Por Fernanda Maia, Gabriel Vitorino e JhenyferSouza
O cotidiano dos estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) é marcado por uma realidade presente não só no estado do Acre, mas em todo o cenário nacional: a necessidade de conciliar formação acadêmica e experiência prática em um mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo.
Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, aproximadamente 35% dos estudantes de Comunicação Social, das áreas de Publicidade ou Jornalismo, já realizam estágios e possuem vínculos empregatícios formais antes de se formar, seja com carteira de trabalho ou como pessoa jurídica.
A formação acadêmica em Jornalismo oferece os fundamentos teóricos e o pensamento crítico necessário para o exercício da profissão. Enquanto nas salas de aula, os estudantes compreendem o papel social da imprensa e aprendem sobre apuração, redação jornalística e ética profissional de forma predominantemente teórica, no mercado de trabalho eles têm que lidar diretamente com a prática da profissão.
Os estágios ou empregos, que possuem regras fixas e impõem prazos curtos para entrega de matérias e demandas, permitem que os futuros jornalistas entendam as demandas do trabalho e tenham noção da realidade da profissão em que estão inseridos. Segundo uma pesquisa do Perfil do Jornalista Brasileiro (Fenaj, 2021), 62% dos profissionais afirmam que o estágio foi decisivo e essencial para suas formações como profissionais.
Para muitos, essa rotina dividida entre aulas, trabalhos acadêmicos, estágios e empregos é enriquecedora, constrói boas experiências e aprendizados, mas também é vista como um desafio. Algumas vezes esse acúmulo acaba testando limites físicos e emocionais durante os quatros anos da faculdade.
No Acre, onde a imprensa é concentrada em poucos veículos midiáticos, estudantes de Comunicação destacam que a desvalorização da profissão, a pressão por qualificação, exigência de serem multitarefas e a concorrência com influenciadores digitais são vistos como alguns dos obstáculos enfrentados no cotidiano de quem busca estudar e construir uma carreira no jornalismo local.
Em entrevista, Ludymila Maia, 22 anos, assessora de comunicação da OCA, destacou a importância desse trabalho duplo, mas também as dificuldades encontradas: “Conciliar o trabalho e os estudos é de fato uma dificuldade, porque em certos momentos a gente acaba tendo que priorizar um e deixando o outro em segundo plano”.
Ela explica que algumas demandas fogem dos horários agendados e acabam tomando um tempo de foco nos estudos ou em sala de aula. “Sempre deixei a faculdade como primeiro plano, mas teve momentos que eu tive que trazer essa prioridade para o trabalho, por diversas questões”, disse.
Ela destacou que o conhecimento adquirido na universidade e a experiência prática do mercado de trabalho são enriquecedores, mas que existe uma falta de sincronia entre os dois muitas vezes, devido à dificuldade de realizar algumas das questões práticas nas salas de aula.
“Eu sinto que a gente ainda está um pouco defasado em questões práticas dentro da universidade e essas partes práticas eu só fui aprender mesmo quando eu cheguei a trabalhar profissionalmente dentro de uma redação, dentro de uma assessoria.” No entanto, apesar das dificuldades encontradas em sua rotina, Maia afirma que em nenhum momento pensou em desistir do curso.
“Nunca cogitei trancar ou desistir, mesmo com esses momentos de dificuldade. Eu acho que o jornalismo deve ser levado muito a sério, e a questão acadêmica é essencial para a nossa construção profissional”, relatou Maia.
Sobrecarga
Para jornalistas que conciliam o estudo com o seu trabalho, as multitarefas, e o acúmulo de funções, junto com a cobrança de prazos curtos, uma das dificuldades apontadas é a a sobrecarga.
Isabelle Magalhães, 20 anos, estagiária no site A Gazeta do Acre, contou que possui tempo para os estudos, mas que já se sentiu sobrecarregada ao perceber a intensidade do trabalho jornalístico. Mas sua paixão pelo curso a manteve na formação acadêmica, mesmo percebendo a contradição entre jornadas exaustivas e certa desvalorização da profissão.
