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Curso de Jornalismo da Ufac realiza alinhamento para debate com candidatos à prefeitura de Rio Branco

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Por Felipe Souza

Estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac) se reuniram com os representantes dos quatro candidatos à prefeitura de Rio Branco, nesta quinta-feira, 15, para o alinhamento das regras do primeiro debate eleitoral promovido pelo curso, que acontece no dia 20 de setembro, com transmissão ao vivo pelo canal ‘Laboratório Jornalismo Ufac’, a partir das 20h.

Estiveram presentes todos os representantes dos candidatos pela disputa à prefeitura da capital acreana. Os assessores Gustavo Franco, Andréia Oliveira Forneck, Lailla Cândido e Ton Lindoso representam, respectivamente, Jenilson Leite (PSB), Marcus Alexandre (MDB), Emerson Jarude (Novo) e Tião Bocalom (PL).

Com mediação do professor da disciplina de Telejornalismo, Paulo Santiago, na reunião foram apresentadas as regras gerais, instruções e formato para a execução do debate político. Ao final, os representantes assinaram o documento de aceite às regras e a ata da reunião.

Foto: Arinelson Morais

Além da presença de Santiago, o momento também contou com o coordenador do curso de Jornalismo da Ufac, professor Luan Santos, e as estudantes Tácila Matos e Maria de Fátima Brito, que compõem a coordenação geral do debate eleitoral organizado pelos acadêmicos.

“Os estudantes são fundamentais nesse processo, porque aqui na Ufac eu acho que deve ter em torno de 10 mil estudantes, então vocês propiciarem um ambiente onde os estudantes vão poder conhecer as propostas dos candidatos é fundamental. Quero parabenizar o curso de Jornalismo pela iniciativa de realizar um debate dessa grandiosidade”, pontua a representante de Marcus Alexandre, Andréia Oliveira.

O responsável pela campanha de Tião Bocalom, Ton Lindoso, destaca que numa sociedade democrática, é essencial que todos os candidatos possam participar de etapas importantes como essa. “O debate é uma espécie de vitrine, onde cada candidato é apreciado. Apresenta suas propostas, se mostra para a sociedade, e a população, como um todo, tem a oportunidade de saber mais sobre as propostas”, ressalta Lindoso.

Para Lailla Cândido, representante de Emerson Jarude, o evento, além de colaborar com a formação dos acadêmicos de Jornalismo, será um espaço democrático para os candidatos apresentarem as suas plataformas de governo à academia e à sociedade. “Os estudantes são muito importantes dentro de uma eleição. São pessoas que estão no nosso futuro. A educação é a base da nossa sociedade”, disse Cândido.

O representante político e de comunicação de Jenilson Leite, Gustavo Franco, acredita que o poder dos jovens na política é muito decisivo em uma votação. “A gente costuma falar em nossas reuniões que os jovens têm um papel fundamental, inclusive, dentro de suas próprias residências e suas próprias famílias. […] Acho que todos têm que conhecer as propostas para poder escolher melhor os seus candidatos”, conclui Franco.

Redação

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Amor pelo crochê: estudante acreana conquista próprio negócio e garante permanência na universidade

Ao apostar em uma arte milenar que se tornou tendência de moda no Brasil, Kawanny Santos encontrou uma nova fonte de renda

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Por Felipe Souza

Arte milenar de origem incerta, o crochê atravessou séculos, culturas e continentes até se consolidar como uma das principais tendências da moda em 2025. A técnica artesanal carrega histórias, tradições e conhecimentos transmitidos de geração em geração, tornando-se um verdadeiro patrimônio da moda brasileira e da identidade cultural do país.

Embora não haja consenso sobre o surgimento do crochê, historiadores apontam que a prática acompanha a humanidade há milhares de anos. Uma das teorias mais aceitas indica que a técnica, em formato semelhante ao conhecido atualmente, teve origem na Arábia, no Oriente Médio, por volta do século XVI, espalhando-se pelo mundo por meio das rotas comerciais do Mediterrâneo até alcançar diferentes povos e culturas.

