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Entender para compreender: os impactos da Covid-19 no mundo e a importância do saneamento básico no combate à pandemia

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Os desdobramentos que ocorreram em todo o mundo desde a classificação de pandemia feita pela OMS ao vírus que ninguém conhecia, fizeram com que problemas sociais, como a falta d’água para lavar as mãos, ficassem cada vez mais visíveis. No entanto, outros empecilhos pós-descoberta da vacina, como dificuldade de imunização em massa e ocultação dos reais números também emergiram em todos os continentes.

Por Maria Fernanda Arival e Renato Menezes

É inegável que a Covid-19 mudou drasticamente a maneira a que o mundo se comportava antes do dia 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a doença no grau de “pandemia”. O vírus, até então desconhecido aos olhos da ciência e da sociedade em geral, se espalhou rapidamente pelo planeta, não deixando ninguém ileso frente aos impactos de uma doença que isolou, atingiu e matou milhões de pessoas.

O primeiro caso do novo coronavírus no Brasil foi identificado em 26 de fevereiro de 2020, quarta-feira de cinzas, um dia após o término do Carnaval, festival de rua mais famoso do planeta. Naquele momento, a mídia se dividia entre a apuração das escolas de samba e aquela descoberta de uma doença em um homem de São Paulo que havia viajado para a Itália, doença esta que já acometia centenas de pessoas na Europa e milhares na Ásia.

Como a chamada “transmissão comunitária” ainda não havia sido declarada, o país encarava aquela manchete como um vírus qualquer, mesmo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarando, no dia 03 de fevereiro, a Covid-19 como uma emergência de saúde pública a nível global.

O vírus, que parecia impossível sair de Wuhan, na China, e vir parar no outro lado do hemisfério em tão pouco tempo, teve sua primeira vítima em solo brasileiro em 17 de março daquele mesmo ano: um homem de 62 anos hipertenso e diabético. Naquele instante, o país mais populoso do mundo já deixaria de ser o epicentro do coronavírus, tendo em vista a fase turbulenta que vivenciaram ainda em 2019, quando acreditavam se tratar apenas de uma epidemia. Já a média móvel de infectados na Itália, por sua vez, que já havia se tornado o novo epicentro no mundo – e não somente na Europa, como era antes –, estava em 3,051.00, enquanto no Brasil, a média móvel de casos confirmados era de 41,43, um número aproximadamente 74 vezes menor que os registros feitos pela Itália, que tivera seu sistema de saúde colapsado devido ao aumento repentino, desenfreado e avassalador.

Média móvel de casos diários por Covid-19 confirmadas na Itália, representada pela vermelha com tonalidade mais clara, Brasil, representado pela cor azul e China, representado pela cor vermelho com tonalidade escura, de 28 janeiro a 20 de março de 2020. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

A situação só piorava no país em questão. No mesmo dia em que o Brasil notificou a primeira morte, a Itália já registrava média móvel de 267.43 mortes diárias. A partir de então, a população passava a se preocupar, afinal, a Itália fica mais “próxima” das terras tupiniquins, logo, imaginaram-se um fluxo maior de brasileiros em comparação com Wuhan, que naquele momento já havia passado pelo pico de infestação. Não demorou muito: tudo começou a fechar. Escolas, bares, restaurantes, universidades e absolutamente tudo que, a princípio, não se encaixaria como “serviço essencial”, acabaram fechando as portas para tentar conter o avanço e, quem sabe, não correr o risco de colapsar o Sistema Único de Saúde (SUS), que não estava preparado para a pandemia.

