Por Islana Wiciuk, Lauana Brito, Laylanne Barros, Thays Nogueira e Beatriz Guedes*
Celebrado nesta sexta-feira, o Dia Internacional contra a Discriminação Racial é uma data que reforça a importância da luta contínua contra as desigualdades e injustiças que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. No Brasil, essa desigualdade é evidente em diversos setores, incluindo o ensino superior. Apesar dos avanços das políticas públicas, a representatividade racial ainda enfrenta grandes desafios.
Dados do Censo da Educação Superior de 2023 revelam que apenas 21% dos docentes das universidades se declararam pretos ou pardos, evidenciando a persistência das barreiras raciais. Para o professor doutor do Centro de Educação de Letras e Artes, Pelegrino Santos Verçosa, as universidades públicas precisam enfrentar essas questões estruturais de forma concreta, em vez de recorrer a soluções paliativas. Segundo ele, a falta de mobilização coletiva também enfraquece a luta por justiça social. “Muitas pessoas só se engajam quando sentem diretamente a negação de seus direitos”, diz.
A Dra. Ivanete Freitas Cerqueira, professora de Linguística no curso de Letras Libras, também ressalta que, apesar das dificuldades, a universidade ainda pode ser um espaço plural. No entanto, ao recordar sua trajetória como estudante de Letras relembra o impacto de ser uma mulher negra e baiana em um ambiente na época majoritariamente branco e privilegiado. “Sou negra, preta quando preciso quebrar algumas barreiras. Fora isso, sou igual a todo mundo”, declarou. Para ela, a principal luta deve ser pela equidade e não apenas pela inclusão.
O preconceito, muitas vezes, se manifesta de forma sutil e velada, o que torna a discriminação ainda mais difícil de ser combatida. A professora Sulamita Rosa da Silva, compartilha experiências do seu cotidiano na universidade, em que algumas vezes já ouviu comentários sobre sua aparência jovem demais para ser professora, uma observação que pode esconder um viés racial, já que a imagem tradicional de docentes ainda está associada a homens brancos e cisgêneros.
Diante desse cenário, o Dia Internacional contra a Discriminação Racial não é apenas um momento de reflexão, mas um chamado para politícas de ações afirmativas. A luta contra a desigualdade racial no ensino superior e em toda a sociedade não pode ser negligenciada. Enquanto barreiras invisíveis permanecerem impedindo o pleno acesso de pessoas negras a espaços de poder e conhecimento, a busca por justiça social seguirá sendo uma necessidade urgente.
“Quaisquer migalhas que quiserem nos dar, que nos deem, porque isso vai ser juntado para fazer um trampolim para a gente chegar mais”, finaliza a professora Ivanete Cerqueira.
*Texto produzido na disciplina Introdução ao Jornalismo sob supervisão do Professor Wagner Costa
Aos 17 anos, o acreano Diego Heitor da Silva Monteiro alcançou um feito histórico: foi aprovado na Princeton University (Universidade de Princeton), uma das instituições mais prestigiadas do mundo, localizada nos Estados Unidos. Ex-aluno do Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde concluiu o terceiro ano do ensino médio, Diego se prepara agora para iniciar uma nova fase da vida acadêmica fora do Brasil, com interesse na área de Psicologia.
A decisão de estudar fora do país começou cedo na adolescência, por volta dos 12 ou 13 anos, Diego sonhava em cursar parte de sua formação no exterior. A primeira tentativa foi por meio do programa United World Colleges (UWC), oportunidade que não se concretizou e trouxe frustração naquele momento. No entanto, a notícia ruim não o fez desistir, pelo contrário: serviu como combustível para continuar tentando.
A construção da aprovação
Durante o ensino médio, Diego acumulou experiências internacionais que fortaleceram seu percurso. Aos 16, foi selecionado para o programa Jovens Embaixadores, conquistando uma bolsa completa para os Estados Unidos. Também participou do Global Youth Sustainability Academy, na China, onde teve contato com diferentes cidades e culturas do país. Foi justamente durante essa experiência no país asiático que a ideia de estudar em Princeton se tornou uma certeza.
O processo de candidatura foi intenso e exigiu disciplina. Conciliando aulas em tempo integral, provas, projetos escolares e atividades extracurriculares, Diego precisou se preparar para o ACT (American College Testing), exame equivalente ao Exame Nacional do Ensino Medio (Enem) brasileiro.
“Era uma rotina muito cansativa e desgastante”, relembra.
