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Histórias de vida

Um século de histórias de um soldado da borracha

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Foto: Arquivo da família

Por Ila Caira Verus

 A sala foi o lugar que ele escolheu para falar de sua vida. Sentado sobre uma cadeira de balanço feita de cipó, bem aconchegante, que Zé Gaudêncio, como é chamado por todos, estava a se embalar. O cômodo pintado harmoniosamente na cor creme era espaçoso e bem iluminado, mesmo às seis horas da tarde, horário que o aposentado todos os dias se senta em sua cadeira na frente da tv para assistir o jornal. Tudo parecia estar calculadamente no lugar, assim como a rotina de Seu Gaudêncio.

José Vaz da Silva é um nordestino de 99 anos de idade, que completa 100 anos em outubro. Um senhor de estatura mediana, de barba por fazer, quase que totalmente branca. O idoso de rosto amigável parecia apreciar nossa conversa, pois a cada lembrança, uma risada que não era nem um pouco contida. Vestindo uma camisa 3/4 azul de botão, bermuda de flanela listrada e toalhinha de rosto no ombro, Seu Gaudêncio parecia embalar sua cadeira em sintonia com o raciocínio que, com a idade já avançada, segue um pouco lento, mas ainda lúcido. Respondia minhas perguntas com coerência, de forma que até emociona pela sagacidade e vigor pela vida. Em alguns momentos parava suas palavras e ficava olhando para um lugar fixo, como se estivesse vendo a cena que contava, demonstrando saudades de um tempo que não volta mais.

O nordestino de quase um século de idade contou as dificuldades que enfrentou para chegar até o Acre. Vindo de navio do Rio Grande do Norte, relata que a viagem durou mais ou menos um ano, dias e mais dias em que somente avistavam água. Quando perguntei o que acontecia quando ficavam doentes, o senhor de cabelos ainda grisalhos, se calou pela primeira vez. Parecia procurar as palavras. Emocionado, o idoso rompe o silêncio e fala que quando alguém adoecia, geralmente não resistia e morria, sendo jogado na água pela tripulação. Conta com pesar que viu muitos amigos morrerem: “eu sentia muito por não poderem ter um enterro adequado. E a cada morte o medo parecia aumentar. Às vezes me sentia mal por estar vivo e bem”. Me senti culpada por tirar seu sorriso, que deu lugar a pequenas lágrimas que escorriam em seu rosto, mas que logo foram enxugadas.  

O simpático senhor é um verdadeiro contador de histórias. Quando indagado sobre sua infância, ele deu um sorriso de orelha a orelha, daqueles sinceros que chegam até os olhos. Por alguns segundos me perdi naquela risada tão leve e contagiante. Seu Gaudêncio relembra sua época de escola e diz que não gostava de estudar, que apenas ia para escola para brincar com os amigos e ver as garotas. Ah, as garotas… ele novamente soltou uma risada marota. E esclareceu que na escola sempre levava castigo da professora, pois tinha o hábito de levantar a saia das colegas, motivo pelo qual levava palmatória. Vindo de uma família tradicional nordestina, relata que seu pai trabalhava em uma grande fazenda e que viviam confortavelmente. Conta que adorava açúcar mascavo e os queijos que eram feitos em casa.

O nordestino de quase um século, que conheceu o rei do cangaço : “Lampião, somente matava quem fazia mal às pessoas, não matava quem era inocente”

Foto: Arquivo da família

Ele conta que conheceu Lampião aos nove anos de idade. Na época, ele dormiu em sua casa, juntamente com seu bando. E no amanhecer do dia seguinte, depois de um café preto feito pela sua mãe Primitiva, foi embora. José lembra que, ao se despedir, o cangaceiro acariciou seu cabelo e partiu de cavalo, sem olhar para trás, deixando o pequeno garoto parado, o vendo desaparecer de cavalo na imensidão do sertão nordestino. Para ele, o rei do cangaço era um homem justo no Nordeste, “somente matava quem fazia mal às pessoas, não matava quem era inocente. As pessoas não sabem como a história foi construída”, completa Seu Gaudêncio, lembrando das cenas de quando era apenas uma criança.

