Uma palavra que resume bem o quarto álbum de estúdio da artista Pabllo Vittar é orgulho. Batidão Tropical foi lançado dia 24 de Junho, na última quinta-feira do nosso mês do orgulho LGBTQIA+, uma celebração do amor de Pabllo por sua região de origem. A artista nasceu em São Luís, lugar onde cresceu ouvindo as músicas que agora se permitiu revitalizar em seu mais novo trabalho.
No álbum, Vittar decide exaltar sua cultura tomando pra si canções já consagradas ao mesmo tempo em que exalta a sua origem, jogando luz ao trabalho de artistas de gêneros como calypso, forró e tecnobrega que são populares no Norte e Nordeste, porém ainda desconhecidos e pouco valorizados pelo resto do país.
Antes de tudo, a melhor maneira de Pabllo Vittar enaltecer o tipo de som que é feito em sua terra natal é se inspirando e criando a partir dela, e foi o que ela fez. As três primeiras faixas que compõem o Batidão Tropical são inéditas. Brincando com os ritmos que foram presentes em sua formação e dando sua interpretação de como se faz um forró de qualidade na faixa “Ama Sofre Chora”, carro chefe da nova era, Vittar canta a temática da desilusão amorosa, um dos temas mais utilizados nas composições do gênero.
Já “Triste com T” é uma música que tranquilamente vai se encontrar no meu repeat, impactante desde a sua primeira frase, descritiva e construindo todo seu cenário na mente do ouvinte, ela dá continuidade a narrativa estabelecida na faixa anterior.
E toda essa história é acompanhada de visuais de excelência, onde ela serve figurinos estonteantes e coreografias engajantes, que podem facilmente serem relacionadas com o empenho que é fácil de ser encontrado em danças de grupos de K-POP como Blackpink. O bailarino Flávio Verne é o responsável pela coreografia, acompanhando a artista há anos e dividindo a direção dos dois clipes que ilustram a atual fase de Pabllo Vittar.
Videoclipe oficial de “Triste com T” da Pabllo Vittar
Também temos “A Lua”, que foi escrita por Vittar e Alice Caymmi, onde ela se permite tornar pessoal e relatar na música uma situação que vivenciou, algo que é intrínseco ao gênero que ela se volta. E é palpável sentir a contribuição de Alice à música, dá pra sentir na maneira que a música é cantada, uma semelhança com outras da sua própria carreira.
A banda Companhia do Calypso foi bem representada por Vittar em seu novo trabalho, repaginando várias músicas do extenso repertório. Cantando o Calypso, gênero musical criado no Pará nos anos 90, que mescla o regional brega com ritmos caribenhos como o calipso e o reggae. Fusão que nasce como consequência geográfica, com essa cultura chegando do Caribe ao Pará através da fronteira dos estados com as guianas. O gênero também é conhecido como brega pop, sempre acelerado, com uma forte presença de acorde de guitarras e carregado de narrativas românticas.
A Companhia do Calypso foi um dos maiores expoentes do gênero, criada em 2002 e em atuação até hoje. Passou por várias fases e formações diferentes, mas não há dúvidas que Mylla Karvalho foi a mais marcante. Cantora que foi fundamental na criação do grupo e por muitos anos foi a pessoa que representava, dando sua voz aos maiores sucessos. Um exemplo de sua importância é ter sido uma das grandes inspirações de Pabllo Vittar, que cresceu ouvindo suas canções e agora é uma das maiores artistas do nosso país.
“Bang Bang” foi a que mais me marcou ao encontrar no álbum, uma música que reconheço de ouvir na infância. Morando no Norte do Brasil desde que nasci, não foi difícil me deparar com essa e outras músicas da banda que fez história no país. “Ânsia” e “Zap Zum” são outras músicas da coletânea de sucessos da banda paraense que Pabllo regravou.
Desde que entrou em cena em 2017, Pabllo Vittar deixou bem claro que seu objetivo era representar o Brasil e regravar sucessos da banda paraense é prova disso
Uma grata surpresa foi ouvir “Ultra Som”, uma música que conversa muito com o estilo de som que escuto no meu dia-a-dia, o hit é uma explosão de sons que cria uma sensação de velocidade. Pabllo Vittar é consciente de onde veio, sempre trazendo a regionalidade que lhe acompanha desde o nascimento e é visionária ao mesclar essa riqueza nacional com uma maneira diferente de se fazer música pop.