Segundo ele, o processo seletivo de universidades como Princeton vai muito além das notas. São avaliados o histórico escolar, redações autobiográficas em inglês, premiações, experiências pessoais, domínio do idioma e desempenho em testes padronizados. Mesmo assim, as notas continuam sendo um critério rigoroso. Diego foi aprovado com média 9,7, acima do padrão exigido para estudantes brasileiros que ingressam em instituições norte-americanas de elite.
Durante o ensino médio no Acre, Diego conciliou uma rotina intensa de estudos e preparação para processos seletivos internacionais. Foto: reprodução.
Entre os diferenciais que acredita terem pesado a seu favor, está a aprovação no programa Tech Education Student Support (TESS), um dos mais concorridos programas de verão dos Estados Unidos, que aceita apenas cerca de 3% dos inscritos. Além disso, Diego destaca a força de sua história pessoal. Nos textos enviados à universidade, fez questão de ressaltar o orgulho de ser acreano, as dificuldades enfrentadas, a escassez de recursos e o fato de ter aprendido inglês de forma autodidata, por meio da internet, já que não tinha condições de pagar um curso.
A resposta da universidade chegou no dia 11 de dezembro, após Diego ter enviado sua candidatura em período antecipado, no dia 1º de novembro. Exausto após meses de preparação, ele não alimentava grandes expectativas. Ao abrir o e-mail de Princeton veio a surpresa. A aprovação, considerada inédita para um estudante acreano, provocou uma reação de incredulidade e emoção. O momento, registrado em vídeo, marcou a concretização de esforço e incertezas.
Além da vaga, Diego recebeu uma bolsa integral, que cobre todos os custos da graduação da alimentação aos materiais acadêmicos em um valor estimado em 97 mil dólares por ano (480 mil convertidos em reais). Para ele, a confirmação veio como um alívio e, ao mesmo tempo, como a prova de que todo o caminho percorrido havia valido a pena.
Diego Heitor da Silva Monteiro, de 17 anos, aprovado na Universidade de Princeton. Foto: arquivo pessoal
Expectativa antes da partida
Mesmo com a alegria, o sentimento está sendo assimilado aos poucos. A mudança para outro país, prevista para setembro, traz ansiedade. Muito ligado à família e aos amigos, Diego reconhece o desafio de passar quatro anos nos Estados Unidos, mas acredita que as experiências anteriores o prepararam para esse momento.
Para o futuro, ele espera explorar diferentes áreas do conhecimento, confirmar se a Psicologia será mesmo o caminho escolhido e, principalmente, conhecer pessoas de diversas partes do mundo. “Sempre gostei de estudar e aprender um pouco de tudo”, afirma.
A mensagem que Diego deixa para outros jovens que sonham em trilhar o mesmo caminho é clara: arriscar-se. “Nunca perder uma oportunidade de tentar. Tudo o que vivi desde novo foi necessário para chegar até aqui. No final, você não perde nada só ganha e soma na sua vida”.
Para muitos empreendedores, o Rio Acre é mais do que paisagem: é fonte de renda, trabalho e sobrevivência. No entanto, entre dois extremos a cheia e a seca o comportamento do rio impõe desafios constantes a quem depende do comércio às suas margens. Em Rio Branco, o nível das águas influencia diretamente o fluxo de pessoas, o funcionamento de negócios e a estabilidade financeira de famílias inteiras.
O mesmo rio que, em determinados períodos, garante sustento, em outros expõe desigualdades. Durante a cheia, o aumento do nível das águas intensifica a movimentação no Calçadão da Gameleira, ponto turístico às margens do Rio Acre, atraindo visitantes e fortalecendo o comércio local. Em contrapartida, esse mesmo avanço do rio provoca alagamentos em áreas vulneráveis da cidade, obrigando famílias a deixarem suas casas e buscarem abrigo temporário no Parque de Exposições Wildy Viana das Neves, Loteamento Santa Helena.
Segundo Júlia Alves, 55 anos, vendedora de bananas salgadas e doces credenciada pela Prefeitura de Rio Branco, a cheia do Rio Acre representa tanto oportunidade quanto desafio. Ela explica que o aumento do nível das águas atrai mais pessoas ao Calçadão da Gameleira, o que impulsiona as vendas e garante seu sustento.
Júlia Alves, vendedora local, vê na cheia do Rio Acre sustento e desafio. Foto: Miguel Feitosa
“Quando o nível do rio aumenta, a gente consegue vender mais. Mas também fico triste, porque esse mesmo rio, tão bonito, acaba destruindo ao mesmo tempo em que sustenta”, relata.
