Siga a Catraia

Saúde

Entender para compreender: os impactos da Covid-19 no mundo e a importância do saneamento básico no combate à pandemia

Publicado há

em

Os desdobramentos que ocorreram em todo o mundo desde a classificação de pandemia feita pela OMS ao vírus que ninguém conhecia, fizeram com que problemas sociais, como a falta d’água para lavar as mãos, ficassem cada vez mais visíveis. No entanto, outros empecilhos pós-descoberta da vacina, como dificuldade de imunização em massa e ocultação dos reais números também emergiram em todos os continentes.

Por Maria Fernanda Arival e Renato Menezes

É inegável que a Covid-19 mudou drasticamente a maneira a que o mundo se comportava antes do dia 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a doença no grau de “pandemia”. O vírus, até então desconhecido aos olhos da ciência e da sociedade em geral, se espalhou rapidamente pelo planeta, não deixando ninguém ileso frente aos impactos de uma doença que isolou, atingiu e matou milhões de pessoas.

O primeiro caso do novo coronavírus no Brasil foi identificado em 26 de fevereiro de 2020, quarta-feira de cinzas, um dia após o término do Carnaval, festival de rua mais famoso do planeta. Naquele momento, a mídia se dividia entre a apuração das escolas de samba e aquela descoberta de uma doença em um homem de São Paulo que havia viajado para a Itália, doença esta que já acometia centenas de pessoas na Europa e milhares na Ásia.

Como a chamada “transmissão comunitária” ainda não havia sido declarada, o país encarava aquela manchete como um vírus qualquer, mesmo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarando, no dia 03 de fevereiro, a Covid-19 como uma emergência de saúde pública a nível global.

O vírus, que parecia impossível sair de Wuhan, na China, e vir parar no outro lado do hemisfério em tão pouco tempo, teve sua primeira vítima em solo brasileiro em 17 de março daquele mesmo ano: um homem de 62 anos hipertenso e diabético. Naquele instante, o país mais populoso do mundo já deixaria de ser o epicentro do coronavírus, tendo em vista a fase turbulenta que vivenciaram ainda em 2019, quando acreditavam se tratar apenas de uma epidemia. Já a média móvel de infectados na Itália, por sua vez, que já havia se tornado o novo epicentro no mundo – e não somente na Europa, como era antes –, estava em 3,051.00, enquanto no Brasil, a média móvel de casos confirmados era de 41,43, um número aproximadamente 74 vezes menor que os registros feitos pela Itália, que tivera seu sistema de saúde colapsado devido ao aumento repentino, desenfreado e avassalador.

Média móvel de casos diários por Covid-19 confirmadas na Itália, representada pela vermelha com tonalidade mais clara, Brasil, representado pela cor azul e China, representado pela cor vermelho com tonalidade escura, de 28 janeiro a 20 de março de 2020. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

A situação só piorava no país em questão. No mesmo dia em que o Brasil notificou a primeira morte, a Itália já registrava média móvel de 267.43 mortes diárias. A partir de então, a população passava a se preocupar, afinal, a Itália fica mais “próxima” das terras tupiniquins, logo, imaginaram-se um fluxo maior de brasileiros em comparação com Wuhan, que naquele momento já havia passado pelo pico de infestação. Não demorou muito: tudo começou a fechar. Escolas, bares, restaurantes, universidades e absolutamente tudo que, a princípio, não se encaixaria como “serviço essencial”, acabaram fechando as portas para tentar conter o avanço e, quem sabe, não correr o risco de colapsar o Sistema Único de Saúde (SUS), que não estava preparado para a pandemia.

Média móvel de mortes diárias por Covid-19 confirmadas na Itália, representada pela cor azul e Brasil, representado pela cor vermelha, de 1 de março a 23 de abril de 2020. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

Ter que lidar – no sentido de assimilar que a pandemia já estava saindo do controle – com aquele novo fenômeno que invadiu o Brasil já começou a se tornar realidade a partir do momento em que a curva do número de mortes foi crescendo exponencialmente até ultrapassar a Itália, que detinha o maior registro de óbitos entre todos os países. No dia 29 de abril de 2020, a média móvel de mortes por Covid-19 marcava 372.43, enquanto a Itália ficava um pouco mais atrás, com 371. A tendência de crescimento se concretizou. Enquanto o Brasil marcava 1.095 em 25 de julho, a Itália registrava 8.97 no mesmo dia.

No entanto, mesmo cientes da situação, o Brasil não imaginaria que o pior estaria por vir: média móvel de 3 mil mortes diárias, recorde este marcado no dia 01 de abril de 2021 – ironicamente, o dia da mentira.

Média móvel de mortes diárias por Covid-19 confirmadas na Itália, representada pela cor azul e Brasil, representado pela cor vermelha, de 1 de março a 3 de dezembro de 2021. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

Além do atraso na compra das vacinas emergenciais que, na época, já vinham sendo aplicadas em outros países – inclusive na Itália que, no mesmo dia em que o Brasil registrou recorde de mortes, já havia imunizado mais de 12% da população, correspondentes a mais de 7,4 milhões de pessoas –, uma série de problemas estruturais brasileiros que vinham ocorrendo desde muito antes da pandemia se assomaram para que o maior país da América Latina se estabelecesse em segundo lugar com o maior número de vítimas da pandemia, com 623 mil mortos, atrás apenas dos Estados Unidos com 864 mil.