Ultra Som é uma música da banda Ravelly, que foi muito ouvida pela cantora e em sua mão pode ser considerada como o mais novo produto fruto do hyper pop, movimento musical que é reconhecido por ser exagerado, eclético e pesado no som, seja com vozes distorcidas ou melodias fortes e estridentes. Um tipo de som que é muito querido pela cantora e por parte de seu público jovem.
A dançante “Apaixonada” é conhecida pela banda Batidão e, a canção “Não é Papel de Homem”, é da banda Kassikó. Esta última é reconhecida pela artista como uma letra que envelheceu bem e é atual até hoje. É inegável o amor de Pabllo por esses artistas e como eles foram importantes para a sua formação como a grande performer que é hoje. Artistas regionais que podem se orgulhar muito de como seus trabalhos inspiraram e foram representados pela maior drag queen do Brasil.
A nova obra da artista é divertida e escapista em um momento tão difícil de ser brasileiro, onde vivemos numa pandemia que parece não ter fim e estamos em constante luto por mais de 511 mil do nosso povo. É necessário termos Pabllo Vittar existindo, cantando sua música e nos representando em um país que necessita de bons exemplos.
Bosque Discos: a ideia que nasceu de um hobbie e se tornou a menor loja cultural do mundo
Da coleção pessoal ao ponto de encontro virtual, a Bosque Discos conecta apaixonados por música em Rio Branco com raridades e histórias que atravessam gerações
Por Emily Castro, Sâmia Cristina, Marissa Galdino, Marele Muniz e Rebeca Soares*
Você conhece a menor loja cultural do mundo? Localizada em Rio Branco a loja on-line Bosque Discos tem uma variedade de CD’s, discos de vinil e fitas cassetes de todos os estilos para acolher aqueles que apreciam uma boa música. A ideia de criação do espaço é de Thiago Afonso, empresário do ramo da saúde e professor da Uninorte, que desde pequeno sempre foi apaixonado por música.
Ele conta que essa paixão, motivada por seu pai o levou a ser um colecionador de CDs, algo que mais tarde foi impulsionado por um tio e evoluiria também para uma grande coleção com discos de vinil e fitas cassetes. Com o passar do tempo, Thiago percebeu que a pequena coleção havia se tornado algo muito maior e que não haveria mais espaço para armazenar tudo. Ali nasceu a ideia da venda e repasse dos produtos.
Foto: arquivo pessoal
O empresário explica que a criação da loja não teve apenas o objetivo de vender itens da coleção, mas também de aproximar pessoas que compartilham do mesmo interesse pela música. Segundo ele, sempre soube que existiam muitos colecionadores em Rio Branco, e isso foi uma das motivações para continuar com a ideia, já que queria conhecer essas pessoas e trocar experiências sobre música.
Os compradores de seus produtos se estendem por todo território acreano e sua coletânea não se limita apenas a música brasileira. O colecionador possui produtos do leste europeu, da África, Ásia e até algumas edições raras, sendo o seu preferido entre todos a edição especial do álbum “Racional” de Tim Maia.
Em sua coleção, ele possui ainda itens raros como o disco do musicista e instrumentalista Arthur Verocai que não possui muitos exemplares pois seus discos foram derretidos pela gravadora para a produção dos discos da banda nacional Secos e Molhados.
Thiago diz que considera a Bosque Discos a menor loja do mundo por se tratar de um negócio pequeno, se comparado com outras lojas de discos ao redor do globo. Ele explica que a coleção, que atualmente passa dos sete mil itens, juntando todos os exemplares, ainda é considerado uma pequena porção comparada a lojas nacionais de vinis.
Como é totalmente gerida por ele, o funcionamento é bem diferente de uma loja convencional. Por não se tratar de um grande armazém, os itens são apresentados aos clientes de acordo com o interesse de cada pessoa. “Eu não tenho um acervo, tenho uma coleção”, afirma Thiago, que mostra aos interessados apenas os discos que podem atender ao gosto de cada um.
Perguntado se pretende expandir o negócio, ele afirma que não acredita que um espaço dedicado exclusivamente à venda de discos físicos funcionaria atualmente. Caso um local físico venha a existir no futuro, a ideia seria diferente de uma loja tradicional. Um projeto como esse precisaria ser cuidadosamente planejado antes de se tornar realidade. Por não ser sua principal responsabilidade, Thiago dedica apenas o tempo que consegue, conciliando a gestão da coleção com suas outras responsabilidades profissionais.
