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Quem ajuda quando o rio transborda?

Com casas alagadas e comunidades isoladas no Acre, redes de doação e solidariedade assumem a linha de frente da resposta às enchentes

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Com ruas alagadas, moradores usam barcos para levar cestas básicas. Foto: Juan Diaz

Como era o mundo há 50 anos atrás? No Brasil, a primeira versão da telenovela Roque Santeiro foi censurada, levando à criação de outro clássico, escrito por Janete Clair, Pecado Capital; em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar. No Acre, Chico Mendes fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, com Wilson Pinheiro. Lá pelas bandas do sul, no Paraná, acontecia a “Geada Negra”, uma tragédia climática que dizimou cafezais congelados por uma nevasca. 

Voltando para as terras acreanas, em 1975, foi a primeira vez que uma enchente foi registrada em dezembro, em Rio Branco. A segunda, foi em 2025. O rio atingiu a marca de 15,41 metros, em 29 de dezembro de 2025, alcançando a cota de transbordamento de 14 metros, após chuvas seguidas. Nesse cenário, a solidariedade se mostra uma infraestrutura de solução decisiva. Warlle Almeida, professor e cozinheiro, relata que:

“Deveria existir mais assistência, vigilância e controle de bairros, famílias e comunidades que são afetadas pelas cheias dos rios, igarapés e chuvas intensas. As autoridades deveriam mapear essas localidades e, como há pessoas que não têm para onde ir, reservar um fundo financeiro de emergência para dar assistência em casos extremos como as chuvas e alagações”.

Calamidade afeta, principalmente, bairros mais pobres do Acre. Foto: Juan Diaz

Almeida é voluntário do projeto União Solidária, desde 2020. Ele prepara marmitas, embala e entrega durante as ações do coletivo. O grupo tem atuação tanto em momentos de crise, quanto em datas comemorativas, como Dia das Mães, dos Pais e das Crianças. A “União” realiza campanhas de arrecadação e doação através do perfil na rede social do projeto e nas redes de cada voluntário, além de atuar nos territórios.

Nesse cenário desafiador, como pontuou Almeida, coletivos de base consolidam a ajuda a estas famílias atingidas. Redes como a “União” e o Grupo Social pela Vida (GS) expõem os desafios desta empreitada. Mel Silva, neuropsicopedagoga e presidente do “GS”, revela que assim que começam os transtornos, eles são contatados pelos líderes de cada grupo social, instaurando um processo de organização interna para atendê-los.

“As necessidades mais urgentes são, quase sempre, água potável e alimentação, especialmente refeições prontas. Isso acontece porque muitas famílias precisam elevar ou retirar seus móveis, ficam sem energia elétrica e, consequentemente, sem condições de cozinhar. As doações geralmente vêm de pessoas de fora das comunidades atingidas, incluindo voluntários, familiares, amigos e parceiros”, disse.

A água sobe

A maior cota geral da história do rio foi de 18,40 metros em 4 de março de 2015, afetando mais de 102 mil pessoas. Antes disso, o recorde era de 14,30 m, em 14 de março de 1997, que levou 18 anos para ser superado. Em 3 de abril de 2023, o corpo hídrico atingiu 17,72 m, demorando oito anos para se aproximar da marca de 2015. Já em 2024, a nova marca foi atingida em apenas 11 meses depois.

Solidariedade arrecada mantimentos necessários para a população atingida. Foto: União Solidária

“A maior cheia”, “a maior temperatura”, “o menor nível do rio”, “a menor umidade do ar” fizeram parte do vocabulário dos acreanos nos últimos anos. Em 4 de março de 2024, a segunda maior enchente da história de Rio Branco, capital, foi registrada. O rio Acre atingiu 17,75 metros. Este foi o maior desastre ambiental do Estado, por conta do número de cidades e pessoas atingidas, segundo o governo do Estado.

Na cheia de 2023, Edilson Santana, motorista de aplicativo e morador do bairro Travessa Beira Rio conta que perdeu utensílios como geladeira, armário de cozinha, guarda-roupa, estoque de ração dos cachorros, incluindo a morte dos animais de quintal, como aves e na sua horta

“A enchente de 2023 foi muito rápida. Acordei às cinco da manhã para ir ao banheiro e olhei para o rio; ele estava cheio, mas a água ainda não tinha chegado à minha casa. Voltei a dormir e, quando acordei por volta das 6 horas, a água já estava na minha cozinha, atingindo a metade da geladeira (a minha cozinha é mais baixa que o restante da casa, em média 8 centímetros). A água também já cobria quase metade do meu carro. Foi horrível.”

