Travessias
Chicotear com palavras
Racismo e preconceito em uma história de superação
Publicado há
3 anos atrásem
por
Redação
Maria Santiago. Licenciada em Ciências Sociais pela UNIR, Coordenadora Estadual de Formação do Movimento Negro Unificado – MNU e Educadora Popular (Foto: Marcos Jorge Dias)
“Olha, esta negrinha, esta negrinha é mulher de Francesco. Ela é brasiliana e casou com meu filho”.
Com essas palavras Maria Santiago (60 anos) foi apresentada pela sogra italiana, aos familiares do marido.
Para quem nunca sentiu na pele a dor do preconceito racial, a ausência de direitos e a mercantilização de seu corpo e acha que o preconceito e o racismo são questões de um passado remoto, a história de uma mulher acreana, negra, vem nos mostrar que os resquícios da escravidão continuam presentes nos dias atuais.
Nascida no Seringal ôco do mundo, KM 86 da Br 364, sentido Rio Branco-Porto Velho, a história de Santi (assim chamada pelos amigos) em princípio não difere muito da história das meninas nascidas nas brenhas das matas dos seringais acreanos.
Independente da cor da pele, desde cedo elas são condicionadas a ajudar a mãe nos afazeres domésticos, algumas nem chegam a puberdade (entre os 8 e 13 anos de idade) e são “negociadas” com algum amigo ou conhecido do pai, sob o argumento de que já é hora de ter uma marido que a sustente. Santi queria fugir dessa pré-destinação histórica. Queria estudar! Mas no ôco do mundo não tinha escola. Então, por várias vezes tentou sair do Seringal para estudar na cidade, Rio Branco.
Santiago começa sua história contando que certa vez (durante as campanhas eleitorais), um homem de nome Manoel passou por lá e pediu ao pai dela que permitisse trazê-la para trabalhar como empregada doméstica na casa dele e que assim (ela) poderia estudar, pois havia uma escola próxima.
Maria Santiago: – “Era uma casa na Rua 6 de Agosto e, realmente, havia uma escola próxima. Mas, depois de uns seis meses trabalhando em troca de comida e moradia a família não me matriculou na escola. Um dia, enquanto eu varria o quintal vi passar na frente da casa uma pessoa conhecida e pedi para comunicar a minha mãe que eu estava querendo ir para casa.”
MJ: – Nesse ponto, a sua história me lembra o tráfico de escravos africanos trazidos para o Brasil no ínicio do Seculo XVI. Um sistema desumano que fez das pessoas negras a mercadoria que serviu de base à economia brasileira por mais de 300 anos.
Três dias depois a mãe chegou para levá-la. Contudo, a dona da casa, além de reclamar muito, alegou não ter com o que pagar. Então, encheu uma sacola com roupas usadas e entregou à mãe, como forma de pagamento. Voltando ao seringal Santiago não desistiu de seus sonhos.
Maria Santiago: – “A segunda vez que tentei vir estudar na cidade, fui trabalhar na casa de duas irmãs, médicas, que moravam na Avenida Getúlio Vargas. E lá foi a mesmo coisa: trabalhei por meses e nunca recebei 1 centavo. E eu não me dava conta por que essas coisas aconteciam com a gente.”
MJ: – Essa é uma situação que segundo a pesquisadora Raísa Alves da Silva Almeida(2021), “a Lei Áurea apenas mascarou a ausência de justiça social, pois não reparou às agressões sofridas, não garantiu direitos básico nem condições mínimas de sobrevivência às pessoas escravizadas” (Fonte: https://portal.unit.br)
Maria Santiago: – Mais uma vez retornei ao Seringal. Naquele tempo a BR 364 já tinha sido aberta no trecho Rio Branco-Porto Velho e a Igreja católica estava chegando com as Comunidades Eclesiais de base, os CEB’s.
