam materiais recicláveis para recursos pedagógicos. Uma simples garrafa plástica que demoraria de 200 a 600 anos para se decompor no meio ambiente, de acordo com o ibama, nas mãos dessas crianças e profissionais, se transformam em boliche, foguete, potes para guardar materiais usados em sala, instrumentos musicais, recursos para contagens que podem ser utilizados em várias atividades e a lista vai longe! Não existe limite para a criatividade na hora de reaproveitar o lixo.
A instituição foi fundada em 2010 e pertence a uma congregação católica. A irmã Maria Juliana Silva de Almeida, além de pertencer a congregação, também é pedagoga e foi uma das primeiras freiras a cuidar da escola. Ela conta que desde o início, sempre valorizaram o reaproveitamento de materiais. No começo, além da questão ambiental, a prática era muito útil por motivos financeiros, já que na época não tinham tantos recursos. ‘’As crianças confeccionaram livros de histórias utilizando colagens e desenhos, inclusive, as primeiras prateleiras da biblioteca eram feitas de papelão.’’ Conta a irmã.
Mesmo com todo o desenvolvimento e acervos que a escola possui hoje em dia, não abandonaram a prática. De acordo com a coordenadora pedagógica Maria Auxiliadora Da Silva e Silva, 31 anos, o objetivo é ensinar as crianças a reduzirem a quantidade de lixo e fazer com que sejam adultos mais conscientes. ‘’Nossa intenção é fazer com que percebam que pequenas ações, como por exemplo, usar os dois lados de uma folha de papel, também é cuidar do meio ambiente.’’ Afirma Maria Auxiliadora.
Além de aplicar essas práticas na escola, também incentivam que adotem esses comportamentos em casa. ‘’Muitos pais não tiveram ou não tem essa consciência relacionado ao cuidado com o descarte do lixo, com o tempo que cada tipo de material leva para se decompor e até mesmo com a redução do consumo. Então sempre propomos atividades para que os pais possam trabalhar com a criança em casa utilizando materiais que seriam jogados fora.’’ Ressalta Maria Auxiliadora.
Criança explorando brinquedo lúdico feito a partir de materiais reciclados. Por: Ana Michele.
Em uma sociedade cada vez mais consumista, pequenas atitudes sustentáveis já são suficientes para gerar transformações ao nosso redor. ‘’ Diminuímos bastante o lixo quando pegamos os resíduos e transformamos em brinquedos ou materiais que podem ser bastante úteis. Muitos pais compram um brinquedo, a criança usa duas vezes, quebra e eles imediatamente compram outro. Já fizemos uma campanha pedindo para que não comprem brinquedo de pilha, pois elas agridem a natureza. O consumismo só serve para deixar o planeta mais doente.’’ Complementa a irmã Maria Juliana. A escola utiliza materiais reciclados e promove campanhas junto aos pais, para que os alunos criem brinquedos a partir de resíduos sólidos.
Ao completar 21 anos de existência, A Catraia entra em um ano especial, que retoma a própria história por meio de relato da ex-integrante. A proposta é revisitar memórias, experiências acadêmicas e trajetórias profissionais que começaram ainda na graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Mais do que relembrar capas ou reportagens antigas, a equipe da A Catraia conversou com Adrielle Farias sobre o período em que era estudante e os primeiros passos na profissão. Adrielle que atuou como editora-chefe do jornal em 2018, ano que define como um dos mais intensos da formação acadêmica.
Foto: Instagram @adriellefarias
Escolha profissional e descoberta no curso
A decisão de cursar Jornalismo não foi imediata. Ainda na escola, Adrielle dividia interesses entre áreas criativas como audiovisual, escrita e comunicação.
“A gente nunca entra na faculdade totalmente sem dúvida, né? Eu gostava de muitas coisas”, afirma Adrielle.
Sem conhecer profundamente o curso da Ufac, ela se inscreveu e, somente após o ingresso, passou a pesquisar sobre professores, disciplinas e possibilidades profissionais. A identificação com a área ocorreu já durante a graduação.
“Eu só entendi que era aquilo que eu queria quando comecei a estudar, ver as matérias. Eu ficava ansiosa para acompanhar a grade curricular”, conta a jornalista.
