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Por que tantos jovens têm recorrido ao uso de energético para a prática de exercícios

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Em 10 anos, consumo da bebida energética aumentou 237%

Por AmandaOliveira, Kerolayne França e Vitória Lima

O levantamento da plataforma Cupom Válido, divulgado em 2023, coletou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e apontou que o Brasil está em 2.º lugar, quando se trata de países em que a população mais frequenta academia no mundo. O Brasil possui uma média de 21% de habitantes que frequentam academia, ficando atrás apenas da China, que possui a porcentagem de 24%. A atividade mais comum do público que frequenta esse espaço é a musculação, com isso é importante a conscientização dos tipos de pré-treino utilizados, como o energético.

Foto: Cláudio Angelim/ Arquivo pessoal

Para compreender um pouco sobre o tema, realizamos uma pesquisa por meio do Google Forms, para levantar resultados sobre o uso do energético, os malefícios e o conhecimento que a sociedade praticante ou não de musculação tem sobre essa bebida. A faixa etária dos entrevistados varia de 15 a 55 anos.  A pesquisa mostra que 6,9% das pessoas utilizam energético durante o treino, enquanto 20,7% afirmaram que consomem a bebida às vezes para treinar.

Gráfico, Gráfico de pizza

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O consumo do energético vem crescendo bastante nos últimos anos, conforme a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (Abir). Em 2020, por exemplo, os brasileiros consumiram em média 151 milhões de litros. Em comparação com 2010, o número era de 63,7 milhões. Em 10 anos, houve o aumento de consumo de quase 237%. Em sua composição, o energético apresenta cafeína e taurina, que agem como estimulantes e servem para que o indivíduo permaneça “alerta”, por isso o uso da bebida para os praticantes de musculação.

Energético aliado a outras substâncias

Os pré-treinos são uma combinação de ingredientes que ajudam a aumentar o desempenho no momento de treinar. Além do energético, é bastante comum usar creatina, uma substância usada como suplemento para aumentar a eficiência dos músculos. Muitas pessoas acabam realizando a mistura dessas substâncias considerando que pode haver uma melhora bem mais eficiente, na prática dos exercícios. 

Calendário

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Foto: Vitoria Lima / Arquivo pessoal

O professor de educação física Abib Junior, preparador físico no clube profissional Santa Cruz Esporte Clube, que atua há cinco anos na área, acredita que o energético misturado a outras substâncias pode ser prejudicial. “A questão é o uso do energético aliado a outras substâncias, pois ajudam no aceleramento do coração”, afirmou. 

Abib também não indica o uso da bebida e explica para quem consome sobre a necessidade de um controle maior. “Tenho amigos que usam e que já passaram mal pelo uso excessivo de energético, não indico o consumo para treinar, pois não é necessário, só precisamos de uma boa alimentação. Mas, para quem consome é preciso ter um controle no uso”, frisou.

Marcivani Oliveira, nutricionista esportiva há dois anos, relata sobre as consequências dessas misturas, “a mistura do energético com outras substâncias como, gengibre, chá-verde ou creatina, podem acarretar palpitações, dores de cabeça, ansiedade, agitação, insônia, tremedeira, irritabilidade e desconforto gástrico”.

Foto: Blog Na Medida/ Reprodução

Efeitos que a bebida energética provoca no corpo humano

O artigo “A ação da bebida energética na frequência cardíaca independente da capacidade funcional” explica que “doses de cafeína de até 400mg/dia ou até 200 mg em dose única são consideradas seguras do ponto de vista cardiovascular. No entanto, com frequência adicionam-se substâncias como taurina, guaraná, vitaminas e minerais que podem potencializar o efeito da bebida energética e, consequentemente, aumentar o risco de eventos adversos”. Porém, nem todas as pessoas procuram ter acesso a esta informação e acabam descobrindo após consumir a bebida em excesso.

É comum ouvir alguém dizer que precisa tomar um energético quando necessita de energia corporal para ter disposição, porém geralmente não se tem atenção para a quantidade que pretende ingerir. E esse foi o caso da Maria Patrini de Oliveira, que falou sobre a experiência que teve ao ingerir em excesso o energético antes e durante uma atividade de musculação na academia. “A sensação que tive foi como se meu coração fosse sair pela boca de tanto palpitar, minhas mãos não paravam de tremer enquanto levantava os halteres e eu acreditava que era por conta da musculação que exige muito do corpo, só fui perceber que isso foi causado pelo energético que tomei porque aconteceu outros episódios depois desse e neles eu também tinha tomado”, contou.

