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Cine Teatro Recreio resiste às cheias do Rio Acre
Em uma década, o teatro histórico precisou fechar ao menos três vezes após o Rio Acre ultrapassar os 17 metros
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15 horas atrásem
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Redação

Interior do Cine Teatro Recreio alagado durante a cheia do Rio Acre, em março de 2024. O espaço precisou ser fechado por segurança e preservação do patrimônio. Imagem: Eldérico Silva
Por Daniel Alysson e Davi Mansour
O Cine Teatro Recreio ocupa um lugar central na história cultural de Rio Branco. Localizado no calçadão da Gameleira, às margens do Rio Acre, o espaço atravessou quase um século como ponto de exibição de filmes, espetáculos de música, dança, teatro entre outros eventos culturais. Essa mesma localização, no entanto, tornou o Cine um dos equipamentos públicos mais expostos às cheias do rio, que ao longo dos anos provocaram alagamentos, paralisações e prejuízos recorrentes.
Nos últimos dez anos, o espaço foi afetado pelas grandes enchentes de 2015, 2023 e 2024, quando o nível do Rio Acre ultrapassou os 17 metros e invadiu o Segundo Distrito da capital. Em todos esses episódios, o Cine Teatro precisou ser fechado temporariamente por questões de segurança e preservação do patrimônio.

Fachada do Cine Teatro Recreio. Foto: Ingrid Kelly
Além das cheias provocadas pela subida do Rio Acre, o Cine Teatro Recreio enfrenta dificuldades relacionadas à manutenção do prédio e às condições urbanas do entorno. Em períodos de enchente, o alagamento do espaço exige a retirada de equipamentos, a suspensão da programação cultural e intervenções emergenciais para evitar danos maiores à estrutura. As chuvas intensas passaram a causar transtornos, ampliando a frequência das paralisações e evidenciando a vulnerabilidade do prédio histórico diante das mudanças na dinâmica urbana da Gameleira.
Um patrimônio que ajudou a formar a cidade
O Cine Teatro Recreio surgiu ainda nas primeiras décadas do século XX, quando Rio Branco dava seus primeiros passos como núcleo urbano. Inicialmente conhecido como Cine Ideal e depois Cine Éden, o prédio foi inaugurado oficialmente como Cine Teatro Recreio em 13 de junho de 1948, consolidando-se como uma das principais casas de espetáculo da capital.
Ao longo das décadas, o Cine Teatro Recreio concentrou exibições regulares de filmes, sessões especiais e apresentações artísticas que marcaram a vida cultural de Rio Branco. No Segundo Distrito, o espaço se firmou como um dos principais pontos de encontro do público com o cinema e as artes, sendo frequentado por gerações de moradores que tiveram ali uma das principais opções de lazer em uma cidade que ainda contava com poucas alternativas culturais organizadas.
Antes de assumir definitivamente o nome que mantém até hoje, o prédio integrava a rotina urbana quando funcionava como Cine Éden. Inaugurado em 1946, no Calçadão da Gameleira, o cinema de rua exibia produções nacionais e estrangeiras, além de seriados bastante populares à época, especialmente os ambientados no velho oeste norte-americano. Registros históricos indicam que títulos como Tambores de Fu Manchu, Adaga de Salomão, Perigos de Nioka e O Segredo da Ilha Misteriosa eram repetidos em cartaz, atraindo um público fiel, mesmo diante da dificuldade de acesso a novos filmes, que chegavam a Rio Branco com meses de atraso por via fluvial.

Produção estrangeira exibida no Cine Éden: Tambores de Fu Manchu, seriado popular entre o público do cinema na década de 1940. Imagem: arquivo MUBI
A programação do Cine Éden também incluía longas-metragens de aventura, faroestes e dramas, com nomes populares do cinema da época, como Roy Rogers, Bill Elliott e Charles Starrett, além de exibições especiais que combinavam cinema e apresentações ao vivo. O espaço não era considerado uma sala de luxo nem voltada à elite local. Classificado nos registros da época como um cinema “popular”, o Éden funcionava como ponto de encontro acessível, frequentado por trabalhadores, famílias e jovens, em sessões que reuniam públicos diversos.
Em reportagem da época, o antigo frequentador Raimundo Ferreira, morador do bairro Quinze, no Segundo Distrito, relatou que “quando o alto-falante tocava anunciando as matinês, as pessoas que iam de um lado a outro corriam para a sessão, esperando com ansiedade os filmes, que demoravam a chegar cerca de três meses, porque tudo era feito por transporte fluvial, eram as chatas que traziam os filmes”.

