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Produtividade Tóxica: os desafios para conciliar trabalho e estudo

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Foto: Reprodução

Por Gabriel Verçoza

Diante da crise econômica agravada pela pandemia da Covid-19, muitas pessoas se viram obrigadas a abandonar os estudos com o objetivo de se manter no emprego

Com a necessidade de estabelecer um equilíbrio entre trabalho e estudo, muitos jovens e adultos acabam sofrendo desgastes físicos e mentais que trazem consequências para a vida pessoal. A pandemia da Covid-19 acabou cortando a renda de milhares de famílias, levando jovens a procurar emprego para contribuir na renda familiar. Uma pesquisa realizada pelo portal G1, mostrou que 11% dos estudantes matriculados no ensino médio em todo o Brasil declaram não estar acompanhando as aulas remotas, seja por falta de conectividade ou por questões de trabalho. 

O jovem Rodney Marcos, auxiliar de escritório em uma rede de supermercados, salientou os motivos que o levaram ao abandono escolar: vontade de possuir bens materiais e independência financeira, juntamente com o cansaço psicológico afetado pela rotina de trabalho. “Tinha vontade de cada vez mais ter meu próprio salário e ser independente, pois minha família não tinha condições de manter”, conta.

Rodney Marcos atualmente é aluno do curso de Geografia na Universidade Federal do Acre – UFAC, onde ingressou pelo sistema de prova do Enem. Foto: Reprodução. 

Dados da Revista Educação mostram que 8,4%  foi o percentual de alunos que  abandonaram a escola no ano de 2020, no período de isolamento com o agravamento da pandemia da Covid-19. Segundo Rodney, existe uma falta de compreensão das empresas e instituições de ensino quanto à sobrecarga de trabalho.  

“Um dos principais desafios que o estudante enfrenta para conciliar trabalho e estudos é a falta de compreensão, tanto das empresas quanto instituições educacionais, a respeito da sobrecarga de demandas. Isso acaba causando uma falta de produtividade e dificuldade no aprendizado”, salientou. 

O estudante de bacharelado em psicologia Wermeson Paiva, de 30 anos, falou um pouco sobre os desafios enfrentados para conseguir conciliar as aulas da faculdade com o seu trabalho de atendende em uma distribuidora. Segundo ele, a falta de um ambiente adequado para estudar e o cansaço físico são alguns dos fatores que interferem na vida acadêmica e profissional. 

“Uma das maiores dificuldades encontradas, com certeza, é a falta de um ambiente adequado para estudar, levando em consideração fatores externos, como também  o sentimento de frustração, ansiedade e estresse constante. uitas vezes o sentimento de incapacidade se faz presente por não conseguir conciliar estudo/trabalho adequadamente”, declarou. 

Wermeson conta que mesmo diante das dificuldades, buscam se adequar as atividades passadas pela faculdade. Foto: Arquivo Pessoal

Por medo de não conseguir dar conta, o atendente conta que já teve que abrir mão de algumas disciplinas, pelo pouco tempo que tinha e a inflexibilidade dos docentes. 

“Já tranquei disciplinas pela inflexibilidade de docentes para compreender as limitações de conciliar trabalho/estudos. Muitas vezes me sentia indisposto para fazer todas atividades assíncronas e por medo de ver que o desempenho final, mesmo com todos os esforços, acabasse sendo ruim.”

Tendo em vista que o transtorno mental é um problema recorrente em estudantes, em uma pesquisa feita pela psicóloga Karen Graner, com a participação de discentes de cursos da área da saúde, 30% dos estudantes sofrem de algum tipo de transtorno mental. Dessa forma, a psicóloga Ramona Aguia, com formação pela Universidade Federal do Acre (UFAC), destacou os impactos que essas atividades podem ter na vida dessas pessoas, salientando o alto índice de problemas relacionados à exaustão extrema, como a síndrome de burnout

“Os impactos de uma rotina maçante de estudos e trabalho podem dizer muito a respeito da sociedade em que vivemos. Trabalhamos e estudamos numa lógica de poder tudo, de conseguir tudo e ser um “vitorioso” ou “bem sucedido”. Segundo Byung-Chul Han, em seu livro “A sociedade do Cansaço”, vivemos em uma lógica da angústia, de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito, de que se você não fizer, você não é um vencedor e a culpa é sua. Ainda, segundo o autor, vivemos numa situação de auto-exploração e que pode resultar numa paralisação do ser, ou seja, em um sofrimento psicológico”. 

A psicóloga destacou também os impactos que o isolamento pode ter na vida das pessoas mediante um momento tão atípico Foto: Arquivo Pessoal 

Redação

Corriqueiras

Quem faz turismo no Acre?

