Nascente
O adolescente Cauã e o autismo no Acre
Publicado há
5 anos atrásem
por
Redação
Cauã atendeu ao chamado da avó. Foto: Danna Anute
Por Bruna Giovanna e Danna Anute
As histórias relacionadas ao autismo geralmente trazem uma porção de crueldade, seja por falta de conhecimento e daí surgir enganos, seja pelo seu teor de tristeza, dor ou indiferença. Há aproximadamente três anos, o adolescente Cauã Victor Silva, de 13 anos, foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Risonho, observador e degustador fiel de peito de frango, o menino faz parte de uma estatística que cresceu com nuances a partir de 2007 e teve um boom em 2013. Estima-se que há 2 milhões de pessoas com autismo no Brasil, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, mas não existem dados precisos sobre as pessoas diagnosticadas, que, por lei, serão incluídos no próximo censo populacional realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Cauã anda nas pontas dos pés desde pequeno e desenvolveu uma lesão nos tendões por isso. O adolescente fala pouco, essencialmente com a avó, Francisca Selma da Silva, funcionária da Saúde há 35 anos. Quando o Cauã ainda era bebê, Selma notava “problemas” no modo de ser do neto, mas a mãe não compartilhava da mesma ideia. Apesar disso, a cozinheira da Saúde continuou a busca para saber o motivo do neto ser diferente das outras crianças que ela estava acostumada a ver.
Cauã tem medo de cachorros, talvez porque quando eles latem, a maioria emite um som agudo ou muito grave, isso gera uma sonoridade que causa medo, irritabilidade ou sofrimento para muitas pessoas com esse transtorno. As reações e preferências sobre alimentos ou animais podem variar conforme a pessoa, a idade ou estar relacionadas aos estímulos, dados pela família, escola ou serviços de saúde.
Francisca Selma Silva completará 60 anos em outubro. A avó, ao insistir na percepção de que havia algo diferente em Cauã, teve sua sanidade questionada… “Minha família achava que eu estava ‘caduca’. Não me importei com as falas das pessoas, fui buscar ajuda e o Cauã foi consultado pela primeira vez com a Cholen Werklaenhg, que pediu uma ressonância para concluir o diagnóstico de TEA” relatou, se referindo à médica neuropediatra da Fundação Hospitalar do Acre.
Como diria o acreano do “pé rachado”, dona Selma pelejou para conseguir o diagnóstico do neto, definido aos dez anos de idade. É considerado um diagnóstico tardio, assim como acontece com outros Cauãs, mundo afora. Essa demora pode afetar a qualidade de vida, pois existem intervenções e tratamentos que se iniciados na primeira infância ajudam a desenvolver habilidades e aprendizado. Apesar de ter ocorrido uma mudança a partir de 2013 no Brasil, na região Norte ainda há poucos profissionais qualificados e centros especializados.
Nenhuma criança é igual a outra e isso fica evidente também ao considerar que o autismo não é um transtorno específico, mas sim o espectro de transtornos que variam em cada indivíduo. Em boa parte das vezes, o autismo apresenta dificuldades em relação a comunicação ou interação social, além da repetição de comportamento. Olhar nos olhos e abraçar são tipos de interação que constituem algumas das dificuldades aparentes para alguns autistas.
Separar mitos e verdades sobre o TEA é fundamental para não disseminar preconceitos sobre o transtorno, como a história de que vacinas poderiam estar associadas ao autismo. Isso foi divulgado em larga escala nos Estados Unidos, mas é uma informação falsa. Outra mentira: o mercúrio não causa o transtorno.
Assim, para não passar por erros ou equívocos, é crucial procurar ajuda médica de pediatras, psicólogos, neuropediatras, neurologistas, psiquiatras e demais profissionais que podem trabalhar em conjunto. Com base em estudos, existem terapias que associadas ao cuidado, carinho e atenção podem elevar os estímulos que busquem melhor qualidade de vida das crianças, adolescentes e adultos com o transtorno.