SANEAMENTO BÁSICO

Um dos problemas que mais aflige o Brasil e que contribuiu para que a pandemia fosse ainda mais grave no país foi a questão do saneamento básico, direito este previsto na Constituição de 1988, mais precisamente no inciso XX do artigo 21, que argumenta que a União deve “instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos”. Além disso, o artigo 23, inciso IX também afirma que a melhoria das condições de saneamento básico é de competência de todas as esferas, sendo estas União, Estados, Distrito Federal e Municípios.

Uma pesquisa feita por integrantes da Sala Técnica de Saneamento, composta por 250 profissionais da área de saneamento, constatou que a falta de saneamento básico contribui para a proliferação do vírus. Para chegar a esta conclusão, os estudiosos utilizaram como base os levantamentos feitos em 2009 que, por meio da identificação de um vírus semelhante ao SarsCoV-2, entenderam que o vírus causador da Covid-19 pode, sim, permanecer em águas naturais e no esgoto por mais de 10 dias, além da possibilidade de contaminação por meio de gotículas (aerossóis) provenientes do esgoto infectado.  

“Dispor o esgoto sem o adequado tratamento degrada a qualidade das águas receptoras, causando impacto na saúde da população, além de comprometer os usos a jusante, como abastecimento humano, balneabilidade, irrigação, dentre outros”, diz o relatório.

ACESSO

Que o saneamento básico é crucial para a manutenção da qualidade de vida e, consequentemente, da saúde, isto é fato. No entanto, embora seja uma necessidade básica garantida em lei, na prática a realidade é outra. Segundo o Ranking do Saneamento Básico do Instituto Trata Brasil, pelo menos 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e pior ainda, mais de 100 milhões de brasileiros sem coleta de esgotos. Ou seja, quase 50% da população brasileira está sujeita a contrair doenças como diarreia, leptospirose, malária e até a própria covid-19.

Falando ainda do referido ranking, Rio Branco, capital do Acre, está em 92ª colocação quando o assunto é saneamento básico como um todo. A cidade mais populosa do estado, que comporta mais de 400 mil pessoas e que, consequentemente, está entre as cem cidades mais populosas do Brasil, tem um dos piores indicadores do atendimento total de água, atingindo apenas 54,26% dos rio branquenses. Com relação ao atendimento total de esgoto, o percentual cai para 21,65%.

O que mais chama atenção neste relatório é o montante investido nos serviços de distribuição de água e tratamento de esgoto. Nos últimos cinco anos, R$70,17 milhões foram aplicados nestes serviços na capital, com investimento médio de pouco mais de R$34 por habitante. Por outro lado, R$125,82 milhões foram arrecadados. No que tange à região Norte, apenas Santarém, Belém e Ananindeua – todos estes no Pará –, Porto Velho (RO) e Macapá (AP) estão abaixo do estado no ranking.

Tabela das 100 cidades mais populosas do Brasil com o ranking de saneamento básico em que Rio Branco, capital do Acre, aparece na 92º colocação, com indicadores do atendimento total de água, atingindo apenas 54,26%. Acesso em: 21 jan 2022. Fonte: Instituto Trata Brasil.

ÁGUA E ESGOTO

Tais dados geram preocupação pois com a pandemia de Covid-19 e com a consequente necessidade de se cumprir a quarentena, ficou evidente a necessidade de fornecimento de água para higienização das mãos e consumo humano, além de um adequado tratamento de esgoto para evitar que outras doenças, tão graves quanto a Covid, voltassem à tona. Uma nota técnica do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicada em 2020 mostrou que dos 100 milhões sem esgoto adequado, quase 22 milhões usam instalações sanitárias não adequadas e mais de 2 milhões defecam a céu aberto.

Quando analisados os dados voltados às escolas brasileiras, o Programa Conjunto de Monitoramento de Abastecimento de Água e Saneamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e Unicef apontou que 39% das instituições de ensino não possuem as estruturas mínimas para higienização das mãos. Ou seja, nem pia tem.

A situação fica ainda pior ao constatar, por meio do mesmo levantamento, que menos de 10% das escolas públicas possuem serviços de esgotamento. No Acre, apenas 9% têm acesso à rede pública de esgoto.

“Além do monitoramento do esgoto, nenhuma medida específica foi identificada em termos de ampliação de acesso a serviços de esgoto e instalações sanitárias durante o confinamento no Brasil. A falta de medidas ativas voltadas ao esgotamento sanitário e instalações, especialmente para aqueles que usam banheiros públicos e compartilhados, pode aumentar a insegurança e o risco de transmissão de doenças, especialmente entre mulheres e meninas, que, conforme mencionado anteriormente, são super-representadas nos ambientes informais”, diz a nota técnica.

A pesquisa evidenciou, mais ainda, a necessidade de ações rápidas e eficazes não somente do Brasil, mas de todo o planeta, com relação à necessidade de fornecimento de serviços de esgoto e da distribuição de água. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, disse que “trabalhar em um centro de saúde sem água, saneamento e higiene é o mesmo que enviar enfermeiras e médicos para trabalharem sem equipamento de proteção individual”.