Guia revela diferenças entre visitantes de fora e acreanos que redescobrem o próprio estado

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Por Beatriz Ohrana e Rosely Cabral

Com um dos menores fluxos de visitantes do país em 2023, segundo dados mais recentes do Ministério do Turismo e da Embratur, o Acre enfrenta o desafio de fortalecer sua presença no cenário turístico nacional e internacional. Diante desse cenário, guias e demais profissionais do setor buscam alternativas para inovar, diversificar as ofertas e manter a atividade em funcionamento. Nesse contexto, compreender o perfil de quem escolhe visitar o estado se torna uma etapa estratégica para orientar ações de reposicionamento e impulsionar o turismo local.

Segundo o guia de turismo Tássio Fúria, o perfil predominante dos turistas atendidos está entre 25 e 45 anos, faixa etária que concentra a maior parte do público. Além da idade, outro ponto também chama atenção: diferente do que se imagina, muitos visitantes chegam sozinhos. “Eu atendo bastante gente solo. Depois vêm casais, famílias e grupos de amigos, nessa ordem”, conta.

Guia de Turismo Tássio Fúria Foto: arquivo pessoal

O destaque vai para mulheres que viajam sozinhas, em busca de experiências mais seguras e planejadas. “Com a presença de um guia, muitas mulheres conseguem visitar lugares que sozinhas não iriam”, relata.

Os turistas que chegam ao Acre, geralmente, passam por Belém ou Manaus e vêm com expectativas ligadas à Amazônia: floresta, aldeias indígenas, rios e animais estão entre os principais atrativos.

“O que mais atrai esses turistas, primeiro, são as aldeias. As pessoas querem muito ter contato com as etnias; quanto mais cultural parecer, melhor para elas”, explica o guia.

Além disso, a natureza e a fauna despertam curiosidade. “Se a pessoa entra na floresta e consegue ver uma cobra, uma preguiça ou um boto na água, isso é satisfatório para elas”, comenta.

Os pratos típicos também fazem parte do roteiro dos visitantes. Eles não saem daqui sem experimentar tacacá, baixaria, peixe e suco de cupuaçu.

Turistas no mercado quebrando castanha  Foto: Tássio Fúria

O guia conta ainda que muitos turistas se surpreendem ao conhecer a cidade. Muitos chegam a acreditar que tudo é apenas floresta e se deparam com uma realidade diferente do que imaginavam.

“Se impressionam com o centro organizado, as distâncias curtas, o fato de em 15 minutos do hotel estarem dentro de uma área de floresta, como também de haver espaços de visitação gratuitos com guiamento, são pontos que chamam a atenção deles”, relata.

O turismo visto de dentro

Quem mora no estado costuma enxergar o turismo de forma diferente. Para muitos acreanos, os atrativos locais fazem parte do cotidiano e, por isso, acabam passando despercebidos ou sendo subestimados.

“O acreano é também um turista na própria terra. Ele desconhece as potencialidades do lugar onde vive e, muitas vezes, subestima o que tem aqui”, afirma Fúria.

Nesse contexto, o desafio é apresentar os mesmos destinos sob outra perspectiva. Assim, o acreano tende a buscar trilhas, atividades de aventura, roteiros alternativos, eventos culturais e experiências de lazer que ofereçam novidades dentro do que já é conhecido. Para estimular esse interesse, o guia afirma que cria propostas específicas voltadas ao público regional, explorando novas formas de vivenciar o estado.

“Entre os períodos de chegada de visitantes, eu fico inventando coisas para proporcionar lazer, entretenimento e conscientização para o público local”, relata.

Trilha na Área de Proteção Ambiental Lago do Amapá  Foto: arquivo pessoal

Dessa forma, o turismo, para quem mora no Acre, deixa de ser apenas visita a pontos turísticos tradicionais e passa a ser uma forma de redescoberta do próprio território, revelando que o estado guarda experiências que nem sempre são percebidas por quem convive com elas todos os dias.

Em meio aos dados e números apresentados, permanece a pergunta: a escassez de turistas no Acre é resultado da falta de investimentos consistentes, de sua localização geográfica e das dificuldades de acesso, ou de um conjunto mais amplo de fatores que ainda precisam ser enfrentados?

A equipe do jornal A Catraia entrou em contato com a Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo do Acre (Sete) para comentar os dados e esclarecer as estratégias adotadas pelo governo para ampliar o fluxo de visitantes no estado. Até o fechamento desta edição, no entanto, não houve retorno.

