Corriqueiras
A adaptação do acreano à “nova” rotina pandêmica
Publicado há
5 anos atrásem
por
Redação
Por Marcus V. Almeida, Pâmela Celina e Gabriel Freitas
A pandemia de Covid-19 (Sars-CoV-2) afetou a vida de milhões de brasileiros em 2020. Após um ano do não tão “novo normal” no Brasil, dados do Ministério da Saúde de maio de 2021, referentes à doença, registraram um total de 450 mil óbitos e 16,1 milhões de casos confirmados. A Covid-19 desorganizou o emocional dos acreanos, interrompendo projetos e obrigando, quem podia, a fazer isolamento social. Novas rotinas e hábitos se tornaram, então, obrigatórios.
Comércios, igrejas, academias, escolas, são exemplos de setores da sociedade que tiveram que ser adaptados ao cenário pandêmico. Contudo, falar somente dessas atividades seria restringir os impactos que a pandemia trouxe para as pessoas. A saúde mental é um dos pontos cruciais quando se trata da qualidade de vida do ser humano.
No cenário pré-pandêmico, a ajuda terapêutica e outras formas de cuidado, como a adoção de hobbies, serviam como “suporte” para as pessoas na busca de melhora da saúde mental. A possibilidade de sair de casa para se divertir ao ir a uma festa ou viajar, parece uma realidade distante para os brasileiros que ainda respeitam o isolamento social e querem proteger aqueles que amam.
A imposição desse distanciamento apresenta, então, mudanças e impactos significativos na saúde mental dos brasileiros. Assim, para quantificar o assunto, a pesquisa One Year of Covid-19 (Um Ano de Covid-19) do instituto Ipsos, feita para o Fórum Econômico Mundial, conduzida entre fevereiro e março de 2021, entrevistou 1.000 brasileiros para falar sobre as mudanças na saúde emocional e mental na pandemia.
Segundo a pesquisa, desde o começo da pandemia em 2020, 15% considera que a saúde ficou muito pior; 22% ficou um pouco pior; 47% não notou diferença; 15% acha que melhorou um pouco e, por fim, 5% considerou que melhorou muito, totalizando, assim, 51% dos entrevistados. Já no início de 2021, os dados do Brasil tiveram uma pequena oscilação, ocorrendo uma variação em torno de 33% na média total.

fonte: Instituto Ipsos

fonte: Instituto Ipsos

fonte: Instituto Ipsos
Mais do que apresentar números, precisamos mostrar como estão se comportando os brasileiros, especificamente, os acreanos em relação a pandemia. Quais os impactos que ela trouxe para o dia a dia, o que mudou depois de um ano de isolamento?
Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Universidade Federal do Acre (Ufac), em parceria com uma empresa de tecnologia que utiliza a localização de celulares, dados de aplicativos e deslocamentos para medir o índice de isolamento social, mostrou que no Acre, em abril de 2020, menos de 40% da população cumpria o isolamento social. A pesquisa aponta que o índice ideal de isolamento social é de 70%, ou seja, o isolamento social não está nem perto do ideal.
Professor de ensino básico em Rio Branco, Alan Henrique de Almeida conta um pouco dos impactos que a pandemia trouxe para o ambiente escolar. “O impacto causado pela pandemia na realidade escolar foi abrupto e devastador. Pegou a todos os profissionais da educação de surpresa, pois nos vimos em uma situação a qual não estávamos preparados tecnicamente”, afirma ele.
O ambiente escolar foi um dos setores mais atingidos da sociedade. Professores e alunos foram forçados a deixar as salas de aula e continuar os estudos em casa, criando um distanciamento repentino nessas relações. “O distanciamento com os alunos é um dos pontos mais sensíveis dessa pandemia, pois a escola sem eles torna-se um lugar vazio, sem sentido e desconfigurado”, continua o professor.

