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Enchentes em Rio Branco expõem abandono de cães e gatos com cerca de 500 animais resgatados em 2025

Ações de salvamento mobilizam poder público e ONGs para retirar cães e gatos de áreas alagadas em Rio Branco

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Animais abandonados durante a inundação do Rio Acre. Foto: Fernanda Evelyn

Por Arielly Casas e Rian Pablo

A cheia mais recente do Rio Acre mobilizou equipes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e voluntários em uma operação de resgate de animais em áreas alagadas de Rio Branco. Durante a subida do nível do rio, cães e gatos são retirados de casas inundadas ou encontrados abandonados em bairros atingidos pela enchente. Segundo dados da Defesa Civil de Rio Branco, nesta cheia foram resgatados em média 500 animais, entre aqueles retirados junto com famílias e os encontrados sozinhos nas áreas atingidas.

Rio Acre em época de alagamento. Foto: Pedro Devani

Os animais resgatados são levados, em grande parte, para espaços adaptados nos abrigos montados para famílias desalojadas, como no Parque de Exposições. No local, os tutores podem manter contato com os pets enquanto aguardam o retorno às casas.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, coronel Cláudio Falcão, o resgate de animais passou a ser incorporado às operações de salvamento ao longo dos últimos anos.

“Nós entendemos que os animais fazem parte da família. Por isso, quando realizamos a retirada das pessoas das áreas alagadas, também buscamos garantir que os pets sejam levados com segurança”, afirma.

Coronel Falcão destaca a importância do resgate animal. Foto: Retirada do Instagram do Coronel

Operação inclui retirada de animais em áreas alagadas

Durante as ações de retirada de moradores, as equipes utilizam barcos para acessar ruas completamente alagadas. Nessas situações, os animais são retirados junto com os tutores e encaminhados para os abrigos temporários.

Segundo a Defesa Civil, atualmente existem inúmeros abrigos temporários preparados para receber famílias atingidas pela cheia, alguns deles com espaços separados para os animais.

Em muitos casos, no entanto, as equipes também encontram cães e gatos que ficaram para trás nas residências.

Voluntários atuam no resgate de animais abandonados

Além das equipes oficiais, organizações de proteção animal também atuam no resgate durante o período de cheia. Integrantes da ONG Amor Animal realizam buscas principalmente por animais que ficaram nas ruas ou foram deixados nas casas após a retirada dos moradores.

A voluntária Fernanda Evelyn afirma que o trabalho ocorre principalmente em locais onde as equipes públicas não conseguem chegar com frequência.

Fernanda do Projeto Amor Animal. Foto: arquivo pessoal

“Nosso foco é procurar animais que ficaram sozinhos ou presos nas casas. Muitos acabam sendo encontrados em telhados, cercas ou em áreas ainda parcialmente secas”, explica.

Os animais resgatados pelos voluntários são encaminhados para lares temporários ou para abrigos mantidos por organizações da sociedade civil.

Falta de abrigo permanente é desafio durante enchentes

Um dos principais desafios enfrentados pelas organizações é a falta de um abrigo público permanente voltado exclusivamente para animais resgatados em situações de emergência.

Atualmente, segundo voluntários, o acolhimento depende principalmente de estruturas improvisadas e da disponibilidade de protetores independentes.

Para Fernanda Evelyn, a criação de um espaço específico ajudaria a ampliar a capacidade de atendimento durante as cheias. “A demanda aumenta muito nesse período. Um abrigo estruturado facilitaria o cuidado e o acompanhamento dos animais resgatados”, afirma.

A cheia do Rio Acre ocorre anualmente durante o período de inverno amazônico e costuma provocar alagamentos em bairros localizados às margens do rio. Nessas situações, o resgate de animais se tornou uma frente adicional das operações de emergência na capital acreana.

Redação

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Entretenimento nas enchentes: a linha tênue entre o perigo e o lazer 

Enquanto o Corpo de Bombeiros alerta para os perigos de balseiros e correntezas, a carência de opções de entretenimento em Rio Branco empurra a população para as águas perigosas da cheia

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Foto: reprodução

Por Maria Lídia Souza e Vanessa Sousa

Quando o nível do Rio Acre sobe, não é apenas a água que transborda. Durante o inverno amazônico, a cheia expõe contradições antigas de Rio Branco: a convivência cotidiana com o risco, a escassez de espaços públicos de lazer e a naturalização de situações que colocam vidas em perigo.