No Acre, essa arte manual tem ganhado um significado ainda mais especial. O crochê se tornou uma importante fonte de renda para centenas de mulheres que encontraram no artesanato uma oportunidade de empreender e conquistar independência financeira.

Entre elas está Kawanny Santos, de 20 anos. Apaixonada pelo crochê desde a infância, a jovem transformou a habilidade aprendida ainda na adolescência em um negócio próprio. Hoje, a produção e venda das peças artesanais ajudam a custear seus estudos e representam uma ferramenta importante para a realização do sonho de concluir uma graduação.

Kawanny Santos transformou paixão pelo crochê em renda própria. Foto: cedida

Estudante de Psicologia na Universidade Federal do Acre (Ufac), Kawanny explica que, na infância, observava a mãe, artista, fazer crochê, costurar e pintar. Durante a pandemia de Covid-19, a então adolescente decidiu se arriscar e aprender a técnica, dando os primeiros passos no artesanato.

“Era só um hobby, mas ele se misturou à vontade que eu tinha de produzir roupas. Desde criança, eu desenhava. Imaginava que iria aprender a costurar, mas acabei aprendendo crochê e comecei a desenhar e produzir minhas próprias peças. Foi uma mistura de tudo. Tinha 14 anos quando comecei”, contou.

Vestidos, biquínis, blusas, tops e croppeds estão entre as peças confeccionadas por Kawanny em sua marca, a Cacau Crochê. Cada criação é produzida de forma artesanal e personalizada, com modelos desenvolvidos sob encomenda e adaptados às preferências e estilo de cada cliente. Para a empreendedora, o objetivo é oferecer peças únicas.

Na loja Cacau Crochê, Kawanny produz peças diversas. Foto: cedida

“Depende do que a cliente me pede. Isso é algo muito legal, porque, na minha loja, normalmente desenvolvo as peças junto com a cliente. Ela me envia várias referências e, juntas, vamos criando algo único”, afirmou.

Empreender e estudar

Conciliar trabalho e estudos faz parte da rotina de milhares de mulheres brasileiras que buscam na educação uma oportunidade de transformar suas vidas. Diante dos desafios financeiros e da necessidade de custear despesas pessoais, muitas estudantes encontram no empreendedorismo uma alternativa para garantir renda sem abrir mão da formação acadêmica.

Kawanny Santos é uma delas. A estudante precisou transformar o que antes era apenas um hobby em uma fonte de renda. Como o curso de Psicologia na Ufac é ofertado em período integral, a jovem encontrou no crochê uma forma de garantir sua permanência na universidade e arcar com os custos da graduação.

“Minha faculdade é integral e estou naquela fase em que tudo está ficando mais complexo. O crochê, para mim, é uma fonte de renda. As vendas praticamente têm me sustentado durante a faculdade, porque eu não recebo bolsa de incentivo”, salientou.

Peças são vendidas principalmente para outras estudantes da Ufac. Foto: cedida

Kawanny revela ainda que as dificuldades financeiras e a carga intensa do curso já a fizeram cogitar interromper a formação para trabalhar. “Quando comecei a fazer crochê, era apenas um dinheiro extra, mas hoje ele é o que me permite permanecer na faculdade. É a minha autonomia financeira até que eu possa me formar.”

Conforme enfatiza, ela aproveita cada momento livre para produzir suas peças. Entre uma aula e outra, durante os trajetos de ônibus e até no horário de almoço, o crochê está presente em sua rotina diária, dividindo espaço com as demandas da graduação.

Todas as peças produzidas por Kawanny são feitas sob medida. Foto: cedida

Artesanato como refúgio

A relação entre arte e saúde mental ganhou destaque no Brasil graças ao trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira. Reconhecida por revolucionar o tratamento psiquiátrico no país, ela rompeu com práticas consideradas agressivas à época e passou a utilizar atividades artísticas como forma de expressão e cuidado dos pacientes.

