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Amor de mãe

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Por Claudya Simone Oliveira, Gercineide Maia  e John Catão

Rodrigo nasceu com uma condição especial, o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que logo foi percebido pela mãe e outros familiares. Lavínia Melo, 25 anos, empreendedora, formada em Engenharia Agronômica pela UFAC, é mãe dos gêmeos Rodrigo e Murilo Barcelos, de apenas 3 anos e 2 meses. 

Para ela, ser mãe de uma criança com TEA é um aprendizado diário, ela aprende muitas coisas com seu filho ao mesmo tempo que também ensina. “O Rodrigo é uma criança extremamente metódica, então, procuram sempre mantê-lo dentro da rotina, mas em contrapartida, é um bebê muito carinhoso e brincalhão”, declara a genitora.

Melo diz que foi observando a forma de seu filho brincar que começou a perceber algumas características: muitos movimentos repetitivos, sempre rodando objetos, gostava muito de brincar sozinho e não de socializar com outras crianças, apenas com adultos. “Notei essas características e procurei ajuda profissional”, conta.

O diagnóstico

De acordo com o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista (TEA)¹ é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por desenvolvimento atípico, manifestações comportamentais, déficits na comunicação e na interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados, podendo apresentar um repertório restrito de interesses e atividades. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 70 milhões de pessoas no mundo vivem com alguma forma do transtorno do espectro autista e frequentemente são sujeitas à estigmatização, discriminação e violações de direitos humanos. Globalmente, o acesso aos serviços e apoio para essas pessoas ainda é inadequado.

De acordo com a Organização Panamericana de Saúde, “o TEA começa na infância e tende a persistir na adolescência e na idade adulta. Na maioria dos casos, as condições são aparentes durante os primeiros cinco anos de vida”. E uma em cada 160 crianças têm algum grau do Transtorno.

No Brasil, a estimativa é que no país existam cerca de 2 milhões de pessoas com TEA. No Acre, segundo dados da Associação Família Azul, há atualmente cerca de 10 mil autistas, incluindo crianças e adultos.

A identificação de atrasos no desenvolvimento, o diagnóstico rápido e encaminhamento para apoio de especialistas na idade mais precoce possível pode levar a melhores resultados.

Preconceito e discriminação

Em 2012 foi aprovada a Lei 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, que segundo seu  Art. 4º,  a pessoa não será submetida a tratamento desumano ou degradante, não será privada de sua liberdade ou do convívio familiar nem sofrerá discriminação por motivo da deficiência.  

Mesmo com os últimos avanços nas leis, muitas pessoas com TEA passam por  preconceito e discriminação e a falta de informação contribui para o aumento desse quadro. Melo relata que houve um caso dessa natureza ainda quando as crianças eram muito pequenas. 

 “A ex-babá usou palavras ofensivas direcionadas não somente aos filhos, mas para toda à família e isso nos deixou muito tristes”.  No momento, não temos sofrido nenhum tipo de preconceito e esperamos que isso não aconteça mais de forma alguma. Não se trata apenas de amor de mãe, mas de um amor que ultrapassa as barreiras do coração e que defende o direito de uma criança que precisa ser respeitada pela sociedade, acrescenta Melo.

Inclusão escolar

Atualmente, Rodrigo estuda na Escola Solar Kids, onde conta com acompanhamento qualificado, que procura dialogar com a família ao desenvolver atividades. “Sempre informamos as condições de nosso filho, que se dá muito bem com os coleguinhas de sua turma. Mas essa não é realidade de todas as escolas no país, afirma a mãe.

De acordo com Art. 7º da Lei 12.764, o gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar a matrícula de aluno com transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários-mínimos e segundo Parágrafo 1º dessa mesma lei, em caso de reincidência, apurada por processo administrativo, assegurado o contraditório e a e a ampla defesa, haverá a perda do cargo.

Lavínia Melo deixa uma mensagem para os pais que não aceitam o diagnóstico.  “É uma condição que não passa, mas fechar os olhos para isso, eu chamo até de egoísmo, porque o quanto antes você aceitar, mais cedo você poderá ajudar o seu filho a ter um estilo de vida ‘comum’ e independente”, finaliza. 

