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Histórias de vida

Sentimentos por trás da escrita

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Foto: Arquivo Pessoal

Por Ycla Araújo

Muitos de nós crescemos na influência da literatura, da música e das artes cênicas. Mas o que nunca prestamos atenção é: quantos desses artistas são acreanos? Quantas vezes, em todo esse tempo, consumimos da nossa própria arte? O processo criativo demanda tempo, inspiração e imaginação, além de que o caminho até a publicação e distribuição é bem longo e demorado.

O professor, ator, escritor, músico e pai de dois bebês, Quilrio Farias, é formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Acre (Ufac), foi ator por 10 anos, é músico e foi compositor em uma banda punk quando mais novo.  O poeta já tem três livros publicados; o primeiro se chama O Berro, publicado em 2017, foi construído ao longo de dez anos. De acordo com o escritor, ele tinha em torno de cem poemas para pôr no livro, mas ao final, escolheu apenas trinta e seis.

“Escolhi os que eu achei o melhor dos melhores. Quando a gente escreve um livro, quando faz uma obra de arte, a gente quer que as pessoas vejam. É muito sofrido essa parte de escolher o que entra e o que não entra, mas a arte também é pensada”, relembra o escritor.

O professor relata, humorado, que resolveu publicar de forma independente, pois seus projetos não eram aprovados no edital de inclusão pública. “Foi sem ressentimentos, sabe?! Só pensei que seria uma coisa legal”, ele brinca. Em sua opinião, isso lhe proporcionou a oportunidade de experimentar a liberdade criativa em seus projetos.

Marcas de Pés, seu segundo livro, lançado em 2018, é sobre suas memórias. Segundo o autor, a ideia é de falar com seu passado e também sobre o ano de 2018, que para ele foi bem atípico. “Eu nem ia lançar nada, mas pensei que seria bom deixar alguma marca em mim sobre esse ano que foi tão difícil.”

Em 2019 começa o processo de escrita de Nascenças. Naquele ano, o artista começou a trabalhar nas escolas da periferia do Segundo Distrito de Rio Branco, lugar onde passou parte de sua infância. E retornar a esses espaços lhe trouxe uma grande sensação de nostalgia, o que o inspirou a voltar a escrever. Com o início da pandemia em 2020, o projeto ficou um pouco esquecido. “Perdi três amigos. E conhecidos, eu nem sei quantos. Teve um amigo de infância muito querido”, lamenta. Essas perdas também influenciaram na escrita.

Foto: Arquivo Pessoal

“O nome inicial nem era Nascenças, a ideia veio como mágica quando meu filho nasceu. Foi um dia difícil em um ano muito complicado pra mim. Quando vi minha esposa e meu filho bem, foi quando percebi que a gente estava nascendo de novo, ele foi como um fôlego de alívio pra gente”, se emociona.  

Formada no Curso Técnico de Cinema e Vídeo na Usina de Arte João Donato e em Licenciatura em História na Universidade Federal do Acre (UFAC), Carina Cordeiro é mãe de um menino, fotógrafa, cineasta e recentemente escritora.

Foto: Arquivo Pessoal

Carina lançou seu primeiro livro composto da mistura de fotografias e poesias. E ao contrário do Quilrio, ela conseguiu apoio através do edital da Lei Aldir Blanc da Fundação Garibaldi Brasil. Ela enxerga as dificuldades como desafios. “Ser escritor é um desafio muito grande, não só estadual mas em âmbito nacional também. A cultura do ler precisa ser fomentada e uma das maiores dificuldades é fazer com que as pessoas leiam”, desabafa.

Carina conta que a escrita está em sua vida desde a adolescência e que seus assuntos sempre foram voltados para temas feministas, críticas e ideologias das quais ela defende até hoje. “Eu também já esboçava algumas poesias, mas era algo bem desprendido, até aquele momento eu não tinha nenhuma intenção”, diz.

