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Rio Branco sem água: Saerb admite que solução definitiva exige grandes reservatórios

Diretor afirma que a captação da ETA 2 funciona após ajustes técnicos, mas o terreno
continua instável

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Por André Gonzaga

Rio Branco convive com uma sucessão de crises no abastecimento. Desde 2020, quando uma situação de emergência foi decretada por causa da movimentação de terra na Estação de Tratamento de Água (ETA) 2, a cidade passou a viver entre decretos e improvisos. Em 2024, o desabamento parcial da estrutura deixou hospitais, escolas e bairros inteiros sem fornecimento. O governo federal reconheceu a situação crítica e liberou recursos, mas a instabilidade do solo manteve o risco.  

No segundo semestre de 2025, os problemas se multiplicaram. Em setembro, bairros como Calafate e Tucumã enfrentaram três dias de torneiras secas. Em outubro, a turbidez elevada do Rio Acre deixou regiões sem água por mais de nove dias. Em dezembro, o rompimento de uma adutora no Centro comprometeu o fornecimento na Cadeia Velha e Habitasa.  

Estação de Tratamento de Água (ETA 2). Foto: Marcos Araújo/Secom

Crise prolongada expõe improvisos e escolhas políticas

Enquanto a população enfrentava a escassez, o prefeito Tião Bocalom (PL), que é um dos pré-candidatos ao governo, destinou recursos milionários para a construção de obras viárias. Do fim de 2024 para cá, o Executivo municipal já ergueu dois elevados: Mamédio Bittar, em andamento, e Beth Bocalom, com custo de quase R$ 18 milhões. Já um terceiro está previsto na região do Horto Florestal.

Em entrevista concedida ao A Catraia em janeiro de 2026, o diretor-presidente do Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco, Enoque Pereira, reconheceu que as medidas são paliativas. Ele explicou que a captação da ETA 2 foi substituída por equipamentos flexíveis, chamados PADs, que se adaptam ao terreno instável.

“Um novo desarenador será construído em área mais segura, próximo à estação, para reduzir até 80% das impurezas da água antes do tratamento. A licitação já foi concluída e pequenas intervenções estão em andamento na captação”, diz.  

Pereira afirmou que estabilizar o solo da ETA 2 é praticamente impossível e citou rachaduras em prédios próximos, a exemplo do abandonado Comfort Hotel, como evidência da fragilidade da região. Estruturas de concreto, segundo ele, correm risco de ruir. Por isso, a estratégia tem sido investir em equipamentos móveis, que podem ser transferidos para outro local caso seja necessário.  

Enoque Pereira, diretor-presidente do Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco. Foto: Marcos Araújo/Secom

Para garantir estabilidade no fornecimento, o diretor defende a construção de grandes reservatórios ou açudes. A proposta prevê cerca de 600 hectares de lâmina d’água, reduzindo a dependência do Rio Acre e protegendo o sistema das cheias e secas. O projeto, porém, exige recursos milionários e articulação política, como emendas parlamentares.  

A cronologia mostra que a crise não é apenas ambiental. É também resultado de escolhas políticas que deixaram de lado o essencial: água potável. A fala de Enoque Pereira traz um horizonte de planejamento, mas reforça que a solução exige investimentos robustos e articulação política.  

Até lá, Rio Branco seguirá refém de improvisos, decretos e da instabilidade de um terreno que ameaça ruir. Nas eleições deste ano, será que algum candidato vai se comprometer com a resolução do problema de forma definitiva? A resposta está no voto.

Redação

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Cidade do Povo: do refúgio das enchentes ao medo da violência

Criado para receber famílias retiradas de áreas de risco do Rio Acre, conjunto habitacional enfrenta hoje altos índices de criminalidade e volta ao debate público após episódio recente

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Por Diogo José e Vitória Messias

Após perder a casa onde morava com a mãe no bairro Taquari durante a grande enchente de 2015, M.J., que prefere não se identificar, encontrou na Cidade do Povo a oportunidade de recomeçar. Naquele ano, o Rio Acre atingiu a marca histórica de 18,40 metros, a maior registrada, segundo a Defesa Civil do Acre. A água cobriu completamente a residência da família, destruindo grande parte dos pertences.

Lixo e entulhos acumulados no bairro Taquari após a enchente de 2015 em Rio Branco. Foto: Aline Nascimento.

Sem reposição dos bens perdidos, a família foi incluída no cadastro de programas habitacionais do governo, assim como outros moradores das áreas atingidas pela cheia. No entanto, passados 11 anos da inauguração do bairro, M.J. afirma que parte dos residentes da Cidade do Povo convivem atualmente com outro tipo de preocupação: a segurança.

