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Além dos muros da educação: estudantes negros falam sobre permanência no ensino superior
Publicado há
3 anos atrásem
por
Redação
“Quando você põe na ponta da caneta, é muito caro se manter na universidade pública”, analisa Douglas Mero, recém-formado em artes cênicas
Hellen Freitas e Ycla Araújo
Para a maioria dos alunos, a maior dificuldade na universidade são os trabalhos complexos e os conteúdos extensos. Para outros, esse não é o principal empecilho. O caminho para a vida acadêmica se torna desafiador pela dificuldade de permanência dos alunos, principalmente pretos ou pardos, da periferia de Rio Branco matriculados na Universidade Federal do Acre – Ufac.
A educação é uma forma de combater o racismo. A tríade gênero, raça e classe entra como algo que precisa ser pensado e refletido dentro do sistema educacional, afinal, quais grupos têm mais acesso à universidade pública? Os resquícios do Brasil Colônia ainda atingem e o avanço do país, principalmente na área da educação. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71,7% dos jovens fora da escola são negros e apenas 27,3% destes são brancos. O mesmo estudo demonstra a desigualdade de acesso à educação nos índices de analfabetismo. Em 2019, 3,6% das pessoas brancas de 15 anos ou mais eram analfabetas, enquanto entre as pessoas negras esse percentual chega a 8,9%.
As vagas reservadas às cotas (50% do total de vagas da instituição) são subdivididas metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Em ambos os casos, também é levado em conta o percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas no estado, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Jaycelene Brasil, socióloga formada na Ufac, explica: “Nos últimos quatros anos pudemos refletir a falta de incentivo aos alunos, para que eles possam acessar bolsas de estudo, estágios remunerados e outros acessos básicos para que tenham ânimo. Entre estudar ou levar comida para dentro de casa, frente a essa crise econômica que estamos vivendo, esse jovem vai preferir trabalhar”.
Jaycelene Brasil na Feira Literária Sesc Acre | Foto: Manoelzinho Acre
A socióloga ressalta ainda “o gênero masculino tem mais facilidade de acessar o ensino superior “mais meninos vão conseguir entrar na universidade porque as meninas vão ser arrimo de família. Quando você olha o perfil, são pessoas brancas. No geral, a classe média, aquele jovem que tem uma estrutura familiar é que pode fazer um pré vestibular, vem de escolas particulares e não precisa trabalhar para se manter”.
A lei 12.711 de 2012, chamada lei das cotas, determina que instituições de ensino superior vinculadas ao Ministério da Educação e os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia devem reservar 50% de suas vagas para cotas. Mas afinal o que são as cotas e por que são tão importantes?
Estudante de direito da Ufac, Gabriela da Silva Amorim, 19, fala sobre a importância dessa política pública: “Dentre muitos outros fatores, não temos como reparar a discrepância social que ficou entre negros, brancos, ricos, classe média, pobres, e o sistema de cotas funciona como uma garantia constitucional, a que fala dos direitos iguais. Nossa educação pública não é igualitária se comparada ao ensino privado, por exemplo, sem contar as condições de vida do aluno que são determinantes para um bom desempenho educacional. As cotas são um emblema de equidade, que dá a mesma oportunidade para o pobre, com acesso a um ensino mais ou menos, ingressar no ensino superior como um rico ou pessoa de classe média que teve uma preparação anos luz melhor”.
Douglas Mero, 22, que concluiu o curso de artes cênicas na Ufac, vivenciou o preconceito contra os cotistas desde que passou a frequentar a universidade como um. “As pessoas pensam que as cotas são para ingressar pessoas que não estudam e por isso utilizam esse recurso, sendo que as cotas são uma reparação histórica para população pobre, negra, indígena e deficiente que teve o direito de estudar no ensino superior negado durante muitos anos. Sofremos preconceito, sim, tanto de forma direta quanto de forma indireta, pois muitas das pessoas se privam de ir atrás das informações verdadeiras e se deixam levar pelas conversas de boca a boca!”, frisa.