“Meu pai sempre dizia que eu agarro o mundo com as pernas. Eu queria participar de tudo”, diz Adrielle Farias. Foto: cedida
Rotina intensa e desafios
Durante o curso, a participação nas disciplinas não foi suficiente. Adrielle também esteve envolvida em mostras acadêmicas, eventos e projetos extracurriculares, tendo A Catraia como principal espaço de atuação.
O fato de o curso ser noturno possibilitava trabalhar e estagiar durante o dia, realidade compartilhada por muitos estudantes. A conciliação das atividades, no entanto, trouxe desafios.
A sobrecarga resultou em ansiedade e na necessidade de aprender a administrar o tempo, habilidade que, segundo ela, não costuma aparecer formalmente na grade curricular. Ainda assim, considera que foi nesse período de intensidade que surgiram aprendizados decisivos.
Entre as experiências no jornal, uma reportagem sobre cinema ganhou destaque na trajetória profissional de Adrielle. O tema, que sempre esteve entre seus interesses pessoais, acabou influenciando também a escolha do Trabalho de Conclusão de Curso.
“Eu fui falar sobre cinema, que sempre foi algo de que eu gostei muito e ainda gosto. Inclusive, acho que isso acabou influenciando um pouco a escolha do meu TCC. Eu também usava isso como portfólio, para mostrar meu trabalho; quando me inscrevi para o treininho do Estadão, por exemplo, utilizei esse material como parte do portfólio”, conta a profissional.
Segundo ela, a experiência no jornal contribuiu para a conquista do atual emprego como repórter no Estadão.
Participação de Adrielle Faria no Intercom. Foto: cedida
Trabalho em equipe
Ao relembrar a atuação como editora-chefe, Adrielle destaca o papel do trabalho coletivo no exercício da profissão e orienta como dica para futuros jornalistas que ainda não atuam na profissão.
“O trabalho em equipe é essencial no jornalismo, porque ninguém faz um jornal sozinho. Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito, saber se comunicar e manter o diálogo, para que todos trabalhem pelo mesmo objetivo sem conflitos”, finaliza Adrielle.
“Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito”, afirma a profissional. Foto: cedida
Independência financeira: um caminho de autonomia para mulheres
Empreendedorismo feminino cresce como alternativa para conciliar carreira, maternidade e autonomia financeira, apesar dos desafios e preconceitos enfrentados no caminho
Por Antônia Liz, Barbara Santos, Prisco Martins, Sarah Viviane e Yasmim Barros*
O despertador de Serlândia Marques toca todos os dias às 5h da manhã. Antes de o sol se firmar no céu acreano, ela já prepara o café do filho mais novo, separa o uniforme e o leva para a escola. Depois, segue para o shopping onde abre as portas de sua franquia de cosméticos pontualmente às 10h. “Venho todos os dias. Não deixo a empresa ausente”, afirma.
A rotina intensa é o retrato de uma nova realidade. Após 26 anos trabalhando sob o regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), Serlândia decidiu, em 2024, recalcular a rota. Mãe de Felipe, Lucas e Pedro, ela percebeu que o emprego formal lhe roubava algo que o dinheiro não comprava: tempo.
“A maternidade e a busca por estabilidade financeira foram os pontos principais para eu empreender. Fui CLT por 26 anos e não tinha tanto tempo para os meus filhos. No decorrer do tempo, fui sentindo que deveria estar mais presente nos momentos familiares. Foi uma necessidade”, relata.
O caso de Serlândia reflete uma tendência que vem ganhando força no Acre e no Brasil. Cada vez mais mulheres enxergam no empreendedorismo não apenas uma fonte de renda, mas uma ferramenta para conquistar autonomia financeira e, principalmente, flexibilidade para conciliar a carreira com a maternidade.
Foto: cedida
Rede de apoio
Para que a jornada fosse possível, a empreendedora fez questão de destacar um elemento fundamental: o suporte da família. “Sempre tive minha rede de apoio muito próxima. Meu pai e minha mãe sempre me ajudaram muito. Meus filhos ficavam na casa deles para eu poder trabalhar”, conta Serlândia.
Mas mesmo com planejamento, a vida de mãe e empreendedora reserva surpresas. “Já precisei remarcar reuniões e compromissos várias vezes. Às vezes meu filho ficava doente e eu tinha que levar ao médico. A gente se vira”, comenta
O preconceito velado: “Já fui subestimada”
Se os desafios logísticos já são grandes, Serlândia revela que precisa lidar também com barreiras comportamentais. A misoginia, infelizmente, ainda é uma realidade para muitas mulheres que ousam empreender.
