Siga a Catraia

Margens

Realidades Paralelas: acreanos adotam novos hábitos no ambiente virtual durante a pandemia

Publicado há

em

O crescimento no uso de aparelhos eletrônicos durante a pandemia de Covid-19 fez com que a sociedade migrasse a uma realidade paralela, mas que trouxe reflexos na vida real

Por Guilherme Limes, Renato Menezes e Gabriel Vercoza Alves

Quem nunca deu uma stalkeada em alguma rede social e, quando se deu conta, viu que aquela olhadinha custou um tempo que, simplesmente, voou? Durante este período de pandemia ocasionada pela Covid-19, o isolamento social provocado pelo vírus fez com que este tipo de prática se intensificasse ainda mais, justamente porque as pessoas procuravam outras formas de se distrair dentro da própria casa.

No entanto, a mudança não foi somente neste hábito. O home office, as aulas na modalidade de ensino à distância, as compras online e tantas outras atribuições que tiveram de ser reformuladas para os moldes virtuais, fizeram com que as pessoas se inserissem, de forma ainda mais intensa, em uma cultura de telas onde as luzes artificiais nos fazem ficar vidrados em frente aos aparelhos eletrônicos, tanto para fins profissionais, como para se esquivarem da realidade.

De acordo com dados do mês de março de 2021 emitidos pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), são mais de 240 milhões de telefones celulares no Brasil, sendo quase 113 celulares para cada 100 habitantes. Somente em Rio Branco (AC), são 475.779 unidades, o que dá uma média de 115 aparelhos para cada 100 pessoas.

Dados relacionados ao uso de telefones celulares em Rio Branco (AC). Foto: Printscreen/Teleco.

Com relação ao tráfego de usuários na Internet, a Anatel registrou um aumento entre 40 a 50% neste período de pandemia pelo fato de as pessoas começarem a usar a ferramenta para fins de estudo, trabalho, compras e entretenimento de forma ainda mais intensa. Na prática, houveram picos 11 terabytes por segundo em 2020, o que é quase o triplo da média registrada em 2019, que configura 4,69 terabytes.

Tais relatórios mostram o quão as telas e os conteúdos que elas transmitem têm atuado como um método bastante eficaz para realizar qualquer tipo de coisa, principalmente quando há restrições de deslocamento. Porém, fatores como estresse, compulsividade, vício em redes sociais, falta de concentração e baixa autoestima são alguns dos prejuízos que vêm acompanhado da facilidade e dinamicidade dos aparelhos eletrônicos e aplicativos, e que podem refletir no bem estar e em relações interpessoais.

PANDEMIA E COMPRAS ONLINE

Apesar de o e-commerce não ser uma novidade, o percentual de pessoas que passaram a aderir às compras online cresceu de forma considerável. Segundo um levantamento feito pela Ebit/Nielsen divulgado em 2021, 13 milhões de brasileiros passaram a aderir ao comércio eletrônico em 2020, o que configura um aumento de 23% de consumidores com relação ao ano anterior. No total, foram 17,9 milhões de consumidores a mais do que em 2019. Além disto, foram movimentados mais de R$ 87 bilhões em vendas nesta modalidade, justamente por conta do fechamento das lojas físicas devido à pandemia.

Pesquisa mostra que sites, aplicativos e redes sociais foram os principais caminhos para buscas de produtos na internet . Foto: Renato Menezes.
 

A estudante Meline Melo começou a fazer compras online através dos aplicativos desde 2017, porém, com mais intensidade em 2020. Ela contou que é, praticamente, um vício ficar olhando os produtos diariamente e que, apesar de não ser possível experimentar ou ver o produto físico, o preço e a variedade de itens acabam influenciando no ato de comprar.

“A pandemia intensificou este estilo de compra porque teve um certo momento em que todas as lojas estavam fechadas. Então, as pessoas tiveram que recorrer às compras online, e também acaba sendo mais cômodo. Eu, por exemplo, não encontro nada relacionado a k-pop no estado, mas na internet é mais fácil achar”, enfatizou.

Estudante de nutrição costuma comprar livros pela internet. Foto: Arquivo pessoal.

A youtuber Luz Clarita Araújo também destacou a comodidade como um fator decisivo na hora de comprar. Ela começou a pedir produtos durante a pandemia e falou que nunca tinha feito isso antes por medo de dar errado ou de não receber o pedido.