Média móvel de mortes diárias por Covid-19 confirmadas na Itália, representada pela cor azul e Brasil, representado pela cor vermelha, de 1 de março a 23 de abril de 2020. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

Ter que lidar – no sentido de assimilar que a pandemia já estava saindo do controle – com aquele novo fenômeno que invadiu o Brasil já começou a se tornar realidade a partir do momento em que a curva do número de mortes foi crescendo exponencialmente até ultrapassar a Itália, que detinha o maior registro de óbitos entre todos os países. No dia 29 de abril de 2020, a média móvel de mortes por Covid-19 marcava 372.43, enquanto a Itália ficava um pouco mais atrás, com 371. A tendência de crescimento se concretizou. Enquanto o Brasil marcava 1.095 em 25 de julho, a Itália registrava 8.97 no mesmo dia.

No entanto, mesmo cientes da situação, o Brasil não imaginaria que o pior estaria por vir: média móvel de 3 mil mortes diárias, recorde este marcado no dia 01 de abril de 2021 – ironicamente, o dia da mentira.

Média móvel de mortes diárias por Covid-19 confirmadas na Itália, representada pela cor azul e Brasil, representado pela cor vermelha, de 1 de março a 3 de dezembro de 2021. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

Além do atraso na compra das vacinas emergenciais que, na época, já vinham sendo aplicadas em outros países – inclusive na Itália que, no mesmo dia em que o Brasil registrou recorde de mortes, já havia imunizado mais de 12% da população, correspondentes a mais de 7,4 milhões de pessoas –, uma série de problemas estruturais brasileiros que vinham ocorrendo desde muito antes da pandemia se assomaram para que o maior país da América Latina se estabelecesse em segundo lugar com o maior número de vítimas da pandemia, com 623 mil mortos, atrás apenas dos Estados Unidos com 864 mil.

SANEAMENTO BÁSICO

Um dos problemas que mais aflige o Brasil e que contribuiu para que a pandemia fosse ainda mais grave no país foi a questão do saneamento básico, direito este previsto na Constituição de 1988, mais precisamente no inciso XX do artigo 21, que argumenta que a União deve “instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos”. Além disso, o artigo 23, inciso IX também afirma que a melhoria das condições de saneamento básico é de competência de todas as esferas, sendo estas União, Estados, Distrito Federal e Municípios.

Uma pesquisa feita por integrantes da Sala Técnica de Saneamento, composta por 250 profissionais da área de saneamento, constatou que a falta de saneamento básico contribui para a proliferação do vírus. Para chegar a esta conclusão, os estudiosos utilizaram como base os levantamentos feitos em 2009 que, por meio da identificação de um vírus semelhante ao SarsCoV-2, entenderam que o vírus causador da Covid-19 pode, sim, permanecer em águas naturais e no esgoto por mais de 10 dias, além da possibilidade de contaminação por meio de gotículas (aerossóis) provenientes do esgoto infectado.  

“Dispor o esgoto sem o adequado tratamento degrada a qualidade das águas receptoras, causando impacto na saúde da população, além de comprometer os usos a jusante, como abastecimento humano, balneabilidade, irrigação, dentre outros”, diz o relatório.

ACESSO

Que o saneamento básico é crucial para a manutenção da qualidade de vida e, consequentemente, da saúde, isto é fato. No entanto, embora seja uma necessidade básica garantida em lei, na prática a realidade é outra. Segundo o Ranking do Saneamento Básico do Instituto Trata Brasil, pelo menos 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e pior ainda, mais de 100 milhões de brasileiros sem coleta de esgotos. Ou seja, quase 50% da população brasileira está sujeita a contrair doenças como diarreia, leptospirose, malária e até a própria covid-19.

Falando ainda do referido ranking, Rio Branco, capital do Acre, está em 92ª colocação quando o assunto é saneamento básico como um todo. A cidade mais populosa do estado, que comporta mais de 400 mil pessoas e que, consequentemente, está entre as cem cidades mais populosas do Brasil, tem um dos piores indicadores do atendimento total de água, atingindo apenas 54,26% dos rio branquenses. Com relação ao atendimento total de esgoto, o percentual cai para 21,65%.

