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Passarela Raquel e Daiane mantém viva, 21 anos depois, memória de mãe e filha levadas por enxurrada em Rio Branco

Estrutura liga bairros da Baixada da Sobral e transforma ponto de risco em espaço de duras lembranças e travessia cotidiana

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Por Danniely Avlis e Isabelle Magalhães

O Rio Acre sobe outra vez. As águas avançam, silenciosas e insistentes, repetindo um roteiro que os moradores da Baixada da Sobral conhecem de cór. No bairro Ayrton Senna, onde a cidade começa a ceder espaço ao rio, cada cheia não traz apenas lama e perdas materiais, trazem lembranças. Algumas delas não secam nunca.

Todos os dias, dezenas de pessoas atravessam a passarela que liga os bairros Ayrton Senna e Aeroporto Velho. Para muitos, é só um atalho, um caminho mais curto entre dois pontos da cidade. Para Dona Idalécia Martins, conhecida por todos do bairro como Dona Loura, é um território de memória. Cada passo sobre o concreto é também um passo sobre a ausência da filha Raquel e da neta Daiane, levadas pela força da água em uma enchente de 2004.

A estrutura hoje se chama Passarela Raquel e Daiane. Mas antes do concreto, antes do nome, havia apenas madeira frágil, correnteza forte e um risco que fazia parte da rotina de quem vive às margens do Rio Acre.

Um bairro que aprendeu a conviver com o medo

O Ayrton Senna é um bairro de várzea. Quando o rio sobe, ele é um dos primeiros a sentir. A água invade quintais, casas, histórias. Todos os anos, o mesmo alerta. Todos os anos, a mesma insegurança. E foi nesse cenário que a tragédia aconteceu.

Em 2004, em mais um período de enxurradas em Rio Branco, a ligação entre os bairros era feita por uma passagem improvisada por uma madeira estreita, escorregadia, acima da cintura, como lembra Dona Loura. Ainda assim, mães, crianças e trabalhadores atravessavam todos os dias. Não por coragem, mas por necessidade.

Raquel tinha 24 anos. Trabalhava em casa de família, e sonhava em ser professora. Gostava de crianças e cuidava das do bairro como se fossem suas. Naquela tarde chuvosa, saiu de casa para levar a filha, Daiane, de 9 anos, à escola. O diretor havia avisado: era dia de prova, não podia faltar.

A chuva não deu trégua, o rio subiu rápido, a ponte improvisada virou armadilha.Como toda mãe, Raquel priorizou a segurança da filha, amarrando uma fralda que unia o seu braço ao da menina. Quando Raquel tentou atravessar com a filha, a madeira cedeu e a correnteza tomou as duas. Quem estava perto viu, gritou, correu. Um homem ainda tentou entrar na água, mas o rio estava forte demais, carregado de balseiros e paus. O desespero tomou conta do local.

“Dizem que toda vez que ela emergia, levantava a filha pra cima. Se fosse sozinha, talvez tivesse escapado. Mas ela não soltou a menina”, lembra Dona Loura, com a voz que carrega duas décadas de dor.

Doze dias de busca, três meses de espera

O Corpo de Bombeiros procurou por 12 dias. A família não desistiu. Por três meses, moradores cavaram as margens do igarapé e do rio, dia e noite. O corpo de Daiane foi encontrado após sete dias, intacto, como se o tempo tivesse parado ali. O de Raquel, nunca foi encontrado.

“Minha filha nunca foi encontrada. O rio secou, o igarapé secou, a gente cavou até dar no barro duro. Muita gente ajudou, mas nunca achamos”, diz a mãe.

O Rio Acre seguiu seu curso. A cidade também. Mas naquela casa, em frente à passarela, o tempo parou em 2004.

Dona Idalécia na nova passarela. Foto: Danniely Avlis

Uma nova estrutura, a mesma memória

Mais de 20 anos depois da tragédia, a prefeitura construiu uma nova passarela no local. Desta vez, em concreto. A estrutura recebeu o nome de Raquel e Daiane, como forma de manter viva a lembrança das duas. Para Dona Idalécia, o espaço vai além da função prática. É uma travessia que une passado e presente, dor e resistência.

Raquel, segundo a mãe, era uma jovem muito ligada à família e à filha.

“Ela dizia que nunca iria se separar de mim, só pela morte. Todo dia vinha cedo, limpava a casa, fazia café, cuidava de tudo. A gente andava sempre juntas”, relembra dona Idalécia.

Ao caminhar pela passarela, Dona Loura se emociona. Em conversa com a equipe do portal A Catraia, ela afirmou que o maior desejo é que outras mães e filhas possam construir relações próximas e afetuosas.

 “Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas”, disse Idalécia.

Caminhando pela passarela, em meio à conversa, ela se emociona ao olhar para o igarapé e, embora tente conter o choro, acaba se rendendo às lágrimas.

Hoje, a passarela Raquel e Daiane não é apenas uma ligação entre bairros. É um ponto de passagem onde a cidade segue em movimento, enquanto a memória de duas vidas permanece presente no cotidiano e no coração de quem vive a dura realidade da invisibilidade do poder público.

Marca da água atingida na nova passarela. Foto: Danniely Avlis, Isabelle Magalhães

Tragédia marcou quem acompanhou de perto

O jornalista Adailson Oliveira, da TV Gazeta, era o único repórter na redação quando recebeu a informação. Já havia encerrado o expediente. Mesmo assim, foi.

