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Conheça a Seleção Acreana de Basquete de Cadeira em Rodas

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Seleção Acreana de Basquete em Cadeiras de Rodas – Foto: Gercineide Maia

A primeira modalidade paralímpica praticada no Brasil foi o basquete em cadeira de rodas. Este esporte coletivo é jogado por pessoas com deficiências físico-motoras, que são aquelas com paraplegia ou deficiência nos membros inferiores. Atletas andantes podem jogar, mas devem usar a cadeira de rodas durante a prática do esporte. Atualmente é um dos esportes mais procurados no cenário paralímpico mundial. No Brasil, 110 clubes integram e se destacam nesta modalidade.

O basquete em cadeira de rodas surgiu como uma alternativa de reabilitação para ex-soldados norte-americanos que se feriram na 2ª Guerra Mundial. No Brasil, o esporte ficou conhecido em 1958, quando brasileiros com deficiência, que se tratavam nos Estados Unidos, conheceram a prática esportiva e a trouxeram para o país. Com ajuda do amigo Aldo Miccolis, que também é desportista, Robson Sampaio de Almeida criou, em abril do mesmo ano, o primeiro time de jogadores de basquete em cadeira de rodas, na época se chamava “Clube do Otimismo”.

Em 1960, a modalidade esportiva integrou a 1ª edição das Paralimpíadas, que aconteceu em Roma. Apesar de ser um esporte inclusivo, a primeira participação feminina aconteceu somente oito anos depois, em 1968, na cidade de Tel Aviv. Esse esporte  também tem levado qualidade de vida às atletas femininas que participam da Seleção de Basquetebol em Cadeiras de Rodas do Estado do Acre/Brasil e  que treinam juntamente com os atletas masculinos.

Maria Tailine da Silva Marques tem 28 anos e é estudante do curso de técnico em Enfermagem. Ela foi atingida por um tiro nas costas, quando assaltantes tentaram roubar sua moto. “A bala ficou alojada minha coluna e causou uma grande lesão em minha medula e, assim, fiquei  sem o movimento de meus membros inferiores. Antes do acidente eu fazia estágio do curso técnico em Enfermagem e no ano passado voltei para concluir o curso”, relata.

A jovem participa da seleção desde maio de 2022 e fala do quanto o basquete melhorou sua qualidade de vida e a ajudou a sair de um quadro de depressão. Acompanhe, abaixo, o depoimento da atleta:

Benefícios do basquete

Além de melhorar a qualidade de vida,  essa prática esportiva  traz muitos benefícios para a saúde física e mental dos atletas. Para as pessoas com deficiência, os ganhos são ainda maiores. “Essa modalidade de esporte desenvolve a coordenação motora, o espírito de equipe, ajuda o atleta a ter noção de espaço(temporal), a ganhar resistência, flexibilidade e velocidade, a respeitar as regras e  seus adversários, a tomar decisões. Também aumenta a independência na vida diária, oferece oportunidades sociais, melhora a autoconfiança, a autoestima e auxilia na prevenção de doenças secundárias”, afirma Manielden Lima Távora,  professor de Educação Física e treinador da Seleção Acreana de Basquete em Cadeira de Rodas do Acre.

Manielden Lima Távora é treinador da Seleção Acreana de Basquete em Cadeira de Rodas – Foto: Gercineide Maia

Segundo o técnico desportivo do Núcleo de Esporte Paralímpico da Secretaria Adjunta de Articulação Esportiva e Juventude, João Paulo Sena Fernandes, ter uma boa performance é muito importante para o atleta e o trabalho do fisioterapeuta contribui para isso.

“O fisioterapeuta esportivo pode atuar não apenas na avaliação, mas também na prevenção, recuperação (tratamento) de lesões e classificação funcional, que é específica para o esporte paralímpico. Esse trabalho auxilia o atleta a se sentir mais seguro, consequentemente, ajuda a ter um melhor rendimento e se sentir mais confiante para praticar sua modalidade desportiva”, acrescenta o profissional.

João Paulo Sena Fernandes é profissional de educação física e fisioterapeuta – Foto: Arquivo pessoal

De acordo com a Aristeia Nunes Sampaio, professora do Centro de Ciências da Saúde e Desporto, da Universidade Federal do Acre (Ufac), ao analisarmos a prática do basquete em cadeiras de rodas é possível vislumbrar diversos aspectos de saúde, como a melhoria da condição cardiopulmonar.

“Esse aluno vai ter uma capacidade respiratória pulmonar aumentada e isso favorece, não só a prática esportiva, mas também as atividades do cotidiano, como impulsionar a cadeira por longas distâncias, por exemplo. Essa melhoria se dá a partir do preparo do atleta, pelo tempo de prática e condições fisiológicas que foram impostas pela lesão ou do tipo de lesão que o praticante tem”, comenta a professora.

Ainda segundo Aristeia Sampaio, a prática esportiva auxilia na diminuição da gordura corporal e no aumento da massa magra dos membros que são funcionais, sendo condições, de uma maneira geral, que ajudam na prática esportiva e no cotidiano. Abaixo, você pode ouvir um pouco mais sobre os benefícios do basquete em cadeira de rodas.