Douglas Mero no dia de sua formatura em artes cênicas, em 2022 | Foto: cedida
As cotas são uma maneira de tornar a universidade um espaço mais justo e democrático dando oportunidade aos jovens da periferia. A universidade deve ser colorida, pois só assim a educação brasileira atuará de maneira plural e antirracista , o respeito e o conhecimento juntos.
O racismo ganhou ampla repercussão em discussão recentemente no cenário brasileiro, pois tem sido percebido pelos grupos e populações que sofrem com a interferência direta e indireta dele. “As pessoas têm dificuldade em compreender o que é o racismo, diferenciar o racismo do preconceito e da discriminaçao, e de caracterizar o racismo como um crime, através do que diz a lei 7716/89”, explica a socióloga Jaycelene. Segundo a lei, crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor devem ser punidos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2018 mostram que 79,2% dos jovens que frequentaram a rede privada de ensino ingressaram no ensino superior em 2017, contra 28,2% de jovens da rede pública. Isto tem grande reflexo na forma como o brasileiro enxerga e entende sobre o racismo.
Racismo ambiental
Uma outra forma do racismo estrutural é o racismo ambiental , que ocorre quando um jovem se alimenta mal, não tem moradia adequada, saneamento básico ou mora em uma área periférica que coloca em risco sua vida. Com tudo isso em jogo, chega a ser impossível acreditar que passar no Exame Nacional do Ensino Médio- ENEM o conceito que nasceu em 1982 por Benjamin Chavis nos Estados Unidos e ganhou reconhecimento no Brasil no início dos anos 2000, onde vários cenários de injustiça ambiental são historicamente observados.
Exposição a locais e instalações de resíduos tóxicos, como a falta de saneamento básico, por exemplo, e ambientes perigosos, como os que moram em comunidades periféricas e sem a instalação do sistema de segurança básica. Com tudo isso, a exclusão das minorias sistemática na formulação e aplicação de políticas ambientais.
A socióloga entende que o descaso com esses espaços se deve ao fato de que eles são habitados majoritariamente por pessoas negras. “Quando você entra em um bairro periférico, falta a intervenção do município ou estado, de forma dinâmica planejada para cuidar do determinado espaço. No imaginário social da gestão pública, aquelas pessoas não são dignas de receber atendimento de saneamento”.
A pandemia como desafio para a educação
O último momento enfrentado pelo mundo, a pandemia de covid-19, evidenciou que o Brasil precisa melhorar o acesso à saúde e à educação. O isolamento levou centenas de alunos da rede pública e particular a transformar suas casas em salas de aula. Diferença foi entre classes sociais e nas facilidades em ter acesso a internet, é claro que os estudantes mais afetados eram pretos e pardos.
Devido às dificuldades de acesso à educação, muitos alunos da rede básica de ensino ligados à periferia não tinham acesso ou condições de ter o ensino remoto como opção para continuar os estudos. Com o retorno das aulas presenciais em novembro de 2021, cerca de 240 mil crianças e adolescentes não retornaram às salas de aula.
A economia é outro fator para a evasão dos alunos das salas de aula. Durante o período pandêmico, a Ufac assim como as demais instituições do país, transformou as aulas presenciais em encontros remotos. A vida pessoal se misturou com a vida acadêmica, obrigando muitos alunos a ingressarem no mercado de trabalho para sobreviver à crise.
Jorge Oliveira, 24, estudante de jornalismo na Ufac, comenta que a principal dificuldade ainda é conseguir conciliar tempo de trabalho e faculdade. “Estudo à noite e preciso trabalhar durante o dia. Na pandemia enfrentei mil dificuldades por não ter computador, precisei me virar e tentar fazer todos os trabalhos e provas pelo celular ”, diz o graduando.
