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Filhos? Não, obrigada! 

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Por Fernanda Maia, Gabriel Vitorino, Jhenyfer de Souza

“Eu vou concordar com o que Machado de Assis fala: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” A frase escrita pelo escritor no século XIX ressoa hoje na voz de Mariany Santana, natural do Piauí, que aos 23 anos decidiu fazer laqueadura e escolheu romper de vez com a possibilidade de ser mãe. 

Marieny enxerga a ausência de filhos não como uma falta, mas sim uma escolha de quais  batalhas deseja enfrentar na sua vida. E esse pensamento não é isolado, assim como ela, cada vez mais mulheres questionam o destino que lhes foi imposto culturalmente por gerações: a maternidade. 

O desejo de se opor à maternidade era um tabu, mas hoje ganha corpo em estatísticas e debates, que são explicados por dados que apontam não só para o medo da instabilidade econômica que dificulta a criação de filhos mas também para uma geração que, pela primeira vez, sente mais liberdade em reivindicar o direito de dizer, sem culpa, “não quero ser mãe”. 

Além disso, dados mostram o crescimento do movimento de mulheres que pensam da mesma forma. Pesquisas do Censo 2022 (IBGE) mostraram que o percentual de mulheres com 50 a 59 anos que não tiveram filhos subiu para 16,1%, em comparação com os anos 2000 que era de apenas 10,0%. Além disso, a pesquisa demonstra que em 2010, o maior índice de fecundidade era visto no grupo de 20 a 24 anos. Já em 2022, esse pico se deslocou para a faixa de 25 a 29 anos. Esse envelhecimento é causado pela redução na fecundidade entre as mulheres mais jovens.

A PNAD 2019 revelou que 10% das mulheres em idade reprodutiva declararam não desejar filhos, isso coincide com a queda expressiva na taxa de fecundidade que era de 6,3 filhos por mulher em 1960 e chegou a 1,6 em 2022, abaixo do nível de reposição populacional (2,1).

Maternidade é escolha

Na sociedade existe há alguns séculos a necessidade de impor aos gêneros seus respectivos papeis, muito influenciados pela herança de uma cultura machista que restringia as mulheres à procriação e cuidados com o lar. Hoje notamos certas mudanças nesse contexto, mulheres estão conquistando cada vez mais os seus espaços fora do âmbito familiar e possuem reflexão cada vez maior sobre suas aptidões e desejos. 

A maternidade foi muitas vezes associada a estereótipos que reduziram a mulher a papéis naturais de fragilidade e dedicação exclusiva ao cuidado com os outros. Essa visão ficou enraizada nas estruturas sociais, com as mulheres vistas como cuidadoras, responsáveis pelo lar, pela gestação e pela criação dos filhos, o que reforçava que a realização da mulher estava necessariamente ligada à maternidade.

Essa associação entre mulher e maternidade está cada vez mais distante da realidade atual da mulher, que muitas vezes visa liberdade e independência feminina. Hoje, algumas mulheres buscam autonomia, crescimento pessoal, profissional , e desafiam as funções que as definiram apenas com base em papéis reprodutivos. Para algumas mulheres a maternidade não é mais vista como um destino inevitável, mas sim uma escolha. 

Pâmela Freitas palestrando sobre representações de mulheres e desconstruindo estereótipos. Foto: Arquivo Pessoal

A frase “não quero ser mãe” pode parecer simples, mas carrega um peso social imenso para quem decide dizê-la em voz alta, especialmente quando se é uma mulher jovem. Essa afirmação pode taxar a mulher que prefere não ser mãe como egoísta e colocando-a quase como vilã. 

Escolha Definitiva

Em posicionamento público, por meio de suas redes sociais, Mariany Santana relatou como a decisão definitiva encerrou de uma vez por todas a possibilidade de ter filhos.  O vídeo sobre sua experiência em fazer a laqueadura aos 23 anos viralizou e atingiu milhares de pessoas que se identificaram, discordaram ou se surpreenderam com sua posição convicta.