Com relação aos demais aspectos que perpassam a questão física, a professora do Centro de Ciências da Saúde e Desporto destaca a questão da socialização do atleta que sairá do ambiente de casa ou de tratamentos para ocupar outros locais. “Ele vai conhecer outras pessoas, outras histórias, e, consequentemente, ampliar suas amizades. Isso acaba o inspirando para ter força, para continuar tentando, se esforçando.  Esse resultado é muito interessante para a sua própria autoestima, para que se sinta valorizado, para que desenvolva bem sua função”, ressalta.

Aristeia Nunes Sampaio é professora do Centro de Ciências da Saúde e Desporto, da Universidade Federal do Acre – Foto: Arquivo pessoal

Sobre os benefícios para a saúde, Márcio Cleide José de Lima, que é atleta e ex-presidente da Federação Acreana de Basket Cadeirante (FEABC), declara que o esporte melhorou a coordenação motora e batimentos cardíacos. “Não tem coisa melhor do que fazer o que a gente gosta. No meu caso é jogar basquete. Uma das melhores coisas que me aconteceu, depois do acidente, foi ter conhecido o basquete. De lá para cá, só tenho a agradecer a Deus e as nossas atividades físicas dentro do esporte adaptado”.

Márcio Cleide José de Lima é atleta e ex-presidente da Federação Acreana de Basket Cadeirante (FEABC) – Foto: Edilardia Idalgo

O atleta ainda ressalta que com a prática esportiva até mesmo seu humor mudou. “Foi onde eu vi pessoas com menos mobilidade que eu, brigando por espaço na quadra. Eu vi que a gente tinha que ser mais ativo e ter amor pelo que faz. Criei um amor tão grande pelo basquete que não me vejo fora dele. Mesmo quando eu não tiver mais condições de jogar, quero fazer parte de alguma forma para ajudar e incentivar outras pessoas a praticarem esporte”.

Regras e como de jogar 

De acordo com as regras oficiais aprovadas em 2018,  pela Confederação Internacional de Basquetebol em Cadeira de Rodas (International Wheelchair Basketball Federation – IWBF), Regra Um – O jogo, art. 1, o jogo de Basquetebol em Cadeira de Rodas é jogado por 2 equipes de 5 jogadores cada. O objetivo de cada equipe é converter pontos na cesta do adversário e evitar que a outra equipe converta pontos em sua própria cesta.

Com poucas diferenças da modalidade convencional, no basquete em cadeira de rodas os atletas devem arremessar ou passar a bola a cada dois toques dados na cadeira de rodas. Com duas equipes, cada uma com cinco jogadores, as partidas duram em média 40 minutos e são divididas em quatro sets. 

Na modalidade é obrigatório que todos os jogadores utilizem um tipo de cadeira de rodas, que é específica para a esporte. A cadeira deve possuir uma barra protetora lateral para evitar acidentes e na parte de trás do equipamento, uma roda de apoio que tem a função antiqueda. 

Seguindo as regras da IWBF, esta modalidade é monitorada pela Confederação Brasileira de Basquetebol em Cadeira de Rodas (CBBC). Para quem tem o desejo de praticar e competir no basquete em cadeira de rodas, é preciso procurar um clube para se filiar e seguir todas as regras de proteção.

O Acre presente no basquete em cadeira de rodas 

As federações de basquete ganham um papel muito importante no desenvolvimento do esporte no país por diversos motivos. A promoção da inclusão de pessoa com deficiência por meio  dessa atividade esportiva  é uma delas. No Acre, a Federação Acreana de Basket Cadeirante (FEABC) foi fundada no dia 9 de janeiro 2010 e atua  em vários âmbitos.

Segundo Frank Thieny Brito de Lima, presidente da FEABC, a organização “tem por objetivo atuar no âmbito do esporte adaptado e busca desenvolver e executar programas de formação continuada nas áreas de assistência social, direitos humanos, saúde, prevenção, educação, reabilitação, cultura, esportes, lazer, visando à inclusão e emancipação social das pessoas com deficiência física no Estado do Acre”.

A Seleção Acreana de Basquete em Cadeira de Rodas faz parte da Federação, mas sua data de criação é anterior. O atleta e ex-presidente da FEABC, Márcio Cleide, relata que em 2008 conheceu Raimundo Correia, presidente da  Associação Riobranquense de Pessoas com Deficiência Física do Acre (Ardef). Na época, desenvolveu um projeto de incentivo ao esporte do Acre.

“Com a aprovação do projeto, foram compradas oito cadeiras de rodas adaptadas e a partir dessa aquisição começamos a desenvolver o basquete”, conta Márcio Cleide. O time da época foi fundado por Manielden Távora (atual treinador), Frank Thieny Brito de Lima (presidente em exercício), Emerson de Souza Monte, José Ricardo Freitas da Silva, Luiz Carlos Aragão Ferreira, Raimundo Rocha Pereira, Wemerson Pereira Sobrinho, entre outros atletas. Porém, em 2010 a equipe começou a enfrentar dificuldades, foi então que criaram a Federação Acreana de Basket Cadeirante.

José Firmino Lima tem 41 anos e é atleta da equipe acreana de basquete em cadeira de rodas. Ele conta que não imaginava encontrar no basquete uma paixão, uma forma de se ressignificar. Ele ainda comenta que pretende ficar por muito mais tempo praticando a modalidade. No vídeo abaixo, você assiste ao depoimento do atleta falando sobre o esporte.