Principal desafio do graduando Jorge Oliveira é conciliar rotina de trabalho e estudos | Foto: cedida
Para o aspirante a jornalista, o trabalho se transformou em uma obrigação que lhe ajuda a estudar. Mesmo que seja irônico ele não ter tempo de fazer os trabalhos acadêmicos, é o seu emprego o que o mantém na faculdade. “Se eu não trabalhar, não tenho como manter outras coisas dentro da universidade, como alimentação, passagens, xerox e outros materiais necessários. Isso sem incluir a minha própria moradia” explica Jorge.
A intelectual negra Sueli Carneiro, fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, concedeu uma entrevista ao observatório da educação e explicou como o racismo estrutural está presente nas escolas e universidades de forma traumatizante. “O pós-abolição não restitui essa humanidade retirada – a escola reitera isso. Não é gratuito que nossas primeiras experiências com o racismo tenham a ver com a entrada na escola”, afirmou.
A dificuldade em permanecer na universidade se dá pela carência de políticas públicas que criem condições para o jovem ensino superior federal. Apesar da lei de cotas ter aumentado em 39% a entrada de pretos, pardos e indígenas na universidade até 2016, a permanência do aluno na vida acadêmica depende de vários fatores.
A discussão é não apenas como chegar na universidade, mas também como se manter dentro dela. Nas periferias, o jovem que sai da escola e encontra a realidade econômica social, como a falta de distribuição de renda e investimentos na região amazônica, e em especial o Acre, afeta diretamente os sonhos da juventude que busca por meio dos estudos mudar sua condição social.
Para o futuro jornalista Jorge Oliveira, a realidade do sistema de bolsas de estudos oferecidas pela instituição federal em que estuda é falha. “Todos sabem que as bolsas da Ufac não são tão fáceis de conseguir, muitos que não precisam de verdade têm, às vezes, mais de uma bolsa, enquanto outros não conseguem nenhuma. E eu faço parte dos que não têm o privilégio de poder apenas estudar enquanto recebe ajuda de familiares ou de bolsas de estudo”, desabafa.
Gabriel Aguiar, 25, estudante de bacharelado em geografia, faz parte da parcela de alunos que mantém a universidade com ajuda do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). Entretanto, nunca pleiteou as bolsas de auxílio da universidade.
“São bolsas extremamente difíceis de conseguir, além de que tem muito aluno que ganha sem realmente precisar e a bolsa vira uma espécie de mesada, enquanto tem alunos que realmente precisam. Quando você põe na ponta da caneta, é muito caro se manter na universidade pública”, complementa.
A permanência dentro dos centros universitários depende, acima de tudo, das oportunidades básicas de saneamento básico, transporte e alimentação. Condições financeiras, alimentação de qualidade, moradia e saneamento básico adequados são direitos essenciais que todo estudante de universidade pública deve usufruir para que seu rendimento acadêmico seja notório.
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Um café bem forte
Pesquisadores da Ufac e Embrapa investigam a irrigação para aumentar a produtividade e sustentabilidade
Publicado há
4 semanas atrásem
4 de agosto de 2025por
Redação
Por Francisca Samiele e Amanda Silva
Quem não aprecia um cafezinho bem quentinho, seja com leite, sem leite, puro ou adoçado? Com o aumento do consumo, e consequentemente da produção, o café despertou o interesse de quem busca alternativas viáveis na agricultura da região amazônica. O Acre é o segundo maior produtor de café da Região Norte, ficando atrás apenas de Rondônia.
No Estado, em 2021 foi produzido pouco mais de duas toneladas do café Canéfora, em 2024, esse número subiu para mais de três toneladas, e até julho de 2025 houve aumento significativo, chegando a quase cinco toneladas, como mostra a tabela a seguir. E até o fim do ano, o IBGE estima um crescimento de 60% em relação à safra anterior.
O nome, café Canéfora vem do termo Coffea canephora, que inclui os grãos “Conilon” e “Robusta”. Suas principais características incluem alta resistência, produtividade e adaptação ao clima quente e úmido da Amazônia.
