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Do isolamento à cidadania: travessia da defensoria pelas comunidades do Acre

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A iniciativa leva às comunidades ribeirinhas, periféricas e rurais atendimento jurídico, emissão de documentos, consulta a processos e diversos outros serviços

Por Bruna Feitosa*

Localização, despesa com transporte, hospedagem, alimentação, senhas por ordem de chegada e agendamento eletrônico são algumas dessas dificuldades encontradas por aqueles que residem em locais distantes dos centros urbanos e na maioria das vezes sem acesso digital ou conectividade.

Essa é a realidade de muitos acrianos, o Francisco das Chagas, que era só felicidade após receber o atendimento da Defensoria Pública em sua comunidade, localizada no . Para chega a ser atendido é inacreditável que fez suporte jurídico, a população também teve acesso a serviços na área da saúde, orientações sobre direitos do consumidor e sobre opções de crédito rural. sem precisar se deslocar até a cidade.

“Sou grato pela oportunidade, que é a realização deste serviço, apesar de onde moro. Conseguir suporte jurídico de dúvidas sobre o direito do consumidor de compra e venda de casa, para mim, foi muito importante, sou agradecido à Defensoria itinerante. Serviços essenciais que nos auxiliam e ajudam muito! Estou satisfeito”, afirmou.

Órgão públicos como Tribunal de Justiça do Acre, com o Projeto Cidadão,  o Ministério Público do Estado do Acre, com o projeto MP na Comunidade e Defensoria Pública do Acre, com a Defensoria Itinerante realizam ações e projetos de forma conjunta para suprir as necessidades das comunidades mais isoladas. Em alguns locais as pessoas sequer conhecem seus direitos e têm dificuldade de chegar até a sede dos prédios públicos onde os serviços são ofertados.

A Defensoria do Estado do Acre tem se destacado pela promoção de justiça social ao enfrentar desafios como a falta de recursos, a escassez de defensores públicos e a sobrecarga de trabalho, o que, muitas vezes, dificulta o atendimento eficaz às populações mais carentes.

Os serviços que são ofertados pela Defensoria Itinerante são: orientação jurídica, consultas processuais, ajuizamento de ações, mediação e conciliação, alterações em registros civis, atendimento em direito de família, emissão de registros civis, encaminhamento para outros órgãos públicos entre outros.

A presença da Defensoria nas comunidades periféricas e rurais é crucial, deveria ser uma prática frequente e não uma exceção, já que nessas comunidades as pessoas enfrentam dificuldades para acessar a justiça. Um exemplo claro de como a Defensoria tem feito a diferença é o projeto “Mulheres Recomeçando”, que oferece suporte médico a mulheres em situação de violência doméstica e em questões relacionadas a seus direitos em áreas como saúde e cursos profissionalizantes e até capacitação para que vítimas de violência doméstica possam entrar no mercado de trabalho.

De acordo com o Coordenador da Comunicação da Defensoria Pública, Celso Araújo, a Defensoria tem um papel importante em levar os serviços à população na capital e no interior. “O programa visa levar atendimento jurídico às comunidades e foi idealizado em 2017. Até o momento atual, milhares de pessoas foram atendidas seja na cidade, seja na zona rural, seja na capital ou no interior. Esse trabalho é importante porque ele visa trazer cidadania e dignidade a todos, levando serviços para quem mais precisa”, afirma Celso Araújo.

De acordo com Franklin Lima da assessor da Secretaria de Estado da Mulher (SEMULHER) informou que todos os programas têm parcerias com as outras instituições que compõem a rede de atendimento à mulher vítima de violência. “O programa Impacta Mulher visa oferecer cursos profissionalizantes que alcançaram os 22 municípios do estado com customização de sandálias, guardanapos, hambúrguer, bolos e tortas. Para as mulheres em situação de vulnerabilidade social ou mulheres em caso de violência doméstica, mais de 1.600 já foram alcançadas com os cursos profissionalizantes”, afirma a assessora.

https://defensoria.ac.def.br/back-end/img/noticias/Semana%20do%20Rim/05cd0407-d89f-4bb7-8de3-9206ba18cf72.jpgDefensoria - ACRE

O projeto leva cidadania para as pessoas que residem mais distantes dos centros urbanos e contribui com uma sociedade mais inclusiva.

