Especiais
Churrascaria Rio Branco cresce às margens do Rio Acre e mantém tradição familiar há quase três décadas
O restaurante foi fundado por uma família goiana em 1997, e faz história no cotidiano dos acreanos há 27 anos
Publicado há
20 horas atrásem
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Redação
Registro aéreo da enchente de 2015. Foto: cedida.
Por Beatriz Ohrana e Rosely Cabral
De frente para o Rio Acre, em uma das áreas mais simbólicas de Rio Branco, a Churrascaria Rio Branco construiu uma trajetória que mistura tradição familiar, sabor caseiro e resistência às cheias. Fundado em 1997 por um casal goiano que chegou ao Acre com sete filhos, o restaurante atravessou quase três décadas acompanhando o crescimento da cidade e hoje segue sob a administração de Ana Cléia Borges, mantendo viva uma história que faz parte da memória afetiva de gerações de acreanos.
A história da Churrascaria Rio Branco começa no mesmo ano em que a família Borges chegou ao Acre. Vindos do estado de Goiás, Coraci Cândida dos Santos Borges e Marcelino de Azevedo Borges desembarcaram em Rio Branco em 1997 com os sete filhos, em busca de novas oportunidades. Pouco tempo depois, o casal decidiu investir no ramo da alimentação e abriu o primeiro restaurante ao lado do antigo Formigão, no centro da capital.
A chegada à área da Gameleira, onde hoje funciona uma das unidades mais conhecidas da churrascaria, não foi resultado de planejamento estratégico. Segundo Ana Cléia, a mudança aconteceu a partir de uma oportunidade de negócio. “Não foi nada premeditado. Foi uma chance que surgiu e meu pai acreditou”, relembra.
Com o passar dos anos, o restaurante cresceu junto com a cidade, acompanhando o aumento do fluxo urbano e as transformações da região central. Atualmente, a unidade da Gameleira está sob a responsabilidade de Ana Cléia Borges, que dá continuidade ao legado familiar iniciado pelos pais. O restaurante conta hoje com uma equipe de cerca de 10 funcionários, entre três churrasqueiros, balconistas e profissionais da copa, todos fundamentais para o funcionamento do dia a dia. Para Ana Cléia, o sucesso do negócio está diretamente ligado ao envolvimento de quem faz parte da rotina do restaurante. “Para qualquer negócio crescer, é preciso amar o que se faz”, afirma.

Equipe da Churrascaria Rio Branco. Foto: cedida
A localização às margens do Rio Acre é um dos principais atrativos do espaço, mas também impõe desafios constantes. Em períodos de cheia, a vista privilegiada atrai curiosos e visitantes, aumentando o movimento. Ao mesmo tempo, quando a água ultrapassa a calçada e invade o restaurante, os prejuízos se tornam inevitáveis.
“Quando a água entra, começamos um processo de desmontagem e esperamos baixar para limpar e reformar”, explica Ana Cléia. Apesar das dificuldades, ela afirma que nunca pensou em desistir. “Temos clientes fiéis, fruto de um trabalho de muitos anos. No primeiro dia de reabertura, geralmente já conseguimos arrecadar o suficiente para cobrir as despesas iniciais”.
Cheias que marcam a história
Entre os episódios mais marcantes, a enchente de 2015 permanece viva na memória da família. Naquele ano, a água chegou a 88 centímetros de altura dentro do restaurante e demorou mais de 15 dias para começar a baixar, interrompendo as atividades por um longo período e exigindo uma grande força de reconstrução.