Lourenço Moreira Vieira Neto tem 25 anos e é o atleta mais nova da Seleção Acreana de Basquete em Cadeira de Rodas. Ele é tecnólogo em Logística e trabalha como autônomo. Neto já foi atleta paralímpico de natação e chegou para o time há dois meses, graças ao convite de um colega atleta. “É um esporte bem diferente do que eu vim, mas quero dar o meu melhor e ajudar a equipe”.

Márcio Cleide José de Lima tem 47 anos e é ex-presidente da (FEABC). Hoje é o atleta mais velho da equipe acreana. Começou a jogar quando tinha 32 anos. Ele conta que percebeu a importância do esporte, após participação de sua primeira competição em Manaus, no ano de 2008.

Atletas da seleção acreana de baquete em cadeira de roda participaram do campeonato em 2008 – Foto: Arquivo pessoal

Francisco Lima de Souza, mais conhecido como Manoel Izo, é acadêmico de Jornalismo, na Universidade Federal do Acre, e integra a equipe de basquete da Federação Acreana. Ele conta que conheceu o basquete por intermédio de um amigo, no ano de 2010, quando foi convidado para participar de um jogo. Na época, o atleta não deu a devida atenção, mas a situação mudou em 2021. 

“No início de 2021, ao retornar os treinos após a pandemia, eu voltei a participar dos treinos, me apaixonei pelo basquete e estou lá até hoje. Além da diversão, tem a questão do alto rendimento. Nossa Federação é de alto rendimento e tem a parte social também. Participar do basquete é muito gratificante. Mudou meu ritmo de vida, melhorou muito. Fico contando as horas pra chegar o dia do basquete. Sou apaixonado pelo esporte”, conta o atleta.

Assista abaixo um trecho do depoimento de Manoel Izo sobre a prática do basquete em cadeira de rodas.

Da Seleção Acreana de Basquete em Cadeiras de Rodas para o time ADD Magic Hands e Seleção Brasileira

O atleta João Vitor (JJ), que tem 20 anos e é natural de Ariquemes (RO), é apaixonado pelo esporte. Antes mesmo de fazer parte da equipe da ADD Magic Hands, jogou futebol na base dos Santos no Acre. Em 2015, após sofrer um acidente no terminal urbano de Rio Branco (AC), perdeu seu membro inferior esquerdo, e durante sua reabilitação os fisioterapeutas recomendaram a prática de esportes.  “Fui para natação e depois de um ano conheci o basquete, por meio da Federação Acreana de Basquete, como uma nova paixão no meu coração”, afirma.

João Vitor é atleta do ADD MAGIC HANDS e da Seleção Brasileira de Basquete em Cadeiras de Rodas – Foto: Arquivo pessoal

Segundo JJ,  após integrar ao time da Seleção Acreana de Basquete em Cadeiras de Rodas, aos 14 anos foi morar em Goiás em busca de novas oportunidades. Por sua habilidade conseguiu chamar a atenção dos treinadores do Brasil. Em 2022,  alcançou um de seus sonhos que era jogar na equipe da ADD MAGIC HANDS. Junto com seu novo time, João Vitor já se tornou campeão brasileiro e paulista de basquete em cadeira de rodas.

A história de João Vitor não parou por aí. Durante esse processo, ele foi convocado para integrar as Seleção Brasileira Sub-23, garantindo vaga para o mundial e se classificando na oitava posição. Na Seleção Sub-21, junto com sua equipe, o jovem conquistou o 2º lugar no Parapan de Jovens em Bogotá.

“Os jogos escolares foram de suma importância para meu desenvolvimento de atleta e pessoa. Contribuíram para que eu fosse visto até para as seleções e outros times. Eu saí dos escolares, mas os escolares nunca vão sair de mim. Espero que mais atletas tenham a oportunidade de integrar outros times”, relata o jovem.

Um esporte com muitos parceiros

O presidente da Federação, Frank Thieny Brito de Lima, revela que ao longo desses 13 anos, a FEABC enfrentou e ainda enfrenta diversas dificuldades. Segundo ele, a principal delas “é a pessoa com deficiência reconhecer que a vida não parou, que sempre tem mais uma chance e oportunidade de vencer e viver dignamente. Seja na área do esporte, da educação ou do lazer”

Brito avalia que, atualmente, a Federação está entre as melhores da região Norte, mas que ainda é preciso muito investimento para continuar o trabalho e, dessa forma, conseguirem se filiar à Confederação Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas (CBBC).

Hoje, a FEABC funciona em uma sala da Comissão de Acessibilidade e de Atletas Paralímpicos, situada na região do Distrito Industrial. Para alcançar suas metas, a instituição tem firmado cada vez mais parcerias. Desde o final do ano de 2019, empresas e órgãos públicos têm contribuído para a permanência da prática do basquete em cadeira de rodas no Acre. Abaixo, estão alguns dos parceiros e recentes ações realizadas.