Por ser da área da psicologia, Kawanny Santos enxerga essa conexão entre arte e saúde mental também em sua própria trajetória. Entre linhas, agulhas e pontos, a artesã encontrou uma forma de aliviar a ansiedade, organizar os pensamentos e lidar com os desafios do dia a dia, transformando o artesanato em um verdadeiro refúgio emocional.

Estudante de Psicologia, Kawanny destaca importância do crochê para sua caminhada acadêmica. Foto: cedida

“O crochê é algo que realmente acalma. É uma terapia. Mesmo que não me proporcionasse retorno financeiro, ele traz diversos outros benefícios, estimula a criatividade e faz a mente trabalhar. Como futura psicóloga, reconheço a importância da arte e gostaria de ensinar outras pessoas a trabalhar com isso”, ponderou.

Kawanny também ressaltou que, mesmo após concluir a graduação, pretende continuar se dedicando à produção de peças em crochê. “Acredito que estará presente na minha vida para sempre. Provavelmente será algo desafiador, mas, se eu puder, vou continuar e tentar conciliar as duas atividades.”

Fazer arte com as mãos é um dos refúgios da estudante. Foto: cedida

Mulheres que fortalecem mulheres

No universo do empreendedorismo feminino, o apoio entre mulheres tem se consolidado como uma ferramenta essencial para o fortalecimento de negócios e para a superação de desafios comuns enfrentados pelas empreendedoras. Essa união se manifesta de diferentes formas, seja por meio da indicação de serviços, da divulgação de produtos e da troca de conhecimentos.

Porém, a decisão de consumir produtos e contratar serviços de outras mulheres também desempenha um papel fundamental no apoio a esses negócios. Cada compra representa um incentivo direto para que possam ampliar suas atividades e gerar renda.

A jornalista Emilly Souza está entre as consumidoras que fazem questão de apoiar o empreendedorismo feito por mãos femininas, priorizando peças e criações desenvolvidas por mulheres. Apaixonada por moda e sempre atenta às tendências, ela destaca que valoriza a exclusividade e a identidade presentes em produtos feitos à mão.

“É único. Então, valorizo essa exclusividade de algo pensado para você e feito sob medida, além da qualidade e da dedicação das artesãs ao manusearem e produzirem uma peça linda”, afirmou a jornalista.

Emilly Souza tende a preferir sempre comprar de artesãs mulheres e locais. Foto: cedida

Emilly salienta ainda que admira o artesanato desde a infância, já que o crochê sempre esteve presente em sua vida por influência da tia, que produzia peças decorativas, como conjuntos para banheiro e tapetes para a casa.

“Nos meus 15 anos, ela me deu um tapete bem grande, com vários tons de rosa e roxo, que tenho até hoje. Como sempre achei o crochê muito bonito e delicado, adoro usar roupas e acessórios feitos com esse material. Considero um diferencial de estilo nos looks”, contou Emilly.

A jornalista complementa afirmando que faz questão de valorizar o trabalho e a dedicação dessas artesãs, pois reconhece o cuidado empregado em cada peça e a durabilidade dos produtos feitos à mãos.

Durante um mochilão pela Tailândia, em 2025, Emilly priorizou peças mais leves e confortáveis devido ao clima quente do país. Para compor os looks da viagem, ela apostou não apenas em roupas de crochê, mas também em acessórios que fizeram a diferença nas produções.

“Eu precisava levar poucas peças de roupa e pensei no crochê como um elemento que faria total diferença em um look mais básico. Os acessórios seriam o destaque e, além disso, combinam super com o clima de verão, por serem mais frescos”, frisou.