Aí tinha o Padre José… foi quando conheci o Nilson Mourão, o João Maia, o Abrahim Farhat, qua andavam por ali fazendo reunião para organizar a Confederação dos Trabalhadores em Agricultura – CONTAG e fazendo o enfrentamento aos chamados paulistas que estavam chegando para ocupar os seringais e transformar em fazenda. Foi nesse tempo, também, que conheci a irmã Fábia, uma pessoa muito atuante, muito ativa e em quem eu me inspirei. Eu queria ser igual a ela”.
Através da irmã Fábia eu vim morar na casa das irmãs, na casa madre Elisa, que é ali no segundo distrito, no Colégio Imacualada Conceição. Eu morei três anos e sete meses com elas. Ai eu entrei no convento, semi-analfabeta, porque eu tinha estuda muito pouco (uns seis meses) numa escolinha que tinha sido aberta lá (no seringal) mas tive de sair por conta da idade que não permitia mais.
Na casa das irmãs eu conclui a 5ª série no Colégio Imaculada e depois eu fui fazer o supletivo, que na época era transmitido pelo rádio. Depois fui fazer educação integrada, que eram os programas que tinha. Foi onde eu realmente fui aprender a ler. Esse período em que eu morei com as iramãs foi um período muito bacana, eu aprendi muitas coisas. Depois eu saí e entrei no Movimento Sindical Rural aqui. Isso foi mais ou menos em 1985, 86.
Mais uma mudança, novos desafios.
Com os olhos enevoados pelas lembranças, Santiago segue narrando sua trajetória de vida.
Em 1988, vai morar na cidade de Ji-Paraná no estado de Rondônia e lá chegando entra “de cabeça” no Movimento sindical e no Movimento Negro, passando também pelo Movimento de mulheres.
Em dezembro de 1989, já estava na direção Nacional da Central Única dos Trabalhadores – CUT, onde assumiu a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras rurais. Nesse trabalho ficou por mais de sete anos e foi onde teve a oportunidade de discutir e realizar várias pautas de suma importância: primeiro o reconhecimento do trabalho rural feminino enquanto profissão; salário maternidade; documentação; o direito à terra e a aposentadoria. Até então, a mulher trabalhadora rural não tinha direito a aposentadoria. Quando o marido morria elas recebiam uma ajuda que se chamava “fundo rural”. Maria Santiago: – Foi um período de muita luta, muitas ações. A gente fazia várias caravanas de todos os Estados para as mulheres irem para Brasília e ficávamos acampadas lá no Estádio Mané Garrincha, às vezes uma, duas semanas e até mais, para reivindicar nossos direitos. Hoje, olhando para trás eu vejo o tanto que conquistamos. Além do que já falei, as trabalhadoras rurais hoje tem direito à terra, a financiamentos,
O racismo familiar estrutural
MJ: – Nessa sua trajetória, em quais momentos você sentiu na pele o preconceito, o racismo e recorreu ao Estado ou a alguma instituição de defesa de Direitos Humanos?
Maria Santiago: – Eu não tinha consciência que esses problemas que eu enfrentei estavam vinculados a uma prática de racismo. Hoje eu tenho. Hoje eu percebo de longe quando vejo uma menina ou qualquer pessoa que esteja em situação degradante de trabalho, eu percebo, que tem a questão da exploração e que ela vem sempre casada com a prática do racismo.
E essas coisas, a gente só vai percebendo quando você vai tomando consciência de quem você é nessa sociedade. Foi a partir daí que eu tomei consciência de que eu era uma pessoa negra, uma mulher negra, uma menina que veio de família pobre, com muitas dificuldades e aí foi quando eu comecei a perceber.
Assim… tem muitas coisas que quando a gente não percebe, não são tão doloridas. Mas quando a gente toma conhecimento, elas batem muito forte, como uma chicotada. Eu lembro que quando casei, meu ex-marido é um italiano e a família dele é toda do Sul. Então, a primeira vez que eu fui ao Sul foi em 1989. A gente casou em dezembro e em janeiro viajamos, fomos lá para conhecer a família dele. Aí, a mãe dele me apresentava desse jeito: “Olha, esta negrinha, esta negrinha é mulher de Francesco. Ela é brasiliana e casou com meu filho”.Eu percebia que havia ali preoconceito e racismo. Foi muito conflituoso e revoltante para mim ser apresentada para a família dessa forma.