“Existem regras aqui dentro: se você não mexer com ninguém, ninguém mexe com você. Acaba que temos que aprender a lidar com isso no dia a dia, com essa insegurança”, afirma.

O que para muitas famílias que vivem em áreas consideradas de risco parecia representar um novo começo, com o passar dos anos passou a ser visto por parte da população como última alternativa. M.J. afirma que, apesar de morar no bairro e não ter planos de sair, a Cidade do Povo ainda enfrenta desafios relacionados também à infraestrutura e à localização.

“Apesar de ter saído do Taquari por conta da cheia, ainda assim tem vezes que chove muito aqui e também alaga. Sem contar a distância. Aqui é muito longe de tudo, principalmente se não tiver transporte”, relata.

Vista aérea do bairro Cidade do Povo, em Rio Branco. Imagem: Google Earth.

Dados do Ministério Público do Acre (MPAC), divulgados no último Anuário de Indicadores de Violência, mostram que a Cidade do Povo aparece entre os bairros com maior incidência de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) em Rio Branco entre os anos de 2021 e 2024.

Segundo o levantamento, em 2021 foram registrados cinco casos no bairro, o que corresponde a 8,6% do total de ocorrências. Em 2022, o número se manteve em cinco registros, representando 11,9%. Já em 2023 houve aumento significativo, com 13 casos, correspondendo a 21% das ocorrências. Em 2024, o número caiu para seis casos, equivalente a 12% do total.

Dados: MPAC. Gráfico: IA Google Gemini

Um caso recente de violência reforçou a preocupação de moradores com a segurança no bairro. Na noite da última quinta-feira, 12, dois trabalhadores da construção civil foram sequestrados e executados em uma área de mata próxima à rua Geraldo Leite, no bairro Cidade do Povo.

Remoção dos corpos das vítimas pelo Instituto Médico Legal (IML), após o crime registrado nesta quinta-feira, 12. Imagem: TV Gazeta

O crime repercutiu nas redes sociais e gerou comoção entre moradores e internautas. Em uma publicação sobre o caso no Instagram do portal de notícias ContilNet, diversos comentários expressaram indignação e preocupação com a situação de segurança na região. Entre as manifestações, internautas criticaram a falta de políticas públicas eficazes para enfrentar a criminalidade.

Comentários como “Esse povoado deveria ser extinto”, “E o governo construindo casa num lugar desse”, “Cidade do Povo foi criada para isolar a criminalidade, no entanto a segurança pública não deu conta” e “Daqui a pouco ninguém nem vai querer entrar nesse bairro” ilustram a percepção de parte da população diante da violência registrada na região. O episódio reforça o debate sobre os desafios enfrentados pela Cidade do Povo. 

Comentários de internautas na publicação da notícia nas redes sociais. Imagem: Instagram/ContilNet.

Um bairro que nasceu da esperança

Planejada inicialmente com o lema “um recomeço com dignidade”, o bairro Cidade do Povo foi criado em 2014 por meio do programa Pró-Moradia do Governo Federal brasileiro, que busca financiar projetos habitacionais voltados para famílias de baixa renda e garantir melhor qualidade de vida a moradores de áreas de risco, principalmente aqueles afetados pelas enchentes que atingem a capital acreana. Com mais de 4 mil casas, a Cidade do Povo abriga atualmente mais de 15 mil moradores.

Casas da Cidade do Povo, entregues em 2014. Foto: Secretaria de Habitação do Acre (Sehab)

Apesar disso, o cenário revela uma realidade mais complexa, o que tem influenciado também a adesão dessas famílias vulneráveis ao programa. Fazendo com que algumas pessoas prefiram permanecer em áreas consideradas de risco.

Kessya Patrícia, que vive no bairro Cadeia Velha há 21 anos, não pensa em deixar a região, apesar das cheias recorrentes. “O bairro é atingido pela enchente, e durante a cheia a gente precisa sair de casa. Nossa casa só foi invadida pela água uma vez, mas a rua alaga e fica impossível sair para trabalhar ou estudar”, explica.

Para ela, apesar de ter direito ao benefício, a permanência no bairro, além de ter relação direta com a família, que vive próxima a casa, é um local bem localizado e seguro. “Mesmo com os riscos, nosso bairro é bem assistido e tem seus prós e contras”, conclui.