O que mais chama atenção neste relatório é o montante investido nos serviços de distribuição de água e tratamento de esgoto. Nos últimos cinco anos, R$70,17 milhões foram aplicados nestes serviços na capital, com investimento médio de pouco mais de R$34 por habitante. Por outro lado, R$125,82 milhões foram arrecadados. No que tange à região Norte, apenas Santarém, Belém e Ananindeua – todos estes no Pará –, Porto Velho (RO) e Macapá (AP) estão abaixo do estado no ranking.

Tabela das 100 cidades mais populosas do Brasil com o ranking de saneamento básico em que Rio Branco, capital do Acre, aparece na 92º colocação, com indicadores do atendimento total de água, atingindo apenas 54,26%. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Instituto Trata Brasil.

ÁGUA E ESGOTO

Tais dados geram preocupação pois com a pandemia de Covid-19 e com a consequente necessidade de se cumprir a quarentena, ficou evidente a necessidade de fornecimento de água para higienização das mãos e consumo humano, além de um adequado tratamento de esgoto para evitar que outras doenças, tão graves quanto a Covid, voltassem à tona. Uma nota técnica do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicada em 2020 mostrou que dos 100 milhões sem esgoto adequado, quase 22 milhões usam instalações sanitárias não adequadas e mais de 2 milhões defecam a céu aberto.

Quando analisados os dados voltados às escolas brasileiras, o Programa Conjunto de Monitoramento de Abastecimento de Água e Saneamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e Unicef apontou que 39% das instituições de ensino não possuem as estruturas mínimas para higienização das mãos. Ou seja, nem pia tem.

A situação fica ainda pior ao constatar, por meio do mesmo levantamento, que menos de 10% das escolas públicas possuem serviços de esgotamento. No Acre, apenas 9% têm acesso à rede pública de esgoto.

“Além do monitoramento do esgoto, nenhuma medida específica foi identificada em termos de ampliação de acesso a serviços de esgoto e instalações sanitárias durante o confinamento no Brasil. A falta de medidas ativas voltadas ao esgotamento sanitário e instalações, especialmente para aqueles que usam banheiros públicos e compartilhados, pode aumentar a insegurança e o risco de transmissão de doenças, especialmente entre mulheres e meninas, que, conforme mencionado anteriormente, são super-representadas nos ambientes informais”, diz a nota técnica.

A pesquisa evidenciou, mais ainda, a necessidade de ações rápidas e eficazes não somente do Brasil, mas de todo o planeta, com relação à necessidade de fornecimento de serviços de esgoto e da distribuição de água. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, disse que “trabalhar em um centro de saúde sem água, saneamento e higiene é o mesmo que enviar enfermeiras e médicos para trabalharem sem equipamento de proteção individual”.

PANDEMIA NO MUNDO

A Covid-19 levou muitas vidas e deixou sequelas em muitas famílias, principalmente em países como Estados Unidos da América, que até dia 10 de dezembro de 2021 registrava mais de 795 mil mortes, mesmo dia em que o Brasil registrou 616.069 mortes pela doença, com os títulos de primeiro e segundo país com maiores números de mortes, respectivamente. No décimo dia de dezembro de 2021, os Estados Unidos da América acumulava 49,7 milhões de casos desde o início da pandemia.

A China, país que registrou o primeiro caso e também a primeira morte por covid-19, em 10 de dezembro de 2021, enumerava 4.636 mortes em todo período de pandemia e mesmo com a população com uma marca acima de 1 bilhão, o número de casos pela doença foi de 99.517. No Reino Unido, formado pelos países Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, no dia 10 de dezembro de 2021 registrou 58 mil novos casos de Covid-19, um recorde na pandemia, que desde fevereiro notificou mais de 146 mil mortes.

Os Estados Unidos, China e Reino Unido, além do Brasil, foram os países mais citados durante todo período de pandemia até então, se tornando, cada um de uma vez, o epicentro da pandemia.