“O primeiro impacto não foi a emoção, foi o movimento das pessoas tentando salvar. A emoção veio depois, quando cheguei à casa da mãe. Ela estava no chão, gritando, desmaiava, acordava. Ainda acreditava que poderia encontrar a filha com vida”, relembra.

Chovia. Pessoas choravam. A água continuava caindo do céu como se reforçasse o luto. Para ele, aquela foi uma das coberturas mais marcantes de quase 30 anos de carreira.

“Era uma tragédia anunciada. Não foi só a chuva. Foi a omissão. E a omissão também mata”, afirma.

Segundo ele, moradores reclamavam da falta de uma passagem segura. Diziam que só lembravam da periferia quando a tragédia acontecia. E mesmo assim, nada mudava.

“O que marca é isso, a revolta de que a gente vai passar a vida inteira reclamando da falta de estrutura e ela nunca vai vir. E quando vier, vai ser feita de forma de paliativo, que não resolve a vida das famílias”.

Além das pessoas que viveram e relataram essa tragédia, há aquelas que permanecem ao lado de Dona Loura até hoje. Moradores do local, que convivem com ela diariamente, contam que têm o maior cuidado e carinho, oferecendo apoio sempre que ela se lembra da filha.

Gilsa, uma das moradoras que serviu de ponte para que nossa equipe chegasse até Dona Loura, relata que, embora não seja da família nem a conheça há muito tempo, cuida dela com afeto, como se fosse alguém de sua própria família.

No bairro, todos demonstram carinho e acolhimento por Dona Loura. A comunidade se comove, cuida dela e, junto com ela, carrega a dor da perda de alguém importante.

A única fotografia que Dona Idacélia conseguiu manter de Raquel. Foto: Danniely Avlis

Mais que uma travessia, um aviso

Hoje, quando Dona Loura atravessa a passarela, olha para o rio e sente tudo de novo. A dor, a saudade, a revolta. E também a esperança de que nenhuma outra mãe precise passar pelo que ela passou.

“Eu queria muito que minha filha estivesse viva. A gente era muito amiga. Eu queria que mães e filhas conversassem mais, fossem amigas. Não é brigando que se resolve”, diz, emocionada.

A Passarela Raquel e Daiane não é apenas um caminho entre dois bairros. É um lembrete diário de que as enchentes não matam sozinhas. A negligência também empurra. A demora também afoga. A ausência do poder público também leva vidas.

“A Raquel dizia que gostava muito daqui, mas a única coisa que dava uma sensação ruim nela era a ponte de madeira da época”.

Segundo a mãe, Raquel também relatava que quando a ponte fosse feita ela permaneceria no bairro por toda a vida. “Assim que ela morreu, com oito dias começaram a fazer a ponte”, relembra.

Em tempos de novas enchentes, quando o rio Acre e os igarapés voltam a ameaçar casas e histórias, a passarela permanece ali, firme, mas ainda sem placa, sem iluminação adequada, cheia de incertezas e mesmo depois de duas décadas, continua sendo tocada pela água quando o nível sobe.

Ela carrega nomes. Carrega sonhos interrompidos. Carrega a história de um bairro que todos os anos aprende, da forma mais dura, que viver às margens do rio é também viver à margem das prioridades.

E enquanto o Rio Acre continua a subir, Dona Loura segue atravessando. Porque a água levou sua filha e sua neta. Mas não levou a memória, nem o amor, nem a luta para que essa história nunca seja esquecida nem invisibilizada.

Equipe do portal A Catraia com Dona Idalécia e sua amiga Gilsa. Foto: Luiz Guilherme

Redação

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Quando o rio dita o ritmo da economia

Com a cheia, a economia apresenta alto rendimento, por outro lado, a seca reduz o fluxo, limita oportunidades e afeta quem vive do rio

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Por José Henrique e Miguel Feitosa

Para muitos empreendedores, o Rio Acre é mais do que paisagem: é fonte de renda, trabalho e sobrevivência. No entanto, entre dois extremos a cheia e a seca o comportamento do rio impõe desafios constantes a quem depende do comércio às suas margens. Em Rio Branco, o nível das águas influencia diretamente o fluxo de pessoas, o funcionamento de negócios e a estabilidade financeira de famílias inteiras.

O mesmo rio que, em determinados períodos, garante sustento, em outros expõe desigualdades. Durante a cheia, o aumento do nível das águas intensifica a movimentação no Calçadão da Gameleira, ponto turístico às margens do Rio Acre, atraindo visitantes e fortalecendo o comércio local. Em contrapartida, esse mesmo avanço do rio provoca alagamentos em áreas vulneráveis da cidade, obrigando famílias a deixarem suas casas e buscarem abrigo temporário no Parque de Exposições Wildy Viana das Neves, Loteamento Santa Helena.

Segundo Júlia Alves, 55 anos, vendedora de bananas salgadas e doces credenciada pela Prefeitura de Rio Branco, a cheia do Rio Acre representa tanto oportunidade quanto desafio. Ela explica que o aumento do nível das águas atrai mais pessoas ao Calçadão da Gameleira, o que impulsiona as vendas e garante seu sustento.

Júlia Alves, vendedora local, vê na cheia do Rio Acre sustento e desafio. Foto: Miguel Feitosa

“Quando o nível do rio aumenta, a gente consegue vender mais. Mas também fico triste, porque esse mesmo rio, tão bonito, acaba destruindo ao mesmo tempo em que sustenta”, relata.