Embora não esteja presente diariamente no Calçadão, Júlia atua de forma estratégica, aproveitando os períodos de maior movimento. Já nos momentos de seca ou menor fluxo de visitantes, ela se desloca para outros pontos da cidade, adaptando-se às variações impostas pelo comportamento do rio.
O trabalho da vendedora evidencia como a economia local é diretamente influenciada pela geografia da cidade. O Calçadão da Gameleira funciona como ponto de encontro cultural e comercial, onde moradores, turistas e empreendedores compartilham o mesmo espaço, conectados pelo Rio Acre.
Bar do Zé do Branco: cinco décadas à beira do rio
Fundado há cerca de 50 anos, o Bar do Zé do Branco, localizado no bairro da Base, carrega uma história profundamente ligada ao Rio Acre. O empreendimento surgiu na década de 1970, período em que o rio ainda funcionava como importante via de transporte e circulação.
O fundador, José Antônio Vera, hoje com 69 anos, conhecido como Zé do Branco, relembra que o bar nasceu junto à empresa familiar Irmãos Lameira, voltada ao transporte.
Zé do Branco, fundador do bar que há 50 anos acompanha o ritmo do Acre. Foto: José Henrique
“Na época, a gente tinha uma empresa de transporte, com cobrador, motorista e fiscal. Aí resolvemos lançar um bar na frente da empresa, e deu certo”, conta.
Ao longo das décadas, Zé acompanhou as transformações do território e do próprio rio, que deixou de ser apenas estrada para se tornar também símbolo turístico. Sua trajetória representa uma geração que aprendeu a trabalhar respeitando o ritmo das águas, adaptando-se às cheias e às secas.
Para ele, embora a cheia contribua significativamente para o aumento das vendas, impulsionada pela atratividade do Rio Acre cheio e por suas belezas naturais, o período de alerta da cota de transbordo gera insegurança. O empreendedor vive em estado de atenção, sem saber até que ponto as águas serão um benefício, já que, a qualquer momento, o nível do rio pode subir e causar a perda de mercadorias.
“A gente ganha mais movimento quando o rio tá cheio, mas também fica com medo. Qualquer subida de repente pode levar tudo”, relata.
Restaurante Flutuante Malveira: empreender sobre as águas
Assim como o Bar do Zé do Branco, o Restaurante Flutuante Malveira tem sua história diretamente vinculada ao Rio Acre. Instalado às margens do rio, o empreendimento nasceu de uma relação familiar com a água, marcada pelo trabalho e pela memória.
De acordo com Carla Malveira, de 19 anos, filha do proprietário, o nome do restaurante faz referência ao sobrenome da família, herdado do avô, José Malveira. Antes da construção do flutuante, a família mantinha a embarcação Comandante Malveira, utilizada no Rio Acre.
Construído como espaço de lazer familiar, o local começou a receber amigos e conhecidos, transformando-se gradualmente em empreendimento comercial. Há cerca de três anos instalado na atual localização, o restaurante vive uma rotina totalmente condicionada às variações do nível do rio.
Durante a cheia, o Rio Acre atua como fator de atração, facilitando o acesso, valorizando a paisagem e ampliando o fluxo de visitantes. Segundo Carla Malveira, é nesse período que o restaurante registra maior movimento.
Do barco ao flutuante, a família Malveira construiu seu negócio no Rio Acre. Foto: José Henrique
“Quando o rio está cheio, o acesso fica melhor e as pessoas vêm pela paisagem e pelo clima do lugar. Já na seca é mais difícil chegar até aqui, o movimento cai bastante e isso afeta diretamente o nosso faturamento”, relata.
Seca também impõe desafios
Se a cheia impulsiona o turismo e o comércio, a seca representa o outro lado da dinâmica do Rio Acre. Com o nível do rio mais baixo, o fluxo de visitantes diminui e o acesso aos flutuantes se torna mais difícil, já que a escada de entrada aumenta conforme a água recua. Negócios que dependem da paisagem e da navegação enfrentam retração e precisam se adaptar para manter o funcionamento.
A alternância entre períodos de cheia e seca tem se tornado mais frequente, exigindo ajustes constantes de quem vive e empreende às margens do rio.