Serviço público de saúde em Rio Branco
Após uma manhã com vários atendimentos e avaliações na Fundação Hospital Estadual do Acre (Fundhacre), a neuropediatra Bruna Beyruth explica sobre o TEA. “O Transtorno do Espectro Autista é uma dificuldade de socialização e comunicação associada a comportamentos estereotipados, repetitivos e rigidez comportamental”.
O autismo precisa ser tratado e acompanhado. Para isso, o ideal é que o diagnóstico ocorra cedo, já que pode prevenir prejuízos de ordem social e cognitiva (no aprendizado).
Em Rio Branco-Acre, O Mundo Azul é um centro especializado direcionado ao tratamento de crianças de 2 até 12 anos. Funciona diariamente, de segunda a sexta-feira, localizado na Travessa São Lázaro, s/n – Conj. Tangará. O espaço tem como objetivo contribuir com o desenvolvimento da criança por meio dos espaços familiar, educacional e social.
No centro são realizados atendimentos terapêuticos com uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e assistentes sociais. Devido à alta procura, o espaço está com uma extensa fila de espera.
A psicóloga Édila Sousa, coordenadora do Mundo Azul, destaca que o autismo tem crescido muito e até pessoas com plano de saúde têm dificuldades para conseguir uma consulta com especialista. “O TEA não pode ser fechado em uma única avaliação, é preciso ser feito um rastreio, é necessário o auxílio de outros profissionais, são fonoaudiólogos, neuropsicólogos, fisioterapeutas ocupacionais e demais especialistas”.
Rodas de conversa
Quando a criança recebe o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) os cuidadores, sobretudo a mãe, tendem a focar a atenção para aquela criança. Muitas vezes resulta em um isolamento, em que eles acabam se afastando dos familiares que demonstram preconceito e, consequentemente, da sociedade. Por não aceitarem a realidade do diagnóstico, alguns pais decidem dar um ponto final no casamento. Algumas mães, sozinhas, vão ter que criar essa criança com todas as dificuldades que são adicionadas ao diagnóstico.
A partir desta realidade, a Coordenadora do Mundo Azul, junto à sua equipe, tiveram a iniciativa de criar rodas de conversa com o objetivo de diminuir o sofrimento dos pais. “O tema da nossa roda de conversa piloto foi ‘Vivendo o infinito Azul’, realizado com o primeiro grupo de pais, que nos rendeu bons frutos e feedbacks positivos das mães participantes”, contou a coordenadora.
A terapeuta ocupacional Rosimara Werner explica que eles buscam a cada roda de conversa dar oportunidade para os outros pais que estão na fila de espera por uma vaga para o tratamento no espaço. “A partir de um diálogo com as mães, identificamos quais eram os temas mais pertinentes. Então, criamos os grupos e a partir disso vamos abrindo para outros pais que ainda não participaram da roda”, explicou a especialista.
A coordenadora Édila Sousa explica que muitas questões devem ser trabalhadas após o diagnóstico e que é necessário não apenas o tratamento com a criança, mas também com toda família. As rodas de conversa contam com a participação de profissionais do espaço como fonoaudiólogos, assistentes sociais, psicoterapeutas, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.
Nessas rodas, os pais encontram temáticas que tem como objetivo auxiliar com dicas de como lidar com a criança em casa, fortalecer as emoções e até mesmo a parte nutricional, pois muitas mães relatam que seus filhos não comem certos alimentos. “Fomos atrás de uma profissional da nutrição que trabalhe com crianças autistas pois não temos esse serviço. E conseguimos uma parceira que está disposta a sempre estar conosco”, completou a coordenadora, acrescentando que buscam ajudar no relacionamento com a família que não está aceitando o diagnóstico.
Outro tema da roda de conversa foi o autocuidado, pois essas mães tinham dificuldades de falar sobre si, elas só queriam falar sobre o filho. Segundo a terapeuta ocupacional Rosimara Werner, nessa roda o primeiro cuidado foi a atividade do espelho: olhar para ela mesma, falar sobre si e se cuidar, com o objetivo de resgatar essa vivência que elas perdem de si mesmas em prol da vivência voltada apenas do filho.