Outra situação de preconceito foi relação aos colares que eu usava há época. Esses colares índígenas da nossa região. Eles tinham muito preconceito com os colares. Havia uma cunhada dele que dizia que quando eu entrei na casa dela o meu colar tinha espatifado e as coisas tinham quebrado. E, isso nunca aconteceu. Ela me associava a uma macaumbeira, com as religiões de matriz africana e porque eu usava meu cabelo com tranças rastafary. Foi um período muito difícil para mim.
Mesmo depois que “a negrinha”, mulher de Francesco, teve a oportunidade de viajar e conhecer a Itália (coisa que alguns deles nunca puderam fazer), quando voltei, eu era maior motivo de orgulho da família, porque tinha conhecido a Itália. Com o tempo foram sumindo as palavras, mas a resistência e os preconceitos eu percebia que continuavam camuflados.
MJ: – Hoje, enquanto Coordenadora Estadual de Formação do MNU e Educadora Popular, que transita nos chamados “espaços de poder” que são tipicamente masculinos, principalmnete na política, você sente que há resistência ao seu perfil ?
Maria Santiago: – Quanto a isso a gente tem duas questões muito bem definidas: Primeiro é questão de ser mulher e ocupar os espaços de poder. Isso é uma dificuldade para todas as mulheres. Agora, em se tratando da mulher negra isso é pior.
Por exemplo, eu que sempre estive na Política, as pessoas olham para mim e costumam dizer: “ah, ela sabe falar de política e tal”, mas nunca me vê como um profissional, como uma socióloga, uma pessoa que tem capacidade de fazer várias outras coisas. É difícil ter de estar todo o tempo provando para as pessoas do que você é capaz.
Além de ser uma das grandes dificuldades, isso é colocado como um diferencial para você estar ocupando esses espaços de poder. As vezes o que te dá a possibilidade de ocupar um espaço de poder é um belo de um currículo e de modo geral as pessoas não vêm isso e você acaba ficando sempre nos bastidores da política. Essa é a realidade dos espaços de poder.
Assim, para finalizar, não posso deixa de fazer aqui uma referência a ativista pelos direitos dos negros e das mulheres, a americana Angela Davis:
“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”
*A Lei Nº 1.390, de 3 de julho de 1951, que leva o nome do seu autor (Deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco), é um marco na trajetória das lutas da população negra no enfrentamento ao racismo, à discriminação e na conquista de Direitos individuais e coletivos.(Fonte: https://www.gov.br/palmares)
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Travessias
Samanta Bullock e o desafio sobre a moda acessível
A ex-atleta paralímpica Samanta Bullock defende que a moda inclusiva precisa ir além da representatividade e enfrentar barreiras estruturais
Publicado há
4 semanas atrásem
10 de março de 2026por
Redação
Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz
Aos 14 anos, Samanta Bullock já trabalhava como modelo quando um acidente com arma de fogo interrompeu sua carreira nas passarelas. A lesão a deixou paraplégica e redesenhou seu caminho. Se a moda ficou em suspenso, o esporte entrou em cena. No tênis em cadeira de rodas, representou o Brasil e conquistou medalha de prata nos Jogos Parapan-Americanos de 2007.
O que poderia ter sido um ponto final tornou-se transição. Anos depois, entre treinos e competições, Samanta voltaria ao universo que conhecia desde a adolescência, desta vez, com outro propósito. Não apenas como modelo, mas como articuladora de mudanças em um setor historicamente excludente.
