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Histórias de vida

Os 60 anos do Quinari: entre história, estórias e fofocas

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Por Felipe Souza

Uma cidade pequena, vizinha da capital acreana, com pouco mais de 22 mil habitantes e muitas histórias para contar. Considerado por muitos um local pacato, já foi uma vila antes de receber o título de município, pela Constituição Estadual de 01 de março de 1963, completando 60 anos em 2023.

A cidade leva o nome de José Guiomard dos Santos, um político mineiro que atuou  no Acre. Ele foi governador do território entre 1946 e 1950, e eleito deputado federal logo em seguida, em 1951, quando apresentou o projeto de lei para elevar o Acre de território federal a Estado, medida concretizada em 1962. No mesmo ano, foi eleito senador.

No entanto, o município até os dias de hoje ainda é conhecido pelo nome enquanto vila: Quinari. Por muitos, visto como um lugar sem futuro, por outros, como lar e aconchego. Cidades pequenas podem, muitas vezes, te laçar e criar uma ligação eterna, que te faz ficar preso lá. Senador Guiomard pode ser, e é, uma dessas cidades.

Imagem: Felipe Souza

Crianças brincando na rua, pessoas passeando com animais, estudantes saindo ou indo para a escola, um certo trânsito de veículos – talvez grande o suficiente para a existência de um semáforo, o que realmente veio a acontecer recentemente, são coisas comuns de se verem por lá.

Pela falta de entretenimento, a população sempre faz as mesmas coisas: tomar açaí na El Shaday local, comer pastel em uma lanchonete ao lado, ir à pracinha situada no Centro da cidade, e, aos finais de semana, para quem gosta, ouvir pagode no ‘Deck Quinari’.

Imagem: Felipe Souza

Reclamações são frequentes por lá, tanto das ruas sem pavimentação, quanto da vizinhança fofoqueira (ou seria a cidade inteira?). Uma cidade pequena pode ter dessas coisas; pessoas que você nunca viu sabem mais de sua vida do que você mesmo.

Imagem: Felipe Souza

Com um único hospital, o Ary Rodrigues, a população geralmente enfrenta grandes filas para um atendimento. Apesar disso, as Unidades Básicas de Saúde estão em abundância por lá, com cerca de 12, contando zona urbana e rural, assim como as farmácias, que são pelo menos oito no pequeno território.

Nos últimos anos, desde a eleição de 2020, com a gestão atual, muitos eventos passaram a acontecer na localidade. Eventos que não aconteciam há muito tempo como, por exemplo, a Expoquinari, uma versão mais modesta da Expoacre, para a população “quinariense”.

Até mesmo histórias (ou estórias) de terror assolam a pequena cidade acreana. Há boatos que, em determinada curva próxima à entrada da cidade, existe um fantasma de uma mulher viúva, que vaga em busca de seu marido. Há relatos de que, sim, ela existe e gosta de assombrar os caminhoneiros, que passam por ali à noite. A “assombração”  é conhecida como Mulher de Branco.

Apesar de tudo, Senador Guiomard é, para muitos, lar, aconchego e casa. De reclamações não pode se safar, até porque seres humanos habitam lá. E quem sabe, possa comemorar muitas outras décadas com gente “presepeira”, pois, segundo os moradores, Quinari é Hollywood.

Imagem: Felipe Souza

Histórias de vida

Debaixo do pé de ingá

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Por Iza Bruna e Aline Vitória

Cruzeiro do Sul, 1984

“Era um domingo e nos dias de domingo geralmente a família ia na casa do tio Waldecir, primo do meu pai. Lá passávamos o dia com os filhos dele e os filhos do tio Antônio, irmão do tio Waldecir”.

Tio Waldecir trabalhava cuidando das criações dos padres da diocese. Eles criavam bois, galinhas e porcos. O lugar dos suínos  era uma casa coberta de telhas de Brasilit e chão de terra batida. Do lado do chiqueiro tinha um pé de ingá. Na semana anterior, o primo, filho do tio Waldecir, subiu na árvore e, no que ele foi passar da dela para o telhado, caiu e quebrou o braço.

No domingo seguinte, quando foram lá, a mãe falou: “Tu não vai subir naquele pé de ingá! ” e ela respondeu “Tá bom, mãe, não vou subir”. Chegaram, brincaram e foram atrás de pegar algumas frutas,e lá estava ele, o bendito pé de ingá, que o primo tinha caído e quebrado o braço. 

“Subi, subi e fui até a altura do telhado.Quando eu cheguei lá, fui pisar na telha. Os meninos diziam pra eu não pisar na telha, mas sim em cima de onde tivessem os preguinhos. Só que já era tarde demais. Despenquei! Foi muito rápido”, ela explica, fazendo amplos movimentos com a mão.