Para sua viagem à Tailândia, a jornalista optou levra peças de crochê produzidas no Acre. Foto: cedida

Empreendedorismo feminino do Acre

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que, no Acre, o número de mulheres à frente de negócios corresponde a cerca de 25% do total de empreendedores, uma das maiores proporções da Região Norte. O dado demonstra que, cada vez mais, elas têm buscado no próprio negócio uma forma de gerar renda e realizar sonhos.

Segundo Kethleen Diniz, gestora do programa Sebrae Delas, muitas começaram empreender por necessidade, mas hoje também enxergam como oportunidade de crescimento e protagonismo, principalmente nas áreas de beleza, alimentação, artesanato, moda e serviços digitais.

“Cada mulher que empreende gera renda em casa e fortalece não só a própria família, mas também movimenta a economia local e inspira outras mulheres. O Sebrae acompanha esse cenário de perto e entende que apoiar essas empreendedoras é investir no futuro”, declarou a gestora.

Progama Sebrae Delas fortalece o empreendedorismo feminino. Foto: cedida

O perfil das mulheres que empreendem no Acre é bastante diverso. De acordo com o Sebrae, há uma presença cada vez mais forte de empreendedoras que ingressam no mercado com uma visão inovadora, atentas às novas tendências e às oportunidades oferecidas pelo ambiente digital.

“O crescimento entre as jovens é cada vez mais visível. Muitas já começam cedo, usando as redes sociais, criando marcas próprias e transformando hobbies e talentos em fonte de renda. É um movimento que mostra mais protagonismo, criatividade e confiança das mulheres no ambiente de negócios”, ressaltou Kethleen.

“É só acreditar que dá certo”

Assim como milhares de estudantes da Universidade Federal do Acre, Kawanny Santos precisou se reinventar para garantir sua permanência no ensino superior. Diante dos desafios e da rotina intensa da graduação, a jovem transformou uma paixão em fonte de renda capaz de sustentar seus estudos.

Empreendedora deixa recado para jovens que pensam em abrir o própio negócio. Foto: cedida

Hoje, ao olhar para a própria trajetória, ela acredita que o empreendedorismo pode abrir caminhos para outras mulheres e deixa uma mensagem de incentivo para aquelas que sonham em iniciar o próprio negócio, mas ainda não encontraram coragem para dar o primeiro passo.

“Eu também já fui uma jovem que, no início da faculdade, pensou em trancar o curso. Empreender é muito incerto, mas, quando colocamos a nossa identidade no que fazemos, as coisas tendem a funcionar. Estamos em um momento em que as mulheres precisam ter autonomia financeira. É importante que nós, especialmente as mulheres LGBTQIAPN+, busquemos nossa independência e não fiquemos em situação de vulnerabilidade. É só acreditar que dá certo”, finalizou.

Redação

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ESTAMOS DE VOLTA

A Catraia celebra 21 anos e resgata memórias de ex-integrantes

O jornal A Catraia conversou com a ex-estudante de jornalismo, Adrielle Farias, que atua como repórter do jornal Estadão em São Paulo

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Por Danniely Avilis e Isabelle Magalhães 

Ao completar 21 anos de existência, A Catraia entra em um ano especial, que retoma a própria história por meio de relato da ex-integrante. A proposta é revisitar memórias, experiências acadêmicas e trajetórias profissionais que começaram ainda na graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Mais do que relembrar capas ou reportagens antigas, a equipe da A Catraia conversou com Adrielle Farias sobre o período em que era estudante e os primeiros passos na profissão. Adrielle que atuou como editora-chefe do jornal em 2018, ano que define como um dos mais intensos da formação acadêmica.

Foto: Instagram @adriellefarias

Escolha profissional e descoberta no curso

A decisão de cursar Jornalismo não foi imediata. Ainda na escola, Adrielle dividia interesses entre áreas criativas como audiovisual, escrita e comunicação.

“A gente nunca entra na faculdade totalmente sem dúvida, né? Eu gostava de muitas coisas”, afirma Adrielle.