Fachada do estabelecimento. Foto: Rosely cabral
Mesmo sem adaptações estruturais específicas para enfrentar as cheias, a administração avalia medidas futuras que permitam reduzir impactos. Ainda assim, a palavra que guia a rotina do restaurante segue sendo inovação. “Inovar e fazer tudo com amor. Quando o cliente percebe isso, o negócio evolui”, destaca Ana Cléia
Hoje, após quase três décadas, a Churrascaria Rio Branco ultrapassa a função de restaurante e se consolida como um espaço de memória coletiva. O local já recebeu diferentes gerações da mesma família, que acompanham a história desde os primeiros anos no centro da cidade. Além da unidade da Gameleira, a marca conta com restaurante próximo à OCA, uma unidade em Ji-Paraná, em Rondônia, e planos de expansão.
A tradição também se preserva na cozinha. O tempero é um dos diferenciais mais reconhecidos pelos clientes e carrega a herança goiana de dona Coraci, primeira cozinheira do restaurante. A mistura com sabores acreanos resultou em uma identidade própria, facilmente reconhecida por visitantes de outros estados. “Muitos dizem que a comida lembra tempero goiano. Esse é o nosso segredinho”, conta Ana Cléia.
Para o futuro, a administradora afirma que o desafio é honrar o peso e a responsabilidade da marca Churrascaria Rio Branco. Os planos incluem seguir inovando no ambiente, no cardápio e no atendimento, sempre mantendo o cliente no centro das decisões.
Assim como o Rio Acre, que enfrenta cheias e vazantes ao longo do ano, a Churrascaria Rio Branco segue firme às suas margens, atravessando o tempo e reforçando seu papel na história e na identidade cultural de Rio Branco.
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Cine Teatro Recreio resiste às cheias do Rio Acre
Especiais
Cidade do Povo: do refúgio das enchentes ao medo da violência
Criado para receber famílias retiradas de áreas de risco do Rio Acre, conjunto habitacional enfrenta altos índices de criminalidade e volta ao debate público após episódio recente
Publicado há
2 semanas atrásem
13 de março de 2026por
Redação
Por Diogo José e Vitória Messias
Após perder a casa onde morava com a mãe no bairro Taquari durante a grande enchente de 2015, M.J., que prefere não se identificar, encontrou na Cidade do Povo a oportunidade de recomeçar. Naquele ano, o Rio Acre atingiu a marca histórica de 18,40 metros, a maior registrada, segundo a Defesa Civil do Acre. A água cobriu completamente a residência da família, destruindo grande parte dos pertences.

Lixo e entulhos acumulados no bairro Taquari após a enchente de 2015 em Rio Branco. Foto: Aline Nascimento.
Sem reposição dos bens perdidos, a família foi incluída no cadastro de programas habitacionais do governo, assim como outros moradores das áreas atingidas pela cheia. No entanto, passados 11 anos da inauguração do bairro, M.J. afirma que parte dos residentes da Cidade do Povo convivem atualmente com outro tipo de preocupação: a segurança.
“Existem regras aqui dentro: se você não mexer com ninguém, ninguém mexe com você. Acaba que temos que aprender a lidar com isso no dia a dia, com essa insegurança”, afirma.
O que para muitas famílias que vivem em áreas consideradas de risco parecia representar um novo começo, com o passar dos anos passou a ser visto por parte da população como última alternativa. M.J. afirma que, apesar de morar no bairro e não ter planos de sair, a Cidade do Povo ainda enfrenta desafios relacionados também à infraestrutura e à localização.
“Apesar de ter saído do Taquari por conta da cheia, ainda assim tem vezes que chove muito aqui e também alaga. Sem contar a distância. Aqui é muito longe de tudo, principalmente se não tiver transporte”, relata.

Vista aérea do bairro Cidade do Povo, em Rio Branco. Imagem: Google Earth.
Dados do Ministério Público do Acre (MPAC), divulgados no último Anuário de Indicadores de Violência, mostram que a Cidade do Povo aparece entre os bairros com maior incidência de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) em Rio Branco entre os anos de 2021 e 2024.
Segundo o levantamento, em 2021 foram registrados cinco casos no bairro, o que corresponde a 8,6% do total de ocorrências. Em 2022, o número se manteve em cinco registros, representando 11,9%. Já em 2023 houve aumento significativo, com 13 casos, correspondendo a 21% das ocorrências. Em 2024, o número caiu para seis casos, equivalente a 12% do total.

Dados: MPAC. Gráfico: IA Google Gemini
Um caso recente de violência reforçou a preocupação de moradores com a segurança no bairro. Na noite da última quinta-feira, 12, dois trabalhadores da construção civil foram sequestrados e executados em uma área de mata próxima à rua Geraldo Leite, no bairro Cidade do Povo.

