Corriqueiras
População de Rio Branco diminui frequência no uso de cortinados; entenda
Moradores da capital acreana abandonam o mosquiteiro, popularmente conhecido como cortinado, e aderem ao uso de inseticidas
Publicado há
2 anos atrásem
por
Redação
Por Rebeca Martins e William Liberato
Adriana da Costa Silva, quando criança, adorava aniversários, pois era a oportunidade perfeita de levar balões para casa e enfeitar seu cortinado, como é popularmente conhecido o mosquiteiro no Acre. “Eu pegava o balão e botava no buraco do meio (do cortinado). Era uma alegria, ninguém podia estourar”, recorda, hoje, a servidora pública. Ela, como outros rio-branquenses, deixou de lado o uso dos mosquiteiros.
Em 1997, com a chegada no bairro novo, o Santa Inês, no segundo distrito de Rio Branco, Adriana abandonou de vez o uso do mosquiteiro. “A gente começou a ter preguiça de colocar e viu que a necessidade era pouca. O pai comprava muito veneno, acabávamos utilizando mais veneno do que o cortinado”. Os momentos inesquecíveis, com seu cortinado rosa, ficaram no passado, guardado em suas lembranças.

Hoje, a criança encantada com o balão pendurado no meio do cortinado é uma mulher atarefada e prática. Adriana da Costa Silva, de 37 anos, tem uma rotina cheia. Além do seu intenso trabalho no Departamento Estadual de Trânsito (Detran), ainda precisa cuidar de seus dois filhos — um deles bebê —, fazer comida, limpar a casa e estudar para os concursos. Com uma vida tão corrida, ela adotou o inseticida como o seu principal aliado contra os mosquitos.
O que explica essa mudança de comportamento?

Ao relembrar sua infância, o professor de História José Dourado de Souza, Diretor do Centro de Filosofias Humanas da Universidade Federal do Acre, apontou hipóteses para o abandono dos cortinados no cotidiano dos rio-branquenses. “Lembro de quando eu era ainda criança no seringal. A gente usava, obrigatoriamente, tinha que usar, senão as carapanãs, os bichos carregavam. Todos nós usávamos mosquiteiro. Eu vim para cá (Rio Branco) com 12 anos. Aqui também se usava, mas já era um período que começaram a surgir alguns produtos, os inseticidas”.
O professor também acredita que esse processo de abandono dos cortinados permanecerá, devido às facilidades oferecidas pelos inseticidas modernos. “Acho que eles (rio-branquenses) estão abandonando, em razão dessas novas tecnologias de combate aos insetos. Aqui, dentro da cidade, eu acho que esta tendência (dos cortinados) é diminuir e (aumentar) o uso de produtos industrializados para combater o inseto. Hoje, você bota lá (na tomada) e pronto. Já resolve o problema.”
A popularidade e praticidade dos inseticidas pode ser exemplificada na facilidade a qual encontramos esses produtos. Numa rápida busca pelo principal supermercado de Rio Branco, é possível encontrar variados venenos de diferentes formatos, fórmulas, cheiros e valores. O inseticida, no qual o professor José Dourado se refere, é popular por sua praticidade e pela proteção oferecida contra o mosquito Aedes Aegypti, responsável pela transmissão da Dengue, Zika e Chikungunya.
Fator socioeconômico
Enquanto os inseticidas ganham as prateleiras e o coração dos acreanos, os cortinados tornam-se escassos, caros e só são encontrados em lojas específicas, como o Bazar Chefe, estabelecimento popular por vender de tudo, e lojas de produtos e roupas infanto-juvenis. Para melhor ilustrar essa disparidade, observe a diferença do valor dos produtos, um inseticida, da marca Buzz, de 400ml, custa R$ 10,69 no mais popular supermercado; enquanto o mosquiteiro de casal, da marca Durma Bem, está R$ 77,20 no maior e-commerce do Brasil.
A estrutura dos domicílios e os serviços de saneamento básico, como tratamento de esgoto, água encanada e coleta de lixo, pode ser outro fator nessa mudança de comportamento dos rio-branquenses. Segundo o professor Dourado, “as pessoas que vivem numa situação precária, numa residência precária, é mais difícil combater os insetos, porque eles (os mosquitos) entram, não tem janela apropriada, nas casas há buracos, brechas”. Ou seja, pessoas em situação de pobreza são mais vulneráveis às doenças transmitidas por mosquitos.
É o que aponta um estudo norte-americano, realizado em 2010, que analisa a incidência de casos de dengue na cidade de Brownsville, no sul do Texas; e no município Matamoros, no norte de Tamaulipas, no México. Os dados apontam que as cidades vizinhas apresentam uma elevada disparidade, com a cidade mexicana tendo sete vezes mais casos do que os 4% registrados na cidade estadunidense. Segundo Jaime Torres, “a forma de armazenar a água, de tratar (ou não) os resíduos e o uso do ar-condicionado, são determinantes para que esses insetos criem, vivam, se reproduzam e alimentem em um ou outro lugar”, afirmou o diretor do departamento de Medicina Tropical da Universidade Central da Venezuela, XVIII Conferência Internacional de Doenças Infecciosas, realizada em março de 2018, na cidade de Buenos Aires.

