Corriqueiras
Enfrentamento do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação do Acre durante pandemia do Covid 19
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Por Gercineide Maia
Durante a pandemia do Covid 19 o Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) de Rio Branco-Acre se adapta para realizar o Atendimento Educacional Especializado (AEE) aos alunos da educação básica
O Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação do Acre (NAAS/H-AC), implementado em 2006 pelo Programa do Ministério de Educação (MEC), mesmo com o isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, se adapta à nova realidade e busca alternativas para realizar identificação e acompanhamento pedagógico aos alunos matriculados na educação básica.
De acordo com o Censo Escolar de 2020, há mais de 24 mil alunos matriculados com altas habilidades/superdotação na educação especial, um índice bem menor do que o estimado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que varia de 5% a 8% da população que poderia ser identificada, quando talentos são desperdiçados e/ou ignorados na sociedade.
Em entrevista, a técnica de enfermagem Elivânia Gonçalves, 45 anos, mãe do estudante Seillor Sanatiel, 10 anos de idade, identificado com superdotação, conta que seu filho desde pequeno já apresentava inteligência acima da média e quando procurou a Secretaria municipal de educação de Rio Branco-AC, não foi ouvida. “Na época, eu fiquei muito chateada porque eu quis me fazer ouvir, eu quis falar na escola, fui à secretaria e eles não deram atenção, disseram que iam mandar uma equipe e nunca mandaram”, declara.

Gonçalves relata que poderia estar equivocada, mas sentiu muitas vezes que as pessoas não deram muita atenção pelo fato do menino ser filho de uma técnica de enfermagem pobre e negra, que pensava em saber alguma coisa. “Eles achavam que era entusiasmo de mãe e não era, infelizmente as pessoas querem ver para crer, não pararam para me ouvir e constatar, a prova é tanto que eu queria muito que acontecesse o processo de aceleração dele na escola, mas não foi possível e só entreguei nas mãos de Deus”, relata a mãe.
“Em nenhum momento me conformei com o ocorrido e nem com a série em que meu filho foi matriculado, principalmente, quando ele começou a estudar o ensino fundamental, pois já era um autodidata, inclusive aprendeu a ler sozinho”, esclarece a técnica de enfermagem.
Segundo Gonçalves, em 2019 tudo começou a mudar quando conheceu o NAAS/H Acre, por indicação de uma professora. “Fomos bem recebidos e desde então começou o processo de investigação, um estudo que resultou em um parecer favorável em que meu filho tem superdotação”, revela com muita alegria.
Vinculado a Divisão da Educação Especial da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes – (SEE/AC), o NAAH/S, localizado em Rio Branco-AC, já identificou desde a sua implantação mais de 600 estudantes com altas habilidades/superdotação, no ano letivo de 2021, por exemplo, atendeu 136 estudantes, afirma Taís Galdino chefe do NAAH/S -AC.
De acordo com Taís Galdino, este núcleo tem por finalidade promover políticas de educação inclusiva e o atendimento às necessidades educacionais específicas dos alunos com altas habilidades e superdotação na educação básica do estado, sendo uma referência para a comunidade educacional e para todos os municípios, principalmente no que se refere ao serviço de Atendimento Educacional Especializado (AEE) para estes estudantes.
Para atender aos alunos com essas características, o NAAS/H-AC atualmente está organizado em sua sede própria com o Atendimento Educacional Especializado em interface com às escolas e conta com o trabalho de professores de áreas específicas como Matemática, Língua Portuguesa, Ciência da Natureza, Química, Música, Artes Visuais. Além desses profissionais, “o núcleo dispõe de docentes que integram a área pedagógica, de professores que realizam formação/capacitação, elaboram e analisam o material didático específico para atendimento e acompanhamento dos estudantes”, informa a chefe do NAAS/H-AC.