Caixa Econômica Federal: Em 2019, por meio do projeto Caixa Mais Desenvolvimento, que tem o objetivo de levar investimentos diversos para várias regiões do país, a FEABC recebeu, por meio da Prefeitura de Rio Branco, a doação de 12 cadeiras de rodas;

Universidade Federal do Acre: De acordo com Jefferson Feitosa de Almeida, Coordenador do Programa de Esporte Paralímpico da Ufac/comunidade, a universidade em parceria com a Federação e o Centro de Referência Paralímpico do Acre, possibilita o treinamento dos atletas, dentre outras outros eventos. Além disso, a instituição também cede espaço para treinos e eventos. “Por  enquanto,  prestadores de serviços e bolsistas atletas recebem recurso financeiro no valor de R$ 400,00, por meio de assinatura de convênio, mas as propostas estão passando por tramites legais para haver alterar para o valor de R$ 700,00”, informa o coordenador do programa Almeida.

Secretaria de Estado de Educação, Cultura  e Esportes: Um dos investimentos mais recentes feitos pela SEE, conforme explica o secretário estadual Aberson Carvalho, foi a realização de um convênio para aquisição de cadeiras de rodas adaptadas. Ao todo foram investidos R$ 50 mil em recursos. “O que estiver ao alcance do Governo para contribuir na transformação da vida desses atletas, vamos fazer”.

Aberson Carvalho de Sousa – Secretário de Estado de Educação, Cultura e Esportes – Foto: Arquivo pessoal

Outra ação promovida pela SEE foi a compra de passagens aéreas para os atletas do basquete em cadeira de rodas disputares os Jogos Brasileiros Universitários. A equipe acreana voltou para casa com medalhas de bronze.

Secretaria Municipal do Esporte: Para que os atletas possam realizar os treinos e competições, a Secretaria disponibiliza o espaço do Centro de Iniciação ao Esporte (CIE).

Medplus: Atualmente, é o principal patrocinador da FEABC, dando suporte com material hospitalar, além de ajudar os atletas em momentos de doença e com a aquisição de uniformes.

Uma equipe muito premiada

A primeira competição da Seleção Acreana de Basquete em Cadeira de Rodas aconteceu em 2008, em Manaus. “O time não tinha experiência e acabou ficando na última colocação, mas isso nos motivou e no ano seguinte ficamos em oitavo lugar entre as 16 equipes que participaram”, revela Manielden Lima.  

Um troféu muito importante para a equipe veio em 2021, com a participação nas Paralimpíadas Universitárias. Os atletas trouxeram para o Acre a medalha de bronze. No ranking geral, a equipe que disputou em nome da Ufac ficou em primeiro lugar. O evento aconteceu no Centro de Treinamento da Confederação Paralímpica do Brasil, em São Paulo, entre os dias 16 e 19 de setembro.

Premiações recebidas pela seleção acreana incluindo a participação das paraolimpíadas universitárias de 2021 – Foto: Gercineide Maia

Para 2023, a Seleção Acreana de Basquete em Cadeiras de Rodas quer conquistar ainda mais. A ideia é integrar competições regionais, participar do Campeonato Universitário, da Copa da Revolução e também da Copa Acre x Rondônia, que acontecerá em Porto Velho. A ideia, segundo o presidente da Federação, Frank Thieny, é retornar dessas competições com mais medalhas e troféus.

Conheça a atual equipe da Seleção Acreana de Basquete em Cadeira de Rodas: Manielden Lima Távora (técnico) e Pâmela Jhemiule (auxiliar), além dos atletas Agnaldo Casoti Borges, Ana Clara Alves de Lima, Ana Keyla da Silva Macedo, Elizeu Barros Machado Junior, Emerson de Souza Monte, Fabio Mendes de Souza, Francisco Lima de Souza, Frank Thieny Brito de Lima, Jhonathan Mendes do Vale, José Firmino de Lima, José Ricardo Freitas da Silva, Lourenço Moreira Vieira Neto, Luiz Carlos Aragão Ferreira, , Márcio Cleide José de Lima, Maria Nisse Rodrigues Ferreira, Maria Tailine da Silva Marques, Raimundo da Rocha Pereira, Thomas Rodrigues Silva, Wanderley Matos e Wemerson Pereira Sobrinho.

O esporte contra o capacitismo

O capacitismo é toda a forma de preconceito que acontece contra a pessoa com deficiência. A crença do capacitista é alimentada toda vez que há a ideia de que a deficiência é um empecilho determinante para a independência, realização de tarefas cotidianas, inserção no mercado de trabalho, entre outras atividades.

Contrariando princípios de equidade, o comportamento capacitista é um crime de discriminação e opressão contra a pessoa com deficiência. O capacitismo vai além da inferiorização, ele mostra âmbitos que ferem a dignidade da pessoa que sofre o preconceito. Muitas vezes, as ações e falas capacitistas vêm disfarçadas de discursos de que pessoas com deficiência são heróis ou pessoas especiais que precisam sempre ser cuidadas. São atos como estes que ignoram as competências individuais de cada um, a partir de um olhar humanizado. 

De acordo com Francisco Héliton do Nascimento, professor do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do  Acre (IFAC), na legislação brasileira está caracterizado, apesar de não aparecer, o termo capacitismo ou capacitista, que é justamente é o preconceito e discriminação que as pessoas com deficiência sofrem na sociedade.

“A sociedade pode permitir, que as pessoas com deficiência interajam, ocupem seus lugares.  Se elas têm deficiência, não cabe a sociedade julgar se ela é digna ou não estar.  Devemos combater toda e qualquer forma de capacitismo. Conforme a Lei Brasileira de Inclusão, Capítulo II – Da Igualdade e da Não Discriminação,  Art. 4º,  “toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação.

