Nascente
Impacto da pandemia na Coreia do Sul
Publicado há
4 anos atrásem
por
acatraia
Por Andreana Lucas e Souza e Ycla Araújo
O novo vírus covid-19 se tornou um dos maiores e mais graves casos sanitários do século XXI. Era esperado que em resposta a essa nova doença, os países adotassem métodos de amenizar os impactos causados pela doença.
Em diversas pesquisas, a Coreia do Sul aparece como um país que teve um trabalho bem-sucedido no controle contra o coronavírus. Nos primeiros dois meses da crise, o país se destaca mantendo uma baixa taxa de letalidade, em comparação a outros países no mesmo período, sem a necessidade de fechar fronteiras e comércios, mesmo sendo fronteira com a China, onde se iniciou às infecções. Como mostra o gráfico a seguir do site “Our World in Data” que registra e faz mapeamento dos casos da doença no mundo desde de o começo da pandemia:

Muitos métodos foram organizados para que houvesse uma facilidade em detectar os infectados, como tecnologias de rastreamento, além do governo ter distribuído equipamentos de segurança e testes individuais para a população.
Entretanto, a propagação do vírus não diminui com o passar dos dias, e o crescimento de infectados acontece em todo o mundo e mesmo com os cuidados da Coreia, os números continuam a subir.
O mundo neste momento de primeira “onda”, passa por um momento de grande caos por conta do grande número de pessoas que contraíram, enquanto a Coreia se organiza em três formas de combate considerando: as características governamentais e de saúde no país, a evolução da, até então, epidemia e medidas e métodos de resposta à covid-19. Todas elas são levando em consideração situações como a infraestrutura, cobertura populacional com atenção à saúde, a taxa de médicos por habitantes, prestação de serviço, histórico do sistema de saúde. Tudo isso é levado em consideração o estudo desde a data do primeiro caso, a sua evolução até o centésimo caso, a letalidade e as medidas de vigilância no país.
Com todos esses cuidados, o país fecha o ano de 2020 com 1.029,57 casos registrados, enquanto nos Estados Unidos fecha com 182.680,86 e o Brasil com 36.278,43.

A população coreana conta com mais de 52 milhões de habitantes, ocupando uma área de 100.210km e é a 13ª maior economia mundial. O sistema de saúde conta com dois subsistemas: 1) seguro de saúde com gerenciamento público, que cobre cerca de 96% da população; 2) o sistema de saúde público é custeado através do imposto e é voltado para os mais pobres, cobre cerca de 4%. O seguro adota a compra dos serviços nos meios privados e sua infraestrutura se destaca com a alta disponibilidade e qualidade de serviço.
O país já tinha uma estrutura para lidar em casos de situações epidemiológicas e investigações de surtos sanitários e a resposta usada foi com base no Plano Nacional de Gestão das Doenças Infecciosas. No início, a Coreia adotou medidas baseada em dados e na ciência, o protocolo assegurava uma atuação em conjunto com a participação da sociedade e lideranças. O primeiro alerta foi em 3 de janeiro de 2020, após a notificação do primeiro caso na China, o segundo alerta veio em 20 de janeiro com o primeiro caso registrado na Coreia do Sul. Esse caso foi registrado em uma mulher vinda da China, e ela foi interceptada logo no aeroporto. O terceiro alerta aconteceu em 27 de janeiro devido ao aumento de confirmados. Entre 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 2020 mostra que os principais registros são da China, porém também acontece em países próximos como Singapura, Japão e Tailândia. A Coreia em 20 de fevereiro registra seu centésimo caso positivo é a primeira morte por covid-19.