Em Rio Branco, os índices de saneamento básico não são nada satisfatórios, é o que demonstra o ranking do saneamento 2023, do Instituto Trata Brasil, com a capital acreana ocupando a posição 94, entre as 100 cidades analisadas. Atualmente, 60,73% da população rio-branquense tem acesso à água e apenas 22,67% têm coleta de esgoto. Esse quadro atual deixa a população das regiões periféricas vulneráveis às picadas e doenças transmitidas pelo mosquito. A realidade força os cidadãos a gastarem parte de sua renda com inseticidas.
Antes, Malária; agora, Dengue
No início da década de 1940, por exemplo, momento em que a incidência da Malária era maior, cerca de 6 milhões de pessoas foram atingidas, o que correspondia a pelo menos, 20% da população do Brasil. No estado do Acre, não era diferente. Conforme o Acre, diário oficial da época, em 1947, quase 900 pessoas contraíram a doença só na cidade de Rio Branco. Na época, os seringueiros eram um dos grupos mais afetados, pois estavam em contato direto com a floresta. Os inseticidas não faziam parte da realidade dessa população, que para se proteger contava com fumacês e mosquiteiros.
Hugo Carneiro, governador do território do Acre, entre 1927 a 1930, criou políticas de prevenção contra a malária. Entre elas, a curricularização de práticas de higiene no ensino primário. Dentre as orientações, também estava o uso de mosquiteiros.
Atualmente, a incidência de Malária está diminuindo no Acre. Segundo o boletim da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre), em 2023, estima-se que 1,5 mil cidadãos foram acometidos pela doença entre janeiro e março. As estimativas apontam uma queda nos números, tendo em vista que no mesmo período de 2022, foram contabilizados 2,1 mil casos. As cidades com mais diagnósticos foram: Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima e Rodrigues Alves, todas do Vale do Juruá.
O professor Marcelo Urbano Ferreira, coordenador de pesquisas no Acre, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao jornal da USP, em 2021, comentou que o quadro de Malária urbana, hoje contido nos grandes centros da Amazônia, como Rio Branco, pode aumentar. “Os moradores das cidades frequentemente transitam em localidades rurais de alta transmissão, onde podem infectar-se. Assim, temos mosquitos e parasitos presentes na periferia das cidades, potencialmente se espalhando em áreas de população mais adensada. São elementos que propiciam surtos de Malária em áreas urbanas.”
No momento, as políticas públicas estão sendo eficazes no controle da Malária no Acre, mas o mesmo não ocorre com a Dengue. Segundo o boletim epidemiológico da Sesacre, nos três primeiros meses de 2023, mais de 3 mil casos suspeitos foram diagnosticados. Rio Branco obteve mais de 1 mil notificações da doença, outro fator de atenção, é o aumento no número de casos de Zika, a capital registrou 243 casos entre janeiro e março. Em 2022, no mesmo período, nenhum caso havia sido registrado na cidade.