“Eu sempre tive vontade, mas não tinha coragem. Comecei comprando presente de aniversário em maio e fui continuando. Hoje eu não posso ver uma oferta que já quero comprar”, falou.

CRESCIMENTO DO TIK TOK

A extensão das telas não se limitou apenas ao e-commerce. O aplicativo TikTok, por exemplo, virou um fenômeno na quarentena. De acordo com o relatório emitido pela empresa App Annie, que monitora o desempenho de aplicativos, o crescimento absurdo de downloads fez com que esta tecnologia chinesa figurasse como o mais baixado do ano de 2020. O tempo gasto pelos mais de 1 bilhão de usuários ativos no app cresceu 325% ano a ano, com uma média de 5h por mês, superando o Facebook pela primeira vez.

Ainda de acordo com o monitoramento, o motivo que indica o crescimento do TikTok foi a pandemia, que fez com que as pessoas migrassem a uma rede social que promovesse diversão, criação de conteúdo e socialização com outros usuários.

Dados mais recentes dos desempenhos de aplicativos divulgados pela consultoria Sensor Tower, mostram que o Brasil foi o país que mais inseriu usuários na plataforma no mês de abril de 2021, com 7,6 milhões de novos membros de um total de quase 60 milhões de downloads no mundo.

O aplicativo da empresa ByteDance cresceu de forma absurda em 2020, e traz propostas similares de interação promovidas pelo antigo Vine e Snapchat. Foto: Logomarca do app.

A FEBRE DA GERAÇÃO Z

A estudante de direito Luísa Longo foi uma das que aderiu ao app do momento. Ela conta com mais de 35 mil seguidores no TikTok e disse que começou no aplicativo de forma despretensiosa, apenas como um passatempo na quarentena e sem intenção de postar e gravar vídeos, por ter vergonha.

O primeiro vídeo dela que viralizou foi de quando coloriu o cabelo sozinha em casa. Apesar de o conteúdo ter sido sendo postado sem áudio sem querer, isso não foi um problema, visto que conseguiu mais de 2 milhões de views e quase 300 mil curtidas. O segundo foi exatamente com o mesmo vídeo, mas dessa vez com áudio, que obteve repercussão similar.

Tiktoker acreana faz vídeos baseados em sua rotina diária e conquistou grande número de seguidores. Foto: Printscreen/perfil @luznts. 

Ela falou que em 2020 estava muito viciada em assistir os vídeos da plataforma e costumava usar por horas, afetando os afazeres diários, principalmente durante as aulas online que necessita de atenção. “Se eu abro o aplicativo, eu vejo um vídeo. Aí eu vou ver, já tem passado 30 minutos e eu estou rolando a timeline, meu for you, e continuo assistindo”.

Para a estudante, o TikTok virou um fenômeno porque ele formula conteúdos muito específicos para cada pessoa, a partir da aba “for you”, que significa “para você”. 

“O algoritmo é muito específico, então acho que esta questão de poder se conectar com as coisas que você gosta e com as pessoas que curtem as mesmas coisas que você, assistir coisas que estão ligadas ao seu estilo de vida, etc., foi uma das coisas que levaram a esta febre”, ressaltou.

Luisa conta que ficou surpresa com a repercussão dos vídeos e que isso fez ela produzir mais conteúdo para seus seguidores. Foto: Printscreen/vídeo.
 

A influenciadora digital Bia Araújo também viu sua conta disparar no período de pandemia. Atualmente, ela acumula 2,4 milhões de seguidores no TikTok e disse que começou a gravar vídeos, de forma despretensiosa, sobre customização, não imaginando a dimensão que tomaria.

Bia Araújo (@magicardb) está há 1 ano e 6 meses no TikTok. Foto: Printscreen/@magicardb

Para a tiktoker, a plataforma se tornou um fenômeno e conquistou os brasileiros por falta de entretenimento neste período de pandemia. Ela também falou que costuma fazer conteúdos voltados à culinária e que pode ter sido isto que a fez conquistar um público grande, já que é mais comum ver vídeos de dança.

“A plataforma é um meio fácil de se crescer porque qualquer vídeo pode viralizar. Mas o que me fez conquistar seguidores foi meu conteúdo ‘diferente’, por não ser algo tão normal no app no começo, e também a constância porque muitos começam, mas acham que não vai dar certo e desistem”, pontuou.