Remoção dos corpos das vítimas pelo Instituto Médico Legal (IML), após o crime registrado nesta quinta-feira, 12. Imagem: TV Gazeta
O crime repercutiu nas redes sociais e gerou comoção entre moradores e internautas. Em uma publicação sobre o caso no Instagram do portal de notícias ContilNet, diversos comentários expressaram indignação e preocupação com a situação de segurança na região. Entre as manifestações, internautas criticaram a falta de políticas públicas eficazes para enfrentar a criminalidade.
Comentários como “Esse povoado deveria ser extinto”, “E o governo construindo casa num lugar desse”, “Cidade do Povo foi criada para isolar a criminalidade, no entanto a segurança pública não deu conta” e “Daqui a pouco ninguém nem vai querer entrar nesse bairro” ilustram a percepção de parte da população diante da violência registrada na região. O episódio reforça o debate sobre os desafios enfrentados pela Cidade do Povo.

Comentários de internautas na publicação da notícia nas redes sociais. Imagem: Instagram/ContilNet.
Um bairro que nasceu da esperança
Planejada inicialmente com o lema “um recomeço com dignidade”, o bairro Cidade do Povo foi criado em 2014 por meio do programa Pró-Moradia do Governo Federal brasileiro, que busca financiar projetos habitacionais voltados para famílias de baixa renda e garantir melhor qualidade de vida a moradores de áreas de risco, principalmente aqueles afetados pelas enchentes que atingem a capital acreana. Com mais de 4 mil casas, a Cidade do Povo abriga atualmente mais de 15 mil moradores.

Casas da Cidade do Povo, entregues em 2014. Foto: Secretaria de Habitação do Acre (Sehab)
Apesar disso, o cenário revela uma realidade mais complexa, o que tem influenciado também a adesão dessas famílias vulneráveis ao programa. Fazendo com que algumas pessoas prefiram permanecer em áreas consideradas de risco.
Kessya Patrícia, que vive no bairro Cadeia Velha há 21 anos, não pensa em deixar a região, apesar das cheias recorrentes. “O bairro é atingido pela enchente, e durante a cheia a gente precisa sair de casa. Nossa casa só foi invadida pela água uma vez, mas a rua alaga e fica impossível sair para trabalhar ou estudar”, explica.
Para ela, apesar de ter direito ao benefício, a permanência no bairro, além de ter relação direta com a família, que vive próxima a casa, é um local bem localizado e seguro. “Mesmo com os riscos, nosso bairro é bem assistido e tem seus prós e contras”, conclui.
Reassentamento habitacional
As pessoas atingidas pelas enchentes estão entre os principais públicos da política chamada de reassentamento habitacional. Segundo o coordenador de Gestão de Riscos e Desastres da Defesa Civil do Acre, Pedro Henrique Corrêa, retirar famílias de áreas vulneráveis é uma estratégia importante dentro das ações de adaptação às mudanças climáticas.
“Quando falamos de reassentamento habitacional como política de adaptação a enchentes como as do Rio Acre, uma das medidas é exatamente remover o risco, ou seja, retirar as pessoas de áreas vulneráveis. No entanto, essa medida sozinha não é suficiente como política de adaptação climática, porque existem muitas outras variáveis envolvidas”, afirma.
Ele também aponta que há relação entre o aumento desses episódios e as mudanças climáticas, que têm intensificado fenômenos naturais extremos. “As mudanças climáticas têm feito com que os fenômenos sejam cada vez maiores e mais prejudiciais. Desde 2019, todos os anos, Rio Branco tem registrado uma ou mais enchentes. Em 2025, por exemplo, tivemos três transbordamentos do rio”, explica.