Cortinado, por favor
Mesmo com inseticidas disponíveis como opção atualmente, em Rio Branco, há pessoas que ainda preferem o uso dos cortinados. Esse é o caso de Rute de Oliveira dos Santos do Nascimento, de 42 anos. Ela conta que durante toda a infância, quando morava no interior do estado, para se proteger de insetos e até morcegos, ela e sua família utilizavam o mosquiteiro, hábito que ainda mantém até hoje.
“É desde a infância. Quando eu morava com meus pais, os colonos tinham o hábito de usar, principalmente devido aos morcegos, eles ferravam a pessoa. Lembro da minha mãe não pisando direito porque o morcego tinha roído o pé dela. Era uma regra muito recomendada à noite. E a questão das carapanãs também”, disse.
Rute aponta também possíveis motivos para o abandono dos mosquiteiros pela população, e reforça que a desigualdade social impacta nessa mudança de comportamento. “As casas forradas, que tem ar-condicionado, eu acredito que não há necessidade de usar o mosquiteiro, porque o ambiente não é aconchegante para esses mosquitos. Acredito que se parou de usar o cortinado porque incomoda e é algo a mais para arrumar, para enrolar, guardar, lavar e colocar”, finaliza Rute.
Nas lembranças
Da geração Z, posterior a de Adriana e Rute. Paulo Victor Alves de Oliveira, de 21 anos, guarda nas lembranças o cortinado da vizinha, responsável por seus cuidados quando criança. “Era só eu e minha mãe. Grande parte do dia a minha mãe ficava trabalhando e eu ia para escola. No tempo que eu não estava com ela, normalmente ficava com uma vizinha. A casa dela era de madeira, era um terreno mais aberto e com muito mais vegetação. Lembro que sempre existia esse cuidado de colocar o mosquiteiro e ver se ele estava certo. Sempre escutava os mosquitos quando acordava no meio da noite, assim, fora do mosquiteiro”.
O jovem, hoje, estudante de biologia da Universidade Federal do Acre (Ufac) abandonou, assim como Adriana, o cortinado. “Queremos as coisas muito mais fáceis. Lembro que sempre se tinha o cuidado de levantar e amarrar o mosquiteiro e quando fosse dormir o cuidado de não deixar um espaço, um buraco. Na minha concepção, as pessoas (jovens) querem as coisas na hora. O mosquiteiro traz uma dificuldade, por conta da montagem e desmontagem”.
O cortinado, presente por muitas gerações no dia-a-dia dos rio-branquenses na hora de dormir, sofre relutância para se manter como opção na proteção contra os mosquitos. Hoje, com o acentuado processo de urbanização, a popularização dos inseticidas e o controle da Malária, o mosquiteiro parece não atender às necessidades da população, se tornou obsoleto, ficando nas memórias de quem usou durante a infância ou até depois, na vida adulta.
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ESTAMOS DE VOLTA
Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com o Rio Acre no centro das histórias
O jornal-laboratório da Ufac chega à 21ª edição com proposta editorial e visual renovadas, mantendo as matérias cotidianas e adotando o Rio Acre como fio condutor das pautas especiais
Publicado há
6 dias atrásem
12 de janeiro de 2026por
Redação
Por Diogo José
A sociedade nasce da água, escorre, se junta e ganha forma. É por essas águas, que carregam histórias e sonhos, que a catraia transporta vozes, perguntas e sentidos. Com essa premissa, o jornal-laboratório A Catraia, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac), chega à sua 21ª edição, em 2026, marcando o retorno de um dos principais espaços de prática jornalística e formação de profissionais, agora com uma proposta editorial e visual renovadas.
Além das notícias cotidianas, chamadas de corriqueiras, a edição deste ano traz matérias especiais inspiradas no Rio Acre, elemento central da formação histórica, social, cultural e econômica do estado. O rio funciona como eixo temático que atravessa diferentes editorias, conectando pautas de política, cultura, meio ambiente, economia, esporte e sociedade, sem perder o compromisso com a notícia, a crítica e a escuta.