PANDEMIA NO MUNDO

A Covid-19 levou muitas vidas e deixou sequelas em muitas famílias, principalmente em países como Estados Unidos da América, que até dia 10 de dezembro de 2021 registrava mais de 795 mil mortes, mesmo dia em que o Brasil registrou 616.069 mortes pela doença, com os títulos de primeiro e segundo país com maiores números de mortes, respectivamente. No décimo dia de dezembro de 2021, os Estados Unidos da América acumulava 49,7 milhões de casos desde o início da pandemia.

A China, país que registrou o primeiro caso e também a primeira morte por covid-19, em 10 de dezembro de 2021, enumerava 4.636 mortes em todo período de pandemia e mesmo com a população com uma marca acima de 1 bilhão, o número de casos pela doença foi de 99.517. No Reino Unido, formado pelos países Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, no dia 10 de dezembro de 2021 registrou 58 mil novos casos de Covid-19, um recorde na pandemia, que desde fevereiro notificou mais de 146 mil mortes.

Os Estados Unidos, China e Reino Unido, além do Brasil, foram os países mais citados durante todo período de pandemia até então, se tornando, cada um de uma vez, o epicentro da pandemia.

AMÉRICA LATINA

A pandemia nesta região do mundo não impactou todos os países da mesma forma como o Brasil, México e Peru foram afetados e, por isso, ocupam os três primeiros lugares no ranking de número de casos na América Latina, formada pelos países Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

Com dados atualizados até dia 10 de dezembro de 2021, o Brasil ocupava o primeiro lugar em número de casos acumulados com 22.193.828, México com 3.911.714, Peru com 2,2 milhões, seguidos de Colômbia com 5.089.695 e Argentina com 5.354.440. Na lista dos países latinos, Nicarágua registrou o menor número de casos, com mais de 17 mil casos, além da nação centro-americana, El Salvador, Suriname, Guiana e Haiti também registraram poucos casos, o que não significa, necessariamente, que foram menos impactados, tendo em vista questões políticas e sociais que circundam tais nações.

Na Nicarágua, por exemplo, que possui mais de 6 milhões de habitantes, um estudo intitulado “Covid-19 e opacidade: a fórmula da morte na Nicarágua” publicado no Observatório para a Transparência e Anticorrupção, afirma que os números passados pelo governo de Daniel Ortega não condizem com a realidade, e que foram escondidas de 6 mil a 9 mil mortes. “É incrível que, enquanto no restante dos países da América Central morrem entre 6 e 11 pessoas por cada 10 mil habitantes a cada semana, na Nicarágua morra apenas uma”, afirmam os autores do estudo que preferiram não se identificar em razão de possíveis perseguições no país.

VACINAS

Apesar dos empecilhos que culminaram para que o Brasil figurasse em segundo lugar no ranking de mortes, e apesar também da lentidão no curso da campanha de imunização que impediu com que milhares de vidas fossem salvas, atualmente o Brasil é o segundo país da América do Sul – atrás do Chile com 87,73% de pessoas imunizadas com as duas doses – e o terceiro da América Latina – atrás apenas de Cuba, que imunizou 86,54% das pessoas, e do próprio Chile – a figurar nas primeiras colocações no ranking de vacinação, mais precisamente na 12ª posição. Segundo informações do Our World in Data, 69,27% da população brasileira está completamente vacinada contra a Covid-19.

É importante lembrar, no entanto, que para chegar a estes resultados, as estatísticas levam em consideração a proporcionalidade, ou seja, a quantidade de doses aplicadas para o número de habitantes de determinado país. No caso dos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, mesmo com a população sendo, pelo menos, 22 vezes menor que a do Brasil, eles figuram na primeira colocação justamente por ter imunizado quase que 100% das pessoas.

Parcela de pessoas vacinadas contra Covid-19 até 10 de dezembro de 2021. A reta com verde de tonalidade mais escura representa a parcela da população totalmente vacinada Contra-19 e a reta com tonalidade mais clara representa a parcela da população vacinada parcialmente contra Covid-19. Acesso: 28 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

O Brasil também aparece no ranking de países que menos aplicaram vacinas. Contudo, observa-se que a América do Sul tem menor predominância do que o continente africano, por exemplo, onde se concentram os maiores percentuais de pessoas não-imunizadas. Somente na Nigéria, que é o país mais populoso da África, dos 206,1 milhões de habitantes, 198,24 milhões não se vacinaram. Inclusive, o governo nigeriano chegou a destruir mais de 1 milhão de doses alegando terem sido entregues ao país próximo à data de vencimento.

Pessoas não vacinadas contra Covid-19 até 10 de dezembro de 2021, as cores mais claras representam um número menor de pessoas enquanto as mais escuras representam um número maior. Acesso em: 28 jan 2022. Fonte: Our World in Data.

Os Estados Unidos também chamam atenção pois ao mesmo tempo em que vacinaram um percentual considerável (63%), um grande contingente de pessoas, mais precisamente 81.76 milhões de norte-americanos, acabaram não tomando nenhuma dose.

Já na Ásia, a Índia é a que aparece com menor número de pessoas sem serem vacinadas, com mais de 467 milhões nesta situação. Mesmo o número sendo matematicamente proporcional ao quantitativo de habitantes (1,38 bilhão), e mesmo tendo vacinado, em sua totalidade, mais de 500 milhões de pessoas, nota-se que ainda assim muitas pessoas ainda não procuraram pela imunização. Impulsionados pela variante Ômicron, o número de infectados no país subiu consideravelmente, o que fez a Índia registrar mais de 100 mil casos somente no último dia 07 de janeiro.