A criadora de conteúdo digital falou que já foi mais viciada no aplicativo, mas que atualmente costuma usar de forma mais controlada. Foto: Printscreen/@magicardb

“NO TRABALHO, CONSIGO RENDER MAIS”

As rotinas de trabalho também foram afetadas durante a pandemia. No Núcleo Telessaúde Acre que atua com serviços de saúde à distância, a cirurgiã-dentista e coordenadora de campo, Caroline Oliveira, conta que algumas atribuições que, anteriormente, eram realizadas de forma presencial, tiveram de ser concentradas nos moldes virtuais. Reuniões e webpalestras que costumavam acontecer e ser transmitidas no próprio Núcleo, precisaram ser replanejadas para garantir a segurança dos palestrantes.

“Por se tratar de um ambiente em que temos que fazer divulgações, gravações e documentações, normalmente se torna um pouco mais cansativo. Fisicamente, a gente percebe que temos algumas delimitações físicas e, às vezes, até mentais de sobrecarga de trabalho. No final do dia, a gente sempre sente uma ardência na vista, mal estar, dor na colunae na cabeça”.

A cirurgiã-dentista conta também que se vê muito assídua quando o assunto é redes sociais, além de achar que estes instrumentos atuam como ferramentas que vieram para facilitar e simplificar funções mais burocráticas. Porém, acredita também que elas trazem alguns problemas, principalmente em questões de concentração.

“Eu acho que no trabalho presencial eu consigo render mais. Em casa, às vezes, tem outras coisas que nos tiram do foco, seja uma tarefa doméstica, um parente que chega, e até as próprias redes sociais mesmo quando a gente pega para olhar”, pontuou.

Cirurgiã dentista diz que o trabalho se tornou mais cansativo por ele ter se concentrado apenas dentro da tela de um computador
Foto: Arquivo pessoal.

FADIGA NO ENSINO À DISTÂNCIA

Estresse e cansaço também são alguns dos problemas vivenciados pelo professor de português, Rodrigo Marques, que agora dá aulas em ensino remoto. De acordo com ele, é necessário adaptações constantes para que o ensino não se torne exaustivo para ambos os lados, já que há um sobrecarregamento de demandas que não condizem com a realidade atual.

“A experiência não tem sido fácil. Os obstáculos, que não são poucos, tem feito com que a gente tenha que se reinventar todo dia, além de uma maior carga de trabalho, de gastos extras com o nosso próprio recurso, da busca ativa aos alunos, e de trabalhar com ferramentas não democráticas e, muitas vezes, inacessíveis”, complementa.

Professor de Língua Portuguesa considera necessário se reinventar para que os alunos não se cansem de assistir aulas na modalidade online. Foto: Arquivo pessoal.

“ESTUDAR EM CASA TEM SIDO UMA VANTAGEM E UMA DESVANTAGEM” 

Para os estudantes, a realidade não foi diferente. Mesmo com a possibilidade de tirar dúvidas mais pontuais com os professores, a estudante do terceiro ano do ensino médio, Elis Vitória de Lima, disse que as aulas se tornaram “desafiadoras, vantajosas e desvantajosas”.

Ela relatou que já está se preparando para o vestibular e que vem se adaptando da maneira que pode durante este momento, apesar das desvantagens de precisar se esforçar para manter o foco e de não se dispersar durante as aulas. Para ela, a maior vantagem de estudar dentro de casa é a possibilidade de se preparar e de absorver os conteúdos dentro de seu próprio ritmo. 

“Estudar em casa tem sido uma vantagem e uma desvantagem. Consigo procurar recursos que podem me ajudar e auxiliar durante esse processo, como os cursos online para os vestibulares, além de videoaulas que vem ajudando muito a compreender melhor que antes algumas disciplinas, principalmente para tirar algumas das minhas dúvidas mais frequentes”, explicou.

Se preparando para realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), estudante diz que a distração em casa acontece com mais frequência. Foto: Arquivo pessoal.

A CULTURA DA INSEGURANÇA

Sobre os impactos psicológicos que a cultura de telas, potencializada pela pandemia, teve na vida das pessoas, o psicólogo clínico e educacional, Álef Costa, disse que muitos pacientes dele desenvolveram transtornos de ansiedade, depressão e síndrome do pânico em decorrência dos conteúdos que consumiam nas redes sociais.

“Pessoas com depressão geralmente tem a crença de que não é capaz, de que não pode, de que é inferior a outros e imaginando um mundo do perfeccionismo, das pessoas perfeitas, do casal perfeito, do melhor emprego do mundo, e assim por diante, mas a gente sabe que na vida real não é assim”.