Na região da Gameleira, as margens do rio se transformam em ponto de encontro. Famílias observam a correnteza, jovens pulam da ponte, e motos aquáticas disputam espaço em um ambiente instável. Mesmo em um período reconhecidamente perigoso, o rio assume o papel de área de lazer improvisada. A cheia do Rio Acre é um evento recorrente que provoca riscos, prejuízos e demanda ações constantes de emergência.

Quando o rio vira alternativa de lazer

Para quem frequenta a Gameleira nesse período, a escolha expõe a falta de opções seguras de lazer e entretenimento na cidade. Renard Matos, morador de Rio Branco, afirma que a ausência de espaços adequados acaba levando parte da população para a beira do rio. “A falta de entretenimento na cidade e de pontos turísticos acessíveis para levar a família, acaba fazendo com que as pessoas venham para cá”, afirma.

Mesmo em meio aos impactos da cheia, o rio também desperta curiosidade e fascínio. A força da água, o grande volume e os balseiros descendo pela correnteza chamam a atenção de quem passa pela Gameleira. Muitas pessoas se aproximam apenas para observar o movimento das águas. A paisagem transformada pela cheia cria um cenário que mistura risco e beleza natural, convidando moradores a contemplar de perto um fenômeno que, embora recorrente, nunca se repete da mesma forma.

Apesar disso, segundo o Major Osimar de Souza Farias, assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros (CBMAC), o volume elevado de água esconde armadilhas invisíveis. “Nessa época do ano, o risco aumenta devido às fortes correntezas e ao incremento de balseiros”, explica. Os balseiros, grandes troncos de árvores arrastados pela força da correnteza, tornam-se projéteis perigosos para quem decide se aventurar nas águas ou navegar sem as devidas precauções.

Foto: reprodução

Mesmo cientes dos riscos, muitos frequentadores continuam ocupando a área. Renard Matos afirma que o perigo é percebido, mas nem sempre suficiente para afastar as pessoas. “A todo tempo corremos risco, como afogamento, que é bem comum nessa época, e desmoronamento de terra na beira do rio pra quem fica só olhando”, relata.

A naturalização do perigo

A presença constante de pessoas à beira do Rio Acre durante o período de cheia também funciona como um fator de incentivo para novos frequentadores. O aumento do movimento cria uma sensação de normalidade e de segurança compartilhada, mesmo em um período reconhecidamente perigoso.

Para Renard Matos, que costuma frequentar a Gameleira, esse cenário se intensifica principalmente aos fins de semana. Segundo ele, observar outras pessoas aproveitando o rio acaba estimulando quem está por perto. “Quando a gente vê outras pessoas se divertindo, pulando da ponte metálica para nadar no rio, muita gente acaba se sentindo mais segura e resolve fazer o mesmo”, afirma.

O Corpo de Bombeiros Militar do Acre afirma que desenvolve ações contínuas de conscientização voltadas ao uso seguro dos rios, especialmente durante o período de cheia. As campanhas têm como objetivo orientar a população sobre os riscos e incentivar a adoção de procedimentos de segurança tanto para a navegação quanto para atividades de lazer.

“A corporação realiza constantemente orientações e campanhas para que, através da conscientização, haja uma maior aderência quanto à adoção dos procedimentos de segurança e à utilização dos nossos rios, tanto para navegação quanto para lazer”, informou Major Farias

Esse cenário revela um contraste entre os alertas das autoridades e o comportamento observado nas margens do rio. Mesmo com orientações e campanhas de prevenção, muitas pessoas continuam utilizando o local como espaço de diversão durante a cheia. A permanência desse hábito indica que os avisos sobre os riscos nem sempre são suficientes para afastar frequentadores, especialmente em um contexto em que a cidade oferece poucas atividades de recreação.

Por que não há proibição formal do uso do rio

Apesar dos alertas emitidos anualmente durante o período de cheia, não há uma proibição formal para o uso recreativo do Rio Acre. Segundo o Major Osimar de Souza Farias, assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros Militar do Acre (CBMAC), a medida é difícil de ser aplicada porque o rio cumpre uma função essencial de deslocamento.