Na realidade, o NAAH/S Acre é o único setor de educação do Estado que realiza o serviço de AEE em contraturno do ensino regular específico para investigação/identificação e acompanhamento pedagógico de alunos com características de altas habilidades/superdotação (AH/SD), de forma multidisciplinar e especializada em salas de recurso multifuncional específico no atendimento dos estudantes com AH/SD no prédio do referido núcleo, sendo um trabalho em conjunto com as escolas e as famílias que encontram no NAAH/S um atendimento voltado diretamente para esses alunos público-alvo da educação especial, assegura.
Desafios enfrentados
Tanto o ensino remoto quanto o ensino híbrido trazem grandes desafios para às escolas e para os núcleos de altas habilidades/superdotação. “O trabalho nesse período de afastamento social se apresentou de forma desafiadora em muitos aspectos e refletiu em todas as áreas na equipe do NAAS/H-AC e, consequentemente, nos alunos e suas famílias, que precisaram adaptar-se à nova realidade”, declara Taís Galdino, chefe do núcleo.
Diante disso, a equipe do núcleo procurou amenizar os impactos do distanciamento social propondo novas estratégias de atendimento. “Dentre essas estratégias, estão as oficinas de enriquecimento curricular de forma remota por área de interesse, o que estimulou mais a participação dos estudantes, bem como possibilitou realizar o agrupamento de estudantes por áreas afins, a troca de conhecimento e novas aprendizagens”, ressalta Galdino.
“Sob orientação da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes (SEE), em meados de outubro de 2021, o NAAS/H passa também a realizar o acompanhamento pedagógico de seus alunos forma híbrida”, explica.
Segundo Jeane Machado, professora de elaboração e análise de material didático específico para o atendimento e acompanhamento dos alunos e apoio aos professores de AEE do NAAH/S, com a pandemia da covid 19, o núcleo de atividades teve que se adequar ao atendimento processo de identificação e avaliação com os alunos para esse novo formato.
“O ensino remoto é mantido para atender boa parte dos alunos que optou, por uma série de motivos, por esse atendimento através de plataformas digitais, que chega também aos municípios e o ensino no modelo híbrido que contempla uma outra parcela de alunos que são acompanhados diretamente no núcleo”, ressalta.
Marcia Helena Leão, professora do Atendimento Educacional Especializado para Altas Habilidades/Superdotação, disse que nesse período todos tiveram que adquirir novas competências para darem continuidade ao atendimento dos alunos. “Não foi algo fácil, porém, hoje vemos a importância do atendimento, mesmo que remoto, aos nossos alunos com AH/SD”, acrescenta a professora.
“Iniciamos com a adequação dos nossos instrumentos de triagem e avaliação, que foram transformados em material digital. Desde a indicação, matrícula e atendimento, passamos a utilizar plataformas digitais para comunicação e disponibilização dos conteúdos aos alunos”, exemplifica a professora Márcia Helena Leão.
Segundo a professora, os atendimentos individuais e em grupo são agendados com a família do aluno pelo whatsApp. “Os atendimentos em grupos de enriquecimento, por exemplo, foram ofertados por meio de oficinas de curiosidades que envolveram assuntos atuais e de interesse dos alunos. Nesses atendimentos foi possível perceber a criatividade, o envolvimento com a tarefa e habilidade acima da média dos estudantes em processo de identificação”, conclui.
O domínio dos conceitos trabalhados nos módulos e uso das tecnologias da informação e comunicação empregadas durante as oficinas de curiosidades pelas crianças durante a pandemia foi o que mais chamou a atenção da professora Geciane Martins. “Os alunos trabalham com inovação, são muito observadores, questionadores, interagem bastante, são responsáveis, pontuais, capricham nas tarefas, querem mostrar o que produzem e ver o desenvolvimento deles me deixa muito feliz enquanto profissional”, declara a professora.
De acordo com a professora, “a pandemia ao passo que trouxe vários desafios também trouxe inovação e para o aluno que é autodidata foi muito benéfica, porque com o uso da tecnologia, eles voaram, se desenvolveram consideravelmente”.