Ela comenta que apenas depois de adulta que se interessou em fazer algo mais profissional. Porém, apenas recentemente houve a oportunidade de realmente arriscar, além de que o momento pandêmico lhe despertou alguns sentimentos na escrita. “Eu tinha umas poesias que escrevi em 2019/2020. Inclusive boa parte delas foram escritas já no período de pandemia, muitos sentimentos vieram à tona e de certa forma eu procurava internalizar isso na escrita.”

Por gostar de poesias curtas, seu papel era o bloco de notas do celular. O aparelho por muitas vezes foi usado para guardar um desabafo em forma de poema. “Vinham as cenas, situações e sentimentos, então, nesse caso ‘pôr no papel’ acabou se tornando uma metáfora. O processo deste livro foi basicamente ser submergido aos sentimentos: dores, medos, lembranças, amores e desamores.”

Muitos dos poemas são em homenagens para pessoas que “já partiram para outra dimensão, são pessoas muito queridas”. Sua intenção é passar a mensagem de que “cada um de nós tem a sua própria magnitude do ser, que cada pessoa é grande e múltipla. Essa é a essência do nosso ser, o fato da pluralidade, sermos várias coisas e sentimos muitas coisas”, explica.  

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Histórias de vida

Marcas Que Nunca Vão Passar

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Por Renato Menezes

(Alerta de gatilho: este texto aborda abuso sexual)

Era 30 de abril de 2011, às 17h48, quando a vida de Ariane* virou de cabeça para baixo, de uma forma que ela jamais imaginou que aconteceria em toda a sua existência. Acompanhada de sua filha mais velha, Sofia*, então com 6 anos de idade, ela chegou à Delegacia Especializada em Crimes Contra à Mulher, localizada no 2º distrito de Rio Branco (AC), para fazer uma denúncia. “Ele mexeu com a minha filha”, disse aos prantos para o delegado que a recebeu, acusando o padrasto da menina como o principal responsável.

Ariane conheceu seu cônjuge em meados de 2006 e engataram um relacionamento. No final do ano, ela descobriu que estava grávida de sua segunda filha, Luana*, que acabou nascendo um dia antes de seu aniversário de 22 anos. A mais nova integrante da família fez com que ela fosse morar com ele na casa da sogra, acompanhada da filha mais velha, Sofia, fruto de um relacionamento com seu primo, que acabou não prosperando.

Depois de um tempo, cansada de passar por humilhações e enfrentar maus olhares da sogra, os quatro resolveram morar de aluguel em um quarteirão localizado em um bairro vizinho. Lá, eles viviam uma vida humilde, mas aparentemente harmoniosa. Bom, pelo menos até o momento em que o então marido começou a humilhar e a bater em Ariane pelo menor “motivo” que fosse, desde ciúmes banais até à janta não feita. Eram socos, tapas na cara e até cárcere privado por alguns dias ela enfrentou, proibindo-a de ir à casa dos pais. Entre idas-e-voltas que, tristemente, costumam ser comuns em relacionamentos abusivos, eles ficaram sem condições de custear o aluguel e passaram a morar em um pequeno apartamento nos fundos da casa dos pais de Ariane.

Passado um tempo, ela arrumou um emprego em uma loja de presentes e decoração, onde às vezes trabalhava até mais que o permitido por lei, porque acreditava que, fazendo isso, dificilmente perderia o trabalho que necessitava tanto. A vida passou a ser muito corrida, era das 13h às 22h trabalhando, enquanto achava que as filhas estavam sendo bem cuidadas pelo padrasto e pai. 

No entanto, depois que Ariane passou a ficar mais tempo fora de casa, começou a perceber que estava acontecendo algo de estranho com a filha mais velha. Achando que era coisa de criança, acabou acreditando ser um comportamento típico para a idade de Sofia. Só que em meados de dezembro de 2010, ao chegar do trabalho, viu que a situação estava além do tolerável. “Quando eu cheguei do trabalho, tarde da noite, ela estava deitada na cama, sozinha, coberta e assim que ela ouviu minha voz, me abraçou profundamente. E eu não entendia o porquê daquilo”, falou.

