Trajetória e desafios culturais e linguísticos de um estudante venezuelano no Acre
Acadêmico da Ufac, Osthin enfrenta o desafio de transitar entre o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês no ambiente acadêmico e profissional
Com uma trajetória marcada por travessias, fronteiras e barreiras linguísticas, o jovem venezuelano Osthin Querales fez do Acre o seu lar e espaço de aprendizado. Acadêmico de Letras-Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac), ele encara com bom humor o desafio de equilibrar o espanhol materno, o português do cotidiano e o inglês do ambiente profissional.
A vinda para o Brasil, há seis anos, foi um susto. Osthin estudava inglês na Venezuela quando sua mãe anunciou a mudança radical: “Agora bora estudar português”, recorda, rindo. A decisão de vir para o estado foi motivada pelo apoio de um familiar que já estava estabilizado e que relatou oportunidades locais de trabalho e estudo, diante da crise enfrentada pela Venezuela.
Chegada ao Brasil
Com o isolamento social causado pela pandemia da covid-19, ele cursou todo o 3º ano do ensino médio em Ensino a Distância (EAD). Embora tenha tido contato com o português, as interações eram limitadas, o que exigiu criatividade no processo de aprendizagem. Osthin passou a aproveitar situações do cotidiano como forma de estudo.
“Eu ia ao supermercado e aproveitava para ver o nome das coisas. Achava que sabão e sabonete eram a mesma coisa, mas não”, explica.
Além disso, ele conta que também assistia jogos de futebol com narradores brasileiros e “lives” de pessoas jogando videogame, como forma de praticar o estudo.
Ingresso na Ufac e confusões linguísticas memoráveis
Após concluir o ensino médio, embora inicialmente estivesse interessado em desenho gráfico e tecnologia, a ausência dessas opções na universidade levou Osthin a optar pelo curso de inglês, área que dialogava com sua formação anterior e com a necessidade de adaptação linguística no Brasil.
Ele relata que o maior avanço no domínio do português ocorreu após o ingresso na faculdade. “Eu aprendi português, me comuniquei com todo mundo, consegui desenvolver e pegar um pouco mais de confiança.”
A proximidade entre português e espanhol, apesar de facilitar o aprendizado, também gerou situações curiosas. Durante o primeiro almoço no restaurante universitário da Ufac, Osthin se confundiu ao relatar o cardápio.
“Eu fui almoçar no restaurante universitário e minha colega me perguntou o que tinha sido o almoço. Aí eu falei: arroz, frango, feijão e salada de cachaça”, conta, rindo.
“As duas palavras são tão diferentes, tipo, não sei porque eu lembrei de cachaça, eu nem sabia o que era isso”.
Outro episódio envolveu o uso dos diminutivos. Ao comentar fotos do bebê de uma colega, tentou ser carinhoso:
“Que fofinho o bebê, com sua calcinha, a camisinha”.
Ele acreditava que o sufixo “-inha” servia para qualquer peça de roupa pequena. “Não me matem. Não pensem coisas erradas”, pediu, envergonhado, ao descobrir o significado real das palavras.
Osthin Querales, estudante venezuelano de Letras-Inglês na Ufac, constrói sua trajetória acadêmica entre línguas, culturas e fronteiras. Foto: Wellington Vidal
Choques culturais e linguísticos
A adaptação também passou por choques culturais, como descobrir que brasileiros comem pizza com garfo e faca ou compreender expressões regionais como “dar um balão” e “vai cair um pau d’água”.
Quando questionado sobre qual língua considera mais fácil de aprender além da língua materna, Osthin responde sem hesitar: “Ah, gente, isso é muito fácil. O português de fato porque parece bastante com espanhol, não é igual, mas parece”.
Ele observa, no entanto, que essa proximidade também gera desafios, já que as semelhanças entre as línguas podem provocar confusão. Diferenças gramaticais e estruturais exigem atenção constante durante o processo de aprendizagem.
Trajetória como professor
A trajetória acadêmica de Osthin ganhou um novo capítulo no Centro de Idiomas da Ufac, onde, sob orientação da coordenadora Raquel Ishii, passou a ministrar cursos de inglês e espanhol. No início, o processo exigiu grande esforço cognitivo, já que precisava transitar entre três línguas para explicar os conteúdos aos alunos. Nas situações mais complexas, contou com o apoio da monitora Nicole, que auxiliava na mediação da comunicação.