Defensoria Itinerante e o Apoio às Mulheres em Situação de Violência

O projeto “Defensoria Itinerante” leva os serviços da Defensoria às regiões mais afastadas e de difícil acesso, como comunidades rurais e periféricas, garantindo que a população vulnerável tenha acesso à justiça. Entre os serviços oferecidos, destacam-se a orientação jurídica em temas como direitos de família, saúde, educação e questões trabalhistas.  As ações são voltadas para a população em vulnerabilidade social, onde buscam atendimento com base em sua solicitação, os atendimentos são diversos nas áreas jurídica gratuitamente, ajuizamento de ações, consulta processuais e alterações em registros civis, serviços esses no qual a população procura com maiores índices de resultados em seu atendimento.

Além dos desafios logísticos de acessar essas áreas, a Defensoria tem superado dificuldades tecnológicas, como a falta de conectividade, por meio da aquisição da Starlink, uma internet via satélite que possibilita a comunicação com as regiões mais remotas. Com esses recursos, estão trabalhando para levar dignidade e acesso à internet nas comunidades mais distantes, o que facilita ainda mais a integração de serviços essenciais a população que buscara ser atendida e sair da ação com seu atendimento resolvido ou com algum tipo de encaminhamento.

De acordo com a Diretoria de Comunicação da Defensoria Pública do Acre, Katiuscia Miranda “Por meio de parcerias institucionais, principalmente com as prefeituras e associações. A Defensoria Pública realiza atendimentos itinerantes, levando serviços jurídicos diretamente às comunidades rurais e periféricas. A instituição também mantém canais abertos para feedback, permitindo que as ações sejam ajustadas às necessidades específicas de cada local.” Afirma Katiuscia.

Parceria entre Ministério Público do Acre e Defensoria Pública do Acre ...

O projeto “Cuida, maninha” uma iniciativa voltada para mulheres em situação de vulnerabilidade social que busca promover o combate à violência de gênero em todo país.. A iniciativa é uma extensão do compromisso da Defensoria em promover a igualdade de gênero e garantir que as mulheres, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade, tenham seus direitos protegidos e respeitados na sociedade.

Em um discurso marcado pela identificação pessoal com o público presente, Juliana Marque, subdefensora-geral da Defensoria Pública do Acre, compartilhou memórias de sua infância no interior e destacou o poder do estudo como ferramenta de transformação. “A oportunidade está aqui, mas é preciso agarrá-la. Coloquem uma hora do dia só para vocês, se imponham, cuidem dos próprios sonhos”, incentivou. Para ela, o projeto simboliza mais do que formação técnica, representa empoderamento real e liberdade de escolha.

Garantia de  acesso à justiça para populações vulneráveis

É o caso de Rafaela Ferreira, moradora do bairro Avenida Sobral,  estava tendo ação da defensoria itinerante, onde buscou a consulta de processo judicial, em ação realizada no bairro sobral onde ela reside no bairro. “É muito importante ver essa ação sendo realizada justamente aqui, onde moro. Muita gente não tem acesso a serviços que são direitos básicos de todos, mas que, na prática, nem todos podem acessar”, afirmou Rafaela.

A ação social itinerante, promovida pelo vereador Zé Lopes e o Deputado Roberto Duarte em parceria com diversos órgãos e instituições, aconteceu na Escola Marilda Gouveia Viana e reuniu centenas de moradores da Baixada da Sobral. Durante a iniciativa, foram prestados atendimentos jurídicos nas áreas cível, criminal e de benefícios, além de orientação e assistência jurídica gratuita à população.

A presença constante da Defensoria Pública e outras instituições do Poder   Executivo, Legislativo e Judiciário,  nas comunidades em situação de  vulnerábilidade social do Acre é essencial para garantir que todos os cidadãos, independentemente de sua condição econômica ou social, tenham acesso à justiça. A falta de informação jurídica e as dificuldades para acessar serviços legais criam uma grande barreira para a plena cidadania. Nesse cenário, a Defensoria Pública se torna a principal responsável por informar as populações carentes sobre seus direitos e por orientá-las, além de oferecer meios para que busquem a justiça de forma eficaz.

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Esse trabalho se torna ainda mais relevante no contexto de um Brasil marcado por desigualdades sociais profundas, onde mulheres, negros, indígenas e pessoas em situação de rua frequentemente enfrentam discriminação e obstáculos adicionais para garantir seus direitos.

No enfrentamento à violência contra a mulher, a parceria entre a Defensoria Pública e a Semulher tem sido estratégica. O projeto “Mulheres Recomeçando” oferece suporte jurídico, psicológico e médico, além de capacitação profissional para mulheres em situação de vulnerabilidade. A iniciativa busca não apenas proteger, mas também promover autonomia e inclusão social.

A presença da Defensoria nas comunidades periféricas e rurais é crucial, pois deveria ser uma prática frequente, e não uma exceção.