Foto: Marcus Vinícius
Não são apenas os professores que sentiram essa mudança abrupta, os alunos tiveram suas rotinas totalmente alteradas devido a pandemia de Covid-19. Elias Asafe, 11 anos, estudante do Ensino Básico, relata um pouco sobre como estão sendo os estudos durante a pandemia.
“Para mim foi bem difícil, bem complicado as matérias […] tinha algumas coisas que eu não conseguia resolver sozinho, precisava de ajuda de várias pessoas”, a fala de Elias mostra a dificuldade que existe sem o ambiente escolar. Sem um contato direto com o professor durante todo o processo de leitura e aprendizado, há uma certa dificuldade na absorção do conteúdo que se está sendo estudado.
Para o estudante, o que mais faz falta no ambiente escolar é o contato com os colegas, os trabalhos e dinâmicas em grupos, “por conta da pandemia eu não consigo fazer com os meus amigos e tenho que fazer só”, afirma.

Foto: Marcus Vinícius
“Os alunos sentem falta do espaço escolar, pois é um lugar de trocas, interações. Como professor afirmo que os alunos podem não gostar das aulas, dos conteúdos, dos professores, mas com certeza eles gostam de estar na escola, explorar seus espaços e vivenciar as relações interpessoais que ela propicia”, relata Alan.
Todas as áreas que tiveram a possibilidade de fazer home office sofreram muitas dificuldades na transição do local de trabalho para casa, e o professor Alan não escapou desses empecilhos causados pela pandemia. “Trabalhar em casa não é uma tarefa fácil, pois temos que nos desdobrar em muitos papéis sociais ao mesmo tempo. Temos que ser profissionais, mas precisamos ser pai/filho, temos que cumprir as tarefas domésticas, mas também realizar as demandas profissionais. Enfim, as delimitações entre o que é íntimo/profissional, lar/trabalho tornaram-se tênues e o trabalho fica com menos produtividade”.
Para o professor, a falta de apoio por parte da sociedade acaba intensificando o estresse e o desgaste mental causado pela pandemia. “Enfim, o estresse e o cansaço mental aumentaram bastante durante esse tempo, mesmo que não tenha chegado de fato a fazer acompanhamento psicológico, cogitei a possibilidade em muitas ocasiões”.
CUIDADOS REDOBRADOS
Há consenso entre educadores físicos, psicólogos e médicos que praticar atividade física potencializa o bem-estar. Com o início da pandemia da Covid-19, a rotina mudou e as pessoas tiveram que se adaptar à nova realidade. Chegar em casa, tirar os sapatos, colocar as roupas para lavar, calçar o chinelo e ir direto para o banho, são medidas que o engenheiro civil Nalbhert Albuquerque, 23 anos, tem adotado durante o isolamento social para se proteger.
Albuquerque conta que troca de máscara a cada duas horas e higieniza as mãos com álcool em gel. Ele relembra que antes da pandemia frequentava o cinema, visitava amigos e caminhava no parque, mas após o fechamento dos estabelecimentos de comércio e com as novas medidas sanitárias decretadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) teve que se adaptar e praticar atividade física em casa.
“Comecei a praticar atividade física em casa, me exercito de 3 a 4 vezes por semana, mantenho uma alimentação saudável rica em fibras, legumes, proteínas e isso tem ajudado a tirar o estresse e ganhar mais resistência”, conta o engenheiro. A prática da atividade física se tornou uma aliada para o bem-estar psicológico e mental de crianças, adultos e idosos.
Em maio de 2020, uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) junto a classe de psiquiatras revelou que 70% dos profissionais receberam novos pacientes após o início da pandemia, houve aumento do número de consultas em 47,9% e 89,2% perceberam piora nos sintomas dos pacientes.