Segundo o pesquisador Celso Luís Bergo, da Embrapa Acre, “O cafeeiro canéfora veio da África e lá já estava adaptado a condições como baixa altitude e alta temperatura. Aqui na Amazônia, também é baixa altitude e alta temperatura, então ele se adaptou bem e é altamente produtivo”

Tubulação principal para distribuição da água em sistema de irrigação por gotejamento do café Canéfora/Cedida
A Universidade Federal do Acre (Ufac) é parceira da Embrapa em um estudo que investiga o uso da irrigação no cultivo do café Canéfora. A proposta do estudo é racionalizar o uso da água, ou seja, gastar menos e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade da lavoura.
O foco do estudo está no uso mais eficiente da água, com o objetivo de aumentar a produtividade e melhorar a qualidade do café, reduzindo perdas e tornando o sistema mais sustentável. Essa prática beneficia tanto os produtores, que têm maior rendimento, quanto os consumidores, pois o uso correto da irrigação reflete em aumento de produtividade, qualidade de bebida e lucratividade, conforme documento disponibilizado pela Embrapa.
A pesquisa “Manejo de irrigação por gotejamento para cultivo de clones de café Canéfora nos estados do Acre e Rondônia” conta com especialistas como os pesquisadores Celso Luís Bergo, Leonardo Paula de Souza e Aureny Maria Pereira Lunz, além de estudantes de graduação e pós-graduação em Agronomia, integrando ensino, pesquisa e extensão.
O professor Leonardo Souza comenta que a ideia do estudo surgiu ao “identificar que o manejo da água nos sistemas de irrigação estava sendo realizados com base na intuição do produtor e total ausência de parâmetros técnicos”, que poderiam apoiar o uso mais eficaz da água em determinadas fases da cultura do café.
Os pesquisadores utilizaram métodos como medição da tensão da água no solo (quando irrigar o café) e supressões de irrigação (por quanto tempo a irrigação é interrompida). Estes testes foram feitos em área experimental da Embrapa Acre e mostraram resultados consistentes.
Cafezal saudável
Os resultados se destinam a melhorar a maturação e a qualidade do café, favorecendo o crescimento da vegetação e a produtividade do grão. “Plantas irrigadas apresentaram um melhor desenvolvimento vegetativo quando comparadas às plantas não irrigadas”, afirma o professor Leonardo Souza.
O engenheiro agrônomo Romário Monteiro, que trabalha há mais de três anos com esse tipo de café, comenta que o manejo adequado da irrigação por gotejamento ajuda as plantas a crescerem de forma parecida, ao mesmo tempo, com saúde e equilíbrio.
“Pode garantir uniformidade no desenvolvimento da lavoura, favorece a florada e o enchimento dos grãos, e aumenta significativamente a produtividade, especialmente nas regiões com chuvas irregulares”, afirma.
Visão de quem planta
O produtor Matheus Guimarães da Rocha, de Capixaba, cultiva Canéfora há cerca de dois anos e afirma que os resultados são promissores. Esta é sua primeira colheita, que após a secagem e beneficiamento dos grãos será vendida.
Ele acredita que o café tem potencial para crescer ainda mais na região e espera que, com isso, os produtores possam ter uma lucratividade maior. “O produto está em crescimento e ele [o café] vai melhorar o preço”, enfatiza.
Benefícios e resultados
Os resultados da pesquisa foram importantes, segundo Leonardo Souza, para permitir tomar decisões de quando e quanto irrigar. Ele também destaca a importância para a economia local. “Está comprovado que a irrigação no café Canéfora proporciona aumento de produtividade e nesse sentido, surge a oportunidade de empresas especializadas em irrigação se instalarem na região, gerando emprego e venda de equipamentos”.