Utensílios e eletrodomésticos precisam ser retirados, caso o contrário, se perdem. Foto: Juan Diaz

Em dezembro de 2025, o acumulado de chuvas chegou a 483 milímetros, volume 97% superior à média esperada para o período, de 265 milímetros. E, como aponta o coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão, os mais afetados são, justamente, famílias em condição de vulnerabilidade, o que significa muitas vezes, aquelas que moram em áreas de risco por falta de opção e por terem menor poder aquisitivo:

“Nós temos as mudanças climáticas, que eu prefiro chamar de emergências climáticas […] Desde 2021 temos inundações todos os anos, sendo que em 2025 ocorreram duas. Por que isso se torna frequente? Mudanças climáticas, ação do homem e ciclo da natureza. Eu diria que esses são os três fatores primordiais”, destaca Falcão.

Na manhã de terça-feira, 13, data em que esta matéria está sendo produzida, o manancial da capital atingiu 13,27 metros, mantendo-se estável nesse patamar até o meio-dia. Entretanto, a capital está novamente em estado de alerta, estando a apenas 23 centímetros da Cota de Alerta oficial (13,50m) e a menos de um metro de um novo transbordamento. 

“Quando ocorrem catástrofes, como chuvas e enchentes intensas, agimos mediante a urgência, pois as comunidades são cadastradas no nosso sistema. Quando chegam casos isolados, mandamos equipes a vários locais. Depois da arrecadação, separamos os itens e montamos kits (quando são roupas, sapatos, produtos de limpeza e higiene). No caso de alimentos, utilizamos para o preparo das marmitas. Quando são doados sacolões, verificamos as famílias mais necessitadas e as entregamos. Após todo preparo e montagem, saímos em equipes”, acrescenta Almeida.

O estado sofre

Este tipo de ajuda é necessária em todo o território acreano, já que a análise dos dados revela um efeito dominó em todo o sistema hidrográfico do estado, afetando as bacias do Purus, Juruá e Tarauacá. Em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, o Rio Juruá registrou uma oscilação mista. Boletins subsequentes indicaram o início de uma vazante, afastando-o da cota de alerta.

Apesar da trégua momentânea, a região do Juruá mantém um histórico de vulnerabilidade, tendo enfrentado cheias severas que exigiram campanhas de arrecadação específicas para a região, dada a sua distância da capital.

“Falando de classe social, essas pessoas [em situação de vulnerabilidade] são as primeiras a sofrer. Já em termos de faixa etária, o impacto é igual: tanto crianças quanto adultos e idosos sofrem com a mesma intensidade, desde que pertencem a essas categorias sociais menos favorecidas”, diz o tenente-coronel.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão”.

Em Tarauacá, durante eventos recentes associados a esta temporada de chuvas, cerca de 90% do município chegou a ficar submerso em momentos de pico, afetando direta e indiretamente até 28 mil pessoas. Em Feijó, a situação é agravada pelo isolamento das terras indígenas e ribeirinhas, onde as águas destruíram roçados de subsistência, criando uma crise de segurança alimentar.

Já Assis Brasil, em 2021, é palco de uma crise migratória agravada pela enchente com imigrantes na fronteira com o Peru sendo retidos por dias. A campanha “SOS Acre” direcionou parte de seus esforços especificamente para este grupo, fornecendo ajuda humanitária a haitianos, venezuelanos e outras nacionalidades que se viram duplamente desamparados: sem pátria e sem chão, literalmente. Santana reflete que quando se é vítima das enchentes, para além do prejuízo material, “a dignidade desaparece” e a população local “fica vulnerável a tudo.”

“Agilidade nas ajudas, a maioria das ajudas demoram bastante e a enchente destrói tudo numa velocidade grande para quem mora próximo às margens”, pontua o motorista de aplicativo sobre os desafios que aparecem para quem é vítima dos desastres climáticos.

E não foram só os animais de Edilson Santana que precisaram de auxílio. No transbordo de 2024, o Ministério Público do Acre (MPAC) também emitiu recomendações expressas para o resgate e cuidado de animais domésticos. Em resposta, a Prefeitura de Rio Branco construiu 17 boxes adicionais no Parque de Exposições e espaços específicos para animais nas escolas-abrigo. Estima-se que quase 600 cães e gatos tenham sido abrigados.