Atualmente, mesmo sendo levado como um hobbie e uma forma de compartilhar conhecimentos, ele visa manter a loja por muitos anos, talvez até mesmo passando de gerações. A loja não possui espaço físico e para os que apreciam uma boa música, o , instagram (@bosquediscos) é o ponto de encontro. A loja também dispõe de um canal de interação no WhatsApp voltado exclusivamente para membros acreanos.
*Matéria escrita sob orientação do professor Wagner Costa e da monitora Ranelly Pinheiro, para a disciplina de Fundamentos do Jornalismo.
Por Carlos Eduardo, Thays Nogueira e Luis Guilherme*
Os jovens Rafael Santillo Justo, 20, e Guilherme Barros, 21, iniciaram, em fevereiro de 2026, um projeto independente para digitalizar arquivos audiovisuais das décadas de 1980 e 1990 da televisão acreana. A iniciativa busca preencher a ausência de registros históricos do estado na internet e se baseia no conceito de ‘Lost Media’ (mídias perdidas), termo que se popularizou na internet nos últimos anos e que define conteúdos que existiram, mas, por falta de preservação ou distribuição, tornaram-se inacessíveis ou são considerados desaparecidos. O material recuperado, que inclui acervos da TV Rio Branco, está sendo disponibilizado no YouTube nos canais Mídia da TV, Gpbtv e TV Acreana.
A motivação para o projeto surgiu após Rafael Justo notar uma escassez significativa em relação aos registros da televisão local disponíveis para consulta pública na internet. “São poucas coisas e normalmente trechos pequenos de digitalizações caseiras”, conta Rafael. Segundo Guilherme Barros, a preservação depende quase exclusivamente desses acervos das emissoras, já que o acesso limitado da população a aparelhos de vídeo na época impediu a criação de arquivos domésticos. “A televisão era um artigo de luxo. Se as pessoas mal tinham TV, quem dirá um vídeo cassete para gravar”. Guilherme pontua que em estados do Sudeste e Sul existe uma cultura de “arquivistas amadores” e muita coisa está preservada na internet por esse motivo.
Trechos já recuperados do acervo da televisão acreana estão sendo publicados nos canais Mídia da TV, Gpbtv e TV Acreana no YouTube, ampliando o acesso público à memória audiovisual do estado. Foto: cedida
O processo técnico é complexo e de alto custo, exigindo o envio do material para a empresa Procimar Cine Vídeo, em São Paulo, devido à ausência de equipamentos que reproduzam o formato U-matic no Acre. “A digitalização é feita por equipamentos profissionais e é obrigatório fazer a limpeza, porque as fitas estavam em um estado de conservação ruim. São fitas com mais de 30 anos que acabam mofando”, afirma Rafael. O custo para digitalizar as nove fitas que o projeto conseguiu ultrapassa mil reais, e o projeto sobrevive de recursos próprios e de doações feitas por uma “vaquinha” virtual. “Das nove fitas, só conseguimos digitalizar duas e elas saíram pelo valor de 550 reais, ou seja, é um processo muito caro”, completa o idealizador.
Até o momento, a digitalização priorizou fitas master de vinhetas e trechos das primeiras imagens da emissora fundada em 1989, mas o acervo ainda possui registros de relevância histórica. Entre os materiais pendentes de digitalização estão documentários sobre o governador Edmundo Pinto, o jogador Rei Arthur e ainda trechos de telejornais da emissora nos anos 90. “Tem outras fitas com assuntos muito interessantes ainda. É preciso fazer uma limpeza, muitas vezes manual, e algumas vezes até com tratamento químico para recuperar a imagem”, explica Rafael.
Fitas antigas da TV Rio Branco fazem parte do acervo que está sendo recuperado e digitalizado pelos jovens para evitar que registros históricos da TV acreana se tornem “lost media”. Foto: cedida
Embora o foco atual seja a TV Rio Branco, os jovens pretendem expandir a iniciativa para outras emissoras como TV Acre, TV5 e TV Gazeta. O projeto não possui fins lucrativos e é mantido por eles apenas como um hobby e conta com o apoio de ex-funcionários e profissionais do setor que auxiliam na identificação dos conteúdos. “A repercussão tem sido muito positiva e desperta a atenção de jovens que têm curiosidade sobre o passado, e dos contemporâneos das imagens que sentem nostalgia ao rever as imagens. Estamos abertos para quem tiver algum acervo particular ou emissora que queira conversar sobre a disponibilização de materiais, e também para quem quiser ajudar financeiramente através da nossa vaquinha que está disponível no Youtube”, finaliza Rafael Justo.