O projeto oferece:atendimento médico e psicológico; cursos profissionalizantes; orientação sobre direitos civis e sociais; encaminhamento jurídico para casos de violência doméstica.A Defensoria, portanto, atua como um verdadeiro pilar de apoio para essas populações, combatendo injustiças sociais e promovendo a inclusão.

Cuida, Maninha: Empoderamento Feminino

Complementando essa atuação, o projeto Cuida, Maninha promove autonomia por meio da qualificação profissional e da valorização da liberdade de escolha. Em discurso emocionado, Juliana Marques compartilhou memórias de sua infância no interior e destacou o poder do estudo como ferramenta de transformação. “A oportunidade está aqui, mas é preciso agarrá-la. Coloquem uma hora do dia só para vocês, se imponham, cuidem dos próprios sonhos”, incentivou.

O fortalecimento da Defensoria Pública, com a expansão de seus projetos sociais, é uma estratégia fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, onde os direitos humanos e a cidadania plena sejam garantidos para todos, independentemente de sua classe social, etnia ou gênero.

*Este texto foi desenvolvido sob orientação do professor Franciso Aquinei, criado originalmente a partir da disciplina de Redação Jornalística 1.

Redação

Especiais

Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco

Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana

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Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães

O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.

Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.

A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.

Um bairro que aprendeu a conviver com o medo

O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.

Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.

Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.

A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.

“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.

Doze dias de busca, três meses de espera

O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.

“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.

O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis

Uma nova estrutura, a mesma memória

Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.

Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.

“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.

Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.

 “Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.

Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.

Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães

Tragédia marcou quem acompanhou de perto

O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.

“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.

Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.

“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.

Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.

“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.

Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.

Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.

No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis

Mais que uma travessia, um aviso

Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.

“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.

A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.

“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.

Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.

Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.

Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.

E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme

Redação

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RESENHA CRÍTICA

“Noite Acreana Volume 3” reafirma força da música autoral no Acre

Projeto idealizado pela banda Maya retornou em 2026 com identidade consolidada e diálogo entre tradição e contemporaneidade

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Por Ádrya Miranda

O show “A Noite Acreana Volume 3” marcou o retorno do projeto em 2026, em apresentação realizada no dia 16 de janeiro, no Studio Beer. Idealizada pela banda Maya, a iniciativa se reafirma como um espaço de valorização da música autoral no Acre. Ao acompanhar o evento, ficou evidente a proposta de romper com a lógica de shows apenas com covers, abrindo palco para produções próprias e experimentações sonoras.

Nesta edição, além do show principal da banda Maya, o evento contou com apresentações de Carol Freitas e Diego Arantes, ampliando o diálogo entre diferentes expressões da cena musical local. O line-up reuniu artistas que compartilham processos criativos e referências estéticas parecidas, o que contribuiu diretamente para a construção de uma identidade própria do projeto.

A cantora Karol Freitas foi responsável pela abertura do show. Foto: Ádrya Miranda

No palco, a banda Maya se apresentou acompanhada por Isabel Darah, Kauê Canedo e Saulo Olímpio, formação que mostrou uma sintonia entre eles. A interação entre os integrantes trouxe uma performance segura e envolvente.

Como espectadora, percebi uma sintonia entre os músicos, com arranjos que transitam por gêneros como hip-hop, rock, maracatu e guitarrada, revelando maturidade artística e domínio de linguagem.

Maya dourado durante show. Foto: Ádrya Miranda

Um dos pontos fortes da Noite Acreana foi a forma como as referências contemporâneas se uniram com os elementos da cultura regional. A mistura de ritmos aparece de maneira orgânica, resultando em uma sonoridade que dialoga com o território acreano sem recorrer a estereótipos. Essa escolha, a meu ver, aumentou o alcance do projeto e reforçou o seu potencial de circulação para além do cenário local, algo que veio desde sua primeira edição, realizada em São Paulo.

Divulgação do evento. Fonte: redes sociais

Durante o show, o público teve contato com composições autorais e com a música inédita “Saltenha de Jambú”, apresentada como um indicativo dos próximos passos da banda. A proposta do evento foi algo entre o espaço de experiências musicais e a construção de caminhos futuros. 

Ao final, a Noite Acreana se consolidou como uma iniciativa relevante dentro da cena cultural acreana. Mais do que um evento musical, o projeto funcionou como uma plataforma de visão e fortalecimento da produção autoral local, apontando para a continuidade e expansão da música independente no estado.