Para o psicólogo clínico Ronniberg Maia o aumento desses números de consultas, o agravamento de sintomas e de novos pacientes está ligado à mudança na dinâmica social, ao isolamento social e a nova rotina de adaptação das pessoas. “[…] Essa mudança brusca na dinâmica social tende a fazer com que as pessoas confrontem problemas ou situações que antes eram deixados de lado pela correria do dia a dia”, destaca o profissional..
Trabalhar também mudou. Maia afirma que, assim como seus pacientes, ele teve que se adaptar e passou a realizar atendimentos online. Conta que “realizar atendimentos online é um desafio por uma série de fatores, mas se faz necessário nesse período. Entre os problemas estão a conexão de internet, que em alguns casos é instável; a privacidade do paciente em casa; a qualidade de áudio e vídeo; a adaptação do paciente a essa modalidade, entre outras questões.” Apesar de ser feito online, o atendimento segue os mesmos princípios e objetivos do presencial, as atividades e exercícios utilizados podem ser adaptados.
Para o psicólogo clínico, a primeira indicação é a busca por atividades físicas que ajudam a escoar a ansiedade e promovem bem-estar físico e mental, seguindo as recomendações da OMS. Também se recomenda manter os contatos, ainda que de forma online, pois a socialização é necessária já que o ser humano é um ser sociável e vive em sociedade.
No trabalho e estudos, é recomendado respeitar os limites e observar quando eles estão pesados, além disso é importante programar pausas para atividades prazerosas e procurar a orientação de um nutricionista para manter a alimentação equilibrada. Outra recomendação é a verificação de métodos funcionais, como: Que tipo de atividade pode substituir e proporcionar efeitos iguais ou parecidos? Que mudanças no ambiente podem proporcionar melhor resultado ou desempenho? Por fim, é aconselhado o uso da psicoterapia como processo de autoconhecimento e de revisão das práticas em busca de melhor qualidade e resultados.
Você pode gostar
-
A Cobra Grande continua viva em Rio Branco
-
Quem ajuda quando o rio transborda?
-
Corridas de rua consolidam nova cultura esportiva em Rio Branco; veja como iniciar a prática
-
Com mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais, Janeiro Branco alerta para cuidado com a saúde emocional
-
Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com o Rio Acre no centro das histórias
-
Da teoria à prática: o que muda quando o estudante vira professor
ESTAMOS DE VOLTA
Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com o Rio Acre no centro das histórias
O jornal-laboratório da Ufac chega à 21ª edição com proposta editorial e visual renovadas, mantendo as matérias cotidianas e adotando o Rio Acre como fio condutor das pautas especiais
Publicado há
6 dias atrásem
12 de janeiro de 2026por
Redação
Por Diogo José
A sociedade nasce da água, escorre, se junta e ganha forma. É por essas águas, que carregam histórias e sonhos, que a catraia transporta vozes, perguntas e sentidos. Com essa premissa, o jornal-laboratório A Catraia, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac), chega à sua 21ª edição, em 2026, marcando o retorno de um dos principais espaços de prática jornalística e formação de profissionais, agora com uma proposta editorial e visual renovadas.
Além das notícias cotidianas, chamadas de corriqueiras, a edição deste ano traz matérias especiais inspiradas no Rio Acre, elemento central da formação histórica, social, cultural e econômica do estado. O rio funciona como eixo temático que atravessa diferentes editorias, conectando pautas de política, cultura, meio ambiente, economia, esporte e sociedade, sem perder o compromisso com a notícia, a crítica e a escuta.