Residente no município de Brasiléia, ele fala das dificuldades que enfrentou quando chegou no Acre. O nordestino saiu de sua cidade natal em busca de melhores condições de vida, na intenção de trabalhar na extração da borracha, que na época estava no auge. Mas logo que chegou, enfrentou a realidade, sem conhecer ninguém, apenas com a cara e a coragem. Ele conta que trabalhou na extração borracha em um seringal que ajudou a abrir, que passou muita fome. Mas apesar dos grandes desafios que enfrentou, agradece, pois hoje é aposentado como soldado da borracha.   

Seu Gaudêncio é pai de sete filhos, a mulher morreu há cerca de quinze anos. Atualmente, José Vaz da Silva mora com o neto que criou como filho. Quando indagado sobre o segredo de viver tanto com saúde e lucidez, o senhor de olhar brilhante apenas sorri e diz: “sempre fui uma pessoa boa, que acredita na bondade”. E esclarece que quando jovem plantou coisas boas, afirmando assim que é inevitável a colheita de bons frutos. “Uma pessoa que planta feijão não tem como ela colher arroz”. E finalizou, dizendo: “seja uma pessoa do bem e seja boa com as pessoas, um dia isso volta para você. E sorria sempre, pois sorrir engrandece a alma e alivia as dores”.

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1 Comment

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  1. Ray junior

    9 de agosto de 2021 no 14:18

    Grande exemplo de vida!!

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Histórias de vida

Excomungado: quando a música acontece apesar de tudo

Em uma cidade onde a cultura muitas vezes é negligenciada, a Excomungado surgiu. Uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Formada por Carlos “Carlinhos” Hofre, Ícaro Moreira, Roberto “Bala” Padula e Lucas Alefe, a banda é mais do que um grupo de músicos, é um coletivo de amigos que transformou a paixão pela música em um projeto autoral, cheio de personalidade e força. De shows por diversão até planos ambiciosos para o futuro, a Excomungado traz consigo a prova de que o que falta na cultura do Acre é investimento.

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Por Gabriel Vitorino e Fernanda Maia

Em uma cidade onde a cultura muitas vezes é negligenciada, a Excomungado surgiu. Uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Formada por Carlos “Carlinhos” Hofre, Ícaro Moreira, Roberto “Bala” Padula e Lucas Alefe, a banda é mais do que um grupo de músicos, é um coletivo de amigos que transformou a paixão pela música em um projeto autoral, cheio de personalidade e força. De shows por diversão até planos ambiciosos para o futuro, a Excomungado traz consigo a prova de que o que falta na cultura do Acre é investimento.

A história da Excomungado começa com as trajetórias individuais de seus integrantes que, desde cedo, estiveram imersos no mundo da música. Carlinhos, o compositor e vocalista, começou a tocar violão aos 8 anos, aprendendo com o avô. Sua paixão pela música só cresceu após aulas com o renomado Geraldo Aquino, popularmente conhecido como Mestre Geraldinho, que ele descreve como um “gênio do violão”. Apesar de sua timidez em assumir o papel de frontman, Carlinhos é a alma criativa da banda, responsável pelas letras e melodias que definem o som da Excomungado.

Excomungado é uma banda composta por músicos de nascença, jovens e com muita vontade de fazer um som. Foto: Pan de Almeida

Já Ícaro, o baixista da banda, começou no violão aos 13 anos, aprendendo com o ex-cunhado, que é formado em música. Mais tarde, migrou para o baixo e conheceu o resto dos integrantes, assim acabou entrando para a Excomungado. Além da banda principal, Ícaro participa de vários projetos paralelos, incluindo covers de Radiohead, com a banda Superflat, e Terno Rei em um projeto entre amigos programado para ocorrer no dia 18 de abril, às 21h, no Studio Beer.

