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Uma morte anunciada: crise hídrica ameaça futuro do rio Acre

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Foto: Arquivo Pessoal

Por Andreana Lucas e Bruna Mendes

Os rios e os regimes das águas são historicamente de grande importância para os povos amazônicos. Cidades inteiras foram construídas seguindo e se beneficiando do percurso dos rios. Transporte e alimentação são exemplos de recursos que até hoje são bastante utilizados por meios fluviais. Apesar disso, há algo preocupante acontecendo diante dos nossos olhos: os rios estão secando.  

O rio Acre, que banha cinco cidades acreanas, se encontra atualmente em estado de emergência devido à estiagem. O baixo volume de chuvas vem fazendo o cenário de crise hídrica se repetir nos últimos anos. Em 2021, o nível do rio chegou a marcar 1,47 metros, quase batendo o recorde de 2016, quando as medições da Defesa Civil marcaram 1,37 metros. 

A moradora do bairro Cadeia Velha Dona Maria Miracelie, que reside há mais de 40 anos ao lado do rio, conta que tanto as secas quanto as inundações são costumeiras, mas relata que se surpreende com as mudanças drásticas apresentadas neste ano. “Não, nunca foi assim… só nos meses de agosto que era assim, agora subiu a temperatura, muito seco e quente desde julho… Me admira ainda não ter faltado água.”

Foto: Andreana Lucas

A ribeirinha lembra ainda de como era mais fácil, há alguns anos, o cultivo de alimentos às margens do rio.  “Plantei muita macaxeira, batata e jerimum, mas como a alagação vem a gente parou…. E ainda tem muita gente que joga lixo na beira do rio, assim fica difícil”, lamenta. 

Foto: Andreana Lucas

O relato de Dona Maria representa uma conjuntura do que nos espera no futuro, a emergência do clima e eventos climáticos extremos, como previsto no último relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima da Organização das Nações Unidas (ONU).  O planeta está aquecendo, fato que já vem provocando consequências alarmantes. O aumento da seca e da aridez é uma das previsões do grupo de cientistas da ONU para a América do Sul.

No caso do Acre, especialistas apontam o desmatamento descontrolado, a crise do clima e ciclos naturais como causas da seca dos últimos anos. “A situação do clima está muito atípica e isso vem evoluindo ao longo dos anos. Em 2005 eu acompanhei as florestas incendiando e matando os animais, e de lá pra cá não parou mais”,  afirma o geógrafo especialista nos estudos do Rio Acre, Claudemir Mesquita.

Foto: Bruna Mendes

Formado pela Universidade Federal do Acre, Claudemir é geógrafo, ambientalista, especialista em planejamento e uso de bacias hidrográficas. Com mais de 26 obras relacionadas ao meio ambiente, ele alerta para uma possível morte do rio que corta a capital acreana. 

“A morte desse rio já é anunciada há muito tempo, mas o que é um rio morto? Não é um rio que não passa água, mas sim um rio que ninguém usa e nem bebe. A exclusão é evidente.” O ambientalista ressalta a maneira que devemos olhar para a vida das nossas águas e chama a atenção para a falta de estudos sobre o tema, tanto dos órgãos responsáveis pelo meio ambiente como no campo universitário.

“Quando uma cidade é criada às margens de um rio, deve haver um planejamento e estudos para que ele possa viver além da eternidade… No estado e nos municípios, em cada um existe uma secretaria de meio ambiente, que deveria ter a finalidade de orientar e fiscalizar o uso da terra. A universidade não conhece o rio, pois se conhecesse seria discutido, por exemplo, o esgoto em um metro cúbico de água e os impactos que isso gera a nossa bacia. Não vejo preocupações em se ter esses estudos e pesquisas”,  relata o especialista.

Foto: Bruna Mendes

Conforme a lei federal n° 12.651/2012, existem as Áreas de Preservação Permanente (APP) que incluem a preservação dos recursos hídricos. No entanto, o geógrafo afirma que no Vale do Acre já foram desmatados por volta de 140 mil metros quadrados nessas APPs. Claudemir Mesquita faz também a um apelo à população em geral com relação a desmatamento desenfreado e queimadas:

“Se desmatar, impacta o rio. Queimadas tem a finalidade de fazer mau uso das terras hidrográficas e os impactos vão trazer consequências… Não é possível prever uma recuperação desse rio em pouco tempo. Quanto mais o tempo passa, as cidades aumentam, o desmatamento também e o rio diminui, com menor capacidade de produção de água. E a sede não espera!”, alerta. 