Centro de Idiomas da Ufac, espaço de aprendizagem, troca cultural e formação linguística. Foto: Asscom/Ufac
Com o tempo, a experiência fortaleceu sua autonomia e consolidou o ensino como parte de sua identidade. Para Osthin, aprender um idioma vai além da gramática e envolve compreender histórias e culturas. Ele se inspira em um ditado popular das escolas venezuelanas: “no hay preguntas bobas sino bobos que no preguntan”, que significa “Não existem perguntas estúpidas, apenas pessoas estúpidas que não as fazem”.
Atualmente cursando o 8º período da Licenciatura em Letras-Inglês na Ufac, Osthin reconhece que o processo de adaptação foi desafiador, mas valoriza o acolhimento recebido:
“Obviamente que a gente teve nossas dificuldades, como tudo, nada é perfeito. Nossos momentos de saudades lá na Venezuela, saudades da família, do lar. Mas claramente eu valorizo tudo que eu venho conseguindo, as pessoas que eu venho conhecendo, o tratamento que as pessoas têm comigo e pra minha família”.
Ao citar o artista Bad Bunny, ele compartilha um lema pessoal: “Onde quer que você esteja, se você mudou de país, de grupo, de estado, de cidade, onde seja que você for, lembre-se sempre de onde você veio. Lembre-se sempre de onde veio os seus princípios, mas sempre seja grato onde você está”.
Orgulhoso, reforça sua identidade: “Eu sou venezuelano e sempre eu digo nas minhas apresentações, mas também eu sempre digo que sou muito grato pelas pessoas aqui que eu vim conhecendo, pelas pessoas brasileiras, por Rio Branco, pelo Acre”.
Para Osthin, a língua não é uma barreira, mas uma ponte, uma travessia possível, desde que exista disposição para se comunicar.
Fotógrafos registram momentos no Parque do Ipê e vendem imagens pela plataforma Foco Radical
Plataforma reúne mais de 6 mil fotógrafos, publica cerca de 50 milhões de imagens por mês e transforma registros de treinos em oportunidade de renda digital
Fotógrafos autônomos estão transformando as caminhadas e corridas realizadas na pista do Ipê, em Rio Branco, em oportunidade de renda por meio da comercialização de imagens na plataforma digital Foco Radical. Os profissionais registram corredores, ciclistas e frequentadores durante as atividades físicas e disponibilizam as fotos para venda no site.
Francisco do Nascimento, de 26 anos, atua na área há cerca de um ano e meio. Segundo ele, o trabalho começou como uma forma de complementar a renda e passou a se consolidar com o apoio da plataforma. “É um trabalho que começou como uma forma de ganhar dinheiro e acabou dando certo”, afirma. Ele destaca ainda que o sistema facilita o processo, já que “a gente faz o registro e a plataforma cuida da parte da venda”.
Sistema digital facilita busca e compra das fotografias
Página inicial da plataforma Foco Radical. Foto: site do Foco Radical.
Após os registros feitos com câmera profissional, as imagens são enviadas ao site, onde ficam organizadas por data e local, além de ferramentas que auxiliam na identificação dos participantes. O cliente acessa a plataforma, localiza a foto e escolhe o formato disponível, geralmente em arquivo digital de alta resolução.
O pagamento é realizado diretamente pelo sistema, com opções via Pix, boleto bancário ou cartão de crédito. A empresa intermedeia a transação e repassa ao fotógrafo o valor correspondente às vendas efetuadas.
Os dados da plataforma mostram a dimensão do serviço: são mais de 6 mil fotógrafos ativos, mais de 50 milhões de fotos publicadas mensalmente, mais de 140 mil eventos esportivos cadastrados, um acervo superior a 1 bilhão de imagens, mais de 2 milhões de clientes e mais de 15 milhões de fotos vendidas.
Experiência surpreende e agrada praticantes de atividade física
Parque do Ipê localizado na estrada Dias Martins. Foto: Diogo José
Entre os frequentadores que já adquiriram imagens está Lucas Araújo, de 30 anos. Ele relata que ficou surpreso ao perceber que estava sendo fotografado durante o treino. “Foi uma grande surpresa”, comenta. Apesar disso, afirma que se sentiu confortável com a situação.