Francisco Héliton do Nascimento é professor do Instituto Federal do Acre – Foto: Marcos Jorge Dias

Elizeu de Souza é atleta, tem de 27 anos e pratica basquete em cadeira de rodas desde os sete anos de idade. A iniciativa veio de sua mãe, Francelina de Souza, que conta que o inseriu no esporte para seu filho levasse uma vida saudável e possível. Ela ressalta que o esporte desempenha medidas contra doenças, como depressão e ansiedade.

No vídeo abaixo, você confere um pouco do que a mãe de Elizeu de Souza diz sobre a prática do basquete em cadeira de rodas:

Texto: Edilárdia Idalgo, Gercineide Maia, Marcos Jorge Dias, Petronilio Neto e Vitória Lauane Araújo

Redação

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Entre bancos de areia e celebrações: festivais de praia revelam o lado vivo dos rios amazônicos

Mais do que lazer, os festivais de praia impulsionam o turismo sustentável e resgatam a relação histórica da população amazônica com os rios

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Por Jerfeson Gadelha e Laianny Sena

Durante o período de estiagem na Amazônia, quando o nível das águas começa a baixar, os rios ganham novas formas e significados. Os bancos de areia que surgem ao longo de seus leitos deixam de ser apenas marcas da seca e se transformam em espaços de convivência, lazer e celebração cultural. Nos municípios acreanos e em outros da região Norte, como Boca do Acre (AM), esse fenômeno dá origem aos tradicionais festivais de praia, eventos que unem cultura, turismo e desenvolvimento econômico, ressignificando a relação da população com os rios.

Em 2025, no município de Feijó, localizado no estado do Acre, foi realizada a 26ª edição do Festival de Praia de Feijó, evento tradicional que ocorre anualmente no verão amazônico, geralmente em conjunto com o Festival do Açaí. Reconhecido pela produção de um dos açaís mais tradicionais do estado, o município utiliza o evento como espaço de promoção da música, do esporte, do lazer e da cultura às margens do rio, atraindo milhares de pessoas e movimentando a economia local.

Na última edição, o festival contou com apresentações de artistas nacionais como Lucas Lucco, Natanzinho e Dilsinho, reunindo cerca de 40 mil pessoas no último dia da programação, segundo a prefeitura local. A programação musical foi marcada por gêneros populares como sertanejo, forró, piseiro e arrocha, além da valorização de artistas locais e da música regional.

Com 26 edições realizadas, o Festival de Praia de Feijó se consolidou como uma das principais manifestações culturais do município durante o período de estiagem. Além dos shows musicais, a programação inclui competições esportivas, atividades recreativas e espaços destinados à comercialização de alimentos e produtos regionais, fortalecendo a economia local e incentivando o empreendedorismo de pequenos comerciantes.

Festival de Praia de Brasiléia. Foto: Giovanny Endres

O festival também atrai visitantes de outros municípios e até de estados vizinhos, impulsionados pela presença de atrações nacionais e pela possibilidade de lazer às margens do rio, onde o público aproveita os bancos de areia para banho, convivência e celebração cultural.

No município de Brasiléia, no Alto Acre, a tradição dos festivais de praia também ganhou novo fôlego em 2025, com o retorno de um evento que não era realizado há mais de duas décadas. Às margens do rio Acre, o festival contou com mais de dez atrações musicais, entre bandas, cantores e DJs, além de uma programação diversificada de atividades culturais e esportivas, como a escolha do Garoto e da Garota Verão, torneios de futevôlei e uma corrida de motocross.

A competição sobre duas rodas reuniu pilotos do Acre, de outros estados e até do Peru, ampliando o alcance regional do evento e movimentando a economia local com a presença de moradores, turistas e comerciantes.

Para quem trabalhou diretamente no evento, o retorno do Festival de Praia representou uma oportunidade importante de geração de renda. O proprietário da Adega Imperial, Lindomar, que participou pela primeira vez da festividade, avaliou de forma positiva a retomada após tantos anos sem realização no município.

“Fazia muito tempo que não tinha Festival de Praia aqui na cidade, então no início houve um pouco de desconfiança. Mesmo com a organização acontecendo em cima da hora, o público surpreendeu. Economicamente foi muito positivo, conseguimos vender bastante e muitas pessoas saíram satisfeitas”, relata.

Segundo o comerciante, apesar da necessidade de melhorias estruturais, o impacto do evento para o comércio local foi significativo. “Por ter sido a primeira edição depois de tanto tempo, é natural que alguns pontos precisem ser ajustados, mas acredito que o próximo será ainda melhor, com mais pessoas interessadas em participar e trabalhar”, destaca.

Lindomar também ressaltou que festividades desse porte são fundamentais para o fortalecimento da economia local. “Esses eventos movimentam a economia de Brasiléia e de toda a região de fronteira. São oportunidades importantes para quem vive do comércio”, conclui.

O impacto econômico e social do evento também foi destacado pelo prefeito de Brasiléia, Carlos Armando, conhecido como Carlinhos do Pelado. Para ele, o festival representou uma retomada importante para o município após mais de duas décadas sem a realização da festividade.