Fachada do Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco, onde funcionou o cinema que antecedeu o atual Cine Teatro Recreio. Imagem: arquivo DPHC
Além das projeções, o palco do Cine Éden também recebia apresentações musicais e eventos culturais. Em 1948, por exemplo, o cinema sediou a despedida do tenor pernambucano José Brasileiro, em uma noite que combinou apresentação ao vivo e exibição de filme, prática comum naquele período. Ao longo dos anos seguintes, o espaço passou por adaptações técnicas, incluindo a modernização das lentes para formatos como Cinemascope e Vistavision, acompanhando as transformações do cinema e da própria cidade.
Essa memória também aparece no relato de Terezinha Maria, que chegou ao Acre vinda da Bahia ainda jovem e passou a frequentar o Cine Teatro Recreio nos anos seguintes à inauguração oficial. “Era um dos poucos lugares onde a gente se encontrava para se distrair.
O cinema fazia parte da rotina. As pessoas se arrumavam para ir, encontravam conhecidos, conversavam antes da sessão começar”, lembra. Segundo ela, o Cine Teatro reunia públicos diferentes e funcionava como ponto de convivência em uma cidade que ainda se estruturava. “Não era só assistir ao filme. A gente ia para ver o filme, mas também para ver as pessoas, saber das novidades, passar a noite ali.”

O público acompanhou a sessão no Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco. Imagem: arquivo
Segundo a historiadora da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Iri Nobre, o Cine Teatro sempre teve papel central na formação cultural de Rio Branco. “Muitas pessoas iniciaram suas trajetórias artísticas ali. Mesmo hoje, quando existem outros espaços culturais, o Cine Teatro continua sendo procurado, principalmente para exibição audiovisual e festivais de cinema”, afirma.
Vulnerabilidade histórica em área de várzea
A vulnerabilidade do Cine Teatro Recreio está diretamente ligada à forma como Rio Branco se desenvolveu. O prédio está localizado em uma área de várzea, próxima ao leito do Rio Acre, região naturalmente sujeita a alagamentos durante o período chuvoso, que vai de dezembro a março.
Apesar disso, o edifício não foi projetado para conviver com cheias frequentes. “Não há registros de que o prédio tenha sido pensado para resistir à subida do rio. Na década de 1920, a relação da cidade com o rio era outra, e não existia preocupação com hidrografia ou drenagem urbana”, explica a historiadora.

Registro comparativo do Calçadão da Gameleira antes e após a cheia de 2015, que deixou a região alagada com a elevação do nível do Rio Acre. Imagem: Google Street View e Iryá Rodrigues
Na enchente de 2015, considerada a maior da história do Acre, o Rio Acre atingiu 18,40 metros e a água invadiu o interior do Cine Teatro. O espaço permaneceu fechado por cerca de dois meses para recuperação. Segundo a historiadora, não houve perda documental porque o material havia sido retirado preventivamente, e o prédio não abrigava acervo histórico permanente.
Reformas, urbanização e novos problemas
Ao longo dos anos, o Cine Teatro Recreio passou por reformas importantes, como as realizadas em 1987 e 2010. A mais recente incluiu a construção de um novo espaço de alvenaria, numa tentativa de tornar o prédio mais resistente a interrupções causadas pelas cheias do Rio Acre. Apesar das intervenções, os alagamentos continuaram a ocorrer, especialmente nos últimos anos.