O Rio reúne atividades em seu entorno, como na imagem, onde um grupo se reúne para praticar capoeira. Foto: Wellington Vidal.
Presente há mais de duas décadas na disciplina de Jornal Laboratório, o jornal A Catraia acompanhou gerações de estudantes e funciona como um espaço fundamental de formação profissional. É ali que muitos alunos têm o primeiro contato direto com a rotina do jornalismo, vivenciando processos de apuração, entrevistas, produção de texto, edição e trabalho em equipe, experiências que, para parte da turma, ainda não haviam ocorrido no mercado profissional.
Para a professora da disciplina e coordenadora do jornal, Giselle Lucena, o retorno do projeto movimenta todo o curso. Segundo ela, o Jornal Laboratório concentra expectativas tanto de professores quanto de estudantes, justamente por refletir o percurso formativo vivido ao longo da graduação.
“Tudo aquilo que os alunos aprenderam até aqui aparece nesse momento. O produto desenvolvido na disciplina acaba sendo um espelho do curso, com seus acertos, desafios e possibilidades”, afirma.

Giselle Lucena, professora da disciplina e coordenadora do jornal A Catraia. Foto: Arquivo pessoal.
Ela destaca que o espaço vai além da simulação do mercado. “Ao mesmo tempo em que buscamos reproduzir a dinâmica do mercado, o Jornal Laboratório também é um lugar de liberdade criativa. É o momento de experimentar formatos, propor outras narrativas e pensar novos modelos de jornalismo, algo que muitas vezes não foi possível em outras disciplinas”, completa.
A experiência prática também é percebida pelos estudantes envolvidos na produção. Para Wellington Vidal, repórter do A Catraia e, nesta edição, gestor de redes sociais, o jornal representa uma oportunidade de crescimento profissional e inovação.
“Contar histórias de pessoas e lugares do nosso estado, sobretudo com o tema rio como eixo, que é algo que vivenciamos de perto todos os anos, é um desafio que torna-se enriquecedor no meu processo de formação e abrange ainda mais a diversificação da escrita”, afirma.

Wellington Vidal, repórter e gestor de redes sociais da 21ª edição do jornal A Catraia. Foto: Arquivo Pessoal.
Ele ressalta o investimento nas plataformas digitais. “A rede social é o elo que liga tudo, por meio dela a equipe está buscando inovar com produções de vídeos e web reportagens, além de trazer uma nova identidade visual pro jornal”, completa.
Essa renovação também se reflete na repaginação do site e na nova logo do jornal. A identidade visual aposta em traços mais crus, referências amazônicas e uma estética de caráter mais vanguardista, que dialoga diretamente com o território, o rio e a proposta editorial da edição. A mudança marca uma nova fase do jornal, sem romper com sua história.