“O rio é um meio de ir e vir, um meio de locomoção. As pessoas continuam utilizando embarcações, os ribeirinhos precisam se deslocar, e há também o uso de barcos e motos aquáticas”, explica. De acordo com ele, a circulação de embarcações é regulamentada pela Marinha do Brasil, responsável pela habilitação dos condutores, o que limita a possibilidade de uma interdição ampla do rio.

A situação evidencia um impasse entre a função do rio como via de circulação e a necessidade de proteção da vida. Sem restrições claras, a responsabilidade pela decisão de permanecer ou não no local recai sobre os frequentadores, muitos deles atraídos pela falta de opções acessíveis de lazer na cidade. O risco, embora amplamente divulgado, passa a ser compartilhado e diluído na percepção coletiva.

Foto: Dell Pinheiro

O resultado é um cenário recorrente: um rio monitorado, reconhecido como perigoso, mas socialmente aceito como alternativa de lazer improvisado. A cheia, nesse contexto, expõe não apenas os limites da atuação institucional, mas também a ausência de políticas públicas capazes de oferecer à população opções seguras de convivência e lazer fora das águas.

Redação

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Churrascaria Rio Branco cresce às margens do Rio Acre e mantém tradição familiar há quase três décadas

O restaurante foi fundado por uma família goiana em 1997, e faz história no cotidiano dos acreanos há 27 anos

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Registro aéreo da enchente de 2015. Foto: cedida.

Por Beatriz Ohrana e Rosely Cabral
De frente para o Rio Acre, em uma das áreas mais simbólicas de Rio Branco, a Churrascaria Rio Branco construiu uma trajetória que mistura tradição familiar, sabor caseiro e resistência às cheias. Fundado em 1997 por um casal goiano que chegou ao Acre com sete filhos, o restaurante atravessou quase três décadas acompanhando o crescimento da cidade e hoje segue sob a administração de Ana Cléia Borges, mantendo viva uma história que faz parte da memória afetiva de gerações de acreanos.

A história da Churrascaria Rio Branco começa no mesmo ano em que a família Borges chegou ao Acre. Vindos do estado de Goiás, Coraci Cândida dos Santos Borges e Marcelino de Azevedo Borges desembarcaram em Rio Branco em 1997 com os sete filhos, em busca de novas oportunidades. Pouco tempo depois, o casal decidiu investir no ramo da alimentação e abriu o primeiro restaurante ao lado do antigo Formigão, no centro da capital.

A chegada à área da Gameleira, onde hoje funciona uma das unidades mais conhecidas da churrascaria, não foi resultado de planejamento estratégico. Segundo Ana Cléia, a mudança aconteceu a partir de uma oportunidade de negócio. “Não foi nada premeditado. Foi uma chance que surgiu e meu pai acreditou”, relembra.

Com o passar dos anos, o restaurante cresceu junto com a cidade, acompanhando o aumento do fluxo urbano e as transformações da região central. Atualmente, a unidade da Gameleira está sob a responsabilidade de Ana Cléia Borges, que dá continuidade ao legado familiar iniciado pelos pais. O restaurante conta hoje com uma equipe de cerca de 10 funcionários, entre três churrasqueiros, balconistas e profissionais da copa, todos fundamentais para o funcionamento do dia a dia. Para Ana Cléia, o sucesso do negócio está diretamente ligado ao envolvimento de quem faz parte da rotina do restaurante. “Para qualquer negócio crescer, é preciso amar o que se faz”, afirma.

Equipe da Churrascaria Rio Branco. Foto: cedida

A localização às margens do Rio Acre é um dos principais atrativos do espaço, mas também impõe desafios constantes. Em períodos de cheia, a vista privilegiada atrai curiosos e visitantes, aumentando o movimento. Ao mesmo tempo, quando a água ultrapassa a calçada e invade o restaurante, os prejuízos se tornam inevitáveis. 

“Quando a água entra, começamos um processo de desmontagem e esperamos baixar para limpar e reformar”, explica Ana Cléia. Apesar das dificuldades, ela afirma que nunca pensou em desistir. “Temos clientes fiéis, fruto de um trabalho de muitos anos. No primeiro dia de reabertura, geralmente já conseguimos arrecadar o suficiente para cobrir as despesas iniciais”.

Cheias que marcam a história

Entre os episódios mais marcantes, a enchente de 2015 permanece viva na memória da família. Naquele ano, a água chegou a 88 centímetros de altura dentro do restaurante e demorou mais de 15 dias para começar a baixar, interrompendo as atividades por um longo período e exigindo uma grande força de reconstrução.