Auditório do Cine Teatro Recreio após as reformas da década de 1990, período de retomada das atividades culturais no espaço. Foto: reprodução
Para o arquiteto e chefe da Coordenação de Patrimônio Histórico da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Ítalo Facundes, parte da vulnerabilidade atual do Cine Teatro está diretamente relacionada às mudanças ocorridas no entorno do prédio. Segundo ele, intervenções recentes de infraestrutura e saneamento alteraram o comportamento natural da água na região da Gameleira.
“Obras de infraestrutura e saneamento mudaram a dinâmica do solo e do escoamento da água. Hoje, o solo satura mais rapidamente e a drenagem não funciona como deveria. Por isso, o Cine Teatro é um dos primeiros prédios a sentir os alagamentos”, explica.
Facundes destaca que, além da subida do Rio Acre, a água passou a retornar pelo solo e pelo sistema de escoamento urbano. “Antes, o impacto vinha basicamente do transbordamento do rio. Agora, mesmo chuvas intensas já provocam alagamentos internos”, afirma.
Segundo o arquiteto, uma solução definitiva exigiria uma intervenção estrutural profunda, com obras de drenagem de grande porte sob o prédio, o que envolve alto custo e complexidade técnica. Ainda assim, ele ressalta que não há garantia total de proteção em cheias extremas. “Quando o rio sobe muito, não existe solução arquitetônica que segure completamente”, resume.
Fechamentos e impacto cultural
As paralisações frequentes do Cine Teatro Recreio provocam impactos diretos na rotina cultural de Rio Branco. Durante os períodos de cheia, apresentações programadas são suspensas, eventos são cancelados ou adiados, e grupos artísticos precisam buscar outros espaços para ensaios e apresentações, muitas vezes com limitações de estrutura e agenda. A interrupção também afeta festivais, mostras audiovisuais e atividades formativas que costumam ocorrer no espaço.
Para a historiadora Antonia Odiceula de Souza, o fechamento do Cine Teatro durante as cheias não atinge apenas o Segundo Distrito, mas repercute em toda a cidade. “A Gameleira sempre foi um espaço de encontro, lazer e manifestações culturais desde a fundação de Rio Branco. Quando o Cine Teatro fecha, a cidade perde um ponto de referência cultural e simbólica”, afirma.
Ela explica que, por questões de segurança e preservação do patrimônio, o fechamento temporário se torna inevitável nos períodos de cheia. No entanto, ressalta que essas interrupções comprometem a continuidade das atividades culturais e o acesso do público a um dos principais espaços históricos de programação artística da capital.
Funcionamento entre cheias e interrupções
Em março de 2024, com o Rio Acre acima de 17,60 metros, o Cine Teatro Recreio voltou a ser atingido e precisou ser fechado novamente, junto a outros espaços culturais da Gameleira. O episódio evidenciou um problema recorrente: a dificuldade de manter em funcionamento um patrimônio histórico localizado em uma área cada vez mais impactada por eventos climáticos extremos e por intervenções urbanas que alteraram a dinâmica natural do espaço.
Enquanto soluções estruturais mais amplas não são viabilizadas, o Cine Teatro Recreio segue funcionando entre períodos de reabertura e novas interrupções. Um espaço que ajudou a formar a vida cultural de Rio Branco e que, ainda hoje, depende do comportamento do Rio Acre para manter suas atividades.
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Especiais
As três maiores catástrofes hídricas de Rio Branco
Enchentes de 2015, 2023 e 2024 marcaram a capital acreana, afetaram milhares de pessoas e expuseram a vulnerabilidade da cidade diante da força do Rio Acre
Publicado há
1 semana atrásem
20 de fevereiro de 2026por
Redação
Por Ana Keli Flores e Raíça Sousa
Rio Branco convive historicamente com as cheias do Rio Acre, fenômeno que impacta diretamente a rotina, a economia e a segurança da população. Ao longo dos anos, o nível do rio ultrapassou marcas críticas diversas vezes, mas três enchentes se destacam pela gravidade e pelos danos causados: às de 2015, 2023 e 2024.

Enchente histórica que atingiu Rio Branco em 2015, provocando graves impactos econômicos e estruturais na cidade. Foto: Caio Fulgêncio
A maior enchente registrada ocorreu em março de 2015, quando o rio atingiu 18,40 metros. O transbordamento alagou o centro comercial, interrompeu vias e provocou a interdição do Terminal Urbano de Rio Branco, afetando diretamente o transporte coletivo da cidade. Mais de 100 mil pessoas foram atingidas, sobretudo nos bairros Aeroporto Velho, Taquari e 6 de Agosto. O Parque de Exposições Wildy Viana foi utilizado como abrigo emergencial para famílias que perderam suas casas.