Foto: Juan Diaz

Poluição intensifica a crise

Quando a água baixa, um problema costuma se revelar no Estado: a poluição intensa. O cenário de seca aliado à grande quantidade de lixo faz o rio parecer um local abandonado e sem vida. 

O fotógrafo Juan Diaz realiza anualmente registros fotográficos na bacia do rio Acre. Ele chama a atenção para o descuido com a limpeza, principalmente nos últimos três anos. As imagens capturadas denunciam o descaso e a poluição dos nossos rios. 

“Na verdade, a seca está sendo na Amazônia, o que afeta a todos os municípios, afeta todo o transporte dos municípios isolados do interior. E é triste ver quando vamos fazer um material na beira do rio, a poluição. Quando o rio está seco é horrível de se ver o lixo, entulho, geladeira, fogão… A seca do rio me remete à tristeza, pela poluição. Quem sofre somos nós. Fora as outras coisas como queimadas, pandemia, dengue… é muito difícil de viver no verão amazônico”, explica o fotógrafo. 

 

Foto: Juan Diaz

Falta de água coloca em risco o abastecimento de energia 

A crise hídrica é uma realidade que não se restringe ao estado do Acre. A falta de chuvas tem afetado várias cidades pelo Brasil, colocando em risco, inclusive, o abastecimento de energia elétrica do país. Alguns dos principais reservatórios de água para a produção de energia estão em níveis muito abaixo do que se considera ideal. A escassez de chuvas no país para a geração de energia é a pior em 91 anos, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). 

A instabilidade na geração de energia vem causando impactos diretos sobre a vida dos brasileiros. No último dia 26 de agosto, o ministro da economia Paulo Guedes anunciou mais um aumento na tarifa da conta de luz. Com a criação da bandeira de escassez hídrica, o cidadão pagará agora R$14,20 extras a cada 100 quilowatts-hora (KWh). 

A cobrança extra, somada à crescente inflação, que fez os preços de produtos básicos do supermercado dispararem, pesam no bolso dos consumidores, colocando em evidência que a crise hídrica é apenas mais um sintoma de um momento de grandes problemas a serem enfrentados no Brasil.

Redação

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Farofa das Divas reúne música pop, diversidade e performances ao vivo nesta terça-feira

Evento acontece no Studio Beer, com shows de Luma Gamma e Duda Modesto e set performático do DJ Mathias

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Por Joás Linhares e Maria Clara Macêdo

A festa “Farofa das Divas” acontece nesta terça-feira, 17, a partir das 20h40, no Studio Beer, em Rio Branco. Com ingressos antecipados a R$20,00, o evento reúne apresentações ao vivo das cantoras Luma Gamma e Duda Modesto, além de um set performático do DJ Mathias, propondo uma experiência musical que mistura pop, carnaval e diversidade sonora.

A iniciativa busca uma renovação da noite acreana, surgindo a partir de uma lacuna percebida na cena cultural rio-branquense, visando ampliar as experiências musicais na capital. Entre o tradicional e o experimental, artistas locais apostam em novos formatos para dialogar com diferentes públicos. É nesse contexto que nasce a “Farofa das Divas”, idealizada por Luma Gamma e Duda Modesto em parceria com DJ Mathias, tendo o carnaval como ponto de partida para uma proposta que vai além da pista de dança.

Segundo Mathias, a ideia do projeto não é romper com o que já existe, mas ressignificar referências. “O habitual e o diferente acabam andando lado a lado. O que a gente vive hoje tem como base tudo o que já foi vivido, nada se perde”. O DJ explica que o evento foi pensado desde o início de forma estética e conceitual. “Quis algo pop, com referências carnavalescas, o que deixou o projeto ousado e original.”

A proposta une apresentações com banda, vozes ao vivo e um set de DJ construído para dialogar com o show. “Eu não apresento apenas um set, mas uma performance. Tem dança, interação e tudo é feito ao vivo. Antes de qualquer coisa, vem a mensagem que quero passar”, destaca Mathias.

Carnaval como escolha simbólica

A escolha do carnaval para a realização do evento carrega um significado especial entre o trio. “O carnaval celebra o amor, e é essa mensagem que queremos passar: união, respeito e diversidade”, afirma Mathias.