Mulher segurando celular pousando para foto

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Foto: Maria Patrini / Arquivo pessoal

A pesquisa acadêmica abaixo aponta que 13,8% de pessoas já passaram mal após consumir energético, 55,2% negaram ter passado mal em algum e 31% sequer tomam a bebida energética.

Gráfico, Gráfico de pizza

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Foto: Gráfico Google Forms / Arquivo pessoal

Segundo o médico Mateus Cunha, a bebida energética pode provocar graves efeitos negativos no corpo humano, principalmente em pessoas gestantes, idosos, crianças, diabéticos e quem tem hipertensão ou problemas cardíacos, pois a bebida possui substâncias que acarretam danos mais sérios a esses organismos. 

Mateus também explicou que “é normal sentir o coração bater aceleradamente porque a bebida aumenta o fluxo sanguíneo que leva gás oxigênio para o coração e solta o gás carbônico para fora do organismo e o coração trabalha dobrado para bombear todo esse sangue, e então durante todo o trabalho duro do organismo os efeitos vão ser mãos trêmulas, coração acelerado e respiração ofegante que para quem não está acostumado acaba sendo preocupante. Mas o ideal é beber bastante água e se deitar até o efeito passar.” E sobre o consumo antes e durante quaisquer atividades físicas, Mateus Cunha alertou que “é importante ter acompanhamento de um médico ou nutricionista que ajude sobre essa questão do que pode ou não usar antes de uma atividade física, porque o corpo e a mente precisam estar preparados para qualquer situação”.

Equilíbrio no uso 

Segundo Marcivani, nutricionista esportiva, o energético pode sim ser utilizado como pré-treino, porém com algumas restrições. “Depende do paciente. Se ele tiver problemas cardíacos e de ansiedade, o energético deve ser evitado”. Marcivani também relata que libera a bebida aos seus pacientes se a pessoa não possuir contraindicação. “Libero uma lata de 250ml, mas se o cliente tem uma sensibilidade maior a cafeína eu libero dependendo do horário do treino, se for pela tarde eu não libero, porque esse paciente já pode ter tomado uma quantidade excessiva de cafeína”. 

Mulher na frente de um balcão

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Foto: Marcivani Oliveira / Arquivo pessoal

Dessa forma, percebe-se que há sim casos nos quais o energético afeta o corpo humano, mas isso depende muito da sensibilidade da pessoa quanto ao seu uso e sobretudo da quantidade com que a bebida é consumida, é como o ditado que diz “tudo demais faz mal”, com o energético não é diferente. A bebida pode e é em certos casos indicada para o uso de praticantes de musculação e esportes, porém de forma controlada e baseada na saúde física do indivíduo. Com o equilíbrio, é possível que o energético seja um aliado no dia a dia, o indicado é que se beba com consciência e busque o auxílio de um profissional para uma melhor qualidade de vida utilizando a bebida.

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Especiais

Cine Teatro Recreio resiste às cheias do Rio Acre

Em uma década, o teatro histórico precisou fechar ao menos três vezes após o Rio Acre ultrapassar os 17 metros

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Interior do Cine Teatro Recreio alagado durante a cheia do Rio Acre, em março de 2024. O espaço precisou ser fechado por segurança e preservação do patrimônio. Imagem: Eldérico Silva

Por Daniel Alysson e Davi Mansour

O Cine Teatro Recreio ocupa um lugar central na história cultural de Rio Branco. Localizado no calçadão da Gameleira, às margens do Rio Acre, o espaço atravessou quase um século como ponto de exibição de filmes, espetáculos de música, dança, teatro entre outros eventos culturais. Essa mesma localização, no entanto, tornou o Cine um dos equipamentos públicos mais expostos às cheias do rio, que ao longo dos anos provocaram alagamentos, paralisações e prejuízos recorrentes.

Nos últimos dez anos, o espaço foi afetado pelas grandes enchentes de 2015, 2023 e 2024, quando o nível do Rio Acre ultrapassou os 17 metros e invadiu o Segundo Distrito da capital. Em todos esses episódios, o Cine Teatro precisou ser fechado temporariamente por questões de segurança e preservação do patrimônio.