Não deixe que a desinformação contribuía para o aumento do preconceito e discriminação!

Falando com um especialista

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo a psicóloga, Drª Marina Almeida, é uma condição de saúde que se caracteriza por um dano em três áreas muito importantes para o desenvolvimento do ser humano, que são: as habilidades socioemocionais, a atenção compartilhada e a linguagem. “Nos dias atuais, a ciência nos fala de muitos tipos de autismo, e não apenas um, como se imaginava, o qual se manifesta de forma única em cada pessoa” informa a psicóloga. 

A pandemia e a obrigatoriedade do distanciamento social ocasionaram grandes mudanças nas rotinas das crianças com autismo e seus familiares. “Quem convive com um autista, já sabe que a rotina é muito importante para eles, independente do grau diagnosticado. E a interrupção dessa rotina se transforma em um grande desafio para a continuidade do tratamento”, acrescenta.

Marina Almeida nos fala que o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é clínico, devendo ser feito conforme os critérios impostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), “fazendo-se uma observação direta do comportamento do paciente, e uma entrevista com os pais e/ou cuidadores”. Esse diagnóstico requer uma avaliação completa por todos os profissionais que fazem parte da equipe, para orientar o tratamento adequado.

Conforme a psicóloga, “existem alguns sinais que podem alertar os pais e professores quanto à possibilidade do TEA, sinais esses que devemos nos ater, com muita atenção, como um comportamento atípico e um desenvolvimento diferente ao que se espera para aquela faixa etária”. Ela explica que as crianças com TEA possuem certa dificuldade em olhar no olho das pessoas, costumam andar na pontinha dos pés, geralmente apresentam atrasos ou ausência da fala. 

Segundo Marina Almeida, esses sinais geralmente se apresentam antes dos 3 anos de idade. E mesmo sendo comum aos pais notarem algumas alterações no desenvolvimento dos filhos antes dos 2 anos, eles tardam a procurar por uma ajuda especializada. Mas vale ressaltar que a atenção básica é fundamental para a identificação inicial dos sinais e sintomas de risco para o portador do TEA.

Olhar nos olhos é uma estratégia comunicacional, facilita uma melhor compreensão da fala do outro, passando também a impressão de atenção, respeito e confiança. “Mas, no caso de crianças com TEA, isso não tem a menor importância, pois dão maior atenção à fala, perdendo, dessa forma, de aprender e entender os significados das expressões faciais”, explica  a psicóloga.

“A explicação para essa dificuldade de olhar no olho parece estar relacionada à forma como o cérebro dessas crianças se organiza, eles percebem o mundo de um jeito diferente, que é só dele. E essa é uma das primeiras formas de tratamento para o TEA (Transtorno do Espectro Autista), que é o fortalecimento da comunicação através do contato olho no olho”, esclarece.

Quando a criança com TEA tem um comportamento que não é adequado, esses podem ser moldados para que diminuam ou, até mesmo, deixem de existir. Para isso, têm-se à disposição a Terapia Comportamental, que trabalha visando melhorar a inserção social da criança ao meio que está inserida, ajudando também os familiares a conviver melhor com essas questões. Muitas dúvidas ainda pairam sobre possibilidades de cura, mas esta é uma condição permanente, a criança nasce e torna-se um adulto com TEA . 

Apesar de todo avanço da Ciência com pesquisas, ainda não foi possível encontrar uma cura, mas o tratamento costuma diminuir dificuldades encontradas, favorecendo o desenvolvimento e a interação social de cada pessoa.

Associação Família Azul do Acre

O grupo surgiu após 30 mães de autistas reunirem-se todos os meses para tratar algum assunto relacionado à saúde, educação, suas angústias do dia a dia, compartilhar terapias, segundo Heloneida da Gama, presidente da Associação. A partir disso, em 2014, houve o entendimento de formalizar a associação juridicamente, para que a causa pelos direitos e necessidades dos autistas se tornassem mais eficazes.