Adotou-se também infraestruturas como: implantação de centros de triagem no nível distrital de avaliação dos sintomas, organização de unidades de terapia intensiva, definição de hospitais e alocação de especialistas em doenças respiratórios; implantação de leitos em espaços de hospitais de campanha em casos leves, qualificação dos profissionais, destinação de ações para proteção dos profissionais da saúde.
A comunicação social foi usada para incentivar a população sobre as questões de distanciamento e trabalho em casa, além do governo ter cancelado eventos públicos, restrição de viagens e o fechamento de escolas e universidades. As atualizações sobre as condições e avanços da pandemia eram atualizados constantemente nos sites do país, além do estado mandar mensagens de alerta aos celulares dos cidadãos. As divulgações de prevenção eram divulgadas constantemente para a população sul coreana.
O protocolo de isolamento não contava com o fechamento das fronteiras, no entanto o sistema de rastreamento por meio de um aplicativo no celular era bastante eficaz aos viajantes que passavam ou retornavam ao país. Os identificados por suspeita ou confirmados positivos eram colocados em quarentena domiciliar e aos estrangeiros, o governo disponibiliza centros públicos para abrigo sem cobrar taxa durante os dias de isolamento.
Os centros de triagem na modalidade drive-thru tiveram o objetivo de ampliar diagnósticos e reduzir a exposição dos profissionais, os testes levam em média 10 minutos para serem realizados e os resultados enviados por mensagem aos pacientes no prazo de três dias. Regiões de difícil acesso, foram desenvolvidos veículos com cabines capacitados para a entrada nesses lugares para a realização dos exames. Além disso, uma linha telefônica também foi criada com atendimento 24h para triagem e orientação, conduta e direcionamento dos casos. Todas essas atenções foram essenciais para para que o ritmo de infecções não fosse extremas, que mesmo sem fechar o país e nem impor o lockdown, a população teve a consciência dos cuidados e se pode observar uma diminuição de mobilidade nos centros de transporte público, como em estações que reduziu 40,6% entre janeiro e março e foi observado que o uso de bicicletas se mostrou maior nesse período.
A Coréia do Sul buscou a diversificação das vacinas, podendo ser essa uma das justificativas do início da imunização quase três meses depois do Reino Unido, que foi o pioneiro na vacinação em dezembro de 2020 . Nisso, em fevereiro de 2021 a imunização foi iniciada para a população sul coreana com as primeiras doses da Pfizer-BioNTech e foram priorizadas e destinadas aos profissionais da saúde que estavam na linha de frente no combate a covid-19. Pelo gráfico a seguir, podemos perceber constantemente que o país se mostrou estável nos registros de novos casos da doença e relação como países como o Brasil, Estados Unidos e o Reino Unido:

Comparativo da Coreia do Sul com o Brasil
Como a imagem também mostra, o aumento de casos no Brasil enquanto se tem o declínio dos outro países devido a imunização no nosso país ter iniciado tardiamente e lentamente, visto que o interesse público não foi respeitado pelos responsáveis da aquisição e distribuição da vacina, o que resultou além do grande número de várias vidas brasileiras perdidas, como também o colapso na economia. Os impactos vão muito além da saúde no Brasil o que não podem ser mensurados e não existem as expectativas de reestruturação e estabilidade. Enfim imunização no país iniciou em março de 2021 e demorou cerca de nove meses para alcançar 75% da população com a primeira dose da vacina, como mostra o gráfico a seguir com o espelho de vacinação do mês de novembro do mesmo ano:

Se realizarmos um comparativo da imagem percebemos que na Coréia do Sul quase a mesma porcentagem já estava na segunda dose do imunizante evidenciando como os coreanos mais uma vez souberam direcionar as medidas públicas contra o covid-19 o que refle atualmente nos registros dos países analisado, sendo assim a Coreia do Sul está em primeiro lugar na imunização de seu país, como mostra o gráfico abaixo do site Our World in Data:

Disso tudo, a Coreia do Sul investiu majoritariamente em medidas ao combate a doença covid-19 e os impactos causados por ela. Com providências compensatórias e de proteção social destinadas a reduzir o impacto econômico e garantir que a vida dos cidadãos seja preservada, o governo anunciou um orçamento com o qual foi aprovada uma série de planejamentos fiscais, incluindo garantias de crédito, apoio de emergência às famílias, empresas de turismo e indústrias de exportação.
Em comparação com o Brasil, que teve ações tardias e lentas no combate à doença, os coreanos sulistas mostraram forma de lidar com uma crise epidemiológica com combinações de vigilâncias, tecnologias, inteligências artificiais e monitoramento, ou seja, conjunto de ensinamentos baseados na experiência sul-coreana com o objetivo de controle e manejo da doença.
Portanto os impactos da pandemia do novo vírus covid-19 foram bem menores do que os que foram causados no Brasil, tantos de casos quanto a mortes causadas na Coreia do Sul ao todo foram 719 mil casos registrados e 6.501 mortes desde o início da pandemia, já no território brasileiro foram 23,6 mil casos e 622 mil mortes, ou seja, dez vezes mais que na coreia do sul. Mesmo que haja o comparativo de habitantes é nítido como as ações de combate interferiram na vida da população de cada país. Neste caso temos dois países que agiram de formas diferentes e os resultados mostram como as medidas tomadas ajudam ou pioram a situação.
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SAÚDE
Você sabia que absorventes são gratuitos pelo SUS? Entenda como acessar o Programa Dignidade Menstrual
No Brasil, uma em cada quatro meninas deixa de ir à escola durante o período menstrual por falta de absorventes, segundo dados do UNFPA e do UNICEF
Publicado há
4 dias atrásem
20 de janeiro de 2026por
Redação
Por Maria Lídia
Você sabia que absorventes são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS)? Criado pelo governo federal, o Programa Dignidade Menstrual é uma política pública voltada ao enfrentamento da pobreza menstrual no Brasil, garantindo a distribuição gratuita de absorventes e promovendo ações de orientação sobre saúde menstrual.
Apesar da iniciativa, a falta de informação ainda é um dos principais obstáculos para que o programa chegue a quem mais precisa. “Muita gente ainda não sabe que tem direito ao benefício”, afirma Jeane Moura, coordenadora da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Bom Jesus, em Rio Branco, ao comentar as dificuldades enfrentadas por pessoas que menstruam em situação de vulnerabilidade social.
Esse desconhecimento se insere em um contexto mais amplo de desigualdade. Pesquisa realizada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), em parceria com o UNICEF, revela que uma em cada quatro meninas brasileiras deixa de frequentar a escola durante o período menstrual por falta de absorventes e de condições adequadas de higiene. O levantamento também aponta que cerca de 4 milhões de estudantes vivem em situação de privação de higiene menstrual nas escolas.
O cenário evidencia a pobreza menstrual como um problema estrutural que afeta diretamente a permanência escolar, a saúde e a dignidade de mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade. Como forma de enfrentamento, o governo federal instituiu o Programa Dignidade Menstrual, que assegura a distribuição gratuita de absorventes por meio do SUS e da rede da Farmácia Popular.

Distribuição nas farmácias credenciadas. Foto: EBC
Como acessar os absorventes gratuitos
O acesso aos absorventes não é automático, mas o processo é simples. Podem solicitar o benefício pessoas que menstruam com idade entre 10 e 49 anos, que tenham renda familiar mensal de até R$218 por pessoa e estejam inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).
A solicitação pode ser feita pelo aplicativo Meu SUS Digital ou diretamente em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), alternativa importante para quem não tem acesso à internet ou enfrenta dificuldades no uso de aplicativos.
Após a autorização, é possível retirar até 40 absorventes por vez em farmácias credenciadas ao Programa Farmácia Popular, mediante apresentação de documento oficial com foto e CPF. Não é necessária receita médica nem qualquer tipo de pagamento. A autorização tem validade de 180 dias.
Em Rio Branco, as UBS também funcionam como pontos de apoio para facilitar o acesso ao programa. “Quando a pessoa não consegue utilizar o aplicativo, a UBS emite a autorização”, explica Jeane Moura. Segundo ela, agentes comunitários de saúde atuam na divulgação do benefício durante visitas domiciliares, orientando a população sobre quem tem direito e como acessar o programa.
Onde retirar os absorventes
No Acre, 17 farmácias localizadas em 11 municípios estão credenciadas para a distribuição gratuita de absorventes. Em Rio Branco, há unidades em diferentes regiões da cidade, o que amplia o acesso ao benefício.
Farmácias credenciadas no Acre:
- Acrelândia – Farmácia do Trabalhador de Acrelândia LTDA (Centro)
- Cruzeiro do Sul – H.R Lima (Centro)
- Cruzeiro do Sul – Empreendimentos Pague Menos S/A (Baixa)
- Epitaciolândia – Maria da Silva Freitas (Centro)
- Feijó – R V N Felício – ME (Centro)
- Plácido de Castro – Sérgio Carlos Vieira – EPP (Centro)
- Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Centro)
- Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Bosque)
- Rio Branco – Empreendimentos Pague Menos S/A (Estação Experimental)
- Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Cadeia Velha)
- Rio Branco – J Cruz LTDA – EPP (Seis de Agosto)
- Rodrigues Alves – Drogaria Minha Saúde LTDA
- Sena Madureira – E.J da Silva de Araújo LTDA (Centro)
- Sena Madureira – J Cruz LTDA (Centro)
- Senador Guiomard – Aurélio Alves de Lima – ME (Cohab)
- Tarauacá – Valdicélio Lima da Silva LTDA (Centro)
Apesar da estrutura disponível, profissionais da atenção básica reforçam que a falta de informação ainda é o principal entrave para que o Programa Dignidade Menstrual alcance plenamente seu público-alvo, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade menstrual.
CONSCIENTIZAÇÃO
Com mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais, Janeiro Branco alerta para cuidado com a saúde emocional
Estigma e desinformação ainda afastam brasileiros da terapia, alertam especialistas
Publicado há
2 semanas atrásem
13 de janeiro de 2026por
Redação
Por Arielly Casas
O número de brasileiros afastados do trabalho por transtornos mentais tem crescido de forma acelerada nos últimos anos. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que, em 2014, cerca de 203 mil pessoas precisaram se afastar de suas atividades profissionais em razão de problemas relacionados à saúde mental no Brasil. Uma década depois, em 2024, último dado registrado, esse número ultrapassou 440 mil afastamentos, o maior já contabilizado. Para compreender os tabus em torno da busca por ajuda psicológica, especialistas apontam que a psicoterapia ainda é amplamente mal compreendida pela população. É a partir dessa premissa de conscientização que a campanha Janeiro Branco chega a mais uma edição, em 2026.
O psicólogo Francisco Souza afirma que essa resistência está ligada à forma distorcida como a psicoterapia foi apresentada ao longo do tempo. Segundo ele, quando o processo terapêutico é confundido com conselhos simples ou autoajuda, muitas pessoas acreditam que já sabem do que se trata e passam a desacreditar no acompanhamento psicológico. “Quando essa experiência não gera mudanças reais, surge a ideia de que a terapia não funciona”, resume.