“Caí sentada, acredita?!?!” Machucou o tornozelo bem de leve e o punho. Caiu de uma altura de aproximadamente três metros e meio, no chiqueiro, que, por sorte, estava limpo. Ainda em choque, se tremendo de medo, pegaram no colo e chamaram a sua mãe para ir ao hospital. “Pensavam que eu tinha quebrado outra coisa, porque eu ficava puxando o pé, pois doía muito o tornozelo”, lembra.

No hospital, viram que um dos ossos do antebraço quebrou de uma forma que ficou para cima no punho, mas só fizeram um curativo e colocaram o gesso para ver se juntava. Naquela época, eles tinham o hábito de puxar o osso para tentar encaixar de volta. Puxavam, um de um lado e outro do outro, para ver se “encaixava na munheca”.

“Mas o meu não teve jeito”. Quinze dias depois ele teve que operar, colocaram pinos de platina. “Só não perdi o movimento do braço porque a minha mãe foi a minha fisioterapeuta, já que na época os médicos não eram muito diferentes de açougueiros”, comenta, achando graça.

Como não tinha muitos recursos, ela ficou seis meses com o gesso. “A mãe que tirou em casa. É uma sensação horrível… Tu fica assim, ó! ”, mostra ela, com o braço levantado e em direção ao corpo. 

Sua mãe brigava para que não ficasse na posição errada, falava para fazer certos movimentos e passava sebo de carneiro. Alguns movimentos com essa mão ela ainda hoje tem dificuldades de fazer, e mostra a mão esquerda aberta para cima em direção ao corpo, enquanto a direita fica com o movimento incompleto.

“Eu passei seis meses fazendo tudo com a mão esquerda, escrevendo, me limpando, fazendo tudo, aí virei ambidestra, uso as duas mãos pra tudo”, diz, com um sorriso satisfeito no rosto.

Hoje, quando se vê realizando suas atividades do cotidiano, se surpreende consigo mesma, “Escrevo no celular com a mão esquerda. Quando eu lavo roupa, é muito engraçado, porque eu uso as duas mãos. Me sinto super ágil!” Rimos juntas, porque é verdade, às vezes parece que ela é um polvo pela facilidade de executar várias ações com as mãos.

Essa é a história de Cariete da Costa Santiago, hoje com 47 anos, que virou ambidestra, depois de cair de um pé de ingá. Hoje ela trabalha na área da Saúde como Técnica em Enfermagem, onde já atuou no cuidado intensivo de bebês prematuros e em Home Care de idosos.

Foto: Reprodução/Rede Social

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Histórias de vida

Rua do Trapiche

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Por Andriny Silva

Hoje chamada rua Ricardo Campelo, outrora rua do Trapiche, recebeu esse nome pois, de acordo com quem mora lá, há alguns anos a população precisava andar por cima de estruturas de madeira, os chamados trapiches, pois havia muita lama.

Esta rua fica localizada no bairro Boa Vista, na Baixada da Sobral, uma ampla região que abriga 18  bairros, assim como diversos comércios, escolas, órgãos públicos, entre outros tipos de estabelecimentos. A região é como se fosse uma outra cidade dentro de Rio Branco.

Também chamada “Baixada do Sol’’, esse nome foi criado para evitar que chamassem de “Sobral’’ todos os diferentes bairros que são cortados pela estrada de mesmo nome. É um espaço que abriga muitas pessoas que vieram de outros municípios e, assim como o sol, nasceu para  todos.

Antigamente a região era bem diferente do que é hoje, era uma fazenda e, pouco a pouco, casas foram construídas e formando diversos bairros e ruas. Nesse tempo, havia muita lama, contrastando com a visão atual, em que a maioria das ruas são cobertas por asfalto ou pelos  tradicionais tijolos. 

A dona de casa Luziete Mesquita da Costa, de 43 anos, é uma entre as diversas pessoas que saíram de seus locais de origem e hoje tem como lar a Baixada da Sobral, sendo  moradora dessa região há quase 30 anos. 

Ela vivia na zona rural mas,aos 14 anos, começou a morar com a irmã mais velha, Izalete, que já era residente do bairro João Paulo. O objetivo de Luziete era estudar, porém, a vida tomou outro rumo e ela acabou estudando apenas até a oitava série. 

Quando ela chegou, ainda existiam os trapiches e muita lama, assim como a vida, que é cheia de mudanças, ela viu a rua feita de lama se transformar em tijolos. E a rua também  acompanhou as mudanças de sua vida, viu quando conheceu seu primeiro esposo, o  nascimento de seus três primeiros filhos,viu o seu divócio, e o nascimento dos dois  outros filhos que vieram depois., e até hoje vê os sonhos de Luziete, que almeja terminar de reformar sua  casa e ver seus filhos formados, se realizando. E a rua segue vendo,  a cada dia, todo o trajeto da vida de Luziete e de outros moradores. 