O Rio reúne atividades em seu entorno, como na imagem, onde um grupo se reúne para praticar capoeira. Foto: Wellington Vidal.
Presente há mais de duas décadas na disciplina de Jornal Laboratório, o jornal A Catraia acompanhou gerações de estudantes e funciona como um espaço fundamental de formação profissional. É ali que muitos alunos têm o primeiro contato direto com a rotina do jornalismo, vivenciando processos de apuração, entrevistas, produção de texto, edição e trabalho em equipe, experiências que, para parte da turma, ainda não haviam ocorrido no mercado profissional.
Para a professora da disciplina e coordenadora do jornal, Giselle Lucena, o retorno do projeto movimenta todo o curso. Segundo ela, o Jornal Laboratório concentra expectativas tanto de professores quanto de estudantes, justamente por refletir o percurso formativo vivido ao longo da graduação.
“Tudo aquilo que os alunos aprenderam até aqui aparece nesse momento. O produto desenvolvido na disciplina acaba sendo um espelho do curso, com seus acertos, desafios e possibilidades”, afirma.

Giselle Lucena, professora da disciplina e coordenadora do jornal A Catraia. Foto: Arquivo pessoal.
Ela destaca que o espaço vai além da simulação do mercado. “Ao mesmo tempo em que buscamos reproduzir a dinâmica do mercado, o Jornal Laboratório também é um lugar de liberdade criativa. É o momento de experimentar formatos, propor outras narrativas e pensar novos modelos de jornalismo, algo que muitas vezes não foi possível em outras disciplinas”, completa.
A experiência prática também é percebida pelos estudantes envolvidos na produção. Para Wellington Vidal, repórter do A Catraia e, nesta edição, gestor de redes sociais, o jornal representa uma oportunidade de crescimento profissional e inovação.
“Contar histórias de pessoas e lugares do nosso estado, sobretudo com o tema rio como eixo, que é algo que vivenciamos de perto todos os anos, é um desafio que torna-se enriquecedor no meu processo de formação e abrange ainda mais a diversificação da escrita”, afirma.

Wellington Vidal, repórter e gestor de redes sociais da 21ª edição do jornal A Catraia. Foto: Arquivo Pessoal.
Ele ressalta o investimento nas plataformas digitais. “A rede social é o elo que liga tudo, por meio dela a equipe está buscando inovar com produções de vídeos e web reportagens, além de trazer uma nova identidade visual pro jornal”, completa.
Essa renovação também se reflete na repaginação do site e na nova logo do jornal. A identidade visual aposta em traços mais crus, referências amazônicas e uma estética de caráter mais vanguardista, que dialoga diretamente com o território, o rio e a proposta editorial da edição. A mudança marca uma nova fase do jornal, sem romper com sua história.

Identidade visual da edição de 2026 do jornal A Catraia. Imagem: Diogo José.
Nesta edição, a proposta editorial também se materializa na organização das editorias, que passam a dialogar diretamente com o eixo do rio e seus significados:
- Corriqueiras: cotidiano
- Travessias: relatos, perfis e artigos de opinião
- Margens: política, justiça e direitos humanos
- Rotas: educação, inovação, economia e tecnologia
- Afluentes: cultura, entretenimento e arte
- Nascente: saúde
- Fluxo: esporte
Rio Acre como pauta
O doutor em Ciência Ambiental e professor do curso de Jornalismo da Ufac, Maurício Bittencourt, reforça que a escolha do Rio Acre como eixo central amplia o papel do jornalismo. Para ele, o rio é essencial para a identidade acreana e para a vida cotidiana da população. “O Rio Acre é fundamental para o transporte, a produção agrícola e o abastecimento de água. Milhares de pessoas dependem diretamente dele”, explica.
Segundo o professor, o jornalismo pode contribuir para uma cobertura que vá além dos períodos de cheia ou seca. “É preciso debater a preservação das nascentes, das matas ciliares e a responsabilidade das cidades em não poluir um manancial que abastece a população. O Rio Acre também é um rio internacional, o que amplia ainda mais os temas possíveis de abordagem, como fronteiras, entre outros”, destaca.
Assim, em 2026, A Catraia volta a navegar, levando informação à sociedade acreana, formando novos profissionais e acompanhando o fluxo do Rio Acre, como sempre foi: em movimento!
Corriqueiras
O futuro da escrita na era digital
Entre teclados e telas, especialistas destacam que a escrita à mão ainda fortalece memória, criatividade e identidade cultural. Foto: Gabriela Queiroz
Publicado há
3 meses atrásem
29 de outubro de 2025por
Redação
Por Maria Niélia Magalhães, Sérgio Corrêia e Gabriela Queiroz
Das cartas que cruzaram continentes aos aplicativos de mensagens instantâneas, a transição da escrita manual para a digital reflete mais do que uma evolução tecnológica — revela uma transformação profunda em como nos comunicamos, aprendemos e até mesmo como processamos informações. Enquanto especialistas debatem os impactos cognitivos e culturais dessa mudança, neurologistas, educadores e alunos avaliam os prós e contras de cada meio.
“Quando o aluno escreve à mão, ele pensa melhor no que está registrando, organiza o que é mais importante”, afirma a professora Cyndi de Oliveira Moura, 29 anos, formada em Letras pela Universidade Federal do Acre – Ufac e docente de Língua Portuguesa no ensino fundamental. Ela observa no dia a dia os efeitos da escrita manual: “alunos que anotam no caderno conseguem relembrar mais facilmente aquilo que foi explicado em sala.”
Ela destaca que a caligrafia também está ligada à criatividade, pois exige atenção e paciência. Mas nota que os estudantes atuais enfrentam dificuldades: “Eles são impacientes e querem escrever tão rápido quanto pensam. A escrita exige paciência e reflexão, mas o uso excessivo das telas acelera demais o pensamento.”
Apesar disso, a professora não vê a tecnologia como inimiga, e sim como ferramenta que precisa ser equilibrada com a escrita manual: “Os recursos digitais ampliam possibilidades, mas sem criticidade se limitam a cópias rápidas e informações superficiais. O ideal é equilibrar os dois mundos: o papel ajuda a refletir, enquanto a tecnologia prepara para o século XXI.”