“Acredito que todo estudante, em algum momento da vida acadêmica, já pensou em trancar o curso e comigo não foi diferente. Já considerei essa possibilidade, tanto pela sobrecarga quanto pela percepção de como o trabalho do jornalista é intenso e, muitas vezes, pouco valorizado. Isso pode ser bastante desmotivador”, comentou.
Enquanto na universidade os prazos permitem que apurações e textos sejam feitos com mais calma e dedicação, nas redações jornalísticas a pressão por entregar demandas em prazos curtos está presente na rotina. Profissionalmente este é um fator determinante e apurações precisam ser feitas rapidamente, mas com boa qualidade, o que muitas vezes causa insegurança nos iniciantes.
Isabelle Magalhães percebe essa diferença entre a faculdade e o mercado de trabalho: “A rotina dentro da redação, muitas vezes, não permite que eu desenvolva uma matéria com o mesmo nível de aprofundamento e elaboração que um trabalho da faculdade exige”, disse.
Gisele Almeida, de 25 anos, é editora-chefe do site Agazeta.net, formada em Jornalismo pela Ufac e hoje mestranda em Letras, e vive uma rotina ainda mais intensa. Ela realiza plantões, faz coberturas de última hora para seu trabalho e precisa conciliar essas funções com suas leituras de mestrado. Ela admite que também já pensou em desistir dos estudos por conta do trabalho mas, apesar das dificuldades, ela ressalta que esse tipo de conhecimento a enriquece profissionalmente.
“Eu falei para o meu orientador: Eu vou desistir, talvez eu nem seja para isso, talvez o mestrado nem é algo para mim”, por constatar o quanto é difícil, mas afirma que vai persistir até o final. “Quando eu coloquei isso na minha cabeça. de terminar, acho que isso me deu mais força. O programa é muito bom, tem excelentes professores, são conteúdos riquíssimos, então, é uma coisa que tá valendo muita pena para mim como pessoa e como profissional”, desabafou.
Amor pela profissão
A desregulamentação da profissão, o avanço de influenciadores nas mídias e o excesso de fake news são temas que impactam diretamente a rotina desses profissionais e preocupam tanto os estudantes quanto os jornalistas que já exercem a sua profissão. Algumas funções antes exercidas por jornalistas acabam sendo saturadas por pessoas que não tem compromisso e responsabilidade com conteúdos que produzem e profissionais da área ficam desvalorizados.
Com esperança de que a área da Comunicação continue se expandindo, Maia também se preocupa com a manutenção da boa qualidade oferecida. “A gente vê hoje em dia que todo mundo acha que se pegou um celular e uma lapela na mão, automaticamente você se torna jornalista ou comunicador. E pra mim não é assim que funciona”, criticou.
A estudante-assessora defende a volta da obrigatoriedade do diploma para ser jornalista, pois para ela a formação garante a qualidade das apurações e a responsabilidade ética ao publicar informações.
“Eu acho que jornalistas e comunicadores devem partir de dentro da academia, de dentro de faculdades de jornalismo, de propaganda e publicidade. Isso é muito importante. Não é à toa que hoje em dia não existe a obrigatoriedade do diploma pra você ser considerado jornalista e eu acho que isso é praticamente um crime pra nossa área”, comentou.
Assim como ela, Gisele Almeida compartilha do mesmo pensamento, e acredita que jornalistas merecem mais reconhecimento, inclusive financeiro, levando em consideração as sobrecargas que tem no trabalho.
“O que eu espero da profissão é a obrigatoriedade do diploma, pois eu acho que jornalista tem que ter diploma e ponto, para mim isso é extremamente importante. E que a gente seja mais valorizado financeiramente, o nosso salário é muito ruim, péssimo. E também que a gente não tenha tanta sobrecarga de trabalho. O jornalista acaba trabalhando em feriados, acaba trabalhando no sábado e domingo”, disse.
Apesar das críticas às dificuldades em conciliar o mercado de trabalho com os estudos acadêmicos na rotina dos jornalistas, as estudantes reconhecem a importância da Ufac em suas formações, e valorizam o aprendizado recebido por meio de aulas, estágios e trabalhos acadêmicos.