E esse estranhamento não foi percebido apenas por Ariane. A avó de Sofia também começou a ficar com “uma pulga atrás da orelha”, pois era acostumada a ver a neta brincando com as outras crianças e, de repente, tinha perdido o ânimo. “Eu falava pra ela: minha filha, o que é que tá acontecendo? Por que você não quer ir brincar com os meninos? E ela só falava que não queria”, disse a avó, que disse nunca ter desconfiado de absolutamente nada, mesmo achando estranho.

No dia 30 de abril de 2011, Sofia reclamou de dor ao fazer xixi. Por conta disso, urinou na roupa duas vezes. “Coração de mãe sente muito. Eu senti que tinha alguma coisa de errado, minha mãe me falando que estava achando estranho o jeito dela, às vezes chorando pelos cantos. Mas eu não sabia, não sabia mesmo. Eu perguntava o que estava acontecendo e ela não me falava, só chorava. Ela só dizia ‘mãe, minha baratinha tá doendo’. Quando eu tirei a roupa dela para ver, (a vagina) estava cheia de bolha e eu achei que era algo relacionado ao xixi”.

Naquele exato momento, ela arrumou a filha e foi até à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Tucumã. No entanto, a UPA estava sem Pediatra, o que a fez ser transferida para o Pronto Socorro de Rio Branco às 12h46, de acordo com o prontuário clínico. Ao relatar o que tinha visto na vagina da filha, até então sem entender nada, logo foi encaminhada para a ala de emergência pediátrica, onde uma equipe de profissionais lhe fez uma enxurrada de perguntas. “No decorrer disso tudo, eles deduziram que era Herpes genital, uma infecção sexualmente transmissível”. Naquele momento, todas as peças do quebra-cabeça tinham se encaixado e a ficha estava começando a cair. O comportamento estranho da filha, a raiva que ela tinha do padrasto, os abraços de medo… Então, ela perguntou para a filha se alguém tinha acariciado as partes íntimas dela.

Com base nos questionamentos feitos a Ariane, a equipe pediátrica colocou a criança como suspeita de ter sido abusada sexualmente pelo padrasto há alguns meses, solicitou exame de sorologia para Herpes, atendimento com assistente social e encaminharam-nas imediatamente à Delegacia da Mulher, onde registraram a denúncia. A partir do depoimento de Sofia, que falou que ele chegou a colocar o dedo em suas partes íntimas umas três vezes, mostrou filmes pornográficos e as partes íntimas dele para ela, solicitaram exames de conjunção carnal, bem como testes laboratoriais de HIV/Aids, Hepatites A, B e C e outros.

“Esse dia foi um dia de inferno na minha vida”, disse Ariane.

Diante de toda aquela situação que enfrentava junto com a filha, ela se viu em um poço de tristeza, ódio e impotência, tanto por ter confiado demais no ex-cônjuge, como por não ter protegido sua filha como gostaria. Ariane trabalhava demais para colocar o sustento na mesa. Era uma rotina intensa ganhando pouco, saindo ao meio-dia e voltando às 22h e achando que as filhas estavam sendo bem cuidadas. “Eu nunca me senti tão suja na vida. Quando eu me vi dentro de toda essa situação eu pensei em tanta besteira…”

Em meio às idas à assistente social, psicóloga, maternidade e laboratórios, o único exame que deu positivo foi para Herpes. “Graças a Deus, ele não chegou a introduzir nada na minha filha, não chegou a tirar a virgindade dela, mas para a Justiça, aquilo (o exame) não era prova concreta de que a minha filha tinha sido molestada”. 