Enchente do Rio Acre em 2026. Foto: Dayane Leite
Outro ponto destacado é que áreas consideradas seguras atualmente podem se tornar vulneráveis no futuro, dependendo das transformações ambientais ou urbanas. Segundo ele, há um plano governamental integrado para retirar populações dessas áreas mais vulneráveis.
“Existe um planejamento envolvendo governo federal, estadual e municipal por meio de projetos habitacionais. Nessas iniciativas, as populações que vivem em áreas vulneráveis costumam ter prioridade”, acrescenta.
Espaços de vulnerabilidade
Para o cientista social e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Euclides, o fenômeno envolvendo projetos habitacionais e criminalidade não é exclusivo do local, muito menos do Acre. “O aumento da criminalidade está ligado a transformações sociais, econômicas e tecnológicas que o estado não acompanhou. É um fenômeno complexo, que se reproduz por décadas, e envolve desde políticas equivocadas de segurança pública até o crescimento das organizações criminosas”, explica.
Segundo ele, a forma como bairros planejados como a Cidade do Povo foram ocupados, afastados de centros urbanos, com infraestrutura inicial custosa e serviços públicos pouco mantidos, contribui para criar “espaços de vulnerabilidade”, onde jovens e famílias muitas vezes encontram poucas oportunidades de educação, emprego e lazer. É nesse vazio que grupos organizados se instalam, controlando territórios e impondo medo.
“Não se trata apenas de criminalidade. É a sociedade que, por desigualdade e abandono, oferece terreno fértil para essas atividades. O crime organizado preenche lacunas que o estado deixou, do acesso à justiça à presença da polícia, passando por educação e assistência social”, acrescenta Euclides.
Para ele, políticas públicas que priorizem a manutenção de serviços, o engajamento comunitário e a integração urbana poderiam reduzir esses riscos. “Investir apenas em repressão é combater o efeito, não a causa. É preciso desenvolver projetos que envolvam a comunidade, escolas, saúde, segurança e o próprio espaço público. Um bairro planejado que não garante cidadania, acaba virando território de disputa”, resume.
A busca por segurança
Diante desse cenário, órgãos de segurança pública têm buscado ampliar estratégias de combate à atuação de organizações criminosas no estado. Uma das iniciativas recentes é a criação de um canal específico para recebimento de denúncias da população.
O canal Investigador Cidadão foi lançado pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) em 2025, voltado ao enfrentamento de organizações criminosas que atuam no estado. A ferramenta permite que moradores enviem informações anônimas que possam auxiliar investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ou por outros órgãos de segurança pública.

Canal Investigador Cidadão permite o envio de denúncias anônimas para auxiliar investigações contra o crime organizado no Acre. Imagem: MPAC
Por meio do canal, é possível encaminhar textos, vídeos e áudios, além de realizar denúncias de forma anônima pelo WhatsApp, (68) 99993-2414. Segundo o site do MPAC, o objetivo da iniciativa é incentivar a participação da população no combate ao crime organizado e ampliar a rede de informações que auxiliam as investigações.
Entre os tipos de denúncias que podem ser feitas estão a identificação de membros de organizações criminosas, informações sobre lideranças e hierarquias dentro das facções, além da localização de foragidos da Justiça.
O canal também recebe relatos sobre torturas aplicadas por integrantes de grupos criminosos, bem como denúncias de crimes como homicídios, tráfico de drogas, sequestros, roubos e extorsão de comerciantes.
Casas erguidas, esperança em construção
Entre enchentes que forçam partidas, políticas públicas que tentam oferecer novos caminhos e desafios que persistem no cotidiano, a história da Cidade do Povo revela uma realidade marcada por contradições: o bairro que nasceu como símbolo de recomeço também convive com dificuldades estruturais, distância e preocupações com a segurança.
Ainda assim, para muitas famílias que perderam tudo nas águas do Rio Acre, o lugar representou a possibilidade concreta de reconstruir a vida pouco a pouco. M.J., que viu a antiga casa desaparecer sob a cheia de 2015, reafirma que permanecer ali é também um exercício de esperança.
“A gente perdeu muita coisa naquela enchente, mas aqui pelo menos tivemos a chance de começar de novo. A esperança da gente é que, com o tempo, o bairro também melhore e vire de verdade o lugar seguro que prometeram pra gente”.
Assim como o rio que um dia levou sua casa, a esperança também segue correndo em meio a insegurança da Cidade do Povo.
*A equipe do A Catraia entrou em contato com o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) para saber como o órgão avalia os índices de violência registrados na Cidade do Povo. No entanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.
Especiais
Cine Teatro Recreio resiste às cheias do Rio Acre
Em uma década, o teatro histórico precisou fechar ao menos três vezes após o Rio Acre ultrapassar os 17 metros
Publicado há
3 semanas atrásem
27 de fevereiro de 2026por
Redação
Interior do Cine Teatro Recreio alagado durante a cheia do Rio Acre, em março de 2024. O espaço precisou ser fechado por segurança e preservação do patrimônio. Imagem: Eldérico Silva
Por Daniel Alysson e Davi Mansour
O Cine Teatro Recreio ocupa um lugar central na história cultural de Rio Branco. Localizado no calçadão da Gameleira, às margens do Rio Acre, o espaço atravessou quase um século como ponto de exibição de filmes, espetáculos de música, dança, teatro entre outros eventos culturais. Essa mesma localização, no entanto, tornou o Cine um dos equipamentos públicos mais expostos às cheias do rio, que ao longo dos anos provocaram alagamentos, paralisações e prejuízos recorrentes.
Nos últimos dez anos, o espaço foi afetado pelas grandes enchentes de 2015, 2023 e 2024, quando o nível do Rio Acre ultrapassou os 17 metros e invadiu o Segundo Distrito da capital. Em todos esses episódios, o Cine Teatro precisou ser fechado temporariamente por questões de segurança e preservação do patrimônio.