“Sentíamos falta de um espaço para ouvir pop brasileiro, indie e pop internacional ao vivo. Existe um público que gosta disso, mas ele nem sempre é enxergado”, pontua Luma.  A cantora também destaca a importância da parceria com Duda em sua trajetória solo. “Essa troca artística tem sido muito enriquecedora e importante para eu retomar meu lugar como artista.”

A expectativa dos organizadores é que o público viva uma experiência que vá além da música. “Queremos que, ao entrar no evento, as pessoas se sintam em um espaço onde não exista ódio, mas apenas celebração do amor e da diversidade”, conclui o DJ.

Parceria e fortalecimento cultural

A união entre os três artistas é apontada como um dos principais diferenciais do projeto. Para Mathias, a parceria fortalece não apenas o evento, mas toda a cena cultural. “Cada um contribui de forma diferente, e isso fortalece a comunidade e abraça a diversidade.”

Duda reforça que colaborações ajudam a romper bolhas e ampliar públicos. “Essas parcerias permitem que novas pessoas conheçam artistas locais e estimulem a criatividade.” Mesmo diante das dificuldades de produzir música autoral no Acre, ela afirma que seguir apostando na cena local é uma escolha consciente.

Potência da cena local

Para Duda Modesto, a maior força da noite acreana está nos próprios músicos do estado. “A qualidade dos artistas daqui é muito alta. Quando a gente circula fora, percebe que o nível é excelente”. Ela observa, no entanto, que ainda é necessário fortalecer o hábito do público de sair para ouvir música ao vivo como atração principal. “Também sentimos falta de festivais que reforcem a diversidade de estilos.”

A cantora ressalta que a cena local ainda enfrenta concentração em poucos gêneros musicais. “O sertanejo domina, mas estilos como pop ao vivo, rock, jazz e blues têm pouco espaço.” Essa diversidade aparece diretamente no repertório do projeto. “Meu repertório é uma mistura de muitas influências. Adaptar isso para o ao vivo é desafiador, mas muito divertido.”.

Matéria escrita sob orientação da professora Giselle Lucena, para a disciplina de Redação 1.

Redação

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Afluentes

Entre bancos de areia e celebrações: festivais de praia revelam o lado vivo dos rios amazônicos

Mais do que lazer, os festivais de praia impulsionam o turismo sustentável e resgatam a relação histórica da população amazônica com os rios

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Por Jerfeson Gadelha e Laianny Sena

Durante o período de estiagem na Amazônia, quando o nível das águas começa a baixar, os rios ganham novas formas e significados. Os bancos de areia que surgem ao longo de seus leitos deixam de ser apenas marcas da seca e se transformam em espaços de convivência, lazer e celebração cultural. Nos municípios acreanos e em outros da região Norte, como Boca do Acre (AM), esse fenômeno dá origem aos tradicionais festivais de praia, eventos que unem cultura, turismo e desenvolvimento econômico, ressignificando a relação da população com os rios.

Em 2025, no município de Feijó, localizado no estado do Acre, foi realizada a 26ª edição do Festival de Praia de Feijó, evento tradicional que ocorre anualmente no verão amazônico, geralmente em conjunto com o Festival do Açaí. Reconhecido pela produção de um dos açaís mais tradicionais do estado, o município utiliza o evento como espaço de promoção da música, do esporte, do lazer e da cultura às margens do rio, atraindo milhares de pessoas e movimentando a economia local.

Na última edição, o festival contou com apresentações de artistas nacionais como Lucas Lucco, Natanzinho e Dilsinho, reunindo cerca de 40 mil pessoas no último dia da programação, segundo a prefeitura local. A programação musical foi marcada por gêneros populares como sertanejo, forró, piseiro e arrocha, além da valorização de artistas locais e da música regional.

Com 26 edições realizadas, o Festival de Praia de Feijó se consolidou como uma das principais manifestações culturais do município durante o período de estiagem. Além dos shows musicais, a programação inclui competições esportivas, atividades recreativas e espaços destinados à comercialização de alimentos e produtos regionais, fortalecendo a economia local e incentivando o empreendedorismo de pequenos comerciantes.