Para Martins, é importante que os pais acompanhem o desenvolvimento de seus filhos para que eles se sintam seguros. Durante esse processo, disse que criou um laço, um vínculo muito grande com a família de seus alunos. “Consegui me conectar com os alunos com os pais e mães também e todos eles gostam muito de mim. Respeitando os protocolos, fui à casa deles deixar e buscar tarefas”, finaliza a professora.
Maiores dificuldades enfrentadas
A falta de acesso aos recursos tecnológicos, da necessidade de domínio das ferramentas digitais por parte dos alunos, disponibilidade de alguns estudantes devido as atividades da escola regular; problemas familiares e de saúde, devido a esse momento, ineficiência e lentidão dos meios de comunicação (rede telefônica e internet), resistência e o desânimo de alguns alunos em receber o atendimento nesse período e realizar atividades práticas à distância, foram umas das dificuldades enfrentadas pelo NAAS/H-AC nesse período de pandemia, relata Taís Galdino, chefe do núcleo.
Para Taís Galdino, apesar de todos as dificuldades, o núcleo buscou alternativas para a eficiência no trabalho, tendo consciência de que vários fatores interferem e fogem do alcance da gestão nesse período de pandemia. Um exemplo que pode ser citado é que foi realizada a impressão do material para os alunos que não tinham acesso à internet e em alguns casos ocorreu a visita na casa do estudante com os devidos cuidados, seguindo protocolos, normas de higienização e distanciamento.
Com apenas 10 anos de idade e uma desenvoltura incrível na comunicação, Seillor Sanatiel aprova o ensino híbrido. “Eu acho que o ensino híbrido foi pelo menos a salvação, porque durante o ensino virtual a essência é perdida, a gente se sente mais desmotivado”.
“Dentro da sala de aula, por exemplo, se uma criança que não quer fazer uma atividade na aula presencial, ela terá que fazer porque no próximo dia já terá aula de novo, só que na aula virtual a pessoa pode não mandar. No caso, a professora cuida de muitas coisas para poder ter tempo para encarregar-se de atividade específica de uma criança e isso faz com que a criança não se desenvolva”, analisa.
Referente ao que conseguiu produzir durante os estudos nesse período, Sanatiel ressalta que se sentiu bem em saber que enviou suas produções, ter aprendido e entendido o que a professora havia dado, o que lhe causou uma boa sensação.
Além disso, acrescenta que não teve dificuldades em realizar as atividades, pois já produzia textos, poemas e agora experimenta produzir textos em inglês para melhorar as suas habilidades.
Professora Márcia Helena Leão disse que apesar das dificuldades como o acesso à tecnologia pelos alunos em processo de identificação, dentre outros fatores, o que mais chamou a sua atenção nesse período foi a capacidade de utilização das ferramentas de mídia e informática nas áreas investigadas como o inglês, música, desenho digital, dentre outros componentes curriculares.
Como ocorre a identificação, avaliação e acompanhamento
A indicação dos estudantes para o processo de investigação das características de AH/SD pode ocorrer pela autoindicação, indicação das escolas, indicação pela família e indicação de amigos/conhecidos.
O núcleo disponibiliza um link de indicação no qual podem solicitar a investigação e o acompanhamento com esses estudantes na fase escolar (educação básica). Pela escola a indicação ocorre via ofício, a família e o estudante podem também solicitar o atendimento para o processo de identificação das características na sede do núcleo.
Formulário de Indicação para o processo de identificação em AH/SD – https://encurtador.com.br/dlrRX
Após receber a indicação a equipe do núcleo entra em contato com a família e a escola para iniciar o processo de investigação das características de AH/SD, que pode durar de seis meses a um ano ou mais.