Número de pessoas totalmente vacinadas contra Covid-19 até 10 de dezembro de 2021. Acesso em: 28 jan 2022. Fonte: Our World in Data

Apesar de o apagão no sistema de informações, ocasionado por um “ataque hacker”, ter afetado na credibilidade e na precisão dos dados no Brasil desde o dia 10 de dezembro de 2021, e mesmo com a demora no processo de imunização, é perceptível, com base neste conglomerado de gráficos e números, que o país segue em uma crescente no que diz respeito ao crescimento no número de vacinados contra a Covid-19. Se comparar com o Paquistão, por exemplo, que tem praticamente o mesmo quantitativo de habitantes, o Brasil se firma com uma larga vantagem. Obviamente, questões culturais e religiosas influenciam neste processo, mas o fato é que as diferenças entre os países culminam neste resultado vantajoso, uma vez que é a partir da imunização em massa que o vírus poderá ser combatido de forma mais eficaz.

Continue lendo
Clique para comentar

Deixe sua mensagem

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Saúde

Amor de mãe

Publicado há

em

por

Por Claudya Simone Oliveira, Gercineide Maia  e John Catão

Rodrigo nasceu com uma condição especial, o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que logo foi percebido pela mãe e outros familiares. Lavínia Melo, 25 anos, empreendedora, formada em Engenharia Agronômica pela UFAC, é mãe dos gêmeos Rodrigo e Murilo Barcelos, de apenas 3 anos e 2 meses. 

Para ela, ser mãe de uma criança com TEA é um aprendizado diário, ela aprende muitas coisas com seu filho ao mesmo tempo que também ensina. “O Rodrigo é uma criança extremamente metódica, então, procuram sempre mantê-lo dentro da rotina, mas em contrapartida, é um bebê muito carinhoso e brincalhão”, declara a genitora.

Melo diz que foi observando a forma de seu filho brincar que começou a perceber algumas características: muitos movimentos repetitivos, sempre rodando objetos, gostava muito de brincar sozinho e não de socializar com outras crianças, apenas com adultos. “Notei essas características e procurei ajuda profissional”, conta.

O diagnóstico

De acordo com o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista (TEA)¹ é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por desenvolvimento atípico, manifestações comportamentais, déficits na comunicação e na interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados, podendo apresentar um repertório restrito de interesses e atividades. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 70 milhões de pessoas no mundo vivem com alguma forma do transtorno do espectro autista e frequentemente são sujeitas à estigmatização, discriminação e violações de direitos humanos. Globalmente, o acesso aos serviços e apoio para essas pessoas ainda é inadequado.

De acordo com a Organização Panamericana de Saúde, “o TEA começa na infância e tende a persistir na adolescência e na idade adulta. Na maioria dos casos, as condições são aparentes durante os primeiros cinco anos de vida”. E uma em cada 160 crianças têm algum grau do Transtorno.

No Brasil, a estimativa é que no país existam cerca de 2 milhões de pessoas com TEA. No Acre, segundo dados da Associação Família Azul, há atualmente cerca de 10 mil autistas, incluindo crianças e adultos.

A identificação de atrasos no desenvolvimento, o diagnóstico rápido e encaminhamento para apoio de especialistas na idade mais precoce possível pode levar a melhores resultados.

Preconceito e discriminação

Em 2012 foi aprovada a Lei 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, que segundo seu  Art. 4º,  a pessoa não será submetida a tratamento desumano ou degradante, não será privada de sua liberdade ou do convívio familiar nem sofrerá discriminação por motivo da deficiência.  

Mesmo com os últimos avanços nas leis, muitas pessoas com TEA passam por  preconceito e discriminação e a falta de informação contribui para o aumento desse quadro. Melo relata que houve um caso dessa natureza ainda quando as crianças eram muito pequenas. 

 “A ex-babá usou palavras ofensivas direcionadas não somente aos filhos, mas para toda à família e isso nos deixou muito tristes”.  No momento, não temos sofrido nenhum tipo de preconceito e esperamos que isso não aconteça mais de forma alguma. Não se trata apenas de amor de mãe, mas de um amor que ultrapassa as barreiras do coração e que defende o direito de uma criança que precisa ser respeitada pela sociedade, acrescenta Melo.

Inclusão escolar

Atualmente, Rodrigo estuda na Escola Solar Kids, onde conta com acompanhamento qualificado, que procura dialogar com a família ao desenvolver atividades. “Sempre informamos as condições de nosso filho, que se dá muito bem com os coleguinhas de sua turma. Mas essa não é realidade de todas as escolas no país, afirma a mãe.

De acordo com Art. 7º da Lei 12.764, o gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar a matrícula de aluno com transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários-mínimos e segundo Parágrafo 1º dessa mesma lei, em caso de reincidência, apurada por processo administrativo, assegurado o contraditório e a e a ampla defesa, haverá a perda do cargo.