A Associação Família Azul do Acre (Afac) tem  por  finalidade  defender  os  direitos  e  interesses  das  pessoas  com  o Transtorno do Espectro Autista – TEA, devendo, para tanto, promover, apoiar e incentivar a realização de todas as ações necessárias para esse fim, podendo ainda desenvolver programas de adaptação e inclusão social das pessoas com TEA e apoio a seus familiares.

A presidente Gama deixa claro que a Afac presta assistência social às famílias que têm filhos com autismo por meio da execução direta de projetos, palestras, acolhimentos de pessoas, orientações escolares e familiares, terapias psicossociais, treinamentos a profissionais da saúde, educação, programas ou planos de ações. “Esta associação também conta com parceiros, pessoas que se disponibilizam a ajudar, doar um sacolão ou um remédio. A maior dificuldade, acredito, é que não temos uma sede própria, um espaço para receber, acolher as famílias. Não temos um profissional da psicologia ou da assistência social que nos ajude”, destaca a presidente.

A Afac possui uma página no Instagram: @afac.familia_azul, uma página no Facebook: Autismo no Acre – AFAC. 

As Instituições que atendem no momento são:

  • CER III (Estadual), com especialidade em fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional;
  • Centro Municipal de Autismo, especialidades em fonoaudiologia, psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, equoterapia, que segundo a Associação Nacional de Equoterapia – ANDE, trata-se de um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiência e/ou necessidades especiais;
  • APAE, especialidades fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia. 

Lei Romeo Mion

Sancionada com vetos em 2020, a Lei Nº 13.977 – conhecida como Lei Romeo Mion – estabelece a emissão de uma Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Seu nome foi inspirado no adolescente Romeo, de 16 anos, que é filho do apresentador de televisão Marcos Mion e tem TEA. 

A Lei Romeo Mion cria a Carteira de Identificação da Pessoa com TEA – CipTEA em sua versão abreviada – ou seja, garante a todos aqueles com o diagnóstico de autismo um documento que possa ser apresentado para informar a condição do indivíduo. Além disso, ela altera dispositivos da Lei 12.764/2012, a Lei Berenice Piana.

Garantias e benefícios da Lei Romeo Mion

Além da documentação que facilita a identificação de uma pessoa no espectro autista, a Lei Romeo Mion ainda oferece outros benefícios aos usuários. Alguns deles são: 

  • Atenção integral;
  • Pronto atendimento e prioridade no atendimento e acesso aos serviços públicos e privados (em especial nas áreas de saúde, educação e assistência social).

Documentos necessários para emitir a carteirinha

A CipTEA pode ser emitida por órgãos estaduais, distritais e municipais que executam a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Ao solicitar o documento, a família deve apresentar os seguintes dados:

  • Requerimento; 
  • Relatório médico com a indicação do código da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde (CID).

O requerimento deve conter dados como: 

  • Nome completo;
  • Filiação;
  • Local e data do nascimento;
  • Número da carteira de identidade;
  • Número do CPF;
  • Tipo sanguíneo;
  • Endereço residencial e telefone;
  • Foto 3×4;
  • Assinatura ou impressão digital do interessado.

Da pessoa cuidadora são exigidos: 

  • Nome completo;
  • Documento de identificação;
  • Endereço residencial;
  • Número de telefone e e-mail.

Com validade de cinco anos, a legislação ainda exige que a família mantenha os dados cadastrais atualizados e que, sempre que a carteira for renovada, o número de identificação seja mantido. Isso porque ele permite a contagem das pessoas com TEA no território nacional.

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Piso salarial da enfermagem no Acre: avanços e desafios

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Por Luiz Eduardo Souza de Oliveira

O salário mínimo para os profissionais da enfermagem foi definido em 2023, estipulando que enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem receberam, respectivamente, R$4.750, R$3.325 e R$2.375 mensais. O governo federal repassou R$26,9 milhões aos estados para suportar os custos do novo piso salarial, beneficiando mais de 17 mil profissionais. Entretanto, o pagamento não foi realizado no período estipulado.