Reassentamento habitacional

As pessoas atingidas pelas enchentes estão entre os principais públicos da política chamada de reassentamento habitacional. Segundo o coordenador de Gestão de Riscos e Desastres da Defesa Civil do Acre, Pedro Henrique Corrêa, retirar famílias de áreas vulneráveis é uma estratégia importante dentro das ações de adaptação às mudanças climáticas.

“Quando falamos de reassentamento habitacional como política de adaptação a enchentes como as do Rio Acre, uma das medidas é exatamente remover o risco, ou seja, retirar as pessoas de áreas vulneráveis. No entanto, essa medida sozinha não é suficiente como política de adaptação climática, porque existem muitas outras variáveis envolvidas”, afirma.

Ele também aponta que há relação entre o aumento desses episódios e as mudanças climáticas, que têm intensificado fenômenos naturais extremos. “As mudanças climáticas têm feito com que os fenômenos sejam cada vez maiores e mais prejudiciais. Desde 2019, todos os anos, Rio Branco tem registrado uma ou mais enchentes. Em 2025, por exemplo, tivemos três transbordamentos do rio”, explica.

Enchente do Rio Acre em 2026. Foto: Dayane Leite

Outro ponto destacado é que áreas consideradas seguras atualmente podem se tornar vulneráveis no futuro, dependendo das transformações ambientais ou urbanas. Segundo ele, há um plano governamental integrado para retirar populações dessas áreas mais vulneráveis.

“Existe um planejamento envolvendo governo federal, estadual e municipal por meio de projetos habitacionais. Nessas iniciativas, as populações que vivem em áreas vulneráveis costumam ter prioridade”, acrescenta.

Para o cientista social e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Euclides, este fenômeno envolvendo projetos habitacionais e criminalidade não é exclusivo do local, muito menos do Acre. “O aumento da criminalidade está ligado a transformações sociais, econômicas e tecnológicas que o estado não acompanhou. É um fenômeno complexo, que se reproduz por décadas, e envolve desde políticas equivocadas de segurança pública até o crescimento das organizações criminosas”, explica.

Segundo ele, a forma como bairros planejados como a Cidade do Povo foram ocupados, afastados de centros urbanos, com infraestrutura inicial custosa e serviços públicos pouco mantidos, contribui para criar “espaços de vulnerabilidade”, onde jovens e famílias muitas vezes encontram poucas oportunidades de educação, emprego e lazer. É nesse vazio que grupos organizados se instalam, controlando territórios e impondo medo.

Crianças em ação do governo, realizada na Cidade do Povo. Foto: Dharcules Pinheiro

“Não se trata apenas de criminalidade. É a sociedade que, por desigualdade e abandono, oferece terreno fértil para essas atividades. O crime organizado preenche lacunas que o estado deixou, do acesso à justiça à presença da polícia, passando por educação e assistência social”, acrescenta Euclides.

Para ele, políticas públicas que priorizem a manutenção de serviços, o engajamento comunitário e a integração urbana poderiam reduzir esses riscos. “Investir apenas em repressão é combater o efeito, não a causa. É preciso desenvolver projetos que envolvam a comunidade, escolas, saúde, segurança e o próprio espaço público. Um bairro planejado que não garante cidadania, acaba virando território de disputa”, resume.

A busca por segurança

Diante desse cenário, órgãos de segurança pública têm buscado ampliar estratégias de combate à atuação de organizações criminosas no estado. Uma das iniciativas recentes é a criação de um canal específico para recebimento de denúncias da população.

O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) lançou o canal Investigador Cidadão, voltado ao enfrentamento de organizações criminosas que atuam no estado. A ferramenta permite que moradores enviem informações anônimas que possam auxiliar investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ou por outros órgãos de segurança pública.

Canal Investigador Cidadão permite o envio de denúncias anônimas para auxiliar investigações contra o crime organizado no Acre. Imagem: MPAC

Por meio do canal, é possível encaminhar textos, vídeos e áudios, além de realizar denúncias de forma anônima pelo WhatsApp (68) 99993-2414. Segundo o site do MPAC, o objetivo da iniciativa é incentivar a participação da população no combate ao crime organizado e ampliar a rede de informações que auxiliam as investigações.

Entre os tipos de denúncias que podem ser feitas estão a identificação de membros de organizações criminosas, informações sobre lideranças e hierarquias dentro das facções, além da localização de foragidos da Justiça. 

O canal também recebe relatos sobre torturas aplicadas por integrantes de grupos criminosos, bem como denúncias de crimes como homicídios, tráfico de drogas, sequestros, roubos e extorsão de comerciantes.