Lavínia Melo deixa uma mensagem para os pais que não aceitam o diagnóstico.  “É uma condição que não passa, mas fechar os olhos para isso, eu chamo até de egoísmo, porque o quanto antes você aceitar, mais cedo você poderá ajudar o seu filho a ter um estilo de vida ‘comum’ e independente”, finaliza. 

Não deixe que a desinformação contribuía para o aumento do preconceito e discriminação!

Falando com um especialista

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo a psicóloga, Drª Marina Almeida, é uma condição de saúde que se caracteriza por um dano em três áreas muito importantes para o desenvolvimento do ser humano, que são: as habilidades socioemocionais, a atenção compartilhada e a linguagem. “Nos dias atuais, a ciência nos fala de muitos tipos de autismo, e não apenas um, como se imaginava, o qual se manifesta de forma única em cada pessoa” informa a psicóloga. 

A pandemia e a obrigatoriedade do distanciamento social ocasionaram grandes mudanças nas rotinas das crianças com autismo e seus familiares. “Quem convive com um autista, já sabe que a rotina é muito importante para eles, independente do grau diagnosticado. E a interrupção dessa rotina se transforma em um grande desafio para a continuidade do tratamento”, acrescenta.

Marina Almeida nos fala que o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é clínico, devendo ser feito conforme os critérios impostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), “fazendo-se uma observação direta do comportamento do paciente, e uma entrevista com os pais e/ou cuidadores”. Esse diagnóstico requer uma avaliação completa por todos os profissionais que fazem parte da equipe, para orientar o tratamento adequado.

Conforme a psicóloga, “existem alguns sinais que podem alertar os pais e professores quanto à possibilidade do TEA, sinais esses que devemos nos ater, com muita atenção, como um comportamento atípico e um desenvolvimento diferente ao que se espera para aquela faixa etária”. Ela explica que as crianças com TEA possuem certa dificuldade em olhar no olho das pessoas, costumam andar na pontinha dos pés, geralmente apresentam atrasos ou ausência da fala. 

Segundo Marina Almeida, esses sinais geralmente se apresentam antes dos 3 anos de idade. E mesmo sendo comum aos pais notarem algumas alterações no desenvolvimento dos filhos antes dos 2 anos, eles tardam a procurar por uma ajuda especializada. Mas vale ressaltar que a atenção básica é fundamental para a identificação inicial dos sinais e sintomas de risco para o portador do TEA.

Olhar nos olhos é uma estratégia comunicacional, facilita uma melhor compreensão da fala do outro, passando também a impressão de atenção, respeito e confiança. “Mas, no caso de crianças com TEA, isso não tem a menor importância, pois dão maior atenção à fala, perdendo, dessa forma, de aprender e entender os significados das expressões faciais”, explica  a psicóloga.

“A explicação para essa dificuldade de olhar no olho parece estar relacionada à forma como o cérebro dessas crianças se organiza, eles percebem o mundo de um jeito diferente, que é só dele. E essa é uma das primeiras formas de tratamento para o TEA (Transtorno do Espectro Autista), que é o fortalecimento da comunicação através do contato olho no olho”, esclarece.

Quando a criança com TEA tem um comportamento que não é adequado, esses podem ser moldados para que diminuam ou, até mesmo, deixem de existir. Para isso, têm-se à disposição a Terapia Comportamental, que trabalha visando melhorar a inserção social da criança ao meio que está inserida, ajudando também os familiares a conviver melhor com essas questões. Muitas dúvidas ainda pairam sobre possibilidades de cura, mas esta é uma condição permanente, a criança nasce e torna-se um adulto com TEA . 

Apesar de todo avanço da Ciência com pesquisas, ainda não foi possível encontrar uma cura, mas o tratamento costuma diminuir dificuldades encontradas, favorecendo o desenvolvimento e a interação social de cada pessoa.

Associação Família Azul do Acre

O grupo surgiu após 30 mães de autistas reunirem-se todos os meses para tratar algum assunto relacionado à saúde, educação, suas angústias do dia a dia, compartilhar terapias, segundo Heloneida da Gama, presidente da Associação. A partir disso, em 2014, houve o entendimento de formalizar a associação juridicamente, para que a causa pelos direitos e necessidades dos autistas se tornassem mais eficazes.

A Associação Família Azul do Acre (Afac) tem  por  finalidade  defender  os  direitos  e  interesses  das  pessoas  com  o Transtorno do Espectro Autista – TEA, devendo, para tanto, promover, apoiar e incentivar a realização de todas as ações necessárias para esse fim, podendo ainda desenvolver programas de adaptação e inclusão social das pessoas com TEA e apoio a seus familiares.

A presidente Gama deixa claro que a Afac presta assistência social às famílias que têm filhos com autismo por meio da execução direta de projetos, palestras, acolhimentos de pessoas, orientações escolares e familiares, terapias psicossociais, treinamentos a profissionais da saúde, educação, programas ou planos de ações. “Esta associação também conta com parceiros, pessoas que se disponibilizam a ajudar, doar um sacolão ou um remédio. A maior dificuldade, acredito, é que não temos uma sede própria, um espaço para receber, acolher as famílias. Não temos um profissional da psicologia ou da assistência social que nos ajude”, destaca a presidente.

A Afac possui uma página no Instagram: @afac.familia_azul, uma página no Facebook: Autismo no Acre – AFAC. 