Bala, o baterista, cresceu em meio ao som de instrumentos. Filho de músico, ele começou a tocar bateria quase que por acidente, quando sobrou o instrumento após um ensaio da banda do pai, ele e os amigos decidiram tocar e, de acordo com ele, “a bateria foi o que sobrou”, disse rindo. Desde então, já passou por mais de 15 bandas, incluindo a Nickles, onde toca baixo. Sua experiência no cenário musical em Rio Branco e na música em si agregam muito ao desenvolvimento da Excomungado no cenário.

Por fim, Lucas, o guitarrista, começou na bateria aos 9 anos, mas foi com a guitarra do pai que ele realmente se encontrou. Autodidata, aprendeu a tocar sozinho, desenvolvendo um estilo único que hoje é uma das marcas da banda. Sua abordagem livre e cheia de personalidade traz uma sonoridade autêntica para a Excomungado.

 O Nascimento da Excomungado

A banda surgiu em 2019, em meio do caos da pandemia, quando Carlinhos, então com 14 anos, decidiu transformar suas composições em um projeto coletivo. Ele convidou Lucas, que já tocava na banda Selfless, focada em músicas do rock grunge, e juntos formaram a primeira formação da Excomungado, com Pedro na bateria, Mika no baixo e Isa no vocal. O primeiro show foi em um sarau na Ufac, um evento de artes cênicas, onde tocaram ao lado de outros artistas locais.

Banda Excomungado está presente nas noites de Rio Branco. Foto: Pan de Almeida

Desde então, a Excomungado cresceu e se consolidou como uma das principais atrações do cenário underground de Rio Branco. O nome da banda, que surgiu como uma brincadeira, ganhou significado ao longo do tempo, representando a resistência e a autenticidade de um grupo que não se encaixa nos moldes tradicionais da música no Acre. 

A Excomungado é um reflexo da realidade da cena musical de Rio Branco, onde os desafios são muitos, mas a paixão pela música é maior ainda. A falta de investimento em cultura, a escassez de espaços para shows e a dificuldade em conseguir editais são obstáculos constantes. “Aqui em Rio Branco, as bandas não têm investimento, nem lugar para tocar”, desabafam todos os membros, tanto como banda, quanto como músicos em busca de um espaço.

Apesar das limitações, a banda não se deixa abater. Eles já gravaram várias músicas em casa, usando equipamentos simples e muita criatividade. “A gente gravou no quintal, com uma pedaleira, um PC de 4 GB de RAM e microfones baratos”, conta Ícaro. A falta de recursos não impede a qualidade, as músicas da Excomungado são autênticas e cheias de personalidade, mostrando que a música autoral acontece independente das condições precárias.

A Excomungado não quer ficar restrita às garagens de Rio Branco. O principal objetivo da banda é conseguir um edital para gravar um álbum autoral, reunindo músicas antigas e novas. Eles já têm o projeto na cabeça, mas falta o recurso financeiro para colocá-lo em prática. “O objetivo é gravar, viajar e divulgar nosso trabalho”, diz Bala.

A Banda não quer ficar restrita às garagens de Rio Branco. Foto: Pan de Almeida

Em 2024, a banda lançou seu penúltimo single até o momento. A música “Bon Appétit” saiu no dia 10 de fevereiro e hoje já tem mais de 10 mil reproduções no spotify, chegando a ser citada na quinta posição da lista de “melhores músicas de 2024” de um comentarista do sudeste asiático que diz estar ansioso para os futuros lançamentos da Excomungado.

Com músicas produzidas por D.Silvestre, produtor de Rondônia que segue em ascensão na cena musical brasileira ganhando destaque principalmente pelo funk, a Excomungado busca criar algo único dentro da música, juntando suas referências que vão do rock clássico ao funk ao brega, eles alcançam um público grande contando com mais de 4 mil ouvintes anuais no spotify, cerca 17 mil streams em suas músicas com ouvintes distribuídos pelo mundo todo, da França a Indonésia.