Embora não esteja presente diariamente no Calçadão, Júlia atua de forma estratégica, aproveitando os períodos de maior movimento. Já nos momentos de seca ou menor fluxo de visitantes, ela se desloca para outros pontos da cidade, adaptando-se às variações impostas pelo comportamento do rio.

O trabalho da vendedora evidencia como a economia local é diretamente influenciada pela geografia da cidade. O Calçadão da Gameleira funciona como ponto de encontro cultural e comercial, onde moradores, turistas e empreendedores compartilham o mesmo espaço, conectados pelo Rio Acre.

Bar do Zé do Branco: cinco décadas à beira do rio

Fundado há cerca de 50 anos, o Bar do Zé do Branco, localizado no bairro da Base, carrega uma história profundamente ligada ao Rio Acre. O empreendimento surgiu na década de 1970, período em que o rio ainda funcionava como importante via de transporte e circulação.

O fundador, José Antônio Vera, hoje com 69 anos, conhecido como Zé do Branco, relembra que o bar nasceu junto à empresa familiar Irmãos Lameira, voltada ao transporte.

Zé do Branco, fundador do bar que há 50 anos acompanha o ritmo do Acre. Foto: José Henrique

“Na época, a gente tinha uma empresa de transporte, com cobrador, motorista e fiscal. Aí resolvemos lançar um bar na frente da empresa, e deu certo”, conta.

Ao longo das décadas, Zé acompanhou as transformações do território e do próprio rio, que deixou de ser apenas estrada para se tornar também símbolo turístico. Sua trajetória representa uma geração que aprendeu a trabalhar respeitando o ritmo das águas, adaptando-se às cheias e às secas.

Para ele, embora a cheia contribua significativamente para o aumento das vendas, impulsionada pela atratividade do Rio Acre cheio e por suas belezas naturais, o período de alerta da cota de transbordo gera insegurança. O empreendedor vive em estado de atenção, sem saber até que ponto as águas serão um benefício, já que, a qualquer momento, o nível do rio pode subir e causar a perda de mercadorias.

“A gente ganha mais movimento quando o rio tá cheio, mas também fica com medo. Qualquer subida de repente pode levar tudo”, relata.

Restaurante Flutuante Malveira: empreender sobre as águas

Assim como o Bar do Zé do Branco, o Restaurante Flutuante Malveira tem sua história diretamente vinculada ao Rio Acre. Instalado às margens do rio, o empreendimento nasceu de uma relação familiar com a água, marcada pelo trabalho e pela memória.

De acordo com Carla Malveira, de 19 anos, filha do proprietário, o nome do restaurante faz referência ao sobrenome da família, herdado do avô, José Malveira. Antes da construção do flutuante, a família mantinha a embarcação Comandante Malveira, utilizada no Rio Acre.

Construído como espaço de lazer familiar, o local começou a receber amigos e conhecidos, transformando-se gradualmente em empreendimento comercial. Há cerca de três anos instalado na atual localização, o restaurante vive uma rotina totalmente condicionada às variações do nível do rio.

Durante a cheia, o Rio Acre atua como fator de atração, facilitando o acesso, valorizando a paisagem e ampliando o fluxo de visitantes.  Segundo Carla Malveira, é nesse período que o restaurante registra maior movimento.

Do barco ao flutuante, a família Malveira construiu seu negócio no Rio Acre. Foto: José Henrique

“Quando o rio está cheio, o acesso fica melhor e as pessoas vêm pela paisagem e pelo clima do lugar. Já na seca é mais difícil chegar até aqui, o movimento cai bastante e isso afeta diretamente o nosso faturamento”, relata.

Seca também impõe desafios

Se a cheia impulsiona o turismo e o comércio, a seca representa o outro lado da dinâmica do Rio Acre. Com o nível do rio mais baixo, o fluxo de visitantes diminui e o acesso aos flutuantes se torna mais difícil, já que a escada de entrada aumenta conforme a água recua. Negócios que dependem da paisagem e da navegação enfrentam retração e precisam se adaptar para manter o funcionamento.

A alternância entre períodos de cheia e seca tem se tornado mais frequente, exigindo ajustes constantes de quem vive e empreende às margens do rio.

Turismo e políticas de incentivo

A movimentação gerada pelo rio reforça a importância de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo e à economia criativa. Segundo o secretário de Estado de Empreendedorismo e Turismo, Marcelo Messias, o Rio Acre é um importante vetor econômico para a capital.

Secretário de Turismo e Empreendedorismo, Marcelo Messias, na GCF Task Force, realizada em 2025, em Rio Branco. Foto: Bruno Moraes/Sete

“No período de cheia, o Rio Acre atrai moradores e turistas para a região da Gameleira, fortalecendo o comércio local e o empreendedorismo. Restaurantes, lanchonetes, a Casa do Artesanato e outros espaços são diretamente beneficiados por essa movimentação, que alia geração de renda, cultura e lazer”, destaca.

Entre a cheia que movimenta o comércio e a seca que impõe limites, o Rio Acre segue determinando o ritmo da economia local. Para empreendedores como Júlia, Zé do Branco e a família Malveira, viver do rio é conviver diariamente com oportunidades e incertezas, em um território onde a água não apenas desenha a paisagem, mas molda modos de vida, trabalho e resistência.