“Essa decisão de não ter filhos, ela não veio do dia para noite. Foi bem pensada. Começou com um sentimento de enxergar que a maternidade não era de fato para mim. A maternidade existe muito sacrifício, muda totalmente a dinâmica do casal, muda totalmente a mulher e é como se fosse um emprego vitalício. Então, eu vi que isso não era para mim”, contou Mariany.

Mariany testemunhou em sua própria família os sacrifícios da maternidade e decidiu que não queria seguir o caminho da criação dos filhos e optou pela cirurgia de laqueadura com o objetivo de realizar um método definitivo. 

Ela buscou um método com 100% de garantia e optou por remover as trompas, ao invés dos métodos anticoncepcionais tradicionais. “Viver numa família grande, observar os sacrifícios, saber que eu estava criando uma criança para o mundo e que talvez essa criança não seguisse os os meus passos, não seguisse os meus conselhos, eu não teria controle sobre ele, sobre o que viveríamos, sobre os perigos ao qual ele poderia se expor, tudo isso me fez optar por não ser mãe.”

Apesar de sua decisão ter sido recebida com mensagens de apoio da grande parte de seus familiares, Mariany conta que ao publicar em suas redes sociais sofreu julgamentos e até ataques online por suas opiniões: “É um hate desmedido, é desproporcional, eles se lamentam e dizem que eu sou egoísta.” 

Sem medo de se arrepender, Mariany segue firme em sua decisão. “Eu prefiro me arrepender por não não ter um filho do que ter um filho e me arrepender, eu tinha conhecimento sobre todos os métodos, sobre falhas, eu me mantive virgem para fazer a cirurgia, eu realmente estava firme.”

As Motivações

Os motivos por trás dessa escolha são diversos, e entre eles se encaixam questões econômicas, pois para a classe média, criar um filho até os 18 anos no Brasil custa em média R$ 1,4 milhão, segundo cálculos do IPC/FGV de 2023.  As mulheres também estão cada vez mais valorizando o direito de decidir priorizar as suas vidas pessoais ou suas carreiras profissionais e ter autonomia sobre o seu corpo sem se dedicar às renúncias que vêm junto com a maternidade. Uma pesquisa do LinkedIn em 2023 sobre carreira e maternidade mostrou que aproximadamente 68% das mulheres sem filhos enxergam a maternidade como um obstáculo profissional.

Pâmela Freitas na Ufac dialogando sobre jornalismo, filosofia, ciência e tecnologia. Foto: Arquivo Pessoal

A  jornalista acreana Pâmela Freitas, 30 anos, desde cedo também não se via como mãe e buscou conhecimento sobre as questões sociais e trabalhos que envolvem a maternidade como um todo, principalmente para as mulheres. 

A jornalista entende que ter filhos gera uma carga muito maior para a mãe. “Mesmo quando ela é casada e o pai é presente, a carga sempre é maior para a mulher, como basicamente tudo na vida. Então, eu acredito que, principalmente por esse motivo, por esse excesso de trabalho, por mais essa demanda, eu nunca tive vontade”, comentou Pâmela.

A decisão de não ter filhos também esbarra em políticas públicas que ainda tratam a maternidade como uma inevitabilidade. Métodos permanentes de contracepção, como a laqueadura, seguem cercados de exigências e burocracias, especialmente para mulheres jovens.  

“Eu acredito que essa informação não chega de forma equivalente para todo mundo, e isso é um problema, porque faz com que muitas mulheres acabem engravidando por não saber como se prevenir ou por não ter acesso à cirurgia de laqueadura, por exemplo”, desabafou Pâmela. 

No caso de Pamela, a decisão de não ser mãe não surgiu de um trauma ou evento isolado, mas de uma consciência desenvolvida ao longo da vida. Desde a juventude, Pâmela nunca se enxergou em narrativas tradicionais de casamento, filhos e rotina doméstica, enquanto muitas mulheres são ensinadas a sonhar com um berço no quarto e uma criança nos braços, ela sempre sonhou com estudos, idiomas, profissão e liberdade de escolhas.