Fachada do Cine Teatro Recreio. Foto: Ingrid Kelly
Além das cheias provocadas pela subida do Rio Acre, o Cine Teatro Recreio enfrenta dificuldades relacionadas à manutenção do prédio e às condições urbanas do entorno. Em períodos de enchente, o alagamento do espaço exige a retirada de equipamentos, a suspensão da programação cultural e intervenções emergenciais para evitar danos maiores à estrutura. As chuvas intensas passaram a causar transtornos, ampliando a frequência das paralisações e evidenciando a vulnerabilidade do prédio histórico diante das mudanças na dinâmica urbana da Gameleira.
Um patrimônio que ajudou a formar a cidade
O Cine Teatro Recreio surgiu ainda nas primeiras décadas do século XX, quando Rio Branco dava seus primeiros passos como núcleo urbano. Inicialmente conhecido como Cine Ideal e depois Cine Éden, o prédio foi inaugurado oficialmente como Cine Teatro Recreio em 13 de junho de 1948, consolidando-se como uma das principais casas de espetáculo da capital.
Ao longo das décadas, o Cine Teatro Recreio concentrou exibições regulares de filmes, sessões especiais e apresentações artísticas que marcaram a vida cultural de Rio Branco. No Segundo Distrito, o espaço se firmou como um dos principais pontos de encontro do público com o cinema e as artes, sendo frequentado por gerações de moradores que tiveram ali uma das principais opções de lazer em uma cidade que ainda contava com poucas alternativas culturais organizadas.
Antes de assumir definitivamente o nome que mantém até hoje, o prédio integrava a rotina urbana quando funcionava como Cine Éden. Inaugurado em 1946, no Calçadão da Gameleira, o cinema de rua exibia produções nacionais e estrangeiras, além de seriados bastante populares à época, especialmente os ambientados no velho oeste norte-americano. Registros históricos indicam que títulos como Tambores de Fu Manchu, Adaga de Salomão, Perigos de Nioka e O Segredo da Ilha Misteriosa eram repetidos em cartaz, atraindo um público fiel, mesmo diante da dificuldade de acesso a novos filmes, que chegavam a Rio Branco com meses de atraso por via fluvial.

Produção estrangeira exibida no Cine Éden: Tambores de Fu Manchu, seriado popular entre o público do cinema na década de 1940. Imagem: arquivo MUBI
A programação do Cine Éden também incluía longas-metragens de aventura, faroestes e dramas, com nomes populares do cinema da época, como Roy Rogers, Bill Elliott e Charles Starrett, além de exibições especiais que combinavam cinema e apresentações ao vivo. O espaço não era considerado uma sala de luxo nem voltada à elite local. Classificado nos registros da época como um cinema “popular”, o Éden funcionava como ponto de encontro acessível, frequentado por trabalhadores, famílias e jovens, em sessões que reuniam públicos diversos.
Em reportagem da época, o antigo frequentador Raimundo Ferreira, morador do bairro Quinze, no Segundo Distrito, relatou que “quando o alto-falante tocava anunciando as matinês, as pessoas que iam de um lado a outro corriam para a sessão, esperando com ansiedade os filmes, que demoravam a chegar cerca de três meses, porque tudo era feito por transporte fluvial, eram as chatas que traziam os filmes”.