AMÉRICA LATINA

A pandemia nesta região do mundo não impactou todos os países da mesma forma como o Brasil, México e Peru foram afetados e, por isso, ocupam os três primeiros lugares no ranking de número de casos na América Latina, formada pelos países Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

Com dados atualizados até dia 10 de dezembro de 2021, o Brasil ocupava o primeiro lugar em número de casos acumulados com 22.193.828, México com 3.911.714, Peru com 2,2 milhões, seguidos de Colômbia com 5.089.695 e Argentina com 5.354.440. Na lista dos países latinos, Nicarágua registrou o menor número de casos, com mais de 17 mil casos, além da nação centro-americana, El Salvador, Suriname, Guiana e Haiti também registraram poucos casos, o que não significa, necessariamente, que foram menos impactados, tendo em vista questões políticas e sociais que circundam tais nações.

Na Nicarágua, por exemplo, que possui mais de 6 milhões de habitantes, um estudo intitulado “Covid-19 e opacidade: a fórmula da morte na Nicarágua” publicado no Observatório para a Transparência e Anticorrupção, afirma que os números passados pelo governo de Daniel Ortega não condizem com a realidade, e que foram escondidas de 6 mil a 9 mil mortes. “É incrível que, enquanto no restante dos países da América Central morrem entre 6 e 11 pessoas por cada 10 mil habitantes a cada semana, na Nicarágua morra apenas uma”, afirmam os autores do estudo que preferiram não se identificar em razão de possíveis perseguições no país.

VACINAS

Apesar dos empecilhos que culminaram para que o Brasil figurasse em segundo lugar no ranking de mortes, e apesar também da lentidão no curso da campanha de imunização que impediu com que milhares de vidas fossem salvas, atualmente o Brasil é o segundo país da América do Sul – atrás do Chile com 87,73% de pessoas imunizadas com as duas doses – e o terceiro da América Latina – atrás apenas de Cuba, que imunizou 86,54% das pessoas, e do próprio Chile – a figurar nas primeiras colocações no ranking de vacinação, mais precisamente na 12ª posição. Segundo informações do Our World in Data, 69,27% da população brasileira está completamente vacinada contra a Covid-19.

É importante lembrar, no entanto, que para chegar a estes resultados, as estatísticas levam em consideração a proporcionalidade, ou seja, a quantidade de doses aplicadas para o número de habitantes de determinado país. No caso dos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, mesmo com a população sendo, pelo menos, 22 vezes menor que a do Brasil, eles figuram na primeira colocação justamente por ter imunizado quase que 100% das pessoas.

Parcela de pessoas vacinadas contra Covid-19 até 10 de dezembro de 2021. A reta com verde de tonalidade mais escura representa a parcela da população totalmente vacinada Contra-19 e a reta com tonalidade mais clara representa a parcela da população vacinada parcialmente contra Covid-19. Acesso: 28 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

O Brasil também aparece no ranking de países que menos aplicaram vacinas. Contudo, observa-se que a América do Sul tem menor predominância do que o continente africano, por exemplo, onde se concentram os maiores percentuais de pessoas não-imunizadas. Somente na Nigéria, que é o país mais populoso da África, dos 206,1 milhões de habitantes, 198,24 milhões não se vacinaram. Inclusive, o governo nigeriano chegou a destruir mais de 1 milhão de doses alegando terem sido entregues ao país próximo à data de vencimento.

Pessoas não vacinadas contra Covid-19 até 10 de dezembro de 2021, as cores mais claras representam um número menor de pessoas enquanto as mais escuras representam um número maior. Acesso em: 28 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

Os Estados Unidos também chamam atenção pois ao mesmo tempo em que vacinaram um percentual considerável (63%), um grande contingente de pessoas, mais precisamente 81.76 milhões de norte-americanos, acabaram não tomando nenhuma dose.