“Eu quero ser professora universitária, eu queria trabalhar como jornalista, como assessora de imprensa para pegar bagagem, para levar para sala de aula quando eu me tornar uma professora. Eu gosto de estudar, estudar idiomas como um agregador pessoal e profissional. Então, meus planos de vida estão sempre voando”, destacou Pâmela.

Por onde passa, ela evita dar margem a julgamentos. “As pessoas que mais importam para mim são as que eu falo abertamente sobre isso. Outras pessoas eu comento sobre, mas nunca dou abertura para elas me criticarem.” Ainda assim, ela reconhece que o julgamento existe, não direcionado a si, mas presente na sociedade.

Realidade sem filtro

Há uma romantização da maternidade, que ignora as renúncias que ela impõe, filhos são sim, fonte de amor, mas também exigem tempo, dinheiro, disposição emocional e física, recursos esses que muitas mulheres hoje em dia preferem direcionar a si mesmas, aos seus projetos de vida, ou mesmo à liberdade de viver sem grandes vínculos familiares. Pâmela compreende isso com clareza, para ela ter filhos nunca fez parte de um ideal de realização. 

Mulheres que não querem ser mães. Foto: Arquivo pessoal

Mais do que não desejar a maternidade, Pâmela e Mariany também rejeitam a experiência da gestação como os impactos causados no corpo, o risco à saúde que surge e as cobranças sociais que se impõem às mães desde o pré-natal até a vida adulta da criança.“Eu não queria ter que sofrer durante a maternidade, sentir enjoo, correr risco de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, eu não queria ter que parir”, disse Mariany. “Eu não quero a gestação, sabe? Aquelas mudanças no corpo, aquela transformação que passa no corpo da mulher quando ela engravida”, endossa Pâmela.

É nesse ponto que a sociedade frequentemente desumaniza a mulher que escolhe não ser mãe, quando a define como “incompleta” ou “egoísta”, mesmo quando a escolha está baseada em racionalidade, planejamento e autoconhecimento. Para muitas, inclusive, a cobrança de uma herança biológica torna-se um peso, outras querem deixar seu legado em suas ações, em suas profissões, nos vínculos afetivos que constroem voluntariamente, e não na continuidade de um sobrenome.

“Eu acredito que nós podemos ser o melhor que podemos para as pessoas que amamos. Essa é a marca que eu quero deixar”, relatou Mariany.

Além da questão da informação e do acesso aos métodos contraceptivos que aparecem com força nos relatos, as entrevistadas destacam o quanto a desigualdade pode impactar diretamente sobre a vida de mulheres que, como elas, não querem filhos. 

Pâmela também reflete sobre outras desigualdades que atravessam esse debate: enquanto mulheres cis hétero são pressionadas a serem mães, casais homoafetivos enfrentam preconceito ao desejarem a parentalidade. “Quando você é uma pessoa LGBT e decide que quer adotar um filho, a sociedade tem uma reação oposta, eles acreditam que você não poderia fazer isso. Totalmente preconceituoso”.

Enquanto o debate sobre o tema cresce na sociedade, especialmente nas redes sociais e nas universidades, mulheres como Mariany e Pamela seguem abrindo caminhos para que a maternidade deixe de ser um destino automático e passe a ser, de fato, uma escolha. Mais do que rejeitar a maternidade, a escolha de mulheres é sobre liberdade. Sobre poder dizer “não” a um modelo pronto, e sim a uma vida construída com consciência e autonomia. Em suas palavras, ecoam não só as experiências, mas os pensamentos  de uma geração que ousa fazer perguntas onde antes só havia respostas prontas.