A desigualdade aparece

“Racismo ambiental” é um termo que pode englobar esta discussão. Cunhado por Benjamin Franklin Chaves, líder afro-americano de direitos civis, o conceito retrata esta diferença entre bairros de classe alta e os à margem do centro e o seu acesso a condições eficazes de moradia, saneamento básico e outros tipos de melhorias de infraestrutura. 

Historicamente, o mês de dezembro não costuma registrar cheias dessa magnitude. A cheia de dezembro desencadeou uma primeira onda de desabrigados e desalojados, sendo 758 pessoas, segundo boletim do governo estadual, até o momento de escrita deste texto. Foram mais de 20 mil pessoas atingidas e cinco municípios, inclusive Rio Branco, declararam situação de emergência. 

Entre os dias 9 e 11 de janeiro de 2026, a via fluvial recuou para patamares próximos a 10 metros. Contudo, chuvas torrenciais nas cabeceiras e na própria capital reverteram o cenário. No dia 12, a capital acreana registrou 84 milímetros de chuva, enquanto o município de Assis Brasil, na bacia superior, recebeu 124,8 milímetros em 24 horas. 

Com esse cenário de mais uma possível calamidade pública, os dois representantes das redes de solidariedade entrevistados contaram o diferencial entre os dois. O “União Solidária” prioriza, em sua atuação, agrupamentos mais isolados. Como povos ribeirinhos, que necessitam de um barco, de uma caminhonete ou veículo traçado para conseguir fazer a entrega dos alimentos. O atendimento dos dois coletivos também é esquematizado em etapas, sendo que a prioridade inicial é água e refeições prontas.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão’. Escutamos muito as pessoas falarem: ‘Ah, mas todo ano acontece isso com essas famílias?’. Sim, todo ano acontece, porque essas famílias continuam em áreas de risco. Em momento algum foram retiradas dessas áreas, então, sim, vai se repetir todos os anos”, reitera Robson Fadell, presidente e fundador da União Solidária.

A solidariedade se constrói

Fadell se descreve como nutricionista de formação e ativista social de coração e afirma que as enchentes “revelam” desigualdades que não acontecem apenas no período das chuvas. Ele fundou a ONG com outros colegas. Em 2021, numa alagação durante a pandemia, eles perceberam uma demanda grande por comida. Além de pessoas aglomeradas, com muitos casos de COVID-19 e sem isolamento. Dessa maneira, eles começaram a intervir com ações de saúde e entrega de refeições até formarem a organização.

“Muitas vezes, fala-se imediatamente em colchões e cestas básicas, mas o processo não começa assim. Quando a água começa a baixar, surgem novas necessidades, como produtos de limpeza para higienizar as casas e permitir o retorno das famílias. Só depois entram os móveis, as cestas básicas e outros itens essenciais”, enfatiza Mel Silva sobre a atuação da rede solidária que coordena.

O processo de decisão de para quem vai cada doação ocorre de acordo com a necessidade de cada região, explica Silva. O “Grupo Social pela Vida” mantém contato constante com outros parceiros que atuam na linha de frente para garantir que os suportes sejam distribuídos de forma equilibrada e estratégica, evitando a concentração de ajuda em um único local e assegurando que ela chegue, de fato, a quem mais precisa.

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias”.

O tenente-coronel, Falcão, acredita que faltam políticas públicas para que essas pessoas dependam menos de auxílio. Por conta disso, ele acredita que as redes de apoio comunitário são essenciais para garantir que essa assistência alcance esta parcela da população. A geografia acreana impõe desafios que moldam a natureza das doações e a forma como elas são distribuídas. A cultura de doação precisa ser, necessariamente, uma cultura de logística.

“Há uma grande quantidade de pessoas afetadas e valores irrisórios investidos; penso que, nesse cenário, as redes solidárias são muito favoráveis”, pensa Falcão. “Além disso, temos um povo voltado para a solidariedade: basta saber que alguém está sofrendo para que a ajuda apareça. Vejo, de uma forma geral, que no país todo, quando há desastre, existe uma rede comunitária.”