A Excomungado é hoje uma promessa. Com o trabalho que realizam, eles mostram que a música autoral pode florescer, mesmo em condições adversas. Com talento, criatividade e muita paixão, Carlinhos, Ícaro, Bala e Lucas transformam desafios em música, provando que o rock de Rio Branco tem voz, força e futuro.

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Histórias de vida

Tonheiros: uma história servida em copos cheios

Localizado no bairro Tucumã, o Tonheiros é um dos bares mais antigos de Rio Branco ainda em funcionamento. Fundado em agosto de 1980 e hoje sob nova administração, o bar carrega o nome de seu fundador e se tornou um refúgio para gerações de universitários.

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Por Ana Flávia Santos, Camila de Souza, Clécio Nunes, José Hélio Vitalino e Luísy Rodrigues*

Localizado no bairro Tucumã, o Tonheiros é um dos bares mais antigos de Rio Branco ainda em funcionamento. Fundado em agosto de 1980 e hoje sob nova administração, o bar carrega o nome de seu fundador e se tornou um refúgio para gerações de universitários.

A proximidade com a Universidade Federal do Acre (Ufac) consolidou o espaço como um ponto de encontro para comunidade acadêmica onde debates fervorosos, romances inesperados e sonhos revolucionários se misturam ao cheiro de cerveja barata e ao som escolhido pelo público. Entre mesas gastas pelo tempo e copos sempre cheios, o local testemunhou mudanças sociais, amores nascendo e amizades se fortalecendo. 

Mas o que torna esse bar memorável? Estaria o segredo apenas nas bebidas ou na atmosfera criada por seus frequentadores? O Tonheiros parece ter encontrado a fórmula ideal para atravessar gerações e seguir relevante, oferecendo um espaço de liberdade e pertencimento. O ambiente acolhedor, sua história enraizada na vida acadêmica e a capacidade de se adaptar sem perder a essência o tornam um verdadeiro patrimônio boêmio.  

O legado de “Seu” Tonheiros

Aos 72 anos, Antônio dos Rios Nonato, o ‘Seu’ Tonheiros, relembra a trajetória como fundador do bar que leva seu apelido de infância. Após uma desavença com um cliente, ele decidiu fechar seu primeiro estabelecimento, localizado no bairro Volta Seca, e recomeçar os negócios no bairro Tucumã. “Aqui tudo era mato nessa época”, recorda. No entanto, ao abrir o novo bar, o movimento cresceu rapidamente e nunca mais parou.

Antônio dos Rios Nonato, o ‘Seu’ Tonheiros. Foto: Cedida

Mesmo com décadas de sucesso, o momento mais difícil veio quando em 2013 uma cirrose hepática o forçou a se aposentar. “Eu não decidi, foi coisa do destino. Porque eu adoeci, e quando a doença vem, não vem só para mim, vem para todos”, lamenta. Apesar do desafio, ele destaca que, desde o início, sempre contou com o apoio da família e dos estudantes que frequentavam o bar.

Sem condições de continuar trabalhando, passou a administração do bar para outras duas gestões. Ramilson, um dos seus ex-funcionários, foi o primeiro. Em 2019, para o atual dono do estabelecimento, Gabriel Santos, mantendo viva a tradição do estabelecimento que marcou gerações.

Novos tempos, mesma identidade

Gabriel Santos, atual proprietário do bar, afirma que a modernização do espaço buscou equilibrar a tradição com a necessidade de adaptação. “A ideia era manter a identidade visual, manter a identidade de bar raiz e, ao mesmo tempo, modernizar alguns quesitos”, explica. Algumas das mudanças incluíram a introdução de novos produtos, a melhoria da cozinha, a promoção de eventos e a adequação do espaço para garantir mais higiene e segurança.