De acordo com o relatório sentencial, Ariane chegou a contar em um dos depoimentos à Justiça que havia aparecido umas marcas semelhantes às da vagina na bochecha de Sofia aos seis meses de idade, o que acabou tendo grande influência nos autos judiciais. Contudo, ela afirmou para o processo e para essa entrevista que aquilo tinha sido uma reação alérgica desencadeada a partir de um beijo que a avó paterna tinha dado nela. “Onde ela beijou, ficou a marca do batom ‘meio vinho’ que ela usava, e foi onde deu uma alergia, devido à pele de recém-nascido ser muito sensível. Na época eu levei a Sofia no hospital, não me falaram nada de Herpes. Eu não tinha por quê inventar uma coisa dessas agora”.

Ariane disse que o acusado não fez exame para Herpes e que não acredita que a filha contraiu o vírus antes dos abusos, porque as bolhas foram notadas depois que Sofia mudou o comportamento e passou a ficar mais retraída. “Minha filha era uma criança, ela não ia contar uma história horrível dessas do nada, ninguém da minha família nunca passou por isso”. De acordo com ela, o réu não chegou a fazer o exame justamente porque colocaram em alto grau de relevância o ocorrido com a menina aos seis meses.

A sentença foi dada no dia 17 de outubro de 2013 e inocentou o ex-marido, embasada no argumento de que a palavra da vítima, apesar de sempre se sobressair à do réu, não era clara o bastante. A pouca idade de Sofia na época justificava o nervosismo da vítima no depoimento judicial. O advogado do acusado também alegou que a criança podia ter contraído Herpes na escola, que é uma doença muito comum e de fácil transmissão.

“Como não tinham provas mais firmes de que ele havia introduzido alguma coisa na vagina da minha filha, eles acabaram arquivando o caso. O que eles queriam era um exame carnal, algo mais concreto. E a gente não tinha mais nada o que fazer porque ela foi ouvida, e eles talvez pensaram que era coisa de criança, algo do tipo. Isso me revolta muito até hoje, porque ele ficou como o inocente na história”, desabafou Ariane. Ela acredita que o estupro propriamente dito não aconteceu porque moravam, praticamente, na mesma casa de seus pais, e corria o risco de Sofia fazer algum escândalo e todo mundo acabar escutando.

Ariane tem certeza que de inocente ele não tem nada. Primeiro, porque ela jamais vai duvidar da palavra da filha frente a um homem que já bateu, xingou e a maltratou em diversas ocasiões. Segundo, porque ele fugiu para a casa da mãe assim que soube que elas tinham ido ao hospital por tal motivo.

“Quando eu acompanhei a Ariane na UPA e depois, no Pronto Socorro, os médicos que viram a situação não deixaram a gente sair de lá até que chegasse a assistência social, porque já imaginavam o que era. Se eu não me engano, minha outra irmã, na tentativa de não piorar a situação mais do que já tava, ligou escondida para ele e disse para ele sumir de lá (apartamento onde moravam nos fundos da casa dos pais de Ariane), pois se essa história chegasse primeiro nos ouvidos do meu pai, ele seria capaz de matá-lo com o terçado que tinha”, disse a irmã de Ariane, complementando que hoje enxerga a ligação como um livramento de Deus, pois tinha certeza que iria acontecer uma tragédia muito maior, com gente morta e presa. “Meu pai é um homem trabalhador, muito simples e batalhador desde sempre. Ele não merecia sujar as mãos dele com o sangue de um *&%$# (palavrão)”.

O acusado, após a sentença, ainda passou os anos subsequentes perseguindo e rodeando a família, inclusive gerando vários processos: pedido de guarda da filha biológica, baixa no valor da pensão, acusação de calúnia e difamação por parte do pai de Ariane, que acabou se alterando em várias discussões e xingou-o de palavras de baixo calão ao vê-lo parado em frente à sua residência.

“A gente tinha uma medida protetiva que impedia  ele de circular por perto da nossa casa. Mesmo assim desrespeitava, porque queria ver a filha nos dias que não eram os dele, mas eu não deixava de jeito nenhum. Ele até hoje nunca pagou pensão para a Luana, mesmo eu tendo ido na justiça diversas vezes. Parece que ele tinha prazer de desestabilizar a gente”, irrita-se Ariane.  