O aluno Seillor Sanatiel, por exemplo, iniciou o processo de identificação no mês de setembro de 2019 e recebeu o parecer em agosto de 2021 na área criativa produtiva, tem domínio e amplo conhecimento em várias áreas. “Destaca-se na linguagem e comunicação, além da facilidade de aprendizagem de outras línguas, em especial, o inglês, que está aprendendo através de conversa on-line em jogos e aplicativos”, afirma a professora Márcia Helena do Atendimento Educacional Especializado do NAAS/H.
“Sanatiel quando chegou no NAAS/H já apresentava facilidade em comunicação, desenvoltura e conhecimento em várias áreas e a partir do processo de identificação ele apresentou outras características como aprendizagem rápida, facilidade de expor os conhecimentos adquiridos de forma dinâmica (divertida) e o uso da língua estrangeira (inglês)”, enfatiza.
Para o estudante Seillor, o NAAS/H-AC é uma escola só que melhor e que se tivesse que optar, escolheria estudar neste núcleo. “Em geral, ele trabalha várias habilidades que não são trabalhadas na escola em si, é mais interativo do que a escola normal e se eu fosse estudar tudo, seria melhor no NAAS/H do que na minha escola normal, sinceramente”, acrescenta.
Depois que eu descobri que tenho habilidades, eu melhorei em certas partes. No NAAS/H você passa a si valorizar e a ser valorizado, reconhece.
“É maravilhoso falar de um aluno que você identificou com altas habilidades, pois ele passou muitas vezes desapercebido na escola, e hoje você vê um potencial incrível de conhecimento que necessita apenas de incentivo, de investimento”, declara a professora Márcia Helena Leão.
O papel da família
A família exerce um papel de fundamental importância no desenvolvimento da superdotação ou talentos. “Contribui com as informações para a realização do processo de investigação das características de AH/SD, incentivando estudante a participar das atividades e acompanhamento realizado pelo núcleo, proporcionando um ambiente estimulador para o reconhecimento das dos filhos e sendo um parceiro do NAAH/S nas atividades propostas”, afirma Taís Galdino, chefe do NAAS/H-AC.
Professora Jeane Machado fala que no NAAS/H todo o processo de investigação também é feito com a família e defende o quanto é de fundamental importância que esta esteja disposta a participar. “Se não houver essa parceria, não há como acontecer o processo de investigação e isso dificulta bastante fazer a orientação do aluno também identificado”, acrescenta.
“A família é a base para tudo, por isso é importantíssimo o seu envolvimento, pois fazemos apenas uma parte de toda uma vida futura”, declara Márcia Helena.
A professora expõe que, neste período de atendimento remoto e híbrido, foi essencial a participação da família, pois todo o planejamento e execução das atividades são realizadas por meio da consulta e autorização dos responsáveis.
Existe uma parceria do NAAS/H-AC com família que se sente orientada e acolhida. “Nós nos sentimos muito acolhidos e consideramos muito importante a participação da família nesse processo e esse núcleo de altas habilidades/superdotação se tornou referência para nós”, afirma Elivânia Gonçalves.
“A professora Márcia, por exemplo, passou a ser um membro da família e o NAAS/H-AC representa uma esperança de que o nosso filho Seillor vai conquistar algo importante, porque é através desse núcleo que eu vejo as portas se abrindo para ele, se não fosse núcleo de atividades de altas habilidades/superdotação eu não saberia nem o que fazer em relação a esse conhecimento que ele tem”, declara a mãe.
Serviços ofertados
O Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação do Acre (NAAS/H-AC), oferta os seguintes serviços:
- Atendimento educacional Especializado específico aos alunos com características de AH/SD na educação básica, preferencialmente da rede pública do estado;
- Formação específica na área das AH/SD aos profissionais da educação através de cursos, palestras, oficinas;
A título de informação, no Acre, a formação inicial e continuada para os profissionais da educação básica e comunidade na área de altas habilidades/superdotação e apoio pedagógico às escolas também é ofertado pelo Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação – NAAS/H, de Cruzeiro do Sul que integra o Centro Apoio à Inclusão Said Almeida Filho.