As Instituições que atendem no momento são:

  • CER III (Estadual), com especialidade em fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional;
  • Centro Municipal de Autismo, especialidades em fonoaudiologia, psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, equoterapia, que segundo a Associação Nacional de Equoterapia – ANDE, trata-se de um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiência e/ou necessidades especiais;
  • APAE, especialidades fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia. 

Lei Romeo Mion

Sancionada com vetos em 2020, a Lei Nº 13.977 – conhecida como Lei Romeo Mion – estabelece a emissão de uma Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Seu nome foi inspirado no adolescente Romeo, de 16 anos, que é filho do apresentador de televisão Marcos Mion e tem TEA. 

A Lei Romeo Mion cria a Carteira de Identificação da Pessoa com TEA – CipTEA em sua versão abreviada – ou seja, garante a todos aqueles com o diagnóstico de autismo um documento que possa ser apresentado para informar a condição do indivíduo. Além disso, ela altera dispositivos da Lei 12.764/2012, a Lei Berenice Piana.

Garantias e benefícios da Lei Romeo Mion

Além da documentação que facilita a identificação de uma pessoa no espectro autista, a Lei Romeo Mion ainda oferece outros benefícios aos usuários. Alguns deles são: 

  • Atenção integral;
  • Pronto atendimento e prioridade no atendimento e acesso aos serviços públicos e privados (em especial nas áreas de saúde, educação e assistência social).

Documentos necessários para emitir a carteirinha

A CipTEA pode ser emitida por órgãos estaduais, distritais e municipais que executam a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Ao solicitar o documento, a família deve apresentar os seguintes dados:

  • Requerimento; 
  • Relatório médico com a indicação do código da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde (CID).

O requerimento deve conter dados como: 

  • Nome completo;
  • Filiação;
  • Local e data do nascimento;
  • Número da carteira de identidade;
  • Número do CPF;
  • Tipo sanguíneo;
  • Endereço residencial e telefone;
  • Foto 3×4;
  • Assinatura ou impressão digital do interessado.

Da pessoa cuidadora são exigidos: 

  • Nome completo;
  • Documento de identificação;
  • Endereço residencial;
  • Número de telefone e e-mail.

Com validade de cinco anos, a legislação ainda exige que a família mantenha os dados cadastrais atualizados e que, sempre que a carteira for renovada, o número de identificação seja mantido. Isso porque ele permite a contagem das pessoas com TEA no território nacional.

Continue lendo

Saúde

Os riscos do cigarro eletrônico

Publicado há

em

por

Por Eduardo Menezes Almeida

Os cigarros eletrônicos ou vapes, como são popularmente conhecidos, foram criados originalmente para servir como opção para quem deseja largar o vício nos cigarros convencionais.

Os dispositivos podem ser recarregáveis, com bateria ou descartáveis, além disso possuem um designer tecnológico e chamativo, o que tem atraído muitos jovens e adolescentes para o seu consumo.

A venda, distribuição e comercialização do produto é proibida no Brasil, apesar disso o seu consumo é permitido, isso faz com que exista um mercado ilegal do produto no país. O PROCON é o responsável pela fiscalização e apreensão do produto.

Em 2009, a AVISA emitiu uma resolução informando que não há dados que comprovem a eficácia do produto contra o vício dos cigarros convencionais. Segundo pneumologistas o uso do cigarro eletrônico pode causar uma dependência ainda maior do que o cigarro de combustão, pois pode chegar a possuir o dobro de nicotina, substância essa altamente viciante e que pode variar de acordo com a marca do fabricante.

Segundo o médico Mastologista e Cirurgião Oncologista, Wesley Pereira Andrade a troca do cigarro convencional para o cigarro eletrônico não é segura. “Houve uma troca de nicotina, ou seja, o produto de consumo mudou, mas o vício permaneceu o mesmo, mantendo assim os mesmos riscos de doenças que um cigarro de combustão causaria”, completou.

Em 2019, segundo o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), foram registradas seis mortes nos Estados Unidos e outras 380 enfrentaram tratamentos contra doenças pulmonares causadas pelo consumo do cigarro eletrônico.

Os registrados tinham entre 15 e 35 anos. A venda e comercialização do produto é permitida no país, o que vem aumentando os casos de doenças pulmonares principalmente nos jovens dessa faixa etária.

O oncologista explicou que além da nicotina outras toxidades podem ser encontradas nos cigarros eletrônicos e que causam consequências irreversíveis para a saúde dos usuários. “Podemos dizer que o cigarro eletrônico possui dois ricos: o individual, que seria o surgimento das doenças relacionadas a seu uso e a ocorrência de explosões e intoxicação pelo contato com seu líquido; e o risco coletivo, esse seria um risco mais social, o impacto da entrada desse produto na sociedade, entrando como medida de controle do tabaco de um país”, disse.

 Um dos agravamentos que podem ser notados nos usuários do cigarro eletrônico seria o aumento no risco de infarto agudo do miocárdio e de doenças respiratórias e pulmonares, como asma. Além de possuírem substancias cancerígenas que a longo prazo podem evoluir para um câncer no pulmão.

De acordo com o advogado especialista em Direito Médico e Planos de saúde, Luan Santos, a indústria foi o principal motivador para o aumento no número de usuários do cigarro eletrônico.