Falando sobre as autoridades, o Governo do Acre, lançou a campanha "Juntos Pelo Acre" em 2025, uma iniciativa que funciona como um guarda-chuva logístico, centralizando doações de grandes volumes e distribuindo-as para os municípios mais afetados. Já a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, além do resgate físico, atuam na distribuição das doações. A campanha "SOS Acre" arrecada, sobre a confiança pública no MPAC, volumes financeiros para a assistência destes moradores. 

Depois das enchentes, fica os desafios de limpeza e recuperação dos bairros atingidos pela cheia. Foto: Juan Diaz

Porém, para Falcão, é preciso trabalhar a prevenção, mitigação e a preparação. Ele cita o termo “adaptação climática”, que, conforme descrito por Anielise Campêlo, cientista ambiental e professora, ao Comitê Chico Mendes, em 2025, se trata de“repensar quais são as nossas principais matérias-primas para produzir aquilo que a gente consome”. No campo da infraestrutura urbana, seria construir novas formas de alicerces para as cidades, preparando-as para enchentes e secas severas.

“Em nossa cidade, percebemos que toda chuva acima de 50 milímetros causa alagamentos. As pessoas podem ser realocadas, mas, enquanto não mudam, precisam estar preparadas. A residência deve estar pronta para enfrentar esses alagamentos. Além disso, é necessário mudar a cultura, evitando o descarte inadequado de lixo e investindo em educação ambiental”, complementa Falcão.

O desafio se intensifica

Outro caso de doação institucional, a Associação dos Magistrados do Acre (ASMAC) e o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) promovem campanhas internas e externas, além de empresas e associações comerciais que desempenham um papel crucial, como a Fecomércio/AC que realizou uma doação de 130 toneladas de alimentos, convertidos em 9.000 sacolões. Entretanto, não é o bastante:

Essas famílias estão em vulnerabilidade social e precisando de apoio e política pública de janeiro a dezembro”, relembra Fadell. “Só que somente nesses 90 dias tudo toma uma proporção muito grande, torna-se calamidade pública e a mídia divulga; é quando as pessoas passam a enxergar essas famílias.”

Ajuda chega de canoa nos lugares mais distantes. Foto: União Solidária

Silva esclarece que os maiores desafios para a continuidade de projetos como estes estão na frequência de doações e na falta de recursos vindo de instituições da sociedade civil. Quando a enchente chega no auge, normalmente, se consegue um volume satisfatório de doações e voluntários, como reportado na matéria. Com o passar do tempo, porém, ambos diminuem. 

O gargalo está na ausência de recursos e apoio técnico contínuos, como espaços adequados para cozinhar, veículos para distribuição e canoas, entre outros. Fadell faz coro com Silva e Falcão e justifica que o ideal seria a criação de políticas públicas habitacionais e saneamento básico. O nutricionista também observa que o poder público enxerga essas situações com o intuito de gerar assistencialismo, “fazendo da tragédia alheia um palanque eleitoral”. 

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias […] No ano passado, por exemplo, conseguimos chegar a locais onde o Estado e a Prefeitura não alcançaram. Em algumas regiões, fomos o primeiro socorro recebido. Com o apoio da comunidade e das doações, realizamos um bom trabalho. No entanto, se tivéssemos suporte estrutural e financeiro do Estado, poderíamos fazer muito mais”, conta Mel Silva.

Almeida denuncia que nos últimos dois anos, houve uma grande queda nas doações. Outras organizações, como a Cozinha Solidária Marielle Franco, registraram estas dificuldades. Com apoio do governo estadual, federal e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Cozinha entregou quase 10 mil marmitas e água mineral para atingidos pela cheia do Rio Acre, em 2024. Além dos alimentos, o Movimento por Uma Universidade Popular (MUP) fez entrega de roupas.

Acre é palco de enchentes recorrentes, apesar de ter um plano de contingência escrito. Foto: Juan Diaz

“A solução seria a criação de políticas públicas específicas e definitivas, e não ações paliativas a cada alagação. Já vamos para a sexta alagação trabalhando com essas famílias; acompanhamos algumas há 5 ou 6 anos e as vemos perdendo tudo. Tem relato de uma senhora que disse: ‘Meu filho, termino de pagar um guarda-roupa em 12 parcelas e a água leva’. É muito triste”, finaliza Fadell.