Todo esse trabalho contribui diretamente para a formação de novos conhecimentos e profissionais, uma vez que a parceria entre Embrapa e Ufac envolve estudantes em formação. Celso Bergo destaca uma das maiores contribuições do projeto: “formar pessoas preparadas para aplicar o conhecimento em benefício da sociedade”.
Além disso, o projeto pode ajudar a atrair novos investimentos o Acre contribuindo com economia local, e Leonardo Souza confirma isto, “Está comprovado que a irrigação no café Canéfora proporciona aumento de produtividade e nesse sentido, surge a oportunidade de empresas especializadas em irrigação se instalarem na região, gerando emprego e venda de equipamentos de irrigação”.
Os pesquisadores darão continuidade no estudo com um novo projeto aprovado e elaborado em parceria da Ufac junto ao Programa Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento do Café – PNP&D/Café, coordenado pela Embrapa/Consórcio Pesquisa Café.
Assista o vídeo da Embrapa sobre o assunto:
Notícias
Cresce o número de acidentes e lesões nas ruas de Rio Branco no 1º Trimestre de 2025
Publicado há
3 meses atrásem
13 de junho de 2025por
Redação
Número de mortes cai 41%, mas ocorrências aumentam e imprudência ainda preocupa autoridades e população
Por Ana Flávia Santos, Gabriela Fintelman, Luísy Xavier, Patrícia Pinheiro e Pedro Amorim
No primeiro trimestre de 2025, Rio Branco registrou 676 acidentes de trânsito, com um aumento de 3% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram contabilizadas 656 ocorrências. Os dados são da Coordenadoria de Engenharia e Estatística de Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/AC) e apontam para um cenário ainda preocupante na capital acreana.
Desse total, 261 resultaram em vítimas não fatais, com 310 pessoas lesionadas. Por outro lado, o número de vítimas fatais apresentou uma queda significativa: foram sete vítimas fatais de janeiro a março deste ano, contra 12 no mesmo período do ano passado — uma redução de aproximadamente 41,7%.
Embora o recuo nas mortes seja um sinal positivo, o cenário ainda está longe de ser considerado seguro nas vias da capital. Mesmo quando os acidentes não resultam em fatalidades, os efeitos são visíveis, como os engarrafamentos, pessoas feridas, danos materiais e prejuízos emocionais.
Perfil de vítimas no trânsito
Segundo dados do Detran divulgados em 2016 e que permanecem como a base mais recente disponível —, homens representavam 69,6% das vítimas de acidentes em Rio Branco, enquanto as mulheres correspondiam a 30,16%. A faixa etária mais atingida era de 18 a 29 anos, com predominância de condutores (74,11%), seguidos por passageiros (17,46%) e pedestres (8,42%).
As motocicletas estavam envolvidas em 55,09% dos acidentes com vítimas, enquanto os automóveis lideravam os acidentes sem vítimas, com 64,45%.
A maioria dos casos envolvia colisões (79,9%) e atropelamentos (9,75%), com maior incidência nos horários de pico: entre 5h30 e 7h, 11h e 12h, e 18h e 19h.
Em uma entrevista para o jornal Folha Nobre em janeiro deste ano, a coordenadora de Educação do Detran, Cléia Machado, destacou que o grupo mais vulnerável no trânsito são primeiramente os pedestres e em segundo os ciclistas. Embora os dados mais recentes disponíveis sejam de 2016, não há evidências de mudanças significativas no perfil das vítimas.
“Os pedestres e ciclistas são os mais vulneráveis no trânsito, por isso precisam ter atitudes que protejam a vida. Aqui no Parque Ipê, por exemplo, os pedestres devem utilizar as vias para pedestres, assim como o ciclista deve transitar na ciclovia e sempre utilizar os equipamentos de segurança”, afirma.
Imprudência lidera causas de acidentes na capital
De acordo com o Detran, cerca de 90% dos acidentes registrados na capital são causados por imprudência no trânsito. Além disso, em âmbito nacional, estudos realizados pelo Ministério dos Transportes indicam que a imprudência dos motoristas é responsável por 53,7% deles no Brasil.