Santos explanou que a indústria foi o principal impulsionador para o aumento de usuários, ao perceber que decorrer do tempo vinha perdendo muitos usuários do cigarro convencional. “Traz uma nova cara para a mesma droga, de preferência um instrumento tecnológico, com design bonito, cores diferentes, descolado e inovador, isso acaba atraindo novos usuários e resinificando algo que em tese não mudou nada”, complementou.

De acordo com o advogado existe outro projeto de lei do deputado Cataqui (DEM-SP), que quer regularizar o cigarro eletrônico e aprovar a sua venda e comercialização de forma comparável como é feito com o cigarro convencional.

Continue lendo

Saúde

Impactos da pandemia no Lar Vicentino Raimunda Odília

Publicado há

em

por

Por Gercineide Maia

O Lar dos Vicentinos, Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPIS) mais antiga do Acre, fundada em 1955, apenas para homens e que atualmente abriga um total de 50 idosos (34 homens e 16 mulheres), ao longo da pandemia de Covid-19 sofreu diversos impactos entre seus colaboradores e abrigados.

Como forma de evitar a disseminação da doença o Denor (Departamento de Normatização e Orientação), órgão de assessoramento para assuntos relacionados às Unidades Vicentinas, decidiu adotar todas as medidas de segurança propostas pelos órgãos sanitários, inclusive a suspensão das visitas.

Embora os cuidados tomados, 23 idosos foram diagnosticados com Covid-19 em março de 2021, e desses, 3 chegaram a óbito devido a contaminação. Na época o surto foi informado a Secretaria de Saúde do município que diante da situação o Ministério Público (MP) acompanhou o fato e pediu que os testes fossem refeitos.

A presidente do Conselho Particular do Lar dos Vicentinos, Ana Maria Sobreira, relata que com a restrição de visitas, o contato com a família passou a ser online e para manter essa comunicação foi comprado um celular para que as pessoas idosas mantenham contato com às suas famílias por meio videochamadas. “Porém muitas vezes eles não se satisfazem em falar somente a distância”, enfatizou.

A diretora do Lar, Waldenize Rebelo explicou que que neste período de pandemia o distanciamento social tornou-se um grande desafio pois antes existiam uma presença constante da comunidade, faculdades e igrejas. “Eram realizadas atividades motoras, música, pintura, modelagem, dentre outras e com a pandemia tudo foi suspenso, inclusive a visita, a presença da família”, lamentou.

Rebelo destaca que nesse período da pandemia notaram um estresse mais alto nos idosos, aquela situação de arengar o tempo todo dentro do quarto.  “Na realidade, a pandemia machucou o emocional, por causa dessa falta da comunidade, porque boa parte deles não tem família, o carinho, a atenção que recebem é da comunidade, do estranho que se senta e ouve, que escuta, que dá uma palavra de apoio e a falta da comunidade dentro do lar nesse período de pandemia foi a parte mais difícil para eles”, destaca a diretora.

Para a diretora com esse distanciamento, a maioria das pessoas idosas que já são ansiosas e tomam medicamentos psicotrópicos para essa ansiedade, com essa falta de contato ficaram mais tristes. “Só a equipe interna não estava dando conta de assistir emocionalmente, por mais que você se entregasse, se doasse, o atendimento estava sendo insuficiente”, acrescenta.

Segundo a assistente social Alzirene Diógenes Saldanha, a pandemia afetou a todos diretamente e indiretamente em vários sentidos e isso não foi diferente para as pessoas idosas que estão institucionalizadas, que fazem parte do lar. “Elas sofrem com algumas mudanças como a questão das visitas dos parentes que só podem visitar mediante da terceira dose, conforme comprovação da carteira de vacina, uma vez que a vida dos abrigados precisa ser preservada, declara.

Mudanças ocorridas a partir da intervenção do Ministério Público

O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), por intermédio da Promotoria de Justiça Especializada de Defesa da Pessoa Idosa e Pessoa com Deficiência,  emitiu em fevereiro de 2021 a Recomendação Nº 001/2021/PJEDPIPCD, notificação para corrigir algumas irregularidades identificadas e melhorar a prestação de serviço no Lar

A atuação do Ministério Público do Acre (MP) foi muito importante para que houvesse melhoramentos no lar, principalmente nesse tempo de pandemia.  A antiga diretoria foi afastada e houve nomeação da atual direção, foi constatado ter documentação atrasada, e consequentemente, o lar ficou quebrado financeiramente, sem condições de pagar esses documentos, só de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) a instituição pagou 21 mil.  Para sair dessa negatividade e mostrar o que realmente o lar é para a comunidade, os Lares Vicentinos de todo Brasil se juntaram para ajudar o de Rio Branco, confirma a diretora.

Segundo relato da presidente do Conselho Particular de Rio Branco do Lar Vicentino, Ana Maria Sobreiro, desde que assumiram em março do ano passado, os cuidados com as pessoas idosas aumentaram,  se criou os protocolos, através do Ministério da Saúde todos foram vacinados com a terceira dose contra Covid-19, contra a gripe, todos os funcionários são obrigados a usar  equipamentos de proteção individual (EPI’s) como máscara, touca, luvas,  álcool em gel,  em cumprimento às orientações sanitárias.