O futuro flui

Dados apontam para cheias nos próximos meses de 2026, segundo o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco. Para além de cuidados emergenciais, os entrevistados contam que o que falta é um plano de longo prazo para o enfrentamento destes cenários. Algo que, como avalia Warlle Almeida, é um limite para redes de solidariedade como a “União Solidária”, pois doação comunitária não substitui política pública..

Contudo, este caminho já pode estar pavimentado, pois em 2023, Rio Branco foi uma das primeiras capitais do Norte do Brasil a montar um Plano de Contingência para Inundações, a qual você pode ler aquiPara os entrevistados e, segundo diversos relatos de moradores afetados nas redes sociais, talvez o que falte seja justamente seguí-lo.

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Rio cheio e políticas vazias

Mudanças climáticas, cheias históricas e a fragilidade das políticas públicas que agravam a situação do Rio Acre

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Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz

O Rio Acre, que nasce no Peru e atravessa municípios acreanos de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia, Xapuri, Rio Branco, Capixaba, Senador Guiomard e Porto Acre, é um dos principais responsáveis pelo abastecimento e pelo sustento de milhares de famílias no estado. No entanto, ao longo dos últimos anos, o manancial tem enfrentado transformações profundas, impulsionadas pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela fragilidade das políticas públicas ambientais.

Essas mudanças se refletem tanto nos períodos de cheia quanto nos de seca extrema, que têm se tornado cada vez mais frequentes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e bairros urbanos situados em áreas de risco da capital acreana

Segundo Victor Manoel, do Comitê Chico Mendes, Rio Branco possui um plano de contingência estruturado contra enchentes, algo inexistente até mesmo nas maiores capitais do país brasileiras. Ainda assim, o problema persiste.

“Rio Branco tem um plano de contingência contra enchentes. Esse estudo já foi feito. O que falta, na verdade, é prioridade. Falta uma leitura do material que já existe. A gente vive em um mandato político onde se prioriza muito mais a infraestrutura urbana”, avalia.

Manoel explica que, embora o poder público não tenha controle sobre o clima ou as chuvas, é responsável por não desenvolver ações que reduzem o impacto das cheias. “A prefeitura não controla a chuva nem as mudanças climáticas, mas é totalmente responsável por políticas públicas que mitiguem os impactos dessas mudanças na população e na própria máquina estatal”, completa.

Cheias atípicas e extremos cada vez mais frequentes

Em dezembro de 2025, o Rio Acre registrou uma cheia considerada atípica. De acordo com a Defesa Civil Municipal, foram acumulados 561,6 milímetros de chuva, o que representa 97% acima do esperado para todo o mês, um volume que não era observado havia pelo menos uma década.

O coordenador municipal da Defesa Civil, coronel Cláudio Falcão, explica que o comportamento do rio é marcado por variações extremas de vazão

“Quando o Rio Acre está abaixo de 11 metros, a vazão chega a cerca de 1 milhão e 100 mil litros de água por segundo. No outro extremo, essa vazão pode cair para cerca de 25 mil litros por segundo. A diferença é muito grande”, explica.

Foto: cedida.

Segundo ele, parte desse comportamento se deve às características naturais do rio. “O Rio Acre é um rio novo, ainda em formação, e por isso muda o curso de vez em quando”, afirma.

Desmatamento e perda da mata ciliar agravam o problema

Além das características naturais, questões ambientais agravam a situação. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicado no site InfoAmazonia aponta que o Rio Acre perdeu cerca de 40% da sua mata ciliar ao longo de 55 anos, equivalente a aproximadamente 4,5 mil hectares de vegetação nativa degradada, de um total original estimado em 11,6 mil hectares.

A mata ciliar é fundamental para a regulação do rio por ajudar a conter a erosão das margens, reduz o assoreamento e permite que a água seja absorvida e liberada gradualmente.

“Ao longo do Rio Acre há muito assoreamento e desmatamento das margens. Com isso, o rio não consegue manter o nível da mesma maneira. Quando a água chega, chega de uma vez só”, explica o coronel Falcão.

Ele destaca o papel da floresta na regulação dos extremos hídrico: “A floresta segura a água no período de cheia e vai soltando aos poucos durante a seca. Além disso, evita o desbarrancamento e o aceleramento do rio. Se tivéssemos a floresta preservada ao longo do rio, não teríamos extremos tão intensos”, afirma

A vida em áreas vulneráveis: relatos de quem convive com o rio

No bairro Cidade Nova, em Rio Branco, as moradoras Vitória Yasmin, de 23 anos, e Alderina Costa, de 65, relatam as dificuldades enfrentadas durante os períodos de cheia do Rio Acre, fenômeno que se repete ano após ano e afeta diretamente a rotina de quem vive em áreas consideradas vulneráveis.