Gabriel Santos, gerente do Tonheiros atualmente. Foto: Cedida

A modernização, no entanto, não comprometeu a essência do bar, que continua sendo um ponto de referência para universitários e moradores da cidade. 

Um patrimônio afetivo da cidade

“Todo mundo sabe onde é o Tonheiros, quem nunca frequentou já ouviu falar.” A frase de Medusa Santos, estudante de Pedagogia na Ufac e frequentadora do bar há mais de dois anos, resume o lugar que se mantém como um verdadeiro marco na cidade. O bar, com sua atmosfera única, carrega as marcas de uma história que atravessa o tempo, gravada tanto nas memórias individuais quanto nas coletivas daqueles que por ali passam. 

Aleta Dreves, jornalista e professora da Ufac, frequenta o bar há mais de 13 anos e comenta sobre as transformações que o lugar experimentou ao longo do tempo: “com a nova administração mudou muita coisa, principalmente a parte de cozinha que era praticamente inexistente antigamente”. 

Frequentado por estudantes e moradores de Rio Branco, o Tonheiros Bar se destaca como um espaço acolhedor, tranquilo e seguro. “É um bar muito tranquilo, comparado aos outros bares de Rio Branco. Não é um bar onde a gente vê uma alta taxa de violência”, afirma Aikon Vitor, estudante da Universidade Federal e cliente assíduo. Além do ambiente pacífico, o bar é reconhecido por sua diversidade de público. “As regras que existem são de segurança mesmo, questão de briga de bar, que ele tenta sempre evitar. Esse conservadorismo a gente não tem mais”, destaca Ranna Macedo, frequentadora desde 2016.

O refúgio dos universitários

Para muitos universitários, o bar é um refúgio da rotina acadêmica intensa. “O meio universitário é muito difícil […] é muito bacana você sair de uma apresentação, sair de um TCC, de um seminário e vir aqui afogar as mágoas no Tonheiros”, compartilha Medusa Santos. 

O que torna o bar memorável não é apenas a bebida ou a localização, mas a experiência coletiva que ele proporciona. “A bebida gelada, o vento, as músicas bregas, Reginaldo Rossi, as cadeiras de plástico, a galera gente boa, as pururucas… Todo o contexto dele faz esse lugar ser especial para mim. É um conjunto, né? Não é algo em si, mas cada detalhe que tem nesse bar é o que faz ele ser especial. A essência dele. É essência”, reflete Aikon Vitor.

Mais do que um bar, Tonheiros é parte da trajetória de muitos. “Foi um lugar que fez parte da minha estrada. Tenho um carinho imenso por aquele lugar”, revela Ranna Macedo, psicologa formada pela Universidade Federal do Acre. O sentimento de pertencimento vai além da nostalgia: “Quando eu chegava lá morrendo de gripe, sem conseguir respirar, e o Seu Tonheiros dizia: ‘Minha filha, aqui um remédio para você’, e me dava uma dose de cachaça com mel, de graça. E essa não foi uma experiência só minha. Os mais antigos também lembram que ele sempre fazia isso pela gente. São essas pequenas coisas que acalentam o coração”, continua ela. No fim das contas, Tonheiros Bar não é apenas um bar: é um pedaço da vida de quem passa por lá.

Ouvir para crescer 

Que o Tonheiros Bar é um estabelecimento bastante reconhecido e admirado por muitos é um fato. No entanto, como em qualquer negócio que visa oferecer a melhor experiência possível, é sempre importante considerar sugestões de mudanças e melhorias vindas dos seus clientes.

“Mais opções de bebidas”, sugere o frequentador Thalisson Maya, estudante de História na Ufac.Para o discente, embora o bar já ofereça um cardápio diversificado, a inclusão de novas opções poderia ser um diferencial interessante.