Durante décadas, a indústria da moda sustentou padrões rígidos de corpo, gênero e comportamento. A ausência de pessoas com deficiência nas campanhas e nas passarelas não era apenas simbólica; revelava um problema estrutural. As roupas simplesmente não eram pensadas para esses corpos. Nos últimos anos, a chamada “moda inclusiva” passou a ganhar visibilidade, impulsionada por debates sociais e por consumidores mais atentos. Ainda assim, permanece a dúvida: trata-se de mudança estrutural ou estratégia de mercado?
Foi nesse cenário que Samanta passou a enxergar a moda como ferramenta prática de autonomia.
Da representatividade à modelagem
Enquanto ainda competia, ela se tornou embaixadora do projeto Fashion Inclusivo, em Brasília. A experiência marcou uma virada. “Eu entendi que não bastava estar na passarela. A roupa precisava funcionar para aquele corpo”, diz. “A representatividade é importante, mas ela precisa vir acompanhada de solução.”
Ao se aposentar do esporte, em 2012, decidiu concentrar esforços na moda adaptada. Percebeu que o desafio ia além da imagem. Era necessário redesenhar modelagens, repensar tecidos, adaptar aberturas, rever etiquetas, ajustar caimentos para corpos sentados ou usuários de prótese.

Enquanto ainda competia, ela se tornou embaixadora do projeto Fashion Inclusivo. Imagem: reprodução
O jeans, peça universal nos guarda-roupas, tornou-se exemplo recorrente em suas análises. Para uma pessoa amputada acima do joelho, a necessidade é uma; para outra, abaixo, é outra. Algumas usam prótese. Outras não. Algumas são plus size. Outras não. “A deficiência não é uma coisa única”, afirma. “Cada corpo tem uma necessidade diferente. Quando a indústria trabalha só com padrão, ela deixa muita gente de fora”.
A complexidade revela um dos principais entraves da indústria: a escala. Grandes marcas operam com padronização e volume. A moda adaptada exige variações, testes e investimento.
No Brasil, a discussão se cruza com a desigualdade econômica. Muitas pessoas com deficiência vivem em situação de vulnerabilidade e dependem de benefícios sociais. Peças adaptadas, por envolverem desenvolvimento específico, tendem a custar mais caro. O resultado é um ciclo difícil de romper: quem mais precisa da adaptação é quem menos pode pagar por ela.
Para Samanta, a responsabilidade é compartilhada. “Se as grandes marcas entendem que isso é uma demanda real, elas conseguem incorporar a inclusão de forma permanente. Não pode ser só uma coleção pontual”, diz. Pequenas empresas, segundo ela, podem começar com ajustes na comunicação e na escolha de modelos diversos.
Entre prêmios e autonomia
Nos últimos anos, Samanta participou de eventos ligados à London Fashion Week, colaborou com marcas internacionais e desenvolveu projetos com universidades no Brasil e no exterior, conectando moda, fisioterapia e comunicação. Foi reconhecida cinco vezes como uma das 100 pessoas com deficiência mais influentes do Reino Unido e integrou um projeto que entrou para o Guinness World Records.
Ela relembra a abertura dos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, a medalha de prata pelo Brasil e os desfiles internacionais. Ainda assim, afirma que o mais marcante não está nos grandes eventos, mas no impacto direto que teve na vida das pessoas. “Você dá autonomia e vê o olho brilhando”, diz.
Entre passarelas e quadras, Samanta Bullock sustenta que a inclusão só se consolida quando deixa de ser discurso e passa a fazer parte da estrutura.
*Com o objetivo de ampliar o debate sobre a reportagem, a equipe tentou contato com pessoas e estabelecimentos locais que participaram das produções sobre acessibilidade de vestuário. Porém, até a publicação, não obtivemos retorno. O jornal segue aberto a contribuições, que podem ser feitas pelo perfil do Instagram @jornal.acatraia.