Trechos já recuperados do acervo da televisão acreana estão sendo publicados nos canais Mídia da TV, Gpbtv e TV Acreana no YouTube, ampliando o acesso público à memória audiovisual do estado. Foto: cedida
Presente em padarias, feiras livres, lanchonetes, festas e até nas bicicletas de vendedores ambulantes que circulam com caixas térmicas pelas ruas de Rio Branco, o quibe se tornou parte do cotidiano alimentar no Acre. A versão mais emblemática dessa popularização é o quibe de macaxeira, adaptação regional que substitui o trigo pela raiz amazônica e consolidou o salgado como símbolo da identidade culinária local.
Originalmente preparado na região do Levante, área que abrange países como Líbano e Síria, o quibe é feito com carne de cordeiro, trigo para quibe (bulgur), hortelã e especiarias, podendo ser assado ou frito.
A receita chegou ao Brasil com imigrantes sírios e libaneses entre o fim do século XIX e o início do século XX e, ao longo do tempo, passou por adaptações conforme os ingredientes disponíveis e os hábitos alimentares locais.
No Acre, a transformação foi além da simples substituição de itens. Surgiram versões que dialogam diretamente com a cultura alimentar amazônica, como o quibe de arroz e, principalmente, o de macaxeira também conhecida como mandioca ou aipim. Ao trocar o trigo pela raiz ralada ou amassada, o salgado ganhou textura mais macia por dentro, crocante por fora e sabor mais suave, criando uma identidade profundamente regional.
Quibe de arroz, alternativa criativa e econômica, que reaproveita ingredientes do dia a dia sem perder sabor. Foto: arquivo pessoal
Segundo o historiador Francisco Bento da Silva, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), a culinária é uma das expressões mais visíveis da mistura cultural. “A comida muda tanto quanto as pessoas que migram”, afirma.
Para ele, a presença da macaxeira na receita representa a incorporação de saberes indígenas e amazônicos a um prato de origem árabe. “Não é apenas uma troca de ingrediente; é um encontro de histórias.”
Além da base diferente, o quibe acreano apresenta temperos próprios, formatos variados e recheios adaptados ao gosto local, carne bem temperada, cheiro-verde e pimenta regional.
Em Rio Branco, o salgado é facilmente encontrado em padarias de bairro, mercados, lanchonetes e feiras populares. O preço varia conforme o tamanho e o ponto de venda, mas, em média, custa entre R$5 e R$10 a unidade.
Em festas e encomendas, também aparece em versões menores, servidas como salgado de evento. Vendedores ambulantes ajudam a manter viva a tradição, levando o produto para diferentes bairros e reforçando sua presença na rotina urbana.
Nutrição e sabor
Do ponto de vista nutricional, a composição varia conforme a receita e o modo de preparo. De acordo com a nutricionista Flávia Dias, o quibe feito com trigo combina carboidrato complexo e proteína, oferecendo fibras, vitaminas do complexo B, ferro e zinco. Já a versão com macaxeira é fonte de energia e naturalmente sem glúten, podendo ser alternativa para pessoas com restrição ao trigo.
Quibe de trigo, versão tradicional, preparada com trigo para quibe e temperos clássicos da gastronomia árabe. Foto: reprodução
As versões fritas concentram mais gordura e calorias, enquanto o quibe assado tende a ser mais equilibrado. A recomendação é priorizar carnes magras, incluir vegetais na massa e utilizar ervas frescas para agregar valor nutricional.
Quibe cru, preparação típica da culinária árabe, servida crua, com carne fresca, trigo hidratado e especiarias. Foto: reprodução
O quibe no Acre hoje supera a tradição original para abraçar a diversidade local. Com versões que utilizam trigo, arroz ou macaxeira, o salgado demonstra a capacidade de adaptação da gastronomia do estado.
O prato deixou de ser apenas uma herança do Oriente Médio para se tornar um símbolo da identidade acreana, unindo o saber dos imigrantes aos ingredientes da floresta. Consolidado no cotidiano de Rio Branco, o quibe com sotaque amazônico segue em constante evolução, sem apagar as memórias que o trouxeram até aqui.