Redação

Afluentes

Do Oriente Médio ao Acre: como o quibe foi adaptado à culinária local

Adaptado com ingredientes amazônicos, especialmente a macaxeira, o salgado de origem árabe atravessou culturas, ganhou identidade regional

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Por Ana Keli Flores e Raiça Sousa

Presente em padarias, feiras livres, lanchonetes, festas e até nas bicicletas de vendedores ambulantes que circulam com caixas térmicas pelas ruas de Rio Branco, o quibe se tornou parte do cotidiano alimentar no Acre. A versão mais emblemática dessa popularização é o quibe de macaxeira, adaptação regional que substitui o trigo pela raiz amazônica e consolidou o salgado como símbolo da identidade culinária local. 

Originalmente preparado na região do Levante, área que abrange países como Líbano e Síria, o quibe é feito com carne de cordeiro, trigo para quibe (bulgur), hortelã e especiarias, podendo ser assado ou frito. 

A receita chegou ao Brasil com imigrantes sírios e libaneses entre o fim do século XIX e o início do século XX e, ao longo do tempo, passou por adaptações conforme os ingredientes disponíveis e os hábitos alimentares locais.

No Acre, a transformação foi além da simples substituição de itens. Surgiram versões que dialogam diretamente com a cultura alimentar amazônica, como o quibe de arroz e, principalmente, o de macaxeira também conhecida como mandioca ou aipim. Ao trocar o trigo pela raiz ralada ou amassada, o salgado ganhou textura mais macia por dentro, crocante por fora e sabor mais suave, criando uma identidade profundamente regional.

Quibe de arroz, alternativa criativa e econômica, que reaproveita ingredientes do dia a dia sem perder sabor. Foto: arquivo pessoal

Segundo o historiador Francisco Bento da Silva, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), a culinária é uma das expressões mais visíveis da mistura cultural. “A comida muda tanto quanto as pessoas que migram”, afirma. 

Para ele, a presença da macaxeira na receita representa a incorporação de saberes indígenas e amazônicos a um prato de origem árabe. “Não é apenas uma troca de ingrediente; é um encontro de histórias.”

Além da base diferente, o quibe acreano apresenta temperos próprios, formatos variados e recheios adaptados ao gosto local, carne bem temperada, cheiro-verde e pimenta regional.

Em Rio Branco, o salgado é facilmente encontrado em padarias de bairro, mercados, lanchonetes e feiras populares. O preço varia conforme o tamanho e o ponto de venda, mas, em média, custa entre R$5 e R$10 a unidade. 

Em festas e encomendas, também aparece em versões menores, servidas como salgado de evento. Vendedores ambulantes ajudam a manter viva a tradição, levando o produto para diferentes bairros e reforçando sua presença na rotina urbana.

Nutrição e sabor

Do ponto de vista nutricional, a composição varia conforme a receita e o modo de preparo. De acordo com a nutricionista Flávia Dias, o quibe feito com trigo combina carboidrato complexo e proteína, oferecendo fibras, vitaminas do complexo B, ferro e zinco. Já a versão com macaxeira é fonte de energia e naturalmente sem glúten, podendo ser alternativa para pessoas com restrição ao trigo. 

Quibe de trigo, versão tradicional, preparada com trigo para quibe e temperos clássicos da gastronomia árabe. Foto: reprodução

As versões fritas concentram mais gordura e calorias, enquanto o quibe assado tende a ser mais equilibrado. A recomendação é priorizar carnes magras, incluir vegetais na massa e utilizar ervas frescas para agregar valor nutricional.

Quibe cru, preparação típica da culinária árabe, servida crua, com carne fresca, trigo hidratado e especiarias. Foto: reprodução

O quibe no Acre hoje supera a tradição original para abraçar a diversidade local. Com versões que utilizam trigo, arroz ou macaxeira, o salgado demonstra a capacidade de adaptação da gastronomia do estado. 

O prato deixou de ser apenas uma herança do Oriente Médio para se tornar um símbolo da identidade acreana, unindo o saber dos imigrantes aos ingredientes da floresta. Consolidado no cotidiano de Rio Branco, o quibe com sotaque amazônico segue em constante evolução, sem apagar as memórias que o trouxeram até aqui.