Após acessar a plataforma e encontrar sua imagem, decidiu realizar a compra motivado pela qualidade do registro. Para o corredor, a fotografia representa mais do que um momento esportivo. “É um registro que faz parte da minha história”, afirma. Ele também avalia de forma positiva a presença dos fotógrafos no local.
Plataforma concentra acervo bilionário de fotos esportivas
A pista do Ipê, localizada no Condomínio Ipê, é um dos pontos mais movimentados para a prática de atividades físicas na capital acreana. O fluxo constante de pessoas transformou o espaço em cenário favorável para registros fotográficos, integrando esporte, tecnologia e geração de renda em um mesmo ambiente.
“Começamos plantando árvores e hoje plantamos ideias.” A frase é da bióloga brasileira Elenn Ferreira, cofundadora da Associação Florestania, e resume a trajetória do projeto criado em 2015, em Cobija, cidade boliviana localizada na fronteira com o Brasil.
Criada a partir da recuperação de uma área degradada pela pecuária, a Florestania transformou um solo seco em um centro de educação ambiental, agricultura regenerativa e turismo sustentável. Ao longo dos anos, a iniciativa passou a defender a floresta amazônica não apenas como um recurso natural, mas como protagonista e sujeito de direitos.
O que começou como um esforço técnico de recuperação ambiental ganhou novos sentidos com o tempo. A iniciativa incorporou dimensões políticas, educativas e comunitárias, ampliando seu impacto para além da restauração do solo e se consolidando como um movimento de transformação social na região de fronteira amazônica.
A Florestania também atrai voluntários de diferentes partes do mundo. Para Ashley Vliet, da Holanda, que participou do projeto em julho de 2024 por meio da plataforma Workaway, a experiência na Amazônia representou um encontro com outras formas de existir.
“Vim para a Amazônia para aprender sobre diferentes culturas e modos de vida. Aqui, a relação com a natureza e com as plantas é diferente de tudo o que conhecia na Europa, e isso muda a forma como a gente enxerga o mundo”, afirma.
Ao longo dos últimos anos, o espaço recebeu mais de 170 voluntários de 18 países e promoveu dezenas de oficinas, formações e atividades educativas. O trabalho dialoga tanto com o saber acadêmico quanto com o conhecimento popular, envolvendo estudantes, pesquisadores e moradores de bairros periféricos de Cobija.
Nesse período, a associação também avançou na recuperação ambiental, regenerando hectares de solo arenoso e transformando áreas degradadas em espaços biodiversos e produtivos. Cerca de 90 toneladas de resíduos orgânicos por anosão gerenciadas para recuperar o solo e fortalecer a produção de alimentos. Ao todo, 890 pessoas, com idades entre 5 e 85 anos, já foram capacitadas em práticas agroecológicas, incluindo voluntários de 15 países.
Para os idealizadores, o próprio nome Florestania expressa uma conexão profunda com o território. “Não se pode pensar nada neste território sem entender que a floresta é a grande protagonista”, explicam. A iniciativa se orienta pelo conceito do viver bem, filosofia que defende que só há desenvolvimento verdadeiro quando ele acontece em favor da vida. Sob essa lógica, qualquer atividade que atente contra o meio ambiente não pode ser considerada progresso.
A atuação da associação também ganhou destaque nas ações de prevenção de queimadas e na mobilização de jovens. Pelo trabalho desenvolvido, a Florestania recebeu o Emblema de Ouro, a maior honraria concedida pelo Corpo de Bombeiros da Bolívia.
No campo do turismo, o projeto foi reconhecido como Embaixador do Turismo na Bolívia, ao oferecer uma experiência baseada no respeito a todas as formas de vida. A proposta, definida pelos organizadores como turismo consciente, busca romper com práticas predatórias e estimular uma relação ética com o território.
Atividades tradicionais, como a extração de borracha e a coleta da castanha-do-brasil em áreas rurais e florestais, vêm sendo pressionadas pela expansão da agricultura e da pecuária, o que provoca degradação do solo, redução de corredores ecológicos para a fauna e desmatamento. Além disso, os efeitos crescentes das mudanças climáticas tornam Cobija altamente vulnerável a secas intensas, incêndios, enchentes e surtos epidemiológicos.
A proposta da Florestania também é reconhecida por profissionais que atuam na área do desenvolvimento sustentável na região. Para a especialista em arquitetura sustentável e paisagismo, Ana Lucia, capacitada em técnicas de bioconstrução pelo Tiba e pelo Ebiobambu, o projeto ocupa uma posição estratégica, especialmente por estar localizado próximo à área urbana de Cobija, o que amplia seu potencial de impacto social e ambiental.