Já na Ásia, a Índia é a que aparece com menor número de pessoas sem serem vacinadas, com mais de 467 milhões nesta situação. Mesmo o número sendo matematicamente proporcional ao quantitativo de habitantes (1,38 bilhão), e mesmo tendo vacinado, em sua totalidade, mais de 500 milhões de pessoas, nota-se que ainda assim muitas pessoas ainda não procuraram pela imunização. Impulsionados pela variante Ômicron, o número de infectados no país subiu consideravelmente, o que fez a Índia registrar mais de 100 mil casos somente no último dia 07 de janeiro.

Número de pessoas totalmente vacinadas contra Covid-19 até 10 de dezembro de 2021. Acesso em: 28 jan 2022. Fonte: Our World in Data

Apesar de o apagão no sistema de informações, ocasionado por um “ataque hacker”, ter afetado na credibilidade e na precisão dos dados no Brasil desde o dia 10 de dezembro de 2021, e mesmo com a demora no processo de imunização, é perceptível, com base neste conglomerado de gráficos e números, que o país segue em uma crescente no que diz respeito ao crescimento no número de vacinados contra a Covid-19. Se comparar com o Paquistão, por exemplo, que tem praticamente o mesmo quantitativo de habitantes, o Brasil se firma com uma larga vantagem. Obviamente, questões culturais e religiosas influenciam neste processo, mas o fato é que as diferenças entre os países culminam neste resultado vantajoso, uma vez que é a partir da imunização em massa que o vírus poderá ser combatido de forma mais eficaz.

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AMOR EM QUATRO PATAS

A adoção de pets como equilíbrio entre responsabilidade afetiva e social

Com 65 animais disponíveis no Centro de Controle de Zoonozes de Rio Branco, busca por novos lares para cães e gatos adultos visa combater o abandono

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Por Lis Gabriela e Rhawan Vital

O cenário no Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Rio Branco reforça uma triste realidade: muitas pessoas dão preferência à adoção de filhotes para serem seus novos pets, enquanto cães e gatos adultos enfrentam longos períodos de espera em canis e gatis. Além da questão afetiva, a adoção desses animais também pode ser considerada uma decisão que auxilia na saúde pública e no manejo populacional desses animais no ambiente urbano.

Nesse contexto, foram instituídos os CCZs, com o objetivo de focar na vigilância epidemiológica e no controle de doenças que podem ser transmitidas por animais ao ser humano, como raiva e leishmaniose, além de casos em que os animais apresentam risco aos tutores ou agressividade. Mas, apesar de sua função inicial, essas unidades se tornam lares temporários e, por muitas vezes, permanentes para diversos animais.

Cães e gatos adultos aguardam por uma nova chance de recomeço nos canis e gatis do Centro de Controle de Zoonoses de Rio Branco. Foto: Rhawan Vital

De acordo com o agente de Vigilância em Zoonoses, Joel Pereira, do Centro de Zoonoses de Rio Branco, a busca por outra condição de vida para os animais é um objetivo a ser atingido, seja em um lar ou um ambiente adequado, para que recebam o devido carinho. Os animais adultos, quando acolhidos, também proporcionam uma experiência única para o tutor. Além disso, a quebra do ciclo de abandono passa, obrigatoriamente, pela educação da sociedade e pelo reconhecimento do animal a ser adotado. Escolher um animal adulto é priorizar a consciência ao invés de uma fase momentânea com um pet.

Dessa forma, a cultura da adoção é um indicativo de maturidade social. Ao escolher adotar, as pessoas deixam de ser apenas espectadores do problema do abandono para se envolver de forma ativa na solução. “Ter um bicho de estimação é bom, porque você tem companhia sempre. Também te faz ter um senso de responsabilidade que não tinha antes. Pra mim, é uma companhia que nunca incomoda”, afirma Álvaro Bagnara, tutor dos gatos Cheddar e Grafite.

Além da vigilância em saúde pública, o CCZ também se torna lar temporário e, muitas vezes, permanente, para animais vítimas do abandono. Foto: Rhawan Vital

Álvaro conta sobre seus gatos: Grafite foi adotada ainda filhote, então passou por uma fase de criação e ensinamentos, desde o onde se alimentar à caixa de areia. Já Cheddar chegou um pouco mais tarde na família, já adulto e após ser abandonado pelos antigos tutores, mas mesmo assim não deixou de entregar amor. Em relação à adaptação, o tutor dos felinos conta que o tempo bastou para que houvesse um entendimento de que compartilhavam o mesmo lugar.