Este núcleo atende aos municípios vizinhos como Porto Walter, Marechal Thaumaturgo, Tarauacá, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Feijó e Jordão, conforme o documento orientador do MEC e orientação da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes (SEE-AC)
Após decreto governamental o Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação retornou as atividades de forma presencial e continua com o atendimento remoto para atender os municípios do Estado. O NAAS/H-AC funciona em dois turnos, na Estrada Alberto Torres, 825, Conjunto Mariana, Rio Branco–AC/CEP: 69.919-202/TEL: 3227-2994/E-mail: naahsacre2@gmail.com
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ESTAMOS DE VOLTA
A Catraia celebra 21 anos e resgata memórias de ex-integrantes
O jornal A Catraia conversou com a ex-estudante de jornalismo, Adrielle Farias, que atua como repórter do jornal Estadão em São Paulo
Publicado há
4 dias atrásem
3 de abril de 2026por
Redação
Por Danniely Avilis e Isabelle Magalhães
Ao completar 21 anos de existência, A Catraia entra em um ano especial, que retoma a própria história por meio de relato da ex-integrante. A proposta é revisitar memórias, experiências acadêmicas e trajetórias profissionais que começaram ainda na graduação em Jornalismo da Universidade Federal do Acre (Ufac).
Mais do que relembrar capas ou reportagens antigas, a equipe da A Catraia conversou com Adrielle Farias sobre o período em que era estudante e os primeiros passos na profissão. Adrielle que atuou como editora-chefe do jornal em 2018, ano que define como um dos mais intensos da formação acadêmica.

Foto: Instagram @adriellefarias
Escolha profissional e descoberta no curso
A decisão de cursar Jornalismo não foi imediata. Ainda na escola, Adrielle dividia interesses entre áreas criativas como audiovisual, escrita e comunicação.
“A gente nunca entra na faculdade totalmente sem dúvida, né? Eu gostava de muitas coisas”, afirma Adrielle.
Sem conhecer profundamente o curso da Ufac, ela se inscreveu e, somente após o ingresso, passou a pesquisar sobre professores, disciplinas e possibilidades profissionais. A identificação com a área ocorreu já durante a graduação.
“Eu só entendi que era aquilo que eu queria quando comecei a estudar, ver as matérias. Eu ficava ansiosa para acompanhar a grade curricular”, conta a jornalista.

“Meu pai sempre dizia que eu agarro o mundo com as pernas. Eu queria participar de tudo”, diz Adrielle Farias. Foto: cedida
Rotina intensa e desafios
Durante o curso, a participação nas disciplinas não foi suficiente. Adrielle também esteve envolvida em mostras acadêmicas, eventos e projetos extracurriculares, tendo A Catraia como principal espaço de atuação.
O fato de o curso ser noturno possibilitava trabalhar e estagiar durante o dia, realidade compartilhada por muitos estudantes. A conciliação das atividades, no entanto, trouxe desafios.
A sobrecarga resultou em ansiedade e na necessidade de aprender a administrar o tempo, habilidade que, segundo ela, não costuma aparecer formalmente na grade curricular. Ainda assim, considera que foi nesse período de intensidade que surgiram aprendizados decisivos.
Entre as experiências no jornal, uma reportagem sobre cinema ganhou destaque na trajetória profissional de Adrielle. O tema, que sempre esteve entre seus interesses pessoais, acabou influenciando também a escolha do Trabalho de Conclusão de Curso.
“Eu fui falar sobre cinema, que sempre foi algo de que eu gostei muito e ainda gosto. Inclusive, acho que isso acabou influenciando um pouco a escolha do meu TCC. Eu também usava isso como portfólio, para mostrar meu trabalho; quando me inscrevi para o treininho do Estadão, por exemplo, utilizei esse material como parte do portfólio”, conta a profissional.
Segundo ela, a experiência no jornal contribuiu para a conquista do atual emprego como repórter no Estadão.