Redação

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A Cobra Grande continua viva em Rio Branco

Uma das primeiras igrejas erguidas no Acre, a Imaculada Conceição guarda memórias do
ciclo da borracha e histórias que resistem ao tempo.

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Por Eleonor Rocha e Ranelly Pinheiro

Boiúna, Mboi-Una, Mãe-do-rio, Senhora-das-águas, Cobra Honorato, Norato ou simplesmente “cobra grande”. A criatura que atravessa as histórias amazônicas há séculos aparece sob diversos nomes, mas guarda uma narrativa comum: ligada às águas, ao mistério e a uma cidade. Em Rio Branco, ela ganha um endereço, sob a Igreja Imaculada Conceição, no bairro Quinze, próximo a Gameleira, e se estende não apenas como um mistério, mas como parte do imaginário entre os rio-branquenses.

A Cobra Grande

Nos salões profundos do rio Acre, especialmente no remanso formado pela curva acentuada onde hoje está a Gameleira, vive a Cobra Grande, um ser encantado que mistura natureza e espírito, como os mitos indígenas amazônicos costumam atribuir aos bichos da floresta, a cobra é uma entidade.

A moradora antiga da região do bairro Quinze, Josefa Cabral, de 73 anos, afirma que já viu a cobra grande. À noite, quando foi buscar sua sobrinha da aula Josefa conta que a cobra “esticava, esticava, porque era muito comprida” e era grossa e com “os olhos bem grandes”. Segundo ela, a cobra ficou no barranco da Gameleira, perto dos barcos. “A cobra é muito grande” e “ela mora debaixo da igreja, ali por baixo.”

Ilustração da lenda da Cobra Grande. Foto: reprodução

As histórias afirmam que a entrada da toca da cobra fica no próprio salão do rio e que ela vive embaixo da Igreja. Mas, mais do que um mito, o perigo de mergulhar naquele lugar é real. A região tem uma formação irregular, a superfície pode parecer calma, mas, no fundo, a correnteza forma redemoinhos, conhecidos como remansos, que podem ocasionar afogamentos. Nos rios do Amazonas e, especialmente, do Acre, os remansos são armadilhas naturais formadas nas profundidades dos grandes salões que impedem quem cair de conseguir sair.

O psicólogo Carlos Souza conta que seu amigo, que perdeu os familiares para a Cobra-Grande, possui tatuado no em seu ombro a cobra.  “Eu tenho um amigo que o irmão dele pulou no rio, no local que ele morava, onde chama de Salão. E, esse irmão não voltou. Tentaram achar e não conseguiram. Dois anos depois o pai dele pulou no mesmo lugar e o pai dele também não voltou. Eles eram acostumados a ver o rebojo da cobra  – remanso ocasionado pelo movimento da Cobra-Grande – e tudo.”

Lendas da Amazônia

Para o historiador Marcos Vinicius, a compreensão da história da Cobra-Grande na Amazônia passa pela subjetividade e pela espiritualidade dos povos originários. Ele destaca que a Cobra-Grande é comum em toda a Amazônia, podendo ser encontrados relatos parecidos em outras capitais como Belém e Manaus. Além disso, apesar da cobra ser semelhante ao animal comum da natureza, ela possui outras propriedades; poderes que vão muito além do que humanos e animais podem ter.

“Os povos indígenas da Amazônia tem uma relação muito diferente com a natureza, por princípio, todos os seres vivos da floresta são, em parte, encantados. Enfim, é uma série de encantes, como a gente chama por aqui.”

Porto da Gameleira: Rua 17 de Novembro – Rio Branco, AC [1949]. Foto: Reprodução/Acervo IBGE

Onde Rio Branco nasceu e a Imaculada Conceição

Essa mesma região onde mora a Cobra-Grande foi o berço urbano da cidade. A Gameleira marcou o ponto escolhido para a formação do Seringal Volta da Empresa, depois Vila Rio Branco e, por fim, cidade de Rio Branco, fundada em 28 de dezembro de 1882. Ali surgiram a primeira rua, os primeiros comércios, os combates da Revolução Acreana, a primeira construção religiosa da cidade, a capela de Imaculada Conceição. “Foi construída pelos próprios moradores, por quem estava ali na beira do rio. Não tinha prefeitura, não tinha padre fixo, não tinha nada estruturado. Era a própria comunidade que ergueu”, explica. Para o historiador, as construções da época serviam como um símbolo de resistência e presença: “Aquilo era um marco. Uma afirmação de que havia uma comunidade ali. Antes de virar cidade, já tinha gente dizendo: ‘tem vida aqui’.”

De acordo com registros históricos da Diocese de Rio Branco, a estruturação religiosa da região teve um marco decisivo em 1920, com a criação da Prelazia de São Peregrino Laziosi. Desmembrada da Diocese de Manaus sob orientação do Papa, com a organização de Dom Próspero M. Bernardi e à Ordem dos Servos de Maria. O trabalho pastoral começou com o bispo e três religiosos, nas bacias dos rios Purus e Acre e as quatro paróquias já existentes desde 1910: São Sebastião de Xapuri, Imaculada Conceição de Nova Empreza (Rio Branco), Nossa Senhora da Conceição de Sena Madureira e São Sebastião de Vila Antimary.