Sem conhecer profundamente o curso da Ufac, ela se inscreveu e, somente após o ingresso, passou a pesquisar sobre professores, disciplinas e possibilidades profissionais. A identificação com a área ocorreu já durante a graduação.

“Eu só entendi que era aquilo que eu queria quando comecei a estudar, ver as matérias. Eu ficava ansiosa para acompanhar a grade curricular”, conta a jornalista.

“Meu pai sempre dizia que eu agarro o mundo com as pernas. Eu queria participar de tudo”, diz Adrielle Farias. Foto: cedida

Rotina intensa e desafios

Durante o curso, a participação nas disciplinas não foi suficiente. Adrielle também esteve envolvida em mostras acadêmicas, eventos e projetos extracurriculares, tendo A Catraia como principal espaço de atuação.

O fato de o curso ser noturno possibilitava trabalhar e estagiar durante o dia, realidade compartilhada por muitos estudantes. A conciliação das atividades, no entanto, trouxe desafios.

A sobrecarga resultou em ansiedade e na necessidade de aprender a administrar o tempo, habilidade que, segundo ela, não costuma aparecer formalmente na grade curricular. Ainda assim, considera que foi nesse período de intensidade que surgiram aprendizados decisivos.

Entre as experiências no jornal, uma reportagem sobre cinema ganhou destaque na trajetória profissional de Adrielle. O tema, que sempre esteve entre seus interesses pessoais, acabou influenciando também a escolha do Trabalho de Conclusão de Curso.

“Eu fui falar sobre cinema, que sempre foi algo de que eu gostei muito e ainda gosto. Inclusive, acho que isso acabou influenciando um pouco a escolha do meu TCC. Eu também usava isso como portfólio, para mostrar meu trabalho; quando me inscrevi para o treininho do Estadão, por exemplo, utilizei esse material como parte do portfólio”, conta a profissional.

Segundo ela, a experiência no jornal contribuiu para a conquista do atual emprego como repórter no Estadão.

Participação de Adrielle Faria no Intercom. Foto: cedida

Trabalho em equipe

Ao relembrar a atuação como editora-chefe, Adrielle destaca o papel do trabalho coletivo no exercício da profissão e orienta como dica para futuros jornalistas que ainda não atuam na profissão.

“O trabalho em equipe é essencial no jornalismo, porque ninguém faz um jornal sozinho. Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito, saber se comunicar e manter o diálogo, para que todos trabalhem pelo mesmo objetivo sem conflitos”, finaliza Adrielle.

“Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito”, afirma a profissional. Foto: cedida

Redação

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Especiais

Rio cheio e políticas vazias

Mudanças climáticas, cheias históricas e a fragilidade das políticas públicas que agravam a situação do Rio Acre

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Por Aniely Cordeiro e Maria Eduarda Ruiz

O Rio Acre, que nasce no Peru e atravessa municípios acreanos de Assis Brasil, Brasileia, Epitaciolândia, Xapuri, Rio Branco, Capixaba, Senador Guiomard e Porto Acre, é um dos principais responsáveis pelo abastecimento e pelo sustento de milhares de famílias no estado. No entanto, ao longo dos últimos anos, o manancial tem enfrentado transformações profundas, impulsionadas pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela fragilidade das políticas públicas ambientais.

Essas mudanças se refletem tanto nos períodos de cheia quanto nos de seca extrema, que têm se tornado cada vez mais frequentes, afetando diretamente comunidades ribeirinhas e bairros urbanos situados em áreas de risco da capital acreana

Segundo Victor Manoel, do Comitê Chico Mendes, Rio Branco possui um plano de contingência estruturado contra enchentes, algo inexistente até mesmo nas maiores capitais do país brasileiras. Ainda assim, o problema persiste.

“Rio Branco tem um plano de contingência contra enchentes. Esse estudo já foi feito. O que falta, na verdade, é prioridade. Falta uma leitura do material que já existe. A gente vive em um mandato político onde se prioriza muito mais a infraestrutura urbana”, avalia.