Fachada do Cine Teatro Recreio. Foto: Ingrid Kelly 

Além das cheias provocadas pela subida do Rio Acre, o Cine Teatro Recreio enfrenta dificuldades relacionadas à manutenção do prédio e às condições urbanas do entorno. Em períodos de enchente, o alagamento do espaço exige a retirada de equipamentos, a suspensão da programação cultural e intervenções emergenciais para evitar danos maiores à estrutura. As chuvas intensas passaram a causar transtornos, ampliando a frequência das paralisações e evidenciando a vulnerabilidade do prédio histórico diante das mudanças na dinâmica urbana da Gameleira.

Um patrimônio que ajudou a formar a cidade

O Cine Teatro Recreio surgiu ainda nas primeiras décadas do século XX, quando Rio Branco dava seus primeiros passos como núcleo urbano. Inicialmente conhecido como Cine Ideal e depois Cine Éden, o prédio foi inaugurado oficialmente como Cine Teatro Recreio em 13 de junho de 1948, consolidando-se como uma das principais casas de espetáculo da capital.

Ao longo das décadas, o Cine Teatro Recreio concentrou exibições regulares de filmes, sessões especiais e apresentações artísticas que marcaram a vida cultural de Rio Branco. No Segundo Distrito, o espaço se firmou como um dos principais pontos de encontro do público com o cinema e as artes, sendo frequentado por gerações de moradores que tiveram ali uma das principais opções de lazer em uma cidade que ainda contava com poucas alternativas culturais organizadas.

Antes de assumir definitivamente o nome que mantém até hoje, o prédio integrava a rotina urbana quando funcionava como Cine Éden. Inaugurado em 1946, no Calçadão da Gameleira, o cinema de rua exibia produções nacionais e estrangeiras, além de seriados bastante populares à época, especialmente os ambientados no velho oeste norte-americano. Registros históricos indicam que títulos como Tambores de Fu Manchu, Adaga de Salomão, Perigos de Nioka e O Segredo da Ilha Misteriosa eram repetidos em cartaz, atraindo um público fiel, mesmo diante da dificuldade de acesso a novos filmes, que chegavam a Rio Branco com meses de atraso por via fluvial.

Produção estrangeira exibida no Cine Éden: Tambores de Fu Manchu, seriado popular entre o público do cinema na década de 1940. Imagem: arquivo MUBI

A programação do Cine Éden também incluía longas-metragens de aventura, faroestes e dramas, com nomes populares do cinema da época, como Roy Rogers, Bill Elliott e Charles Starrett, além de exibições especiais que combinavam cinema e apresentações ao vivo. O espaço não era considerado uma sala de luxo nem voltada à elite local. Classificado nos registros da época como um cinema “popular”, o Éden funcionava como ponto de encontro acessível, frequentado por trabalhadores, famílias e jovens, em sessões que reuniam públicos diversos. 

Em reportagem da época, o antigo frequentador Raimundo Ferreira, morador do bairro Quinze, no Segundo Distrito, relatou que “quando o alto-falante tocava anunciando as matinês, as pessoas que iam de um lado a outro corriam para a sessão, esperando com ansiedade os filmes, que demoravam a chegar cerca de três meses, porque tudo era feito por transporte fluvial, eram as chatas que traziam os filmes”.

Fachada do Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco, onde funcionou o cinema que antecedeu o atual Cine Teatro Recreio. Imagem: arquivo DPHC

Além das projeções, o palco do Cine Éden também recebia apresentações musicais e eventos culturais. Em 1948, por exemplo, o cinema sediou a despedida do tenor pernambucano José Brasileiro, em uma noite que combinou apresentação ao vivo e exibição de filme, prática comum naquele período. Ao longo dos anos seguintes, o espaço passou por adaptações técnicas, incluindo a modernização das lentes para formatos como Cinemascope e Vistavision, acompanhando as transformações do cinema e da própria cidade.

Essa memória também aparece no relato de Terezinha Maria, que chegou ao Acre vinda da Bahia ainda jovem e passou a frequentar o Cine Teatro Recreio nos anos seguintes à inauguração oficial. “Era um dos poucos lugares onde a gente se encontrava para se distrair. 