Ao relembrar toda a situação caótica, Ariane diz que se revolta até hoje com o arquivamento do processo, pois ficou parecendo que ela e a filha estavam mentindo. 

Ela contou que é impossível esquecer o que ela e as filhas passaram com tão pouca idade. “Em uma das inúmeras discussões, tempos depois da sentença, ele olhou para mim e esbravejou, com um ódio enorme, que eu nunca mais ia ser feliz na minha vida. Claro que eu não internalizo isso, mas às vezes quando eu estou muito triste, fico realmente pensativa se ele jogou alguma praga em mim”.

Atualmente, ela continua com a guarda de suas duas meninas em sua casa própria e disse que desde meados de 2019 ele não procurou mais pela filha biológica. “E eu espero que continue assim pro resto da vida. Graças a Deus minha filha não sente nenhum pingo de falta dele e não faz mais questão de manter o mínimo de contato”. Hoje, Luana tem 13 anos.

Sobre Sofia, que está com 17 anos, Ariane disse que hoje ela é bem mais aberta para falar sobre as coisas, mas que ainda tem prejuízos psicológicos e gatilhos pessoais disso tudo. “Hoje ela é uma pessoa totalmente diferente, mas claro que com algumas sequelas. Quando ela fica muito calada, eu já fico muito preocupada e já sento para conversar… são marcas que eu sei que nunca vão passar”.

Se você conhece ou sabe de alguma criança ou adolescente que está enfrentando situações de abuso ou exploração sexual, não hesite em denunciar ligando para o 180. A ligação é gratuita, anônima, sigilosa e você pode contribuir para que estas vítimas sejam assistidas e os envolvidos, devidamente responsabilizados.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas

Obs.: O nome da pessoa que foi acusada não é citado pois a lei o julgou como inocente e o processo foi arquivado por falta de provas contundentes. 

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Histórias de vida

Do interior do Acre para o Maracanãzinho lotado

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Por Maria Fernanda Arival

No dia do concurso não parecia ser eu, parecia que eu estava flutuando, como em um sonho, eu não sei explicar a emoção. Foi no Maracanãzinho, tinha 30 mil pessoas e todos aqueles refletores em mim… Quando chamou: ‘Miss Acre’, fui a primeira a pisar na passarela, o coração acelera e os olhos enchem de lágrima, parece mesmo que eu estava flutuando”.

Aos 73 anos, a senhora Raimunda da Silva Farias relembra seus dias de passarela. Há 54 anos ela foi coroada Miss Acre. Hoje, Raimundinha, como é conhecida por todos, é aposentada pelo Estado do Acre, viúva, mãe de três filhos, avó de seis netos e bisavó de uma menina

Ela nasceu em Sena Madureira, interior do Acre, em 1948, e é a única mulher dentre 7 irmãos. Em 1967, ainda solteira, levava consigo o nome de batismo: Raimunda Nogueira da Silva. Quando recebeu o convite tinha apenas 18 anos e cursava o último ano do ensino médio na Escola Técnica do Acre, em Rio Branco. “Em fevereiro foram duas moças do grêmio lá na minha casa me convidar. Eu fiquei muito surpresa porque eu era uma pessoa muito pobre, muito humilde e nem participava de eventos e de festas da sociedade, só trabalhava e estudava”, diz ela, relembrando o convite.

Deitada na rede cor de rosa, ela conta que não tinha noção do que fazer, não sabia desfilar e nem tinha roupas e sapatos adequados. “Eu não sabia se aceitava. E elas falaram ‘não se preocupe, a gente vai preparar você’. Então, compraram roupas e sapatos que eu não tinha. Não sabia desfilar, fui na casa da Islene Farias (uma das integrantes do grêmio), a mãe dela me ensinou a desfilar e me ensinou etiqueta. O Miss Acre aconteceu em maio de 1967”.