Redação

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Corriqueiras

Trilhas em alta no Acre reforçam a importância da ética, da segurança e do cuidado coletivo

Prática cresce no Acre e especialistas alertam que a maioria dos riscos em trilhas está ligada à falta de preparo e ao abandono de integrantes

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Por Ana Keli Flores e Raíça Sousa

A prática de trilhas tem ganhado cada vez mais espaço no Acre, impulsionada pelo interesse em atividades ao ar livre e pelo contato direto com a floresta amazônica. Em meio a esse crescimento, a ética da aventura baseada em segurança, preparo e responsabilidade coletiva torna-se fundamental para evitar riscos e garantir experiências positivas na natureza.

Trilhas são caminhos utilizados para caminhadas em ambientes naturais e têm origem muito antes do lazer. Povos indígenas, seringueiros e comunidades tradicionais já utilizavam esses percursos como rotas de deslocamento e sobrevivência. Com o passar do tempo, especialmente a partir do século XX, a prática passou a ser associada ao ecoturismo e às atividades de aventura, sendo conhecida em outros países como hiking, caminhadas curtas feitas no mesmo dia, e trekking, percursos mais longos que envolvem pernoite.

No Brasil, as trilhas ganharam maior visibilidade a partir da criação de parques e unidades de conservação ambiental. No Acre, muitas rotas acompanham antigos caminhos da floresta e ainda apresentam grande potencial para o ecoturismo, como ocorre no Horto Florestal, em Rio Branco, onde trilhas são utilizadas tanto para lazer quanto para educação ambiental.

Segundo o guia de trilhas Tassio Fúria, o envolvimento com atividades ao ar livre começou ainda no ciclismo e foi se aprofundando ao longo dos anos. “Especificamente com trilhas, dá para dizer que comecei em 2018”, afirma. Para atuar profissionalmente, ele explica que é necessário realizar um curso técnico e estar registrado no Cadastro do Ministério do Turismo, o que permite atuar legalmente em segmentos como o ecoturismo.

Guia de trilhas Tássio Fúria. Foto: Raíça Sousa

A segurança coletiva é um dos pontos centrais destacados pelo guia. De acordo com Tassio, abandonar um integrante durante a trilha é uma falha grave na condução da atividade. Ele explica que cabe ao guia organizar o grupo de acordo com a proposta do percurso, controlar o ritmo e garantir que todos permaneçam juntos do início ao fim.

O tema do abandono em trilhas chama atenção para os riscos da prática sem planejamento adequado. Em situações relatadas por praticantes, pessoas já foram deixadas para trás por não conseguirem acompanhar o ritmo do grupo, o que aumenta significativamente o risco de acidentes, desorientação e exposição a animais silvestres, especialmente em áreas de floresta fechada.

A diretora-geral da TV5, Simone Oliveira, de 39 anos, pratica trilhas há cerca de três anos e relata que a experiência começou a partir de um convite para participar de uma competição. “Foi amor à primeira ida”, conta. Formada em Educação Física, ela passou a levar alunos de um projeto solidário para as trilhas como forma de incentivo à atividade física.

Simone Oliveira, trilheira. Foto: cedida

Entre as experiências mais marcantes, Simone destaca uma trilha em que acompanhou uma aluna que pesava 115 quilos. “Ela conseguiu concluir o percurso. Todos nós choramos na linha de chegada”, relembra. Para ela, a trilha é uma atividade que deve ser feita em grupo, como forma de incentivo e superação do sedentarismo.

A ética na aventura, segundo Simone, está diretamente ligada ao cuidado com o outro. “É não deixar o grupo para trás, ajudar nos obstáculos e cruzar a linha de chegada todos juntos”, afirma. Ela reforça que cada participante tem seu próprio ritmo e limitação, e que o apoio coletivo faz toda a diferença para a conclusão do percurso.