Manoel explica que, embora o poder público não tenha controle sobre o clima ou as chuvas, é responsável por não desenvolver ações que reduzem o impacto das cheias. “A prefeitura não controla a chuva nem as mudanças climáticas, mas é totalmente responsável por políticas públicas que mitiguem os impactos dessas mudanças na população e na própria máquina estatal”, completa.

Cheias atípicas e extremos cada vez mais frequentes

Em dezembro de 2025, o Rio Acre registrou uma cheia considerada atípica. De acordo com a Defesa Civil Municipal, foram acumulados 561,6 milímetros de chuva, o que representa 97% acima do esperado para todo o mês, um volume que não era observado havia pelo menos uma década.

O coordenador municipal da Defesa Civil, coronel Cláudio Falcão, explica que o comportamento do rio é marcado por variações extremas de vazão

“Quando o Rio Acre está abaixo de 11 metros, a vazão chega a cerca de 1 milhão e 100 mil litros de água por segundo. No outro extremo, essa vazão pode cair para cerca de 25 mil litros por segundo. A diferença é muito grande”, explica.

Foto: cedida.

Segundo ele, parte desse comportamento se deve às características naturais do rio. “O Rio Acre é um rio novo, ainda em formação, e por isso muda o curso de vez em quando”, afirma.

Desmatamento e perda da mata ciliar agravam o problema

Além das características naturais, questões ambientais agravam a situação. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicado no site InfoAmazonia aponta que o Rio Acre perdeu cerca de 40% da sua mata ciliar ao longo de 55 anos, equivalente a aproximadamente 4,5 mil hectares de vegetação nativa degradada, de um total original estimado em 11,6 mil hectares.

A mata ciliar é fundamental para a regulação do rio por ajudar a conter a erosão das margens, reduz o assoreamento e permite que a água seja absorvida e liberada gradualmente.

“Ao longo do Rio Acre há muito assoreamento e desmatamento das margens. Com isso, o rio não consegue manter o nível da mesma maneira. Quando a água chega, chega de uma vez só”, explica o coronel Falcão.

Ele destaca o papel da floresta na regulação dos extremos hídrico: “A floresta segura a água no período de cheia e vai soltando aos poucos durante a seca. Além disso, evita o desbarrancamento e o aceleramento do rio. Se tivéssemos a floresta preservada ao longo do rio, não teríamos extremos tão intensos”, afirma

A vida em áreas vulneráveis: relatos de quem convive com o rio

No bairro Cidade Nova, em Rio Branco, as moradoras Vitória Yasmin, de 23 anos, e Alderina Costa, de 65, relatam as dificuldades enfrentadas durante os períodos de cheia do Rio Acre, fenômeno que se repete ano após ano e afeta diretamente a rotina de quem vive em áreas consideradas vulneráveis.

“Quando começa a encher, a gente já levanta tudo. A água é contaminada por causa do esgoto. Eu preciso ir para a casa da minha avó. Em 2015, a água chegou a subir pela parede”, conta Vitória.

Alderina relembra que, diante da recorrência das enchentes, a família precisou investir por conta própria para reduzir os riscos. Sem apoio financeiro do poder público, a solução encontrada foi adaptar a própria estrutura da casa.

“A água entrou bem aqui. Em 2015, na época, não tinha esse apartamento alto. Então a gente fez um segundo andar para ficar lá em cima quando alaga”, relata.

Segundo Alderina, a decisão de construir um segundo pavimento veio do desejo de permanecer no local onde sempre viveu. Para ela, sair da própria moradia e ser levada para abrigos distantes é uma alternativa que muitos moradores não querem enfrentar. Destaca, ainda, que não vê possibilidade de deixar a casa, pois não teria para onde ir: “Se eu pedir 100 mil, aqui na minha casa, eu não vendo. Entendeu? E se eu pedir menos de 50 mil, eu vou comprar outra onde?”, questiona.