“Quando começa a encher, a gente já levanta tudo. A água é contaminada por causa do esgoto. Eu preciso ir para a casa da minha avó. Em 2015, a água chegou a subir pela parede”, conta Vitória.

Alderina relembra que, diante da recorrência das enchentes, a família precisou investir por conta própria para reduzir os riscos. Sem apoio financeiro do poder público, a solução encontrada foi adaptar a própria estrutura da casa.

“A água entrou bem aqui. Em 2015, na época, não tinha esse apartamento alto. Então a gente fez um segundo andar para ficar lá em cima quando alaga”, relata.

Segundo Alderina, a decisão de construir um segundo pavimento veio do desejo de permanecer no local onde sempre viveu. Para ela, sair da própria moradia e ser levada para abrigos distantes é uma alternativa que muitos moradores não querem enfrentar. Destaca, ainda, que não vê possibilidade de deixar a casa, pois não teria para onde ir: “Se eu pedir 100 mil, aqui na minha casa, eu não vendo. Entendeu? E se eu pedir menos de 50 mil, eu vou comprar outra onde?”, questiona.

Ela defende que o governo ofereça apoio financeiro para que as famílias possam adaptar suas casas com segurança, evitando o deslocamento forçado durante as cheias. Para Alderina, a permanência no território também representa dignidade, pertencimento e menor desgaste emocional.

As adaptações feitas pelas famílias evidenciam como a responsabilidade de lidar com os impactos das cheias acaba sendo transferida do poder público para os próprios moradores. Embora existam políticas públicas voltadas à prevenção de desastres, ainda há um hiato significativo entre o que está previsto no papel e o que, de fato, é executado.

Além disso, moradores que vivem em áreas de risco defendem que as soluções não se limitem apenas à retirada compulsória das famílias de suas casas. Para eles, é fundamental que haja diálogo, escuta e participação das comunidades diretamente afetadas, por meio de audiências públicas e espaços de debate que considerem suas realidades e necessidades. Essas populações não são culpadas pelos desastres recorrentes e precisam ser incluídas na construção das soluções.

As estratégias adotadas por famílias como a de Alderina revelam não apenas a precariedade das políticas habitacionais em áreas vulneráveis, mas também a criatividade, a resistência e a determinação de quem convive há décadas com o avanço das águas.

Diante da ausência de respostas efetivas, são os próprios moradores que buscam alternativas para proteger suas famílias e preservar o vínculo com o território onde construíram suas histórias.

Apesar do cenário preocupante, existem iniciativas públicas voltadas à prevenção e à recuperação ambiental. Em Rio Branco, foi instituído o Plano Municipal de Prevenção e Combate às Enchentes, que prevê ações como o mapeamento de áreas de risco, recuperação de áreas degradadas, melhorias na drenagem urbana e educação ambiental. No entanto, grande parte dessas medidas ainda depende de orçamento, continuidade administrativa e prioridade política.

No campo ambiental, o Governo do Acre e a Prefeitura de Rio Branco firmaram um acordo de cooperação técnica para fortalecer ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Em 2025, por exemplo, mais de 400 mudas de espécies nativas foram plantadas em áreas de preservação permanente às margens do Rio Acre, como tentativa de conter a erosão do solo.

O estado também conta com iniciativas como o Viveiro da Floresta, em Rio Branco, responsável pela produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares em diferentes regiões do Acre. Apesar disso, estudos científicos, avaliam que as ações ainda avançam em ritmo lento diante da dimensão do problema e da frequência cada vez maior das cheias.

Limites orçamentários e desafios estruturais

De acordo com o coronel Falcão, outro entrave importante é a limitação de recursos e a complexidade das soluções necessárias.

“Não existe solução simples. Algumas ações envolvem diplomacia entre países, porque o rio nasce no Peru, e outras dependem de recursos que a Defesa Civil não tem para atender todos os problemas ao mesmo tempo”, afirma.

Ele explica que mudanças estruturais no comportamento do rio demandam tempo. “Nada pode ser mudado em menos de 10 anos. Qualquer ação que a gente faça agora não muda o cenário do Rio Acre em curto prazo”, ressalta.