Festival de Praia de Brasiléia. Foto: Giovanny Endres

O festival também atrai visitantes de outros municípios e até de estados vizinhos, impulsionados pela presença de atrações nacionais e pela possibilidade de lazer às margens do rio, onde o público aproveita os bancos de areia para banho, convivência e celebração cultural.

No município de Brasiléia, no Alto Acre, a tradição dos festivais de praia também ganhou novo fôlego em 2025, com o retorno de um evento que não era realizado há mais de duas décadas. Às margens do rio Acre, o festival contou com mais de dez atrações musicais, entre bandas, cantores e DJs, além de uma programação diversificada de atividades culturais e esportivas, como a escolha do Garoto e da Garota Verão, torneios de futevôlei e uma corrida de motocross.

A competição sobre duas rodas reuniu pilotos do Acre, de outros estados e até do Peru, ampliando o alcance regional do evento e movimentando a economia local com a presença de moradores, turistas e comerciantes.

Para quem trabalhou diretamente no evento, o retorno do Festival de Praia representou uma oportunidade importante de geração de renda. O proprietário da Adega Imperial, Lindomar, que participou pela primeira vez da festividade, avaliou de forma positiva a retomada após tantos anos sem realização no município.

“Fazia muito tempo que não tinha Festival de Praia aqui na cidade, então no início houve um pouco de desconfiança. Mesmo com a organização acontecendo em cima da hora, o público surpreendeu. Economicamente foi muito positivo, conseguimos vender bastante e muitas pessoas saíram satisfeitas”, relata.

Segundo o comerciante, apesar da necessidade de melhorias estruturais, o impacto do evento para o comércio local foi significativo. “Por ter sido a primeira edição depois de tanto tempo, é natural que alguns pontos precisem ser ajustados, mas acredito que o próximo será ainda melhor, com mais pessoas interessadas em participar e trabalhar”, destaca.

Lindomar também ressaltou que festividades desse porte são fundamentais para o fortalecimento da economia local. “Esses eventos movimentam a economia de Brasiléia e de toda a região de fronteira. São oportunidades importantes para quem vive do comércio”, conclui.

O impacto econômico e social do evento também foi destacado pelo prefeito de Brasiléia, Carlos Armando, conhecido como Carlinhos do Pelado. Para ele, o festival representou uma retomada importante para o município após mais de duas décadas sem a realização da festividade.

“O Festival de Praia que ocorreu em Brasiléia no ano passado foi uma festa maravilhosa. Nós aquecemos a economia local, os hotéis, os barraqueiros de alimentação, de sorvete, de bebida alcoólica e de refrigerante. As pessoas que participaram ficaram maravilhadas, porque havia mais de 20 anos que esse evento não acontecia no município. Hotéis, postos de gasolina e restaurantes tiveram uma movimentação muito boa, mostrando que o festival foi um sucesso”, destaca.

Segundo ele, a expectativa é que o evento continue crescendo nos próximos anos. “Este ano iremos realizar novamente, já estamos nos organizando e, se Deus quiser, será um sucesso mais uma vez, ainda melhor do que o do ano passado”, afirma.

Identidade amazônica

Além de Feijó e Brasiléia, municípios acreanos como Tarauacá e Porto Acre também realizam festivais de praia durante o período de estiagem, reforçando a tradição cultural ligada aos rios no estado.

A tradição dos festivais de praia não se limita ao Acre. Em outros municípios da Região Norte, esses eventos também se consolidam durante o período de estiagem, reunindo música, lazer e convivência às margens dos rios.

Um exemplo é o Festival de Praia de Boca do Acre, realizado anualmente às margens do rio Purus, no Amazonas. Em 2025, o evento chegou à 27ª edição, ocorrida entre 30 de agosto e 14 de setembro, com programação que incluiu competições esportivas, apresentações culturais e grandes shows musicais. A programação musical mesclou gêneros como forró, sertanejo, piseiro e música dançante, com participação de atrações locais e regionais, com destaque para o encerramento com o cantor Zé Vaqueiro.

Festival de Praia de Boca do Acre. Foto: reprodução

Consolidado no calendário cultural da cidade, o festival atrai visitantes do Acre, do Amazonas e de outros estados, movimentando intensamente a economia local. Durante o evento, setores como alimentação, transporte e hospedagem registram aumento significativo na demanda, evidenciando o potencial turístico gerado pelas praias fluviais formadas no período da seca.