O cinema fazia parte da rotina. As pessoas se arrumavam para ir, encontravam conhecidos, conversavam antes da sessão começar”, lembra. Segundo ela, o Cine Teatro reunia públicos diferentes e funcionava como ponto de convivência em uma cidade que ainda se estruturava. “Não era só assistir ao filme. A gente ia para ver o filme, mas também para ver as pessoas, saber das novidades, passar a noite ali.”

O público acompanhou a sessão no Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco. Imagem: arquivo

Segundo a historiadora da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Iri Nobre, o Cine Teatro sempre teve papel central na formação cultural de Rio Branco. “Muitas pessoas iniciaram suas trajetórias artísticas ali. Mesmo hoje, quando existem outros espaços culturais, o Cine Teatro continua sendo procurado, principalmente para exibição audiovisual e festivais de cinema”, afirma.

Vulnerabilidade histórica em área de várzea

A vulnerabilidade do Cine Teatro Recreio está diretamente ligada à forma como Rio Branco se desenvolveu. O prédio está localizado em uma área de várzea, próxima ao leito do Rio Acre, região naturalmente sujeita a alagamentos durante o período chuvoso, que vai de dezembro a março.

Apesar disso, o edifício não foi projetado para conviver com cheias frequentes. “Não há registros de que o prédio tenha sido pensado para resistir à subida do rio. Na década de 1920, a relação da cidade com o rio era outra, e não existia preocupação com hidrografia ou drenagem urbana”, explica a historiadora.

Registro comparativo do Calçadão da Gameleira antes e após a cheia de 2015, que deixou a região alagada com a elevação do nível do Rio Acre. Imagem: Google Street View e Iryá Rodrigues

Na enchente de 2015, considerada a maior da história do Acre, o Rio Acre atingiu 18,40 metros e a água invadiu o interior do Cine Teatro. O espaço permaneceu fechado por cerca de dois meses para recuperação. Segundo a historiadora, não houve perda documental porque o material havia sido retirado preventivamente, e o prédio não abrigava acervo histórico permanente.

Reformas, urbanização e novos problemas

Ao longo dos anos, o Cine Teatro Recreio passou por reformas importantes, como as realizadas em 1987 e 2010. A mais recente incluiu a construção de um novo espaço de alvenaria, numa tentativa de tornar o prédio mais resistente a interrupções causadas pelas cheias do Rio Acre. Apesar das intervenções, os alagamentos continuaram a ocorrer, especialmente nos últimos anos.

Auditório do Cine Teatro Recreio após as reformas da década de 1990, período de retomada das atividades culturais no espaço. Foto: reprodução

Para o arquiteto e chefe da Coordenação de Patrimônio Histórico da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Ítalo Facundes, parte da vulnerabilidade atual do Cine Teatro está diretamente relacionada às mudanças ocorridas no entorno do prédio. Segundo ele, intervenções recentes de infraestrutura e saneamento alteraram o comportamento natural da água na região da Gameleira.

“Obras de infraestrutura e saneamento mudaram a dinâmica do solo e do escoamento da água. Hoje, o solo satura mais rapidamente e a drenagem não funciona como deveria. Por isso, o Cine Teatro é um dos primeiros prédios a sentir os alagamentos”, explica.

Facundes destaca que, além da subida do Rio Acre, a água passou a retornar pelo solo e pelo sistema de escoamento urbano. “Antes, o impacto vinha basicamente do transbordamento do rio. Agora, mesmo chuvas intensas já provocam alagamentos internos”, afirma.

Segundo o arquiteto, uma solução definitiva exigiria uma intervenção estrutural profunda, com obras de drenagem de grande porte sob o prédio, o que envolve alto custo e complexidade técnica. Ainda assim, ele ressalta que não há garantia total de proteção em cheias extremas. “Quando o rio sobe muito, não existe solução arquitetônica que segure completamente”, resume.

Fechamentos e impacto cultural

As paralisações frequentes do Cine Teatro Recreio provocam impactos diretos na rotina cultural de Rio Branco. Durante os períodos de cheia, apresentações programadas são suspensas, eventos são cancelados ou adiados, e grupos artísticos precisam buscar outros espaços para ensaios e apresentações, muitas vezes com limitações de estrutura e agenda. A interrupção também afeta festivais, mostras audiovisuais e atividades formativas que costumam ocorrer no espaço.