Casas erguidas, esperança em construção

Entre enchentes que forçam partidas, políticas públicas que tentam oferecer novos caminhos e desafios que persistem no cotidiano, a história da Cidade do Povo revela uma realidade marcada por contradições: o bairro que nasceu como símbolo de recomeço também convive com dificuldades estruturais, distância e preocupações com a segurança. 

Ainda assim, para muitas famílias que perderam tudo nas águas do Rio Acre, o lugar representou a possibilidade concreta de reconstruir a vida pouco a pouco. M.J., que viu a antiga casa desaparecer sob a cheia de 2015, reafirma que permanecer ali é também um exercício de esperança. 

“A gente perdeu muita coisa naquela enchente, mas aqui pelo menos tivemos a chance de começar de novo. A esperança da gente é que, com o tempo, o bairro também melhore e vire de verdade o lugar seguro que prometeram pra gente”. 

Assim como o rio que um dia levou sua casa, a esperança também segue correndo em meio a insegurança da Cidade do Povo.

*A equipe do A Catraia entrou em contato com o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) para saber como o órgão avalia os índices de violência registrados na Cidade do Povo. No entanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

Redação

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Entrega voluntária de bebês para adoção garante sigilo, proteção e direitos às mulheres

Procedimento previsto em lei assegura acompanhamento psicossocial e não configura abandono

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Por Bruna Feitosa 

Entre o silêncio, o medo do julgamento social e a falta de informação, muitas mulheres ainda desconhecem que entregar um filho para adoção não é crime, abandono ou negligência. No Acre, a entrega voluntária é um direito garantido por lei, mas que segue cercado por estigmas, desinformação e barreiras de acesso aos serviços públicos.

Prevista na legislação brasileira, através do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a entrega voluntária pode ser manifestada durante a gestação ou após o parto, ainda na maternidade. A solicitação pode ser feita em unidades de saúde ou em órgãos como o Conselho Tutelar, a Defensoria Pública, o Ministério Público e diretamente na Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC). Na prática, porém, o caminho até esses espaços nem sempre é claro para mulheres em situação de vulnerabilidade social, emocional ou econômica.

A entrega voluntária é um direito garantido por lei (Estatuto da Criança e do Adolescente e Lei 13.509/2017). Imagem: Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

No Acre, apenas sete casos de entrega voluntária foram registrados, segundo dados do Juízo da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Rio Branco, vinculada ao TJAC. O número levanta questionamentos: trata-se de um índice baixo ou apenas um reflexo da falta de informação e de políticas públicas que garantam orientação adequada?

Para a juíza Isabelle Sacramento, integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC, o procedimento tem impacto direto na redução do tempo de acolhimento institucional. “Esse procedimento assegura maior celeridade e evita que a criança permaneça por longo período em acolhimento institucional enquanto tramita uma ação de destituição do poder familiar”, afirma.

Isabelle Sacramento, juíza e integrante da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJAC. Foto: Tribunal de Justiça do Acre

Como funciona o procedimento

Após a manifestação de interesse, a mulher é encaminhada obrigatoriamente à Justiça da Infância e da Juventude, onde passa a ser acompanhada por uma equipe técnica formada por profissionais da Psicologia e do Serviço Social. O atendimento deve ocorrer de forma sigilosa e sem constrangimentos, conforme determina o Marco Legal da Primeira Infância. 

Após a formalização do pedido, ocorre uma audiência em que a mulher confirma sua decisão perante o juiz. Mesmo depois dessa etapa, a legislação prevê um prazo de até dez dias para eventual desistência. Durante esse período, o recém-nascido permanece acolhido institucionalmente.

Confirmada a decisão, a criança é encaminhada a pretendentes previamente habilitados no Sistema Nacional de Adoção, respeitando a ordem do cadastro e os critérios legais. Todo o procedimento é conduzido sob sigilo, preservando a identidade da mãe e da criança.

A juíza aponta que o receio de julgamento moral ainda é um dos principais fatores que afastam mulheres desse direito, porém ressalta a importância da ação. “Mais do que um ato jurídico, a entrega voluntária representa uma escolha amparada pela lei que busca assegurar à criança à convivência familiar e à mulher o respeito à sua autonomia”, finaliza.

Redação

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As três maiores catástrofes hídricas de Rio Branco

Enchentes de 2015, 2023 e 2024 marcaram a capital acreana, afetaram milhares de pessoas e expuseram a vulnerabilidade da cidade diante da força do Rio Acre

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Por Ana Keli Flores e Raíça Sousa

Rio Branco convive historicamente com as cheias do Rio Acre, fenômeno que impacta diretamente a rotina, a economia e a segurança da população. Ao longo dos anos, o nível do rio ultrapassou marcas críticas diversas vezes, mas três enchentes se destacam pela gravidade e pelos danos causados: às de 2015, 2023 e 2024.