Identidade visual da edição de 2026 do jornal A Catraia. Imagem: Diogo José.
Nesta edição, a proposta editorial também se materializa na organização das editorias, que passam a dialogar diretamente com o eixo do rio e seus significados:
- Corriqueiras: cotidiano
- Travessias: relatos, perfis e artigos de opinião
- Margens: política, justiça e direitos humanos
- Rotas: educação, inovação, economia e tecnologia
- Afluentes: cultura, entretenimento e arte
- Nascente: saúde
- Fluxo: esporte
Rio Acre como pauta
O doutor em Ciência Ambiental e professor do curso de Jornalismo da Ufac, Maurício Bittencourt, reforça que a escolha do Rio Acre como eixo central amplia o papel do jornalismo. Para ele, o rio é essencial para a identidade acreana e para a vida cotidiana da população. “O Rio Acre é fundamental para o transporte, a produção agrícola e o abastecimento de água. Milhares de pessoas dependem diretamente dele”, explica.
Segundo o professor, o jornalismo pode contribuir para uma cobertura que vá além dos períodos de cheia ou seca. “É preciso debater a preservação das nascentes, das matas ciliares e a responsabilidade das cidades em não poluir um manancial que abastece a população. O Rio Acre também é um rio internacional, o que amplia ainda mais os temas possíveis de abordagem, como fronteiras, entre outros”, destaca.
Assim, em 2026, A Catraia volta a navegar, levando informação à sociedade acreana, formando novos profissionais e acompanhando o fluxo do Rio Acre, como sempre foi: em movimento!
Corriqueiras
O futuro da escrita na era digital
Entre teclados e telas, especialistas destacam que a escrita à mão ainda fortalece memória, criatividade e identidade cultural. Foto: Gabriela Queiroz
Publicado há
3 meses atrásem
29 de outubro de 2025por
Redação
Por Maria Niélia Magalhães, Sérgio Corrêia e Gabriela Queiroz
Das cartas que cruzaram continentes aos aplicativos de mensagens instantâneas, a transição da escrita manual para a digital reflete mais do que uma evolução tecnológica — revela uma transformação profunda em como nos comunicamos, aprendemos e até mesmo como processamos informações. Enquanto especialistas debatem os impactos cognitivos e culturais dessa mudança, neurologistas, educadores e alunos avaliam os prós e contras de cada meio.
“Quando o aluno escreve à mão, ele pensa melhor no que está registrando, organiza o que é mais importante”, afirma a professora Cyndi de Oliveira Moura, 29 anos, formada em Letras pela Universidade Federal do Acre – Ufac e docente de Língua Portuguesa no ensino fundamental. Ela observa no dia a dia os efeitos da escrita manual: “alunos que anotam no caderno conseguem relembrar mais facilmente aquilo que foi explicado em sala.”
Ela destaca que a caligrafia também está ligada à criatividade, pois exige atenção e paciência. Mas nota que os estudantes atuais enfrentam dificuldades: “Eles são impacientes e querem escrever tão rápido quanto pensam. A escrita exige paciência e reflexão, mas o uso excessivo das telas acelera demais o pensamento.”
Apesar disso, a professora não vê a tecnologia como inimiga, e sim como ferramenta que precisa ser equilibrada com a escrita manual: “Os recursos digitais ampliam possibilidades, mas sem criticidade se limitam a cópias rápidas e informações superficiais. O ideal é equilibrar os dois mundos: o papel ajuda a refletir, enquanto a tecnologia prepara para o século XXI.”

Foto: Gabriela Queiroz
O advento da tecnologia digital transformou profundamente a maneira como registramos e comunicamos ideias. Se por um lado a digitação se tornou predominante pela sua praticidade e velocidade, por outro, a escrita manual resiste como prática fundamental – não por nostalgia, mas por seu impacto comprovado na cognição e no desenvolvimento cerebral.
A voz do estudante
Para Letícia Kelly, aluna do 2º ano do ensino médio de uma escola pública em Rio Branco, a escrita à mão continua sendo indispensável no seu processo de aprendizagem. “Eu prefiro escrever no caderno, porque fazer anotações melhora minha memória. Quando escrevo no celular, não consigo guardar tanto na mente”, afirma.
Elaborar pequenos textos e mapas mentais no papel facilita a memorização de detalhes importantes, segundo Kelly. “Infelizmente, as pessoas estão abandonando a escrita à mão, e isso é muito ruim, pois terão uma memória mais curta. Eu não consigo parar de escrever à mão, porque me ajuda a memorizar as coisas”, completa a estudante.