Registro da grande alagação de 2015 em Rio Branco, considerada uma das maiores da história da capital acreana. Foto: Caio Fulgêncio
Em março de 2024, o nível do Rio Acre chegou a 17,89 metros, configurando a segunda maior cheia da história da capital. O episódio foi marcado pela rápida elevação das águas, o que dificultou a retirada de moradores e de seus pertences. A situação também atingiu municípios do interior do estado, como Brasiléia e Epitaciolândia, ampliando os impactos da enchente em todo o Acre.

A enchente de 2024 voltou a atingir Rio Branco, deixando bairros alagados e milhares de famílias impactadas pelo transbordamento dos rios. Foto: Marcos Vicentti
Já a cheia de 2023 alcançou 17,72 metros e teve como principal característica a combinação entre o transbordamento do rio e a elevação repentina dos igarapés urbanos. Chuvas intensas provocaram alagamentos em diferentes bairros antes mesmo do rio atingir a cota de transbordamento, surpreendendo moradores e órgãos responsáveis pela resposta emergencial.

Enchente de 2023 atingiu Rio Branco, causando alagamentos em diversos bairros e afetando centenas de famílias. Foto: Marcos Vicentti
A tabela abaixo ajuda a visualizar como essas três marcas superam drasticamente a cota de transbordo da cidade, que é de 14,00 metros.
| Posição | Ano | Marca atingida |
| 1º | 2015 | 18,40 metros |
| 2º | 2024 | 17,89 metros |
| 3º | 2023 | 17,72 metros |
Luís Carlos, mototaxista, de 47 anos, foi uma das vítimas das enchentes provocadas pelo transbordamento dos igarapés em março de 2023. Morador do bairro Santa Inês, em Rio Branco, foi afetado pela inundação do igarapé Judia, que transbordou após o aumento do volume de água de outros igarapés da região.
“Quando me dei conta, a água já estava dentro de casa, na altura da cintura. Perdi um guarda-roupa, um jogo de estofado, um armário de cozinha, além de outros bens que a gente não consegue mensurar”, relata.
Monitoramento e segurança por meio de medidas preventivas
“Houve avanços significativos, mas ainda há muito a evoluir”, destaca o Capitão Rogério Freitas de Oliveira, da Defesa Civil de Rio Branco. Em 2025 foi lançado o sistema Defesa Civil Alerta, que envia avisos antecipados diretamente aos celulares da população, permitindo a adoção de medidas preventivas.
Já o monitoramento do igarapé São Francisco é realizado por meio de régua medidora e da Plataforma de Coleta de Dados (PCD), que acompanha, em tempo real, o nível do rio e outros indicadores hidrológicos.
Um dos fatores que contribuem para o agravamento das enchentes é a urbanização do solo.
“A pavimentação urbana dificulta a infiltração da água, favorecendo alagamentos, enquanto a retirada das matas ciliares contribui para a erosão e o assoreamento, intensificando os impactos das cheias”, explica.
Ele ressalta a necessidade de ações estruturantes, como obras de contenção, e não estruturantes, como a restrição de novas ocupações em áreas impróprias para moradia, incluindo a implantação de parques urbanos nessas regiões. Um exemplo de ação estruturante é a construção, em 2014, da Cidade do Povo, criada com o objetivo de garantir moradia digna às famílias que viviam em áreas de risco.
De acordo com o Capitão Oliveira, anteriormente a retirada temporária das famílias das áreas de risco ocorria quando o rio atingia 14 metros. Atualmente, essa medida é adotada quando o nível chega entre 15 e 15,5 metros. “Isso representa um avanço, pois garante mais tempo de preparação e resposta às famílias afetadas”, afirma.
Diante da recorrência das cheias, dos impactos sociais causados e das medidas adotadas pela Defesa Civil, a população segue em alerta.
Afluentes
Entre bancos de areia e celebrações: festivais de praia revelam o lado vivo dos rios amazônicos
Mais do que lazer, os festivais de praia impulsionam o turismo sustentável e resgatam a relação histórica da população amazônica com os rios
Publicado há
2 semanas atrásem
13 de fevereiro de 2026por
Redação
Por Jerfeson Gadelha e Laianny Sena
Durante o período de estiagem na Amazônia, quando o nível das águas começa a baixar, os rios ganham novas formas e significados. Os bancos de areia que surgem ao longo de seus leitos deixam de ser apenas marcas da seca e se transformam em espaços de convivência, lazer e celebração cultural. Nos municípios acreanos e em outros da região Norte, como Boca do Acre (AM), esse fenômeno dá origem aos tradicionais festivais de praia, eventos que unem cultura, turismo e desenvolvimento econômico, ressignificando a relação da população com os rios.
Em 2025, no município de Feijó, localizado no estado do Acre, foi realizada a 26ª edição do Festival de Praia de Feijó, evento tradicional que ocorre anualmente no verão amazônico, geralmente em conjunto com o Festival do Açaí. Reconhecido pela produção de um dos açaís mais tradicionais do estado, o município utiliza o evento como espaço de promoção da música, do esporte, do lazer e da cultura às margens do rio, atraindo milhares de pessoas e movimentando a economia local.
Na última edição, o festival contou com apresentações de artistas nacionais como Lucas Lucco, Natanzinho e Dilsinho, reunindo cerca de 40 mil pessoas no último dia da programação, segundo a prefeitura local. A programação musical foi marcada por gêneros populares como sertanejo, forró, piseiro e arrocha, além da valorização de artistas locais e da música regional.
Com 26 edições realizadas, o Festival de Praia de Feijó se consolidou como uma das principais manifestações culturais do município durante o período de estiagem. Além dos shows musicais, a programação inclui competições esportivas, atividades recreativas e espaços destinados à comercialização de alimentos e produtos regionais, fortalecendo a economia local e incentivando o empreendedorismo de pequenos comerciantes.