“A vontade de saber, aprender e conhecer é essencial para um jornalista, especialmente no mercado de trabalho. Sempre fui uma pessoa muito curiosa, e o curso de jornalismo intensificou ainda mais esse lado em mim”, afirmou Isabelle Magalhães, que recomenda humildade para aprender.
Independente da rotina, que muitas vezes pode ser difícil, os estudantes acreditam que o jornalismo ainda tem o poder de transformar a sociedade, já que, por trás das dificuldades da profissão, eles também conseguem fazer a diferença ao informar a sociedade.
“Dentro do jornalismo eu percebi uma grande paixão que eu tenho por contar histórias, por ouvir histórias, por de alguma forma ajudar um cidadão, a população que tá precisando de uma informação.E que essa informação chegue com qualidade, de uma forma simples para que todos entendam, sem grandes burocracias”, comentou Maia.
Conciliar as exigências acadêmicas e as demandas do mercado de trabalho pode muitas vezes ser desafiador, principalmente quando se trabalha com prazos curtos para a entrega de matérias, dificuldade de contatar fontes, equipes pequenas. E mantendo a responsabilidade ética e a apuração aprofundada. No entanto, toda experiência é importante e faz parte do desenvolvimento profissional do jornalista.
“Eu sou muito realista, porque não é uma profissão fácil, mas eu sempre falo, é uma profissão apaixonante, é uma profissão que você tem que ter paixão para fazer. E graças a Deus eu sou muito apaixonada pelo meu trabalho e pela pela área que eu escolhi, mas tendo consciência”, finaliza Almeida.
O cenário no Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Rio Branco reforça uma triste realidade: muitas pessoas dão preferência à adoção de filhotes para serem seus novos pets, enquanto cães e gatos adultos enfrentam longos períodos de espera em canis e gatis. Além da questão afetiva, a adoção desses animais também pode ser considerada uma decisão que auxilia na saúde pública e no manejo populacional desses animais no ambiente urbano.
Nesse contexto, foram instituídos os CCZs, com o objetivo de focar na vigilância epidemiológica e no controle de doenças que podem ser transmitidas por animais ao ser humano, como raiva e leishmaniose, além de casos em que os animais apresentam risco aos tutores ou agressividade. Mas, apesar de sua função inicial, essas unidades se tornam lares temporários e, por muitas vezes, permanentes para diversos animais.
Cães e gatos adultos aguardam por uma nova chance de recomeço nos canis e gatis do Centro de Controle de Zoonoses de Rio Branco. Foto: Rhawan Vital
De acordo com o agente de Vigilância em Zoonoses, Joel Pereira, do Centro de Zoonoses de Rio Branco, a busca por outra condição de vida para os animais é um objetivo a ser atingido, seja em um lar ou um ambiente adequado, para que recebam o devido carinho. Os animais adultos, quando acolhidos, também proporcionam uma experiência única para o tutor. Além disso, a quebra do ciclo de abandono passa, obrigatoriamente, pela educação da sociedade e pelo reconhecimento do animal a ser adotado. Escolher um animal adulto é priorizar a consciência ao invés de uma fase momentânea com um pet.
Dessa forma, a cultura da adoção é um indicativo de maturidade social. Ao escolher adotar, as pessoas deixam de ser apenas espectadores do problema do abandono para se envolver de forma ativa na solução. “Ter um bicho de estimação é bom, porque você tem companhia sempre. Também te faz ter um senso de responsabilidade que não tinha antes. Pra mim, é uma companhia que nunca incomoda”, afirma Álvaro Bagnara, tutor dos gatos Cheddar e Grafite.
Além da vigilância em saúde pública, o CCZ também se torna lar temporário e, muitas vezes, permanente, para animais vítimas do abandono. Foto: Rhawan Vital
Álvaro conta sobre seus gatos: Grafite foi adotada ainda filhote, então passou por uma fase de criação e ensinamentos, desde o onde se alimentar à caixa de areia. Já Cheddar chegou um pouco mais tarde na família, já adulto e após ser abandonado pelos antigos tutores, mas mesmo assim não deixou de entregar amor. Em relação à adaptação, o tutor dos felinos conta que o tempo bastou para que houvesse um entendimento de que compartilhavam o mesmo lugar.