Fachada do Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco, onde funcionou o cinema que antecedeu o atual Cine Teatro Recreio. Imagem: arquivo DPHC
Além das projeções, o palco do Cine Éden também recebia apresentações musicais e eventos culturais. Em 1948, por exemplo, o cinema sediou a despedida do tenor pernambucano José Brasileiro, em uma noite que combinou apresentação ao vivo e exibição de filme, prática comum naquele período. Ao longo dos anos seguintes, o espaço passou por adaptações técnicas, incluindo a modernização das lentes para formatos como Cinemascope e Vistavision, acompanhando as transformações do cinema e da própria cidade.
Essa memória também aparece no relato de Terezinha Maria, que chegou ao Acre vinda da Bahia ainda jovem e passou a frequentar o Cine Teatro Recreio nos anos seguintes à inauguração oficial. “Era um dos poucos lugares onde a gente se encontrava para se distrair.
O cinema fazia parte da rotina. As pessoas se arrumavam para ir, encontravam conhecidos, conversavam antes da sessão começar”, lembra. Segundo ela, o Cine Teatro reunia públicos diferentes e funcionava como ponto de convivência em uma cidade que ainda se estruturava. “Não era só assistir ao filme. A gente ia para ver o filme, mas também para ver as pessoas, saber das novidades, passar a noite ali.”

O público acompanhou a sessão no Cine Éden, no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco. Imagem: arquivo
Segundo a historiadora da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Iri Nobre, o Cine Teatro sempre teve papel central na formação cultural de Rio Branco. “Muitas pessoas iniciaram suas trajetórias artísticas ali. Mesmo hoje, quando existem outros espaços culturais, o Cine Teatro continua sendo procurado, principalmente para exibição audiovisual e festivais de cinema”, afirma.
Vulnerabilidade histórica em área de várzea
A vulnerabilidade do Cine Teatro Recreio está diretamente ligada à forma como Rio Branco se desenvolveu. O prédio está localizado em uma área de várzea, próxima ao leito do Rio Acre, região naturalmente sujeita a alagamentos durante o período chuvoso, que vai de dezembro a março.
Apesar disso, o edifício não foi projetado para conviver com cheias frequentes. “Não há registros de que o prédio tenha sido pensado para resistir à subida do rio. Na década de 1920, a relação da cidade com o rio era outra, e não existia preocupação com hidrografia ou drenagem urbana”, explica a historiadora.

Registro comparativo do Calçadão da Gameleira antes e após a cheia de 2015, que deixou a região alagada com a elevação do nível do Rio Acre. Imagem: Google Street View e Iryá Rodrigues
Na enchente de 2015, considerada a maior da história do Acre, o Rio Acre atingiu 18,40 metros e a água invadiu o interior do Cine Teatro. O espaço permaneceu fechado por cerca de dois meses para recuperação. Segundo a historiadora, não houve perda documental porque o material havia sido retirado preventivamente, e o prédio não abrigava acervo histórico permanente.
Reformas, urbanização e novos problemas
Ao longo dos anos, o Cine Teatro Recreio passou por reformas importantes, como as realizadas em 1987 e 2010. A mais recente incluiu a construção de um novo espaço de alvenaria, numa tentativa de tornar o prédio mais resistente a interrupções causadas pelas cheias do Rio Acre. Apesar das intervenções, os alagamentos continuaram a ocorrer, especialmente nos últimos anos.