Turismo e políticas de incentivo
A movimentação gerada pelo rio reforça a importância de políticas públicas voltadas ao empreendedorismo e à economia criativa. Segundo o secretário de Estado de Empreendedorismo e Turismo, Marcelo Messias, o Rio Acre é um importante vetor econômico para a capital.
Secretário de Turismo e Empreendedorismo, Marcelo Messias, na GCF Task Force, realizada em 2025, em Rio Branco. Foto: Bruno Moraes/Sete
“No período de cheia, o Rio Acre atrai moradores e turistas para a região da Gameleira, fortalecendo o comércio local e o empreendedorismo. Restaurantes, lanchonetes, a Casa do Artesanato e outros espaços são diretamente beneficiados por essa movimentação, que alia geração de renda, cultura e lazer”, destaca.
Entre a cheia que movimenta o comércio e a seca que impõe limites, o Rio Acre segue determinando o ritmo da economia local. Para empreendedores como Júlia, Zé do Branco e a família Malveira, viver do rio é conviver diariamente com oportunidades e incertezas, em um território onde a água não apenas desenha a paisagem, mas molda modos de vida, trabalho e resistência.
O cenário de tecnologia e inovação do Acre logo irá romper fronteiras geográficas. O jogo “Carbon 0”, focado em investigação ambiental, garantiu uma vaga para ser apresentado em um prestigiado evento do setor na Alemanha, em agosto de 2026. O projeto é fruto do trabalho coletivo de Thiago Costa, estudante de Sistemas de Informação, que atuou ao lado dos desenvolvedores Carlos Hygor, André Lucas, Caio Pontes e Felipe de Pádua. A conquista coloca o estado em evidência no mercado global de games e reforça o potencial da produção regional.
A equipe garantiu a vaga após vencer na categoria Escolha do Público da Mostra Competitiva de Jogos da Amazônia Legal, durante a Headscon 2025, realizada em Rio Branco. Além da projeção internacional, a premiação também contou com um incentivo financeiro de R$21,5 mil, destinado aos desenvolvedores.
A equipe acreana celebrando sua participação na Headscon 2025, onde o jogo ‘Carbon 0’ conquistou a Escolha do Público. Foto: arquivo pessoal
A ideia para o desenvolvimento do game surgiu de forma intensa durante uma “game jam”, uma maratona de desenvolvimento de jogos, que tinha como tema central a preservação do meio ambiente. Segundo Thiago Costa, o processo foi marcado pelo imediatismo e pela superação de barreiras técnicas. Os principais desafios enfrentados pela equipe foram o curtíssimo tempo de desenvolvimento, de apenas três dias, e a inexperiência dos integrantes no cenário competitivo. Mesmo com esses obstáculos, a criatividade do grupo sobressaiu, transformando uma ideia inicial em um produto de visibilidade internacional.
Investigação ambiental em forma de jogo
A trama de “Carbon 0” mergulha em uma narrativa de justiça e ética. No jogo, dois irmãos lutam para provar a inocência do pai, que foi falsamente acusado pela empresa em que trabalhava de vazar dados sensíveis. Ao longo da investigação, os protagonistas expõem a verdadeira face das corporações envolvidas, revelando crimes ambientais e negligências.
Imagem de ‘Carbon 0’, o game que mistura investigação e conscientização ambiental, desenvolvido em apenas três dias. Foto: arquivo pessoal
Para Thiago, a conquista representa a quebra de um paradigma sobre a produção tecnológica no Norte do Brasil. “Ele prova que o estado tem força para competir e mostrar que o nosso mercado também tem peso e que merecemos atenção do mercado global”, afirma.
A ida para a Alemanha é descrita pelo estudante como a realização de um sonho que parecia distante. “Nunca na minha vida imaginava que um jogo criado pelos meus amigos e eu iria conseguir atingir um patamar tão alto”, comemora Thiago.
A expectativa agora se volta para as oportunidades que o evento internacional pode proporcionar, especialmente no que diz respeito à criação de contatos com desenvolvedores do mundo todo e à chance de exibir o talento brasileiro.
Os desenvolvedores de ‘Carbon 0’ prontos para levar o talento acreano ao cenário internacional de games. Foto: arquivo pessoal
Para os entusiastas e outros estudantes que desejam ingressar na área, Thiago deixa um incentivo baseado em sua própria trajetória: “Se você tem a vontade de entrar nesse mundo, organize um pessoal que esteja disposto a seguir em frente nele e fazer acontecer”. Segundo ele, o mercado está em constante crescimento e, para quem tem vontade e organização, as ideias nunca vão faltar.