Ele falou que muitos usuários acabam usando as redes sociais como válvulas de escape para mostrar algo que não condiz com a realidade por fatores envolvendo insegurança e medo. Para isso, ele recomenda que a pessoa procure ajuda de um profissional.

“É importante trabalhar a insegurança e a autossabotagem na terapia. Se você está internalizando estes pensamentos, é necessário tratar isso na psicoterapia”.

Psicólogo afirma que as mulheres em sua maioria sofrem com comparações em redes sociais por conta da falsa estética da perfeição que muitos pregam. Foto: Arquivo Pessoal.

Sobre este assunto, os estudantes de jornalismo Renato Menezes, Guilherme Limes e Gabriel Verçoza convidaram a criadora de conteúdo Agatha Rosa e a modelo Isna Fernanda para um bate-papo sobre autoestima e redes sociais na pandemia em um podcast exclusivo para esta reportagem. Para conferir o bate-papo.

Redação

Fluxo

Endurecimento migratório nos EUA levanta dúvidas entre torcedores que pensam em ir a Copa de 2026

Com orçamento bilionário para operações migratórias e expansão do ICE, Estados Unidos preparam o Mundial de 2026 em meio a um cenário de tensão

Publicado há

em

por

Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz 

A Copa do Mundo FIFA de 2026 já pulsa no imaginário brasileiro. Segundo pesquisa da Ipsos, 71% dos torcedores do país pretendem assistir ao torneio. Ao mesmo tempo, o endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos, um dos países-sede, levanta dúvidas entre viajantes sobre como será a entrada no país durante o evento.

Com um orçamento bilionário destinado ao reforço da fiscalização migratória nos próximos anos, o U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) tem ampliado operações em diferentes regiões do país. Para especialistas, o fortalecimento dessas estruturas pode tornar o processo de entrada mais rigoroso para estrangeiros. 

O médico endocrinologista e viajante acreano Gil Lucena afirma que percebeu mudanças recentes no processo de imigração em viagens aos Estados Unidos. 

“Agora é necessário passar por um agente da imigração que pode fazer alguns questionamentos”, relata. 

Segundo ele, na viagem mais recente a Miami e Nova York, em novembro de 2025, o tempo de espera na imigração foi maior do que em visitas anteriores. Lucena também menciona que a obtenção de visto tem se tornado mais difícil para alguns estrangeiros e que negativas podem dificultar novas tentativas. 

Apesar disso, ele afirma que as políticas migratórias, por si só, não o impedem de visitar o país. “Não vejo políticas imigratórias como empecilho para viajar aos Estados Unidos. Mas as tensões internacionais podem influenciar essa decisão”, conta. 

Para o médico, o período da Copa deve combinar grande mobilização de torcedores com controles mais rígidos nas cidades-sede. “Imagino um mês de muita euforia local, mas também com controles migratórios mais demorados e segurança reforçada”, afirma. 

71% dos torcedores brasileiros pretendem assistir ao torneio Imagem: Maria Eduarda Ruiz 

Os números ajudam a dimensionar o contraste. Ao final de 2025, mais de 70 mil pessoas estavam sob custódia do U.S. Immigration and Customs Enforcement, um dos maiores patamares já registrados. Ao mesmo tempo, a FIFA recebeu mais de 500 milhões de

solicitações de ingressos para a Copa do Mundo FIFA de 2026 na fase inicial de sorteio, evidenciando a mobilização global em torno do torneio. 

“Geografia do Medo” e o Inimigo Interno 

Para compreender parte das preocupações relacionadas ao tema, o professor de Direito Internacional Daniel Zen, da Universidade Federal do Acre, aponta diferenças estruturais entre os sistemas de segurança pública do Brasil e dos Estados Unidos. Segundo ele, enquanto no Brasil as polícias seguem um padrão nacional, com divisões entre policiamento preventivo e investigativo, o modelo americano é mais descentralizado. 

“Cada Estado tem autonomia para organizar suas forças policiais e não necessariamente precisa seguir o mesmo parâmetro de outros Estados. Diferentemente do Brasil, lá há uma distribuição de competências administrativas distinta”, explica. 

Segundo Zen, esse modelo também pode abrir espaço para o uso político da segurança em determinados contextos. “Em alguns cenários constrói-se a ideia de um inimigo interno ou externo. Esse tipo de narrativa aparece com frequência em experiências de governos com tendências mais autoritárias”, afirma. 