Enchente histórica que atingiu Rio Branco em 2015, provocando graves impactos econômicos e estruturais na cidade. Foto: Caio Fulgêncio

A maior enchente registrada ocorreu em março de 2015, quando o rio atingiu 18,40 metros. O transbordamento alagou o centro comercial, interrompeu vias e provocou a interdição do Terminal Urbano de Rio Branco, afetando diretamente o transporte coletivo da cidade. Mais de 100 mil pessoas foram atingidas, sobretudo nos bairros Aeroporto Velho, Taquari e 6 de Agosto. O Parque de Exposições Wildy Viana foi utilizado como abrigo emergencial para famílias que perderam suas casas.

Registro da grande alagação de 2015 em Rio Branco, considerada uma das maiores da história da capital acreana. Foto: Caio Fulgêncio

Em março de 2024, o nível do Rio Acre chegou a 17,89 metros, configurando a segunda maior cheia da história da capital. O episódio foi marcado pela rápida elevação das águas, o que dificultou a retirada de moradores e de seus pertences. A situação também atingiu municípios do interior do estado, como Brasiléia e Epitaciolândia, ampliando os impactos da enchente em todo o Acre.

A enchente de 2024 voltou a atingir Rio Branco, deixando bairros alagados e milhares de famílias impactadas pelo transbordamento dos rios. Foto: Marcos Vicentti

Já a cheia de 2023 alcançou 17,72 metros e teve como principal característica a combinação entre o transbordamento do rio e a elevação repentina dos igarapés urbanos. Chuvas intensas provocaram alagamentos em diferentes bairros antes mesmo do rio atingir a cota de transbordamento, surpreendendo moradores e órgãos responsáveis pela resposta emergencial.

Enchente de 2023 atingiu Rio Branco, causando alagamentos em diversos bairros e afetando centenas de famílias. Foto: Marcos Vicentti

A tabela abaixo ajuda a visualizar como essas três marcas superam drasticamente a cota de transbordo da cidade, que é de 14,00 metros.

PosiçãoAnoMarca atingida
201518,40 metros
202417,89 metros
202317,72 metros

Luís Carlos, mototaxista, de 47 anos, foi uma das vítimas das enchentes provocadas pelo transbordamento dos igarapés em março de 2023. Morador do bairro Santa Inês, em Rio Branco, foi afetado pela inundação do igarapé Judia, que transbordou após o aumento do volume de água de outros igarapés da região.

“Quando me dei conta, a água já estava dentro de casa, na altura da cintura. Perdi um guarda-roupa, um jogo de estofado, um armário de cozinha, além de outros bens que a gente não consegue mensurar”, relata.

Monitoramento e segurança por meio de medidas preventivas

“Houve avanços significativos, mas ainda há muito a evoluir”, destaca o Capitão Rogério Freitas de Oliveira, da Defesa Civil de Rio Branco. Em 2025 foi lançado o sistema Defesa Civil Alerta, que envia avisos antecipados diretamente aos celulares da população, permitindo a adoção de medidas preventivas.

Já o monitoramento do igarapé São Francisco é realizado por meio de régua medidora e da Plataforma de Coleta de Dados (PCD), que acompanha, em tempo real, o nível do rio e outros indicadores hidrológicos.

Um dos fatores que contribuem para o agravamento das enchentes é a urbanização do solo.

 “A pavimentação urbana dificulta a infiltração da água, favorecendo alagamentos, enquanto a retirada das matas ciliares contribui para a erosão e o assoreamento, intensificando os impactos das cheias”, explica.

Ele ressalta a necessidade de ações estruturantes, como obras de contenção, e não estruturantes, como a restrição de novas ocupações em áreas impróprias para moradia, incluindo a implantação de parques urbanos nessas regiões. Um exemplo de ação estruturante é a construção, em 2014, da Cidade do Povo, criada com o objetivo de garantir moradia digna às famílias que viviam em áreas de risco.

De acordo com o Capitão Oliveira, anteriormente a retirada temporária das famílias das áreas de risco ocorria quando o rio atingia 14 metros. Atualmente, essa medida é adotada quando o nível chega entre 15 e 15,5 metros. “Isso representa um avanço, pois garante mais tempo de preparação e resposta às famílias afetadas”, afirma.

Diante da recorrência das cheias, dos impactos sociais causados e das medidas adotadas pela Defesa Civil, a população segue em alerta.

Redação

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