“No começo a Grafite brincava muito de perturbar o Cheddar, que sempre foi muito quieto e na paz. Com o passar do tempo, apesar do Cheddar continuar no seu cantinho, a Grafite entendeu que eles moravam juntos. Ela não deixou de perturbá-lo, mas o Cheddar começou a revidar. Essa foi a diferença com o passar do tempo” conta Álvaro, de forma animada.
Adoção responsável
O CCZ de Rio Branco conta com 65 animais disponíveis para adoção, sendo eles cães e gatos, filhotes e adultos. Entre eles estão: 40 cães adultos, oito filhotes, 11 gatos adultos e seis filhotes. Os animais são vacinados e têm carteirinhas próprias, prontos para que seus tutores acompanhem e cuidem de maneira adequada, de acordo com datas e mutirões de vacinação disponíveis no futuro.
A adoção responsável transforma realidades: para quem adota, nasce um vínculo; para quem é adotado, surge a oportunidade de um lar. Foto: Rhawan Vital
A adoção pode ser feita de segunda a sexta-feira, entre as 7h e as 17h, e necessita que o interessado tenha mais de 18 anos, apresente o documento oficial e assine o termo de adoção responsável, documento que valida a adoção e a responsabilidade do novo dono do pet.
Ao retirar um animal adulto de um centro, o cidadão contribui diretamente para a redução da superlotação (tanto das ruas, quanto dos abrigos e CCZs) e permite que o Estado e outros profissionais da área veterinária direcionam recursos para outras frentes de saúde e bem-estar animal. É importante ressaltar que a adoção é um ato de responsabilidade civil, e não deve ser confundida apenas com uma boa ação.
Jornal A Catraia volta a navegar em 2026 com Rio Acre no centro das histórias
O jornal-laboratório da Ufac chega à 21ª edição com proposta editorial e visual renovadas, mantendo as matérias cotidianas e adotando o Rio Acre como fio condutor das pautas especiais
A sociedade nasce da água, escorre, se junta e ganha forma. É por essas águas, que carregam histórias e sonhos, que a catraia transporta vozes, perguntas e sentidos. Com essa premissa, o jornal-laboratório A Catraia, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac), chega à sua 21ª edição, em 2026, marcando o retorno de um dos principais espaços de prática jornalística e formação de profissionais, agora com uma proposta editorial e visual renovadas.
Além das notícias cotidianas, chamadas de corriqueiras, a edição deste ano traz matérias especiais inspiradas no Rio Acre, elemento central da formação histórica, social, cultural e econômica do estado. O rio funciona como eixo temático que atravessa diferentes editorias, conectando pautas de política, cultura, meio ambiente, economia, esporte e sociedade, sem perder o compromisso com a notícia, a crítica e a escuta.
O Rio reúne atividades em seu entorno, como na imagem, onde um grupo se reúne para praticar capoeira. Foto: Wellington Vidal.
Presente há mais de duas décadas na disciplina de Jornal Laboratório, o jornal A Catraia acompanhou gerações de estudantes e funciona como um espaço fundamental de formação profissional. É ali que muitos alunos têm o primeiro contato direto com a rotina do jornalismo, vivenciando processos de apuração, entrevistas, produção de texto, edição e trabalho em equipe, experiências que, para parte da turma, ainda não haviam ocorrido no mercado profissional.
Para a professora da disciplina e coordenadora do jornal, Giselle Lucena, o retorno do projeto movimenta todo o curso. Segundo ela, o Jornal Laboratório concentra expectativas tanto de professores quanto de estudantes, justamente por refletir o percurso formativo vivido ao longo da graduação.
“Tudo aquilo que os alunos aprenderam até aqui aparece nesse momento. O produto desenvolvido na disciplina acaba sendo um espelho do curso, com seus acertos, desafios e possibilidades”, afirma.
Giselle Lucena, professora da disciplina e coordenadora do jornal A Catraia. Foto: Arquivo pessoal.