Fachada do estabelecimento. Foto: Rosely cabral                                               

Mesmo sem adaptações estruturais específicas para enfrentar as cheias, a administração avalia medidas futuras que permitam reduzir impactos. Ainda assim, a palavra que guia a rotina do restaurante segue sendo inovação. “Inovar e fazer tudo com amor. Quando o cliente percebe isso, o negócio evolui”, destaca Ana Cléia

Hoje, após quase três décadas, a Churrascaria Rio Branco ultrapassa a função de restaurante e se consolida como um espaço de memória coletiva. O local já recebeu diferentes gerações da mesma família, que acompanham a história desde os primeiros anos no centro da cidade. Além da unidade da Gameleira, a marca conta com restaurante próximo à OCA, uma unidade em Ji-Paraná, em Rondônia, e planos de expansão.

A tradição também se preserva na cozinha. O tempero é um dos diferenciais mais reconhecidos pelos clientes e carrega a herança goiana de dona Coraci, primeira cozinheira do restaurante. A mistura com sabores acreanos resultou em uma identidade própria, facilmente reconhecida por visitantes de outros estados. “Muitos dizem que a comida lembra tempero goiano. Esse é o nosso segredinho”, conta Ana Cléia.

Para o futuro, a administradora afirma que o desafio é honrar o peso e a responsabilidade da marca Churrascaria Rio Branco. Os planos incluem seguir inovando no ambiente, no cardápio e no atendimento, sempre mantendo o cliente no centro das decisões.

Assim como o Rio Acre, que enfrenta cheias e vazantes ao longo do ano, a Churrascaria Rio Branco segue firme às suas margens, atravessando o tempo e reforçando seu papel na história e na identidade cultural de Rio Branco.

Redação

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Cidade do Povo: do refúgio das enchentes ao medo da violência

Criado para receber famílias retiradas de áreas de risco do Rio Acre, conjunto habitacional enfrenta altos índices de criminalidade e volta ao debate público após episódio recente

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Por Diogo José e Vitória Messias

Após perder a casa onde morava com a mãe no bairro Taquari durante a grande enchente de 2015, M.J., que prefere não se identificar, encontrou na Cidade do Povo a oportunidade de recomeçar. Naquele ano, o Rio Acre atingiu a marca histórica de 18,40 metros, a maior registrada, segundo a Defesa Civil do Acre. A água cobriu completamente a residência da família, destruindo grande parte dos pertences.

Lixo e entulhos acumulados no bairro Taquari após a enchente de 2015 em Rio Branco. Foto: Aline Nascimento.

Sem reposição dos bens perdidos, a família foi incluída no cadastro de programas habitacionais do governo, assim como outros moradores das áreas atingidas pela cheia. No entanto, passados 11 anos da inauguração do bairro, M.J. afirma que parte dos residentes da Cidade do Povo convivem atualmente com outro tipo de preocupação: a segurança.

“Existem regras aqui dentro: se você não mexer com ninguém, ninguém mexe com você. Acaba que temos que aprender a lidar com isso no dia a dia, com essa insegurança”, afirma.

O que para muitas famílias que vivem em áreas consideradas de risco parecia representar um novo começo, com o passar dos anos passou a ser visto por parte da população como última alternativa. M.J. afirma que, apesar de morar no bairro e não ter planos de sair, a Cidade do Povo ainda enfrenta desafios relacionados também à infraestrutura e à localização.

“Apesar de ter saído do Taquari por conta da cheia, ainda assim tem vezes que chove muito aqui e também alaga. Sem contar a distância. Aqui é muito longe de tudo, principalmente se não tiver transporte”, relata.

Vista aérea do bairro Cidade do Povo, em Rio Branco. Imagem: Google Earth.

Dados do Ministério Público do Acre (MPAC), divulgados no último Anuário de Indicadores de Violência, mostram que a Cidade do Povo aparece entre os bairros com maior incidência de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) em Rio Branco entre os anos de 2021 e 2024.

Segundo o levantamento, em 2021 foram registrados cinco casos no bairro, o que corresponde a 8,6% do total de ocorrências. Em 2022, o número se manteve em cinco registros, representando 11,9%. Já em 2023 houve aumento significativo, com 13 casos, correspondendo a 21% das ocorrências. Em 2024, o número caiu para seis casos, equivalente a 12% do total.