“O Festival de Praia que ocorreu em Brasiléia no ano passado foi uma festa maravilhosa. Nós aquecemos a economia local, os hotéis, os barraqueiros de alimentação, de sorvete, de bebida alcoólica e de refrigerante. As pessoas que participaram ficaram maravilhadas, porque havia mais de 20 anos que esse evento não acontecia no município. Hotéis, postos de gasolina e restaurantes tiveram uma movimentação muito boa, mostrando que o festival foi um sucesso”, destaca.

Segundo ele, a expectativa é que o evento continue crescendo nos próximos anos. “Este ano iremos realizar novamente, já estamos nos organizando e, se Deus quiser, será um sucesso mais uma vez, ainda melhor do que o do ano passado”, afirma.

Identidade amazônica

Além de Feijó e Brasiléia, municípios acreanos como Tarauacá e Porto Acre também realizam festivais de praia durante o período de estiagem, reforçando a tradição cultural ligada aos rios no estado.

A tradição dos festivais de praia não se limita ao Acre. Em outros municípios da Região Norte, esses eventos também se consolidam durante o período de estiagem, reunindo música, lazer e convivência às margens dos rios.

Um exemplo é o Festival de Praia de Boca do Acre, realizado anualmente às margens do rio Purus, no Amazonas. Em 2025, o evento chegou à 27ª edição, ocorrida entre 30 de agosto e 14 de setembro, com programação que incluiu competições esportivas, apresentações culturais e grandes shows musicais. A programação musical mesclou gêneros como forró, sertanejo, piseiro e música dançante, com participação de atrações locais e regionais, com destaque para o encerramento com o cantor Zé Vaqueiro.

Festival de Praia de Boca do Acre. Foto: reprodução

Consolidado no calendário cultural da cidade, o festival atrai visitantes do Acre, do Amazonas e de outros estados, movimentando intensamente a economia local. Durante o evento, setores como alimentação, transporte e hospedagem registram aumento significativo na demanda, evidenciando o potencial turístico gerado pelas praias fluviais formadas no período da seca.

A rede hoteleira de Boca do Acre reflete esse aquecimento. Empreendimentos locais alcançam alta taxa de ocupação, com reservas próximas do limite, impulsionadas pelo fluxo de turistas que buscam acompanhar a programação do festival. Para comerciantes e empresários, o evento representa não apenas visibilidade cultural, mas também geração de renda e empregos temporários.

Festival de Praia de Boca do Acre. Foto: reprodução

Mais do que entretenimento, os festivais de praia ajudam a fortalecer o turismo sustentável e a preservar uma relação histórica entre a população amazônica e seus rios. Em um contexto em que o Rio Acre costuma ser lembrado principalmente por enchentes e alagações, essas festividades revelam um outro olhar: o do rio como espaço de encontro, alegria e oportunidade.

Ao transformar os bancos de areia em palcos de festa, os festivais de praia reafirmam o papel dos rios amazônicos como elementos centrais da identidade regional, mostrando que, além de sua força natural, também carregam histórias, sorrisos e possibilidades de desenvolvimento para o Acre e toda a região.

Redação

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OLÍMPIADAS DE INVERNO 2026

Acreano Manex Silva garante o melhor resultado da história do Brasil no esqui cross-country

Atleta acreano alcança resultado inédito nos Jogos Olímpicos de Inverno e mira o top 30 em Milão-Cortina 2026

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Por Eleonor Rodrigues e Ranelly Yasmim Pinheiro

O calor e a umidade fazem parte da rotina no Acre, onde rios e florestas densas compõem a paisagem amazônica. A milhares de quilômetros, o cenário é outro: temperaturas abaixo de zero, florestas cobertas de neve e cursos de água congelados. A mudança de ambiente também muda o ritmo, o que antes era tranquilo ganha velocidade, a adrenalina e a prática de esportes de inverno, como o esqui, transformam o frio intenso em experiência e contato com a natureza

Nascido em Rio Branco, no Acre, Manex Salsamendi Silva, de 23 anos, participa pela segunda vez das Olimpíadas de Inverno, na modalidade esqui cross-country. Sua estreia ocorreu na edição de Pequim 2022, e agora ele compete em Milão-Cortina 2026.

Na edição dos jogos de 2026, atleta estreou na prova do Sprint Clássico e conquistou uma posição histórica ao se tornar o primeiro brasileiro a alcançar a 48ª colocação nos Jogos, com o tempo de 3min25s48. Já no dia 13 de fevereiro, ele disputa a prova dos 10 km livre, a partir das 6h30, no horário do Acre.

Eliminatórias do Sprint Clássico. Foto: Gabriel Heusi/COB

Manex Silva mudou-se para o país Basco, localizado entre o norte da Espanha e sudoeste da França, quando tinha apenas dois anos. Aos oito foi para a região mais ao norte que é cercada por montanhas e que neva bastante durante o inverno. Por lá começou a praticar esqui cross-country no clube da região com os amigos da vila.

Crescido entre a cultura brasileira e basca, o acreano conta que não foi difícil escolher representar o Brasil ao invés da Espanha. Em casa, Manex falava português com a mãe e aprendia da cultura brasileira, e com o pai, da cultura basca e falando o euskera.

“Lá em casa eu sempre me senti brasileiro e basco, e não tanto espanhol, então não foi uma escolha muito difícil poder representar o Brasil nesse esporte. Além disso, foi mais fácil também porque naquela época que eu comecei a competir a Federação da Espanha não ajudava tanto os atletas novos e eu encontrei uma oportunidade com a Federação Brasileira. E, na verdade, estou muito feliz com aquela decisão que eu tomei faz anos”.