“A questão do banheiro seria um ponto a se melhorar”, destaca o cliente Ruan Gabriel, também estudante de História na Ufac e mediador na escola SESI, referindo-se à necessidade de maior manutenção da limpeza ao longo da noite. Um ambiente limpo e bem cuidado é essencial para garantir o conforto dos clientes.

Outro desafio que o Tonheiros Bar enfrenta é a infraestrutura. Apesar de ser de boa qualidade, o espaço pode ser considerado limitado. “Ele é pequeno para a superlotação de pessoas, para o tanto de gente que vem aqui”, comenta Medusa Santos.

Planos para um Futuro Próximo

Para os novos e antigos clientes do Tonheiros Bar, as mudanças no espaço são uma constante, algo que o próprio Gabriel,  responsável pelo estabelecimento, confirma com entusiasmo. Ao ser questionado sobre os planos futuros para o bar, ele revela novidades: “A nossa ideia é fazer um rooftop, uma laje em português bem falado, ano que vem para a galera poder apreciar melhor o pôr do sol”

Gabriel enfatiza que as mudanças visam modernizar o espaço sem jamais perder a essência do tradicional bar. “A gente pretende ampliar a área de sinuca, a gente pretende ampliar banheiros, mas sem perder a essência, claro, do nosso barzinho”, explica. Assim, com essas transformações futuras, o Tonheiros Bar promete seguir se adaptando às necessidades  do público.

Texto produzido na disciplina Fundamentos de Jornalismo sob supervisão do professor Wagner Costa

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“Abandonei tudo para cuidar de pessoas”: conheça a história do acreano que doou a vida para ajudar o próximo

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Por Amanda Silva e Francisca Samiele

Edivaldo de Freitas Paes dedicou sua vida ao próximo. Professor de geografia e ex-policial militar, trocou a estabilidade da carreira pelo compromisso de ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade. A jornada começou em 1994 quando decidiu visitar a família da esposa na Reserva Extrativista Chico Mendes. Lá, viu  pessoas desamparadas, sofrendo sem assistência médica e ficou comovido e se dispôs a socorrê-las.

O primeiro resgate foi de um senhor com pneumonia grave. Após três horas de caminhadas conseguiu buscá-lo e carregá-lo em uma rede até um barco que o levou ao hospital. Foi então que percebeu que não poderia mais ignorar a necessidade ao seu redor, saía dos plantões de 24 horas direto para o seringal aplicar medicação nos doentes, só avisava a família por telefone que iria na reserva extrativista.

 “Eu pegava o ônibus e descia no Araxá, andava três horas a pé, 45 minutos de barco e mais uma hora e meia a pé para chegar até a localidade”, recorda. Foi então que Edivaldo decidiu: “quer saber de uma coisa, eu vou sair da polícia e vou cuidar dessas pessoas” e, desde então, nunca mais parou.

Com recursos próprios, transportou doentes, prestou socorro, atendeu vítimas de acidentes e doenças graves, realizou até partos, tudo para garantir atendimento médico a quem precisava. Mais tarde, deixou a Polícia Militar para se dedicar integralmente a essa missão. Falou com o comandante que como muitos outros o chamou de louco pela decisão.

Após solicitar a baixa na PM, mesmo com a esposa resistente no início se mudou  para a Reserva Chico Mendes, após dois anos foi encontrado pela polícia por ser considerado desertor, foi então que descobriu que “engavetaram” seu pedido de baixa, mas após provar que cumpriu com os protocolos foi liberado.

Edivaldo Paes viu a necessidade e começou dar aulas no seringal. Em uma casa de farinha, durante o dia ensinava crianças e jovens e durante a noite alfabetizava os pais dos alunos. Logo conseguiu parcerias e ajudou a criar escolas e postos de saúde nas comunidades, tudo o que estava ao alcance ele fez.