Festival de Praia de Brasiléia. Foto: Giovanny Endres
O festival também atrai visitantes de outros municípios e até de estados vizinhos, impulsionados pela presença de atrações nacionais e pela possibilidade de lazer às margens do rio, onde o público aproveita os bancos de areia para banho, convivência e celebração cultural.
No município de Brasiléia, no Alto Acre, a tradição dos festivais de praia também ganhou novo fôlego em 2025, com o retorno de um evento que não era realizado há mais de duas décadas. Às margens do rio Acre, o festival contou com mais de dez atrações musicais, entre bandas, cantores e DJs, além de uma programação diversificada de atividades culturais e esportivas, como a escolha do Garoto e da Garota Verão, torneios de futevôlei e uma corrida de motocross.
A competição sobre duas rodas reuniu pilotos do Acre, de outros estados e até do Peru, ampliando o alcance regional do evento e movimentando a economia local com a presença de moradores, turistas e comerciantes.
Para quem trabalhou diretamente no evento, o retorno do Festival de Praia representou uma oportunidade importante de geração de renda. O proprietário da Adega Imperial, Lindomar, que participou pela primeira vez da festividade, avaliou de forma positiva a retomada após tantos anos sem realização no município.
“Fazia muito tempo que não tinha Festival de Praia aqui na cidade, então no início houve um pouco de desconfiança. Mesmo com a organização acontecendo em cima da hora, o público surpreendeu. Economicamente foi muito positivo, conseguimos vender bastante e muitas pessoas saíram satisfeitas”, relata.
Segundo o comerciante, apesar da necessidade de melhorias estruturais, o impacto do evento para o comércio local foi significativo. “Por ter sido a primeira edição depois de tanto tempo, é natural que alguns pontos precisem ser ajustados, mas acredito que o próximo será ainda melhor, com mais pessoas interessadas em participar e trabalhar”, destaca.
Lindomar também ressaltou que festividades desse porte são fundamentais para o fortalecimento da economia local. “Esses eventos movimentam a economia de Brasiléia e de toda a região de fronteira. São oportunidades importantes para quem vive do comércio”, conclui.
O impacto econômico e social do evento também foi destacado pelo prefeito de Brasiléia, Carlos Armando, conhecido como Carlinhos do Pelado. Para ele, o festival representou uma retomada importante para o município após mais de duas décadas sem a realização da festividade.
“O Festival de Praia que ocorreu em Brasiléia no ano passado foi uma festa maravilhosa. Nós aquecemos a economia local, os hotéis, os barraqueiros de alimentação, de sorvete, de bebida alcoólica e de refrigerante. As pessoas que participaram ficaram maravilhadas, porque havia mais de 20 anos que esse evento não acontecia no município. Hotéis, postos de gasolina e restaurantes tiveram uma movimentação muito boa, mostrando que o festival foi um sucesso”, destaca.
Segundo ele, a expectativa é que o evento continue crescendo nos próximos anos. “Este ano iremos realizar novamente, já estamos nos organizando e, se Deus quiser, será um sucesso mais uma vez, ainda melhor do que o do ano passado”, afirma.
Identidade amazônica
Além de Feijó e Brasiléia, municípios acreanos como Tarauacá e Porto Acre também realizam festivais de praia durante o período de estiagem, reforçando a tradição cultural ligada aos rios no estado.
A tradição dos festivais de praia não se limita ao Acre. Em outros municípios da Região Norte, esses eventos também se consolidam durante o período de estiagem, reunindo música, lazer e convivência às margens dos rios.
Um exemplo é o Festival de Praia de Boca do Acre, realizado anualmente às margens do rio Purus, no Amazonas. Em 2025, o evento chegou à 27ª edição, ocorrida entre 30 de agosto e 14 de setembro, com programação que incluiu competições esportivas, apresentações culturais e grandes shows musicais. A programação musical mesclou gêneros como forró, sertanejo, piseiro e música dançante, com participação de atrações locais e regionais, com destaque para o encerramento com o cantor Zé Vaqueiro.