“Hoje as pessoas idosas que vivem no Lar Vicentino têm o que merecem, que estava faltando hoje eles têm. Antes eles não tinham psicólogo, assistente social, nutricionista, fisioterapeutas e depois que assumimos, conseguimos trazer esses profissionais para o lar e para um melhor atendimento aumentamos o número de cuidadores, tudo isso solicitado pelo Ministério Público (MP)”, declara a diretora.

No início de dezembro, o Lar Vicentino Raimunda Odília abriu seu espaço para visitação para familiares e comunidade mediante agendamento e respeitando protocolo de saúde e orientações

Rotinas e atividades

Com a pandemia da Covid-19, com restrição da visitação, atividades internas foram propostas e reajustadas, seguindo protocolo.  “Tentamos, fazer festinhas de aniversário, danças, forró, criamos um cantinho para que eles se socializassem. Estas atividades juntamente com as visitas virtuais, realizadas por videochamadas, ajudaram a melhorar, principalmente, a saudade, a tensão, o nervosismo”, ressaltou a diretora Waldenize Rebelo.

No início de dezembro, o Lar Vicentino Raimunda Odília abriu seu espaço para visitação para familiares e comunidade mediante agendamento e respeitando protocolo de saúde e orientações do Departamento de Normatização e Orientação (Denor) nacional da Sociedade São Vicente de Paulo. “Mesmo abrindo as portas para a família, desde dezembro, somente 4 famílias compareceram para visitar e alguns dos familiares ainda não estão com a vacinação atualizada e isso interfere nas visitas”, conta a diretora Rebelo.

A assistente social Alzirene Saldanha pontua a importância que o vínculo familiar seja estabelecido e explicou a complexidade do assunto, pois se houvesse um vínculo familiar forte, as pessoas idosas não estariam no lar. “O fato é e pouquíssimos têm vínculo e que várias situações levam a institucionalização da pessoa idosa”, destacou.

Depoimentos dos idosos

Maria Barroso Rufino, 80 anos, natural de Boca do Acre, viúva, mãe de 4 filhos disse que quando ocorreu o número de infecção no lar não teve medo e que não sentiu nada, a não ser as pernas cansadas. “Só tenho medo daquele lá de cima”, acrescenta.

Rufino relatou que durante a quarentena, mesmo no quarto com mais duas idosas, se sentia sozinha. “Meu Deus que solidão que eu estou aqui dentro, mas Deus vai me dar força, fazer com que eu saia daqui doente eu não estou porque dizem quando bate o negócio dessa doença dá febre, fastio e eu não tive febre, bebia água, comia bem, brigava quando a comida vinha pouco. Eu falava mesmo e eu só pensava em sair de lá, pois eu me sentia presa e aí foi quando eu saí”.

João Batista Oliveira, 66 anos, solteiro, natural de Rio Branco, contou que exerceu a profissão de técnico de enfermagem em várias instituições e emocionado demostrou seu medo diante da pandemia. “Fiquei com muito medo da pandemia, muita gente pegando, então fiquei com medo de contrair a doença”, afirmou o aposentado.

Maria Geralmira Bandeira, 62 anos, natural de Senador Guiomard, viúva, professora de educação especial aposentada, mãe de dois filhos, foi uma das primeiras idosas a tomar a dose de reforço da vacina contra a Covid-19 disse que ter medo e que reza por proteção de seus parentes.

Despesas e manutenção

As despesas e custos no Lar Vicentino são diversas e exigem recursos altos para a sua manutenção e sustentabilidade.  “O idoso contribui com 70% de seu benefício e aquele idoso que não tem parente, não tem ninguém, o dinheiro, o resto dos 30% fica na casa para quando ele precisar de uma medicação, dentre outras necessidades pessoais como pintar o cabelo, fazer as unhas”, declara a presidente do Lar.

De acordo com a diretora Waldirene Rebelo, há gastos com refeições diárias, produtos de higiene e limpeza, fraldas geriátricas, remédios, energia elétrica, água mineral, internet, telefone, combustível, gás de cozinha, material para papelaria e escritório, manutenção predial e encargos como Guia da Previdência Social (GPS), folha de pagamento do salário dos funcionários, gastos com Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), dentre outros.

Rebelo destacou que o Lar Vicentino de Rio Branco Raimunda Odília é um prédio antigo e precisa ser reformado e ampliado. “Um exemplo dessa necessidade é que foi solicitado que fossem instalados chuveiros elétricos em todos os banheiros e foram instalados, porém a fiação não comporta, precisa ser mudada”.

Segundo a diretora Rebelo, a entidade é a única instituição do Brasil que não recebe Orçamento participativo do município, dinheiro que poderia ser empregado em pequenas reformas, dentre outras atividades.

Diante desse quadro, representantes do Lar Vicentino, em reunião realizada no dia 6 janeiro, expuseram a situação ao prefeito de Rio Branco Tião Bocalom que afirmou que a prefeitura não vai medir esforços para ajudar na reforma do Lar Vicentino.

A diretora disse que o lar não tem recursos financeiros para fazer essa reforma, para deixar o prédio bonito, mas que eles, enquanto instituição, capricham na higiene, na alimentação, no amor, no atendimento da saúde para que as pessoas idosas que vivem no abrigo tenham uma qualidade de vida melhor”.

Continue lendo

Mais Lidas