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O rio que vira arte

Obras de Silvio Margarido e Danilo de S’Acre exploram memória, paisagem e transformações ambientais no Rio Acre

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A obra faz referência ao mito de Ofélia, de Hamlet, de William Shakespeare, e retrata a seca do rio e os impactos da ação humana. Foto/arte: Danilo De S’Acre

Por Julie Siqueira

O Rio Acre, além de construir a paisagem central de Rio Branco, também se tornou a origem da criatividade para diversos artistas locais e suas obras. Em diferentes linguagens e estilos, o rio aparece nas obras como símbolo de memória, identidade e das transformações ambientais que marcam a região.

Presente no cotidiano da população, o Rio Acre atravessa a cidade e a história de quem vive às suas margens. Essa relação próxima faz com que ele ultrapasse o papel de elemento natural e passe a ocupar também o imaginário cultural acreano.

Ao longo dos anos, artistas locais têm encontrado no Rio Acre, inspiração para suas obras. São produções que, em diferentes formatos, reinterpretam esse espaço que faz parte da vida urbana e da experiência amazônica. Nelas, o rio pode aparecer como personagem ou como cenário simbólico de relações sociais, memórias ou denúncias de transformações ambientais.

Na produção cinematográfica, um dos trabalhos que se dedicou a observar a relação entre a população e o rio foi o documentário “O Mergulho” escrito e dirigido pelo cineasta Silvio Margarido em 2006. A obra foi desenvolvida dentro do projeto DOCTV, que incentivava a produção documental em diferentes regiões do país.

Cartaz do documentário “O Mergulho”, escrito e dirigido pelo cineasta Silvio Margarido. Imagem: reprodução

A proposta inicial era utilizar o Rio Acre como uma metáfora para compreender a vida na cidade de Rio Branco. No entanto, durante o processo de elaboração do documentário, o diretor percebeu que o próprio rio possuía protagonismo suficiente para conduzir a narrativa. 

“Em vez de apenas ilustrar o cotidiano urbano, o rio passou a ser o personagem central da obra, apresentado a partir das histórias de quem vive diretamente em contato com ele”, explica o diretor.

Para construir essa narrativa, Margarido percorreu diferentes pontos da cidade e das áreas ribeirinhas, entrevistando pescadores, catraieiros, produtores rurais e moradores das margens do rio. A diversidade desses depoimentos ajudou a revelar a variedade e a complexidade das relações que a população estabelece com o manancial.

Silvio Margarido durante as filmagens da produção do documentário “O Mergulho”. Foto: Arquivo pessoal / Silvio Margarido

Ao reunir esses relatos, o documentário revela que o Rio Acre faz parte de um sistema complexo de dependência econômica, social e simbólica. Ao mesmo tempo, as entrevistas também evidenciam um sentimento recorrente entre os moradores mais antigos: a percepção de que o rio não é mais o mesmo.

“Ficou claro que todos eles estavam vendo o processo de degradação que o rio estava passando […] alguns com uma desesperança, e outros exigindo alguma atitude em relação ao rio, porque estava claro para eles que o rio estava morrendo”, disse o cineasta.

Segundo Margarido, muitos entrevistados comparavam o estado atual do rio com a forma como ele se apresentava décadas atrás. A memória coletiva registrada no filme aponta para um período em que as águas eram consideradas mais limpas, a pesca era mais abundante e a paisagem mantinha características diferentes das observadas hoje.

“O pescador não tem mais peixe, pessoas que utilizavam do rio para transporte estão encontrando mais dificuldades, então várias dessas questões foram colocadas no documentário, e como isso está afetando a vida delas”, acrescentou o produtor.

Ao registrar essas percepções, o documentário constrói uma narrativa que mistura memória, observação social e reflexão ambiental. A obra não assume diretamente o formato de denúncia, mas evidencia as mudanças que afetam o rio e, consequentemente, a vida das pessoas que dependem dele.