Festival de Praia de Boca do Acre. Foto: reprodução
Consolidado no calendário cultural da cidade, o festival atrai visitantes do Acre, do Amazonas e de outros estados, movimentando intensamente a economia local. Durante o evento, setores como alimentação, transporte e hospedagem registram aumento significativo na demanda, evidenciando o potencial turístico gerado pelas praias fluviais formadas no período da seca.
A rede hoteleira de Boca do Acre reflete esse aquecimento. Empreendimentos locais alcançam alta taxa de ocupação, com reservas próximas do limite, impulsionadas pelo fluxo de turistas que buscam acompanhar a programação do festival. Para comerciantes e empresários, o evento representa não apenas visibilidade cultural, mas também geração de renda e empregos temporários.

Festival de Praia de Boca do Acre. Foto: reprodução
Mais do que entretenimento, os festivais de praia ajudam a fortalecer o turismo sustentável e a preservar uma relação histórica entre a população amazônica e seus rios. Em um contexto em que o Rio Acre costuma ser lembrado principalmente por enchentes e alagações, essas festividades revelam um outro olhar: o do rio como espaço de encontro, alegria e oportunidade.
Ao transformar os bancos de areia em palcos de festa, os festivais de praia reafirmam o papel dos rios amazônicos como elementos centrais da identidade regional, mostrando que, além de sua força natural, também carregam histórias, sorrisos e possibilidades de desenvolvimento para o Acre e toda a região.
Especiais
Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco
Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana
Publicado há
4 semanas atrásem
30 de janeiro de 2026por
Redação
Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães
O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.
Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.
A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.
Um bairro que aprendeu a conviver com o medo
O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.
Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.
Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.
A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.
“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.
Doze dias de busca, três meses de espera
O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.
“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.
O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis
Uma nova estrutura, a mesma memória
Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.
Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.
“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.
Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.
“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.
Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.
Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães
Tragédia marcou quem acompanhou de perto
O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.
“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.
Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.
“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.
Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.
“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.
Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.
Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.
No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis
Mais que uma travessia, um aviso
Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.
“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.
A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.
“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.
Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.
Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.
Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.
E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme
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