Ela destaca que o espaço vai além da simulação do mercado. “Ao mesmo tempo em que buscamos reproduzir a dinâmica do mercado, o Jornal Laboratório também é um lugar de liberdade criativa. É o momento de experimentar formatos, propor outras narrativas e pensar novos modelos de jornalismo, algo que muitas vezes não foi possível em outras disciplinas”, completa.
A experiência prática também é percebida pelos estudantes envolvidos na produção. Para Wellington Vidal, repórter do A Catraia e, nesta edição, gestor de redes sociais, o jornal representa uma oportunidade de crescimento profissional e inovação.
“Contar histórias de pessoas e lugares do nosso estado, sobretudo com o tema rio como eixo, que é algo que vivenciamos de perto todos os anos, é um desafio que torna-se enriquecedor no meu processo de formação e abrange ainda mais a diversificação da escrita”, afirma.
Wellington Vidal, repórter e gestor de redes sociais da 21ª edição do jornal A Catraia. Foto: Arquivo Pessoal.
Ele ressalta o investimento nas plataformas digitais. “A rede social é o elo que liga tudo, por meio dela a equipe está buscando inovar com produções de vídeos e web reportagens, além de trazer uma nova identidade visual pro jornal”, completa.
Essa renovação também se reflete na repaginação do site e na nova logo do jornal. A identidade visual aposta em traços mais crus, referências amazônicas e uma estética de caráter mais vanguardista, que dialoga diretamente com o território, o rio e a proposta editorial da edição. A mudança marca uma nova fase do jornal, sem romper com sua história.
Identidade visual da edição de 2026 do jornal A Catraia. Imagem: Diogo José.
Nesta edição, a proposta editorial também se materializa na organização das editorias, que passam a dialogar diretamente com o eixo do rio e seus significados:
O doutor em Ciência Ambiental e professor do curso de Jornalismo da Ufac, Maurício Bittencourt, reforça que a escolha do Rio Acre como eixo central amplia o papel do jornalismo. Para ele, o rio é essencial para a identidade acreana e para a vida cotidiana da população. “O Rio Acre é fundamental para o transporte, a produção agrícola e o abastecimento de água. Milhares de pessoas dependem diretamente dele”, explica.
Segundo o professor, o jornalismo pode contribuir para uma cobertura que vá além dos períodos de cheia ou seca. “É preciso debater a preservação das nascentes, das matas ciliares e a responsabilidade das cidades em não poluir um manancial que abastece a população. O Rio Acre também é um rio internacional, o que amplia ainda mais os temas possíveis de abordagem, como fronteiras, entre outros”, destaca.
Assim, em 2026, A Catraia volta a navegar, levando informação à sociedade acreana, formando novos profissionais e acompanhando o fluxo do Rio Acre, como sempre foi: em movimento!
Por Maria Niélia Magalhães, Sérgio Corrêia e Gabriela Queiroz
Das cartas que cruzaram continentes aos aplicativos de mensagens instantâneas, a transição da escrita manual para a digital reflete mais do que uma evolução tecnológica — revela uma transformação profunda em como nos comunicamos, aprendemos e até mesmo como processamos informações. Enquanto especialistas debatem os impactos cognitivos e culturais dessa mudança, neurologistas, educadores e alunos avaliam os prós e contras de cada meio.
“Quando o aluno escreve à mão, ele pensa melhor no que está registrando, organiza o que é mais importante”, afirma a professora Cyndi de Oliveira Moura, 29 anos, formada em Letras pela Universidade Federal do Acre – Ufac e docente de Língua Portuguesa no ensino fundamental. Ela observa no dia a dia os efeitos da escrita manual: “alunos que anotam no caderno conseguem relembrar mais facilmente aquilo que foi explicado em sala.”
Ela destaca que a caligrafia também está ligada à criatividade, pois exige atenção e paciência. Mas nota que os estudantes atuais enfrentam dificuldades: “Eles são impacientes e querem escrever tão rápido quanto pensam. A escrita exige paciência e reflexão, mas o uso excessivo das telas acelera demais o pensamento.”