Francisco Souza, psicólogo. Foto: Arquivo Pessoal.
De acordo com o profissional, a campanha Janeiro Branco busca justamente romper esse estigma ao incentivar a reflexão sobre como as emoções impactam os relacionamentos, a rotina de trabalho e a qualidade de vida, além de estimular a busca por apoio psicológico como forma de cuidado e prevenção.
Francisco Souza destaca ainda que a terapia é uma ferramenta fundamental para o autoconhecimento e para o enfrentamento de desafios emocionais, ao permitir que a pessoa compreenda melhor a si mesma e promova mudanças necessárias para uma vida mais equilibrada, contribuindo diretamente para a saúde mental e o bem-estar.
A paciente Yasmine Albuquerque relata que a terapia foi fundamental para compreender melhor os próprios sentimentos e lidar com dificuldades emocionais. Segundo ela, o acompanhamento psicológico contribuiu para um processo contínuo de autoconhecimento e mudança de perspectiva sobre si mesma.
Para Yasmine, ainda existe resistência em buscar ajuda por medo de julgamento. “Reconhecer a necessidade de apoio é um passo importante no cuidado com a saúde mental. A terapia mudou muito a minha vida”, resume.
Atendimentos acessíveis
Para quem deseja iniciar a terapia, existem alternativas mais acessíveis, especialmente para pessoas de baixa renda. Plataformas como a PsyMeet Terapia oferecem atendimento psicológico online com profissionais de todo o Brasil, com sessões de 30 minutos ao custo de R$ 30, ampliando o acesso ao cuidado emocional para quem não consegue arcar com valores da rede privada.
No Acre, a Universidade Federal do Acre (Ufac) também disponibiliza atendimento psicológico por meio do Serviço Escola de Psicologia (Serpsi), onde alunos do curso realizam atendimentos supervisionados por professores. O serviço é voltado tanto para estudantes da universidade quanto para a comunidade em geral, funcionando como uma alternativa gratuita ou de baixo custo para quem busca acompanhamento psicológico.