A secretária da Paróquia Imaculada Conceição, Regina Monte afirma que a igreja foi originalmente construída como capela e com mais de cem anos, segundo texto de Dom Joaquim. Ela conta ter ouvido sobre a Cobra-Grande desde criança e que se trata de uma história antiga: “Essa lenda é do tempo que eu era criança. Eu já tenho uns 50 anos.” A versão que conhece diz que a cobra “mora embaixo da paróquia”, com a cabeça sob a igreja e o corpo se estendendo até a Gameleira. Para Regina, a história é conhecida entre os moradores da região, embora seja, diz ela, “uma lenda mesmo, né? Quem imagina um troço desse?”

Ser acreano

Na visão de Marcos o acreano tem perfil muito rico do “ser acreano”, misturando características psicológicas, históricas e culturais. Segundo ele, a identidade do povo é moldada por uma resistência “bem humorada” e uma conexão profunda com o ambiente ao seu redor.

“O acreano, culturalmente falando, tem uma característica bastante interessante. O acreano é irônico por natureza. Tudo aqui vira mangofa, vira piada. Enfim, mas essa ironia característica, ironia fina, não é só fazer graça. É uma maneira também de exercer a crítica política e social”, conta.

Essa relação com o místico é marcada por uma dualidade. Ele observa que, embora o povo local frequentemente utilize a ironia e o deboche ao narrar lendas de encantamento, esse comportamento não deve ser confundido com ceticismo. Pelo contrário: a ironia funciona como uma camada cultural que protege uma crença profunda, ainda muito viva e arraigada, especialmente nas comunidades do interior do estado. Para ele, o acreano “brinca” com a história da Cobra-Grande justamente por conviver com ela de forma tão próxima e verdadeira.

O imaginário coletivo

O psiquiatra suiço Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, apresenta o conceito de inconsciente coletivo, experiências transmitidas de geração para geração através da cultura. Esse inconsciente coletivo contém arquétipos, que são imagens, símbolos e padrões de comportamento que aparecem em mitos, sonhos, religiões, e até nas produções culturais modernas, os arquétipos não são aprendidos, são herdados.

Assim, Jung defendia que compreender o inconsciente coletivo é essencial para o processo da criação de uma identidade pessoal. O neuropsicólogo Carlos Souza, aponta que a Cobra-Grande têm um objetivo social, dar direcionamento para as pessoas que escutam, seja ter cautela ou se coragem.

A Cobra Grande faz parte do imaginário amazônico e vai sendo transmitida de geração em geração. “Então se for observar, você pega esse imaginário popular de toda a região amazônica, de todos os ribeirinhos, e isso vai para as escolas e vai tomando uma proporção inimaginável”, explica.

Paróquia Imaculada Conceição, bairro Quize – Segundo Distrito. Foto: Ranelly Pinheiro

O fio da meada

A preservação das narrativas amazônicas vai muito além do folclore. É manter o que Marcos Vinicius chama de “fio da meada”, o elemento que define a trajetória de uma sociedade forjada no isolamento da floresta. O historiador defende que o repertório cultural dos mais velhos é essencial para que as novas gerações não percam o sentido de pertencimento diante do fluxo constante das redes sociais.

Segundo ele, “essas histórias explicam quem nós somos, qual o caminho que nós passamos para chegar até aqui, e que nos diferencia de todo o resto” . É essa memória, afinal, que transforma um simples acidente geográfico ou uma árvore centenária em um poderoso marco de identidade.

Assim, perpetuar as lendas é um ato de resistência contra a homogeneização cultural. O professor pontua que o acreano precisa compreender sua própria geografia e seus símbolos, lembrando que o rio que corta a capital possui significados que não existem em outras regiões do Brasil.

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Quem ajuda quando o rio transborda?

Com casas alagadas e comunidades isoladas no Acre, redes de doação e solidariedade assumem a linha de frente da resposta às enchentes

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Com ruas alagadas, moradores usam barcos para levar cestas básicas. Foto: Juan Diaz

Como era o mundo há 50 anos atrás? No Brasil, a primeira versão da telenovela Roque Santeiro foi censurada, levando à criação de outro clássico, escrito por Janete Clair, Pecado Capital; em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura militar. No Acre, Chico Mendes fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, com Wilson Pinheiro. Lá pelas bandas do sul, no Paraná, acontecia a “Geada Negra”, uma tragédia climática que dizimou cafezais congelados por uma nevasca. 

Voltando para as terras acreanas, em 1975, foi a primeira vez que uma enchente foi registrada em dezembro, em Rio Branco. A segunda, foi em 2025. O rio atingiu a marca de 15,41 metros, em 29 de dezembro de 2025, alcançando a cota de transbordamento de 14 metros, após chuvas seguidas. Nesse cenário, a solidariedade se mostra uma infraestrutura de solução decisiva. Warlle Almeida, professor e cozinheiro, relata que:

“Deveria existir mais assistência, vigilância e controle de bairros, famílias e comunidades que são afetadas pelas cheias dos rios, igarapés e chuvas intensas. As autoridades deveriam mapear essas localidades e, como há pessoas que não têm para onde ir, reservar um fundo financeiro de emergência para dar assistência em casos extremos como as chuvas e alagações”.

Calamidade afeta, principalmente, bairros mais pobres do Acre. Foto: Juan Diaz

Almeida é voluntário do projeto União Solidária, desde 2020. Ele prepara marmitas, embala e entrega durante as ações do coletivo. O grupo tem atuação tanto em momentos de crise, quanto em datas comemorativas, como Dia das Mães, dos Pais e das Crianças. A “União” realiza campanhas de arrecadação e doação através do perfil na rede social do projeto e nas redes de cada voluntário, além de atuar nos territórios.