Mesmo que o Ministério da Saúde tenha realizado o primeiro repasse em setembro de 2023, abrangendo retroativamente quatro parcelas referentes a maio, junho, julho, agosto e setembro, os pagamentos começaram a ser feitos apenas em outubro de 2023. E continuam sendo realizados mensalmente, mas com um mês de atraso, com o pagamento sempre relativo ao período anterior. 

No Acre, foram repassados R$6.791.107,00 sendo R$2,4 milhões para a administração estadual e o restante distribuído entre os 22 municípios, incluindo a capital Rio Branco.

Em 13 de dezembro de 2023, a Câmara de Vereadores de Rio Branco aprovou um projeto de lei complementar regulamentando o salário mínimo da enfermagem para servidores do município, com aprovação por 12 votos em uma sessão solene na Assembleia Legislativa do Estado do Acre (Aleac).

Esses valores correspondem a uma carga horária de 44 horas por semana, conforme informações do Sindicato dos Profissionais Auxiliares, Técnicos em Enfermagem e Enfermeiros do Estado do Acre (Spate-AC). Profissionais que atuam nos municípios possuem jornadas de trabalho de 40 e 30 horas semanais.

Os enfermeiros que trabalham 40 horas receberão R$4.318,18,00 enquanto os que têm carga horária de 30 horas, R$3.238,63. Para os técnicos de enfermagem com jornada de 40 horas, o valor do salário mínimo é de R$3.022,72, e para 30 horas, R$2.267,04.

No caso dos auxiliares de enfermagem, o valor do salário mínimo para uma jornada de 40 horas é de R$2.375,00 e para 30 horas, R$1.619,31. Alesta Costa, presidente do Spate-AC, destacou que a prefeitura vai complementar a diferença de R$ 320,72 para atingir o salário mínimo dos técnicos com jornada de 30 horas, R$ 427,63 para os que trabalham 40 horas e R$ 119,32 para os auxiliares, com o valor remanescente para atingir o salário mínimo a ser pago retroativamente em sete vezes.

Até o fechamento desta matéria o último repasse feito pelo governo do estado do Acre foi no dia 17 de fevereiro. Esse valor é referente ao diferencial do salário de janeiro de 2024. 

Histórico da lei

A legislação que estabeleceu os salários mínimos para essas categorias foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL). Contudo, a ausência de previsão da fonte de recursos resultou na suspensão da lei pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Em 18 de abril de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um projeto de lei para viabilizar o pagamento do salário mínimo nacional da enfermagem. Em âmbito nacional, o Governo Federal alocou R$7,3 bilhões para possibilitar o pagamento aos profissionais dessa categoria. O texto fixou em R$4.750 o piso nacional de enfermeiros dos setores público e privado, sendo esse valor referência para o cálculo do mínimo salarial de técnicos de enfermagem (70%), auxiliares de enfermagem (50%) e parteiras (50%).

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Desafio na educação: o impacto na saúde mental dos professores

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Estudos apontam como a desvalorização do ensino, com baixos salários, sobrecarga e falta de prestígio prejudicam o trabalho docente

Produzido por Susana Bonfanti e Anísio Neto

O professor, seja ele de escola pública ou privada, muitas vezes exerce outras funções, para além de ensinar o conteúdo para os alunos. Atualmente, o profissional da educação precisa de criatividade, inovação e empatia para estimular os estudantes em sala de aula.

Os alunos da geração Z, formados pelo conjunto de crianças que nasceram na primeira década do século 21, são imersos na tecnologia digital, com novos hábitos em relação às gerações anteriores. Entre os nascidos na era digital, em que o conhecimento sempre está em mãos de forma rápida, mas nem sempre segura, as turmas têm apresentado mais dificuldades para se manterem entretidas nos estudos. De acordo com o blog Saraiva Educação, acredita-se que práticas pedagógicas mais antigas têm probabilidade de gerar desinteresse nos alunos. 

Imagem: Internet.