Manex ainda criança. Foto: Instagram/manexsalsamendi

Com treinos intensos, uma rotina regrada na alimentação, estudos, atividade física e trabalho mental, o atleta revela que seu objetivo a longo prazo é poder competir com os melhores esquiadores do mundo. No entanto, com uma mente focada e um tanto realista, conta que ainda não está nesse nível.

Para as Olimpíadas de 2026, sua meta é estar no meio da tabela ou pelo menos entre os 30 ou 40 primeiros colocados. Na sua primeira competição de sprint, o atleta fico no top 50 primeiros.

“Poder representar o Brasil nos jogos olímpicos é bem legal e uma honra pra mim porque mesmo o Brasil não tendo sido um país muito forte nos esportes de inverno, esses últimos anos a confederação pegou muita força e respeito, porque cada vez tem esportistas melhores”, conta.

Se o Brasil está de olho nos 14 atletas que disputam as Olimpíadas, o Acre está de olho no menino dos seus olhos. Ao ser questionado sobre o que faz ele se identificar como acreano, Manex não hesita:

“Eu tenho boas lembranças lá do Acre, mesmo tendo saído muito cedo dali pra morar na Espanha. Eu voltei várias vezes lá e eu ainda tenho familiares: tios, tias e primos. E eu acho que minha mãe sempre me transmitiu essa cultura brasileira e lá do Acre. Eu sempre me senti representado pelo Acre e pelo Brasil também”.

“Poder representar o Brasil nos jogos olímpicos é bem legal e uma honra pra mim”. Foto: Instagram/manexsalsamendi

Ele conta que quer demonstrar para o Brasil e para o mundo que o país pode ser forte no cross-country. Além disso, busca inspirar brasileiros que tem a oportunidade de competir em esportes de inverno para também representarem o Brasil. Como o esporte na neve não é tão comum no Brasil, os atletas da neve carregam uma responsabilidade especial.

“Sim, eu acho que temos a responsabilidade de poder mostrar pro Brasil esses esportes não tão conhecidos. Poder ter uma boa representação e mostrar pra eles que o Brasil mesmo não tendo neve pode chegar a ser um país bom nos jogos e mostrar pro resto do mundo também que mesmo sendo um país sem muita tradição de neve a gente pode chegar até o topo”.

O Brasil é um país tropical, e por tanto, não investe tanto em esportes de inverno. O acreano é amparado pelo Bolsa Atleta do Governo do Brasil, que investe cerca de R$1,6 milhões ao longo de sua carreira. No entanto, esse valor não é o suficiente para arcar com as despesas de preparar um atleta de alto nível.

“Estamos fazendo um bom trabalho como time. Os países grandes têm muitos patrocinadores, então podem investir muito dinheiro em material, em preparação. O Brasil ainda pode melhorar muito nesse aspecto,” explica o acreano.

O atleta conquistou uma posição histórica ao se tornar o primeiro brasileiro a alcançar a 48ª colocação nos Jogos. Foto: Gabriel Heusi/COB

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Manex Silva é dono dos melhores resultados masculinos da história do Brasil no esqui  cross-country.  Ele  conquistou  a  melhor  pontuação  FIS  –  sistema de ranqueamento da Federação Internacional de Esqui e Snowboard – da história do Brasil entre os homens, com 81.36 pontos, na Copa do Mundo de Oberhof, em 2026. E, nos Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude de Lausanne 2020, conquistou o 39º lugar no sprint.

Em Beijing 2022 fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a disputar quatro provas em uma mesma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, além de ser o primeiro do país a atingir o índice A de classificação olímpica – menos de 150 pontos FIS. Na mesma edição, foi escolhido porta-bandeira do Brasil na Cerimônia de Encerramento e terminou o sprint na 71ª colocação, sendo o melhor sul-americano da prova, e ficando em 58º nos 50 km.

O Esqui Cross-country é um dos esportes mais difíceis e tradicionais das Olimpíadas de Inverno. Foto: Gabriel Heusi/COB

A história do Esqui Cross-country

O Esqui Cross-country é um esporte de resistência, e considerado um dos mais difíceis e tradicionais das Olimpíadas de Inverno. Cross-country, em inglês significa “atravessar o país”, e por séculos, nos países nórdicos as pessoas usavam pedaços de madeira para esquiar e cruzar grandes distâncias.

No século XIX, esta prática se tornou um esporte e os esquis se modernizaram. Os atletas percorrem distâncias variadas com esquis impulsionados por bastões, em duas diferentes técnicas: a Clássica e a Skating. Na primeira, os atletas percorrem trilhos previamente preparados, com os skis paralelos entre si.

Já a técnica Skating é mais veloz e o atleta “empurra” o ski para “fora” em um ângulo de 45 graus, ou em “V”, imitando a patinação no gelo. Outra modalidade é skiathlon, em que os atletas apresentam ambas as técnicas. Nesta Olimpíada ocorrerão 12 eventos de esqui cross-country, com homens e mulheres percorrendo as mesmas distâncias pela primeira vez na história.