Na prática, segundo o professor, esse “inimigo” tende a ganhar rosto: imigrantes, especialmente latinos e negros, independentemente de sua situação legal. 

O método dragnet e o risco da generalização 

A professora de imigração, educação e política internacional da Harvard University, Gabrielle Oliveira, afirma que operações recentes do ICE têm adotado estratégias conhecidas como dragnet. 

“Basicamente quer dizer que você leva todo mundo, que você não está só atrás das pessoas que são criminosos com condenações. O que a gente está vendo são carros com vidro arrombado, pessoas sendo presas na porta de casa… é usado muita violência”, relata. 

Segundo ela, a abordagem amplia o risco de detenções temporárias até mesmo de pessoas com situação regular. “Mesmo se você tiver situação regular, até você provar, você já pode ter sido preso e detido. Eles só vão olhar e fazer perguntas depois que a pessoa é detida.” 

Gabrielle aponta ainda que a intensificação das operações tem sido mais visível em alguns estados considerados politicamente progressistas. 

“O governo quer mostrar serviço nas cidades e colocar mais medo como retaliação e punição”. O ambiente de incerteza, portanto, não distingue claramente o turista do residente, nem o regular do irregular. 

Economia e medo nos bastidores 

O clima de tensão migratória também pode ter reflexos indiretos em setores que tradicionalmente empregam trabalhadores imigrantes, como hotelaria, limpeza e construção civil. 

A jornalista e mestre em Relações Interculturais Fabiana Santos, que vive em Maryland, relata que parte desses trabalhadores têm demonstrado receio de manter a rotina de trabalho. 

“Há trabalhadores com medo de manter a rotina no emprego e uma parcela deles acabou largando o emprego.” 

Segundo ela, muitos desses profissionais atuam como prestadores de serviço, como faxineiras, garçons, jardineiros e operários da construção civil. “Quando essa população começa a sair do mercado de trabalho, alguns serviços acabam sendo afetados”, observa. 

Fabiana também questiona a percepção de que imigrantes em situação irregular não contribuem economicamente. 

“Muitos utilizam o ITIN para pagar impostos mesmo sem ter número de seguridade social. Uma parte significativa dessa população paga tributos regularmente”, explica. O impacto, portanto, não é apenas social ou político, mas sim estrutural. 

O “silêncio” das redações esportivas

Apesar da dimensão do tema, discussões sobre imigração e direitos civis ainda aparecem pouco na cobertura esportiva tradicional. A jornalista esportiva Cristina Dissat observa que grande parte das redações permanece focada em assuntos ligados ao campo. 

“Entre os próprios jornalistas que cobrem esporte e futebol, essa abordagem ainda não tem feito parte das conversas do dia a dia. O foco é: quem foi convocado ou como conseguir credenciamento”, conta 

Ela destaca que questionamentos mais políticos costumam partir de repórteres de outras editorias, que raramente protagonizam coletivas pré-Copa. 

Dissat também relata mudança de comportamento entre torcedores. “Pelo que a gente tem escutado, várias pessoas desistiram. Pensam: ‘ah, não vou me aborrecer à toa, assisto pela televisão mesmo, a gente faz um churrasco’, relata. 

A Copa do Mundo de 2026 será, antes de tudo, um evento de política externa, em que a bola pode ser apenas um detalhe sob a vigilância constante do governo norte-americano.

Redação

Continue lendo

Especiais

Cidade do Povo: do refúgio das enchentes ao medo da violência

Criado para receber famílias retiradas de áreas de risco do Rio Acre, conjunto habitacional enfrenta altos índices de criminalidade e volta ao debate público após episódio recente

Publicado há

em

por

Por Diogo José e Vitória Messias

Após perder a casa onde morava com a mãe no bairro Taquari durante a grande enchente de 2015, M.J., que prefere não se identificar, encontrou na Cidade do Povo a oportunidade de recomeçar. Naquele ano, o Rio Acre atingiu a marca histórica de 18,40 metros, a maior registrada, segundo a Defesa Civil do Acre. A água cobriu completamente a residência da família, destruindo grande parte dos pertences.

Lixo e entulhos acumulados no bairro Taquari após a enchente de 2015 em Rio Branco. Foto: Aline Nascimento.

Sem reposição dos bens perdidos, a família foi incluída no cadastro de programas habitacionais do governo, assim como outros moradores das áreas atingidas pela cheia. No entanto, passados 11 anos da inauguração do bairro, M.J. afirma que parte dos residentes da Cidade do Povo convivem atualmente com outro tipo de preocupação: a segurança.