A rede hoteleira de Boca do Acre reflete esse aquecimento. Empreendimentos locais alcançam alta taxa de ocupação, com reservas próximas do limite, impulsionadas pelo fluxo de turistas que buscam acompanhar a programação do festival. Para comerciantes e empresários, o evento representa não apenas visibilidade cultural, mas também geração de renda e empregos temporários.

Festival de Praia de Boca do Acre. Foto: reprodução

Mais do que entretenimento, os festivais de praia ajudam a fortalecer o turismo sustentável e a preservar uma relação histórica entre a população amazônica e seus rios. Em um contexto em que o Rio Acre costuma ser lembrado principalmente por enchentes e alagações, essas festividades revelam um outro olhar: o do rio como espaço de encontro, alegria e oportunidade.

Ao transformar os bancos de areia em palcos de festa, os festivais de praia reafirmam o papel dos rios amazônicos como elementos centrais da identidade regional, mostrando que, além de sua força natural, também carregam histórias, sorrisos e possibilidades de desenvolvimento para o Acre e toda a região.

Redação

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OLÍMPIADAS DE INVERNO 2026

Acreano Manex Silva garante o melhor resultado da história do Brasil no esqui cross-country

Atleta acreano alcança resultado inédito nos Jogos Olímpicos de Inverno e mira o top 30 em Milão-Cortina 2026

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Por Eleonor Rodrigues e Ranelly Yasmim Pinheiro

O calor e a umidade fazem parte da rotina no Acre, onde rios e florestas densas compõem a paisagem amazônica. A milhares de quilômetros, o cenário é outro: temperaturas abaixo de zero, florestas cobertas de neve e cursos de água congelados. A mudança de ambiente também muda o ritmo, o que antes era tranquilo ganha velocidade, a adrenalina e a prática de esportes de inverno, como o esqui, transformam o frio intenso em experiência e contato com a natureza

Nascido em Rio Branco, no Acre, Manex Salsamendi Silva, de 23 anos, participa pela segunda vez das Olimpíadas de Inverno, na modalidade esqui cross-country. Sua estreia ocorreu na edição de Pequim 2022, e agora ele compete em Milão-Cortina 2026.

Na edição dos jogos de 2026, atleta estreou na prova do Sprint Clássico e conquistou uma posição histórica ao se tornar o primeiro brasileiro a alcançar a 48ª colocação nos Jogos, com o tempo de 3min25s48. Já no dia 13 de fevereiro, ele disputa a prova dos 10 km livre, a partir das 6h30, no horário do Acre.

Eliminatórias do Sprint Clássico. Foto: Gabriel Heusi/COB

Manex Silva mudou-se para o país Basco, localizado entre o norte da Espanha e sudoeste da França, quando tinha apenas dois anos. Aos oito foi para a região mais ao norte que é cercada por montanhas e que neva bastante durante o inverno. Por lá começou a praticar esqui cross-country no clube da região com os amigos da vila.

Crescido entre a cultura brasileira e basca, o acreano conta que não foi difícil escolher representar o Brasil ao invés da Espanha. Em casa, Manex falava português com a mãe e aprendia da cultura brasileira, e com o pai, da cultura basca e falando o euskera.

“Lá em casa eu sempre me senti brasileiro e basco, e não tanto espanhol, então não foi uma escolha muito difícil poder representar o Brasil nesse esporte. Além disso, foi mais fácil também porque naquela época que eu comecei a competir a Federação da Espanha não ajudava tanto os atletas novos e eu encontrei uma oportunidade com a Federação Brasileira. E, na verdade, estou muito feliz com aquela decisão que eu tomei faz anos”.

Manex ainda criança. Foto: Instagram/manexsalsamendi

Com treinos intensos, uma rotina regrada na alimentação, estudos, atividade física e trabalho mental, o atleta revela que seu objetivo a longo prazo é poder competir com os melhores esquiadores do mundo. No entanto, com uma mente focada e um tanto realista, conta que ainda não está nesse nível.

Para as Olimpíadas de 2026, sua meta é estar no meio da tabela ou pelo menos entre os 30 ou 40 primeiros colocados. Na sua primeira competição de sprint, o atleta fico no top 50 primeiros.

“Poder representar o Brasil nos jogos olímpicos é bem legal e uma honra pra mim porque mesmo o Brasil não tendo sido um país muito forte nos esportes de inverno, esses últimos anos a confederação pegou muita força e respeito, porque cada vez tem esportistas melhores”, conta.