Especiais
Cine Teatro Recreio resiste às cheias do Rio Acre
Em uma década, o teatro histórico precisou fechar ao menos três vezes após o Rio Acre ultrapassar os 17 metros
Publicado há
1 mês atrásem
27 de fevereiro de 2026por
Redação
Interior do Cine Teatro Recreio alagado durante a cheia do Rio Acre, em março de 2024. O espaço precisou ser fechado por segurança e preservação do patrimônio. Imagem: Eldérico Silva
Por Daniel Alysson e Davi Mansour
O Cine Teatro Recreio ocupa um lugar central na história cultural de Rio Branco. Localizado no calçadão da Gameleira, às margens do Rio Acre, o espaço atravessou quase um século como ponto de exibição de filmes, espetáculos de música, dança, teatro entre outros eventos culturais. Essa mesma localização, no entanto, tornou o Cine um dos equipamentos públicos mais expostos às cheias do rio, que ao longo dos anos provocaram alagamentos, paralisações e prejuízos recorrentes.
Nos últimos dez anos, o espaço foi afetado pelas grandes enchentes de 2015, 2023 e 2024, quando o nível do Rio Acre ultrapassou os 17 metros e invadiu o Segundo Distrito da capital. Em todos esses episódios, o Cine Teatro precisou ser fechado temporariamente por questões de segurança e preservação do patrimônio.

Fachada do Cine Teatro Recreio. Foto: Ingrid Kelly
Além das cheias provocadas pela subida do Rio Acre, o Cine Teatro Recreio enfrenta dificuldades relacionadas à manutenção do prédio e às condições urbanas do entorno. Em períodos de enchente, o alagamento do espaço exige a retirada de equipamentos, a suspensão da programação cultural e intervenções emergenciais para evitar danos maiores à estrutura. As chuvas intensas passaram a causar transtornos, ampliando a frequência das paralisações e evidenciando a vulnerabilidade do prédio histórico diante das mudanças na dinâmica urbana da Gameleira.
Um patrimônio que ajudou a formar a cidade
O Cine Teatro Recreio surgiu ainda nas primeiras décadas do século XX, quando Rio Branco dava seus primeiros passos como núcleo urbano. Inicialmente conhecido como Cine Ideal e depois Cine Éden, o prédio foi inaugurado oficialmente como Cine Teatro Recreio em 13 de junho de 1948, consolidando-se como uma das principais casas de espetáculo da capital.
Ao longo das décadas, o Cine Teatro Recreio concentrou exibições regulares de filmes, sessões especiais e apresentações artísticas que marcaram a vida cultural de Rio Branco. No Segundo Distrito, o espaço se firmou como um dos principais pontos de encontro do público com o cinema e as artes, sendo frequentado por gerações de moradores que tiveram ali uma das principais opções de lazer em uma cidade que ainda contava com poucas alternativas culturais organizadas.
Antes de assumir definitivamente o nome que mantém até hoje, o prédio integrava a rotina urbana quando funcionava como Cine Éden. Inaugurado em 1946, no Calçadão da Gameleira, o cinema de rua exibia produções nacionais e estrangeiras, além de seriados bastante populares à época, especialmente os ambientados no velho oeste norte-americano. Registros históricos indicam que títulos como Tambores de Fu Manchu, Adaga de Salomão, Perigos de Nioka e O Segredo da Ilha Misteriosa eram repetidos em cartaz, atraindo um público fiel, mesmo diante da dificuldade de acesso a novos filmes, que chegavam a Rio Branco com meses de atraso por via fluvial.

Produção estrangeira exibida no Cine Éden: Tambores de Fu Manchu, seriado popular entre o público do cinema na década de 1940. Imagem: arquivo MUBI
A programação do Cine Éden também incluía longas-metragens de aventura, faroestes e dramas, com nomes populares do cinema da época, como Roy Rogers, Bill Elliott e Charles Starrett, além de exibições especiais que combinavam cinema e apresentações ao vivo. O espaço não era considerado uma sala de luxo nem voltada à elite local. Classificado nos registros da época como um cinema “popular”, o Éden funcionava como ponto de encontro acessível, frequentado por trabalhadores, famílias e jovens, em sessões que reuniam públicos diversos.