Auditório do Cine Teatro Recreio após as reformas da década de 1990, período de retomada das atividades culturais no espaço. Foto: reprodução
Para o arquiteto e chefe da Coordenação de Patrimônio Histórico da Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), Ítalo Facundes, parte da vulnerabilidade atual do Cine Teatro está diretamente relacionada às mudanças ocorridas no entorno do prédio. Segundo ele, intervenções recentes de infraestrutura e saneamento alteraram o comportamento natural da água na região da Gameleira.
“Obras de infraestrutura e saneamento mudaram a dinâmica do solo e do escoamento da água. Hoje, o solo satura mais rapidamente e a drenagem não funciona como deveria. Por isso, o Cine Teatro é um dos primeiros prédios a sentir os alagamentos”, explica.
Facundes destaca que, além da subida do Rio Acre, a água passou a retornar pelo solo e pelo sistema de escoamento urbano. “Antes, o impacto vinha basicamente do transbordamento do rio. Agora, mesmo chuvas intensas já provocam alagamentos internos”, afirma.
Segundo o arquiteto, uma solução definitiva exigiria uma intervenção estrutural profunda, com obras de drenagem de grande porte sob o prédio, o que envolve alto custo e complexidade técnica. Ainda assim, ele ressalta que não há garantia total de proteção em cheias extremas. “Quando o rio sobe muito, não existe solução arquitetônica que segure completamente”, resume.
Fechamentos e impacto cultural
As paralisações frequentes do Cine Teatro Recreio provocam impactos diretos na rotina cultural de Rio Branco. Durante os períodos de cheia, apresentações programadas são suspensas, eventos são cancelados ou adiados, e grupos artísticos precisam buscar outros espaços para ensaios e apresentações, muitas vezes com limitações de estrutura e agenda. A interrupção também afeta festivais, mostras audiovisuais e atividades formativas que costumam ocorrer no espaço.
Para a historiadora Antonia Odiceula de Souza, o fechamento do Cine Teatro durante as cheias não atinge apenas o Segundo Distrito, mas repercute em toda a cidade. “A Gameleira sempre foi um espaço de encontro, lazer e manifestações culturais desde a fundação de Rio Branco. Quando o Cine Teatro fecha, a cidade perde um ponto de referência cultural e simbólica”, afirma.
Ela explica que, por questões de segurança e preservação do patrimônio, o fechamento temporário se torna inevitável nos períodos de cheia. No entanto, ressalta que essas interrupções comprometem a continuidade das atividades culturais e o acesso do público a um dos principais espaços históricos de programação artística da capital.
Funcionamento entre cheias e interrupções
Em março de 2024, com o Rio Acre acima de 17,60 metros, o Cine Teatro Recreio voltou a ser atingido e precisou ser fechado novamente, junto a outros espaços culturais da Gameleira. O episódio evidenciou um problema recorrente: a dificuldade de manter em funcionamento um patrimônio histórico localizado em uma área cada vez mais impactada por eventos climáticos extremos e por intervenções urbanas que alteraram a dinâmica natural do espaço.
Enquanto soluções estruturais mais amplas não são viabilizadas, o Cine Teatro Recreio segue funcionando entre períodos de reabertura e novas interrupções. Um espaço que ajudou a formar a vida cultural de Rio Branco e que, ainda hoje, depende do comportamento do Rio Acre para manter suas atividades.
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As três maiores catástrofes hídricas de Rio Branco
Enchentes de 2015, 2023 e 2024 marcaram a capital acreana, afetaram milhares de pessoas e expuseram a vulnerabilidade da cidade diante da força do Rio Acre
Publicado há
1 mês atrásem
20 de fevereiro de 2026por
Redação
Por Ana Keli Flores e Raíça Sousa
Rio Branco convive historicamente com as cheias do Rio Acre, fenômeno que impacta diretamente a rotina, a economia e a segurança da população. Ao longo dos anos, o nível do rio ultrapassou marcas críticas diversas vezes, mas três enchentes se destacam pela gravidade e pelos danos causados: às de 2015, 2023 e 2024.

Enchente histórica que atingiu Rio Branco em 2015, provocando graves impactos econômicos e estruturais na cidade. Foto: Caio Fulgêncio
A maior enchente registrada ocorreu em março de 2015, quando o rio atingiu 18,40 metros. O transbordamento alagou o centro comercial, interrompeu vias e provocou a interdição do Terminal Urbano de Rio Branco, afetando diretamente o transporte coletivo da cidade. Mais de 100 mil pessoas foram atingidas, sobretudo nos bairros Aeroporto Velho, Taquari e 6 de Agosto. O Parque de Exposições Wildy Viana foi utilizado como abrigo emergencial para famílias que perderam suas casas.