Nesse cenário desafiador, como pontuou Almeida, coletivos de base consolidam a ajuda a estas famílias atingidas. Redes como a “União” e o Grupo Social pela Vida (GS) expõem os desafios desta empreitada. Mel Silva, neuropsicopedagoga e presidente do “GS”, revela que assim que começam os transtornos, eles são contatados pelos líderes de cada grupo social, instaurando um processo de organização interna para atendê-los.

“As necessidades mais urgentes são, quase sempre, água potável e alimentação, especialmente refeições prontas. Isso acontece porque muitas famílias precisam elevar ou retirar seus móveis, ficam sem energia elétrica e, consequentemente, sem condições de cozinhar. As doações geralmente vêm de pessoas de fora das comunidades atingidas, incluindo voluntários, familiares, amigos e parceiros”, disse.

A água sobe

A maior cota geral da história do rio foi de 18,40 metros em 4 de março de 2015, afetando mais de 102 mil pessoas. Antes disso, o recorde era de 14,30 m, em 14 de março de 1997, que levou 18 anos para ser superado. Em 3 de abril de 2023, o corpo hídrico atingiu 17,72 m, demorando oito anos para se aproximar da marca de 2015. Já em 2024, a nova marca foi atingida em apenas 11 meses depois.

Solidariedade arrecada mantimentos necessários para a população atingida. Foto: União Solidária

“A maior cheia”, “a maior temperatura”, “o menor nível do rio”, “a menor umidade do ar” fizeram parte do vocabulário dos acreanos nos últimos anos. Em 4 de março de 2024, a segunda maior enchente da história de Rio Branco, capital, foi registrada. O rio Acre atingiu 17,75 metros. Este foi o maior desastre ambiental do Estado, por conta do número de cidades e pessoas atingidas, segundo o governo do Estado.

Na cheia de 2023, Edilson Santana, motorista de aplicativo e morador do bairro Travessa Beira Rio conta que perdeu utensílios como geladeira, armário de cozinha, guarda-roupa, estoque de ração dos cachorros, incluindo a morte dos animais de quintal, como aves e na sua horta

“A enchente de 2023 foi muito rápida. Acordei às cinco da manhã para ir ao banheiro e olhei para o rio; ele estava cheio, mas a água ainda não tinha chegado à minha casa. Voltei a dormir e, quando acordei por volta das 6 horas, a água já estava na minha cozinha, atingindo a metade da geladeira (a minha cozinha é mais baixa que o restante da casa, em média 8 centímetros). A água também já cobria quase metade do meu carro. Foi horrível.”

Utensílios e eletrodomésticos precisam ser retirados, caso o contrário, se perdem. Foto: Juan Diaz

Em dezembro de 2025, o acumulado de chuvas chegou a 483 milímetros, volume 97% superior à média esperada para o período, de 265 milímetros. E, como aponta o coordenador da Defesa Civil Municipal, tenente-coronel Cláudio Falcão, os mais afetados são, justamente, famílias em condição de vulnerabilidade, o que significa muitas vezes, aquelas que moram em áreas de risco por falta de opção e por terem menor poder aquisitivo:

“Nós temos as mudanças climáticas, que eu prefiro chamar de emergências climáticas […] Desde 2021 temos inundações todos os anos, sendo que em 2025 ocorreram duas. Por que isso se torna frequente? Mudanças climáticas, ação do homem e ciclo da natureza. Eu diria que esses são os três fatores primordiais”, destaca Falcão.

Na manhã de terça-feira, 13, data em que esta matéria está sendo produzida, o manancial da capital atingiu 13,27 metros, mantendo-se estável nesse patamar até o meio-dia. Entretanto, a capital está novamente em estado de alerta, estando a apenas 23 centímetros da Cota de Alerta oficial (13,50m) e a menos de um metro de um novo transbordamento. 

“Quando ocorrem catástrofes, como chuvas e enchentes intensas, agimos mediante a urgência, pois as comunidades são cadastradas no nosso sistema. Quando chegam casos isolados, mandamos equipes a vários locais. Depois da arrecadação, separamos os itens e montamos kits (quando são roupas, sapatos, produtos de limpeza e higiene). No caso de alimentos, utilizamos para o preparo das marmitas. Quando são doados sacolões, verificamos as famílias mais necessitadas e as entregamos. Após todo preparo e montagem, saímos em equipes”, acrescenta Almeida.

O estado sofre

Este tipo de ajuda é necessária em todo o território acreano, já que a análise dos dados revela um efeito dominó em todo o sistema hidrográfico do estado, afetando as bacias do Purus, Juruá e Tarauacá. Em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, o Rio Juruá registrou uma oscilação mista. Boletins subsequentes indicaram o início de uma vazante, afastando-o da cota de alerta.

Apesar da trégua momentânea, a região do Juruá mantém um histórico de vulnerabilidade, tendo enfrentado cheias severas que exigiram campanhas de arrecadação específicas para a região, dada a sua distância da capital.

“Falando de classe social, essas pessoas [em situação de vulnerabilidade] são as primeiras a sofrer. Já em termos de faixa etária, o impacto é igual: tanto crianças quanto adultos e idosos sofrem com a mesma intensidade, desde que pertencem a essas categorias sociais menos favorecidas”, diz o tenente-coronel.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão”.