Talvez o excesso de atividades que os educadores precisam desenvolver, para prender a atenção do aluno, têm contribuído para ficarem sobrecarregados. Esta sobrecarga acaba afetando a vida pessoal e profissional, uma vez que, se não gerarem resultados positivos com seus alunos, são acometidos pela frustração e desânimo.

Uma pesquisa realizada em 2022 sobre a Saúde dos Educadores para compreender os efeitos da pandemia na saúde mental dos docentes, realizada pela Nova Escola, em conjunto com o Instituto Ame Sua Mente, mostra que aumentou a porcentagem de professores afetados com algum transtorno de 21,5% para 30,1%.

O estudo mostra o crescimento de transtornos mentais como ansiedade, depressão e burnout entre os educadores, apontando que muitas vezes os profissionais da educação não têm tempo em sua rotina  para se cuidarem com apoio de outros profissionais. 

O Brasil é o primeiro no ranking de violência nas escolas, segundo a pesquisa global realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2015. No levantamento, mais de 44% dos docentes que atuavam no estado de São Paulo afirmaram ter sofrido agressão física e verbal.

O país também é um dos que menos valoriza os educadores, o que gera desemprego, salários baixos, e desânimo entre professores e gestores das instituições. A falta de capacitação e recursos para lidar com alunos em sala de aula são consequências de questões sócio estruturais.

A Secretaria de Educação municipal de São Paulo, informa que, a cada três horas, um professor da rede municipal pede licença por problemas psicológicos. Em 2019, 800 professores foram afastados, de acordo com os dados apurados pelo Jornal O Globo.

Realidade local

A professora de Geografia Fabiana Abomorad, que já trabalhou em rede pública e particular em Rio Branco, capital do estado do Acre, relata sobre a falta de apoio que os professores enfrentam dentro das escolas e como isso vem desestimulando os docentes. “O professor precisa de todo apoio profissional. Conheço professores que estão indo para outras áreas. Passando em concursos e desistem”, relata Abomorad.

Além disso, ela conta que já chegou ao ápice do estresse e ansiedade devido ao excesso de trabalho quando atuava em três períodos: manhã, tarde e noite. “Eram aulas complementares que ofereceram e insistiram para eu pegar. Por isso que digo que o professor precisa de folga e descanso remunerado sempre”, comenta a professora.

Ao citar as questões do afastamento da sala de aula devido ao aumento de problemas psicológicos entre os professores, ela comenta que teve vários colegas que se afastaram por um longo período e, após a comprovação do agravamento da saúde mental, foi remanejado para outro setor.

Ao ser questionada acerca dos problemas psicológicos dos professores de Rio Branco, devido ao estresse diário e trabalho excessivo, ela relata que há uma colega passando por essas questões.

Os professores, principalmente aqueles que ministram apenas uma disciplina, precisam buscar várias escolas para ganhar uma quantia que seja suficiente para viver confortavelmente, levando ao excesso de trabalho. Os docentes ficam com sua rotina carregada, impossibilitando que tenham mais qualidade de vida, uma vez que sobra pouco tempo para o lazer.

A professora Delvilene Guerra, que trabalha na rede de ensino filantrópica e privada, relata que o período da pandemia de Covid-19 afetou a saúde mental de muitos professores, mas depois que as aulas voltaram a ser presenciais, algumas coisas melhoraram. “Já me senti muito frustrada anos atrás, eu trabalhava os três períodos do dia, então, a minha vida pessoal ficou muito afetada. Me senti frustrada por não conseguir viver minha vida pessoal”, conta a professora, que considerava viver em prol do trabalho.

Ela acredita que quando a escola não tem bons professores, também  não tem qualidade de ensino. “E isso é questão de gestão governamental, porque quando a escola não recebe recursos suficientes, afeta a educação. Muitos professores dão sangue e tiram dinheiro do bolso para manter a qualidade”, diz Delvilene Guerra, enfatizando que o reconhecimento muitas vezes vale mais do que retorno financeiro.