“As pessoas às vezes acham que não somos capazes de conciliar. Ter filhos requer muito tempo e atenção. Mas sempre me dediquei, me superei e fui presente tanto na empresa quanto na vida dos meus filhos”, destaca.
Ela confirma que já enfrentou situações de desconfiança ao longo da trajetória. “Sim, já fui subestimada e desacreditada. Mas a gente aprende a lidar, a não abaixar a cabeça e a seguir em frente.”
Hoje, aos 52 anos, Serlândia olha para trás com orgulho e para frente com esperança. A decisão de trocar a estabilidade da carteira assinada (CLT) pelo risco de investir no próprio negócio trouxe resultados que vão além do financeiro, mais autonomia, presença na vida dos filhos e a satisfação de construir algo próprio.
“Eu não trocaria essa experiência por nada. Ver meus filhos crescerem sabendo que a fiz o melhor pra oferecer uma qualidade de vida e conforto , não tem preço. A gente se supera todo dia. É difícil? É. Mas é recompensador”, afirma.
Sonho em realidade
Se para muitas mulheres o empreendedorismo surge como alternativa para aumentar a renda e conciliar com a maternidade, para outras ele se concretiza a partir de condições mais favoráveis. É o caso de Aline Mirella, proprietária de uma papelaria , que transformou um sonho antigo em realidade.
Diferente do que muitas vezes se imagina, Aline não precisou escolher entre a maternidade e a carreira. Ela tinha o desejo de empreender adormecido e decidiu o momento certo para tirar do papel um projeto cultivado desde a infância.
“A Vontade de empreender é algo que eu sempre desejei desde da minha infância, sempre busquei a independência financeira e a possibilidade de ter mais flexibilidade de horário e qualidade de vida”
Quando decidiu empreender foi com o objetivo de aumentar a renda. Naquele momento os filhos já estavam maiores e não dependiam tanto dela. Hoje eles também fazem parte do negócio, ajudam na loja e trabalham junto com a mãe. “Acabou virando algo que envolve toda a família. Meu marido e meus filhos sempre estiveram presentes e contribuíram para que tudo funcionasse”, complementa.
Foto: cedida
União e no apoio coletivo
Muitas mulheres empreendedoras encontram na união e no apoio coletivo uma forma de fortalecer seus negócios. É o que acontece no coletivo de mulheres “Elas Fazem Acontecer”. A coordenadora do coletivo, Teomayra Cristina, explica que o grupo surgiu justamente com o objetivo de criar oportunidades e fortalecer o trabalho das mulheres empreendedoras.
Segundo ela, o coletivo vai além da realização de feiras e eventos. A proposta também envolve a capacitação e o fortalecimento das empreendedoras. “A gente organiza eventos, busca parcerias e oferece cursos para ajudar as empreendedoras a melhorar o atendimento e a apresentação dos produtos. Também temos consciência da importância da autonomia e da independência financeira para nós, mulheres”
Outro ponto que ela destaca é a importância da educação financeira para quem decide abrir um negócio. “Temos parceria com o Sebrae, por meio do programa Ser Mulher, que oferece cursos profissionalizantes. Isso ajuda muito na hora da precificação, porque muitas mulheres entram no empreendedorismo sem saber como definir corretamente o preço dos produtos”
Apesar dos desafios, a coordenadora acredita que o primeiro passo para quem deseja empreender é ter iniciativa. “Se a mulher esperar se organizar totalmente financeiramente, talvez nunca comece. Muitas vezes é preciso ter coragem, dar o primeiro passo e buscar alternativas para fazer o negócio acontecer”, diz.
Segundo Teomayra, o coletivo reúne mulheres de diferentes perfis e realidades. “Não existe um perfil único. É um espaço muito diverso, com mulheres mais jovens e também aquelas que já estão próximas da aposentadoria, todas buscando algo em comum: independência e estabilidade financeira ”, conclui.
*Matéria escrita sob orientação do professor Wagner Costa e da monitora Ranelly Pinheiro, para a disciplina de Fundamentos do Jornalismo.