Raimunda Nogueira à direita. Foto: Arquivo Pessoal.

Na época com 1,68 m de altura, 90 cm de quadril, 55 cm de cintura, loira e com os olhos verdes, a Miss Acre 67 recebeu a coroa pelas mãos da primeira-dama do Estado, Georgete Kalume, esposa do governador Jorge Kalume, e a faixa pelas mãos do presidente do Rio Branco Futebol Clube, Ary Rodrigues. “Eu desfilei de maiô e com traje de gala. Era um vestido brilhante azul petróleo no modelo tomara que caia. O grêmio do clube mandou fazer para mim e o concurso aconteceu na sede do clube. Eu fui muito aplaudida, todos gostaram da minha vitória, até hoje as pessoas dizem que eu fui a Miss mais bonita até então. No ano seguinte, quando passei a coroa, já foi em um estádio, o clube havia ficado pequeno.”

Raimundinha preparou-se pelos dois meses seguintes para ir ao Rio de Janeiro, onde aconteceu o Miss Brasil. “Eu viajei e fiquei hospedada no hotel junto com as outras participantes. Fomos em vários eventos e jantares que eram organizados somente para que nós pudéssemos aparecer”, conta Raimundinha, lembrando que era muito cansativo, levantavam cedo para se arrumar e cumprir com os compromissos.

Um dos jantares oferecido para as candidatas no Rio de Janeiro. Raimunda é a primeira, no canto esquerdo. Foto: Arquivo Pessoal.

“No dia do concurso não parecia ser eu, parecia que eu estava flutuando, como em um sonho, eu não sei explicar a emoção. Foi no Maracanãzinho, tinha 30 mil pessoas e todos aqueles refletores em mim… Quando chamou: ‘Miss Acre’, fui a primeira a pisar na passarela, o coração acelera e os olhos enchem de lágrima, parece mesmo que eu estava flutuando”, conta a ex-miss, suspirando. Com muita emoção, Raimundinha fala que ficou entre as 15 finalistas, mas a vencedora daquela edição foi a Miss São Paulo, Carmen Silva, seguida pela Miss Paraná e Miss Pará. 

“Quando voltei para Rio Branco, ainda fiquei três meses fora da minha casa. Me hospedei na casa da minha colega Lucibeth, que também fazia parte do grêmio, porque ela morava no Centro e ficava mais fácil para ir aos lugares que a agenda de miss necessitava”. A Miss Acre 67 conta que visitou vários órgãos públicos, o Palácio do Governador e a sede da Prefeitura, bem como vários municípios, para que as pessoas conhecessem a Miss. “Nas festas, a atração era a Miss Acre, desfilava com o traje típico. Não tinha televisão na época, então, eu tinha que ir para as pessoas me verem.”

No tempo que precisou ficar longe de casa, ela só se comunicava com a família por radioamador. Ao ser questionada sobre o trabalho e os estudos, Raimundinha conta que pediu férias do trabalho e teve problemas na escola. “Eu cheguei a tirar até zero porque o professor não me deu a nota que eu precisava. Eu cursava o terceiro ano do ensino médio. Quando voltei para escola virei autoridade, era miss para cá e para lá, os rapazes todos querendo namorar.” Até hoje, onde ela chega, as pessoas dizem: ‘ela já foi miss’.

Quando fez 50 anos, dona Raimunda foi convidada para uma festa realizada pela Associação do Banacre (Banco do Estado do Acre) e lá foi homenageada, desfilando com outras misses da associação. “Foi muito bacana. Só não fui feliz na minha escolha de roupas, eu tinha muita vergonha, então preferi um vestido mais simples”, conta ela, dando risadas por assumir que não usava a cor vermelha no dia a dia para não chamar atenção.

Hoje, Raimundinha relata tudo com brilho nos olhos. E sempre que revive esse período da vida, ela lembra de algo diferente. Por isso que eu, neta dela, sempre lhe peço para contar a história da época em que foi Miss Acre.