Foto: Gabriela Queiroz
O advento da tecnologia digital transformou profundamente a maneira como registramos e comunicamos ideias. Se por um lado a digitação se tornou predominante pela sua praticidade e velocidade, por outro, a escrita manual resiste como prática fundamental – não por nostalgia, mas por seu impacto comprovado na cognição e no desenvolvimento cerebral.
A voz do estudante
Para Letícia Kelly, aluna do 2º ano do ensino médio de uma escola pública em Rio Branco, a escrita à mão continua sendo indispensável no seu processo de aprendizagem. “Eu prefiro escrever no caderno, porque fazer anotações melhora minha memória. Quando escrevo no celular, não consigo guardar tanto na mente”, afirma.
Elaborar pequenos textos e mapas mentais no papel facilita a memorização de detalhes importantes, segundo Kelly. “Infelizmente, as pessoas estão abandonando a escrita à mão, e isso é muito ruim, pois terão uma memória mais curta. Eu não consigo parar de escrever à mão, porque me ajuda a memorizar as coisas”, completa a estudante.

Atividade da aluna do 2º ano do Ensino Médio, Letícia Kelly. Foto: Maria Niélia
Não se trata de idealizar o passado ou desconsiderar os avanços tecnológicos. Afinal, todos nós aproveitamos a agilidade das mensagens instantâneas para nos conectar com quem está longe. No entanto, especialistas alertam: a caligrafia ativa regiões do cérebro relacionadas à memória e à criatividade de um modo que o teclado não consegue replicar.
Cenário Internacional
Pesquisas recentes confirmam que a escrita manual continua exercendo um papel fundamental no aprendizado. Um estudo norueguês, citado pela DW Brasil na reportagem Escrever à mão ajuda no aprendizado, aponta estudo, mostrou que escrever manualmente aumenta a atividade cerebral justamente nas regiões ligadas à memória e ao processamento motor e visual, favorecendo uma compreensão mais profunda e duradoura do conteúdo.
Já a BBC Brasil, em Como escrita à mão beneficia o cérebro e ganha nova chance em escolas, destaca a visão da neurocientista Claudia Aguirre, que afirma que escrever em cursivo, especialmente em comparação com digitar, ativa caminhos neurais específicos que otimizam o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem.
A Finlândia, país reconhecido por seu sistema educacional inovador, retirou a caligrafia do currículo obrigatório em 2016, priorizando o ensino de digitação (The Guardian, 2015). Nos Estados Unidos, discussões semelhantes ganharam força nos últimos anos. Essas mudanças, no entanto, não ocorrem sem controvérsias.
À medida que escolas e estudantes se adaptam às demandas de um mundo digital, pesquisadores seguem investigando como equilibrar tradição e inovação. Por um lado, alguns educadores defendem a adaptação aos novos tempos, por outro, especialistas em neurociência e desenvolvimento cognitivo alertam para as perdas associadas à diminuição da escrita manual.
O melhor de ambos
Enquanto isso, a ciência segue confirmando: escrever à mão é muito mais que um gesto cultural – é uma ferramenta poderosa para moldar o cérebro e expandir as fronteiras do pensamento. A pergunta que permanece não é apenas sobre qual método de escrita é mais eficiente, mas como podemos integrar o melhor de ambos para promover uma aprendizagem mais rica e significativa.
Não se trata, portanto, de uma disputa entre o antigo e o moderno, mas de reconhecer que ambas as formas de escrita — a manual e a digital — podem coexistir e se complementar. Como bem ilustram a professora Cyndi e a estudante Letícia, escrever à mão continua a ser um exercício de paciência, reflexão capaz de transformar informação em conhecimento.
No fim, o que importa é lembrar: escrever não é apenas registrar palavras — é processar ideias, construir sentidos e, acima de tudo, permanecer humano em um mundo em constante transformação.
Corriqueiras
Você sabia que o e-Título foi idealizado por uma acriana?
Rosana Magalhães, hoje aposentada, trabalhou na Justiça Eleitoral desde 1994. Foto: Arquivo do TRE/AC
Publicado há
3 meses atrásem
24 de outubro de 2025por
Redação
Por Francisca Samiele e Amanda Silva
Talvez pouca gente saiba, mas uma das ferramentas digitais mais importantes da Justiça Eleitoral no Brasil foi criada por uma mulher acriana. O e-Título, versão digital do título de eleitor, que ajudou a modernizar a forma como milhões de brasileiros votam, foi idealizado por Rosana Magalhães, na época, secretária de tecnologia do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC).
Considerando que até 1932 as mulheres sequer tinham direito ao voto no Brasil, é irônico pensar que tenha sido justamente uma mulher a idealizar essa tecnologia, considerada essencial para o exercício da democracia ter se tornado tão prático.