Em reportagem da época, o antigo frequentador Raimundo Ferreira, morador do bairro Quinze, no Segundo Distrito, relatou que “quando o alto-falante tocava anunciando as matinês, as pessoas que iam de um lado a outro corriam para a sessão, esperando com ansiedade os filmes, que demoravam a chegar cerca de três meses, porque tudo era feito por transporte fluvial, eram as chatas que traziam os filmes”.

Fachada do Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco, onde funcionou o cinema que antecedeu o atual Cine Teatro Recreio. Imagem: arquivo DPHC
Além das projeções, o palco do Cine Éden também recebia apresentações musicais e eventos culturais. Em 1948, por exemplo, o cinema sediou a despedida do tenor pernambucano José Brasileiro, em uma noite que combinou apresentação ao vivo e exibição de filme, prática comum naquele período. Ao longo dos anos seguintes, o espaço passou por adaptações técnicas, incluindo a modernização das lentes para formatos como Cinemascope e Vistavision, acompanhando as transformações do cinema e da própria cidade.
Essa memória também aparece no relato de Terezinha Maria, que chegou ao Acre vinda da Bahia ainda jovem e passou a frequentar o Cine Teatro Recreio nos anos seguintes à inauguração oficial. “Era um dos poucos lugares onde a gente se encontrava para se distrair.
O cinema fazia parte da rotina. As pessoas se arrumavam para ir, encontravam conhecidos, conversavam antes da sessão começar”, lembra. Segundo ela, o Cine Teatro reunia públicos diferentes e funcionava como ponto de convivência em uma cidade que ainda se estruturava. “Não era só assistir ao filme. A gente ia para ver o filme, mas também para ver as pessoas, saber das novidades, passar a noite ali.”

O público acompanhou a sessão no Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco. Imagem: arquivo
Segundo a historiadora da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Iri Nobre, o Cine Teatro sempre teve papel central na formação cultural de Rio Branco. “Muitas pessoas iniciaram suas trajetórias artísticas ali. Mesmo hoje, quando existem outros espaços culturais, o Cine Teatro continua sendo procurado, principalmente para exibição audiovisual e festivais de cinema”, afirma.
Vulnerabilidade histórica em área de várzea
A vulnerabilidade do Cine Teatro Recreio está diretamente ligada à forma como Rio Branco se desenvolveu. O prédio está localizado em uma área de várzea, próxima ao leito do Rio Acre, região naturalmente sujeita a alagamentos durante o período chuvoso, que vai de dezembro a março.
Apesar disso, o edifício não foi projetado para conviver com cheias frequentes. “Não há registros de que o prédio tenha sido pensado para resistir à subida do rio. Na década de 1920, a relação da cidade com o rio era outra, e não existia preocupação com hidrografia ou drenagem urbana”, explica a historiadora.

Registro comparativo do Calçadão da Gameleira antes e após a cheia de 2015, que deixou a região alagada com a elevação do nível do Rio Acre. Imagem: Google Street View e Iryá Rodrigues
Na enchente de 2015, considerada a maior da história do Acre, o Rio Acre atingiu 18,40 metros e a água invadiu o interior do Cine Teatro. O espaço permaneceu fechado por cerca de dois meses para recuperação. Segundo a historiadora, não houve perda documental porque o material havia sido retirado preventivamente, e o prédio não abrigava acervo histórico permanente.
Reformas, urbanização e novos problemas
Ao longo dos anos, o Cine Teatro Recreio passou por reformas importantes, como as realizadas em 1987 e 2010. A mais recente incluiu a construção de um novo espaço de alvenaria, numa tentativa de tornar o prédio mais resistente a interrupções causadas pelas cheias do Rio Acre. Apesar das intervenções, os alagamentos continuaram a ocorrer, especialmente nos últimos anos.