“Existem regras aqui dentro: se você não mexer com ninguém, ninguém mexe com você. Acaba que temos que aprender a lidar com isso no dia a dia, com essa insegurança”, afirma.

O que para muitas famílias que vivem em áreas consideradas de risco parecia representar um novo começo, com o passar dos anos passou a ser visto por parte da população como última alternativa. M.J. afirma que, apesar de morar no bairro e não ter planos de sair, a Cidade do Povo ainda enfrenta desafios relacionados também à infraestrutura e à localização.

“Apesar de ter saído do Taquari por conta da cheia, ainda assim tem vezes que chove muito aqui e também alaga. Sem contar a distância. Aqui é muito longe de tudo, principalmente se não tiver transporte”, relata.

Vista aérea do bairro Cidade do Povo, em Rio Branco. Imagem: Google Earth.

Dados do Ministério Público do Acre (MPAC), divulgados no último Anuário de Indicadores de Violência, mostram que a Cidade do Povo aparece entre os bairros com maior incidência de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) em Rio Branco entre os anos de 2021 e 2024.

Segundo o levantamento, em 2021 foram registrados cinco casos no bairro, o que corresponde a 8,6% do total de ocorrências. Em 2022, o número se manteve em cinco registros, representando 11,9%. Já em 2023 houve aumento significativo, com 13 casos, correspondendo a 21% das ocorrências. Em 2024, o número caiu para seis casos, equivalente a 12% do total.

Dados: MPAC. Gráfico: IA Google Gemini

Um caso recente de violência reforçou a preocupação de moradores com a segurança no bairro. Na noite da última quinta-feira, 12, dois trabalhadores da construção civil foram sequestrados e executados em uma área de mata próxima à rua Geraldo Leite, no bairro Cidade do Povo.

Remoção dos corpos das vítimas pelo Instituto Médico Legal (IML), após o crime registrado nesta quinta-feira, 12. Imagem: TV Gazeta

O crime repercutiu nas redes sociais e gerou comoção entre moradores e internautas. Em uma publicação sobre o caso no Instagram do portal de notícias ContilNet, diversos comentários expressaram indignação e preocupação com a situação de segurança na região. Entre as manifestações, internautas criticaram a falta de políticas públicas eficazes para enfrentar a criminalidade.

Comentários como “Esse povoado deveria ser extinto”, “E o governo construindo casa num lugar desse”, “Cidade do Povo foi criada para isolar a criminalidade, no entanto a segurança pública não deu conta” e “Daqui a pouco ninguém nem vai querer entrar nesse bairro” ilustram a percepção de parte da população diante da violência registrada na região. O episódio reforça o debate sobre os desafios enfrentados pela Cidade do Povo. 

Comentários de internautas na publicação da notícia nas redes sociais. Imagem: Instagram/ContilNet.

Um bairro que nasceu da esperança

Planejada inicialmente com o lema “um recomeço com dignidade”, o bairro Cidade do Povo foi criado em 2014 por meio do programa Pró-Moradia do Governo Federal brasileiro, que busca financiar projetos habitacionais voltados para famílias de baixa renda e garantir melhor qualidade de vida a moradores de áreas de risco, principalmente aqueles afetados pelas enchentes que atingem a capital acreana. Com mais de 4 mil casas, a Cidade do Povo abriga atualmente mais de 15 mil moradores.

Casas da Cidade do Povo, entregues em 2014. Foto: Secretaria de Habitação do Acre (Sehab)

Apesar disso, o cenário revela uma realidade mais complexa, o que tem influenciado também a adesão dessas famílias vulneráveis ao programa. Fazendo com que algumas pessoas prefiram permanecer em áreas consideradas de risco.

Kessya Patrícia, que vive no bairro Cadeia Velha há 21 anos, não pensa em deixar a região, apesar das cheias recorrentes. “O bairro é atingido pela enchente, e durante a cheia a gente precisa sair de casa. Nossa casa só foi invadida pela água uma vez, mas a rua alaga e fica impossível sair para trabalhar ou estudar”, explica.

Para ela, apesar de ter direito ao benefício, a permanência no bairro, além de ter relação direta com a família, que vive próxima a casa, é um local bem localizado e seguro. “Mesmo com os riscos, nosso bairro é bem assistido e tem seus prós e contras”, conclui.