Para a historiadora Antonia Odiceula de Souza, o fechamento do Cine Teatro durante as cheias não atinge apenas o Segundo Distrito, mas repercute em toda a cidade. “A Gameleira sempre foi um espaço de encontro, lazer e manifestações culturais desde a fundação de Rio Branco. Quando o Cine Teatro fecha, a cidade perde um ponto de referência cultural e simbólica”, afirma.

Ela explica que, por questões de segurança e preservação do patrimônio, o fechamento temporário se torna inevitável nos períodos de cheia. No entanto, ressalta que essas interrupções comprometem a continuidade das atividades culturais e o acesso do público a um dos principais espaços históricos de programação artística da capital.

Funcionamento entre cheias e interrupções

Em março de 2024, com o Rio Acre acima de 17,60 metros, o Cine Teatro Recreio voltou a ser atingido e precisou ser fechado novamente, junto a outros espaços culturais da Gameleira. O episódio evidenciou um problema recorrente: a dificuldade de manter em funcionamento um patrimônio histórico localizado em uma área cada vez mais impactada por eventos climáticos extremos e por intervenções urbanas que alteraram a dinâmica natural do espaço.

Enquanto soluções estruturais mais amplas não são viabilizadas, o Cine Teatro Recreio segue funcionando entre períodos de reabertura e novas interrupções. Um espaço que ajudou a formar a vida cultural de Rio Branco e que, ainda hoje, depende do comportamento do Rio Acre para manter suas atividades.

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Afluentes

Do Oriente Médio ao Acre: como o quibe foi adaptado à culinária local

Adaptado com ingredientes amazônicos, especialmente a macaxeira, o salgado de origem árabe atravessou culturas, ganhou identidade regional

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Por Ana Keli Flores e Raiça Sousa

Presente em padarias, feiras livres, lanchonetes, festas e até nas bicicletas de vendedores ambulantes que circulam com caixas térmicas pelas ruas de Rio Branco, o quibe se tornou parte do cotidiano alimentar no Acre. A versão mais emblemática dessa popularização é o quibe de macaxeira, adaptação regional que substitui o trigo pela raiz amazônica e consolidou o salgado como símbolo da identidade culinária local. 

Originalmente preparado na região do Levante, área que abrange países como Líbano e Síria, o quibe é feito com carne de cordeiro, trigo para quibe (bulgur), hortelã e especiarias, podendo ser assado ou frito. 

A receita chegou ao Brasil com imigrantes sírios e libaneses entre o fim do século XIX e o início do século XX e, ao longo do tempo, passou por adaptações conforme os ingredientes disponíveis e os hábitos alimentares locais.

No Acre, a transformação foi além da simples substituição de itens. Surgiram versões que dialogam diretamente com a cultura alimentar amazônica, como o quibe de arroz e, principalmente, o de macaxeira também conhecida como mandioca ou aipim. Ao trocar o trigo pela raiz ralada ou amassada, o salgado ganhou textura mais macia por dentro, crocante por fora e sabor mais suave, criando uma identidade profundamente regional.

Quibe de arroz, alternativa criativa e econômica, que reaproveita ingredientes do dia a dia sem perder sabor. Foto: arquivo pessoal

Segundo o historiador Francisco Bento da Silva, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), a culinária é uma das expressões mais visíveis da mistura cultural. “A comida muda tanto quanto as pessoas que migram”, afirma. 

Para ele, a presença da macaxeira na receita representa a incorporação de saberes indígenas e amazônicos a um prato de origem árabe. “Não é apenas uma troca de ingrediente; é um encontro de histórias.”

Além da base diferente, o quibe acreano apresenta temperos próprios, formatos variados e recheios adaptados ao gosto local, carne bem temperada, cheiro-verde e pimenta regional.

Em Rio Branco, o salgado é facilmente encontrado em padarias de bairro, mercados, lanchonetes e feiras populares. O preço varia conforme o tamanho e o ponto de venda, mas, em média, custa entre R$5 e R$10 a unidade. 

Em festas e encomendas, também aparece em versões menores, servidas como salgado de evento. Vendedores ambulantes ajudam a manter viva a tradição, levando o produto para diferentes bairros e reforçando sua presença na rotina urbana.