Os brechós fazem parte do cenário de consumo em Rio Branco, oferecendo roupas seminovas por preços mais baixos. A combinação entre economia e reaproveitamento de peças tem atraído moradores da capital acreana e impulsionado o empreendedorismo feminino. Esses espaços também se tornaram uma fonte de renda para muitas mulheres.
A empreendedora Brenda Vidal, de 32 anos, é a criadora do Brechic, brechó online que surgiu em 2020, no início da pandemia. A ideia nasceu quando ela estava em casa, com várias roupas paradas no armário e sem perspectiva de uso. Foi então que decidiu criar um perfil no Instagram para vender as peças.
“O Brêchic nasceu bem no começo da pandemia. Eu estava em casa, com várias roupas paradas no armário e praticamente zero chances de usar qualquer uma delas. Para ocupar a mente, resolvi criar um Instagram para vender essas peças.”
Vestido da marca Triton. Foto: cedida
Segundo Brenda, um dos diferenciais do negócio foi a forma como construiu a relação com as clientes. “Acho que o diferencial foi humanizar a página. Sempre mostrei a vida real, sem filtro perfeito, sem personagem. Queria que fosse um espaço onde as pessoas se sentissem acolhidas, como se estivessem conversando com uma amiga, mas sem perder o foco na moda consciente”.
Além do reaproveitamento de roupas, o preço das peças também chama a atenção dos consumidores. Segundo Brenda Vidal, um vestido da marca Triton, que pode custar cerca de R$398,00 em lojas ou plataformas online, foi vendido no Brechic por R$80,00. Já uma camisa da Damyller, que em média custa R$150,00 nas lojas, foi comercializada no brechó por apenas R$25,00.
Hoje, o Brechic funciona exclusivamente pelas redes sociais, por meio do perfil @brechic.ac, onde as peças são divulgadas e as vendas realizadas.
Além das iniciativas individuais, há brecholeiras que também se organizam por meio do Encontro das Brecholeiras. A idealizadora do projeto, Gélly Café, explica que a iniciativa surgiu inspirada em movimentos de moda sustentável dos quais participou quando morou em Brasília. Ao retornar para Rio Branco, percebeu que poderia transformar a experiência em um projeto coletivo, incentivando mulheres a empreender com peças que já tinham no guarda-roupa.
Imagem cedida pela entrevistada
Ao longo de quatro anos, o grupo acompanhou um crescimento significativo dos brechós no Acre, especialmente após a criação do Encontro. A proposta vai além da comercialização de roupas e inclui mentoria e fortalecimento coletivo.
“Muitas mulheres começaram apenas desapegando peças pessoais e hoje já têm fornecedores, estruturaram uma dinâmica comercial própria e atuam também no online, utilizando estratégias de comunicação e posicionamento”, destaca Gélly Café.
“No brechó, as pessoas conseguem se vestir bem, com qualidade e pagando pouco. A moda se torna acessível, inclusive para famílias que muitas vezes não conseguem comprar roupas em lojas convencionais”, afirma.
Imagem cedida pela entrevistada
Além da economia para os consumidores, o reaproveitamento de roupas também contribui para reduzir o descarte de peças que ainda estão em bom estado.
Para muitas mulheres, o brechó representa geração de renda, autonomia financeira e fortalecimento pessoal. O Encontro das Brecholeiras também promove uma rede de apoio e colaboração entre as participantes.
As agendas e informações sobre os eventos são divulgadas no Instagram, por meio do perfil @encontrodasbrecholeiras, onde também são divulgadas as próximas edições realizadas na cidade.
Entre os diferentes públicos atendidos pelos brechós, também há iniciativas voltadas para roupas e itens infantis. Como as crianças crescem rapidamente, muitas peças são usadas por pouco tempo, o que torna o reaproveitamento mais comum. Por isso, os brechós acabam sendo uma alternativa para pais e responsáveis venderem roupas que já não servem mais e, ao mesmo tempo, permitem que outras famílias encontrem peças infantis em bom estado por preços mais acessíveis.
A presença dos brechós em Rio Branco mostra diferentes formas de consumo e geração de renda na cidade. Mais do que uma opção econômica, esses espaços incentivam o consumo consciente, fortalecem o empreendedorismo feminino e permitem que consumidores tenham acesso a peças de marcas conhecidas e em bom estado por preços mais acessíveis.