Atividade da aluna do 2º ano do Ensino Médio, Letícia Kelly. Foto: Maria Niélia
Não se trata de idealizar o passado ou desconsiderar os avanços tecnológicos. Afinal, todos nós aproveitamos a agilidade das mensagens instantâneas para nos conectar com quem está longe. No entanto, especialistas alertam: a caligrafia ativa regiões do cérebro relacionadas à memória e à criatividade de um modo que o teclado não consegue replicar.
Cenário Internacional
Pesquisas recentes confirmam que a escrita manual continua exercendo um papel fundamental no aprendizado. Um estudo norueguês, citado pela DW Brasil na reportagem Escrever à mão ajuda no aprendizado, aponta estudo, mostrou que escrever manualmente aumenta a atividade cerebral justamente nas regiões ligadas à memória e ao processamento motor e visual, favorecendo uma compreensão mais profunda e duradoura do conteúdo.
Já a BBC Brasil, em Como escrita à mão beneficia o cérebro e ganha nova chance em escolas, destaca a visão da neurocientista Claudia Aguirre, que afirma que escrever em cursivo, especialmente em comparação com digitar, ativa caminhos neurais específicos que otimizam o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem.
A Finlândia, país reconhecido por seu sistema educacional inovador, retirou a caligrafia do currículo obrigatório em 2016, priorizando o ensino de digitação (The Guardian, 2015). Nos Estados Unidos, discussões semelhantes ganharam força nos últimos anos. Essas mudanças, no entanto, não ocorrem sem controvérsias.
À medida que escolas e estudantes se adaptam às demandas de um mundo digital, pesquisadores seguem investigando como equilibrar tradição e inovação. Por um lado, alguns educadores defendem a adaptação aos novos tempos, por outro, especialistas em neurociência e desenvolvimento cognitivo alertam para as perdas associadas à diminuição da escrita manual.
O melhor de ambos
Enquanto isso, a ciência segue confirmando: escrever à mão é muito mais que um gesto cultural – é uma ferramenta poderosa para moldar o cérebro e expandir as fronteiras do pensamento. A pergunta que permanece não é apenas sobre qual método de escrita é mais eficiente, mas como podemos integrar o melhor de ambos para promover uma aprendizagem mais rica e significativa.
Não se trata, portanto, de uma disputa entre o antigo e o moderno, mas de reconhecer que ambas as formas de escrita — a manual e a digital — podem coexistir e se complementar. Como bem ilustram a professora Cyndi e a estudante Letícia, escrever à mão continua a ser um exercício de paciência, reflexão capaz de transformar informação em conhecimento.
No fim, o que importa é lembrar: escrever não é apenas registrar palavras — é processar ideias, construir sentidos e, acima de tudo, permanecer humano em um mundo em constante transformação.
Corriqueiras
Você sabia que o e-Título foi idealizado por uma acriana?
Rosana Magalhães, hoje aposentada, trabalhou na Justiça Eleitoral desde 1994. Foto: Arquivo do TRE/AC
Publicado há
3 meses atrásem
24 de outubro de 2025por
Redação
Por Francisca Samiele e Amanda Silva
Talvez pouca gente saiba, mas uma das ferramentas digitais mais importantes da Justiça Eleitoral no Brasil foi criada por uma mulher acriana. O e-Título, versão digital do título de eleitor, que ajudou a modernizar a forma como milhões de brasileiros votam, foi idealizado por Rosana Magalhães, na época, secretária de tecnologia do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC).
Considerando que até 1932 as mulheres sequer tinham direito ao voto no Brasil, é irônico pensar que tenha sido justamente uma mulher a idealizar essa tecnologia, considerada essencial para o exercício da democracia ter se tornado tão prático.

A idealizadora do e-Título
Rosana Magalhães, hoje aposentada, trabalhou na Justiça Eleitoral desde 1994 e acompanhou a evolução do sistema de votação, do papel à urna eletrônica. Como analista de sistemas, ela percebeu que o título de papel era um documento que dificultava o acesso a alguns serviços da Justiça Eleitoral e a atualização de dados para muitas pessoas.
“Ele (título) não tinha foto e não tinha dados atualizados como estado civil, grau de escolaridade, nome em caso de mudança após casamento. Era um documento estático. […] Era um papel que molhava e não tinha muita durabilidade”, explicou Rosana Magalhães. A servidora comenta que foi observando essas limitações que surgiu a ideia do e-Título, um documento digital que pudesse atualizar automaticamente informações do eleitor e simplificar processos como emissão de certidão de quitação eleitoral.