Auditório do Cine Teatro Recreio após as reformas da década de 1990, período de retomada das atividades culturais no espaço. Foto: reprodução
Para o arquiteto e chefe da Coordenação de Patrimônio Histórico da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Ítalo Facundes, parte da vulnerabilidade atual do Cine Teatro está diretamente relacionada às mudanças ocorridas no entorno do prédio. Segundo ele, intervenções recentes de infraestrutura e saneamento alteraram o comportamento natural da água na região da Gameleira.
“Obras de infraestrutura e saneamento mudaram a dinâmica do solo e do escoamento da água. Hoje, o solo satura mais rapidamente e a drenagem não funciona como deveria. Por isso, o Cine Teatro é um dos primeiros prédios a sentir os alagamentos”, explica.
Facundes destaca que, além da subida do Rio Acre, a água passou a retornar pelo solo e pelo sistema de escoamento urbano. “Antes, o impacto vinha basicamente do transbordamento do rio. Agora, mesmo chuvas intensas já provocam alagamentos internos”, afirma.
Segundo o arquiteto, uma solução definitiva exigiria uma intervenção estrutural profunda, com obras de drenagem de grande porte sob o prédio, o que envolve alto custo e complexidade técnica. Ainda assim, ele ressalta que não há garantia total de proteção em cheias extremas. “Quando o rio sobe muito, não existe solução arquitetônica que segure completamente”, resume.
Fechamentos e impacto cultural
As paralisações frequentes do Cine Teatro Recreio provocam impactos diretos na rotina cultural de Rio Branco. Durante os períodos de cheia, apresentações programadas são suspensas, eventos são cancelados ou adiados, e grupos artísticos precisam buscar outros espaços para ensaios e apresentações, muitas vezes com limitações de estrutura e agenda. A interrupção também afeta festivais, mostras audiovisuais e atividades formativas que costumam ocorrer no espaço.
Para a historiadora Antonia Odiceula de Souza, o fechamento do Cine Teatro durante as cheias não atinge apenas o Segundo Distrito, mas repercute em toda a cidade. “A Gameleira sempre foi um espaço de encontro, lazer e manifestações culturais desde a fundação de Rio Branco. Quando o Cine Teatro fecha, a cidade perde um ponto de referência cultural e simbólica”, afirma.
Ela explica que, por questões de segurança e preservação do patrimônio, o fechamento temporário se torna inevitável nos períodos de cheia. No entanto, ressalta que essas interrupções comprometem a continuidade das atividades culturais e o acesso do público a um dos principais espaços históricos de programação artística da capital.
Funcionamento entre cheias e interrupções
Em março de 2024, com o Rio Acre acima de 17,60 metros, o Cine Teatro Recreio voltou a ser atingido e precisou ser fechado novamente, junto a outros espaços culturais da Gameleira. O episódio evidenciou um problema recorrente: a dificuldade de manter em funcionamento um patrimônio histórico localizado em uma área cada vez mais impactada por eventos climáticos extremos e por intervenções urbanas que alteraram a dinâmica natural do espaço.
Enquanto soluções estruturais mais amplas não são viabilizadas, o Cine Teatro Recreio segue funcionando entre períodos de reabertura e novas interrupções. Um espaço que ajudou a formar a vida cultural de Rio Branco e que, ainda hoje, depende do comportamento do Rio Acre para manter suas atividades.
Especiais
Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco
Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana
Publicado há
2 meses atrásem
30 de janeiro de 2026por
Redação
Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães
O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.
Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.
A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.
Um bairro que aprendeu a conviver com o medo
O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.
Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.
Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.
A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.
“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.
Doze dias de busca, três meses de espera
O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.
“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.
O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis
Uma nova estrutura, a mesma memória
Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.
Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.
“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.
Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.
“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.
Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.
Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães
Tragédia marcou quem acompanhou de perto
O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.
“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.
Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.
“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.
Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.
“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.
Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.
Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.
No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis
Mais que uma travessia, um aviso
Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.
“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.
A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.
“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.
Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.
Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.
Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.
E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.
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