“Florestania é um centro de educação ambiental e agrofloresta com grande potencial para o desenvolvimento sustentável. A iniciativa atua na regeneração do habitat e se consolida como um importante agente na promoção dos serviços ecossistêmicos”, avalia.
No intervalo entre uma aula e outra, Vinícius Silva, universitário de 24 anos, confere o aplicativo do banco no celular e faz as contas para saber se conseguirá pagar a fatura do cartão do mês. Morando sozinho pela primeira vez, dividindo aluguel e equilibrando estágio e estudos, ele precisou parcelar despesas básicas e hoje carrega uma dívida que, apesar de não ultrapassar mil reais, pesa no orçamento apertado de quem ainda está construindo a própria renda.
“Eu nunca achei que fosse me enrolar com uma dívida tão cedo. Comecei parcelando uma compra pequena e, quando vi, estava acumulando fatura do cartão com outras contas do mês. Como estudante, a gente depende de estágio ou ajuda da família, e qualquer imprevisto desorganiza tudo”, afirma.
A realidade de Vinícius dialoga com um cenário mais amplo no estado. O número de pessoas inadimplentes no Acre cresceu 2,71% em novembro de 2025 na comparação com o mesmo mês de 2024, segundo relatório mensal do SPC Brasil, que monitora registros de dívidas em atraso em todo o país.
Na passagem de outubro para novembro, o avanço foi de 0,73%. Apesar do crescimento, o índice estadual ficou abaixo da média da Região Norte (8,62%) e da média nacional (8,93%) no comparativo anual.
O levantamento considera informações consolidadas nas bases administradas pelo SPC Brasil, que reúnem registros de instituições financeiras, comércio, empresas de serviços e concessionárias credoras.
Para Istanrley Rocha, do setor financeiro da Câmara de Dirigentes Lojistas de Rio Branco (CDL), os dados indicam um cenário que exige atenção, especialmente no que se refere à duração da inadimplência.
“Embora o crescimento percentual no Acre esteja abaixo das médias regional e nacional, o tempo médio de permanência na inadimplência é um dado que preocupa. Quando o consumidor permanece mais de dois anos com restrição, a reorganização financeira se torna mais difícil e o acesso ao crédito fica comprometido”, explica.
Segundo ele, o perfil das dívidas mostra que grande parte dos débitos envolve valores relativamente baixos, situação semelhante à enfrentada por muitos jovens como Vinícius, que acumulam pequenas despesas no cartão ou no crediário.
“Quase metade das dívidas é de até mil reais. Isso demonstra que pequenos compromissos, quando acumulados ou mal planejados, podem gerar restrição prolongada e afetar o orçamento familiar”, pontua.
Perfil do inadimplente
A faixa etária com maior participação entre os devedores no Acre é a de 30 a 39 anos, representando 26,99% do total. A idade média dos negativados é de 43,6 anos.
A distribuição por gênero permanece equilibrada: 50,45% são mulheres e 49,55% homens. Em relação aos valores, 47,51% das dívidas registradas são de até R$ 1.000. O valor médio devido por consumidor no estado é de R$4.572,52.
Planejamento financeiro se torna desafio para jovens que conciliam estudos, estágio e aluguel. Foto: reprodução
O tempo médio de atraso chega a 29,2 meses, e 35,95% dos devedores permanecem inadimplentes entre um e três anos. Cada consumidor negativado no Acre possui, em média, 2,137 dívidas em atraso, número inferior à média da Região Norte (2,180) e à média nacional (2,227).
O setor bancário concentra 53,85% das dívidas registradas no estado, seguido por comércio, serviços essenciais e comunicação, áreas que fazem parte do dia a dia de estudantes e trabalhadores.
Apesar das dificuldades, Vinícius diz que começou a reorganizar as finanças e acredita que é possível sair do vermelho com planejamento. “Eu parei de usar o cartão por enquanto, anotei todos os meus gastos e estou tentando negociar a dívida para pagar com desconto”
Segundo ele, a solução é buscar ter mais educação financeira. “É necessário esse apoio para quem está começando a vida adulta, porque muita gente se endivida sem nem entender direito como isso acontece”, finaliza.