O professor Marcos Charife, que ministrou a disciplina de História para os alunos do projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA), percebeu  que a falta de valorização dos professores afeta a sala de aula e profissionais promissores saem do ensino público para a iniciativa privada buscando mais apoio institucional.

O docente soube separar bem sua vida pessoal com o trabalho, mas diz que já abdicou de algumas coisas devido ao excesso de atividades. “Sim, acontece invariavelmente, principalmente quando é necessário trabalhar nos finais de semana. Mas, são obrigações da profissão, algo previsível, então. Ossos do ofício”, conta o professor.

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Fundhacre realiza mutirão de cirurgias

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Uma alternativa humanizada para redução de filas de espera

    Marcos Jorge Dias

Recepção do Hospital do idoso onde ocorre o atendimento do mutirão de cirurgias (foto: Marcos Jorge Dias)           

A felicidade de quem já foi atendida

O clima refrigerado da recepção de atendimento do Hospital do idoso, no complexo Hospitalar da Fundhacre, era um refúgio na tarde escaldante daquele dia de agosto de 2023. De um lado, pacientes que estavam sendo chamados para o preenchimento do formulário para a internação. De outro, os que já haviam passado pelos procedimentos cirúrgicos e estavam no retorno pós-operatório.

Em meio ao burburinho de pacientes e atendentes comecei a conversar com a senhora Ligueneres Ribeiro da Silva – 47 anos, doméstica, submetida a cirurgia de varizes em 01/08/23, mas que não quis ser fotografada.

Comecei perguntando como foi que ela havia tomado conhecimento desse mutirão de cirurgias: “eu fiz uma cirurgia e depois foi quando me ligaram da SESSACRE avisando que ia ter outro mutirão e que era pra mim ficar atenta. Qualquer momento podiam ligar, e ligaram. Até porque eu já tinha feito outra cirurgia de histerectomia! Aí me disseram que iam me chamar pra outra.” Falou enquanto olhava ansiosa para o balcão de atendimento de onde chamavam os nomes dos pacientes a serem consultados.

Mesmo percebendo a ansiedade da minha interlocutora, insisti na conversa, e perguntei quanto tempo fazia que ela tinha feito a inscrição no CAC (Centro de Atendimento ao Cidadão), onde é feito o cadastro para inserção no Programa de Mutirão de Cirurgias, conforme informado por uma funcionária da administração que não quis ser identificada. Na Fundhacre uma há hierarquia na qual os servidores não podem prestar informações sem autorização dos gestores.

Mesmo relutante, com frases curtas, Dona Ligueneres continuou falando: “faz mais de um ano que eu fiz a outra e foi quando me ligaram uma vez, mas eu não vi a ligação. Depois ele (SESSACE) ligaram de novo pra eu vim comparecer aqui para fazer os exames.  Eu paguei só a ultrassom, que fiz fora, porque aqui demora demais. O resto foi tudo aqui mesmo. Tudo no mesmo dia, explica.

Sempre com o olhar desviando em direção ao balcão da atendente, parecia apressada para concluir nossa conversa. Ainda assim, segui fazendo perguntas: Como foi a cirurgia?  E o atendimento, como a senhora avalia o atendimento da equipe? E o que tem a dizer para as pessoas que precisam fazer uma cirurgia?

– Olha… a cirurgia foi boa. O serviço é bom e o pessoal daqui me tratou muito bem, só tenho a dizer que foi bom e agradecer. E pra quem precisa fazer alguma cirurgia, a primeira coisa a fazer é ir no posto de saúde para pegar o encaminhamento pra Fundação. Tudo começa desse jeito, explicou.

Nesse momento, a recepcionista chamou o seu nome.  Era sua vez de ser atendida pelo médico do retorno. Num misto de aparente alívio e alegria, acenou com a mão e adentrou ao consultório.  Fiquei ali, pensando na felicidade daquela senhora, por ter sido submetida a duas cirurgias no sistema SUS.