O futuro do Rio Acre

O coordenador da Defesa Civil alerta ainda para projeções preocupantes. Segundo ele, o climatólogo Carlos Nobre prevê um cenário crítico para o Rio Acre até 2032, caso o modelo atual de ocupação e degradação ambiental continue.

“A gente pode enfrentar uma seca tão severa que o rio pode praticamente parar de correr, como diziam nossos antepassados”, alerta.

O problema é recorrente, que se repete ano após ano, a situação do Rio Acre evidencia que, mais do que planos e ações emergenciais, são necessárias políticas públicas transparentes, contínuas e preventivas, capazes de articular preservação ambiental, planejamento urbano e proteção social. Sem isso, moradores continuarão convivendo com cheias, secas e a incerteza de um rio cada vez mais imprevisível.

Redação

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O rio sob seus pés: as pontes que conectam história, comércio e vida em Rio Branco

Ponte Metálica e Passarela Joaquim Falcão Macedo integram Primeiro e Segundo Distritos de Rio Branco e facilitam o trânsito de carros e pedestres na região

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Por Lis Gabriela e Rhawan Vital

Onde centenas de pés passam, pneus deixam borracha no asfalto e bicicletas atravessam em meio aos pedestres, comerciantes contam sobre a importância e de duas das pontes mais famosas do estado.

Em destaque pela influência, tanto histórica como atual, a Passarela e a Ponte Metálica (também conhecidas, respectivamente, como Passarela Joaquim Falcão Macedo e Ponte Juscelino Kubitschek), são referências quando se trata da história e da identidade acreanas.

Passos sobre o Metal

A Ponte Juscelino Kubitschek, popularmente conhecida como “Ponte Metálica”, pode ser considerada um símbolo de resistência. Inaugurada na década de 60, é uma das principais formas de ligação entre o Primeiro e o Segundo Distrito da capital acreana. Sua construção foi um marco na engenharia para a época, em uma resposta direta ao isolamento do Segundo Distrito em relação ao centro administrativo e comercial de Rio Branco.

Antes dela, a travessia era feita, na maioria das vezes, por catraias, que limitavam o fluxo de mercadorias e pessoas. Dessa forma, a estrutura montada com treliças de aço não apenas facilitou o transporte de veículos, mas integrou definitivamente as duas margens da capital. Batizada em homenagem ao presidente do Brasil entre 1956 e 1961, a ponte tornou-se o principal corredor logístico da cidade por décadas, e resiste ao tempo e a inúmeras cheias históricas do Rio Acre, que testaram sua robustez ao longo de mais de 60 anos.

Ponte Juscelino Kubitschek. Foto: Rhawan Vital

Quem atravessa do Primeiro ao Segundo distrito, avista o imponente “Ponto Certo Agropecuária”, loja de agronegócio que há mais de dez anos dispõe de sementes, ferramentas, grãos e alimentos de diversos tipos, até maquinário pesado. Pedro Fernandes, de 30 anos, trabalha lá há dez meses e, pelo lugar estratégico em que a loja se coloca, sabe que a importância da ponte reflete no sucesso do estabelecimento e que, por ser logo em frente à uma das saídas, se coloca como uma opção mais fácil para quem procura esse tipo de mercado. 

“A ponte, tanto para veículos, para pedestres e para o  comércio, é muito importante. Quando a ponte fica interditada, atrapalha muito, mas o fluxo de pessoas aumentou nesse espaço depois da interdição da passarela”, diz Pedro

Cultura e Identidade sobre as águas

A passarela Joaquim Falcão Macedo, uma das primeiras na Região Norte a ser projetada exclusivamente para pedestres e ciclistas, convida a outro ritmo e se torna um local de passeios e encontros. Inaugurada em 2006, é uma ponte estaiada, ou seja, uma ponte de cabos. Com cerca de 200 metros de extensão, busca amenizar o conflito entre o tráfego pesado de carros e pedestres, e possibilitar ao cidadão o prazer de contemplar o rio.

Passarela Joaquim Falcão Macedo. Foto: Rhawan Vital

Porém, desde 2024, a Passarela está interditada e, por ser parte do espaço, o Mercado Velho também é afetado pela reforma, com tapumes de metal espalhados pela praça que chamam mais atenção do que o próprio rio.