Participação de Adrielle Faria no Intercom. Foto: cedida
Trabalho em equipe
Ao relembrar a atuação como editora-chefe, Adrielle destaca o papel do trabalho coletivo no exercício da profissão e orienta como dica para futuros jornalistas que ainda não atuam na profissão.
“O trabalho em equipe é essencial no jornalismo, porque ninguém faz um jornal sozinho. Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito, saber se comunicar e manter o diálogo, para que todos trabalhem pelo mesmo objetivo sem conflitos”, finaliza Adrielle.

“Mesmo em cargos de liderança, é importante agir com respeito”, afirma a profissional. Foto: cedida
Corriqueiras
Independência financeira: um caminho de autonomia para mulheres
Empreendedorismo feminino cresce como alternativa para conciliar carreira, maternidade e autonomia financeira, apesar dos desafios e preconceitos enfrentados no caminho
Publicado há
2 semanas atrásem
23 de março de 2026por
Redação
Por Antônia Liz, Barbara Santos, Prisco Martins, Sarah Viviane e Yasmim Barros*
O despertador de Serlândia Marques toca todos os dias às 5h da manhã. Antes de o sol se firmar no céu acreano, ela já prepara o café do filho mais novo, separa o uniforme e o leva para a escola. Depois, segue para o shopping onde abre as portas de sua franquia de cosméticos pontualmente às 10h. “Venho todos os dias. Não deixo a empresa ausente”, afirma.
A rotina intensa é o retrato de uma nova realidade. Após 26 anos trabalhando sob o regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), Serlândia decidiu, em 2024, recalcular a rota. Mãe de Felipe, Lucas e Pedro, ela percebeu que o emprego formal lhe roubava algo que o dinheiro não comprava: tempo.
“A maternidade e a busca por estabilidade financeira foram os pontos principais para eu empreender. Fui CLT por 26 anos e não tinha tanto tempo para os meus filhos. No decorrer do tempo, fui sentindo que deveria estar mais presente nos momentos familiares. Foi uma necessidade”, relata.
O caso de Serlândia reflete uma tendência que vem ganhando força no Acre e no Brasil. Cada vez mais mulheres enxergam no empreendedorismo não apenas uma fonte de renda, mas uma ferramenta para conquistar autonomia financeira e, principalmente, flexibilidade para conciliar a carreira com a maternidade.

Foto: cedida
Rede de apoio
Para que a jornada fosse possível, a empreendedora fez questão de destacar um elemento fundamental: o suporte da família. “Sempre tive minha rede de apoio muito próxima. Meu pai e minha mãe sempre me ajudaram muito. Meus filhos ficavam na casa deles para eu poder trabalhar”, conta Serlândia.
Mas mesmo com planejamento, a vida de mãe e empreendedora reserva surpresas. “Já precisei remarcar reuniões e compromissos várias vezes. Às vezes meu filho ficava doente e eu tinha que levar ao médico. A gente se vira”, comenta
O preconceito velado: “Já fui subestimada”
Se os desafios logísticos já são grandes, Serlândia revela que precisa lidar também com barreiras comportamentais. A misoginia, infelizmente, ainda é uma realidade para muitas mulheres que ousam empreender.
“As pessoas às vezes acham que não somos capazes de conciliar. Ter filhos requer muito tempo e atenção. Mas sempre me dediquei, me superei e fui presente tanto na empresa quanto na vida dos meus filhos”, destaca.
Ela confirma que já enfrentou situações de desconfiança ao longo da trajetória. “Sim, já fui subestimada e desacreditada. Mas a gente aprende a lidar, a não abaixar a cabeça e a seguir em frente.”
Hoje, aos 52 anos, Serlândia olha para trás com orgulho e para frente com esperança. A decisão de trocar a estabilidade da carteira assinada (CLT) pelo risco de investir no próprio negócio trouxe resultados que vão além do financeiro, mais autonomia, presença na vida dos filhos e a satisfação de construir algo próprio.