A vendedora de doces regionais Andressa da Costa Silva tem 27 anos e mora na região há 17, sendo  12 deles  como moradora da rua Ricardo Campelo.  Ela tinha apenas dez anos de idade quando seus pais resolveram se separar e metade  de sua família, da parte materna, morava espalhada pela região da Baixada da Sobral. 

Na época em que chegou, muitas ruas ainda eram de trapiche e a área era   conhecida como periférica, Sua vida foi, praticamente, toda na Sobral, nas regiões de Boa Vista  e João Paulo,chegando a morar em várias ruas por conta das muitas mudanças. 

Quando,  enfim, se instalou na rua Ricardo Campelo, não tinha saneamento básico, havia muito  mato e esgoto a céu aberto, entretanto, hoje em dia o local está mais valorizado, e ganhou melhor estrutura, como a mudança da rua de trapiche para tijolos

A rua Ricardo Campelo já foi conhecida como rua das flores. Também foi conhecida por ser muito perigosa, lar de confrontos entre facções. Atualmente, porém, a onda de  violência reduziu. 

Luziete e Andressa, de formas particulares, possuem uma boa relação com seus vizinhos. Andressa, conversa, se dá bem e acha os vizinhos super harmoniosos. Luziete, por outro lado, não é de ficar conversando, mas não tem nenhum problema com seus  vizinhos. Ela acredita que cada um vive sua vida tranquilamente, sem problema nenhum, se dá super bem com todos, mas com cada qual no seu canto. 

Luziete gosta do local onde mora e não pretende mudar. Andressa, por outro lado, gosta  do seu bairro em geral, gosta da facilidade em questão de transporte público e gosta do  fato de andar pouco e logo encontrar padarias, açougues, frutarias, escolas e paradas de  ônibus, porém, apesar de gostar de onde mora, acredita que a vida é repleta de mudanças  e ela pretende se mudar futuramente. 

Para conhecer a região:

TORRES, Gilmar. Conheça a Baixada da Sobral. Blog fala baixada, Rio Branco, 2018.  Disponível em: <http://falabaixada.blogspot.com/p/conheca-baixada-do-sol_30.html>.  Acesso em: 01 set. 2022 de Setembro.

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Histórias de vida

Uma vida entre rios

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Por Sarah Helena e Tácila Matos

No bairro Tucumã, entre dois dos 11 filhos, mora a grandiosa matriarca de 1,50 cm da família Brito. Ela leva uma vida tranquila e sossegada, aproveita a idade avançada para fazer o que gosta: cuidar de suas tão queridas plantas, ir à igreja cultivar sua fé e desfrutar da família que tanto ama. Hoje, é grata pela paz e estabilidade de sua vida, mas quem vê essa senhorinha tão calada e serena não imagina todas as dificuldades que ela já viveu e superou.

Essa é Helena Soares de Brito, ou melhor, Dona Irene, como é chamada desde pequena e conhecida por todos; mas ao ser perguntada sobre o mistério dos dois nomes, ela diz “Meu bem, aí é uma resposta que eu não sei nem responder”. Mas com certeza esse nome lhe serve bem, visto que Irene, do Grego, significa “a Pacificadora”, encaixando muitíssimo com sua personalidade calma e singela.

A Trajetória – Do Rio Irú a Rio Branco

Ela nasceu em uma comunidade às margens do Rio Irú, próximo a cidade de Eirunepé, no Amazonas, no ano de 1936. E aí começou a trajetória de adversidades da pequena Irene. Apesar de ser relutante em se abrir sobre a infância, ela afirma em voz baixa, quase que num sussurro, que o início de sua vida foi muito difícil. “Perdi meu pai muito cedo”, por volta dos cinco anos de idade, diz. E emociona-se por não ter memórias com ele. Pouco tempo depois, a mãe, chamada Francisca Soares de Lima, casou-se novamente, levando Irene e suas irmãs, Regina e Maria, para morar no Seringal Aurora, no Vale do Juruá, agora adentrando o estado do Acre.

Desde muito pequena aprendeu a trabalhar em roçados para ajudar a família, mesmo assim, a mãe encontrava dificuldades para criar as três filhas. Então, aos 8 anos de idade, Irene e suas irmãs mudaram-se e foram morar com famílias distintas, por decisão da mãe. Situação comum para a época, na qual os pais “davam” os filhos para serem criados por outras pessoas, devido à difícil situação financeira. 