“No começo a Grafite brincava muito de perturbar o Cheddar, que sempre foi muito quieto e na paz. Com o passar do tempo, apesar do Cheddar continuar no seu cantinho, a Grafite entendeu que eles moravam juntos. Ela não deixou de perturbá-lo, mas o Cheddar começou a revidar. Essa foi a diferença com o passar do tempo” conta Álvaro, de forma animada.

Adoção responsável

O CCZ de Rio Branco conta com 65 animais disponíveis para adoção, sendo eles cães e gatos, filhotes e adultos. Entre eles estão: 40 cães adultos, oito filhotes, 11 gatos adultos e seis filhotes. Os animais são vacinados e têm carteirinhas próprias, prontos para que seus tutores acompanhem e cuidem de maneira adequada, de acordo com datas e mutirões de vacinação disponíveis no futuro.

A adoção responsável transforma realidades: para quem adota, nasce um vínculo; para quem é adotado, surge a oportunidade de um lar. Foto: Rhawan Vital

A adoção pode ser feita de segunda a sexta-feira, entre as 7h e as 17h, e necessita que o interessado tenha mais de 18 anos, apresente o documento oficial e assine o termo de adoção responsável, documento que valida a adoção e a responsabilidade do novo dono do pet.

Ao retirar um animal adulto de um centro, o cidadão contribui diretamente para a redução da superlotação (tanto das ruas, quanto dos abrigos e CCZs) e permite que o Estado e outros profissionais da área veterinária direcionam recursos para outras frentes de saúde e bem-estar animal. É importante ressaltar que a adoção é um ato de responsabilidade civil, e não deve ser confundida apenas com uma boa ação.

Redação

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CONSCIENTIZAÇÃO

Projeto EducaLeish leva ações de prevenção contra leishmaniose a escolas e comunidades rurais do Acre

Transmissão da leishmaniose segue intensa em áreas rurais e acende alerta entre especialistas no Acre

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Por Julie Siqueira e Ana Luiza Pedroza

A leishmaniose tegumentar americana (LTA) é uma doença tropical negligenciada, endêmica no Brasil, com maior concentração de casos na região amazônica. No Acre, apenas na última década, mais de 11 mil casos foram notificados, evidenciando a persistência e a intensidade da transmissão local, especialmente em áreas rurais. Transmitida pelo mosquito-palha, a doença pode se manifestar nas formas cutânea ou mucosa e, quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode causar complicações significativas aos pacientes.

Leishmaniose é uma doença infecciosa causada por parasitas transmitidos pela picada do mosquito-palha, que pode afetar a pele, mucosas ou órgãos internos. Foto: reprodução

Diante desse cenário, em 2022, durante atividades de campo voltadas à investigação da ecoepidemiologia da doença em áreas rurais, a equipe do Laboratório de Patologia e Biologia Parasitária (LabPBP/CCBN/Ufac) deu início às atividades educativas junto aos moradores dessas comunidades. As ações iniciaram como parte do projeto de doutorado em Medicina Tropical do biólogo Leandro Siqueira, desenvolvido na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e marcaram o surgimento do projeto de ensino e extensão EducaLeish.

O projeto tem como objetivo capacitar profissionais da saúde sobre a leishmaniose, além de promover ações de educação em saúde voltadas à comunidade, com foco nos aspectos básicos da doença, como transmissão, prevenção, sinais e sintomas. A iniciativa é coordenada pelo professor Francisco Glauco de Araújo Santos e pelo biólogo Leandro Siqueira e conta com a participação de estudantes e docentes dos cursos de Medicina, Medicina Veterinária, Biologia e Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Entre as principais iniciativas desenvolvidas pelo EducaLeish estão as visitas anuais a escolas de comunidades rurais da Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema. Nessas mobilizações, são realizadas exposições sobre o ciclo de transmissão da doença, com estratégias que permitem a interação dos alunos e da comunidade com microscópios, lupas, vetores, materiais biológicos didáticos e jogos educativos.