Entre os comportamentos de risco mais comuns estão excesso de velocidade, avanço de sinal vermelho e ultrapassagens perigosas. O advogado de trânsito Sandro Oliveira alerta que o problema não se resume à falta de conhecimento: “A falta de educação está diretamente ligada aos acidentes. Muitos motoristas agem como se estivessem certos, mesmo quando claramente estão errados”, comenta.
Outro fator preocupante é o crescimento da frota de veículos em Rio Branco. Entre 2020 e 2024, o número de automóveis registrados saltou de 186.723 para 217.962 — um aumento de 16,75%. A expansão, sem melhorias proporcionais na infraestrutura, contribui para congestionamentos, cruzamentos perigosos e aumento nos índices de acidentes.
As vias mais perigosas da capital
Segundo o Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPTran), os cruzamentos são os locais com maior incidência de acidentes, principalmente nos horários de pico e em vias de grande fluxo. Entre janeiro e março de 2025, as dez vias com maior número de ocorrências somaram 148. A Avenida Ceará lidera o ranking com 30 ocorrências no trimestre.
Além de fatores comportamentais, a ausência de sinalização adequada em trechos movimentados da capital também contribui para o risco nas vias. Para o advogado, o papel do poder público é fundamental nesse cenário.
“Cabe ao poder público garantir a sinalização horizontal e vertical conforme determina o artigo 80 do CTB [Código de Trânsito Brasileiro]. Sem isso, a responsabilidade pela segurança nas vias fica comprometida”, pontua.
Vozes das ruas: o olhar de quem vive o trânsito
Para além dos dados e estatísticas, as experiências cotidianas de quem enfrenta o trânsito todos os dias oferecem uma visão concreta e urgente da realidade. “Os principais desafios são nas ruas, com muitos motoqueiros imprudentes”, relata Jeferson Bessa, motorista de aplicativo.

Ele também aponta a precariedade da malha viária como um agravante: “Há várias ruas em Rio Branco que precisam de atenção do governo porque estão com muitos buracos, alguns sendo quase impossíveis de passar de moto, principalmente quando chove”, enfatiza.
Essa dificuldade também foi vivida por João Gustavo Rocha, vendedor externo da empresa Acrepan, que teve prejuízo após cair em um buraco encoberto pela água da chuva. “Era uma rua bem esburacada e todos os buracos estavam com água. Não dava pra ver o quão fundo eles eram. Acabei batendo em um buraco no carro da empresa e quebrou um pouco do para-choque. A empresa ficou no prejuízo” relata.
Bairro Sobral, Rio Branco – AC. Foto: Hélio Vitalino
Ele também avalia que a desinformação sobre regras e deveres no trânsito ainda é um entrave. “A maioria dos motoristas não está bem-informada. Falta conscientização da população, e mais investimento do governo em educação para o trânsito. Muitas autoescolas também não oferecem uma formação de qualidade”, conclui.
Como prevenir acidentes e contribuir para um trânsito mais seguro
Diante dos números alarmantes e dos relatos de quem vivencia diariamente os desafios nas vias de Rio Branco, a prevenção se torna indispensável. Confira algumas orientações que podem ajudar a salvar vidas durante a rotina de trânsito.
- Respeite os limites de velocidade e a sinalização;
- Nunca dirija sob efeito de álcool ou outras substâncias;
- Use sempre o cinto de segurança e capacete, no caso de motociclistas;
- Evite o uso do celular ao volante;
- Mantenha a manutenção do veículo em dia, especialmente pneus e freios;
- Esteja atento às condições da pista, principalmente em dias de chuva.
Além da responsabilidade individual, o papel da população também é fundamental na fiscalização cidadã. Irregularidades no trânsito, buracos em vias públicas e comportamentos de risco podem – e devem – ser denunciados.