Em Tarauacá, durante eventos recentes associados a esta temporada de chuvas, cerca de 90% do município chegou a ficar submerso em momentos de pico, afetando direta e indiretamente até 28 mil pessoas. Em Feijó, a situação é agravada pelo isolamento das terras indígenas e ribeirinhas, onde as águas destruíram roçados de subsistência, criando uma crise de segurança alimentar.

Já Assis Brasil, em 2021, é palco de uma crise migratória agravada pela enchente com imigrantes na fronteira com o Peru sendo retidos por dias. A campanha “SOS Acre” direcionou parte de seus esforços especificamente para este grupo, fornecendo ajuda humanitária a haitianos, venezuelanos e outras nacionalidades que se viram duplamente desamparados: sem pátria e sem chão, literalmente. Santana reflete que quando se é vítima das enchentes, para além do prejuízo material, “a dignidade desaparece” e a população local “fica vulnerável a tudo.”

“Agilidade nas ajudas, a maioria das ajudas demoram bastante e a enchente destrói tudo numa velocidade grande para quem mora próximo às margens”, pontua o motorista de aplicativo sobre os desafios que aparecem para quem é vítima dos desastres climáticos.

E não foram só os animais de Edilson Santana que precisaram de auxílio. No transbordo de 2024, o Ministério Público do Acre (MPAC) também emitiu recomendações expressas para o resgate e cuidado de animais domésticos. Em resposta, a Prefeitura de Rio Branco construiu 17 boxes adicionais no Parque de Exposições e espaços específicos para animais nas escolas-abrigo. Estima-se que quase 600 cães e gatos tenham sido abrigados.

A desigualdade aparece

“Racismo ambiental” é um termo que pode englobar esta discussão. Cunhado por Benjamin Franklin Chaves, líder afro-americano de direitos civis, o conceito retrata esta diferença entre bairros de classe alta e os à margem do centro e o seu acesso a condições eficazes de moradia, saneamento básico e outros tipos de melhorias de infraestrutura. 

Historicamente, o mês de dezembro não costuma registrar cheias dessa magnitude. A cheia de dezembro desencadeou uma primeira onda de desabrigados e desalojados, sendo 758 pessoas, segundo boletim do governo estadual, até o momento de escrita deste texto. Foram mais de 20 mil pessoas atingidas e cinco municípios, inclusive Rio Branco, declararam situação de emergência. 

Entre os dias 9 e 11 de janeiro de 2026, a via fluvial recuou para patamares próximos a 10 metros. Contudo, chuvas torrenciais nas cabeceiras e na própria capital reverteram o cenário. No dia 12, a capital acreana registrou 84 milímetros de chuva, enquanto o município de Assis Brasil, na bacia superior, recebeu 124,8 milímetros em 24 horas. 

Com esse cenário de mais uma possível calamidade pública, os dois representantes das redes de solidariedade entrevistados contaram o diferencial entre os dois. O “União Solidária” prioriza, em sua atuação, agrupamentos mais isolados. Como povos ribeirinhos, que necessitam de um barco, de uma caminhonete ou veículo traçado para conseguir fazer a entrega dos alimentos. O atendimento dos dois coletivos também é esquematizado em etapas, sendo que a prioridade inicial é água e refeições prontas.

“Esse período de enchente escancara muito a questão da ‘geografia da exclusão’. Escutamos muito as pessoas falarem: ‘Ah, mas todo ano acontece isso com essas famílias?’. Sim, todo ano acontece, porque essas famílias continuam em áreas de risco. Em momento algum foram retiradas dessas áreas, então, sim, vai se repetir todos os anos”, reitera Robson Fadell, presidente e fundador da União Solidária.

A solidariedade se constrói

Fadell se descreve como nutricionista de formação e ativista social de coração e afirma que as enchentes “revelam” desigualdades que não acontecem apenas no período das chuvas. Ele fundou a ONG com outros colegas. Em 2021, numa alagação durante a pandemia, eles perceberam uma demanda grande por comida. Além de pessoas aglomeradas, com muitos casos de COVID-19 e sem isolamento. Dessa maneira, eles começaram a intervir com ações de saúde e entrega de refeições até formarem a organização.

“Muitas vezes, fala-se imediatamente em colchões e cestas básicas, mas o processo não começa assim. Quando a água começa a baixar, surgem novas necessidades, como produtos de limpeza para higienizar as casas e permitir o retorno das famílias. Só depois entram os móveis, as cestas básicas e outros itens essenciais”, enfatiza Mel Silva sobre a atuação da rede solidária que coordena.

O processo de decisão de para quem vai cada doação ocorre de acordo com a necessidade de cada região, explica Silva. O “Grupo Social pela Vida” mantém contato constante com outros parceiros que atuam na linha de frente para garantir que os suportes sejam distribuídos de forma equilibrada e estratégica, evitando a concentração de ajuda em um único local e assegurando que ela chegue, de fato, a quem mais precisa.

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias”.

O tenente-coronel, Falcão, acredita que faltam políticas públicas para que essas pessoas dependam menos de auxílio. Por conta disso, ele acredita que as redes de apoio comunitário são essenciais para garantir que essa assistência alcance esta parcela da população. A geografia acreana impõe desafios que moldam a natureza das doações e a forma como elas são distribuídas. A cultura de doação precisa ser, necessariamente, uma cultura de logística.