Reassentamento habitacional

As pessoas atingidas pelas enchentes estão entre os principais públicos da política chamada de reassentamento habitacional. Segundo o coordenador de Gestão de Riscos e Desastres da Defesa Civil do Acre, Pedro Henrique Corrêa, retirar famílias de áreas vulneráveis é uma estratégia importante dentro das ações de adaptação às mudanças climáticas.

“Quando falamos de reassentamento habitacional como política de adaptação a enchentes como as do Rio Acre, uma das medidas é exatamente remover o risco, ou seja, retirar as pessoas de áreas vulneráveis. No entanto, essa medida sozinha não é suficiente como política de adaptação climática, porque existem muitas outras variáveis envolvidas”, afirma.

Ele também aponta que há relação entre o aumento desses episódios e as mudanças climáticas, que têm intensificado fenômenos naturais extremos. “As mudanças climáticas têm feito com que os fenômenos sejam cada vez maiores e mais prejudiciais. Desde 2019, todos os anos, Rio Branco tem registrado uma ou mais enchentes. Em 2025, por exemplo, tivemos três transbordamentos do rio”, explica.

Enchente do Rio Acre em 2026. Foto: Dayane Leite

Outro ponto destacado é que áreas consideradas seguras atualmente podem se tornar vulneráveis no futuro, dependendo das transformações ambientais ou urbanas. Segundo ele, há um plano governamental integrado para retirar populações dessas áreas mais vulneráveis.

“Existe um planejamento envolvendo governo federal, estadual e municipal por meio de projetos habitacionais. Nessas iniciativas, as populações que vivem em áreas vulneráveis costumam ter prioridade”, acrescenta.

Espaços de vulnerabilidade

Para o cientista social e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Euclides, o fenômeno envolvendo projetos habitacionais e criminalidade não é exclusivo do local, muito menos do Acre. “O aumento da criminalidade está ligado a transformações sociais, econômicas e tecnológicas que o estado não acompanhou. É um fenômeno complexo, que se reproduz por décadas, e envolve desde políticas equivocadas de segurança pública até o crescimento das organizações criminosas”, explica.

Segundo ele, a forma como bairros planejados como a Cidade do Povo foram ocupados, afastados de centros urbanos, com infraestrutura inicial custosa e serviços públicos pouco mantidos, contribui para criar “espaços de vulnerabilidade”, onde jovens e famílias muitas vezes encontram poucas oportunidades de educação, emprego e lazer. É nesse vazio que grupos organizados se instalam, controlando territórios e impondo medo.

“Não se trata apenas de criminalidade. É a sociedade que, por desigualdade e abandono, oferece terreno fértil para essas atividades. O crime organizado preenche lacunas que o estado deixou, do acesso à justiça à presença da polícia, passando por educação e assistência social”, acrescenta Euclides.

Para ele, políticas públicas que priorizem a manutenção de serviços, o engajamento comunitário e a integração urbana poderiam reduzir esses riscos. “Investir apenas em repressão é combater o efeito, não a causa. É preciso desenvolver projetos que envolvam a comunidade, escolas, saúde, segurança e o próprio espaço público. Um bairro planejado que não garante cidadania, acaba virando território de disputa”, resume.

A busca por segurança

Diante desse cenário, órgãos de segurança pública têm buscado ampliar estratégias de combate à atuação de organizações criminosas no estado. Uma das iniciativas recentes é a criação de um canal específico para recebimento de denúncias da população.

O canal Investigador Cidadão foi lançado pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) em 2025, voltado ao enfrentamento de organizações criminosas que atuam no estado. A ferramenta permite que moradores enviem informações anônimas que possam auxiliar investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ou por outros órgãos de segurança pública.

Canal Investigador Cidadão permite o envio de denúncias anônimas para auxiliar investigações contra o crime organizado no Acre. Imagem: MPAC

Por meio do canal, é possível encaminhar textos, vídeos e áudios, além de realizar denúncias de forma anônima pelo WhatsApp, (68) 99993-2414. Segundo o site do MPAC, o objetivo da iniciativa é incentivar a participação da população no combate ao crime organizado e ampliar a rede de informações que auxiliam as investigações.

Entre os tipos de denúncias que podem ser feitas estão a identificação de membros de organizações criminosas, informações sobre lideranças e hierarquias dentro das facções, além da localização de foragidos da Justiça. 