Redação

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Rotas

Com bolsa integral garantida, acreano aprovado em Princeton se prepara para deixar o Brasil em setembro

Dedicação aos estudos marca a trajetória do ex-aluno do Colégio de Aplicação que inicia graduação no exterior aos 17 anos

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Por Rian Pablo

Aos 17 anos, o acreano Diego Heitor da Silva Monteiro alcançou um feito histórico: foi aprovado na Princeton University (Universidade de Princeton), uma das instituições mais prestigiadas do mundo, localizada nos Estados Unidos. Ex-aluno do Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde concluiu o terceiro ano do ensino médio, Diego se prepara agora para iniciar uma nova fase da vida acadêmica fora do Brasil, com interesse na área de Psicologia.

A decisão de estudar fora do país começou cedo na adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos, Diego sonhava em cursar parte de sua formação no exterior. A primeira tentativa foi por meio do programa United World Colleges (UWC), oportunidade que não se concretizou e trouxe frustração naquele momento. No entanto, a notícia ruim não o fez desistir, pelo contrário: serviu como combustível para continuar tentando.

A construção da aprovação

Durante o ensino médio, Diego acumulou experiências internacionais que fortaleceram seu percurso. Aos 16, foi selecionado para o programa Jovens Embaixadores, conquistando uma bolsa completa para os Estados Unidos. Também participou do Global Youth Sustainability Academy, na China, onde teve contato com diferentes cidades e culturas do país. Foi justamente durante essa experiência no país asiático que a ideia de estudar em Princeton se tornou uma certeza.

O processo de candidatura foi intenso e exigiu disciplina. Conciliando aulas em tempo integral, provas, projetos escolares e atividades extracurriculares, Diego precisou se preparar para o ACT (American College Testing), exame equivalente ao Exame Nacional do Ensino Medio (Enem) brasileiro.

“Era uma rotina muito cansativa e desgastante”, relembra.

Segundo ele, o processo seletivo de universidades como Princeton vai muito além das notas. São avaliados o histórico escolar, redações autobiográficas em inglês, premiações, experiências pessoais, domínio do idioma e desempenho em testes padronizados. Mesmo assim, as notas continuam sendo um critério rigoroso. Diego foi aprovado com média 9,7, acima do padrão exigido para estudantes brasileiros que ingressam em instituições norte-americanas de elite.

Durante o ensino médio no Acre, Diego conciliou uma rotina intensa de estudos e preparação para processos seletivos internacionais. Foto: reprodução.

Entre os diferenciais que acredita terem pesado a seu favor, está a aprovação no programa Tech Education Student Support (TESS), um dos mais concorridos programas de verão dos Estados Unidos, que aceita apenas cerca de 3% dos inscritos. Além disso, Diego destaca a força de sua história pessoal. Nos textos enviados à universidade, fez questão de ressaltar o orgulho de ser acreano, as dificuldades enfrentadas, a escassez de recursos e o fato de ter aprendido inglês de forma autodidata, por meio da internet, já que não tinha condições de pagar um curso.

A resposta da universidade chegou no dia 11 de dezembro, após Diego ter enviado sua candidatura em período antecipado, no dia 1º de novembro. Exausto após meses de preparação, ele não alimentava grandes expectativas. Ao abrir o e-mail de Princeton veio a surpresa. A aprovação, considerada inédita para um estudante acreano, provocou uma reação de incredulidade e emoção. O momento, registrado em vídeo, marcou a concretização de esforço e incertezas.

Além da vaga, Diego recebeu uma bolsa integral, que cobre todos os custos da graduação da alimentação aos materiais acadêmicos em um valor estimado em 97 mil dólares por ano (480 mil convertidos em reais). Para ele, a confirmação veio como um alívio e, ao mesmo tempo, como a prova de que todo o caminho percorrido havia valido a pena.

Diego Heitor da Silva Monteiro, de 17 anos, aprovado na Universidade de Princeton. Foto: arquivo pessoal

Expectativa antes da partida

Mesmo com a alegria, o sentimento está sendo assimilado aos poucos. A mudança para outro país, prevista para setembro, traz ansiedade. Muito ligado à família e aos amigos, Diego reconhece o desafio de passar quatro anos nos Estados Unidos, mas acredita que as experiências anteriores o prepararam para esse momento.

Para o futuro, ele espera explorar diferentes áreas do conhecimento, confirmar se a Psicologia será mesmo o caminho escolhido e, principalmente, conhecer pessoas de diversas partes do mundo. “Sempre gostei de estudar e aprender um pouco de tudo”, afirma.

A mensagem que Diego deixa para outros jovens que sonham em trilhar o mesmo caminho é clara: arriscar-se. “Nunca perder uma oportunidade de tentar. Tudo o que vivi desde novo foi necessário para chegar até aqui. No final, você não perde nada só ganha e soma na sua vida”.

Redação

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