Dados: MPAC. Gráfico: IA Google Gemini

Um caso recente de violência reforçou a preocupação de moradores com a segurança no bairro. Na noite da última quinta-feira, 12, dois trabalhadores da construção civil foram sequestrados e executados em uma área de mata próxima à rua Geraldo Leite, no bairro Cidade do Povo.

Remoção dos corpos das vítimas pelo Instituto Médico Legal (IML), após o crime registrado nesta quinta-feira, 12. Imagem: TV Gazeta

O crime repercutiu nas redes sociais e gerou comoção entre moradores e internautas. Em uma publicação sobre o caso no Instagram do portal de notícias ContilNet, diversos comentários expressaram indignação e preocupação com a situação de segurança na região. Entre as manifestações, internautas criticaram a falta de políticas públicas eficazes para enfrentar a criminalidade.

Comentários como “Esse povoado deveria ser extinto”, “E o governo construindo casa num lugar desse”, “Cidade do Povo foi criada para isolar a criminalidade, no entanto a segurança pública não deu conta” e “Daqui a pouco ninguém nem vai querer entrar nesse bairro” ilustram a percepção de parte da população diante da violência registrada na região. O episódio reforça o debate sobre os desafios enfrentados pela Cidade do Povo. 

Comentários de internautas na publicação da notícia nas redes sociais. Imagem: Instagram/ContilNet.

Um bairro que nasceu da esperança

Planejada inicialmente com o lema “um recomeço com dignidade”, o bairro Cidade do Povo foi criado em 2014 por meio do programa Pró-Moradia do Governo Federal brasileiro, que busca financiar projetos habitacionais voltados para famílias de baixa renda e garantir melhor qualidade de vida a moradores de áreas de risco, principalmente aqueles afetados pelas enchentes que atingem a capital acreana. Com mais de 4 mil casas, a Cidade do Povo abriga atualmente mais de 15 mil moradores.

Casas da Cidade do Povo, entregues em 2014. Foto: Secretaria de Habitação do Acre (Sehab)

Apesar disso, o cenário revela uma realidade mais complexa, o que tem influenciado também a adesão dessas famílias vulneráveis ao programa. Fazendo com que algumas pessoas prefiram permanecer em áreas consideradas de risco.

Kessya Patrícia, que vive no bairro Cadeia Velha há 21 anos, não pensa em deixar a região, apesar das cheias recorrentes. “O bairro é atingido pela enchente, e durante a cheia a gente precisa sair de casa. Nossa casa só foi invadida pela água uma vez, mas a rua alaga e fica impossível sair para trabalhar ou estudar”, explica.

Para ela, apesar de ter direito ao benefício, a permanência no bairro, além de ter relação direta com a família, que vive próxima a casa, é um local bem localizado e seguro. “Mesmo com os riscos, nosso bairro é bem assistido e tem seus prós e contras”, conclui.

Reassentamento habitacional

As pessoas atingidas pelas enchentes estão entre os principais públicos da política chamada de reassentamento habitacional. Segundo o coordenador de Gestão de Riscos e Desastres da Defesa Civil do Acre, Pedro Henrique Corrêa, retirar famílias de áreas vulneráveis é uma estratégia importante dentro das ações de adaptação às mudanças climáticas.

“Quando falamos de reassentamento habitacional como política de adaptação a enchentes como as do Rio Acre, uma das medidas é exatamente remover o risco, ou seja, retirar as pessoas de áreas vulneráveis. No entanto, essa medida sozinha não é suficiente como política de adaptação climática, porque existem muitas outras variáveis envolvidas”, afirma.

Ele também aponta que há relação entre o aumento desses episódios e as mudanças climáticas, que têm intensificado fenômenos naturais extremos. “As mudanças climáticas têm feito com que os fenômenos sejam cada vez maiores e mais prejudiciais. Desde 2019, todos os anos, Rio Branco tem registrado uma ou mais enchentes. Em 2025, por exemplo, tivemos três transbordamentos do rio”, explica.

Enchente do Rio Acre em 2026. Foto: Dayane Leite

Outro ponto destacado é que áreas consideradas seguras atualmente podem se tornar vulneráveis no futuro, dependendo das transformações ambientais ou urbanas. Segundo ele, há um plano governamental integrado para retirar populações dessas áreas mais vulneráveis.