Apesar disso, a professora não vê a tecnologia como inimiga, e sim como ferramenta que precisa ser equilibrada com a escrita manual: “Os recursos digitais ampliam possibilidades, mas sem criticidade se limitam a cópias rápidas e informações superficiais. O ideal é equilibrar os dois mundos: o papel ajuda a refletir, enquanto a tecnologia prepara para o século XXI.”
Foto: Gabriela Queiroz
O advento da tecnologia digital transformou profundamente a maneira como registramos e comunicamos ideias. Se por um lado a digitação se tornou predominante pela sua praticidade e velocidade, por outro, a escrita manual resiste como prática fundamental – não por nostalgia, mas por seu impacto comprovado na cognição e no desenvolvimento cerebral.
A voz do estudante
Para Letícia Kelly, aluna do 2º ano do ensino médio de uma escola pública em Rio Branco, a escrita à mão continua sendo indispensável no seu processo de aprendizagem. “Eu prefiro escrever no caderno, porque fazer anotações melhora minha memória. Quando escrevo no celular, não consigo guardar tanto na mente”, afirma.
Elaborar pequenos textos e mapas mentais no papel facilita a memorização de detalhes importantes, segundo Kelly. “Infelizmente, as pessoas estão abandonando a escrita à mão, e isso é muito ruim, pois terão uma memória mais curta. Eu não consigo parar de escrever à mão, porque me ajuda a memorizar as coisas”, completa a estudante.
Atividade da aluna do 2º ano do Ensino Médio, Letícia Kelly. Foto: Maria Niélia
Não se trata de idealizar o passado ou desconsiderar os avanços tecnológicos. Afinal, todos nós aproveitamos a agilidade das mensagens instantâneas para nos conectar com quem está longe. No entanto, especialistas alertam: a caligrafia ativa regiões do cérebro relacionadas à memória e à criatividade de um modo que o teclado não consegue replicar.
Cenário Internacional
Pesquisas recentes confirmam que a escrita manual continua exercendo um papel fundamental no aprendizado. Um estudo norueguês, citado pela DW Brasil na reportagemEscrever à mão ajuda no aprendizado, aponta estudo, mostrou que escrever manualmente aumenta a atividade cerebral justamente nas regiões ligadas à memória e ao processamento motor e visual, favorecendo uma compreensão mais profunda e duradoura do conteúdo.
Já a BBC Brasil, emComo escrita à mão beneficia o cérebro e ganha nova chance em escolas, destaca a visão da neurocientista Claudia Aguirre, que afirma que escrever em cursivo, especialmente em comparação com digitar, ativa caminhos neurais específicos que otimizam o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem.
A Finlândia, país reconhecido por seu sistema educacional inovador, retirou a caligrafia do currículo obrigatório em 2016, priorizando o ensino de digitação (The Guardian, 2015). Nos Estados Unidos, discussões semelhantes ganharam força nos últimos anos. Essas mudanças, no entanto, não ocorrem sem controvérsias.
À medida que escolas e estudantes se adaptam às demandas de um mundo digital, pesquisadores seguem investigando como equilibrar tradição e inovação. Por um lado, alguns educadores defendem a adaptação aos novos tempos, por outro, especialistas em neurociência e desenvolvimento cognitivo alertam para as perdas associadas à diminuição da escrita manual.
O melhor de ambos
Enquanto isso, a ciência segue confirmando: escrever à mão é muito mais que um gesto cultural – é uma ferramenta poderosa para moldar o cérebro e expandir as fronteiras do pensamento. A pergunta que permanece não é apenas sobre qual método de escrita é mais eficiente, mas como podemos integrar o melhor de ambos para promover uma aprendizagem mais rica e significativa.
Não se trata, portanto, de uma disputa entre o antigo e o moderno, mas de reconhecer que ambas as formas de escrita — a manual e a digital — podem coexistir e se complementar. Como bem ilustram a professora Cyndi e a estudante Letícia, escrever à mão continua a ser um exercício de paciência, reflexão capaz de transformar informação em conhecimento.
No fim, o que importa é lembrar: escrever não é apenas registrar palavras — é processar ideias, construir sentidos e, acima de tudo, permanecer humano em um mundo em constante transformação.