“E outra coisa que observei durante toda essa minha experiência de vida na Justiça Eleitoral é a dificuldade que as pessoas tinham em atualizar seus dados e, quando perdiam o título de eleitor, ficavam numa fila enorme perto da eleição”, relembra.
O e-Título foi lançado em dezembro de 2017 e o projeto foi desenvolvido junto ao TRE-AC após aprovação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A primeira versão, desenvolvida em cerca de 40 dias, foi disponibilizada nas lojas de aplicativos e preparada para uso nacional, sendo adotado pelos estados de forma gradual.
O e-Título é acessível para pessoas com deficiência visual, baixa visibilidade ou daltônicas e também é permite acessar vários serviços, tais como:
• Apresentação de justificativa eleitoral no dia das Eleições e após o pleito;
• Consulta ao histórico de justificativas eleitorais;
• Consulta ao local de votação;
• Emissão de certidão de quitação e de crimes eleitorais;
• Geração do Título Eleitoral em formato PDF para impressão;
• Cadastrar mesária ou mesário voluntários;
• Emissão de declaração de trabalhos eleitorais;
• Geração de código de autenticação para sistemas parceiros;
• Consulta a débitos eleitorais;
• Pagamento de eventuais débitos eleitorais por Pix ou por meio da emissão de boleto.
Veja como o título de eleitor evoluiu ao longo dos anos:




Reações às mudanças
O e-Título trouxe mudanças significativas para os eleitores. Alguns se adaptaram muito bem, mas também tem quem ainda prefere o documento à moda antiga.
Para a assistente administrativa Janara Cristina Dutra Nogueira, 37 anos, a mudança é bem-vinda. “Para mim, a maior vantagem é a praticidade. Não preciso mais andar com o título de papel, ele fica no celular. Também dá para ver meu local de votação, regularizar situação eleitoral e até justificar voto se eu estiver fora”, explica.
A pedagoga Katiane Lima, também considera a mudança um bom progresso. “O aplicativo trouxe praticidade, oferecendo acesso rápido e fácil às informações, sem necessidade de buscar documentos físicos. A transição de papel para digital trouxe mudanças de mentalidade e aprendizado necessário para usar novas tecnologias”.
Mas nem todos os usuários que passaram pela transição do papel ao digital se adaptaram completamente, como é o caso da funcionária pública Iêda Fernandes, de 69 anos. “Tenho algumas dificuldades com a tecnologia… Já utilizei em alguns momentos, mas não me senti tão segura. Para utilizar como ferramenta principal, devo aprender mais sobre as funcionalidades. Preciso me tornar mais tecnológica”.
A aposentada Junisseia Souza de Lima enfatiza sua preferência pelo título em papel: “sabe por que eu não gosto de botar no telefone as coisas? Porque às vezes a gente é roubada, basta puxar o telefone para olhar e o ‘cabra’ vem e toma. A gente não fica tranquila andando com telefone, eu não fico. Então, com a cédula de votação, é melhor papel, eu gosto. Eu não gosto de sair preocupada com o telefone, então, para evitar isso, prefiro o de papel.”
Já a professora de português Gleiciany Florêncio de Araújo, de 34 anos, sugere algumas atualizações: “Para mim, uma grande melhoria no aplicativo seria se ele também pudesse ser usado offline, porque algumas vezes o sinal da internet é fraco e não dá para entrar no aplicativo”.
Progresso
A idealizadora do projeto ressalta que o e-Título continua evoluindo e pode, futuramente, incluir funcionalidades como coleta de biometria pelo próprio aplicativo.

O e-Título trouxe benefícios para os eleitores e para a Justiça Eleitoral. Agora, muitas situações podem ser resolvidas diretamente pelo aplicativo, o que diminui filas e tempo de espera. O uso digital reduz custos com impressão de títulos e certidões, e o aplicativo pode ser usado por eleitores em qualquer lugar do Brasil ou no exterior.
“O principal impacto para a sociedade, para a justiça eleitoral e para a sociedade também é a economia que teve de muitos milhões para emissão de título eleitoral, já que não há mais necessidade de imprimir”, afirma Rosana Magalhães. E ela repete uma frase que Caetano Veloso disse no dia do lançamento do e-Título: “É incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer.”
Conheça um pouco da trajetória das mulheres na luta por seus direitos políticos AQUI.
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