Além das ações em áreas rurais, o projeto também realiza ações de educação em saúde em escolas públicas de Rio Branco, levando informações sobre a leishmaniose de forma acessível para crianças e adolescentes. A proposta é trabalhar a prevenção, os cuidados necessários e a identificação precoce dos sintomas por meio de uma abordagem prática, lúdica e interativa.

A iniciativa tem sido bem recebida pelas instituições de ensino atendidas. Para Laézio Lira, diretor da Escola Tancredo Neves de Almeida, a presença de profissionais e estudantes da área da saúde torna o aprendizado mais efetivo.

Estudantes apresentam atividades práticas sobre a leishmaniose a alunos de escola pública de Rio Branco. Foto: Divulgação/EducaLeish

“A grande importância desse trabalho que a Ufac está trazendo para a escola sobre a leishmaniose é que vai trabalhar a prevenção, os cuidados que devem ser adotados e os sintomas da doença. Uma coisa é o professor estar em sala passando o conteúdo de forma teórica, outra é o pessoal da Medicina e da Medicina Veterinária da UFAC trazendo essa prática. Os alunos ficam muito motivados e encantados com a dinâmica”, afirma.

Nas comunidades rurais, o impacto também é percebido pelos estudantes. Um aluno do ensino fundamental da Escola Hermínio Pessoa, localizada na Reserva Cazumbá-Iracema, comentou sobre a experiência: “Foi a primeira vez que vi um microscópio. Antes a gente só via na televisão. Foi muito legal as atividades e nossa turma gostou bastante”.

Segundo a direção das escolas, as práticas extensionistas contribuem para aproximar os estudantes da ciência e reforçam o papel da escola como espaço de promoção da saúde e do conhecimento científico.

Pesquisadores e estudantes levam o EducaLeish para comunidade rural do interior do Acre. Foto: Divulgação/EducaLeish

A participação dos universitários é outro ponto central do projeto. Para a estudante de Biomedicina Thais Cardeal, de 18 anos, a experiência tem contribuído para seu amadurecimento acadêmico e pessoal.

“A proposta de unir pesquisa, laboratório e ações em escolas me motivou bastante, porque envolve aprendizado e contribuição social”, destaca.

Além das frentes de atuações consolidadas, o EducaLeish prevê uma nova etapa para os próximos meses, comentou o biólogo Leandro Siqueira.

“A educação em saúde é a principal estratégia para a prevenção de doenças. Levar essas atividades para as escolas rurais, onde os alunos e professores não possuem acesso como na zona urbana, é um dos privilégios deste projeto. Para os próximos meses, estamos organizando uma Mostra de Ciências na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, a primeira a ser realizada em comunidades rurais, com objetivo de promover ações de divulgação e popularização da ciência em escolas de comunidades rurais de difícil acesso”, comenta.

A proposta da mostra é ampliar o diálogo com moradores e estudantes da região, fortalecer a divulgação científica e incentivar o interesse pela ciência. A iniciativa se soma às visitas anuais realizadas pelo projeto e marca um novo momento de aproximação entre ensino, pesquisa e extensão, para propiciar a troca de experiências entre a comunidade acadêmica e profissionais de diversas áreas e comunidades tradicionais.

Redação

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SAÚDE

Você sabia que absorventes são distribuídos pelo SUS? Entenda como acessar o Programa Dignidade Menstrual

No Brasil, uma em cada quatro meninas deixa de ir à escola durante o período menstrual por falta de absorventes, segundo dados do UNFPA e do UNICEF

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Por Maria Lídia

Você sabia que absorventes são distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS)? Criado pelo governo federal, o Programa Dignidade Menstrual é uma política pública voltada ao enfrentamento da pobreza menstrual no Brasil, garantindo a distribuição de absorventes e promovendo ações de orientação sobre saúde menstrual.