Ela defende que o governo ofereça apoio financeiro para que as famílias possam adaptar suas casas com segurança, evitando o deslocamento forçado durante as cheias. Para Alderina, a permanência no território também representa dignidade, pertencimento e menor desgaste emocional.

As adaptações feitas pelas famílias evidenciam como a responsabilidade de lidar com os impactos das cheias acaba sendo transferida do poder público para os próprios moradores. Embora existam políticas públicas voltadas à prevenção de desastres, ainda há um hiato significativo entre o que está previsto no papel e o que, de fato, é executado.

Além disso, moradores que vivem em áreas de risco defendem que as soluções não se limitem apenas à retirada compulsória das famílias de suas casas. Para eles, é fundamental que haja diálogo, escuta e participação das comunidades diretamente afetadas, por meio de audiências públicas e espaços de debate que considerem suas realidades e necessidades. Essas populações não são culpadas pelos desastres recorrentes e precisam ser incluídas na construção das soluções.

As estratégias adotadas por famílias como a de Alderina revelam não apenas a precariedade das políticas habitacionais em áreas vulneráveis, mas também a criatividade, a resistência e a determinação de quem convive há décadas com o avanço das águas.

Diante da ausência de respostas efetivas, são os próprios moradores que buscam alternativas para proteger suas famílias e preservar o vínculo com o território onde construíram suas histórias.

Apesar do cenário preocupante, existem iniciativas públicas voltadas à prevenção e à recuperação ambiental. Em Rio Branco, foi instituído o Plano Municipal de Prevenção e Combate às Enchentes, que prevê ações como o mapeamento de áreas de risco, recuperação de áreas degradadas, melhorias na drenagem urbana e educação ambiental. No entanto, grande parte dessas medidas ainda depende de orçamento, continuidade administrativa e prioridade política.

No campo ambiental, o Governo do Acre e a Prefeitura de Rio Branco firmaram um acordo de cooperação técnica para fortalecer ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas. Em 2025, por exemplo, mais de 400 mudas de espécies nativas foram plantadas em áreas de preservação permanente às margens do Rio Acre, como tentativa de conter a erosão do solo.

O estado também conta com iniciativas como o Viveiro da Floresta, em Rio Branco, responsável pela produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas e de matas ciliares em diferentes regiões do Acre. Apesar disso, estudos científicos, avaliam que as ações ainda avançam em ritmo lento diante da dimensão do problema e da frequência cada vez maior das cheias.

Limites orçamentários e desafios estruturais

De acordo com o coronel Falcão, outro entrave importante é a limitação de recursos e a complexidade das soluções necessárias.

“Não existe solução simples. Algumas ações envolvem diplomacia entre países, porque o rio nasce no Peru, e outras dependem de recursos que a Defesa Civil não tem para atender todos os problemas ao mesmo tempo”, afirma.

Ele explica que mudanças estruturais no comportamento do rio demandam tempo. “Nada pode ser mudado em menos de 10 anos. Qualquer ação que a gente faça agora não muda o cenário do Rio Acre em curto prazo”, ressalta.

O futuro do Rio Acre

O coordenador da Defesa Civil alerta ainda para projeções preocupantes. Segundo ele, o climatólogo Carlos Nobre prevê um cenário crítico para o Rio Acre até 2032, caso o modelo atual de ocupação e degradação ambiental continue.

“A gente pode enfrentar uma seca tão severa que o rio pode praticamente parar de correr, como diziam nossos antepassados”, alerta.

O problema é recorrente, que se repete ano após ano, a situação do Rio Acre evidencia que, mais do que planos e ações emergenciais, são necessárias políticas públicas transparentes, contínuas e preventivas, capazes de articular preservação ambiental, planejamento urbano e proteção social. Sem isso, moradores continuarão convivendo com cheias, secas e a incerteza de um rio cada vez mais imprevisível.

Redação

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