Canais de Denúncia e Contato:
- RBTrans (Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito): (68) 3212-7040
- Detran/AC: (68) 3229-5500, site: www.detran.ac.gov.br
- Ouvidoria da Prefeitura de Rio Branco: 0800 647 1311
- Polícia Militar (em caso de emergência ou flagrante de infração): 190, site: www.pm.ac.gov.br
As orientações seguem recomendações da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), que reforçam a importância da educação, fiscalização e boas práticas para a redução de acidentes. Somente com a união entre poder público, condutores e pedestres será possível transformar Rio Branco em uma cidade mais segura para todos.
Notícias
Empreendedorismo, arte e ativismo: narrativas de resistência de mulheres periféricas no primeiro podcast original A Catraia
Os 3 episódios do programa mergulham nas experiências de mulheres periféricas na capital acreana, explorando como o ativismo, a arte e o empreendedorismo social se entrelaçam como formas concretas de existir e transformar a realidade.
Publicado há
3 meses atrásem
6 de junho de 2025por
Redação
Produção explora como mulheres de Rio Branco constroem caminhos de autonomia e dignidade, utilizando o empreendedorismo e a arte para resistir à exclusão
Por: Victor Manoel
A realidade social e econômica apresenta desafios únicos em Rio Branco, especialmente para grupos minorizados que enfrentam barreiras estruturais no acesso a direitos básicos, inclusive no mercado formal. Nesse contexto, o empreendedorismo surge não apenas como um meio de subsistência, mas como uma poderosa ferramenta de resistência, emancipação política e busca por autonomia e dignidade.
É essa força e criatividade que impulsionam o podcast “Trabalhar e Resistir”, projeto do curso de Jornalismo da Ufac, realizado no âmbito do jornal laboratório A Catraia, que busca ouvir essas narrativas de luta e superação. Os 3 episódios do programa mergulham nas experiências de mulheres periféricas na capital acreana, explorando como o ativismo, a arte e o empreendedorismo social se entrelaçam como formas concretas de existir e transformar a realidade.
Uma das vozes do podcast é da Luar Maria, atriz e estudante, que compartilha a dura realidade enfrentada pela população trans no Acre. Ela aponta a falta de seriedade e compreensão por parte de algumas gestões públicas em relação às necessidades dessa população e destaca a precariedade do acesso à saúde e a ligação entre empregabilidade e saúde. Luar ressalta que a luta por direitos e a busca por meios de subsistência andam juntas. Para ela, falta “seriedade no sentido de realmente tocar o que o recorte das secretarias está faltando”, e é preciso acreditar que essas políticas são cruciais para entender e avançar.
O podcast também apresenta Vands, artivista e empreendedora de ilustrações da periferia. Ela vê sua arte não apenas como expressão, mas como uma ferramenta de ativismo e uma forma de gerar renda, conectando seu trabalho a questões de justiça social, ambiental e direitos humanos. Transformar sua arte em empreendimento foi um passo natural, mas cheio de desafios práticos no contexto periférico. Vands define seu “artivismo” como a união da arte com o ativismo e considera “resistência”, pois fala de questões importantes e é criada “em um contexto em que (…) o capitalismo incentiva muito a gente a consumir sem pensar”.
Para oferecer um panorama mais amplo, o podcast incluiu a perspectiva institucional com Julci Ferreira, analista do Sebrae Acre e gestora de projetos como o Plural, focado em grupos sub-representados e pessoas em situação de vulnerabilidade. Julci explica a abordagem do Sebrae para o empreendedorismo inclusivo, buscando integrar esses grupos e dar a eles “luz e autoridade para se verem como empreendedores”. Ela afirma que “a ideia do Sebrae não é número, não é abrir CNPJ. A ideia do Sebrae é cada vez mais desenvolver ideias de negócio”.
Ouça “Trabalhar e Resistir: Vozes Periféricas do Empreendedorismo no Acre” no Spotify: https://open.spotify.com/show/6un2SKAou6c8OfkehlAv5Q?si=0572cdc289e345c3
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