Apesar da iniciativa, a falta de informação ainda é um dos principais obstáculos para que o programa chegue a quem mais precisa. “Muita gente ainda não sabe que tem direito ao benefício”, afirma Jeane Moura, coordenadora da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Bom Jesus, em Rio Branco, ao comentar as dificuldades enfrentadas por pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade social.

Esse desconhecimento se insere em um contexto mais amplo de desigualdade. Pesquisa realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o UNICEF, revela que uma em cada quatro estudantes brasileiras deixa de frequentar a escola durante o período menstrual por falta de absorventes e de condições adequadas de higiene. O levantamento também aponta que cerca de 4 milhões de estudantes vivem em situação de privação de higiene menstrual nas escolas.

O cenário evidencia a pobreza menstrual como um problema estrutural que afeta diretamente a permanência escolar, a saúde e a dignidade de mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade. Como forma de enfrentamento, o governo federal instituiu o Programa Dignidade Menstrual, que assegura a distribuição por meio do SUS e da rede da Farmácia Popular.

Distribuição nas farmácias credenciadas. Foto: EBC

Como acessar os absorventes

O acesso aos absorventes não é automático, mas o processo é simples. Podem solicitar o benefício pessoas que menstruam com idade entre 10 e 49 anos, que tenham renda familiar mensal de até R$218 por pessoa e estejam inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).

A solicitação pode ser feita pelo aplicativo Meu SUS Digital ou diretamente em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), alternativa importante para quem não tem acesso à internet ou enfrenta dificuldades no uso de aplicativos.

Após a autorização, é possível retirar até 40 absorventes por vez em farmácias credenciadas ao Programa Farmácia Popular, mediante apresentação de documento oficial com foto e CPF. Não é necessária receita médica nem qualquer tipo de pagamento. A autorização tem validade de 180 dias.

Em Rio Branco, as UBS também funcionam como pontos de apoio para facilitar o acesso ao programa. “Quando a pessoa não consegue utilizar o aplicativo, a UBS emite a autorização”, explica Jeane Moura. Segundo ela, agentes comunitários de saúde atuam na divulgação do benefício durante visitas domiciliares, orientando a população sobre quem tem direito e como acessar o programa.

Onde retirar os absorventes

No Acre, 17 farmácias localizadas em 11 municípios estão credenciadas para a distribuição gratuita de absorventes. Em Rio Branco, há unidades em diferentes regiões da cidade, o que amplia o acesso ao benefício.

Farmácias credenciadas no Acre:

  • Acrelândia – Farmácia do Trabalhador de Acrelândia LTDA (Centro)
  • Cruzeiro do Sul – H.R Lima (Centro)
  • Cruzeiro do Sul – Empreendimentos Pague Menos S/A (Baixa)
  • Epitaciolândia – Maria da Silva Freitas (Centro)
  • Feijó – R V N Felício – ME (Centro)
  • Plácido de Castro – Sérgio Carlos Vieira – EPP (Centro)
  • Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Centro)
  • Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Bosque)
  • Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Estação Experimental)
  • Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Cadeia Velha)
  • Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Seis de Agosto)
  • Rodrigues Alves – Drogaria Minha Saúde LTDA
  • Sena Madureira – E.J da Silva de Araújo LTDA (Centro)
  • Sena Madureira – J Cruz LTDA (Centro)
  • Senador Guiomard – Aurélio Alves de Lima – ME (Cohab)
  • Tarauacá – Valdicélio Lima da Silva LTDA (Centro)

Apesar da estrutura disponível, profissionais da atenção básica reforçam que a falta de informação ainda é o principal entrave para que o Programa Dignidade Menstrual alcance plenamente seu público-alvo, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade menstrual.

Redação

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