Horários de funcionamento do Serviço Escola de Psicologia (Serpsi). Imagem: Serviço Escola de Psicologia da Ufac.
Terapia infantil
Além do público adulto, o Janeiro Branco também chama atenção para a importância da terapia infantil. O acompanhamento psicológico desde a infância é considerado essencial para o desenvolvimento emocional saudável. A psicóloga infantil Raquel Marques reforça que observar e acolher as crianças desde cedo contribui para a formação de adultos mais equilibrados emocionalmente.
“A terapia infantil auxilia na identificação de dificuldades emocionais e comportamentais, fortalece a autoestima e ajuda as crianças a compreenderem e expressarem melhor seus sentimentos”, relata
O Janeiro Branco reforça que o cuidado com a saúde mental deve estar presente em todas as fases da vida. Com informação, acesso à terapia e construção de ambientes mais acolhedores, o bem-estar emocional se torna um passo fundamental no presente e para a construção do futuro.
Canais de ajuda
Para quem precisa de apoio em saúde mental, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que acolhem pessoas em sofrimento psíquico e oferecem acompanhamento psicológico, psiquiátrico e atividades terapêuticas. Além disso, a Atenção Básica, nas Unidades de Saúde, pode orientar e encaminhar para serviços especializados. Em situações de crise emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza atendimento 24 horas pelo telefone 188, chat ou e-mail, oferecendo escuta e apoio emocional de forma gratuita e sigilosa.
Nascente
As dores silenciosas das mulheres com endometriose
Para a Sociedade Brasileira de Endometriose, o diagnóstico da doença ainda é um desafio. Foto: Reprodução
Publicado há
3 meses atrásem
15 de outubro de 2025por
Redação
Por Beatriz Mendonça
Um momento significativo para todas as meninas é o dia do seu primeiro período menstrual. É o marco da mudança de fases, da infância para adolescência, e, por isso, se torna uma memória que permanece na mente por muitos e muitos anos. Naturalmente, não é algo fácil, sair da inocência infantil para a intensidade dos anos de adolescência, com muitos questionamentos e hormônios à flor da pele.
Mas para algumas mulheres, esse é o início de uma vida com dores e sintomas que afetam suas vidas negativamente. Esse é o caso de Vanderleia Dias e Tácita Muniz, ambas diagnosticadas com endometriose e que começaram a sentir os sintomas, principalmente as dores de cólicas intensas, desde os primeiros ciclos menstruais.
“Além de fluxo intenso, os primeiros dias eram de muita dor, inchaço, enjoo, dor nas pernas e, mais nova, muitos desmaios por conta da queda de pressão”, relata Tácita Muniz.

Nascida em Cruzeiro do Sul, Tácita Muniz é jornalista e foi diagnosticada com endometriose aos 24 anos, após seus sintomas ficarem mais graves:
“Chegou ao ponto de ir várias vezes ao pronto atendimento e tomar Tramal na veia pra tentar aliviar. Isso começou a afetar diretamente meu trabalho e minha vida pessoal”, conta.
O caminho até o diagnóstico foi longo e teve início quando a jornalista fazia uma reportagem sobre mulheres que sonhavam em engravidar. Ela identificou seus sintomas com os de uma das mulheres, que tinha o diagnóstico de endometriose.
A partir daí, Tácita enfrentou um desafio comum entre as mulheres que compartilham a condição, o de conseguir o diagnóstico.
“Fiz todo exame que você imaginar e não dava nada. Endoscopia, de sangue, raio-X, e ainda ouvia algumas vezes que era muito estranho eu relatar uma dor tão forte e não aparecer nada nos exames”, relembra.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endometriose, ainda é um desafio o diagnóstico da doença, estudos revelam que há uma grande demora entre o início dos sintomas e o resultado oficial.
Tradicionalmente, em textos ou livros, é considerado que a investigação é feita através de cirurgia e biópsia para o estudo do caso. Porém, atualmente, com o histórico ginecológico e análise dos sintomas é possível saber se a pessoa possui a doença ou não. Exames de imagem, como ressonância magnética, também podem auxiliar nesse processo.