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Estudantes da Ufac enfrentam atrasos e superlotação em transporte coletivo do Acre

Problemas no deslocamento e falta de segurança, sobretudo de noite, impactam rotina e desempenho dos universitários

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Por Ana Cristina e Joyce Beatriz

Para muitos estudantes da Universidade Federal do Acre (Ufac), o transporte coletivo é o único meio de locomoção disponível, fundamental para desempenhar diversas atividades ao longo do dia e chegar à universidade. No entanto, o que deveria ser um simples deslocamento se transforma em uma rotina desgastante e cheia de obstáculos.

Ônibus superlotados e em condições precárias percorrem rotas incompletas e, muitas vezes, não chegam ao destino final. Paradas mal iluminadas e sem segurança se transformam em pontos de tensão: cada espera é marcada por olhares atentos, passos apressados e o receio constante de assaltos. A sensação de vulnerabilidade se junta ao desconforto físico, tornando o trajeto uma experiência desgastante que vai muito além da perda de alguns minutos.

Universidade Federal do Acre, onde estudantes enfrentam diariamente dificuldades de acesso devido à precariedade do transporte coletivo. Foto: reprodução

Essa realidade evidencia um grave problema estrutural. A precariedade da infraestrutura do transporte público e a fragilidade das políticas de segurança comprometem diretamente a qualidade de vida dos estudantes, interferindo na permanência na universidade e na conquista de seus objetivos acadêmicos. Entre o silêncio tenso nos pontos de ônibus e a incerteza de chegar em segurança, a mobilidade estudantil se revela um desafio diário que exige atenção urgente do poder público e das autoridades responsáveis.

A Ufac conta, atualmente, com três linhas de ônibus: Ufac/Avenida Ceará, Rodoviária e Ifac. Segundo alunos do período da manhã, os veículos não suprem a demanda que a universidade possui.

Impactos no rendimento acadêmico e na saúde mental

A acadêmica do curso de Educação Física, Raiça Azevedo, relata que sua experiência usando o transporte coletivo para chegar à Ufac é desgastante. “Minhas aulas começam às 7h30, além de morar longe da universidade, acabo tendo que pegar o ônibus das 5h no meu bairro para não chegar atrasada. No terminal, pego o ônibus Ufac/Avenida Ceará das 5h30 e chego à Ufac por volta de 6h05 ou 6h10. Para não precisar acordar tão cedo, tentei pegar o ônibus do meu bairro às 6h10, porém acabei chegando atrasada na aula”.

Dependentes quase exclusivamente dos ônibus urbanos e municipais, estudantes como Raiça relatam longos intervalos entre as viagens, superlotação e incompatibilidade entre os horários dos ônibus e o início das aulas, especialmente nos turnos da manhã e da noite. Para quem mora em bairros distantes como a estutante, o dia começa ainda de madrugada.

“Em uma dessas tentativas, peguei o ônibus no bairro às 6h10, ele chegou ao terminal às 6h50 e fiquei esperando o Ufac/Avenida Ceará até as 8h50, ou seja, duas horas no terminal até conseguir chegar à universidade”, relata.

O estresse causado pelos atrasos frequentes e pela incerteza do deslocamento afeta o rendimento acadêmico e a saúde mental dos estudantes. Além desses pontos, a falta de segurança, principalmente no horário noturno, causa medo e insegurança aos universitários.

Parada de ônibus no entorno da Ufac durante a noite: falta de iluminação e sensação de insegurança fazem parte da rotina dos universitários. Foto: arquivo pessoal

O acadêmico de Jornalismo, José Henrique, relata que “não há iluminação no ponto de ônibus próximo ao bloco de Jornalismo da Ufac. A parada de ônibus chega a ser completamente escura, assim como o estacionamento do bloco. Há relatos frequentes de assaltos, o que gera uma aflição”.

José também revela que em um desses casos chegou a ficar depois do horário de fechamento da Universidade, pois não havia transporte coletivo no período noturno. Segundo ele, alunos passaram horas na parada esperando por um ônibus que não apareceu. 

“Foi desesperador”. O estudante afirma que quem não tinha dinheiro para pagar aplicativo de transporte, precisou procurar outra alternativa dentro da universidade, e relata alunos que dormiram em Centros Acadêmicos, por falta de outras  alternativas.

Ausência de políticas públicas de mobilidade

Os acadêmicos também destacam a sensação de abandono e descaso por parte da Prefeitura de Rio Branco. A ausência de políticas públicas consistentes de mobilidade estudantil e de um transporte coletivo eficiente representa, assim, um obstáculo significativo ao direito à educação e à igualdade de oportunidades, demandando atenção urgente das autoridades e da sociedade civil.

De acordo com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufac, a falta de linhas compatíveis com os horários das aulas, principalmente no período noturno, agrava a situação e dificulta a permanência estudantil. 

À noite, a precariedade da infraestrutura se intensifica: paradas sem iluminação adequada expõem estudantes a riscos e reforçam a sensação de abandono. Foto Diogo josé

Enquanto cobramos melhorias, como aumento da frota e ampliação do passe estudantil, o transporte coletivo segue como um dos principais obstáculos para quem busca acesso e permanência no ensino superior no estado.

A equipe do jornal laboratório A Catraia tentou contato com a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito de Rio Branco (RBTrans) para apurar os fatos relatados pelos estudantes. Entretanto, até o fechamento desta edição, o órgão não respondeu de forma oficial às solicitações enviadas.

Redação

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