Por Pedro Amorim e Gabriela Fintelman
Clécio Ferreira Nunes, 23 anos, é estudante da Universidade Federal do Acre (Ufac) onde cursa mestrado em Letras, Linguagem e Identidade e graduação em Jornalismo. De etnia Huni Kuin, povo que habita o Acre e o Peru, Clécio também é formado, pela Ufac, em Letras Inglês, na instituição enfrenta desafios que vão desde a falta de representatividade até a persistência de estereótipos no ambiente acadêmico. A trajetória mostra as dificuldades enfrentadas por estudantes indígenas em uma instituição que ainda não está plenamente preparada para recebê-los.
A descoberta da identidade indígena na universidade
Quando ingressou no curso de Letras Inglês, ele ainda não se reconhecia plenamente como indígena. Essa percepção externa, somada à imagem distorcida dos indígenas perpetuada pelos livros didáticos, dificultava a autoaceitação
“Eu era, e ainda sou muito estereotipado, com as características de pessoas orientais. As pessoas, quando olham para mim, a maioria, 90% dos casos, fazem uma comparação com uma pessoa chinesa, japonesa, enfim, alguém da Ásia. Minha mãe falava que a gente era indígena, mas a visão que eu tinha da escola era aquela do indígena selvagem, primitivo, preguiçoso. Eu não me via daquele jeito”, explica.
Foi apenas após dois anos na universidade que começou a se reconhecer como Huni Kuin. Esse processo de autoconhecimento foi fundamental para que passasse a questionar a ausência de outros indígenas na Ufac.
“Eu fui começando a ter essa visão que minha mãe sempre teve de pessoa indígena, e não aquela que sempre me foi passada. No curso de Letras Inglês, eu era o único indígena. Em dois anos e meio, eu não vi um indígena ali na Ufac como graduando”, relembra.
Desafios da entrada e permanência na universidade
Um dos primeiros obstáculos enfrentados por Nunes, foi ingressar na universidade por ampla concorrência, sem conhecimento sobre as cotas para indígenas. A falta de informação, segundo ele, é uma barreira que afeta muitos estudantes minorizados.
“Eu não sabia da existência de cotas. Essas informações não eram repassadas, nem na escola. Quantas pessoas não sabem disso? Quantas pessoas minorizadas não têm esse acesso?”, questiona.
A solidão também foi um desafio constante. Apesar disso, Clécio encontrou apoio em programas de bolsas e auxílios, como a Bolsa Permanência, iniciativa do Ministério da Educação (MEC), que oferece suporte financeiro a estudantes indígenas e quilombolas. No entanto, ele ressalta que a permanência na universidade vai além da questão financeira.
“Eu me sentia muito só nesse sentido de pessoa indígena dentro de um espaço acadêmico. A Ufac, às vezes, pensa muito na entrada do indígena, mas e a permanência? Esse indígena veio de onde? Ele tem como se manter financeiramente, emocionalmente, psicologicamente?”, reflete.
A luta por visibilidade e inclusão
A inclusão de indígenas na Ufac tem sido uma conquista recente e árdua. Clecio faz parte do Coletivo dos Estudantes Indígenas da Ufac (CeiUfac), que liderou a luta pela aprovação de uma vaga em cada curso de graduação para indígenas. A medida, aprovada pelo Conselho Universitário (Consu), representa um avanço, mas ainda há muito a ser feito.
“Foi uma luta bastante árdua. Não foi nada fácil. Agora a gente vai ter pelo menos um indígena em cada curso. Isso aumenta a diversidade étnica dentro da universidade”, comemora.
No entanto, a inclusão não se resume à presença física. O estudante critica a falta de discussões sobre pautas indígenas nos cursos. Ele também destaca a persistência de estereótipos.
“Dificilmente a gente vê um curso de saúde discutindo algo relacionado a indígenas. Dificilmente a gente vê um curso de letras discutindo sobre indígenas. As pessoas ainda têm essa visão do indígena do livro didático, do selvagem, do que anda com uma tanguinha”, diz.
Iniciativas de apoio e a necessidade de avanços
Apesar dos desafios, o jovem reconhece iniciativas positivas, como o Programa de Educação Tutorial (PET) Conexão e Saberes Comunidades Indígenas, do qual faz parte. O programa promove atividades como o Abril Indígena, que leva discussões sobre culturas indígenas a escolas públicas.
“O PET apoia bastante as iniciativas dos alunos indígenas, principalmente na escrita acadêmica e na discussão de questões indígenas”, explica.
No entanto, ele defende a necessidade de mais apoios, especialmente emocionais. Para ele, a universidade precisa ir além do suporte financeiro.
“Muitos estudantes indígenas têm o português como segunda língua. Há dificuldades na leitura e na escrita. É preciso ter um apoio emocional, um apoio com relação à escrita, à permanência”, afirma.
Um futuro de resistência e conquistas
A trajetória do estudante na Ufac é de resistência e superação. Ele enfrentou os desafios de ser um estudante indígena em um ambiente ainda pouco inclusivo, e também se tornou uma voz ativa na luta por mais visibilidade e direitos para os povos originários.
“A universidade não foi construída para receber as pessoas minorizadas, mas estamos aqui, resistindo e conquistando nosso espaço. É preciso naturalizar a presença indígena na universidade e quebrar os estereótipos que ainda estão tão enraizado”, conclui.