Atendimento humanizado para fazer o diferencial

“Quando se fala a palavra “mutirão”, a ideia que se tem é de um serviço com muitas pessoas e de qualidade duvidosa. Aqui na FUNDHACRE, mutirão não é sinônimo de serviço ruim.” (Winnie Lobato – Assistente Social)

 (Foto: Juliana Queiroz – Assessoria Fundhacre)

Para Winnie Lobato, que coordena a equipe de atendimento e psicossocial do mutirão de cirurgias, a forma como os pacientes são recebidos e acolhidos é o grande diferencial desse processo.

“Por conta da pandemia do COVID-19 nós passamos uma média de 3 anos com suspensão das cirurgias eletivas. Diante dessa situação, o governador solicitou ao presidente João Paulo, aqui da Fundação, e sua equipe, que pensasse numa solução que gerasse um impacto positivo no atendimento dessa longa fila de espera que havia se formado. Daí que veio a ideia do projeto mutirão de cirurgias.”

Conforme relatou Winnie, ainda que o termo “mutirão” possa parecer algo meio tumultuado, não é isso que ocorre. Ele se difere do atendimento regular e dos que são realizados em outros hospitais, essencialmente, pelo acolhimento e o impacto que causa na saúde das pessoas.

É um impacto social através do atendimento diferenciado ofertado pelo Sistema Único de Saúde – SUS, que tem uma Política Nacional de Humanização – defendida e seguida pela FUNDHACRE, que acredita que a PNH contribui, e muito, para o ideal de aproximar e humanizar esses processos na área da saúde. Sendo o acolhimento uma das perspectivas essenciais.  

Contudo, o acolhimento é um conjunto de diretrizes, de práticas e dispositivos realizados, para que possam tornar o acolhimento do paciente mais qualificado. E, esse qualificar significa ter um olhar atento, de que isso seja algo transversal. Não seja apenas pontual, apenas naquele momento em que o paciente está entrando na Unidade, mas todo o trajeto feito dentro da Unidade até o retorno à Rede Básica.

“Para que ocorra essa transversalidade há uma estrutura organizacional de gestão.  Eu, sou a gestora de acolhimento e psicossocial, temos um gestor administrativo – que cuida da parte de contratação de pessoas –  e uma gestora especial, para cuidar da parte de internação, enfermagem e gerência de leitos.”

Essa estrutura permitiu realizar no período de um ano 2.397 cirurgias e atualmente, agosto/23, já estão contabilizadas 2.691 cirurgias e 9.217 consultas. O processo de mutirão começou no dia 13 de julho do ano passado e não há uma data fim porque os atendimentos são feitos e renovados de acordo conforme a demanda e a complexidade de cada cirurgia. As de varizes são relativamente simples, com aplicação de espuma e vem sendo realizadas desde o ano passado. Por isso, o fluxo de chamadas está mais rápido e o feedback bastante positivo.

No entanto, cabe ressaltar que há um passo a passo a ser feito pelas pessoas que precisam fazer algum tipo de cirurgia para poderem acessar o sistema.

“É todo um ciclo, mas que não podemos precisar de quanto tempo, até porque cada cirurgia e cada paciente tem um perfil com especificidade e variáveis distintas.” Finalizou, Winnie.

O complexo hospitalar

(Foto: Marcos Jorge Dias)

A Fundação Hospitalar é uma unidade de referência no atendimento da saúde no Estado do Acre, que faz atendimento ambulatorial, atendimento psicossocial e consultas em diversas especialidades.

Localizado às margens da BR 364- Distrito Industrial, Rio Branco, o complexo conta com especialidade em Cirurgia Geral, Clínica Geral, Geriatria, Oncologia, Pediatria, Terapia Intensiva, Terapia Intensiva Pediátrica através do hospital de Oncologia, Serviço de Atendimento Especializado – SAE, hospital do Idoso e Centro cirúrgico para procedimentos de alta complexidade.

Cada unidade tem sua própria organização interna e gerência diferenciadas, conforme informações obtidas na administração, por uma servidora que preferiu não ter seu nome divulgado.Unidade sede: BR 364 km 2, nº 02 – Distrito Industrial – Telefone: (68) 3226-468

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