Foto: Nathacha Albuquerque/g1 Acre

Seu Edivaldo se viu obrigado a voltar para Rio Branco pensando num futuro melhor para os filhos, ele conta que em torno de três meses do retorno começaram a procurá-lo. “Chegou o primeiro seringueiro, com a roupa em uma estopa nas costas e me disse: ‘professor, estou morrendo’. E já o levei ao pronto-socorro”, conta.

Quando se deu conta, estava com 30 pessoas na própria casa. Foi então que o filantropo fundou a Casa de Apoio a Saúde do Seringueiro, para dar suporte aos trabalhadores da borracha, mas já acolheu centenas de pessoas de todos os lugares, incluindo indígenas, idosos abandonados e doentes graves, sua casa se tornou abrigo para famílias, inclusive nos tempos de enchentes. “Quantas vezes eu ia do bairro Taquari até a fundação com os meus pacientes a pé porque nós não tínhamos passagem”, relata.

O cuidador deixou a vida de lado para cuidar do próximo. “Abandonei tudo para cuidar de pessoas que nunca tinha visto na vida”, mas diz não se arrepender do que fez: “Não me arrependo de tudo que deixei. Hoje, já era para eu ser tenente-coronel da PM aposentado, nunca pensei em voltar[…]. Meu lugar é onde está a pessoa passando necessidade para eu poder levar o conforto”.

Por várias vezes, Edivaldo Paes se emociona ao relembrar toda a trajetória que construiu. “As pessoas que eu mais cuido são pessoas que ninguém quer”, diz. Ele cuida de José da Silva, de 71 anos, há quase duas décadas. José é uma pessoa com deficiência abandonado pela família e depende totalmente de cuidados, não fala e nem anda. Ele atende pessoas com todos os tipos de doenças que buscam tratamento e não tem onde ficar.

Devido às dificuldades financeiras para manter a instituição funcionando, Edivaldo se reinventou. Produz artesanato com pneus, fabrica móveis, dá aulas de artesanato e vende salgados, faz de tudo um pouco. “Costumam dizer que sou bombril, mil e uma utilidades”, brinca. A esposa sempre esteve ao lado cuidando dos acolhidos e, durante anos, enfrentaram muitas dificuldades, cozinhando até mesmo em fogão a lenha quando o gás acabava.

Durante um tempo a Casa do Seringueiro funcionou em um terreno cedido onde foi construída parte da estrutura para abrigar os pacientes, mas precisaram deixar o local quando o antigo dono reivindicou o espaço de volta, mesmo prometendo nunca os despejar enquanto a instituição existisse. Agora, seu Edivaldo busca recursos para recomeçar e faz um pedido de socorro, ele quer construir pelo menos dois quartos para receber pacientes, pois onde está não tem estrutura para receber ninguém. “É um terreno que temos, mas vou doar para a casa”.

Edivaldo Freitas se orgulha de cuidar das pessoas. “Valeu todo o esforço e sacrifício que fiz durante minha vida toda vendo que eles estão bem […] Deus dá o frio de acordo com o cobertor. Se Ele vê que eu não aguento, não me dá esse frio. Quando eu morrer, com certeza para um lugar ruim eu não vou”.

O benfeitor encerra com um conselho: “se você mudar um pouquinho a história de alguém, você está ajudando a melhorar o mundo, não importa o que seja”.  Ele complementa com uma história “Um dia houve um incêndio na floresta, todos os animais corriam com medo do fogo. O beija-flor ia à água, pegava um pouquinho com o bico e jogava no fogo […] Sou aquele beija-flor, sei que eu não vou apagar os problemas do mundo, mas cada problema que vier e eu puder ajudar, é como aquela gotinha d’água que o beija-flor está jogando no fogo”.

Caso você tenha interesse em ajudar seu Edivaldo Freire Paes a reconstruir a Casa do Seringueiro, entre em contato pelo número (68) 9 9606-7461.

Casa de apoio a saúde do seringueiros – vídeo

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