Se o Brasil está de olho nos 14 atletas que disputam as Olimpíadas, o Acre está de olho no menino dos seus olhos. Ao ser questionado sobre o que faz ele se identificar como acreano, Manex não hesita:

“Eu tenho boas lembranças lá do Acre, mesmo tendo saído muito cedo dali pra morar na Espanha. Eu voltei várias vezes lá e eu ainda tenho familiares: tios, tias e primos. E eu acho que minha mãe sempre me transmitiu essa cultura brasileira e lá do Acre. Eu sempre me senti representado pelo Acre e pelo Brasil também”.

“Poder representar o Brasil nos jogos olímpicos é bem legal e uma honra pra mim”. Foto: Instagram/manexsalsamendi

Ele conta que quer demonstrar para o Brasil e para o mundo que o país pode ser forte no cross-country. Além disso, busca inspirar brasileiros que tem a oportunidade de competir em esportes de inverno para também representarem o Brasil. Como o esporte na neve não é tão comum no Brasil, os atletas da neve carregam uma responsabilidade especial.

“Sim, eu acho que temos a responsabilidade de poder mostrar pro Brasil esses esportes não tão conhecidos. Poder ter uma boa representação e mostrar pra eles que o Brasil mesmo não tendo neve pode chegar a ser um país bom nos jogos e mostrar pro resto do mundo também que mesmo sendo um país sem muita tradição de neve a gente pode chegar até o topo”.

O Brasil é um país tropical, e por tanto, não investe tanto em esportes de inverno. O acreano é amparado pelo Bolsa Atleta do Governo do Brasil, que investe cerca de R$1,6 milhões ao longo de sua carreira. No entanto, esse valor não é o suficiente para arcar com as despesas de preparar um atleta de alto nível.

“Estamos fazendo um bom trabalho como time. Os países grandes têm muitos patrocinadores, então podem investir muito dinheiro em material, em preparação. O Brasil ainda pode melhorar muito nesse aspecto,” explica o acreano.

O atleta conquistou uma posição histórica ao se tornar o primeiro brasileiro a alcançar a 48ª colocação nos Jogos. Foto: Gabriel Heusi/COB

Conquistas

Manex Silva é dono dos melhores resultados masculinos da história do Brasil no esqui  cross-country.  Ele  conquistou  a  melhor  pontuação  FIS  –  sistema de ranqueamento da Federação Internacional de Esqui e Snowboard – da história do Brasil entre os homens, com 81.36 pontos, na Copa do Mundo de Oberhof, em 2026. E, nos Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude de Lausanne 2020, conquistou o 39º lugar no sprint.

Em Beijing 2022 fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a disputar quatro provas em uma mesma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, além de ser o primeiro do país a atingir o índice A de classificação olímpica – menos de 150 pontos FIS. Na mesma edição, foi escolhido porta-bandeira do Brasil na Cerimônia de Encerramento e terminou o sprint na 71ª colocação, sendo o melhor sul-americano da prova, e ficando em 58º nos 50 km.

O Esqui Cross-country é um dos esportes mais difíceis e tradicionais das Olimpíadas de Inverno. Foto: Gabriel Heusi/COB

A história do Esqui Cross-country

O Esqui Cross-country é um esporte de resistência, e considerado um dos mais difíceis e tradicionais das Olimpíadas de Inverno. Cross-country, em inglês significa “atravessar o país”, e por séculos, nos países nórdicos as pessoas usavam pedaços de madeira para esquiar e cruzar grandes distâncias.

No século XIX, esta prática se tornou um esporte e os esquis se modernizaram. Os atletas percorrem distâncias variadas com esquis impulsionados por bastões, em duas diferentes técnicas: a Clássica e a Skating. Na primeira, os atletas percorrem trilhos previamente preparados, com os skis paralelos entre si.

Já a técnica Skating é mais veloz e o atleta “empurra” o ski para “fora” em um ângulo de 45 graus, ou em “V”, imitando a patinação no gelo. Outra modalidade é skiathlon, em que os atletas apresentam ambas as técnicas. Nesta Olimpíada ocorrerão 12 eventos de esqui cross-country, com homens e mulheres percorrendo as mesmas distâncias pela primeira vez na história.

Redação

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