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A vendedora de mangás

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Foto: Arquivo pessoal/proprietária da loja Up Nerd Store

Por Carina de Melo Gomes

“Meu falecido avô lia muito e eu vivia com ele. Então, peguei essa coisa dele”.

A jovem carioca Beatriz Xavier, bibliófila e no auge de seus 26 anos de idade, sempre sonhou em ter o seu próprio negócio na “área de livros”. Desde muito nova já dizia que seria sua própria chefe um dia. Leitora assídua desde a infância, ela sempre encontrou refúgio nos livros. “Meu falecido avô lia muito e eu vivia com ele. Então, peguei essa coisa dele”. 

Seu José era um homem bondoso, de cabelo lisinho e bem arrumado, trazia sempre um largo sorriso no rosto. Muito generoso e com o coração disposto a ajudar todo pé de cristão que a ele chegasse, cativou muita gente enquanto viveu. Como forma de reconhecimento batizaram uma rua com seu nome, “José de Oliveira Xavier”, um jeito bonito de homenagear o bom cidadão que foi.  A neta muito se orgulha do exemplo que teve em sua família, e hoje fala com admiração sobre a herança intelectual que ganhou do saudoso avô. 

Dois mil e vinte, isolamento, medo e incerteza. Pessoas dos quatro cantos do planeta confinadas entre as quatro paredes de seus lares, lamentam o caos sanitário, social e econômico gerado pela pandemia viral. Bia, como gosta de ser chamada, é mais uma dentre as milhares de pessoas que se encontram diante do dilema chamado desemprego e se viram obrigadas a correr atrás de algo que pudesse gerar o sustento da família ou, até mesmo, antecipar sonhos. E foi assim que, movida pela necessidade, a jovem da cidade de Campo Grande se encheu de coragem, tirou o sonho do bolso e decidiu colocar a mão na massa. 

A ideia de montar um negócio surgiu anos atrás, mas foi somente no início da pandemia que lançaram o projeto. “Meu sonho sempre foi empreender e obter minha independência financeira”. É agora ou nunca – disse para si mesma, deixando pela primeira vez a esperança falar mais alto que o medo. O marido foi o primeiro a dar o apoio necessário. Apaixonados por livros, pela cultura oriental e o universo geek, ela e o esposo Ricardo, decidiram apostar no nicho de produtos nerds. Mangás, animes, marcadores magnéticos e canecas foram os itens escolhidos para serem vendidos em sua loja virtual. 

Mas, como nem tudo na vida são flores, junto com as conquistas surgiram também os desafios. As críticas de pessoas das quais esperava apoio foram como um balde de água fria para Beatriz, causando bastante desânimo. “Não é fácil administrar tudo sozinha, temos que nadar contra a correnteza, é você por si mesma”.

“Ser dona de casa, trabalhar e estudar não é fácil, mas é tão gratificante… Para dar certo é necessário ter organização, o tempo é tudo!”

Para Bia, foi uma jornada de autoconhecimento, muito além de criar o próprio negócio. “Acho que a decisão da loja foi uma das minhas melhores escolhas, não só no âmbito financeiro, mas pelo amor ao meu trabalho. Servir com excelência é incrível, nisso tudo eu só tenho muita gratidão.”

Quando uma mulher decide empreender, se ela conecta seu sonho a um propósito maior, traz impacto e significado para a vida dela e de outras pessoas. Meu grande aprendizado mediante tudo isso é que não devemos desistir, que precisamos sonhar e ter garra para conquistar o nosso espaço”. Acreditar  e investir em nossos sonhos torna o caminho mais autêntico para viver experiências intensas de transformação de vida.

Já dizia o cantor Milton Nascimento: “…Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre…” Essa é a sina de inúmeras mulheres, Bias, Marias e tantas outras espalhadas pelo mundo afora, guerreiras.

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