“A passarela é muito importante. Vejo por aí jovens escrevendo,  professoras que trazem alunos para conhecer e contemplar a região. É uma passagem livre. Ela atrai vida para nossas praças, para a encosta do rio. Agora nós não temos mais isso. Não pode ficar assim.” relata Francisco Marufo Lessa, dono da loja Ervas do Lessa há 40 anos.

Francisco Marufo Lessa, dono da loja Ervas. Foto: Rhawan Vital

Para além da sua importância comercial e social, uma ponte também compõe histórias individuais ao fazer parte do dia a dia de quem depende delas para locomoção. Maria Bárbara, de 18 anos, voluntária em uma associação que cuida de crianças (ASBVIN), fala que a ponte é justamente algo que facilita e oferece maior comodidade para o seu trajeto de casa para o trabalho. “Uma ponte facilita muito a vida. É, literalmente, cortar um caminho. Ajuda muito depois de um dia cansativo, já que não preciso mais andar tanto”, diz a voluntária.

Essas pontes apontam para um conjunto arquitetônico que compõe a história de Rio Branco e sua caminhada para uma capital cada vez mais moderna, que utiliza a engenharia para encurtar distâncias e criar espaços de convivência. Apesar disso, elas ainda carecem de segurança e maior comodidade para os transeuntes que podem ficar à mercê de assaltos, chuvas e sol. Seus vãos não sustentam apenas o peso de quem passa, mas sustentam a história de um povo que aprendeu a construir caminhos sobre os desafios vividos na Amazônia.

Redação

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Casa do Rio consolida proposta de gastronomia e música às margens do Rio Acre

Gastronomia regional, música ao vivo e vista privilegiada transformam a beira do Rio Acre em um dos principais pontos de encontro e lazer de Rio Branco

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Por Ana Cristina e Joyce Beatriz

Entre a calmaria das águas do Rio Acre e o som que toma conta do fim de tarde, a Casa do Rio se firmou como um dos espaços de lazer e gastronomia de Rio Branco. De frente para um dos principais marcos naturais da capital, o gastrobar reúne culinária regional, música ao vivo e vista para o rio em um mesmo cenário.

Localizado no bairro da Base, o estabelecimento oferece programação musical e eventos temáticos voltados ao público que busca gastronomia regional e entretenimento. No cardápio, há destaque para pratos com peixes de rio, opções com tucupi e receitas inspiradas na culinária acreana. 

O quibe de arroz e o quibe macaxeira estão entre os itens mais vendidos, considerado o prato mais procurado pelos clientes. Já entre os pratos principais, um dos destaques é o tambaqui mergulhado. Os preços variam a partir de R$34,00 variando conforme o prato.

Caldinho de feijão. Foto: arquivo pessoal

Inaugurado em 2019, o espaço nasceu da proposta de reunir gastronomia e música em um ponto tradicional da cidade. Nascida e criada no bairro da Base, a proprietária Izabel Dantas idealizou o empreendimento inspirado na história da comunidade onde cresceu.

“Nasci e me criei no bairro da Base. Sempre tive o sonho de fazer algo que ficasse na história do meu bairro. A Casa do Rio também trouxe visibilidade para a comunidade”, afirma.

Izabel Dantas, proprietária. Foto: arquivo pessoal

Além da gastronomia, a programação musical é uma das principais atrações da casa. O espaço recebe apresentações frequentes de artistas locais, que recebem cachê pelas apresentações, incentivando a presença de músicos da cidade na programação do estabelecimento.

Segundo a proprietária, o público que frequenta o espaço é majoritariamente das classes A e B, e o movimento semanal costuma variar entre 100 e 1.500 pessoas, dependendo da programação e do período.

A localização às margens do Rio Acre também influencia a rotina do estabelecimento. Durante o período de cheias, comuns na região, quando o rio transborda, o funcionamento da casa precisa ser suspenso temporariamente.

Feijoada. Foto: arquivo pessoal

Atualmente, a Casa do Rio funciona às quartas e quintas-feiras a partir das 16h. De sexta a domingo, o espaço abre às 11h e mantém programação ao longo do dia e da noite, especialmente nos fins de semana, quando o movimento é mais intenso.

Com a proposta de unir gastronomia, música e a paisagem do Rio Acre, a Casa do Rio transformou a beira do rio em ponto de encontro para moradores e visitantes da capital.

Redação

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