Tendo em vista o retorno positivo que as rodas de conversas estão tendo, a equipe decidiu continuar com a iniciativa. Quando uma mãe chega em busca do tratamento, eles falam sobre não terem vagas disponíveis no momento, mas recomendam a sua inscrição na roda de conversa, que pode confortar de alguma forma.
Alguns sinais de autismo
De acordo com o neurologista Matheus Trilico, referência na área de Neurologia em Curitiba e região, os sintomas de autismo, geralmente, são percebidos durante os três primeiros anos. Mas eles também podem demorar para serem percebidos, principalmente para os indivíduos que apresentam um espectro leve, como os diagnosticados com a Síndrome de Asperger.
É importante dizer que não existe um exame específico que possa identificar o TEA. O diagnóstico para autismo é feito com base no acompanhamento e análise de vários profissionais como psicólogos, pediatras, psiquiatras e neurologistas. No caso de crianças, é imprescindível a avaliação de um neuropediatra.
Para Matheus Trilico é importante observar qualquer sintoma associado ao transtorno. “Perceber os sintomas do autismo é fundamental em qualquer idade, para que seja realizado o acompanhamento neurológico e o indivíduo consiga se compreender melhor”. E finaliza explicando como esse acompanhamento é essencial para melhorar a sociabilização, obter uma qualidade de vida e bem-estar.
Flyer produzido por Bruna Giovanna e Danna Anute com dados da Salz Clínica e Paho Org.
TEA nas Américas
O conceito de autismo surgiu em meados de 1943. Os estudos sobre o transtorno tiveram maior envolvimento dos psiquiatras dos Estados Unidos da América.
Após o lançamento da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) em 2013, o autismo recebeu uma nova nomenclatura, o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A partir disso, os especialistas passam a poder avaliar melhor o grau de autismo com base nos espectros e o diagnóstico pode variar de pessoa para pessoa. Dependendo do espectro, o autismo pode ser mais leve ou mais disfuncional.
O TEA pode estar associado a outras deficiências e déficits de aprendizagem. Desta forma, há muitos preconceitos, mitos e vulnerabilidades em torno das sociabilidades entre pais, responsáveis e a sociedade, pois a maioria olha com estranheza as particularidades de uma pessoa autista.
Autismo no Brasil
No dia 2 de abril é comemorado O Dia Mundial da Conscientização do Autismo, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano de 2007. A data foi escolhida com a intenção de levar informação à população com o objetivo de diminuir a discriminação e o preconceito contra os indivíduos que possuem Transtorno do Espectro Autista (TEA).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), acredita-se que, em todo o mundo, há um autista para cada 160 crianças. No Brasil, os dados continuam bem limitados, porém as informações do Censo Escolar apontam que o número de autistas matriculados em classes comuns no Brasil teve um aumento de 37,27% entre os anos de 2017 (77.102) e 2018 (105.842).
De acordo com a neuropsicóloga Joana Portolese, coordenadora do Ambulatório de Autismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), não há um remédio para o autismo, porém, algumas comorbidades associadas podem ser tratadas com o uso de medicamentos. Existem também algumas terapias e intervenções que podem auxiliar.
Algumas conquistas importantes para os autistas ocorreram no Brasil, como a Lei Berenice Piana (12.764/12), que oficializou os autistas como pessoas com deficiência instituindo a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtornos do Espectro Autista. E a Lei Romeo Mion (13.977/20), que cria a Ciptea, Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, com o objetivo de identificar pessoas com autismo nos serviços públicos e privados, tendo em vista que não possível identificar se a pessoa é autista apenas pelo olhar.
O professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Estevão Vadasz, ressalta as dificuldades dos autistas, sobretudo relacionadas à falta de profissionais preparados para lidar com o TEA. Para ele, o problema parece começar durante a formação médica: “temos centenas de escolas de Medicina e todas deveriam colocar na graduação o ensino de autismo para pediatras”, reforça.