“Há uma grande quantidade de pessoas afetadas e valores irrisórios investidos; penso que, nesse cenário, as redes solidárias são muito favoráveis”, pensa Falcão. “Além disso, temos um povo voltado para a solidariedade: basta saber que alguém está sofrendo para que a ajuda apareça. Vejo, de uma forma geral, que no país todo, quando há desastre, existe uma rede comunitária.”

Falando sobre as autoridades, o Governo do Acre, lançou a campanha "Juntos Pelo Acre" em 2025, uma iniciativa que funciona como um guarda-chuva logístico, centralizando doações de grandes volumes e distribuindo-as para os municípios mais afetados. Já a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, além do resgate físico, atuam na distribuição das doações. A campanha "SOS Acre" arrecada, sobre a confiança pública no MPAC, volumes financeiros para a assistência destes moradores. 

Depois das enchentes, fica os desafios de limpeza e recuperação dos bairros atingidos pela cheia. Foto: Juan Diaz

Porém, para Falcão, é preciso trabalhar a prevenção, mitigação e a preparação. Ele cita o termo “adaptação climática”, que, conforme descrito por Anielise Campêlo, cientista ambiental e professora, ao Comitê Chico Mendes, em 2025, se trata de“repensar quais são as nossas principais matérias-primas para produzir aquilo que a gente consome”. No campo da infraestrutura urbana, seria construir novas formas de alicerces para as cidades, preparando-as para enchentes e secas severas.

“Em nossa cidade, percebemos que toda chuva acima de 50 milímetros causa alagamentos. As pessoas podem ser realocadas, mas, enquanto não mudam, precisam estar preparadas. A residência deve estar pronta para enfrentar esses alagamentos. Além disso, é necessário mudar a cultura, evitando o descarte inadequado de lixo e investindo em educação ambiental”, complementa Falcão.

O desafio se intensifica

Outro caso de doação institucional, a Associação dos Magistrados do Acre (ASMAC) e o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) promovem campanhas internas e externas, além de empresas e associações comerciais que desempenham um papel crucial, como a Fecomércio/AC que realizou uma doação de 130 toneladas de alimentos, convertidos em 9.000 sacolões. Entretanto, não é o bastante:

Essas famílias estão em vulnerabilidade social e precisando de apoio e política pública de janeiro a dezembro”, relembra Fadell. “Só que somente nesses 90 dias tudo toma uma proporção muito grande, torna-se calamidade pública e a mídia divulga; é quando as pessoas passam a enxergar essas famílias.”

Ajuda chega de canoa nos lugares mais distantes. Foto: União Solidária

Silva esclarece que os maiores desafios para a continuidade de projetos como estes estão na frequência de doações e na falta de recursos vindo de instituições da sociedade civil. Quando a enchente chega no auge, normalmente, se consegue um volume satisfatório de doações e voluntários, como reportado na matéria. Com o passar do tempo, porém, ambos diminuem. 

O gargalo está na ausência de recursos e apoio técnico contínuos, como espaços adequados para cozinhar, veículos para distribuição e canoas, entre outros. Fadell faz coro com Silva e Falcão e justifica que o ideal seria a criação de políticas públicas habitacionais e saneamento básico. O nutricionista também observa que o poder público enxerga essas situações com o intuito de gerar assistencialismo, “fazendo da tragédia alheia um palanque eleitoral”. 

“Trata-se de um trabalho exaustivo, que exige dias consecutivos de dedicação, muitas vezes deixando a própria vida pessoal em segundo plano para ajudar essas famílias […] No ano passado, por exemplo, conseguimos chegar a locais onde o Estado e a Prefeitura não alcançaram. Em algumas regiões, fomos o primeiro socorro recebido. Com o apoio da comunidade e das doações, realizamos um bom trabalho. No entanto, se tivéssemos suporte estrutural e financeiro do Estado, poderíamos fazer muito mais”, conta Mel Silva.

Almeida denuncia que nos últimos dois anos, houve uma grande queda nas doações. Outras organizações, como a Cozinha Solidária Marielle Franco, registraram estas dificuldades. Com apoio do governo estadual, federal e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Cozinha entregou quase 10 mil marmitas e água mineral para atingidos pela cheia do Rio Acre, em 2024. Além dos alimentos, o Movimento por Uma Universidade Popular (MUP) fez entrega de roupas.

Acre é palco de enchentes recorrentes, apesar de ter um plano de contingência escrito. Foto: Juan Diaz

“A solução seria a criação de políticas públicas específicas e definitivas, e não ações paliativas a cada alagação. Já vamos para a sexta alagação trabalhando com essas famílias; acompanhamos algumas há 5 ou 6 anos e as vemos perdendo tudo. Tem relato de uma senhora que disse: ‘Meu filho, termino de pagar um guarda-roupa em 12 parcelas e a água leva’. É muito triste”, finaliza Fadell.

O futuro flui

Dados apontam para cheias nos próximos meses de 2026, segundo o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco. Para além de cuidados emergenciais, os entrevistados contam que o que falta é um plano de longo prazo para o enfrentamento destes cenários. Algo que, como avalia Warlle Almeida, é um limite para redes de solidariedade como a “União Solidária”, pois doação comunitária não substitui política pública..

Contudo, este caminho já pode estar pavimentado, pois em 2023, Rio Branco foi uma das primeiras capitais do Norte do Brasil a montar um Plano de Contingência para Inundações, a qual você pode ler aquiPara os entrevistados e, segundo diversos relatos de moradores afetados nas redes sociais, talvez o que falte seja justamente seguí-lo.

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