A idealizadora do e-Título
Rosana Magalhães, hoje aposentada, trabalhou na Justiça Eleitoral desde 1994 e acompanhou a evolução do sistema de votação, do papel à urna eletrônica. Como analista de sistemas, ela percebeu que o título de papel era um documento que dificultava o acesso a alguns serviços da Justiça Eleitoral e a atualização de dados para muitas pessoas.
“Ele (título) não tinha foto e não tinha dados atualizados como estado civil, grau de escolaridade, nome em caso de mudança após casamento. Era um documento estático. […] Era um papel que molhava e não tinha muita durabilidade”, explicou Rosana Magalhães. A servidora comenta que foi observando essas limitações que surgiu a ideia do e-Título, um documento digital que pudesse atualizar automaticamente informações do eleitor e simplificar processos como emissão de certidão de quitação eleitoral.

“E outra coisa que observei durante toda essa minha experiência de vida na Justiça Eleitoral é a dificuldade que as pessoas tinham em atualizar seus dados e, quando perdiam o título de eleitor, ficavam numa fila enorme perto da eleição”, relembra.
O e-Título foi lançado em dezembro de 2017 e o projeto foi desenvolvido junto ao TRE-AC após aprovação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A primeira versão, desenvolvida em cerca de 40 dias, foi disponibilizada nas lojas de aplicativos e preparada para uso nacional, sendo adotado pelos estados de forma gradual.
O e-Título é acessível para pessoas com deficiência visual, baixa visibilidade ou daltônicas e também é permite acessar vários serviços, tais como:
• Apresentação de justificativa eleitoral no dia das Eleições e após o pleito;
• Consulta ao histórico de justificativas eleitorais;
• Consulta ao local de votação;
• Emissão de certidão de quitação e de crimes eleitorais;
• Geração do Título Eleitoral em formato PDF para impressão;
• Cadastrar mesária ou mesário voluntários;
• Emissão de declaração de trabalhos eleitorais;
• Geração de código de autenticação para sistemas parceiros;
• Consulta a débitos eleitorais;
• Pagamento de eventuais débitos eleitorais por Pix ou por meio da emissão de boleto.
Veja como o título de eleitor evoluiu ao longo dos anos:




Reações às mudanças
O e-Título trouxe mudanças significativas para os eleitores. Alguns se adaptaram muito bem, mas também tem quem ainda prefere o documento à moda antiga.
Para a assistente administrativa Janara Cristina Dutra Nogueira, 37 anos, a mudança é bem-vinda. “Para mim, a maior vantagem é a praticidade. Não preciso mais andar com o título de papel, ele fica no celular. Também dá para ver meu local de votação, regularizar situação eleitoral e até justificar voto se eu estiver fora”, explica.
A pedagoga Katiane Lima, também considera a mudança um bom progresso. “O aplicativo trouxe praticidade, oferecendo acesso rápido e fácil às informações, sem necessidade de buscar documentos físicos. A transição de papel para digital trouxe mudanças de mentalidade e aprendizado necessário para usar novas tecnologias”.
Mas nem todos os usuários que passaram pela transição do papel ao digital se adaptaram completamente, como é o caso da funcionária pública Iêda Fernandes, de 69 anos. “Tenho algumas dificuldades com a tecnologia… Já utilizei em alguns momentos, mas não me senti tão segura. Para utilizar como ferramenta principal, devo aprender mais sobre as funcionalidades. Preciso me tornar mais tecnológica”.
A aposentada Junisseia Souza de Lima enfatiza sua preferência pelo título em papel: “sabe por que eu não gosto de botar no telefone as coisas? Porque às vezes a gente é roubada, basta puxar o telefone para olhar e o ‘cabra’ vem e toma. A gente não fica tranquila andando com telefone, eu não fico. Então, com a cédula de votação, é melhor papel, eu gosto. Eu não gosto de sair preocupada com o telefone, então, para evitar isso, prefiro o de papel.”
Já a professora de português Gleiciany Florêncio de Araújo, de 34 anos, sugere algumas atualizações: “Para mim, uma grande melhoria no aplicativo seria se ele também pudesse ser usado offline, porque algumas vezes o sinal da internet é fraco e não dá para entrar no aplicativo”.
Progresso
A idealizadora do projeto ressalta que o e-Título continua evoluindo e pode, futuramente, incluir funcionalidades como coleta de biometria pelo próprio aplicativo.

O e-Título trouxe benefícios para os eleitores e para a Justiça Eleitoral. Agora, muitas situações podem ser resolvidas diretamente pelo aplicativo, o que diminui filas e tempo de espera. O uso digital reduz custos com impressão de títulos e certidões, e o aplicativo pode ser usado por eleitores em qualquer lugar do Brasil ou no exterior.
“O principal impacto para a sociedade, para a justiça eleitoral e para a sociedade também é a economia que teve de muitos milhões para emissão de título eleitoral, já que não há mais necessidade de imprimir”, afirma Rosana Magalhães. E ela repete uma frase que Caetano Veloso disse no dia do lançamento do e-Título: “É incrível a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer.”
Conheça um pouco da trajetória das mulheres na luta por seus direitos políticos AQUI.
A Cobra Grande continua viva em Rio Branco
Quem ajuda quando o rio transborda?
Corridas de rua consolidam nova cultura esportiva em Rio Branco; veja como iniciar a prática
Com mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais, Janeiro Branco alerta para cuidado com a saúde emocional
Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com o Rio Acre no centro das histórias
Mais Lidas
-
Margens4 anos atrásMulheres mais velhas no relacionamento: ainda é um tabu?
-
Nascente4 anos atrásOs riscos do cigarro eletrônico
-
Últimas notícias3 anos atrásFesta de Ibejí, erê ou Cosme e Damião: quem tem medo de criança?
-
Afluentes5 anos atrásUm vício chamado leitura
-
Corriqueiras4 anos atrásPopularização da venda de conteúdo adulto no Acre
-
Rotas5 anos atrásCurso de Jornalismo da Ufac comemora 20 anos
-
Últimas notícias4 anos atrásMuito além dos números: o luto na pandemia
-
Rotas5 anos atrásAulas presenciais na Ufac só devem retornar após imunização completa de professores e alunos