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Corriqueiras
A fruta que o gado não come: produção de pitaya ganha espaço no Acre
Produção familiar encontrou na pitaya uma alternativa resistente ao pasto, garantindo renda e evitando prejuízos causados pelo gado
Publicado há
2 semanas atrásem
18 de fevereiro de 2026por
Redação
Por Vitória Messias
Exótica, colorida e cada vez mais presente no cotidiano dos rio-branquenses, a pitaya, conhecida popularmente como fruta-do-dragão ou fruta do cacto, vem ganhando destaque nas ruas de Rio Branco. O crescimento do consumo é impulsionado por uma rede de comércio administrada por mãe e filho, que desde 2020 atua em dois pontos da capital acreana, no Vila Acre e na Avenida Rio de Janeiro, com a proposta de popularizar a fruta e valorizar a produção da agricultura familiar.
Originária da América Central, a pitaya possui registros de consumo desde as civilizações Asteca e Maia, na região que hoje corresponde ao México. Introduzida no Brasil na década de 1990, a fruta passou a ser cultivada em Rio Branco há cerca de seis anos, a partir da produção de Kelarkian Brilhante e de sua mãe, Ivanna Brilhante, com o apoio de outros familiares que enxergaram no cultivo da pitaya uma alternativa sustentável de renda extra.

Ivanna e Kelarkian Brilhante, donos da plantação de pitaya. Foto: Vitória Messias.
Anteriormente, a família Brilhante se dedicava ao cultivo de maracujá e à criação de gado na propriedade. No entanto, um episódio de descuido, aliado a uma cerca mal conservada, permitiu a entrada dos animais na área de plantio, ocasionando a perda total da lavoura.
Segundo Ivanna, a situação motivou uma reflexão sobre o que era plantado ali. “Meu filho queria plantar algo e ter uma produção própria, fruto do esforço dele. Chegou a pensar em macaxeira, mas eu o alertei que o gado poderia comer a plantação, como fez com o maracujá”, explica.
Com esse pensamento, e em meio à pandemia, mãe e filho conseguiram se reerguer. Kelarkian se inspirou ao assistir vídeos sobre a Pitaya no Youtube e conta sobre aconselhamentos da avó para dar início ao que seria a maior fonte de produção de Pitaya do estado.
“Minha avó, que era viva na época, foi uma fonte de orientação. Ela desencorajou a ideia de plantar maracujá novamente. Um dia, navegando no YouTube, encontrei um vídeo sobre pitaya. Fiquei fascinado e pesquisei a fundo. No dia seguinte, mostrei para minha avó, e ela confirmou que a pitaya era a escolha certa, pois o gado não a comeria”, conta.
O agricultor explica que a decisão de iniciar o cultivo amadureceu ao longo dos primeiros meses do ano. “A ideia surgiu entre fevereiro e março. Em junho, fui buscar as mudas e conheci o seu Celeste, um produtor muito atencioso. No início, o plano era plantar mil mudas, mas, por questões financeiras, comecei com 400. A partir daí, passei a reaproveitar as próprias mudas: todo ano eu retirava e replantava. Fiz isso desde 2020. Em 2021, ampliei o plantio e continuei expandindo a área, até chegar ao que temos hoje”, relata.

Plantação das pitayas Brilhante. Foto: Vitória Messias.
Hoje os agricultores somam 2.800 mudas, com apenas 2.500 em produção, porém, a família enfrentou dificuldades para vender no primeiro e segundo ano de safra. “No primeiro a gente colhia mais fruto do que vendia. O pessoal não conhecia e não queria comprar um alto valor agregado em cima e foi difícil nos dois primeiros anos, mas de 2023 para cá, a pitaya só vem avançando e aumentando o sucesso”, conta Ivanna.
Os produtores comercializam mais de 2 mil mudas de pitaya desde 2023. A partir desse período, o público também variou. “Antes eram mais idosos, pessoas que frequentavam a academia. Depois mudou para o público infantil. Várias crianças queriam, aperreavam o pai para comprar”, conta Kelarkian.
Com a barraca montada na Avenida Rio de Janeiro, e plantação ativa no bairro Vila Acre, a família tem conquistado o público e planeja exportar o produto futuramente.