“Eu não trocaria essa experiência por nada. Ver meus filhos crescerem sabendo que a fiz o melhor pra oferecer uma qualidade de vida e conforto , não tem preço. A gente se supera todo dia. É difícil? É. Mas é recompensador”, afirma.
Sonho em realidade
Se para muitas mulheres o empreendedorismo surge como alternativa para aumentar a renda e conciliar com a maternidade, para outras ele se concretiza a partir de condições mais favoráveis. É o caso de Aline Mirella, proprietária de uma papelaria , que transformou um sonho antigo em realidade.
Diferente do que muitas vezes se imagina, Aline não precisou escolher entre a maternidade e a carreira. Ela tinha o desejo de empreender adormecido e decidiu o momento certo para tirar do papel um projeto cultivado desde a infância.
“A Vontade de empreender é algo que eu sempre desejei desde da minha infância, sempre busquei a independência financeira e a possibilidade de ter mais flexibilidade de horário e qualidade de vida”
Quando decidiu empreender foi com o objetivo de aumentar a renda. Naquele momento os filhos já estavam maiores e não dependiam tanto dela. Hoje eles também fazem parte do negócio, ajudam na loja e trabalham junto com a mãe. “Acabou virando algo que envolve toda a família. Meu marido e meus filhos sempre estiveram presentes e contribuíram para que tudo funcionasse”, complementa.

Foto: cedida
União e no apoio coletivo
Muitas mulheres empreendedoras encontram na união e no apoio coletivo uma forma de fortalecer seus negócios. É o que acontece no coletivo de mulheres “Elas Fazem Acontecer”. A coordenadora do coletivo, Teomayra Cristina, explica que o grupo surgiu justamente com o objetivo de criar oportunidades e fortalecer o trabalho das mulheres empreendedoras.
Segundo ela, o coletivo vai além da realização de feiras e eventos. A proposta também envolve a capacitação e o fortalecimento das empreendedoras. “A gente organiza eventos, busca parcerias e oferece cursos para ajudar as empreendedoras a melhorar o atendimento e a apresentação dos produtos. Também temos consciência da importância da autonomia e da independência financeira para nós, mulheres”
Outro ponto que ela destaca é a importância da educação financeira para quem decide abrir um negócio. “Temos parceria com o Sebrae, por meio do programa Ser Mulher, que oferece cursos profissionalizantes. Isso ajuda muito na hora da precificação, porque muitas mulheres entram no empreendedorismo sem saber como definir corretamente o preço dos produtos”
Apesar dos desafios, a coordenadora acredita que o primeiro passo para quem deseja empreender é ter iniciativa. “Se a mulher esperar se organizar totalmente financeiramente, talvez nunca comece. Muitas vezes é preciso ter coragem, dar o primeiro passo e buscar alternativas para fazer o negócio acontecer”, diz.
Segundo Teomayra, o coletivo reúne mulheres de diferentes perfis e realidades. “Não existe um perfil único. É um espaço muito diverso, com mulheres mais jovens e também aquelas que já estão próximas da aposentadoria, todas buscando algo em comum: independência e estabilidade financeira ”, conclui.
*Matéria escrita sob orientação do professor Wagner Costa e da monitora Ranelly Pinheiro, para a disciplina de Fundamentos do Jornalismo.
Corriqueiras
Brechós movimentam Rio Branco com reaproveitamento de roupas e preços acessíveis
Peças de marcas conhecidas chegam a custar até 80% menos nos brechós da capital acreana
Publicado há
3 semanas atrásem
16 de março de 2026por
Redação
Por Laianny Sena
Os brechós fazem parte do cenário de consumo em Rio Branco, oferecendo roupas seminovas por preços mais baixos. A combinação entre economia e reaproveitamento de peças tem atraído moradores da capital acreana e impulsionado o empreendedorismo feminino. Esses espaços também se tornaram uma fonte de renda para muitas mulheres.