O preparo antes da trilha também é citado como essencial. Simone destaca o uso de blusa de manga, calça, calçado adequado e alimentação leve antes do início da atividade. Para quem está começando, o conselho é simples: “Vá com calma, tenha cautela e esteja sempre ao lado de alguém de confiança que já tenha experiência”.

Outro fator que interfere diretamente na segurança é o clima amazônico. Durante o período chuvoso, áreas alagadiças fazem com que animais busquem locais mais secos, aumentando a possibilidade de encontros com cobras, insetos e outros animais silvestres. Nessas condições, as atividades ao ar livre ficam mais limitadas e exigem ainda mais atenção.

A experiência de trilha no Horto Florestal, em Rio Branco, reforça o caráter educativo da atividade. Considerada de nível fácil, a trilha pode ser feita em poucos minutos, mas costuma se estender por mais tempo devido às paradas para orientações e explicações. Durante o percurso, o guia recomenda o uso de roupas coloridas para facilitar a visualização do grupo e alerta sobre cuidados básicos de segurança.

Guia de trilhas Tássio Fúria. Foto: Raíça Sousa

Além da segurança, a trilha se transforma em um espaço de aprendizado ambiental. Ao longo do trajeto, os participantes conhecem rios, aprendem sobre a extração da borracha das seringueiras e observam a fauna local, fortalecendo a relação de respeito com a floresta.

Mais do que uma atividade física, as trilhas no Acre mostram-se uma experiência de convivência e conscientização ambiental. Nesse contexto, a ética da aventura se consolida como um princípio essencial para que a prática aconteça de forma segura, responsável e sustentável.

Redação

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A fruta que o gado não come: produção de pitaya ganha espaço no Acre

Produção familiar encontrou na pitaya uma alternativa resistente ao pasto, garantindo renda e evitando prejuízos causados pelo gado

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Por Vitória Messias

Exótica, colorida e cada vez mais presente no cotidiano dos rio-branquenses, a pitaya, conhecida popularmente como fruta-do-dragão ou fruta do cacto, vem ganhando destaque nas ruas de Rio Branco. O crescimento do consumo é impulsionado por uma rede de comércio administrada por mãe e filho, que desde 2020 atua em dois pontos da capital acreana, no Vila Acre e na Avenida Rio de Janeiro, com a proposta de popularizar a fruta e valorizar a produção da agricultura familiar.

Originária da América Central, a pitaya possui registros de consumo desde as civilizações Asteca e Maia, na região que hoje corresponde ao México. Introduzida no Brasil na década de 1990, a fruta passou a ser cultivada em Rio Branco há cerca de seis anos, a partir da produção de Kelarkian Brilhante e de sua mãe, Ivanna Brilhante, com o apoio de outros familiares que enxergaram no cultivo da pitaya uma alternativa sustentável de renda extra.

Ivanna e Kelarkian Brilhante, donos da plantação de pitaya. Foto: Vitória Messias.


Anteriormente, a família Brilhante se dedicava ao cultivo de maracujá e à criação de gado na propriedade. No entanto, um episódio de descuido, aliado a uma cerca mal conservada, permitiu a entrada dos animais na área de plantio, ocasionando a perda total da lavoura.

Segundo Ivanna, a situação motivou uma reflexão sobre o que era plantado ali. “Meu filho queria plantar algo e ter uma produção própria, fruto do esforço dele. Chegou a pensar em macaxeira, mas eu o alertei que o gado poderia comer a plantação, como fez com o maracujá”, explica.

Com esse pensamento, e em meio à pandemia, mãe e filho conseguiram se reerguer. Kelarkian se inspirou ao assistir vídeos sobre a Pitaya no Youtube e conta sobre aconselhamentos da avó para dar início ao que seria a maior fonte de produção de Pitaya do estado.