Benefícios à saúde
Seja pitaya vermelha, branca ou roxa, em meio às variações da fruta, os valores nutricionais variam, como aponta o nutricionista Inauã Rodrigues. “A pitaya vermelha e roxa tem mais compostos antioxidantes do que a branca. Um grande benefício é a praticidade, ela congelada não perde nenhum nutriente, perfeito para só depois bater no liquidificador e fazer um sorvete ou vitamina“, recomenda Inauã.

Inauã Rodrigues, nutricionista. Foto: arquivo pessoal.
A fruta contém minerais como magnésio e vitaminas, incluindo a vitamina C, que, segundo o nutricionista, são antioxidantes importantes, responsáveis por auxiliar na redução de processos inflamatórios no organismo, tanto os mais comuns, como a acne, quanto os mais complexos, como a fibromialgia.
Rodrigues complementa. “É uma fruta leve, com baixo teor calórico e rica em água e fibras. Essa composição a torna benéfica para a saciedade e a regulação intestinal, promovendo uma sensação de leveza”.
A pitaya pode ser incluída em diferentes planos alimentares, seja para quem busca emagrecimento, ganho de massa muscular, prevenção ou tratamento de doenças. Para Maria Luiza, consumidora fiel da família Brilhante, a fruta virou parte do cotidiano. Devido sua praticidade, a cliente faz questão de garantir seu estoque pessoal a cada nova safra.
“Eu nunca tinha comido pitaya antes, eu já tinha visto, mas eu fui comer primeiro as pitayas da Dona Ivanna, em 2023. Eu compro muitas pitayas para consumo próprio. Eu como elas o ano todo, só congelo, e faço suco ou shake, porque eu gosto do sabor, e ela faz muito bem ao meu intestino, é por isso que eu compro muitas”, diz Luiza.
E, assim como fez a diferença na trajetória da família Brilhante, a pitaya segue conquistando espaço e se popularizando entre os mais diversos públicos. Presente nas feiras, nas ruas e na mesa dos acreanos, a fruta deixa de ser vista apenas como exótica e passa a integrar o cotidiano, unindo saúde, sabor e fortalecimento da agricultura familiar.
AMOR EM QUATRO PATAS
A adoção de pets como equilíbrio entre responsabilidade afetiva e social
Com 65 animais disponíveis no Centro de Controle de Zoonozes de Rio Branco, busca por novos lares para cães e gatos adultos visa combater o abandono
Publicado há
3 semanas atrásem
9 de fevereiro de 2026por
Redação
Por Lis Gabriela e Rhawan Vital
O cenário no Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Rio Branco reforça uma triste realidade: muitas pessoas dão preferência à adoção de filhotes para serem seus novos pets, enquanto cães e gatos adultos enfrentam longos períodos de espera em canis e gatis. Além da questão afetiva, a adoção desses animais também pode ser considerada uma decisão que auxilia na saúde pública e no manejo populacional desses animais no ambiente urbano.
Nesse contexto, foram instituídos os CCZs, com o objetivo de focar na vigilância epidemiológica e no controle de doenças que podem ser transmitidas por animais ao ser humano, como raiva e leishmaniose, além de casos em que os animais apresentam risco aos tutores ou agressividade. Mas, apesar de sua função inicial, essas unidades se tornam lares temporários e, por muitas vezes, permanentes para diversos animais.

Cães e gatos adultos aguardam por uma nova chance de recomeço nos canis e gatis do Centro de Controle de Zoonoses de Rio Branco. Foto: Rhawan Vital
De acordo com o agente de Vigilância em Zoonoses, Joel Pereira, do Centro de Zoonoses de Rio Branco, a busca por outra condição de vida para os animais é um objetivo a ser atingido, seja em um lar ou um ambiente adequado, para que recebam o devido carinho. Os animais adultos, quando acolhidos, também proporcionam uma experiência única para o tutor. Além disso, a quebra do ciclo de abandono passa, obrigatoriamente, pela educação da sociedade e pelo reconhecimento do animal a ser adotado. Escolher um animal adulto é priorizar a consciência ao invés de uma fase momentânea com um pet.