Nutrição e sabor

Do ponto de vista nutricional, a composição varia conforme a receita e o modo de preparo. De acordo com a nutricionista Flávia Dias, o quibe feito com trigo combina carboidrato complexo e proteína, oferecendo fibras, vitaminas do complexo B, ferro e zinco. Já a versão com macaxeira é fonte de energia e naturalmente sem glúten, podendo ser alternativa para pessoas com restrição ao trigo. 

Quibe de trigo, versão tradicional, preparada com trigo para quibe e temperos clássicos da gastronomia árabe. Foto: reprodução

As versões fritas concentram mais gordura e calorias, enquanto o quibe assado tende a ser mais equilibrado. A recomendação é priorizar carnes magras, incluir vegetais na massa e utilizar ervas frescas para agregar valor nutricional.

Quibe cru, preparação típica da culinária árabe, servida crua, com carne fresca, trigo hidratado e especiarias. Foto: reprodução

O quibe no Acre hoje supera a tradição original para abraçar a diversidade local. Com versões que utilizam trigo, arroz ou macaxeira, o salgado demonstra a capacidade de adaptação da gastronomia do estado. 

O prato deixou de ser apenas uma herança do Oriente Médio para se tornar um símbolo da identidade acreana, unindo o saber dos imigrantes aos ingredientes da floresta. Consolidado no cotidiano de Rio Branco, o quibe com sotaque amazônico segue em constante evolução, sem apagar as memórias que o trouxeram até aqui.

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Margens

Entrega voluntária de bebês para adoção garante sigilo, proteção e direitos às mulheres

Procedimento previsto em lei assegura acompanhamento psicossocial e não configura abandono

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Por Bruna Feitosa 

Entre o silêncio, o medo do julgamento social e a falta de informação, muitas mulheres ainda desconhecem que entregar um filho para adoção não é crime, abandono ou negligência. No Acre, a entrega voluntária é um direito garantido por lei, mas que segue cercado por estigmas, desinformação e barreiras de acesso aos serviços públicos.

Prevista na legislação brasileira, através do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a entrega voluntária pode ser manifestada durante a gestação ou após o parto, ainda na maternidade. A solicitação pode ser feita em unidades de saúde ou em órgãos como o Conselho Tutelar, a Defensoria Pública, o Ministério Público e diretamente na Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC). Na prática, porém, o caminho até esses espaços nem sempre é claro para mulheres em situação de vulnerabilidade social, emocional ou econômica.

A entrega voluntária é um direito garantido por lei (Estatuto da Criança e do Adolescente e Lei 13.509/2017). Imagem: Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

No Acre, apenas sete casos de entrega voluntária foram registrados, segundo dados do Juízo da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Rio Branco, vinculada ao TJAC. O número levanta questionamentos: trata-se de um índice baixo ou apenas um reflexo da falta de informação e de políticas públicas que garantam orientação adequada?

Para a juíza Isabelle Sacramento, integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC, o procedimento tem impacto direto na redução do tempo de acolhimento institucional. “Esse procedimento assegura maior celeridade e evita que a criança permaneça por longo período em acolhimento institucional enquanto tramita uma ação de destituição do poder familiar”, afirma.

Isabelle Sacramento, juíza e integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC. Foto: Tribunal de Justiça do Acre

Como funciona o procedimento

Após a manifestação de interesse, a mulher é encaminhada obrigatoriamente à Justiça da Infância e da Juventude, onde passa a ser acompanhada por uma equipe técnica formada por profissionais da Psicologia e do Serviço Social. O atendimento deve ocorrer de forma sigilosa e sem constrangimentos, conforme determina o Marco Legal da Primeira Infância. 

Após a formalização do pedido, ocorre uma audiência em que a mulher confirma sua decisão perante o juiz. Mesmo depois dessa etapa, a legislação prevê um prazo de até dez dias para eventual desistência. Durante esse período, o recém-nascido permanece acolhido institucionalmente.

Confirmada a decisão, a criança é encaminhada a pretendentes previamente habilitados no Sistema Nacional de Adoção, respeitando a ordem do cadastro e os critérios legais. Todo o procedimento é conduzido sob sigilo, preservando a identidade da mãe e da criança.

A juíza aponta que o receio de julgamento moral ainda é um dos principais fatores que afastam mulheres desse direito, porém ressalta a importância da ação. “Mais do que um ato jurídico, a entrega voluntária representa uma escolha amparada pela lei que busca assegurar à criança à convivência familiar e à mulher o respeito à sua autonomia”, finaliza.

Redação

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