O canal também recebe relatos sobre torturas aplicadas por integrantes de grupos criminosos, bem como denúncias de crimes como homicídios, tráfico de drogas, sequestros, roubos e extorsão de comerciantes.

Casas erguidas, esperança em construção

Entre enchentes que forçam partidas, políticas públicas que tentam oferecer novos caminhos e desafios que persistem no cotidiano, a história da Cidade do Povo revela uma realidade marcada por contradições: o bairro que nasceu como símbolo de recomeço também convive com dificuldades estruturais, distância e preocupações com a segurança. 

Ainda assim, para muitas famílias que perderam tudo nas águas do Rio Acre, o lugar representou a possibilidade concreta de reconstruir a vida pouco a pouco. M.J., que viu a antiga casa desaparecer sob a cheia de 2015, reafirma que permanecer ali é também um exercício de esperança. 

“A gente perdeu muita coisa naquela enchente, mas aqui pelo menos tivemos a chance de começar de novo. A esperança da gente é que, com o tempo, o bairro também melhore e vire de verdade o lugar seguro que prometeram pra gente”. 

Assim como o rio que um dia levou sua casa, a esperança também segue correndo em meio a insegurança da Cidade do Povo.

*A equipe do A Catraia entrou em contato com o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) para saber como o órgão avalia os índices de violência registrados na Cidade do Povo. No entanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

Redação

Continue lendo

Margens

Entrega voluntária de bebês para adoção garante sigilo, proteção e direitos às mulheres

Procedimento previsto em lei assegura acompanhamento psicossocial e não configura abandono

Publicado há

em

por

Por Bruna Feitosa 

Entre o silêncio, o medo do julgamento social e a falta de informação, muitas mulheres ainda desconhecem que entregar um filho para adoção não é crime, abandono ou negligência. No Acre, a entrega voluntária é um direito garantido por lei, mas que segue cercado por estigmas, desinformação e barreiras de acesso aos serviços públicos.

Prevista na legislação brasileira, através do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a entrega voluntária pode ser manifestada durante a gestação ou após o parto, ainda na maternidade. A solicitação pode ser feita em unidades de saúde ou em órgãos como o Conselho Tutelar, a Defensoria Pública, o Ministério Público e diretamente na Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC). Na prática, porém, o caminho até esses espaços nem sempre é claro para mulheres em situação de vulnerabilidade social, emocional ou econômica.

A entrega voluntária é um direito garantido por lei (Estatuto da Criança e do Adolescente e Lei 13.509/2017). Imagem: Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

No Acre, apenas sete casos de entrega voluntária foram registrados, segundo dados do Juízo da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Rio Branco, vinculada ao TJAC. O número levanta questionamentos: trata-se de um índice baixo ou apenas um reflexo da falta de informação e de políticas públicas que garantam orientação adequada?

Para a juíza Isabelle Sacramento, integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC, o procedimento tem impacto direto na redução do tempo de acolhimento institucional. “Esse procedimento assegura maior celeridade e evita que a criança permaneça por longo período em acolhimento institucional enquanto tramita uma ação de destituição do poder familiar”, afirma.

Isabelle Sacramento, juíza e integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC. Foto: Tribunal de Justiça do Acre

Como funciona o procedimento

Após a manifestação de interesse, a mulher é encaminhada obrigatoriamente à Justiça da Infância e da Juventude, onde passa a ser acompanhada por uma equipe técnica formada por profissionais da Psicologia e do Serviço Social. O atendimento deve ocorrer de forma sigilosa e sem constrangimentos, conforme determina o Marco Legal da Primeira Infância. 

Após a formalização do pedido, ocorre uma audiência em que a mulher confirma sua decisão perante o juiz. Mesmo depois dessa etapa, a legislação prevê um prazo de até dez dias para eventual desistência. Durante esse período, o recém-nascido permanece acolhido institucionalmente.

Confirmada a decisão, a criança é encaminhada a pretendentes previamente habilitados no Sistema Nacional de Adoção, respeitando a ordem do cadastro e os critérios legais. Todo o procedimento é conduzido sob sigilo, preservando a identidade da mãe e da criança.

A juíza aponta que o receio de julgamento moral ainda é um dos principais fatores que afastam mulheres desse direito, porém ressalta a importância da ação. “Mais do que um ato jurídico, a entrega voluntária representa uma escolha amparada pela lei que busca assegurar à criança à convivência familiar e à mulher o respeito à sua autonomia”, finaliza.

Redação

Continue lendo

Mais Lidas