Dessa forma, a cultura da adoção é um indicativo de maturidade social. Ao escolher adotar, as pessoas deixam de ser apenas espectadores do problema do abandono para se envolver de forma ativa na solução. “Ter um bicho de estimação é bom, porque você tem companhia sempre. Também te faz ter um senso de responsabilidade que não tinha antes. Pra mim, é uma companhia que nunca incomoda”, afirma Álvaro Bagnara, tutor dos gatos Cheddar e Grafite.

Além da vigilância em saúde pública, o CCZ também se torna lar temporário e, muitas vezes, permanente, para animais vítimas do abandono. Foto: Rhawan Vital
Álvaro conta sobre seus gatos: Grafite foi adotada ainda filhote, então passou por uma fase de criação e ensinamentos, desde o onde se alimentar à caixa de areia. Já Cheddar chegou um pouco mais tarde na família, já adulto e após ser abandonado pelos antigos tutores, mas mesmo assim não deixou de entregar amor. Em relação à adaptação, o tutor dos felinos conta que o tempo bastou para que houvesse um entendimento de que compartilhavam o mesmo lugar.
“No começo a Grafite brincava muito de perturbar o Cheddar, que sempre foi muito quieto e na paz. Com o passar do tempo, apesar do Cheddar continuar no seu cantinho, a Grafite entendeu que eles moravam juntos. Ela não deixou de perturbá-lo, mas o Cheddar começou a revidar. Essa foi a diferença com o passar do tempo” conta Álvaro, de forma animada.
Adoção responsável
O CCZ de Rio Branco conta com 65 animais disponíveis para adoção, sendo eles cães e gatos, filhotes e adultos. Entre eles estão: 40 cães adultos, oito filhotes, 11 gatos adultos e seis filhotes. Os animais são vacinados e têm carteirinhas próprias, prontos para que seus tutores acompanhem e cuidem de maneira adequada, de acordo com datas e mutirões de vacinação disponíveis no futuro.

A adoção responsável transforma realidades: para quem adota, nasce um vínculo; para quem é adotado, surge a oportunidade de um lar. Foto: Rhawan Vital
A adoção pode ser feita de segunda a sexta-feira, entre as 7h e as 17h, e necessita que o interessado tenha mais de 18 anos, apresente o documento oficial e assine o termo de adoção responsável, documento que valida a adoção e a responsabilidade do novo dono do pet.
Ao retirar um animal adulto de um centro, o cidadão contribui diretamente para a redução da superlotação (tanto das ruas, quanto dos abrigos e CCZs) e permite que o Estado e outros profissionais da área veterinária direcionam recursos para outras frentes de saúde e bem-estar animal. É importante ressaltar que a adoção é um ato de responsabilidade civil, e não deve ser confundida apenas com uma boa ação.
CONSCIENTIZAÇÃO
Projeto EducaLeish leva ações de prevenção contra leishmaniose a escolas e comunidades rurais do Acre
Transmissão da leishmaniose segue intensa em áreas rurais e acende alerta entre especialistas no Acre
Publicado há
1 mês atrásem
27 de janeiro de 2026por
Redação
Por Julie Siqueira e Ana Luiza Pedroza
A leishmaniose tegumentar americana (LTA) é uma doença tropical negligenciada, endêmica no Brasil, com maior concentração de casos na região amazônica. No Acre, apenas na última década, mais de 11 mil casos foram notificados, evidenciando a persistência e a intensidade da transmissão local, especialmente em áreas rurais. Transmitida pelo mosquito-palha, a doença pode se manifestar nas formas cutânea ou mucosa e, quando não diagnosticada e tratada precocemente, pode causar complicações significativas aos pacientes.

Leishmaniose é uma doença infecciosa causada por parasitas transmitidos pela picada do mosquito-palha, que pode afetar a pele, mucosas ou órgãos internos. Foto: reprodução
Diante desse cenário, em 2022, durante atividades de campo voltadas à investigação da ecoepidemiologia da doença em áreas rurais, a equipe do Laboratório de Patologia e Biologia Parasitária (LabPBP/CCBN/Ufac) deu início às atividades educativas junto aos moradores dessas comunidades. As ações iniciaram como parte do projeto de doutorado em Medicina Tropical do biólogo Leandro Siqueira, desenvolvido na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e marcaram o surgimento do projeto de ensino e extensão EducaLeish.