Afinal, o que é endometriose?
No filme “Endometriose, a minha dor não é normal”, da diretora Marcia Paraiso, os médicos Claudio Crispi e Kárin Rossi explicam que é necessário entender a endometriose como uma doença inflamatória. Ela ocorre devido ao crescimento do tecido do endométrio – camada interna da cavidade uterina – crescer fora do útero, e afetar outros órgãos como ovários, tubas, intestino, bexiga, rins e entre outros.
“Fora do seu habitat natural, ele é um corpo estranho, e o seu organismo então passa a brigar com ele, ele não pode estar ali. E esta briga dos nossos anticorpos com esse corpo estranho passa a dar uma reação inflamatória”, explica Claudio Crispi.
Segundo o Ministério da Saúde, ainda não são compreendidas as causas da endometriose, mas as hipóteses levantam fatores genéticos, hormonais e imunológicos. Já os principais sintomas da doença são cólicas menstruais intensas, bem como dor crônica na pelve, dores durante a relação sexual e problemas intestinais e urinários.
O tratamento é feito de acordo com fatores como a gravidade de sintomas, idade, extensão e localização da doença e entre outros. Dentre as opções estão o uso de anticoncepcionais, medicamentos para alívio dos sintomas, implante do DIU hormonal e, em alguns casos, procedimento cirúrgico. Mesmo com a perspectiva de melhora, o tratamento também é um processo desafiador.
“Tive muitos efeitos colaterais. Desde o aumento de peso, miopia pelo uso excessivo do hormônio, perda de cálcio e eu fiquei muito inchada. Muito mesmo”, conta Tácita.
Além do seu acompanhamento com o médico ginecologista, ela defende que é um tratamento que necessita ser feito com uma equipe multidisciplinar, como psicólogos e nutricionistas.

“Eu passei por muitas fases. O sobrepeso, e eu ter que me reconhecer em outro corpo, por questões estéticas e também funcionais. É uma doença que só quem convive sabe. Então, é difícil você explicar o motivo de não estar bem. E os acompanhamentos médicos, dietas, são cansativos”, completa.
O suporte no tratamento
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endometriose, 1 em cada 10 mulheres sofrem com endometriose no Brasil. Os números do Sistema Único de Saúde (SUS) revelam que de 2022 para 2024, houve um aumento de 76,24% no número de atendimentos de atenção primária relacionados ao diagnóstico de endometriose, contabilizando 145.744 atendimentos em 2024. Isso mostra um avanço recente no diagnóstico da doença, principalmente através da rede pública.
Vanderleia Dias, de 32 anos, relata como começou a ter sintomas muito cedo, com um fluxo menstrual muito intenso e as dores de cólicas intensas. Apesar dos anos com os sintomas, ela só veio ter o diagnóstico dois anos atrás.
“Como a maioria dos brasileiros, a gente vai seguindo a vida de acordo com o fluxo da correria da vida, vai levando. Quando sente aquilo no mês, diz ‘eu vou me consultar’, vou atrás, mas isso acaba nunca acontecendo”, comenta.
Mesmo com o diagnóstico, Vanderleia ainda não iniciou o tratamento, principalmente pelo valor elevado, em torno de 5 a 6 mil reais por ano.

No Acre, um ambulatório especializado em endometriose foi inaugurado em abril de 2025, na Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre). A iniciativa partiu da médica especializada Fernanda Bardi, que também coordena o ambulatório, frente às queixas observadas pelas pacientes diagnosticadas com a doença. A proposta recebeu prontamente apoio da gestão do hospital e da Secretaria de Saúde do Estado (Sesacre), e em poucas semanas o projeto foi efetivado.
Conforme orientações da Sesacre, para ter acesso ao serviço é necessário o encaminhamento obtido em uma unidade básica de saúde (UBS), que avalia os sinais e sintomas da endometriose e direciona a paciente para o tratamento na Fundação Hospitalar. Nos 5 meses de funcionamento desde a inauguração, mais de 100 pessoas foram atendidas pelo serviço.
“Esse número mostra a importância desse espaço, que garante diagnóstico e tratamento adequado para mulheres que, muitas vezes, sofrem em silêncio com dores intensas. Nosso compromisso é ampliar cada vez mais esse cuidado, oferecendo acolhimento e qualidade de vida às pacientes”, declara Soron Steiner, presidente da Fundhacre.
Sobre a implantação do ambulatório, Vanderleia e Tácita concordam: é um grande avanço.
“Eu achei fundamental. Além de toda a dificuldade, é um tratamento bem caro, porque os exames, medicamentos, enfim, tudo, é bem caro. Além disso, amplia o debate sobre a doença e faz com que mais pessoas conheçam e consigam identificar os sintomas”, afirma a jornalista.
Quando o rio dita o ritmo da economia
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