Redação

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Do Oriente Médio ao Acre: como o quibe foi adaptado à culinária local

Adaptado com ingredientes amazônicos, especialmente a macaxeira, o salgado de origem árabe atravessou culturas, ganhou identidade regional

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Por Ana Keli Flores e Raiça Sousa

Presente em padarias, feiras livres, lanchonetes, festas e até nas bicicletas de vendedores ambulantes que circulam com caixas térmicas pelas ruas de Rio Branco, o quibe se tornou parte do cotidiano alimentar no Acre. A versão mais emblemática dessa popularização é o quibe de macaxeira, adaptação regional que substitui o trigo pela raiz amazônica e consolidou o salgado como símbolo da identidade culinária local. 

Originalmente preparado na região do Levante, área que abrange países como Líbano e Síria, o quibe é feito com carne de cordeiro, trigo para quibe (bulgur), hortelã e especiarias, podendo ser assado ou frito. 

A receita chegou ao Brasil com imigrantes sírios e libaneses entre o fim do século XIX e o início do século XX e, ao longo do tempo, passou por adaptações conforme os ingredientes disponíveis e os hábitos alimentares locais.

No Acre, a transformação foi além da simples substituição de itens. Surgiram versões que dialogam diretamente com a cultura alimentar amazônica, como o quibe de arroz e, principalmente, o de macaxeira também conhecida como mandioca ou aipim. Ao trocar o trigo pela raiz ralada ou amassada, o salgado ganhou textura mais macia por dentro, crocante por fora e sabor mais suave, criando uma identidade profundamente regional.

Quibe de arroz, alternativa criativa e econômica, que reaproveita ingredientes do dia a dia sem perder sabor. Foto: arquivo pessoal

Segundo o historiador Francisco Bento da Silva, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), a culinária é uma das expressões mais visíveis da mistura cultural. “A comida muda tanto quanto as pessoas que migram”, afirma. 

Para ele, a presença da macaxeira na receita representa a incorporação de saberes indígenas e amazônicos a um prato de origem árabe. “Não é apenas uma troca de ingrediente; é um encontro de histórias.”

Além da base diferente, o quibe acreano apresenta temperos próprios, formatos variados e recheios adaptados ao gosto local, carne bem temperada, cheiro-verde e pimenta regional.

Em Rio Branco, o salgado é facilmente encontrado em padarias de bairro, mercados, lanchonetes e feiras populares. O preço varia conforme o tamanho e o ponto de venda, mas, em média, custa entre R$5 e R$10 a unidade. 

Em festas e encomendas, também aparece em versões menores, servidas como salgado de evento. Vendedores ambulantes ajudam a manter viva a tradição, levando o produto para diferentes bairros e reforçando sua presença na rotina urbana.

Nutrição e sabor

Do ponto de vista nutricional, a composição varia conforme a receita e o modo de preparo. De acordo com a nutricionista Flávia Dias, o quibe feito com trigo combina carboidrato complexo e proteína, oferecendo fibras, vitaminas do complexo B, ferro e zinco. Já a versão com macaxeira é fonte de energia e naturalmente sem glúten, podendo ser alternativa para pessoas com restrição ao trigo. 

Quibe de trigo, versão tradicional, preparada com trigo para quibe e temperos clássicos da gastronomia árabe. Foto: reprodução

As versões fritas concentram mais gordura e calorias, enquanto o quibe assado tende a ser mais equilibrado. A recomendação é priorizar carnes magras, incluir vegetais na massa e utilizar ervas frescas para agregar valor nutricional.

Quibe cru, preparação típica da culinária árabe, servida crua, com carne fresca, trigo hidratado e especiarias. Foto: reprodução

O quibe no Acre hoje supera a tradição original para abraçar a diversidade local. Com versões que utilizam trigo, arroz ou macaxeira, o salgado demonstra a capacidade de adaptação da gastronomia do estado. 

O prato deixou de ser apenas uma herança do Oriente Médio para se tornar um símbolo da identidade acreana, unindo o saber dos imigrantes aos ingredientes da floresta. Consolidado no cotidiano de Rio Branco, o quibe com sotaque amazônico segue em constante evolução, sem apagar as memórias que o trouxeram até aqui.

Redação

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Corriqueiras

Trilhas em alta no Acre reforçam a importância da ética, da segurança e do cuidado coletivo

Prática cresce no Acre e especialistas alertam que a maioria dos riscos em trilhas está ligada à falta de preparo e ao abandono de integrantes

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Por Ana Keli Flores e Raíça Sousa

A prática de trilhas tem ganhado cada vez mais espaço no Acre, impulsionada pelo interesse em atividades ao ar livre e pelo contato direto com a floresta amazônica. Em meio a esse crescimento, a ética da aventura baseada em segurança, preparo e responsabilidade coletiva torna-se fundamental para evitar riscos e garantir experiências positivas na natureza.