O projeto tem como objetivo capacitar profissionais da saúde sobre a leishmaniose, além de promover ações de educação em saúde voltadas à comunidade, com foco nos aspectos básicos da doença, como transmissão, prevenção, sinais e sintomas. A iniciativa é coordenada pelo professor Francisco Glauco de Araújo Santos e pelo biólogo Leandro Siqueira e conta com a participação de estudantes e docentes dos cursos de Medicina, Medicina Veterinária, Biologia e Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Entre as principais iniciativas desenvolvidas pelo EducaLeish estão as visitas anuais a escolas de comunidades rurais da Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema. Nessas mobilizações, são realizadas exposições sobre o ciclo de transmissão da doença, com estratégias que permitem a interação dos alunos e da comunidade com microscópios, lupas, vetores, materiais biológicos didáticos e jogos educativos.
Além das ações em áreas rurais, o projeto também realiza ações de educação em saúde em escolas públicas de Rio Branco, levando informações sobre a leishmaniose de forma acessível para crianças e adolescentes. A proposta é trabalhar a prevenção, os cuidados necessários e a identificação precoce dos sintomas por meio de uma abordagem prática, lúdica e interativa.
A iniciativa tem sido bem recebida pelas instituições de ensino atendidas. Para Laézio Lira, diretor da Escola Tancredo Neves de Almeida, a presença de profissionais e estudantes da área da saúde torna o aprendizado mais efetivo.

Estudantes apresentam atividades práticas sobre a leishmaniose a alunos de escola pública de Rio Branco. Foto: Divulgação/EducaLeish
“A grande importância desse trabalho que a Ufac está trazendo para a escola sobre a leishmaniose é que vai trabalhar a prevenção, os cuidados que devem ser adotados e os sintomas da doença. Uma coisa é o professor estar em sala passando o conteúdo de forma teórica, outra é o pessoal da Medicina e da Medicina Veterinária da UFAC trazendo essa prática. Os alunos ficam muito motivados e encantados com a dinâmica”, afirma.
Nas comunidades rurais, o impacto também é percebido pelos estudantes. Um aluno do ensino fundamental da Escola Hermínio Pessoa, localizada na Reserva Cazumbá-Iracema, comentou sobre a experiência: “Foi a primeira vez que vi um microscópio. Antes a gente só via na televisão. Foi muito legal as atividades e nossa turma gostou bastante”.
Segundo a direção das escolas, as práticas extensionistas contribuem para aproximar os estudantes da ciência e reforçam o papel da escola como espaço de promoção da saúde e do conhecimento científico.

Pesquisadores e estudantes levam o EducaLeish para comunidade rural do interior do Acre. Foto: Divulgação/EducaLeish
A participação dos universitários é outro ponto central do projeto. Para a estudante de Biomedicina Thais Cardeal, de 18 anos, a experiência tem contribuído para seu amadurecimento acadêmico e pessoal.
“A proposta de unir pesquisa, laboratório e ações em escolas me motivou bastante, porque envolve aprendizado e contribuição social”, destaca.
Além das frentes de atuações consolidadas, o EducaLeish prevê uma nova etapa para os próximos meses, comentou o biólogo Leandro Siqueira.
“A educação em saúde é a principal estratégia para a prevenção de doenças. Levar essas atividades para as escolas rurais, onde os alunos e professores não possuem acesso como na zona urbana, é um dos privilégios deste projeto. Para os próximos meses, estamos organizando uma Mostra de Ciências na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, a primeira a ser realizada em comunidades rurais, com objetivo de promover ações de divulgação e popularização da ciência em escolas de comunidades rurais de difícil acesso”, comenta.
A proposta da mostra é ampliar o diálogo com moradores e estudantes da região, fortalecer a divulgação científica e incentivar o interesse pela ciência. A iniciativa se soma às visitas anuais realizadas pelo projeto e marca um novo momento de aproximação entre ensino, pesquisa e extensão, para propiciar a troca de experiências entre a comunidade acadêmica e profissionais de diversas áreas e comunidades tradicionais.
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