A empreendedora Brenda Vidal, de 32 anos, é a criadora do Brechic, brechó online que surgiu em 2020, no início da pandemia. A ideia nasceu quando ela estava em casa, com várias roupas paradas no armário e sem perspectiva de uso. Foi então que decidiu criar um perfil no Instagram para vender as peças.
“O Brêchic nasceu bem no começo da pandemia. Eu estava em casa, com várias roupas paradas no armário e praticamente zero chances de usar qualquer uma delas. Para ocupar a mente, resolvi criar um Instagram para vender essas peças.”

Vestido da marca Triton. Foto: cedida
Segundo Brenda, um dos diferenciais do negócio foi a forma como construiu a relação com as clientes. “Acho que o diferencial foi humanizar a página. Sempre mostrei a vida real, sem filtro perfeito, sem personagem. Queria que fosse um espaço onde as pessoas se sentissem acolhidas, como se estivessem conversando com uma amiga, mas sem perder o foco na moda consciente”.
Além do reaproveitamento de roupas, o preço das peças também chama a atenção dos consumidores. Segundo Brenda Vidal, um vestido da marca Triton, que pode custar cerca de R$398,00 em lojas ou plataformas online, foi vendido no Brechic por R$80,00. Já uma camisa da Damyller, que em média custa R$150,00 nas lojas, foi comercializada no brechó por apenas R$25,00.
Hoje, o Brechic funciona exclusivamente pelas redes sociais, por meio do perfil @brechic.ac, onde as peças são divulgadas e as vendas realizadas.
Além das iniciativas individuais, há brecholeiras que também se organizam por meio do Encontro das Brecholeiras. A idealizadora do projeto, Gélly Café, explica que a iniciativa surgiu inspirada em movimentos de moda sustentável dos quais participou quando morou em Brasília. Ao retornar para Rio Branco, percebeu que poderia transformar a experiência em um projeto coletivo, incentivando mulheres a empreender com peças que já tinham no guarda-roupa.

Imagem cedida pela entrevistada
Ao longo de quatro anos, o grupo acompanhou um crescimento significativo dos brechós no Acre, especialmente após a criação do Encontro. A proposta vai além da comercialização de roupas e inclui mentoria e fortalecimento coletivo.
“Muitas mulheres começaram apenas desapegando peças pessoais e hoje já têm fornecedores, estruturaram uma dinâmica comercial própria e atuam também no online, utilizando estratégias de comunicação e posicionamento”, destaca Gélly Café.
“No brechó, as pessoas conseguem se vestir bem, com qualidade e pagando pouco. A moda se torna acessível, inclusive para famílias que muitas vezes não conseguem comprar roupas em lojas convencionais”, afirma.

Imagem cedida pela entrevistada
Além da economia para os consumidores, o reaproveitamento de roupas também contribui para reduzir o descarte de peças que ainda estão em bom estado.
Para muitas mulheres, o brechó representa geração de renda, autonomia financeira e fortalecimento pessoal. O Encontro das Brecholeiras também promove uma rede de apoio e colaboração entre as participantes.
As agendas e informações sobre os eventos são divulgadas no Instagram, por meio do perfil @encontrodasbrecholeiras, onde também são divulgadas as próximas edições realizadas na cidade.
Entre os diferentes públicos atendidos pelos brechós, também há iniciativas voltadas para roupas e itens infantis. Como as crianças crescem rapidamente, muitas peças são usadas por pouco tempo, o que torna o reaproveitamento mais comum. Por isso, os brechós acabam sendo uma alternativa para pais e responsáveis venderem roupas que já não servem mais e, ao mesmo tempo, permitem que outras famílias encontrem peças infantis em bom estado por preços mais acessíveis.
A presença dos brechós em Rio Branco mostra diferentes formas de consumo e geração de renda na cidade. Mais do que uma opção econômica, esses espaços incentivam o consumo consciente, fortalecem o empreendedorismo feminino e permitem que consumidores tenham acesso a peças de marcas conhecidas e em bom estado por preços mais acessíveis.
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