Ao organizar imagens, relatos e memórias, o documentário revela que o Rio Acre não é apenas um elemento da geografia regional, mas uma presença constante na vida urbana e social da cidade.

Correntezas de sobreposições e de texturas visuais

O artista plástico Danilo De S’Acre, vem construindo ao longo de sua carreira uma produção marcada pela influência da paisagem amazônica. Nascido na década de 1950 em uma colônia localizada na região da Custódio Freire, ele cresceu em um contexto em que a presença da floresta era ainda mais intensa no cotidiano das comunidades locais.

Essa experiência de infância moldou a sua percepção visual e sua relação com a natureza. Elementos da paisagem amazônica, como os rios, praias fluviais, embarcações e deslocamentos de pessoas entre colônias e cidades aparecem com frequência em suas obras. Embora trabalhe principalmente com pintura e desenho, Danilo também utiliza a fotografia como ferramenta de registro e ponto de partida para suas criações. Muitas das imagens que utiliza são capturadas com o próprio celular e posteriormente transformadas por meio de elementos visuais.

Fotografia com sobreposição visual para reinterpretar a paisagem e o cotidiano de ribeirinhos na época de seca. Foto/arte: Danilo De S’Acre

Um dos procedimentos que ele mais utiliza é a sobreposição de imagens. A partir da fotografia original, o artista acrescenta novas camadas visuais, misturando elementos gráficos, desenhos ou texturas que alteram a interpretação inicial da imagem. Esse processo cria composições que transitam entre o registro documental e a experimentação artística.

“Às vezes eu tiro a foto e deixo como está. Mas gosto de brincar com a imagem e sair um pouco da normalidade”, explica.

Dentro dessa produção, o Rio Acre aparece como objeto de observação. Para o artista, o manancial oferece uma paisagem em constante transformação. O ciclo anual de enchentes e vazantes modifica o desenho das margens, revela bancos de areia e altera a geografia visível da cidade.

“Cada vez que o rio enche e depois seca, ele apresenta uma geografia diferente. Isso me chama muita atenção visualmente”, afirma o artista

Essa dinâmica faz com que o mesmo espaço nunca seja exatamente igual em diferentes períodos do ano. Cada cheia ou período de seca reorganiza visualmente o território, criando novas formas, caminhos e paisagens. Além das mudanças naturais, o artista também observa o movimento humano ao redor do rio. Barcos e canoas que atravessam as águas, moradores que chegam à cidade vindos das colônias e trabalhadores que transportam produtos agrícolas fazem parte da rotina visual que inspira suas composições.

Fotografia tirada de cima da Passarela Joaquim Macedo, mostra o  poder da mulher na proa dianteira do barco. Foto/arte: Danilo De S’Acre

As cenas do cotidiano ribeirinho aparecem nas obras como registros poéticos da relação entre pessoas e natureza. Em muitas imagens, o rio surge não apenas como cenário, mas como elemento que organiza a circulação, o trabalho e a convivência social.

No entanto, assim como no documentário de Margarido, o olhar artístico também revela preocupações com as transformações ambientais do rio. A redução do nível das águas durante períodos de seca extrema e os sinais de degradação ambiental acabam se tornando parte do próprio processo criativo. Nesses momentos, a arte deixa de ser apenas contemplação estética e passa a funcionar também como registro crítico da realidade.

Embora o Rio Acre faça parte da memória e da identidade de Rio Branco, o estado de degradação em que se encontra hoje revela uma contradição: o manancial que sustenta a cidade não tem recebido o cuidado necessário, nem da população nem do poder público. Quem percebe primeiro esses sinais são justamente aqueles que vivem mais próximos de suas margens. São pescadores, ribeirinhos e trabalhadores que dependem diretamente do rio e que, por isso, identificam com mais clareza as mudanças e perdas que vêm se acumulando ao longo do tempo.

Redação

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