Registro da grande alagação de 2015 em Rio Branco, considerada uma das maiores da história da capital acreana. Foto: Caio Fulgêncio
Em março de 2024, o nível do Rio Acre chegou a 17,89 metros, configurando a segunda maior cheia da história da capital. O episódio foi marcado pela rápida elevação das águas, o que dificultou a retirada de moradores e de seus pertences. A situação também atingiu municípios do interior do estado, como Brasiléia e Epitaciolândia, ampliando os impactos da enchente em todo o Acre.

A enchente de 2024 voltou a atingir Rio Branco, deixando bairros alagados e milhares de famílias impactadas pelo transbordamento dos rios. Foto: Marcos Vicentti
Já a cheia de 2023 alcançou 17,72 metros e teve como principal característica a combinação entre o transbordamento do rio e a elevação repentina dos igarapés urbanos. Chuvas intensas provocaram alagamentos em diferentes bairros antes mesmo do rio atingir a cota de transbordamento, surpreendendo moradores e órgãos responsáveis pela resposta emergencial.

Enchente de 2023 atingiu Rio Branco, causando alagamentos em diversos bairros e afetando centenas de famílias. Foto: Marcos Vicentti
A tabela abaixo ajuda a visualizar como essas três marcas superam drasticamente a cota de transbordo da cidade, que é de 14,00 metros.
| Posição | Ano | Marca atingida |
| 1º | 2015 | 18,40 metros |
| 2º | 2024 | 17,89 metros |
| 3º | 2023 | 17,72 metros |
Luís Carlos, mototaxista, de 47 anos, foi uma das vítimas das enchentes provocadas pelo transbordamento dos igarapés em março de 2023. Morador do bairro Santa Inês, em Rio Branco, foi afetado pela inundação do igarapé Judia, que transbordou após o aumento do volume de água de outros igarapés da região.
“Quando me dei conta, a água já estava dentro de casa, na altura da cintura. Perdi um guarda-roupa, um jogo de estofado, um armário de cozinha, além de outros bens que a gente não consegue mensurar”, relata.
Monitoramento e segurança por meio de medidas preventivas
“Houve avanços significativos, mas ainda há muito a evoluir”, destaca o Capitão Rogério Freitas de Oliveira, da Defesa Civil de Rio Branco. Em 2025 foi lançado o sistema Defesa Civil Alerta, que envia avisos antecipados diretamente aos celulares da população, permitindo a adoção de medidas preventivas.
Já o monitoramento do igarapé São Francisco é realizado por meio de régua medidora e da Plataforma de Coleta de Dados (PCD), que acompanha, em tempo real, o nível do rio e outros indicadores hidrológicos.
Um dos fatores que contribuem para o agravamento das enchentes é a urbanização do solo.
“A pavimentação urbana dificulta a infiltração da água, favorecendo alagamentos, enquanto a retirada das matas ciliares contribui para a erosão e o assoreamento, intensificando os impactos das cheias”, explica.
Ele ressalta a necessidade de ações estruturantes, como obras de contenção, e não estruturantes, como a restrição de novas ocupações em áreas impróprias para moradia, incluindo a implantação de parques urbanos nessas regiões. Um exemplo de ação estruturante é a construção, em 2014, da Cidade do Povo, criada com o objetivo de garantir moradia digna às famílias que viviam em áreas de risco.
De acordo com o Capitão Oliveira, anteriormente a retirada temporária das famílias das áreas de risco ocorria quando o rio atingia 14 metros. Atualmente, essa medida é adotada quando o nível chega entre 15 e 15,5 metros. “Isso representa um avanço, pois garante mais tempo de preparação e resposta às famílias afetadas”, afirma.
Diante da recorrência das cheias, dos impactos sociais causados e das medidas adotadas pela Defesa Civil, a população segue em alerta.
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