“Existe um planejamento envolvendo governo federal, estadual e municipal por meio de projetos habitacionais. Nessas iniciativas, as populações que vivem em áreas vulneráveis costumam ter prioridade”, acrescenta.

Espaços de vulnerabilidade

Para o cientista social e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Euclides, o fenômeno envolvendo projetos habitacionais e criminalidade não é exclusivo do local, muito menos do Acre. “O aumento da criminalidade está ligado a transformações sociais, econômicas e tecnológicas que o estado não acompanhou. É um fenômeno complexo, que se reproduz por décadas, e envolve desde políticas equivocadas de segurança pública até o crescimento das organizações criminosas”, explica.

Segundo ele, a forma como bairros planejados como a Cidade do Povo foram ocupados, afastados de centros urbanos, com infraestrutura inicial custosa e serviços públicos pouco mantidos, contribui para criar “espaços de vulnerabilidade”, onde jovens e famílias muitas vezes encontram poucas oportunidades de educação, emprego e lazer. É nesse vazio que grupos organizados se instalam, controlando territórios e impondo medo.

“Não se trata apenas de criminalidade. É a sociedade que, por desigualdade e abandono, oferece terreno fértil para essas atividades. O crime organizado preenche lacunas que o estado deixou, do acesso à justiça à presença da polícia, passando por educação e assistência social”, acrescenta Euclides.

Para ele, políticas públicas que priorizem a manutenção de serviços, o engajamento comunitário e a integração urbana poderiam reduzir esses riscos. “Investir apenas em repressão é combater o efeito, não a causa. É preciso desenvolver projetos que envolvam a comunidade, escolas, saúde, segurança e o próprio espaço público. Um bairro planejado que não garante cidadania, acaba virando território de disputa”, resume.

A busca por segurança

Diante desse cenário, órgãos de segurança pública têm buscado ampliar estratégias de combate à atuação de organizações criminosas no estado. Uma das iniciativas recentes é a criação de um canal específico para recebimento de denúncias da população.

O canal Investigador Cidadão foi lançado pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) em 2025, voltado ao enfrentamento de organizações criminosas que atuam no estado. A ferramenta permite que moradores enviem informações anônimas que possam auxiliar investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ou por outros órgãos de segurança pública.

Canal Investigador Cidadão permite o envio de denúncias anônimas para auxiliar investigações contra o crime organizado no Acre. Imagem: MPAC

Por meio do canal, é possível encaminhar textos, vídeos e áudios, além de realizar denúncias de forma anônima pelo WhatsApp, (68) 99993-2414. Segundo o site do MPAC, o objetivo da iniciativa é incentivar a participação da população no combate ao crime organizado e ampliar a rede de informações que auxiliam as investigações.

Entre os tipos de denúncias que podem ser feitas estão a identificação de membros de organizações criminosas, informações sobre lideranças e hierarquias dentro das facções, além da localização de foragidos da Justiça. 

O canal também recebe relatos sobre torturas aplicadas por integrantes de grupos criminosos, bem como denúncias de crimes como homicídios, tráfico de drogas, sequestros, roubos e extorsão de comerciantes.

Casas erguidas, esperança em construção

Entre enchentes que forçam partidas, políticas públicas que tentam oferecer novos caminhos e desafios que persistem no cotidiano, a história da Cidade do Povo revela uma realidade marcada por contradições: o bairro que nasceu como símbolo de recomeço também convive com dificuldades estruturais, distância e preocupações com a segurança. 

Ainda assim, para muitas famílias que perderam tudo nas águas do Rio Acre, o lugar representou a possibilidade concreta de reconstruir a vida pouco a pouco. M.J., que viu a antiga casa desaparecer sob a cheia de 2015, reafirma que permanecer ali é também um exercício de esperança. 

“A gente perdeu muita coisa naquela enchente, mas aqui pelo menos tivemos a chance de começar de novo. A esperança da gente é que, com o tempo, o bairro também melhore e vire de verdade o lugar seguro que prometeram pra gente”. 

Assim como o rio que um dia levou sua casa, a esperança também segue correndo em meio a insegurança da Cidade do Povo.

*A equipe do A Catraia entrou em contato com o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) para saber como o órgão avalia os índices de violência registrados na Cidade do Povo. No entanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

Redação

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