Trilhas são caminhos utilizados para caminhadas em ambientes naturais e têm origem muito antes do lazer. Povos indígenas, seringueiros e comunidades tradicionais já utilizavam esses percursos como rotas de deslocamento e sobrevivência. Com o passar do tempo, especialmente a partir do século XX, a prática passou a ser associada ao ecoturismo e às atividades de aventura, sendo conhecida em outros países como hiking, caminhadas curtas feitas no mesmo dia, e trekking, percursos mais longos que envolvem pernoite.

No Brasil, as trilhas ganharam maior visibilidade a partir da criação de parques e unidades de conservação ambiental. No Acre, muitas rotas acompanham antigos caminhos da floresta e ainda apresentam grande potencial para o ecoturismo, como ocorre no Horto Florestal, em Rio Branco, onde trilhas são utilizadas tanto para lazer quanto para educação ambiental.

Segundo o guia de trilhas Tassio Fúria, o envolvimento com atividades ao ar livre começou ainda no ciclismo e foi se aprofundando ao longo dos anos. “Especificamente com trilhas, dá para dizer que comecei em 2018”, afirma. Para atuar profissionalmente, ele explica que é necessário realizar um curso técnico e estar registrado no Cadastro do Ministério do Turismo, o que permite atuar legalmente em segmentos como o ecoturismo.

Guia de trilhas Tássio Fúria. Foto: Raíça Sousa

A segurança coletiva é um dos pontos centrais destacados pelo guia. De acordo com Tassio, abandonar um integrante durante a trilha é uma falha grave na condução da atividade. Ele explica que cabe ao guia organizar o grupo de acordo com a proposta do percurso, controlar o ritmo e garantir que todos permaneçam juntos do início ao fim.

O tema do abandono em trilhas chama atenção para os riscos da prática sem planejamento adequado. Em situações relatadas por praticantes, pessoas já foram deixadas para trás por não conseguirem acompanhar o ritmo do grupo, o que aumenta significativamente o risco de acidentes, desorientação e exposição a animais silvestres, especialmente em áreas de floresta fechada.

A diretora-geral da TV5, Simone Oliveira, de 39 anos, pratica trilhas há cerca de três anos e relata que a experiência começou a partir de um convite para participar de uma competição. “Foi amor à primeira ida”, conta. Formada em Educação Física, ela passou a levar alunos de um projeto solidário para as trilhas como forma de incentivo à atividade física.

Simone Oliveira, trilheira. Foto: cedida

Entre as experiências mais marcantes, Simone destaca uma trilha em que acompanhou uma aluna que pesava 115 quilos. “Ela conseguiu concluir o percurso. Todos nós choramos na linha de chegada”, relembra. Para ela, a trilha é uma atividade que deve ser feita em grupo, como forma de incentivo e superação do sedentarismo.

A ética na aventura, segundo Simone, está diretamente ligada ao cuidado com o outro. “É não deixar o grupo para trás, ajudar nos obstáculos e cruzar a linha de chegada todos juntos”, afirma. Ela reforça que cada participante tem seu próprio ritmo e limitação, e que o apoio coletivo faz toda a diferença para a conclusão do percurso.

O preparo antes da trilha também é citado como essencial. Simone destaca o uso de blusa de manga, calça, calçado adequado e alimentação leve antes do início da atividade. Para quem está começando, o conselho é simples: “Vá com calma, tenha cautela e esteja sempre ao lado de alguém de confiança que já tenha experiência”.

Outro fator que interfere diretamente na segurança é o clima amazônico. Durante o período chuvoso, áreas alagadiças fazem com que animais busquem locais mais secos, aumentando a possibilidade de encontros com cobras, insetos e outros animais silvestres. Nessas condições, as atividades ao ar livre ficam mais limitadas e exigem ainda mais atenção.

A experiência de trilha no Horto Florestal, em Rio Branco, reforça o caráter educativo da atividade. Considerada de nível fácil, a trilha pode ser feita em poucos minutos, mas costuma se estender por mais tempo devido às paradas para orientações e explicações. Durante o percurso, o guia recomenda o uso de roupas coloridas para facilitar a visualização do grupo e alerta sobre cuidados básicos de segurança.

Guia de trilhas Tássio Fúria. Foto: Raíça Sousa

Além da segurança, a trilha se transforma em um espaço de aprendizado ambiental. Ao longo do trajeto, os participantes conhecem rios, aprendem sobre a extração da borracha das seringueiras e observam a fauna local, fortalecendo a relação de respeito com a floresta.

Mais do que uma atividade física, as trilhas no Acre mostram-se uma experiência de convivência e conscientização ambiental. Nesse contexto, a ética da aventura se consolida como um princípio essencial para que a prática aconteça de forma segura, responsável e sustentável.

Redação

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