Assim, Irene seguiu o fluxo do Rio Juruá, chegando ao Seringal Três Bocas, onde morou com Francisco Regino de Brito e Idalina Mendes Guimarães, donos do local, e seus filhos, durante o restante de sua infância e toda a adolescência. Dentre os 11 filhos do casal, Rui Guimarães de Brito foi escolhido para casar-se com Irene, com quem construiu sua família.

Quando se casou com Rui, ele era dono da chamada Colocação das Gaivotas, ou seja, uma propriedade dentro do Seringal Três Bocas, que pertencia a seu pai. Dessa forma, lá estabeleceram-se: Rui, sendo o patrão dos negócios de extração da seringa e produção da borracha, e Irene, continuando com o trabalho no roçado e criação de animais. O casal teve ao todo 13 filhos, mas dois faleceram ainda durante a infância.

Dona Irene sempre manteve uma grande preocupação sobre o futuro dos seus filhos, queria que estudassem e adquirissem uma educação para terem a possibilidade de uma vida melhor, tendo em vista toda a dificuldade que passou durante a infância no seringal. Mas sua apreensão era voltada de modo especial às filhas: “eu dizia pras meninas, pra elas estudarem pra nunca serem dependentes de marido, porque não é todo marido que quer dividir o dinheiro dele com a mulher”.

Portanto, tomou a decisão de mandar os filhos para Cruzeiro do Sul, cidade do Alto Juruá, no Acre, para que estudassem e, assim, pudessem conquistar uma vida melhor e mais estável. Quem a apoiou durante esse processo foi o cunhado Romeu e sua esposa Magali, que tinham estabilidade e já moravam na cidade. Assim, a primeira filha levada foi Hilma, a mais velha, aos sete anos de idade. E aos poucos, um por um, os demais filhos também mudaram-se para a casa dos tios a fim de começar os estudos. Eles retornavam apenas nas férias.

Quando, enfim, restavam apenas os caçulas, Irene tomou a decisão de também sair do Seringal e acompanhar os filhos na cidade. Apoiada novamente por Romeu, ela partiu com as crianças de navio, enquanto Rui permaneceu na Colocação das Gaivotas para conseguir recursos para construir uma casa na nova morada.

Em Cruzeiro do Sul, trabalhou como costureira, ofício que aprendeu ainda criança fazendo roupas para suas bonecas, além da permanência no roçado. E dessa forma ajudou no sustento da família. Logo mais, seus filhos, já maiores, começaram a trabalhar como babá, em construções, vendendo comidas, etc.

Apesar das diversas dificuldades que passou na vida, ela se sente muito feliz de ver todos seus filhos bem. E afirma que o que a manteve “de pé” durante sua trajetória difícil foi a fé.

”Eu vi Nossa Senhora”

Por volta dos 12 anos, Irene foi morar com uma das filhas de Francisco Regino e Idalina, Riselda,que casou-se e saiu do “barracão” onde a família vivia para morar com o marido em uma casa pequena, de apenas um cômodo, que ficava mais distante da instalação principal. O marido de Riselda acordava todas as madrugadas para tomar café e a jovem devia se levantar mais cedo para fazê-lo. 

Numa madrugada, como de costume, levantou-se, acendeu o fogo, fez o café e depois que o cunhado havia bebido, ele voltou a deitar-se,  apagou o fogo e voltou para sua rede. De repente, uma luz intensa clareou a casa inteira, Irene olhou e viu uma mulher em pé ao lado de sua rede olhando para ela, vestida com um vestido branco e um manto azul. Imediatamente a jovem a reconheceu como Nossa Senhora das Graças. 

“Eu não fiquei com medo”, ela diz sobre a aparição, experiência que só intensificou sua fé. Em cada um de seus trabalhos de parto, ela pedia as bênçãos de Nossa Senhora para lhe ajudar, numa época onde não havia qualquer acompanhamento médico para gestantes.

Vivendo o sonho

Dona Irene, depois de ver seus filhos terminando o colegial, viu-os também, um por um, deixarem a cidade de Cruzeiro do Sul e chegarem à Rio Branco em busca de ensino superior. Aos poucos, foram formando suas próprias famílias e se estabeleceram na capital. Dessa forma, a mãe não via mais sentido em permanecer no interior, longe dos filhos e enfim chegou à Rio Branco.

Aos poucos a família cresceu, foram chegando cada vez mais netos e bisnetos. Hoje, a senhorinha de 88 anos leva uma vida muito feliz, rodeada pela família e afirma que seu sonho foi concedido. “Quando eu morava no seringal, o que eu mais pedia era sair de lá e ter uma velhice sossegada”, desejo que, enfim, conquistou.

Dona Irene, Rui e os 11 filhos, 2012. Foto: Arquivo Pessoal

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