“Minha avó, que era viva na época, foi uma fonte de orientação. Ela desencorajou a ideia de plantar maracujá novamente. Um dia, navegando no YouTube, encontrei um vídeo sobre pitaya. Fiquei fascinado e pesquisei a fundo. No dia seguinte, mostrei para minha avó, e ela confirmou que a pitaya era a escolha certa, pois o gado não a comeria”, conta.

O agricultor explica que a decisão de iniciar o cultivo amadureceu ao longo dos primeiros meses do ano. “A ideia surgiu entre fevereiro e março. Em junho, fui buscar as mudas e conheci o seu Celeste, um produtor muito atencioso. No início, o plano era plantar mil mudas, mas, por questões financeiras, comecei com 400. A partir daí, passei a reaproveitar as próprias mudas: todo ano eu retirava e replantava. Fiz isso desde 2020. Em 2021, ampliei o plantio e continuei expandindo a área, até chegar ao que temos hoje”, relata.

Plantação das pitayas Brilhante. Foto: Vitória Messias.

Hoje os agricultores somam 2.800 mudas, com apenas 2.500 em produção, porém, a família enfrentou dificuldades para vender no primeiro e segundo ano de safra. “No primeiro a gente colhia mais fruto do que vendia. O pessoal não conhecia e não queria comprar um alto valor agregado em cima e foi difícil nos dois primeiros anos, mas de 2023 para cá, a pitaya só vem avançando e aumentando o sucesso”, conta Ivanna.

Os produtores comercializam mais de 2 mil mudas de pitaya desde 2023. A partir desse período, o público também variou. “Antes eram mais idosos, pessoas que frequentavam a academia. Depois mudou para o público infantil. Várias crianças queriam, aperreavam o pai para comprar”, conta Kelarkian.

Com a barraca montada na Avenida Rio de Janeiro, e plantação ativa no bairro Vila Acre, a família tem conquistado o público e planeja exportar o produto futuramente.

Benefícios à saúde

Seja pitaya vermelha, branca ou roxa, em meio às variações da fruta, os valores nutricionais variam, como aponta o nutricionista Inauã Rodrigues. “A pitaya vermelha e roxa tem mais compostos antioxidantes do que a branca. Um grande benefício é a praticidade, ela congelada não perde nenhum nutriente, perfeito para só depois bater no liquidificador e fazer um sorvete ou vitamina“, recomenda Inauã.

Inauã Rodrigues, nutricionista. Foto: arquivo pessoal.

A fruta contém minerais como magnésio e vitaminas, incluindo a vitamina C, que, segundo o nutricionista, são antioxidantes importantes, responsáveis por auxiliar na redução de processos inflamatórios no organismo, tanto os mais comuns, como a acne, quanto os mais complexos, como a fibromialgia.

Rodrigues complementa. “É uma fruta leve, com baixo teor calórico e rica em água e fibras. Essa composição a torna benéfica para a saciedade e a regulação intestinal, promovendo uma sensação de leveza”.

A pitaya pode ser incluída em diferentes planos alimentares, seja para quem busca emagrecimento, ganho de massa muscular, prevenção ou tratamento de doenças. Para Maria Luiza, consumidora fiel da família Brilhante, a fruta virou parte do cotidiano. Devido sua praticidade, a cliente faz questão de garantir seu estoque pessoal a cada nova safra.

“Eu nunca tinha comido pitaya antes, eu já tinha visto, mas eu fui comer primeiro as pitayas da Dona Ivanna, em 2023. Eu compro muitas pitayas para consumo próprio. Eu como elas o ano todo, só congelo, e faço suco ou shake, porque eu gosto do sabor, e ela faz muito bem ao meu intestino, é por isso que eu compro muitas”, diz Luiza.

E, assim como fez a diferença na trajetória da família Brilhante, a pitaya segue conquistando espaço e se popularizando entre os mais diversos públicos. Presente nas feiras, nas ruas e na mesa dos acreanos, a fruta deixa de ser vista apenas como exótica e passa a integrar o cotidiano, unindo saúde, sabor e fortalecimento da agricultura familiar.

Redação

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